Open-access Pesquisa Narrativa: uma experiência com os conversatórios

RESUMO

Este trabalho resulta da experiência de estágio de formação docente junto ao Grupo de Pesquisa Profesorado, Comunicación y Investigación Educativa – Procie da Universidad de Málaga (jan-mar/2021), durante a pandemia de COVID-19. O objetivo foi categorizar, a partir de narrativas dos pesquisadores, fundamentos e perspectivas da pesquisa narrativa. Como metodologia foi construído o que denominamos de Conversatórios Procie, com três encontros de 1h40min, onde os participantes discutiram livremente suas concepções a partir de roteiros. Resultou em três categorias: individualismo neoliberal e superação por relações interpessoais, ser investigador no campo narrativo e ética em pesquisas narrativas. Os Conversatórios demonstraram-se valiosos para discutir a práxis e fundamentos da pesquisa narrativa.

Palavras-chave
Pesquisa Narrativa; Pesquisa Educacional; Ética na Pesquisa Educacional

ABSTRACT

This paper stems from the experience of a teacher training internship with the Research Group Teaching Staff, Communication, and Educational Research - Procie at the University of Málaga (Jan-Mar/2021) during the COVID-19 pandemic. The objective was to categorize, based on the researchers' narratives, the foundations and perspectives of narrative research. The methodology involved what we called Procie Conversations, consisting of three 1h40min meetings where participants freely discussed their conceptions based on pre-established guidelines. Three categories emerged: neoliberal individualism and its overcoming through interpersonal relationships, being a researcher in the narrative field, and ethics in narrative research. The Conversations proved valuable for discussing the praxis and foundations of narrative research.

Keywords
Narrative Research; Educational Research; Ethics in Educational Research

Introdução

Este artigo reflete e analisa uma experiência de estágio de formação docente junto ao Grupo de Pesquisa Profesorado, Comunicación e Investigación Educativa – Procie, da Universidad de Málaga, no período de janeiro a março de 2021, em pleno período da Pandemia de COVID-191. O objetivo é categorizar, a partir de narrativas de pesquisadores deste grupo de pesquisa, os fundamentos da pesquisa narrativa. Embora o estágio de pesquisa tenha sido realizado presencialmente na Facultad de Ciencias de la Educación da Universidad de Málaga, os encontros com os professores só foram possíveis no final do estágio. Assim, foi construída uma estratégia de melhor aproveitamento do tempo para a pesquisa, montando o que denominamos de Conversatórios Procie. Além deste trabalho, este estágio de pesquisa também já produziu uma obra coletiva (Melo; Rivas Flores, 2022).

Foram três encontros com aproximadamente uma hora e quarenta minutos em média cada um, e todos versando sobre o mesmo tema da pesquisa narrativa, sob diversos aspectos. Os encontros foram realizados por meio da plataforma Google Meet e gravados com a autorização dos professores do grupo de pesquisa. Cada encontro foi realizado seguindo um determinado roteiro produzido pelo professor mediador, socializado com antecedência e reforçado no início de cada encontro. Todos tinham a palavra livre para desenvolverem seus raciocínios, sem nenhum tipo de interferência do mediador.

Ao todo foram dez participantes em cada encontro, os quais trataremos com os seguintes nomes, como forma de preservar a identidade dos e das participantes: Analia; José; Piedad; Esther; Daniela; María Jesús; Pablo T.; Pablo C.; María e Virginia. Todos e todas membros do Procie e docentes da Universidad de Málaga.

As questões levantadas em cada encontro foram expandidas nas conversas que se desdobraram em assuntos pontualmente relevantes. Sendo assim, estabelecemos uma categoria por encontro, as quais demonstraram ser nucleares das discussões realizadas. Dessa forma, as categorias foram elencadas após detida análise do material gravado, sintetizando com estas categorias as ideias mais relevantes surgidas dos diálogos.

O acúmulo de discussões e debates em torno do tema constitui um material muito rico de possibilidades analíticas sobre a pesquisa narrativa, entendida tanto como uma metodologia de pesquisa quanto um meio de desenvolver atividades docentes em nível superior, que é o que os professores do Procie fazem há vários anos, e que relatam em várias produções.

Este texto visa relatar esta experiência como forma de sistematizá-la, e, com isso, produzir uma reflexão que é o resultado da contribuição de todos os professores envolvidos nos Conversatórios Procie. Desta forma, a seguir tecemos reflexões a partir dos conteúdos dos Conversatórios, seguindo as categorias de individualismo neoliberal e a superação pelas relações com outros e outras, ser investigador e investigadora no campo das narrativas e a ética em pesquisas narrativas.

Para fins de esclarecimento, reproduzimos no artigo apenas as traduções que fizemos das conversas, renunciando a colocar em nota de rodapé ou outra forma qualquer, as transcrições das falas na língua materna dos pesquisadores do Grupo de Pesquisa.

Categorias da Pesquisa Narrativa na Experiência dos Conversatórios

Os Conversatórios Procie, realizados em três encontros via Google Meet, entre janeiro e março de 2021, tiveram seus roteiros antecipadamente socializados e expostos no início de cada encontro. O roteiro do primeiro encontro teve as seguintes questões que impulsionaram o diálogo: Como você vê os contextos de vulnerabilidade em Málaga, onde você realiza suas pesquisas, e como você foi afetado pela pandemia e pelas políticas neoliberais? Em uma segunda fase, foi desenvolvido o seguinte tema: Como o diálogo é conduzido com pessoas em situação de vulnerabilidade no PROCIE? Por fim, o questionamento foi sobre Como a pesquisa narrativa impactou suas vidas em nível pessoal, com base em suas experiências?

No segundo encontro a conversa iniciou com uma reflexão levanda em uma produção dos docentes do Procie: como os sujeitos marginalizados, visitantes e participantes das pesquisas podem falar, oferecerem suas próprias vozes, sem o filtro dos pesquisadores? O que os sujeitos representam para os pesquisadores? Outra questão para reflexão foi sobre a coautoria, afinal, a pesquisa narrativa como princípio supera a relação sujeito e objeto. Daí a questão suscitada: são os e as sujeitos da pesquisa coautores? Como podemos designar as identidades pessoais dos sujeitos no campo da pesquisa acadêmica? E para concluir a discussão: quais os resultados desse diálogo na prática pedagógica e política na universidade? Como essa essa diversidade epistemológica, se relaciona com a produção de saberes e práticas universitárias?

