Open-access CHATGPT NA UNIVERSIDADE DE PERUGIA: POTENCIALIZANDO A INTERAÇÃO ENTRE DOCENTES E DISCENTES

ChatGPT at the University of Perugia: Empowering Interaction Between Faculty and Students

RESUMO

Objetivo:  Este artigo teve como objetivo investigar como o ChatGPT pode potencializar a interação entre docentes e discentes na Universidade Degli Studi di Perugia, com foco no processo de aprendizagem de línguas.

Método:  A pesquisa, de natureza qualitativa, envolveu a busca de artigos em plataformas como Science Direct, Google Acadêmico e SciELO. Foi desenvolvido um formulário composto por 17 perguntas em italiano, abordando o uso do ChatGPT e sua relação com a educação. Esse formulário foi enviado a 939 alunos, através de diversos grupos de WhatsApp, em 10 de junho e permaneceu aberto até 18 de junho, resultando em 40 respostas. Os participantes incluíam estudantes de graduação, mestrado e doutorado, com idades entre 19 e 36 anos. Após a coleta dos dados, realizou-se uma análise de conteúdo (Bardin, 1977), dividida em duas categorias: possibilidade de uso como estratégia pedagógica e impossibilidade de uso.

Resultados:  A análise das respostas revelou que o uso do ChatGPT tem o potencial de aprimorar a capacidade de conversação, ampliar o vocabulário na língua-alvo e corrigir redações e textos escritos nessa língua. No entanto, também foram identificados desafios, como a dependência excessiva da ferramenta, questões de equidade tecnológica e a padronização da língua.

Conclusões:  O estudo concluiu que, segundo a interpretação dos estudantes italianos, o ChatGPT possui potencial pedagógico no processo de aprendizagem de línguas, mas enfrenta desafios significativos. A maioria dos alunos desconhece o significado do acrônimo ChatGPT, o que sugere uma visão instrumental da ferramenta. O papel do professor é considerado essencial para integrar a inteligência artificial de forma eficaz na educação de qualidade.

PALAVRAS-CHAVE:
Chatgpt; Estudantes; Universidade; Educação.Italia.

ABSTRACT

Objective:  This article aimed to investigate how ChatGPT can enhance interaction between teachers and students at the University of Perugia, with a focus on the language learning process.

Method:  The research was qualitative in nature and involved searching for articles on platforms such as Science Direct, Google Scholar, and SciELO. A questionnaire consisting of 17 questions in Italian was developed, addressing the use of ChatGPT and its relationship with education. This questionnaire was sent to 939 students through various WhatsApp groups on June 10th and remained open until June 18th, resulting in 40 responses. The participants included undergraduate, master's, and doctoral students, aged between 19 and 36 years. After data collection, a content analysis (Bardin, 1977) was conducted, divided into two categories: the possibility of use as a pedagogical strategy and the impossibility of use.

Results:  The analysis of the responses revealed that the use of ChatGPT has the potential to enhance conversational abilities, expand vocabulary in the target language, and correct essays and written texts in that language. However, challenges were also identified, such as excessive dependence on the tool, technological equity issues, and language standardization.

Conclusions:  The study concluded that, according to the interpretation of Italian students, ChatGPT has pedagogical potential in the language learning process but faces significant challenges. Most students are unaware of the meaning of the acronym ChatGPT, suggesting an instrumental view of the tool. The role of the teacher is considered essential for effectively integrating artificial intelligence into quality education.

KEYWORDS:
ChatGPT; Students.University.Education.Italy

1 INTRODUÇÃO

Em um mundo moderno onde a tecnologia é uma presença constante, é essencial compreender como a inserção virtual tem contribuído para a evolução das práticas educacionais, possibilitando a adoção de novas abordagens pedagógicas e modelos de ensino (De Faria & Santos, 2024). A inteligência artificial (IA) é definida como a simulação da inteligência humana em máquinas programadas para pensar e agir como seres humanos (Velásquez, 2023). O ChatGPT, por exemplo, é capaz de ajustar suas respostas ao perfil do usuário, facilitando a comunicação e o entendimento (Bentivoglio, 2023). O uso cada vez mais disseminado e rotineiro do ChatGPT nos leva a considerar a emergência de um novo perfil cognitivo: o do leitor generativo, aquele que lê as obras que produz em coautoria entre humano e IA (Carvalho & Pimentel, 2023).

