Open-access IMPLICAÇÕES DA INTERNACIONALIZAÇÃO SOBRE AS PRÁTICAS EDITORIAIS DE PERIÓDICOS DAS CIÊNCIAS HUMANAS NO BRASIL E NA ARGENTINA

Implications of the internationalization on the editorial practices of Human Sciences journals in Brazil and Argentina

RESUMO

Objetivo:  A adoção de critérios de internacionalização como indicador de relevância da produção acadêmica tem afetado tanto instituições, programas de pós-graduação e pesquisadores, como também os periódicos científicos. Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa sobre os impactos da internacionalização da produção científica sobre as políticas e práticas editoriais de periódicos da área de ciências humanas no Brasil e na Argentina.

Método:  Os dados foram obtidos por meio de um questionário online enviado a editores de 372 periódicos indexados nas bases de dados Latindex, Redalyc ou SciELO, sendo 195 brasileiros e 177 argentinos, com uma taxa de resposta de 26,3% (N=98).

Resultado:  Os periódicos são caracterizados em relação a área de conhecimento, periodicidade, plataforma de publicação, fontes de recursos e indexação. Apresenta as práticas editoriais consideradas prioritárias para promover a internacionalização, segundo a opinião dos editores, e quais dessas práticas já foram ou serão adotadas pelos periódicos.

Conclusões:  O estudo demonstrou que os editores reconhecem a importância da internacionalização e que essa demanda tem gerado mudanças no modo de operação das revistas. No entanto, editores argentinos e brasileiros apresentaram diferentes prioridades e estratégias. Os editores argentinos focam em melhorias na gestão editorial e na colaboração internacional, enquanto os editores brasileiros priorizam a publicação em inglês e mudanças no conselho editorial para aumentar a visibilidade internacional dos periódicos.

PALAVRAS-CHAVE:
Internacionalização; Periódicos Científicos; Editores Científicos; Gestão Editorial; Ciências Humanas.

ABSTRACT

Objective:  The adoption of internationalization criteria as an indicator of the relevance of academic production has affected institutions, graduate programs, and researchers, as well as scientific journals. This article presents the results of a study on the impacts of the internationalization of scientific outputs on the editorial policies and practices of journals in the Humanities in Brazil and Argentina.

Methods:  Data was obtained through an online questionnaire sent to editors of 372 journals indexed in the Latindex, Redalyc, or SciELO databases, 195 of which were Brazilian and 177 Argentine, with a response rate of 26.3% (N=98).

Results:  The results are presented in four sections: methodology, characterization of the journals, relationships between internationalization and editorial practices, and conclusions.

Conclusions:  The study demonstrated that editors recognize the importance of internationalization and that it has led to changes in the way journals operate. However, Argentine and Brazilian editors presented different priorities and strategies. Argentine publishers focus on improvements in editorial management and international collaboration, while Brazilian publishers prioritize publishing in English and changes in the editorial board to increase the international visibility of journals.

KEYWORDS:
Internationalization; Scientific Journals; Scientific Editors; Editorial Management; Humanities.

1 INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objetivo apresentar evidências dos impactos gerados pelos esforços de internacionalização da produção científica sobre as políticas e práticas editoriais de periódicos das ciências humanas1 no Brasil e na Argentina, trazendo dados empíricos que ampliam o debate para além das discussões teóricas que vêm ocorrendo nas últimas décadas sobre os desafios da internacionalização de periódicos das ciências humanas na América Latina (Aguado-López; Becerríl-García, 2016; Amado; Fávero; Garcia, 1993; Bonini, 2004; Borrego; Urbano, 2006; Santoro et al., 2013; Santos; Caballero-Rivero; Sánchez-Tarragó, 2018; Yamamoto et al., 2002).