O terceiro e último encontro se deu em relação à ética nas pesquisas denominadas como pesquisas qualitativas. A partir daí as questões foram as seguintes: como designamos os sujeitos no campo da pesquisa acadêmica? Quais os resultados desse diálogo na prática pedagógica e política na universidade? Como essa diversidade epistemológica, afeta a produção de conhecimento e práticas universitárias?

Diante de cada roteiro, em cada encontro, as conversas se estendaram e evidenciaram questões relevantes de serem analisadas pontualmente. Importante salientar a esta altura que os encontros foram realizados de forma virtual, via Google Meet, e a participação foi estritamente voluntária. Os Conversatórios foram possíveis neste formato devido à longa relação estabelecida entre todos e todas presentes, o que deu a este ambiente a liberdade e abertura necessárias para o desenvolvimento das ideias, inclusive quando estas encontravam dissidências entre as pessoas envolvidas.

Sendo assim, após reflexões realizadas ao término dos Conversatórios Procie, destacamos três categorias pertinentes para aprofundamento das questões apontadas nas falas dos sujeitos, de modo a compreender os fundamentos da pesquisa narrativa, presentes nas próprias narrativas dos pesquisadores da área. As três categorias são: 1) individualismo neoliberal e a superação pelas relações com outros e outras; 2) ser investigador e investigadora no campo das narrativas; e 3) a ética em pesquisas narrativas. Cada categoria representa o tema fundamental em cada Conversatório, numerado na mesma sequência dos encontros. Os assuntos expostos no início de cada encontro renderam reflexões relevantes sobre cada categoria e, por meio delas, iremos explorar o conteúdo das principais contribuições dos e das participantes.

Salientamos que os e as pesquisadores e pesquisadoras participantes serão citados por um nome masculino ou feminino, já elencados anteriormente, como forma de preservar a identidade, bem como a ética estabelecida para a divulgação do conteúdo levantado, sem, com isso, perder o horizonte da subjetividade e da coautoria que representa tais contribuições, desprendendo-se, com isso, da ideia positivista de que os participantes de pesquisas são meras fontes de dados. Ao contrário, são todos e todas autores e autoras, ainda que a responsabilidade destas reflexões seja daqueles que assinam o texto.

O Individualismo Neoliberal e a Superação pelas Relações com Outros e Outras

Ao iniciar o primeiro encontro dos Conversatórios Procie, o objetivo exposto foi o de conhecer mais os fundamentos da pesquisa narrativa. Assim, a questão central foi de como os contextos de vulnerabilidade tem sido mais atacados pelas políticas neoliberais. Este tema, aparentemente distante do que se conhece por pesquisa narrativa, tem o sentido de que o Grupo de Pesquisa Procie compreende a pesquisa narrativa como forma de resistência e transformação da escola e da sociedade.

Com isso, as contribuições giraram em torno do fato de que a pandemia causada pela Covid-19 evidenciou e agravou os problemas sociais, tornando o individualismo ainda mais presente nas ações humanas. Foi, como afirmou José em sua fala, um verdadeiro encontro entre o pensamento conservador e o pensamento autoritário, mediados pelo neoliberalismo, que passa a avançar sobre todos os espaços da vida. A pandemia abriu brechas, continua o mesmo pesquisador, para políticas neoliberais e neoconservadoras, obliterando com isso as possibilidades de que, em uma situação pandêmica, sobressaísse a solidariedade. Além disso, a Covid-19 significou uma ampliação das formas de desigualdade social, e isso também foi constatado unanimemente pelos pesquisadores.

Vale destacar que a lógica neoliberal se alastra por todos os âmbitos da sociedade, sendo persuasiva e manipuladora, trabalhando em favor do crescimento do capitalismo individualista, assim como esclarece Dardot e Laval (2016, p. 17): “[...] um conjunto de discursos, práticas e dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio universal da concorrência”.

Vemos as notícias todos os dias, pessoas que têm dificuldades para comer, pessoas que têm dificuldades para resolver questões básicas, como comer, mas por outro lado assistimos no noticiário o contrato milionário do Messi, por exemplo. Então, o que está acontecendo traz à tona o melhor e o pior. Vejo gente que se organiza. Vejo negócios novos. Porque desde a pandemia eles começaram a pensar que estão sobrevivendo, mas por outro lado, há um individualismo horrível, e cada um se preocupa consigo mesmo [...] uma indiferença tão grande, tão extrema

(depoimento de Analía).

Virginia, outra pesquisadora participante dos Conversatórios, acentua o fato de que houve, nas próprias escolas, um refluxo das iniciativas comunitárias que vinham sendo desenvolvidas antes da pandemia. Acentuam-se, nestes contextos, as necessidades individuais dos agentes da comunidade escolar. E chama a atenção ainda dos desafios de aproximação entre professores e a escola em geral das condições concretas dos estudantes, o que a pandemia provou ser fundamental.

O individualismo como forma ideológica e efeito do funcionamento da sociedade capitalista, faz com que a sociedade adote como critério a competitividade e a meritocracia, culpabilizando os vulnerabilizados e desresponsabilizando o Estado. Tal é a força do efeito de isolamento (Poulantzas, 2019; Melo, Pelissari, 2023), que as próprias pessoas aceitam a desigualdade e o pauperismo como condições naturais da vida social.

A meritocracia figura, desde o final do século XIX, como a única via ao mesmo tempo justa e eficaz de repartir os lugares (desiguais) nas sociedades democráticas (Duru-Bellat, 2006: 1). Ela tornou-se uma dimensão essencial de seleção das elites e de justificação da sua posição. Esse modelo responde às novas exigências práticas e éticas das sociedades modernas, apresentando-se simultaneamente como um mecanismo de renovação, situado no alto da pirâmide social, e como um princípio de legitimação incontestável, fundado na recompensa do esforço pessoal e não nos privilégios sociais herdados

(Valle; Ruschel, 2018, p. 181).

A forma de manter os privilegiados no poder é se apropriar da justificativa de que só ocupam as posições mais vantajosas, aqueles que buscaram essa realidade, seja por meio dos estudos, por títulos ou ainda por empreendimento. Saes (2005) denomina esta como a característica própria da ideologia da classe média. Nessa tendência, se exclui a necessidade de equidade como obrigação política, tornando a educação cada vez mais direcionada para a simples instrução, dominada pela tecnocracia.