O aumento da Inteligência Artificial nos contextos educacionais desperta entusiasmo e também muitos questionamentos, sobretudo considerando a transição e transformação do ambiente e ecologia educacionais, centrados no papel da tecnologia e suas inovações, pervasivamente artefactual, onde as atividades do dia a dia dependem, cada vez mais, do envolvimento de artefatos tecnológico (Rodrigues, 2023). Embora as capacidades técnicas do ChatGpt sejam já bastante documentadas (Al-khresheh, 2024), consequência da sua presença e centralidade, o seu uso e assimilação, na interação entre docentes e discentes, em uma perspectiva global, ainda são objetos de disputas e questionamentos.

O crescente uso de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) na educação tem sido marcado por desenvolvimentos significativos nas últimas duas décadas e meia (Roll & Wylie, 2016), impactando a sociedade de maneira profunda, considerada por alguns como uma verdadeira revolução (Silva et al., 2024). Uma dessas tecnologias é justamente o ChatGPT, cujo acrônimo refere-se a "Generative Pre-trained Transformer", relacionado à forma como o software processa solicitações e gera respostas, utilizando uma estrutura chamada "deep neural networks", inspirada no funcionamento do cérebro humano, sendo capaz de aprender a partir de grandes conjuntos de dados, utilizando o modelo LLM - Large Language Model para focalizar partes específicas do texto (Università Ca' Foscari Venezia, 2023). No entanto, o uso do ChatGPT ainda carece de regulamentação e considerações sobre suas consequências, incluindo temas como direitos autorais, Fake News, ética, privacidade e más práticas acadêmicas, como plágio (Coeckelbergh, 2020; Kaufman, 2021, 2022; Marques, 2023; De Moraes; Matilha, 2013). São diversos os aplicativos de IA, sendo um deles o Chatgpt, uma ferramenta que auxilia na redação, aprendizagem, resolução de avaliações, podendo fazê-lo de forma conversacional (Strzelecki, 2023). Construído em arquitetura GPT e treinado em um grande corpus de dados de textos para responder às consultas em linguagem natural que se assemelham aos requisitos de uma pessoa (Javaid, 2023), tem a comunicação em tempo real em resposta às solicitações dos usuários (Neumann et al, 2023) e a geração de textos semelhantes aos humanos, bem como a facilitação de conversas automatizadas, com amplas implicações em vários setores, incluindo a educação e a saúde (Grassini, 2023). Dessa forma, conquistou milhões de usuários em um curto espaço de tempo e pode ler e escrever textos (Talan & Kalinkara, 2023). No entanto, a ferramenta tem desempenho diverso em diferentes áreas, incluindo finanças, codificação, matemática e consultas do público em geral (Gill, 2024) para escrever ensaios e palestras, resumir literatura, redigir e melhorar artigos, bem como identificar lacunas de pesquisa e escrever códigos de computador, incluindo análises estatísticas (Van Dis, 2023).

A IA pode revolucionar a forma como os alunos aprendem, oferecendo uma experiência mais personalizada e adaptativa, usando o ChatGPT para ajudá-los a concluir suas tarefas no ambiente universitário (Putra et al, 2023), o que pode facilitar a identificação das necessidades individuais dos alunos, permitindo a criação de programas de estudo customizados, estabelecendo um aprendizado centrado no aprendente (Student Centered Learning), também referida como Aprendizagem Baseada em Projetos (PBL- Project-Based Learning), sendo um conceito contemporâneo que integra um novo currículo, uso de uma tecnologia e as próprias habilidades do aluno para produzir aprendizagem e aquisição (Zmuda, 2009). Dessa forma, os professores podem ser assistentes ou mediadores virtuais de ensino, fornecendo aos alunos informações detalhadas e relevantes e talvez, eventualmente, simulações interativas (Lee, 2023). Além disso, a IA pode fornecer ferramentas avançadas para a elaboração de atividades avaliativas mais eficientes e justas, auxiliando na identificação de áreas de melhoria e no acompanhamento do progresso dos alunos ao longo do tempo. Aos acadêmicos parece inevitável adaptar as suas práticas de ensino e avaliação para integrar a nova realidade de viver, trabalhar e estudar num mundo onde a IA está disponível gratuitamente. O ChatGPT pode dar uma contribuição significativa na melhoria da qualidade da produtividade dos alunos (Fauzi et al, 2023). As aplicações mais comuns do ChatGPT incluem chatbots, escrita automatizada, criação de conteúdo e compreensão de linguagem para aplicativos de IA, com resultados frequentemente indistinguíveis da produção humana (Moons & Van Bulck, 2023). No Brasil, o ChatGPT obteve 123 milhões de acessos em janeiro de 2024, representando 5,16% do tráfego global da plataforma e destacando-se como o quarto país com maior uso, atrás apenas dos Estados Unidos, Índia e Indonésia (Giz, 2024; Forbes, 2023).