Nas últimas duas décadas, a atividade científica nas universidades e instituições de pesquisa latino-americanas vem sendo fortemente transformada pela “globalização acadêmica” (Richard, 2005), acentuando as desigualdades existentes na circulação internacional do conhecimento científico (Babini; Rovelli, 2020; Maia; Medeiros, 2020). Nesse período, a internacionalização passou a ser um importante indicador de relevância do conhecimento produzido, e se consolidou como um dos principais quesitos de avaliação da pesquisa e dos programas de pós-graduação, tanto no Brasil (Fiorin, 2007; Feijó; Trindade, 2021), como na Argentina (Baranger; Beigel, 2023), reforçando uma lógica de competição que impõe pressões e critérios homogeneizantes às diversas áreas do conhecimento. Esse tipo de avaliação aplicado aos programas de pós-graduação, cujos critérios e instrumentos estão calcados no paradigma epistemológico das ciências naturais (Santos; Noronha, 2013), afetam não somente as instituições e os pesquisadores, como também as revistas acadêmicas (Araújo; Fernandes, 2021; Baranger; Beigel, 2023; Peci, 2021).

Relatos de editores científicos de periódicos de diversas áreas do conhecimento (Carvalho; Sasseron, 2014; Diniz, 2011; Duarte, 2016; Maheirie; Seibel, 2014; Mascarenhas; Lazzarotti Filho; Vianna, 2018; Padilha et al., 2014; Peci, 2016, 2021; Santoro et al., 2013; Zusman, 2022) revelam que as pressões institucionais e acadêmicas para a internacionalização os forçam a atenderem a demandas que, em muitos casos, não se alinham à missão e aos objetivos da revista. Além disso, geram sobrecargas adicionais, como custos com a tradução de artigos para o idioma inglês, mudanças na política editorial e no fluxo de trabalho, e a necessidade de indexar a revista em determinadas bases de dados. Os resultados desses esforços nem sempre são satisfatórios, persistindo a escassez de citações recebidas e o constante questionamento a respeito do aumento da visibilidade internacional (Lucio-Arias; Velez-Cuartas; Leydesdorff, 2015).

Como já apontava Meadows (1999), as ciências humanas são tradicionalmente pressionadas a seguir os caminhos legitimados pelas Ciências Naturais, uma concepção que se estende à comunicação científica e aos padrões de produtividade acadêmica. Os desafios da internacionalização da produção científica se diferenciam de acordo com as características de cada país, de cada área do conhecimento e de suas diversas culturas de publicação (Fiorin, 2007; Santin; Vanz; Stumpf, 2016). Porém, independentemente da região ou idioma de publicação, os periódicos das ciências humanas encontram-se em uma posição particularmente vulnerável nessa arena (Baranger; Beigel, 2023; Benchimol; Cerqueira; Papi, 2014; Kulczycki et al., 2018; Silveira; Benedet; Santillán-Aldana, 2018; Vasen; Lujano Vilchis, 2017).

Duas características das ciências humanas são apontadas como um desafio adicional aos critérios homogeneizantes das políticas de internacionalização: sua cultura de publicação, que tradicionalmente privilegia o livro - e não o artigo científico - como formato de publicação; e a natureza do seu objeto de estudo, que tende a se debruçar sobre temas orientados para uma audiência nacional ou regional e, logo, a publicar seus resultados no idioma local (Fiorin, 2007; Jokic; Sirotic, 2015; Sivertsen, 2016).

O potencial de produção e circulação acadêmica dos periódicos de ciências humanas na América Latina foi destacado por Córdoba González (2014), não somente devido ao volume considerável dessa área em relação ao total de publicações na região, mas por sua importância como fontes de conhecimento autóctone e de desenvolvimento da pesquisa local e regional. Segundo dados do Diretório Latindex2, em outubro de 2021, aproximadamente 43% do total de periódicos publicados nos países da América Latina estavam classificados sob as disciplinas das ciências humanas, tal como definidas no escopo desta pesquisa (ver Seção 2). Na base de dados SciELO, os periódicos de ciências humanas correspondem a 30% do total de títulos indexados, considerando as coleções da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México. Na plataforma Redalyc, 36% dos periódicos indexados são de disciplinas das ciências humanas.