Falar em evidência científica nada mais é do que uma forma de legitimar um tipo de política. Existem evidências científicas para todos os gostos, o que é muito bom, e o fato de que agora todos no mundo sabem e todos no mundo são especialistas, bem, é uma forma de eliminar tudo isso. Tudo isto no final, as regras são ditadas pelo Comitê de Especialistas e a democracia está indo pelo ralo e isso me parece bastante grave, e na educação está muito claro como isso mostrou que temos um sistema educacional de instrução, orientado para a instrução pura e simples

(Depoimento de José).

A democracia se enfraquece com o avanço da tecnocracia, que é uma forma de manter translúcido ou mesmo nebuloso o conhecimento e as técnicas, que não foram alvo de escrutínio público como as eleições. Os tecnocratas agem ao arrepio da legitimidade clássica do sistema representativo. No sistema educacional, o avanço da tecnocracia tem transformado os sistemas educativos, para a classe trabalhadora, em verdadeiro processo em massa de instrução mínima necessária para o trabalho e a vida social, tudo em nome da eficiência e eficácia do sistema, e em nome dos rankings das avaliações de larga escala (Dardot; Laval, 2016; Freitas, 2018).

Perante este cenário, e contra as formas de individualismo, outra questão foi levantada: como a prática de investigação narrativa se incorpora e pode transformar as pessoas. Ou seja, partíamos da premissa de que os fundamentos políticos da pesquisa narrativa não são absorvidos apenas pelo desejo de compreender a realidade, senão de transformá-la também. Neste sentido:

Me dei conta que aprendi a escutar, porque tratei a narrativa como uma análise, digamos, de consciência talvez, porque justamente esta tendência acadêmica de ter que ter sempre a palavra, ter que estar sempre dando aula, dizendo o que há que se fazer, propondo conceito, propondo ideias ou, como dizia Pablo, por que não escutamos os discentes? [...] Então, temos esta diferença aí, não aprender a escutar, mas escutar no sentido potente, não escutar para tirar uma informação, para julgar, mas escutar profundamente, e isso me provoca borboletas no estômago

(Depoimento de Analía).

A pesquisa narrativa começa por descentrar as pessoas de seu individualismo, e, no caso dos pesquisadores, de sua pretensa posição objetiva e neutra, de observador da realidade e dos sujeitos a conhecer que ocupa um lugar a partir do qual podem julgar todos e todas, hierarquizando, legitimando ou deslegitimando saberes, discursos e conhecimentos. Do que se trata a pesquisa narrativa é um princípio que se coloca contrário à estratégia neoliberal do individualismo e isolamento. Trata-se de construir solidariedades nos processos formativos, afinal, tanto quem pesquisa quanto os contextos de pesquisa são impactados quando a forma e o conteúdo das pesquisas se voltam para a preocupação de transformação.

No entanto, ao contrário de uma certa tendência vanguardista, não se trata de iluminar os caminhos desde uma perspectiva academicista, frente a contextos populares, por exemplo. Ao contrário, trata-se de uma co-construção, na qual se valorizam as pessoas como sujeitos. Estes que portam como suas as experiências e vivências sobre aquilo que acaba sendo do interesse da pesquisa.

A pesquisa narrativa fundamenta-se na premissa de que a constituição do sujeito ocorre nas relações intersubjetivas. Sob essa perspectiva, ela se configura como uma contraposição à ideologia neoliberal, a qual também incide sobre as dinâmicas acadêmicas e os modos de produção de conhecimento. Essa influência manifesta-se, inclusive, em abordagens de cunho qualitativo, que, embora se afastem do positivismo em termos declaratórios, muitas vezes reproduzem práticas reducionistas ao tratar os participantes como meras fontes de informação (Rivas Flores, 2022). Tais práticas podem assumir formas de violência epistêmica e simbólica, conforme argumenta Smith (2017).

Ademais, conforme ressaltado por Analía em sua intervenção, é necessário atentar para o risco do intelectualismo, caracterizado pelo isolamento do pesquisador em relação aos contextos sociais concretos, decorrente de uma atuação circunscrita ao espaço universitário. Nesse sentido, a pesquisa narrativa assume um compromisso ético com a transformação social, ao buscar romper tanto com a reificação dos sujeitos quanto com o enclausuramento acadêmico, promovendo uma produção de conhecimento situada, dialógica e comprometida com a realidade.

Nas palavras de Piedad, a pesquisa narrativa, por este e outros fatores, a fez acreditar na pesquisa acadêmica.

No Procie encontrei isso. Encontrei esse sentido de fazer de outro modo. De um modo mais respeitoso com as pessoas. E mais respeitoso com a diversidade [...] Fazer uma entrevista sem confiar que isso tem valor, e que chegará em algum lugar esta entrevista, não tem sentido a não ser de tirar os dados [...] A narrativa é uma forma de sentir e de tentar transformar

(depoimento de Piedad).

Neste sentido Pablo C. nos fala da crítica radical que tem frente à ideia de método científico, ou seja, um método único que possa explicar tudo. Defende a existência de métodos, no plural, que é onde se localiza a pesquisa narrativa, desde uma perspectiva política crítica, que é inerente à pesquisa narrativa nos termos propostos pelos pesquisadores do Procie. Para este pesquisador, a pesquisa narrativa é uma forma de confrontação, portanto, especialmente contra um sistema que valoriza este sistema científico hegemônico.

José, finalmente, aporta o fato de que o grande legado da pesquisa narrativa é o trabalho com as pessoas, as relações e encontros que se desenvolvem no percurso das pesquisas e para além delas. Ou seja, é o que se constrói nas relações. É, diz o mesmo pesquisador, uma forma de estar no mundo, portanto, para além da academia e do aspecto profissional. Chega a ser uma forma de autoanálise: de ver o que se é e como se pode transformar no nível pessoal, a partir da própria história, superando as vertentes neoliberais do individualismo.

As contribuições analisadas demonstram que o uso de narrativas assumiu papel central na constituição dos próprios pesquisadores, ao possibilitar a produção de sentidos vinculados às experiências concretas dos sujeitos investigados. Nesse processo, as narrativas não apenas conferem visibilidade às diversas realidades sociais, mas também reposicionam os participantes da pesquisa como protagonistas do conhecimento. Mais do que fontes de dados, as narrativas expressam trajetórias de vida entrelaçadas por relações sociais, permitindo o acesso à realidade sob a perspectiva dos sujeitos que a vivenciam, no interior das múltiplas dimensões investigativas.