No contexto da sociedade, o discurso público nas redes sociais é geralmente positivo (Wardat, 2023) e há entusiasmo em relação ao uso em contextos educativos. No entanto, existem também opiniões cautelosas sobre a utilização do ChatGPT nesses ambientes (Tilili, 2023). Na Itália, observa-se um aumento significativo do uso do ChatGPT, especialmente entre jovens e estudantes universitários, com cerca de 8% dos universitários italianos utilizando-o regularmente para fins acadêmicos, como pesquisa, redação e planejamento de estudos (WeLiveSecurity, 2024). Os recursos do ChatGPT para ensino de idiomas têm potencial para manter os alunos engajados e conectados com a experiência de aprendizagem (Fuchs, 2023). Apesar das vantagens, existem desafios e preocupações, como a precisão e veracidade das respostas geradas, bem como o potencial de uso inadequado para evitar o aprendizado e facilitar práticas de trapaça (Gill et al., 2024).

Nesse contexto, educadores devem aumentar sua literacia em IA para promover a responsabilidade social e ética no uso dessa tecnologia (Boscardin et al., 2024). Experiências como as da Universidade dos Estudos de Perugia (Unipg), que incorpora novas tecnologias em seu currículo para atender às demandas do mercado de trabalho, destacam a importância do uso responsável e produtivo do ChatGPT na educação (Unipg, 2024). Este estudo visa analisar o uso do ChatGPT por estudantes universitários matriculados na Unipg, especialmente em relação ao ensino de idiomas estrangeiros, com foco na experiência prática de uma das autoras, que esteve envolvida em um programa de mobilidade acadêmica na instituição, durante o primeiro semestre do ano de 2024.

2 MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa é de natureza qualitativa (Flick, 2009) e foi conduzida através de uma busca de artigos em plataformas como Science Direct, Google Acadêmico e SciELO. Um formulário com 17 perguntas em italiano sobre o uso da ferramenta e sua relação com a educação foi desenvolvido e disponibilizado no seguinte link: Formulário. O formulário foi enviado aos alunos no dia 10 de junho e permaneceu aberto até o dia 20 de junho. Os alunos que participaram da pesquisa pertenciam aos seguintes grupos no WhatsApp: Studi Italiani 1º Anno: 63 pessoas, Letteratura Portoghese Anni I/II 2024: 10 pessoas, Lettere 2º Anno: 153 pessoas, ERASMUS PERUGIA 2023/2024: 593 pessoas, ERASMUS Perugia CLA: 120 pessoas de diversas áreas (Letras, Física, Matemática, Ciência da Computação e Medicina Veterinária. Totalizando 939 alunos, dos quais apenas 40 responderam ao formulário. Os alunos que responderam variaram entre 19 a 36 anos, sendo a maioria do sexo feminino, com um respondente declarando gênero diverso. Para análise e discussões, foram utilizadas 5 das 17 perguntas do questionário. Para apresentação e discussão dos resultados, foram selecionadas 5 perguntas e realizou-se a análise de conteúdo, conforme orientações de Bardin (1977), em que resultou em categorias teóricas, as quais foram analisadas e discutidas nessa seção.

Roteiro de Perguntas

O formulário foi enviado em italiano, mas realizamos a tradução para o artigo:

Perguntas em Português
  • 1) Quantos anos você tem?