Beigel (2014, p. 7) reforça que as plataformas Latindex, Redalyc e SciELO constituem o que poderia ser chamado de “circuito editorial latino-americano”, formado por publicações que passaram por um processo de certificação de qualidade, amparados por critérios de avaliação de seu conteúdo acadêmico e de boas práticas de edição (Beigel et al., 2022). Segundo Chavarro (2012), o surgimento desses índices bibliográficos foi amplamente motivado pela necessidade de dar visibilidade e certificar a qualidade da pesquisa que não é indexada pela Web of Science ou Scopus, o que contribuiu para facilitar a consulta, o acesso e a análise da produção bibliográfica da América Latina. A busca pela indexação nessas plataformas indica que os periódicos possuem a ambição explícita de ampliar a sua visibilidade internacional, o que é “de particular importância para a circulação internacional do conhecimento” (Heilbron et al., 2017, p. 135).

O Brasil e a Argentina são países onde a produção das ciências humanas publicada em periódicos locais se destaca em relação a outras áreas do conhecimento. De acordo com estudo de Beigel e Digiampietri (2022), 73% da produção científica brasileira em ciências sociais e humanas, que inclui também as áreas de ciências sociais, economia, linguística e serviço social, é publicado em revistas brasileiras. Na Argentina, o total de publicações dessas áreas em revistas argentinas é de 40%, o que, apesar de ser menor do que no Brasil, representa uma parcela elevada quando comparada a outras áreas do conhecimento.

Também é interessante notar que ambos os países possuem sistemas de avaliação acadêmica baseados na produtividade e fortemente internacionalizados, privilegiando os indicadores de impacto das revistas e a publicação em inglês como critérios para a avaliação de pesquisadores e de periódicos (Beigel; Digiampietri, 2022; Salatino, 2010). Isto, apesar de que também apresentam características que os diferenciam, como uma maior intervenção do Estado sobre as políticas universitárias, no caso do Brasil, frente a uma maior autonomia das universidades argentinas, o que se reflete em processos de avaliação mais limitados e heterogêneos (Unzué, 2013).

Dessa forma, a escolha do recorte geográfico deve-se tanto à relevância da contribuição acadêmica do Brasil e da Argentina para as ciências humanas na América Latina, como para permitir comparar tendências entre os dois países.

Na seção 2 deste artigo, delineamos o desenho e a metodologia empregados na pesquisa junto aos editores científicos. A seção seguinte apresenta a caracterização dos periódicos que participaram do estudo. A quarta seção aborda as mudanças nas políticas e práticas editoriais desses periódicos relacionadas à internacionalização. Por fim, apresentamos as conclusões derivadas deste estudo.

2 METODOLOGIA

Realizamos um estudo quantitativo com o objetivo de identificar mudanças nas políticas e práticas editoriais dos periódicos da área de ciências humanas do Brasil e da Argentina relacionadas aos esforços para a internacionalização, bem como coletar evidências da percepção dos editores em relação a essas mudanças.

A amostra inclui periódicos ativos publicados no Brasil ou na Argentina e indexados em pelo menos uma das seguintes plataformas regionais: Latindex Catálogo, Redalyc ou SciELO. Utilizamos como critério de delimitação temática as 10 áreas do conhecimento que compõem a Grande Área das ciências humanas definidas na Tabela de Áreas do Conhecimento adotada pelo CNPq3 e pela Capes4: Antropologia, Arqueologia, Ciência Política, Educação, Filosofia, Geografia, História, Psicologia, Sociologia e Teologia. Para a composição da amostra, recuperamos os títulos e ISSN dos periódicos classificados sob cada uma dessas áreas nas 3 bases de dados analisadas. Após o cruzamento dos dados e eliminação de duplicidades, identificamos 372 títulos de periódicos, sendo 195 publicados no Brasil e 177 na Argentina.