Trata-se de uma estratégia para dar ‘voz’ aos sujeitos, como participantes de uma realidade educativa, política e social, a partir da qual é possível reconhecer os diferentes contextos, mediante um processo de desconstrução ideológica. Esta interpretação tem clara incidência em questões ideológicas e epistemológicas relevantes, em torno à identidade, a experiência, a ação humana etc. [...] Como propõe White (1987), a construção de relatos poderia constituir uma forma básica de assimilar nossa experiência a estruturas de significação que as transformam em conhecimento. Estas estruturas, entendo, são dadas pelo seu vínculo sócio-histórico com o mundo social e cultural do sujeito, assim como pelo universo de significação no qual se vive

(Rivas Flores, 2022, p. 14. Grifos do autor.).

Este entendimento reforça a centralidade da narrativa como dispositivo metodológico que não apenas confere visibilidade às experiências dos sujeitos e possibilita a emergência de sentidos situados histórica e culturalmente, mas também se constitui meio de transformação social da realidade, valorizando os sujeitos como seres ativos nesta transformação. Assim, a construção de relatos se apresenta como uma prática epistemológica crítica, por meio da qual as vivências individuais se articulam com estruturas coletivas de significação, contribuindo para a compreensão das complexas relações entre identidade, experiência e ação social. Sabendo disso, investigar narrativamente representa uma forma de resistência ao neoliberalismo, e contribui com a transformação dos pesquisadores e dos contextos, a partir do nível pessoal, profissional, político e educativo.

Ser Investigador e Investigadora no Campo das Narrativas

No segundo Conversatório Procie, foi apresentada a questão sobre o que é ser investigador no cenário das pesquisas narrativas. Sendo assim, as falas que envolveram esse tema abordaram questões como as relações que se constroem durante as investigações que, por sua vez, vem tornando o investigador tal como se constitui dentro do campo das narrativas.

Compreendemos, assim, que as pessoas com as quais os investigadores se vinculam por meio da pesquisa entram em contato com uma ampla gama de realidades e passam a compreender a verdade sob a ótica daqueles que vivenciam o campo estudado. Essa prática incentiva os pesquisadores a se tornarem facilitadores, permitindo que as pessoas excluídas tenham voz e, dessa forma, possibilitando transformações.

Uma consideração importante feita por José logo no início do encontro, é o fato de que a pesquisa narrativa não se trata de uma relação objetivista entre sujeito e objeto, nem mesmo encoberta pelo discurso da pesquisa qualitativa. Neste sentido, a construção do e da investigadora se dá em um processo de não se considerar o único sujeito ativo desta relação de construção de conhecimento, mas compartilhando esta posição com outros sujeitos. Não se trata de produzir dados, mas escutar de verdade os sujeitos. Esther, concordando, afirmou sobre a dificuldade que vivenciou em sua formação como pesquisadora narrativa, de superar os dados, o quantitativo do que falam os sujeitos, mas enfocar na qualidade da interação, no interesse no que dizem os sujeitos, para além do fato de que o que dizem está de acordo com os objetivos pré-estabelecidos pelo projeto da pesquisa. Ao se colocar desta forma, o processo da pesquisa narrativa acaba gerando transformação pessoal e na forma de atuação profissional.

Neste sentido, destacamos uma fala de Esther:

Uma dificuldade que acabo de ter, no comitê de seleção de prêmios de TFM [Trabalho de Fim de Master]2 sobre gênero. Um dos selecionados eu o vetei, precisamente porque se estamos falando de questões de gênero, aquelas que nos ajudam a transformar, no entanto tudo que este trabalho continha eram dados, números, porcentagem, frases estereotipadas. Então, se o que queremos é transformar, no caso deste TFM, faltava a voz das pessoas [...] Então, um dos problemas é o formato, mas o outro problema [...] que é o que temos escrito ultimamente [...] sem isso, sem sua voz, não teria sentido a narrativa.

Analía afirma que a narrativa é uma proposta de pesquisar com os outros, não os outros. Mas, o mais importante, é dedicar tempo a construir uma relação de confiança com os sujeitos, porque sem isso pode haver um processo no qual estes não queiram, por vários motivos, se comprometer com a pesquisa. Mas, mesmo assim, com todos os cuidados, sempre haverá uma reflexão sobre a efetiva transformação dos contextos, porque também há a necessidade ou o imperativo do trabalho acadêmico, que toma muito tempo e esforços, que pode minar as energias do trabalho efetivo nos contextos reais onde ocorre a educação, onde estão as pessoas.

Outra dimensão da construção como pesquisadoras e pesquisadores é a relação que se constitui com os outros: Quem é o outro? Como o tratamos? São subalternos, tal como nos referencia Spivak (2010)3? Em relação a que são subalternos? E como a situação social destas pessoas se coloca na relação com as pesquisadoras e pesquisadores? Como, desde a universidade, desde uma perspectiva desta instituição iluminista se considera os demais sujeitos e conhecimentos que se encontram fora dos seus muros?

José fala que o papel de investigador na área das narrativas, especialmente no âmbito decolonial4, nos capacita a ser facilitadores para que os marginalizados e excluídos tenham voz, transcendendo a mera função de fontes de dados. As pessoas que compartilham suas histórias não devem ser reduzidas a meros pontos de dados empíricos, como frequentemente ocorre em pesquisas qualitativas convencionais, que ainda podem estar impregnadas por uma abordagem positivista e formalismos éticos. Assim, a pesquisa narrativa se destaca ao considerar os participantes como coautores e sujeitos ativos, cujas vozes e experiências de vida são inerentes às suas vivências e contextos individuais.

A perspectiva decolonial não somente se encontra no sentido epistemológico e prático transformador, mas como um meio decolonizador, no que denominamos como um fazer decolonial, quer dizer, no próprio processo de fazer narrativo. Este é um espaço ético contingente, de co-construção, co-interpretação e coautoria horizontal, que nos convida a fazer parte, na pesquisa, de uma rede diversa, com um mesmo marco de compromisso e radicalmente democrática, de co-conhecimento [...] e colaboração para um outro relato da educação e da sociedade, mediante ações/sinais decoloniais que configuram – e se configuram em/de/por/para – o sentir-pensar-fazer humano.

(Rivas Flores, 2022, p. 48).