  • 2) Sexo?

  • 3) Você sabe o que significa a sigla ChatGPT?

  • 4) Caso a resposta anterior seja afirmativa, por favor, indique.

  • 5) Qual é o seu curso de graduação ou pós-graduação?

  • 6) Que língua(s) estrangeira(s) você estuda?

  • 7) Você utiliza o ChatGPT para realizar seus trabalhos na universidade?

  • 8) Você utiliza o ChatGPT para aprender outra língua estrangeira?

  • 9) Você o utiliza principalmente para estudar gramática?

  • 10) Você também o utiliza para traduções?

  • 11) Você faz alterações nas recomendações ou correções do ChatGPT antes de utilizá-las?

  • 12) De que maneira o ChatGPT ajuda você a melhorar sua capacidade de conversação?

  • 13) Na sua opinião, quais são as principais vantagens de usar o ChatGPT?

  • 14) Como se pode usar o ChatGPT para ampliar o vocabulário na língua alvo?

  • 15) Como o ChatGPT ajuda você a corrigir redações e textos escritos nessa língua alvo?

  • 16) Você reconhece que há um verdadeiro aprendizado ou aquisição para o aprendiz com as propostas feitas pelo ChatGPT?

  • 17)Você acha que o ChatGPT deve ser utilizado em sala de aula como uma ferramenta auxiliar? De que maneira?

3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

As perguntas utilizadas para a discussão foram selecionadas devido ao objetivo de auxiliar na produção de conhecimento e na divulgação de novas estratégias pedagógicas, propiciando maior interação entre docentes e discentes em diversas áreas do conhecimento. Para trazer uma discussão, realizamos análise de conteúdo e formaram algumas categorias teóricas.

12. De que maneira o ChatGPT ajuda você a melhorar sua capacidade de conversação?

Possibilidade de estratégia pedagógica "Aprendendo novas palavras/termos".."Oferece um ponto de partida para realizar pesquisas, trabalhos e outros tipos de estudos".."Me ensina técnicas e conselhos para melhorar minha capacidade de compreensão e estudar ativamente"..."Principalmente para criar e-mails formais, resumir textos e códigos para arquivos Excel"... "Torna tudo mais rápido…"Pergunto se o que escrevi está conforme com o que eu queria dizer"…"Me dá sugestões e listas de onde posso tirar ideias"..."Para melhorar a forma de expressão"..."Às vezes me ajuda a escrever e-mails"..."Usando-o, aprendo novos termos"…."Torna meu inglês mais fluido e profissional"...."Organizar a linguagem, palavras desconhecidas, conjugação verbal"..." "Conversação escrita, sim…Recomenda diferentes filmes/séries de TV ou músicas que podem ser úteis para o aprendizado"…"Corrige alguns erros gramaticais e de sintaxe"…"Me ajuda a reformular frases"…"Me ajuda na tradução"…"Aprendo a responder às perguntas feitas"…"Poucas vezes usei o ChatGPT para fins universitários, quando usei foi no Erasmus para a explicação da origem de alguns termos de línguas antigas"…"Existe a possibilidade de ter uma conversa via microfone e o ChatGPT corrige os erros"..." Construindo frases e aprendendo novas palavras"..."Para a pronúncia". Fonte: Autoria própria (2024).
Não utiliza como estratégia pedagógica "Não me ajudou nisso".."Sou contra o seu uso"..."Nada"..."Não faz"..."Não o utilizo"..."Nenhum"..."Sinceramente, nunca o usei"..."Não me ajuda na capacidade coloquial"..."Não uso o ChatGPT para melhorar a conversação" Fonte: Autoria própria (2024).

A inteligência artificial no campo da educação emergiu da adoção das tecnologias de informação e comunicação como ferramenta para aprimorar o ensino e a aprendizagem (Opara et al, 2023), transformando rapidamente o panorama do ensino superior (Chaudhry et al, 2023). Isso se destaca por meio de inovações e avanços que culminam em dispositivos como computadores e máquinas dotados de uma inteligência comparável à humana. Essa inteligência é caracterizada por habilidades cognitivas, aprendizado, adaptabilidade e tomada de decisões (Chen et al, 2020). As ferramentas tecnológicas se tornaram mediadoras e participantes no contexto educacional e acadêmico (Oliveira e Neves, 2023), desafiando as práticas educativas e impulsionando uma reflexão sobre seus princípios, métodos de ação e avaliação.