Enviamos aos editores dos periódicos identificados um convite por e-mail para participarem da pesquisa, contendo um link para o questionário online composto por 23 perguntas. A coleta de dados ocorreu no período de 21 de junho a 17 de julho de 2022, utilizando a ferramenta KoboToolbox5. Todos os participantes declararam estar de acordo com o termo de consentimento informado, apresentado no início da pesquisa, antes de acessarem o questionário. Após o tratamento dos dados obtidos, foram registradas 98 respostas válidas, alcançando uma taxa de resposta de 26,3%.

Na primeira parte do questionário, foram coletados dados de identificação do periódico, como título, ISSN, país de publicação, área do conhecimento, frequência e plataforma de publicação, indexação em bases de dados, e fontes de financiamento. A segunda parte investigou a percepção dos editores sobre a importância de determinadas práticas editoriais, e o estágio de adoção dessas práticas pela revista. O último bloco de perguntas focou em identificar as mudanças implementadas na política ou na gestão editorial com o objetivo de promover a internacionalização, assim como os fatores que as motivaram.

3 CARACTERIZAÇÃO DOS PERIÓDICOS

Do total de 98 periódicos respondentes, a distribuição por país revelou um relativo equilíbrio, com 52 revistas (53%) do Brasil e 46 (47%) da Argentina.

Em relação à área de conhecimento principal declarada pelos respondentes (Gráfico 1), A Educação é uma das áreas com o maior número de revistas, especialmente no Brasil, com 16 periódicos. A Argentina possui um maior número de revistas na área de História, com 7 revistas, seguida pela Educação e pela Sociologia, com 6 revistas cada. Apesar de todas as revistas da amostra estarem indexadas nas bases de dados consultadas sob uma das áreas classificadas como ciências humanas, 9 revistas de cada país selecionaram a opção “Outra”, indicando uma ou mais das seguintes áreas do conhecimento como principal: Avaliação, Ciências Sociais, Estudos Clássicos, Etno-história, Física, Humanidades, Multidisciplinar, Restauração, Conservação e História da Arte.

Gráfico 1
Área de conhecimento principal dos periódicos, por país

Em relação à frequência de publicação, o Gráfico 2 mostra que, no Brasil, a periodicidade mais comum é o fluxo contínuo (35%), seguido por quadrimestral (29%), semestral (13%) e trimestral (11%). A maior parte dos periódicos argentinos são semestrais (61%), com uma presença significativa de revistas anuais (22%).

Gráfico 2
Frequência de publicação dos periódicos, por país

Quanto à plataforma utilizada para a publicação dos artigos, 96% dos periódicos argentinos priorizam a publicação em site próprio da revista (Gráfico 3). No Brasil, apesar de 54% estarem nessa mesma categoria, a plataforma SciELO foi indicada como opção preferencial por 37% das revistas. Na opção “Outra”, indicada por 6% das revistas brasileiras, foram mencionadas as plataformas de publicação PePSIC e Open Edition. Nenhuma revista selecionou a opção de publicação em “Site de editora comercial”, embora estivesse disponível no questionário.

Gráfico 3
Plataforma priorizada para publicação de artigos, por país

O atendimento a diretrizes institucionais foi apontado por 59% dos periódicos argentinos e 25% dos brasileiros como o principal motivo para a escolha da plataforma de publicação (Gráfico 4). O maior controle do processo editorial foi apontado por 21% dos editores brasileiros como principal fator para a escolha da plataforma de publicação, seguido pela visibilidade (15%) e prestígio (15%). Na Argentina, o controle do processo editorial aparece com a mesma frequência que o custo (11%).