Esther novamente coloca uma questão muito relevante, que é a constituição coletiva como grupo de pesquisa. Ou seja, Procie coletivamente é um meio de transformação coletiva e, ao mesmo tempo, de cada uma e cada um que por ele passa e desenvolve as suas pesquisas, individual ou coletiva. Esta coletividade como sujeito transformador deve ser valorizada no momento em que a lógica neoliberal nos leva a pensar e agir individualmente, de forma competitiva, tal qual costuma ser o ambiente universitário. Como acentua Piedad, no grupo há muita diversidade, e esta acaba sendo uma importante composição, adequada aos objetivos do grupo, bem como da perspectiva narrativa adotada.

Daniela constrói um comentário pertinente em seu relato sobre sua trajetória de pesquisa, especificamente de sua tese de doutorado, questão relevante para pensarmos sobre a coletividade e como a hierarquia institucional deve ser rompida em prol da coletividade no trabalho e na pesquisa.

Vou voltar a 1998, quando fiz a tese, porque até então sempre havia feito pesquisas no marco qualitativo [...] não estava em Procie. Era um estudo de caso. Meu problema foi, quando cheguei no campo sozinha, e comecei a fazer coisas, aí a direção, a coordenação da escola e os demais, que tinham esta cultura de hierarquia, me receberam nesta hierarquia universitária, e eu quis destruir isso. Esse foi o primeiro passo que me propus. Eu não era a que vinha sabendo tudo [...] A mim me perguntavam e eu dizia: isso quem tem que decidir são vocês. É que nos colocam em um papel que não queremos ter [...] Se levamos este papel, pouca pesquisa se faz, porque este é o papel de superioridade, não da igualdade. Esta foi uma tensão muito grande que vivi [...] Esta é uma luta e uma tensão muito grande que vivi. Eu aprendi para as seguintes pesquisas que fiz [...] Repete-se, todavia, da parte dos pesquisadores e dos subalternos, esta submissão inicial [...] Uma vez que recupera a igualdade [...] Já me viam como uma pessoa que sabia mais. Quando eles pediam para mim a resposta universitária, eu dizia que não sabia nada, porque não tinha informação sobre isso. Me passaram a ver de forma distinta, ainda que não igual, mas em mim havia transformado.

Acreditamos que esta experiência de Daniela é uma síntese do que significa a construção do e da pesquisadora narrativa. Seu aporte às discussões serve não somente para retratar sua história, mas também está presente em outras falas. Piedad, inclusive, afirma que a ideia de transformação fica secundarizada porque no processo, necessariamente, há transformação das pessoas, e são estas relações que acabam por sobreviver à pesquisa. Pesquisar nesta perspectiva é uma forma de vida, não apenas algo externo, que se dá a parte do que vive e do que pensa. Analía reforça questionando a hegemonia do pensamento transformador, no seguinte sentido: O que é transformação? Quem diz o que é isso? Não seria parte de uma soberba acadêmica definir isso?

Virginia também fala de como a pesquisa narrativa, no Procie, a levou a um processo de transformação. No seu caso, de uma pesquisa com uma professora em início de carreira, construiu uma relação profunda com esta professora, e que chegou depois de tanta comunicação, depois de tantas entrevistas sistemáticas, convivência; a própria professora chegou a afirmar para ela que sua escrita representava sua própria voz, o que é um ponto no qual a pesquisa narrativa chega a cumprir um de seus papeis mais importantes, no desafio da horizontalidade, autoria etc.

Mas os desafios para a construção como pesquisadores e pesquisadoras narrativas não se acabam neste horizonte. A própria diferenciação com os sujeitos, no sentido de torná-los passivos no processo, coloca limites a esta perspectiva. Isso mesmo se levarmos em conta os discursos sobre horizontalidades na pesquisa.

Nessa ideia dos autores que estão tentando falar de metodologias horizontais, o que realmente significa horizontalidade? Então me faz pensar que vai até ficar borrado e que eu acho fantástico o papel do pesquisado e do pesquisador. Não deveria haver essa diferença, mas estamos em um processo de busca de conhecimento onde estamos jogando em posições diferentes, mas não como pesquisador/pesquisadora e pesquisado. Então, se pudermos avançar, podemos até quebrar essas denominações?

(Depoimento de Analía)

Vemos com Analía, que ser um pesquisador na perspectiva narrativa é buscar romper com a distinção entre pesquisador/pesquisadora e pesquisados/pesquisadas. Isso decorre do fato da compreensão de que aqueles que estão em uma pesquisa narrativa, contribuindo com a sua história, com sua experiência, são também os autores dos trabalhos, já que são estes quem contam e mostram a realidade em uma relação construída com quem está pesquisando, tal como nos ensinou Rivas Flores (2022).

A pesquisa narrativa amplia as formas de fazer a investigação, uma vez que tem início na teoria e se desenvolve a partir das narrativas e experiências obtidas. Nesse processo, a relação entre teoria e prática se evidencia: os sujeitos se constituem por meio dos relatos, aproximam-se da realidade e participam ativamente das transformações, sejam elas de caráter pessoal ou social.

Pesquisar narrativamente não é apenas uma forma de construir conhecimento, mas é conhecimento. Portanto, é tanto forma quanto conteúdo. O que o coloca em uma perspectiva peculiar que incorpora a capacidade de transformação. O relato constrói a realidade, e nós sujeitos nos constituímos à medida em que participamos de relatos. Assim, participar da construção de um relato é, também, fazer parte do processo de transformação social e educativa

(Megías; Rivas Flores, 2019, p. 84).

Compreendemos que a pesquisa narrativa, como conhecimento, forma e conteúdo, assim como colocam os autores, contribui para o processo de transformação social, rompendo com as ideias positivistas presentes nos discursos da coleta de dados em que as pessoas são submetidas nas demais pesquisas não horizontalizadas.

José levanta uma discussão importante sobre a responsabilidade. A pesquisa narrativa não se trata de uma pesquisa com dados e com objetos definidos e um contexto controlável. Ou seja, não tratamos de um processo de causalidade. Não é possível saber os caminhos que a pesquisa vai seguir, a não ser no próprio caminho que se vai construindo. Portanto, a questão da formação do e da pesquisadora é a responsabilidade que temos neste processo, já que se trata de um processo de relação. O que será transformado não está em nosso alcance dominar. Nem ao menos controlamos o que se transforma no outro.