O ChatGPT pode representar uma nova estratégia pedagógica para fomentar uma maior interação entre professores e alunos, além de oferecer uma abordagem para repensar as práticas pedagógicas visando a expansão e o direcionamento do ensino (Schultz et al, 2024) à luz dos resultados obtidos. Alguns alunos destacam que "é possível ter uma conversa via microfone e o ChatGPT corrige os erros"; "auxilia na construção de frases e na aprendizagem de novas palavras" e "é útil para aprimorar a pronúncia". Embora possa proporcionar uma oportunidade de diálogo e aprimoramento dessas habilidades, não substitui o papel essencial do professor.

Embora a estratégia pedagógica baseada em uma perspectiva tecnológica não possa ser dissociada de uma perspectiva cultura e glotodidática, cuja centralidade perpassa pelo "humanismo digital" (Peppoloni 2019, p. 11) e o valor acrescentado pela ferramenta tecnológica vai além da mera competência funcional no manejo e uso de determinadas tecnologias, envolvendo diretamente o aprimoramento da competência pedagógica, transformação do ambiente de aprendizagem e o desenvolvimento de uma consciência intercultural, com papéis ativos e responsáveis de docentes e discentes.

Por "humanismo digital" ou Humanidades Digitais (HDs), entende-se o campo interdisciplinar que aproxima e promove a interação entre as ciências humanas, sociais e sociais aplicadas (Guimarães et al., 2023), termos que definem a pesquisa que agrega a aplicação da computação e da tecnologia da informação e comunicação (TICs) àquelas Ciências e investigam as dimensões, configurações e impactos das TICs em uma determinada sociedade/tempo/contexto. De modo que, com a presença e aumento constante de dados e informações, requer também a colaboração crítica e analítica entre ferramentas, métodos, docentes e discentes, para a transformação do ambiente de aquisição e aprendizagem.

O ChatGPT, como já mencionado, em um contexto de transformação e estratégia educativa, pode ajudar a identificar padrões, criar roteiros e cotejar tendências no campo da educação, fornecendo ideias e sugestões, as quais podem ser reapropriadas, re-elaboradas colaborativamente pelos atores envolvidos na disseminação da informação em um ambiente digital.

A informação é um componente, uma composição ou um resultado de uma ação comunicativa subjetiva e intersubjetiva, estando diretamente relacionada ao agir e realizar da comunicação, a qual é precedida de colaboração e construção entre interlocutores, mensagem, meio, ruído, contexto, entre outros elementos cognitivos, simbólicos e pragmáticos. É a partir da comunicação e um entendimento gerado por ela que se "constrói a interpretação e representação das coisas" (Lima et al., 2023, p. 13).

14. Como se pode usar o ChatGPT para ampliar o vocabulário na língua alvo?

Possibilidade de estratégia pedagógica "Pedir exemplos de frases com palavras não comuns"..…"Solicitar a criação de exercícios baseados em sinônimos e antônimos….Pedir para explicar o significado das palavras….Simular diálogos….Realizar exercícios de tradução….Ampliar o vocabulário ao encontrar novos termos…Pedir traduções e sinônimos….Reformular conceitos e palavras….Buscar sinônimos para palavras conhecidas….Conversar sobre diferentes assuntos para ampliar o vocabulário….Realizar comunicação humano-bot….Encontrar textos com palavras de mesma área semântica…Aprender novos vocabulários. Sugerir novas palavras em diferentes temas"... Fonte: Autoria própria (2024).
Não utiliza como estratégia pedagógica "Não é usado. Não utilizo. Não sei"..."Não saberia"... Fonte: Autoria própria (2024).