Gráfico 4
Principal motivo para escolha da plataforma de publicação

Quanto à fonte de recursos financeiros, 59% dos periódicos argentinos afirmam se manter com trabalho voluntário, ou seja, sem qualquer tipo de financiamento (Gráfico 5). A metade das revistas brasileiras e 39% das argentinas recebem algum tipo de financiamento institucional. A cobrança de taxas de processamento de artigos (APC, do inglês article processing charge) foi indicada apenas por 2% das revistas brasileiras. Outras fontes de financiamento declaradas foram: associações, fundações e institutos (5); e convênio (1).

Gráfico 5
Principal fonte de financiamento do periódico, por país

A análise da distribuição das revistas em relação às plataformas de indexação revela algumas tendências importantes (Gráfico 6). A Latindex é a plataforma mais comum, indexando 100% dos periódicos argentinos e 83% dos brasileiros. Os periódicos brasileiros se destacam nas outras bases de dados do corpus da pesquisa, com 60% dos títulos indexados na Redalyc e 46% no SciELO, enquanto os periódicos argentinos alcançam 41% e 24%, respectivamente.

Gráfico 6
Frequência e porcentagem de indexação em bases de dados, por país

Também identificamos se os periódicos estão indexados nas bases de dados Directory of Open Access Journals (DOAJ), Scopus (Elsevier) e Web of Science (Clarivate). O DOAJ tem uma presença significativa, com 77% dos periódicos do Brasil e 72% da Argentina indexados. A Scopus indexa 42% das revistas brasileiras e 17% das argentinas. A Web of Science tem a menor representação, com somente 21% das revistas brasileiras e 9% das argentinas.

Para além das opções pré-definidas, 65% dos periódicos argentinos e 52% dos brasileiros declararam estar indexados também em outras bases de dados. Foram listadas 123 respostas, sendo as seguintes bases de dados mais mencionadas pelos editores: European Reference Index for the Humanities (ERIH PLUS) (21); Red Iberoamericana de Innovación y Conocimiento Científico (REDIB) (20); Dialnet (16); Red Latinoamericana de Revistas académicas en Ciencias Sociales y Humanidades (LatinREV) (13); Matriz de Información para el Análisis de Revista (MIAR) (13); Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y Humanidades (CLASE) (11); Núcleo Básico de Revistas Científicas Argentinas (NBRA) (11); e Sumários.org (11). Nota-se que as respostas dos editores a essa pergunta incluem tanto bases de dados indexadoras, como diretórios de revistas, o que revela um possível desconhecimento dos editores sobre as diferenças entre esses tipos de recursos.

Alguns periódicos indicaram que recebem incentivos ou subvenções institucionais por estarem indexados em uma base de dados específica, conforme ilustrado no Gráfico 7.

Gráfico 7
Indexações requeridas para subvenção institucional, por país

Gráfico 8
Práticas editoriais mais importantes para a internacionalização

4 RELAÇÕES ENTRE A INTERNACIONALIZAÇÃO E PRÁTICAS EDITORIAIS

A história da ciência nos mostra que a dimensão internacional quase sempre esteve presente nos avanços do conhecimento científico (Sebastián, 2008) e cada vez mais, constitui uma questão central nos debates sobre os rumos da ciência em todo o mundo, com especial atenção por parte de pesquisadores e governos dos países em desenvolvimento (Santin; Vanz; Stumpf, 2016). O Manual de Indicadores de Internacionalización de la Ciencia y la Tecnología - Manual de Santiago, publicado pela Red Iberoamericana de Indicadores de Ciencia y Tecnologia (RICyT), destaca que a internacionalização é vista como essencial para o desenvolvimento científico em um mundo interconectado, melhorando a qualidade das atividades científicas, a formação de recursos humanos, a circulação de informação, a criação de capacidades, a projeção de resultados e a cooperação internacional (Manual de Santiago, 2009).

Além de ser um indicador importante da relevância do conhecimento produzido, a internacionalização “é um dos quesitos de avaliação dos programas de pós-graduação e tema de discussão na pauta de pesquisadores, editores de revistas e dirigentes de entidades científicas” (Goulart; Carvalho, 2008). Isso é evidenciado pelo fato de que 98% dos editores consultados na presente pesquisa consideram importante promover a internacionalização dos periódicos das ciências humanas.