O fato de que tenho uma responsabilidade pelo que estou fazendo, leva necessariamente que há um efeito de algum tipo [...] À medida em que estamos gerando relações democráticas, horizontais [...] minha responsabilidade é cumprida porque estou exercendo este tipo de modelo de relações, de propostas etc. [...] Se eu sustento uma posição de autoridade, de hierarquia, estou exercendo uma responsabilidade, no sentido de que vai afetar algo [...] Se eu quero exercer responsabilidade de transformar algo, como eu quero, tenho que gerar este tipo de relações [democráticas, horizontais]

(Depoimento de José).

Tais relações de responsabilidade forjam a formação de pesquisadores narrativos. Este é um profissional que caminha junto com os sujeitos, não usa os sujeitos como objetos da pesquisa, nem como fonte de dados, e, portanto, não se coloca de forma artificial na pesquisa, mas de corpo inteiro, desde os posicionamentos políticos e ideológicos sobre o mundo, com a vontade de transformação deste mundo. Não se transforma subalternizando os outros, mesmo que na pesquisa. Procurada a transformação, esta não se encontra em um resultado que pretendemos antes mesmo de iniciar a pesquisa, mas no caminho da pesquisa, como esta se desenvolve com os sujeitos. Certamente que os efeitos serão gerados, no entanto dificilmente os controlamos. E nem devemos ter isso como horizonte, se queremos superar os modelos tradicionais e positivistas de pesquisa.

A Ética em Pesquisas Narrativas

O último Conversatório Procie levado a efeito tratou de um tema muito importante para o âmbito da pesquisa narrativa, que é a relação entre os sujeitos da pesquisa, e, ao mesmo tempo, direcionou-se à crítica da relação objetificada entre sujeito e objeto da pesquisa, ainda que seja aquela designada academicamente como pesquisa qualitativa. Neste sentido, indagou-se sobre O que são os sujeitos? Como os designamos? Qual o papel que cumprem na pesquisa? Inclusive, chegou-se à discussão sobre a possibilidade de coautoria, para superar a ideia de que existem apenas os e as que nos fornecem dados da realidade para alimentar as pesquisas acadêmicas. Neste sentido, a ética na pesquisa narrativa foi, ao fim e ao cabo, o tema deste terceiro Conversatório, embora, como se verificou, o tema apareceu também em outros momentos.

O primeiro elemento da discussão é negar uma ideia de uma ética universal, válida para todos e todas as áreas, ainda mais quando se situa no formato institucional. O que este tipo de ação ética mais desenvolve é o foco nos procedimentos.

Obviamente, quando falamos de ética, temos que nos situar em que tipo de ética estamos falando, porque não há uma única ética ou uma única maneira de entendê-la. No período neoliberal em que estamos, em que a ética da individualidade está no comando, é a ética dos procedimentos, mais do que a ética do relevante, do significante e assim por diante. Bem, parece-me que é importante situarmo-nos aí. Pelo menos tentamos colocar uma questão ética que se aproxima radicalmente do sujeito, que é o respeito ao sujeito como portador do conhecimento, portador de relato e, como dizemos, protagonista de sua vida, e, portanto, protagonista da pesquisa. Não simplesmente um objeto do qual se pode extrair informação

(Depoimento de José).

Contribuindo com esta discussão, parece ser uníssona a voz no grupo Procie de que, apesar de não existir um formato universal de ética, esta é essencial no trabalho em pesquisa narrativa, já que esta é uma forma de pesquisar que envolve sujeitos que compartilham suas vidas, processos e experiências, em uma relação que envolve confiança. Portanto, preservar esta relação é um ato político da pesquisa narrativa. Para Pablo C., a ética é uma questão fundamental: “Inclusive é uma questão para a qual devemos dedicar tempo e co-construir com os sujeitos com os quais participamos na pesquisa” (Depoimento de Pablo C.).

A ética, no caso da pesquisa narrativa, relaciona-se, portanto, com os sujeitos envolvidos, e, também, sobre a forma e o conteúdo dos relatos apresentados ao fim da pesquisa, bem como ao processo da própria pesquisa.

Sobre o relato, que ocupou boa parte do terceiro Conversatório, este, ao fim e ao cabo, e até por exigências acadêmicas formalistas, é sempre o relato construído pelo pesquisador, que acaba estabelecendo a autoria do texto, e, por isso, a responsabilidade sobre o que se escreve, seu conteúdo e forma, é de fundamental relevância. Sobre isso, há duas posições possíveis, levantadas no decurso dos Conversatórios: entender as vozes dos sujeitos de forma essencialista, ou seja, algo que transcende as relações e deve ser preservada na pesquisa tal e como ela aparece no processo da pesquisa, ou, então, compreendê-la como uma relação, que, quem sabe, transcende ambos sujeitos e se coloca em um lugar que pode e deve ser explorada em seus sentidos na pesquisa, e, daí, perdendo seu caráter autoral individual. Neste segundo sentido, que parece ser mais consensual, afirma María Jesús: “Reescrever a história do outro também tem um sentido dialógico com o outro e com a outra [...] É um processo de aprendizado mútuo”.

Ainda sobre o relato, fiquemos com o depoimento de Analía:

No caso de minha tese eu tentei. Justamente no primeiro [capítulo] são as histórias através das entrevistas. Mas, claro, estas histórias, ainda que falamos e discutimos, eu as escrevi, através das entrevistas, ainda que depois venha todo o processo interpretativo. Então, talvez, como seguir. Manter toda a voz das pessoas com as que trabalhamos, e, por outro lado, nossa voz como paralela [...] não sei [...] eu creio que aí sim temos um nó da questão ética.

De fato, confronta-se na pesquisa narrativa o aspecto político da relação entre sujeitos e seus contextos, afinal é sempre assim: não se entendem os sujeitos isolados, mas contextualizados, bem como suas falas, experiências, relatos. Mas as tradições positivistas obrigam a um relato academicista, que retira do produto final da pesquisa a vida e as experiências contidas nas vozes dos sujeitos. Ao contrário:

A perspectiva democrático-deliberativa que defendemos permite uma construção instersubjetiva entre os sujeitos implicados, de modo a oportunizar relações mais horizontais fundadas no respeito profundo pelo outro - sujeito investigado - como portador de conhecimento e soberano dele e de sua vida.