A educação deve priorizar o desenvolvimento da criatividade e do pensamento crítico dos alunos, em vez de se concentrar apenas em habilidades gerais (Zhai, 2022). O uso de grandes modelos linguísticos na educação exige que tanto professores quanto alunos adquiram as competências necessárias para compreender a tecnologia e suas limitações (Kasneci et al., 2023). Políticos, acadêmicos, educadores e especialistas em tecnologia devem unir esforços para debater de forma ampla e aberta, incluindo a participação da comunidade, sobre o uso seguro e vantajoso dessas ferramentas, aprimorando a educação e promovendo o aprendizado dos alunos (Baidoo-Anu & Ansah, 2023). Dessa maneira, será viável promover o uso responsável e eficaz, ou ao menos regulado, do ChatGPT em pesquisas e outras áreas (Zhu et al., 2023), incluindo aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural voltados para publicações acadêmicas e pesquisas (Lund et al., 2023).

Uma organização de prestígio internacional no campo do ensino de idiomas, como o American Council on the Teaching of Foreign Languages (ACTFL), afirmou que não há evidências conclusivas de que os estudantes possam aprender uma LE (Língua Estrangeira) ou L2 (Segunda Língua em contexto de imersão) de forma eficaz exclusivamente por meio da tecnologia, sem a interação e a orientação de um professor de língua qualificado (ACTFL, 2012, Parágrafo 3).Relevante destacar que,

"La tecnologia promuove sicuramente l'autonomia degli studenti, ma il processo di acquisizione linguistica, sebbene risulti potenziato dalla tecnologia, richiede comunque una guida meticolosa e momenti di supervisione che necessitano della presenza di un docente di lingua in carne e ossa." (Peppoloni, 2019, P. 69-70). 1

No entanto, apesar das potencialidades, a tecnologia, por si só, não garante a aquisição linguística, sendo indispensável a atuação, mediação e integração do Professor de Línguas (Peppoloni, 2019, p. 68). Da mesma forma, o simples domínio de uma ferramenta digital não é suficiente para sua utilização eficaz em sala de aula, seja ela física ou virtual.

É essencial que o profissional de línguas compreenda as possíveis aplicações e capacidades dessas ferramentas no contexto do ensino de línguas, para integrá-las adequadamente no processo de aquisição da língua-alvo, de acordo com as necessidades dos alunos (Peppoloni, 2019). Além disso, a presença do professor desempenha um papel crucial na pesquisa sobre didática prática, influenciando até o desenvolvimento de novas tecnologias. Esse processo, de tipo bottom-up, faz com que "utilizem suas próprias redes, conhecimentos e recursos, em vez de se apoiarem na pesquisa teórica em sala de aula em busca de novas ideias" (Stanley 2013, p. 54, apud Peppoloni, 2019, p. 41).

Ainda que a IA possa ser usada para fornecer instruções individualizadas aos alunos, através de tutoria individual ou criação de planos de aula super personalizados, por exemplo, reforçando a abordagem centrada na necessidade de cada aluno, acrescentando muito aos primeiros dias da educação baseada em computador (Zhai, 2022), essa instrução pode ser potencializada e melhor orientada através da mediação e experiência do docente.

Ademais, o docente de língua não é um "mero técnico" e a tecnologia que usa na sua prática não é um fim em si mesma (Peppoloni, 2019, p. 11), sendo pensada e associada a suas referências teóricas e aos métodos respectivos, sempre tendo em consideração o grupo target de aprendentes, com quem constrói a própria dinâmica de aprendizagem e aquisição da língua.

15. Como o ChatGPT ajuda você a corrigir redações e textos escritos nessa língua alvo?

Possibilidade de estratégia pedagógica "Ajuda com sinônimos, corrige a elaboração das frases e erros de digitação""Pode sugerir melhorias no estilo do seu escrito, corrigir erros gramaticais, ajudá-lo a usar um vocabulário mais rico"..Ajuda a traduzir e melhorar o texto em linguagem acadêmica…Melhora a profissionalidade do escrito.Reescreve as frases de forma mais correta e com um linguajar mais preciso….Mostra os erros e propõe uma alternativa válida, mas também explica o porquê dos erros…Corrige os termos errados….Melhora a sintaxe….Verifica a gramática e sugere as melhores alternativas"..."Geralmente, uso o comando "reframe and improve"...."Melhora a profissionalidade do escrito…."Tradução direta ou correções"..."Reestruturando o conceito que proponho"..."Simplesmente pedindo para corrigir erros gramaticais, etc"..."Reescreve as frases de forma mais correta e com um linguajar mais preciso"...Mostrando os erros e propondo uma alternativa válida, mas também explicando o porquê dos erros….Corrigindo os termos errados…Melhorando a sintaxe….Envio o texto e peço eventuais erros…Pedindo uma tradução e revisando as partes não claras. Isso implica um pré-conhecimento da língua…Verifica a gramática e sugere as melhores alternativas".. Fonte: Autoria própria (2024).
Não utiliza como estratégia pedagógica "Não o uso para isso….Nunca o usei….Não o faz….Não o utilizo….Nunca tentei…Não o uso para correções…Nunca o usei para este propósito….Nem sempre é a melhor ferramenta para corrigir textos, mas pode dar uma primeira visão de possíveis erros…Não o utilizo muito para a correção".. Fonte: Autoria própria (2024).