Perguntados sobre quais são as práticas editoriais consideradas prioritárias para promover a internacionalização, 38% dos editores argentinos indicaram a indexação em bases de dados de acesso aberto, como SciELO, Redalyc e DOAJ, seguido pela publicação de artigos de autores com afiliação estrangeira (24%) e da presença de pesquisadores estrangeiros no conselho editorial (10%). No Brasil, a prática editorial prioritária envolve a publicação dos artigos em inglês, seja em parte da revista (27%) ou em versão bilíngue (23%), seguida da indexação em bases de dados de citação, como Scopus e Web of Science (15%).

Aqui, vemos uma diferença importante da perspectiva adotada em cada país. Enquanto, na Argentina, o foco principal é a visibilidade das publicações em acesso aberto e a colaboração com pesquisadores estrangeiros, seja como autores ou membros do conselho editorial, os editores brasileiros estão claramente preocupados com o idioma da publicação e a inserção do periódico em circuitos de citação internacional.

É possível inferir que tais inclinações estão alinhadas com as políticas de avaliação e fomento de periódicos adotadas em cada país. Na Argentina, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Mincyt) tem um histórico reconhecido na promoção do acesso aberto a publicações científicas. Em 2013, foi sancionada a Lei nº 26.899, que estabelece a política pública de Acesso Aberto à produção científico-tecnológica nacional financiada com recursos públicos, regulamentada em 2016 com a criação do Sistema Nacional de Repositórios Digitais (Argentina, 2016). Em 2023, foi aprovada a criação do Programa Diamante para apoiar o fortalecimento das publicações científicas argentinas de acesso aberto (Argentina, 2023). Além disso, o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) conta com um regulamento especial para as ciências sociais e humanas, que equipara os serviços de indexação internacionais aos regionais, como o SciELO ou o Catálogo Latindex, inclusive estimulando seus pesquisadores a publicar em revistas indexadas nestas bases (Beigel; Digiampietri, 2022).

Por outro lado, os periódicos brasileiros sofrem maior influência das políticas de avaliação da SciELO, cujos esforços de internacionalização buscam “maximizar o número de artigos originais e de revisão no idioma inglês” (Scielo, 2022, p.19). Para a área de ciências humanas, por exemplo, a SciELO recomenda que no mínimo 35% dos artigos originais e de revisão sejam publicados no idioma inglês.

Além disso, por muito tempo, o Qualis Periódicos foi uma importante referência de qualidade para as revistas brasileiras, apesar de ser um instrumento criado pela Capes para a avaliação dos cursos de pós-graduação no Brasil. Um estudo de Vogel (2017) mostrou que diversas áreas das ciências humanas utilizaram indicadores bibliométricos e a indexação em uma base de dados internacional, como Scopus ou Web of Science, como critério de classificação das revistas no Qualis Periódicos6.

Outras práticas de promoção da internacionalização mencionadas pelos editores nos comentários abertos foram: adoção da ciência aberta, divulgação em redes internacionais, parceria com instituições estrangeiras e aumento da qualidade no processo de avaliação de artigos.

Além de identificar as práticas consideradas prioritárias, também consultamos se o periódico já adotou, ou se pretende ou não adotar algumas ações para a internacionalização (Gráfico 9).

Gráfico 9
Adoção de práticas editoriais para a internacionalização, por país

No Gráfico 9, vemos que a maioria dos periódicos, tanto argentinos (93%) como brasileiros (83%), já convida pesquisadores estrangeiros para publicar, bem como para revisar artigos (98% na Argentina e 92% no Brasil). Muitos também incluem pesquisadores estrangeiros no conselho editorial (76% na Argentina e 92% no Brasil).