(Rivas Flores et al., 2022, p. 89)

Assim como nos mostram os autores, as relações entre os sujeitos seguem tradicionalmente formas hierarquizadas, coisificando as pessoas que participam das investigações. A forma que as pesquisas narrativas trabalham visam superar esses protocolos, tratando as relações de modo horizontal de co-construção. É justamente o que explanam García, Arcos e Megías (2022) sobre o processo de co-construção existente nessa proposta, pois a relação existente na investigação faz com que pesquisadores e sujeitos participantes reflitam juntos e reelaborem ações.

Outro elemento referente à relação entre os sujeitos da pesquisa foi levantado por José, e se refere à autorização. Vejamos como ele define esta questão.

Porque não é uma questão que depende de um formato, mas depende fundamentalmente de um tipo de relação, de um vínculo com o sujeito. [...] Você tem que fazer, você tem que retribuir, e assim por diante. Acho que são procedimentos que podem ser como uma, digamos, muleta para começar, mas no final é o tipo de história, de relação que estabelecemos com o sujeito. [...] A ideia de autorizar vem da relação que podemos finalmente estabelecer, ele me autoriza a usar sua voz na medida em que estamos construindo algo em comum e que às vezes o sujeito não tem, digamos, o desejo ou a intenção ou a possibilidade de dizer com sua própria voz, por si mesmo, então pode haver muitos formatos nesse sentido, certo?

(Depoimento de José)

José nos mostra que não há uma necessidade de formato para manter a ética, mas sim uma relação democrática, em que as pessoas concordem em contar suas experiências. Inclusive, a questão do anonimato dos sujeitos está à prova em cada caso específico. Em que momentos é fundamental manter anonimato? Por quê? Fundamentalmente, esta é uma questão a ser decidida em conjunto, mas a segurança, o cuidado e a preservação dos sujeitos, quando o exigir, devem ser levados em consideração. Ainda mais quando se trata de sujeitos assujeitados em relações de poder, hierarquias, em situações de vulnerabilidade etc., cuja exposição pode vir a ser um problema de várias ordens para a vida pessoal, profissional etc.

Entendemos que faz parte da ética da pesquisa refletir sobre as relações de poder que são geradas no âmbito das pesquisas, as quais sempre existem, encobertas sob as forças colonizadoras e opressivas enfrentadas por muitas pesquisas qualitativas e narrativas (Denzin, 2017). Nesse sentido, aspectos como gênero, classe social, orientação sexual, raça, nacionalidade, posição, interesses do/da pesquisador/a, entre outros, são elementos a considerar ao longo de todo o processo de pesquisa

(Rivas Flores et al., 2022, p. 90).

O contexto é crucial para o desenvolvimento das pesquisas, sendo assim, compreender o cenário, os princípios, as crenças e as relações que tornaram a realidade tal qual ela é, se faz necessário para fazer da pesquisa uma construção significativa para todos e todas envolvidos no processo.

As implicações éticas que supõem essa forma de pesquisar são importantes, já que tanto os sujeitos pesquisados quanto os pesquisadores acabam expostos, visto que colocam em evidência suas vidas, suas trajetórias, suas vozes particulares, em suma, sua subjetividade

(Rivas Flores et al., 2022, p. 87).

Desta forma, ética e política se encontram na práxis da pesquisa narrativa. As relações entre sujeitos são co-construídas com o intuito de que as vozes, experiências e relatos significativos sejam visibilizados, dados a conhecer ao mais amplo público, de modo que sejam elementos transformadores da realidade, tanto para os próprios sujeitos envolvidos na pesquisa, quanto para os leitores dos relatos. Mas, como se trata de elementos sensíveis como parte das vidas de pessoas, esta relação de pesquisa envolve cuidados fundamentais para a preservação destes sujeitos, de suas vozes e relatos.

Ficou evidenciado que não existe um padrão ou receita a ser seguida, e, como afirmou Analía neste terceiro Conversatório, cada pesquisa é única, e como reafirmaram Jesús e Pablo T. na mesma direção, não ajudam para isso os famosos Manuais de Pesquisa. Muito mais importante, para a base da formação de pesquisadores, é o aprofundamento nas epistemologias, que, no fundo, nos leva à práxis da pesquisa ao nos fazer enfrentar o problema da construção de conhecimentos. Daí que, para concluir, ética, política e epistemologia formam uma unidade significativa no campo da pesquisa narrativa.

Considerações Finais

O percurso deste trabalho tem a intenção de ser uma espécie de síntese sobre as experiências de um grupo de pesquisa especializado em pesquisa narrativa (ou melhor, pesquisas narrativas, já que não se trata de um formato único), a partir das próprias narrativas dos sujeitos sobre suas experiências compartilhadas nos Conversatórios Procie. Foram elencadas três categorias, que foram analisadas no trabalho: individualismo neoliberal e a superação pelas relações com outros e outras, ser investigador e investigadora no campo das narrativas e a ética em pesquisas narrativas.

Cada uma destas categorias nos leva a uma dimensão possível da pesquisa narrativa. Com a primeira categoria, tratamos fundamentalmente do compromisso político da pesquisa narrativa com a transformação, seja esta do entorno, da comunidade, dos sujeitos, da forma de fazer pesquisa na universidade ou até mesmo dos próprios pesquisadores. Já a segunda categoria questiona o sentido e a forma de se fazer pesquisa narrativa, as relações entre sujeitos e suas mediações, bem como as responsabilidades que se deve ter em conta ao desenvolver pesquisas a partir de sensibilidades agudizadas, como são aquelas que estão em volta às vidas das pessoas, suas experiências e seus relatos. Esta segunda categoria se complementa na terceira, que reivindica a discussão especificamente da ética da pesquisa narrativa, em confronto com as formalidades institucionalizadas da ética acadêmica, e contra a relação objetificada típica do positivismo, bem como relacionando esta ética com a política e a epistemologia, pois se trata de uma forma de construir conhecimentos que parte da valorização das vozes dos sujeitos, da superação da objetificação e da hierarquização no processo de pesquisa.

Acreditamos que a pesquisa narrativa interpela as normas positivistas da academia, naturalizadas em um processo hegemônico de construção de conhecimentos, que reflete outras relações e objetivos. Interpela inclusive as possibilidades de (co)autoria, bem como os princípios éticos formalistas, que não se interessam pelos cuidados nas relações mas apenas com determinar se os procedimentos apresentados são ou não razoáveis.