As instituições de ensino têm um papel fundamental na redução dos efeitos disruptivos da tecnologia de IA e na promoção da integridade acadêmica. Esse propósito pode ser atingido por meio do desenvolvimento de políticas e diretrizes claras, bem como da criação de métodos de avaliação que restrinjam a quantidade de texto gerado por IA (Adeshola & Adepoju, 2023). Outra alternativa é a incorporação da tecnologia nas salas de aula, embora essa prática nem sempre assegure a equidade, e ainda existam muitos desafios e lacunas a serem superados entre a tecnologia e os aspectos socioculturais, que contribuem para a exclusão digital, conforme observam Li et al. (2023) e Kohnke et al. (2023). As diferenças na infraestrutura entre regiões, tanto em um mesmo país quanto dentro das cidades, limitam de forma significativa o acesso à tecnologia, afetando tanto professores quanto alunos (Serhan et al, 2024).

Além disso, o ChatGPT, por se basear em um conjunto de dados padronizado, pode não levar em conta as variações e línguas minoritárias que fazem parte do sistema de uma língua (Langue - Saussure), o que pode resultar em respostas que não são culturalmente sensíveis, inclusivas ou livres de preconceitos, incluindo os linguísticos. Isso reforça a necessidade de refinamentos contínuos no software, conforme destacado por Kasneci et al. (2023). A docência pode contribuir ao promover uma discussão crítica e incentivar debates com os alunos sobre a eliminação da alteridade, ressaltando uma dimensão frequentemente negligenciada, a de que a tecnologia, como um "código técnico" (Feenberg, 2002), nunca é neutra. Certos sistemas tecnológicos estão, em diferentes graus e com variados níveis de consciência, ligados a formas específicas de organização de poder e autoridade (Winner, 1986).

A investigação empírica ainda está em andamento e, embora muitos benefícios sejam evidentes em estudos fragmentados, incluindo o aprimoramento das habilidades de conversação, faltam estudos abrangentes sobre sua integração, bem como perspectivas dos professores em diferentes contextos educacionais (Serhan et al, 2024).

As políticas de integridade acadêmica nas instituições de ensino superior devem ser atualizadas para abordar o uso dessas ferramentas em ambientes educacionais futuros (Perkins, 2023). Essas estratégias incluem o desenvolvimento de políticas e procedimentos, a oferta de formação e apoio, e a utilização de diversos métodos para detectar e prevenir fraudes. Apesar dos desafios, a implementação ética e proativa de ferramentas de IA no ensino superior pode transformar essas preocupações em oportunidades (Cotton et al., 2024) e melhorar a interação humano-IA e a abordagem da inclusão digital (Ray, 2023). Nesse sentido, o uso do ChatGPT na educação exige respeito pela privacidade, justiça e não discriminação, transparência no uso do ChatGPT, e outros fatores que foram incluídos no documento (Mhlanga, 2023).

É relevante que os professores sejam capacitados para utilizar essas ferramentas de maneira adequada (Montenegro-Rueda, 2023) e que avaliem criticamente qualquer recurso gerado pela IA, adaptando-o aos contextos específicos de ensino (Cooper, 2023). O ChatGPT pode aumentar o acesso à informação, facilitar a aprendizagem personalizada e complexa, e diminuir a carga de trabalho docente, tornando assim os principais processos e tarefas mais eficientes (Farrokhnia et al, 2024). A educação digital visa formar cidadãos capazes de usar ferramentas tecnológicas em seu dia a dia com ética e responsabilidade (De Jesus et al, 2024).

Para mitigar os problemas relacionados ao uso excessivo de ferramentas de IA, como o ChatGPT, e à padronização linguística, algumas estratégias pedagógicas podem ser implementadas de forma integrada. A discussão destaca a importância de uma governança ética robusta, a cooperação entre as partes envolvidas, a promoção de educação contínua e o desenvolvimento de algoritmos transparentes e auditáveis (Limongi, 2024).

Uma abordagem eficaz seria a promoção de atividades que incentivem a reflexão crítica sobre o impacto da IA no aprendizado. Para que a IA possa contribuir de forma eficaz e ética, é fundamental investir em infraestrutura tecnológica, capacitar os profissionais da educação e fomentar discussões sobre a inclusão digital (Regis et al, 2025). Por exemplo, debates sobre ética e o papel da IA na educação, nos quais os alunos possam discutir como essas ferramentas influenciam sua aprendizagem e questionar suas limitações, poderiam ser realizados. Além disso, a redação crítica sobre o papel da IA no ensino pode ajudar a aprofundar a compreensão dos alunos sobre suas implicações sociais e educacionais.

Além dessas iniciativas, a personalização do aprendizado pode mitigar os impactos da padronização linguística e do uso excessivo de IA. Ferramentas adaptativas podem oferecer trajetórias individualizadas e feedback personalizado, promovendo maior autonomia no aprendizado, assim como metodologias ativas. Na aprendizagem baseada em projetos (ABP), por exemplo, os alunos podem desenvolver diretrizes éticas para o uso da IA em diferentes áreas do conhecimento, incentivando a reflexão crítica e ética (Moran, 2024). Já na sala de aula invertida (SAI), outra possibilidade, a IA pode ser utilizada na pesquisa prévia, seguida por discussões mediadas pelo professor sobre suas limitações e impactos, conectando conhecimentos, ambiente e sujeitos. Diga-se também, por oportuno, que o ensino de literacia digital e informacional deve ser integrado ao currículo, como lugar inicial inclusive de formação de professores (Santos et al, 2021). Dessa forma, estratégias pedagógicas que combinem personalização, metodologias ativas e literacia digital mostram-se um possível caminho para um uso crítico e ético da IA na educação.

Outra estratégia relevante seria a implementação de projetos de pesquisa colaborativa, nos quais os alunos investiguem os impactos da IA em diferentes áreas do conhecimento, como educação, saúde e mercado de trabalho. Essa pesquisa poderia ser complementada com a análise das limitações da IA, incentivando os estudantes a refletirem sobre situações em que a tecnologia falha ou não consegue substituir habilidades humanas, como criatividade e julgamento ético. Esse tipo de atividade promove um entendimento mais profundo das capacidades e limitações da IA, ao mesmo tempo em que favorece a colaboração e o pensamento crítico. A importância acadêmica deste estudo reside na sugestão de um novo paradigma para a pesquisa científica, mais transparente e colaborativo, que favorece a confiança nos resultados obtidos e contribui para o fortalecimento do conhecimento produzido (Limongi et al, 2025).

  • 1
    “A tecnologia certamente promove a autonomia do aluno, mas o processo de aquisição da língua, embora potencializado pela tecnologia, ainda requer orientações meticulosas e momentos de supervisão que exigem a presença de um verdadeiro professor de línguas.” (Peppoloni, 2019, p. 69-70) - tradução livre, feita pelas autoras.
  • CONJUNTO DE DADOS DE PESQUISA
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  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.
  • CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM
    Não se aplica
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Não se aplica.
  • PUBLISHER
    Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação. Publicação no Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

REFERÊNCIAS

Editado por

  • EDITORES
    Edgar Bisset Alvarez, Ana Clara Cândido, Patrícia Neubert, Genilson Geraldo, Jônatas Edison da Silva, Mayara Madeira Trevisol, Edna Karina da Silva Lira e Luan Soares Silva.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    16 Out 2024
  • Aceito
    30 Dez 2024
  • Publicado
    14 Mar 2025
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