A prática dos Conversatórios Procie constituiu-se em um espaço onde todas e todos puderam expressar suas ideias profundamente, e em diálogo qualificado com pares neste debate, que ao mesmo tempo são colegas e parceiros de pesquisas. Houve uma avaliação que pareceu unânime sobre a necessidade de que o próprio grupo abrisse mais oportunidades como aquela, na qual é possível sair do cotidiano das pesquisas e trabalhos na universidade, e pensar e repensar a prática da pesquisa. Por vezes tomamos premissas como dadas e certas, como é o caso da narrativa, no âmbito da pesquisa narrativa. No entanto, os diálogos profícuos demonstraram a necessidade de aprofundar e ao mesmo tempo definir melhor este instrumento essencial com o qual o grupo vem desenvolvendo pesquisas nas últimas décadas.

Pesquisas como estas, fruto de parcerias entre concepções diversas, de diversos contextos, podem ser melhor exploradas para fins de que os grupos de pesquisa alinhem suas concepções teóricas e práticas de forma orgânica.

Os horizontes da práxis neste sentido são enormes, e a academia necessita ser realmente interpelada, no sentido de se fazer relevante para a comunidade e não apenas se sustentar como uma instituição autorreferente. Desta forma, esperamos que este trabalho provoque reflexões e novas práticas de pesquisa.

Notas

  • 1
    Um dos autores foi contemplado em 2020 com a bolsa do programa Movilidad de profesorado Brasil-España da Fundación Carolina, a quem agradecemos o apoio recebido. Neste período a supervisão foi feita por outro autor deste texto.
  • 2
    O Master não se equipara ao Mestrado brasileiro. Ele é um curso complementar de dois anos, após a graduação, e é um requisito obrigatório para a atuação profissional. O TFM é um trabalho que se apresenta como conclusão deste curso.
  • 3
    Registra-se que para o grupo Procie, a reflexão seminal de Spivak sobre os subalternos é uma das grandes inspiradoras da pesquisa narrativa. Pode-se encontrar esta referência no seguinte trabalho coletivo do grupo: “Nesse sentido, torna-se muito pertinente o questionamento já clássico feito por Spivak (1988) sobre esse tema: os/as subalternos/as podem falar? Em última instância, podemos pensar se os marginalizados, os visitantes e participantes — enfim, os sujeitos “objetos” da investigação — podem oferecer suas próprias vozes, sem o filtro dos pesquisadores. O que significa “ser” pesquisador em um cenário como esse? (Rivas Flores et al., 2020, p. 53)
  • 4
    Procie, há uma década pelo menos, vem trabalhando a pesquisa narrativa em perspectiva decolonial, a partir dos referentes latino-americanos. Sobre o tema realizamos uma obra coletiva intitulada Perspectivas decoloniales sobre la educación (Melo et al. 2019).

Disponibilidade dos dados da pesquisa

O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.

Referências

  • DARDOT, Pierre. LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaios sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.
  • FREITAS, Luiz Carlos de. A reforma empresarial da educação: nova direita, velhas ideias.São Paulo: Expressão Popular, 2018.
  • GARCÍA, María Jesús Márquez; ARCOS, Daniel Padua; MEGÍAS, María Esther Prados. Pesquisa narrativa em educação: aspectos metodológicos na prática. In: MELO, Alessandro de; RIVAS FLORES, José Ignacio. Pesquisa narrativa: teoria, práticas e transformação educativa. Curitiba: Appris, 2022. P. 65-83.
  • MEGÍAS, María Esther Prados; RIVAS FLORES, José Ignacio. Investigar narrativamente en educación física con relatos corporales. Revista del Instituto de Investigaciones en Educación, v. 8, não. 10, p. 82-99, 2019. DOI: 10.30972/riie.8103654. Disponível em: https://revistas.unne.edu.ar/index.php/riie/article/view/3654 Acesso em: 11 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.30972/riie.8103654» https://revistas.unne.edu.ar/index.php/riie/article/view/3654
  • MELO, Alessandro de; PELISSARI, Lucas Barbosa. Conceito de efeito de isolamento e análise das competências nas reformas educacionais. Revista de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Políticas Educativa, v. 9, p. 1-17, 2024. DOI: https://doi.org/10.5212/retepe.v.9.22748.002.
    » https://doi.org/10.5212/retepe.v.9.22748.002
  • MELO, Alessandro de; RIVAS FLORES, José Ignacio. Pesquisa narrativa: teoria, práticas e transformação educativa. Curitiba: Appris, 2022.
  • MELO, Alessandro de et al. Perspectivas decoloniales sobre la educación Guarapuava: Editora Unicentro; Málaga: Uma Editorial, 2019.
  • POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. Campinas: Unicamp, 2019.
  • RIVAS FLORES, José Ignácio et al. Ética, responsabilidade e trabalho coletivo na pesquisa narrativa. In: MELO, Alessandro de; RIVAS FLORES, José Ignacio. Pesquisa narrativa: teoria, práticas e transformação educativa. Curitiba: Appris, 2022. P. 85-100.
  • RIVAS FLORES, José Ignacio. Narração, conhecimento e realidade: uma mudança de argumento na pesquisa educativa. In: MELO, Alessandro de; RIVAS FLORES, José Ignácio. Pesquisa narrativa: teoria, práticas e transformação educativa. Curitiba: Appris, 2022. P. 19-42.
  • SAES, Décio Azevedo Marques. Classe média e escola capitalista. Crítica Marxista, v. 12, n. 21, p. 97-112, out. 2005. DOI: https://doi.org/10.53000/cma.v12i21.19557.
    » https://doi.org/10.53000/cma.v12i21.19557
  • SMITH, Linda Tuhiwai. A descolonizar las metodologias: investigación y pueblos indígenas. Navarra: Txalaparta, 2017.
  • SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
  • VALLE, Ione Ribeiro; RUSCHEL, Elizete. A meritocracia na política educacional brasileira (1930-2000). Revista Portuguesa de Educação, v. 22, n. 1, p. 179–206, 2018. DOI: https://doi.org/10.21814/rpe.13957.
    » https://doi.org/10.21814/rpe.13957
  • Editora responsável:
    Paula Corrêa Henning

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    08 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Jan 2025
  • Aceito
    18 Ago 2025
location_on
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Educação Avenida Paulo Gama, s/n, Faculdade de Educação - Prédio 12201 - Sala 914, 90046-900 Porto Alegre/RS – Brasil, Tel.: (55 51) 3308-3268, Fax: (55 51) 3308-3985 - Porto Alegre - RS - Brazil
E-mail: educreal@ufrgs.br
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error