No Brasil, mais periódicos já publicam artigos em idiomas estrangeiros diferentes do inglês (85%) em comparação com a Argentina (63%). Há também entre os periódicos brasileiros um maior número de edições bilíngues (19%) e de intenção de adotar a publicação bilíngue no futuro (29%), enquanto, na Argentina, poucos publicam edições bilíngues (2%) ou pretendem adotar essa prática (20%).

A indexação em bases de dados de citação e o pedido de financiamento ou avaliação aparecem como as principais estratégias a serem adotadas em ambos os países: 70% dos periódicos argentinos e 44% dos brasileiros pretendem submeter-se para indexação em bases de dados de citação. Muitos periódicos já solicitaram financiamento ao CNPq (52%) ou a avaliação ao CAICYT (54%), e outros (38% no Brasil e 26% na Argentina) pretendem solicitar. A grande maioria das revistas na Argentina e no Brasil (98% e 94%, respectivamente) não pretende usar a publicação por editora comercial estrangeira como estratégia para a internacionalização.

Essas tendências mostram um esforço contínuo para aumentar a internacionalização e a visibilidade dos periódicos científicos, tanto na Argentina quanto no Brasil. No entanto, há diferenças significativas em algumas áreas, como a indexação em bases de dados de citação e a adoção de sistemas de gestão editorial em inglês, onde o Brasil está mais avançado.

Por último, pedimos aos editores que comentassem qual foi a mudança adotada na política ou na gestão editorial da revista que se mostrou mais relevante para a internacionalização e por qual motivo. Os editores argentinos destacaram com maior frequência a adoção do DOI (Digital Object Identifier), frequentemente associada a outras melhorias na gestão editorial, como a verificação de plágio e o uso de ORCID (Open Researcher and Contributor ID), que são vistas como essenciais para atender às exigências das bases indexadoras e aumentar a segurança e o alcance dos artigos publicados. Também mencionaram a inclusão de pesquisadores estrangeiros no conselho editorial ou como autores, como uma estratégia para fortalecer as redes de colaboração internacional e aumentar a credibilidade dos periódicos.

Os editores brasileiros destacaram a importância da publicação de artigos em inglês ou em versão bilíngue como uma mudança relevante para a internacionalização, bem como alterações no conselho editorial. Com menor frequência, aparecem a indexação do periódico, a publicação de artigos de autores estrangeiros e a adoção de normas para a publicação.

5 CONCLUSÕES

O estudo demonstrou que, na percepção dos editores, é importante promover a internacionalização dos periódicos das ciências humanas, e o reconhecimento dessa importância tem gerado mudanças no modo de operação das revistas.

A busca pela internacionalização envolve várias estratégias e mudanças nas práticas editoriais para aumentar a visibilidade e o impacto das revistas no cenário global. Apresentamos a seguir as principais conclusões, derivadas deste estudo, a respeito dos impactos da internacionalização da produção científica nas políticas e práticas editoriais de periódicos de ciências humanas no Brasil e na Argentina.

A principal prática editorial adotada para promover a internacionalização dos periódicos, tanto no Brasil como na Argentina, é a colaboração com pesquisadores de afiliação estrangeira, seja como revisores, membros do comitê editorial ou autores. Segundo Jesús Sebastián (2008), a colaboração com autores estrangeiros é uma evidente manifestação de internacionalização, que oferece muitas oportunidades, mas também apresenta riscos, devido a assimetrias regionais e institucionais, falta de compromisso do pesquisador estrangeiro, problemas de liderança e dependência.

A publicação de artigos em inglês ou em versão bilíngue é uma prática mais comum no Brasil. No entanto, chama a atenção a alta frequência, nos dois países, da publicação de artigos em outros idiomas além do inglês, indicando que a expansão do alcance da revista pode se dar em outros espaços além daqueles considerados mainstream, dominados pelo inglês.

A indexação do periódico em bases de dados de acesso aberto, como SciELO, Redalyc e DOAJ, também aparece como uma ação prioritária. O fato de as revistas analisadas já estarem indexadas em pelo menos uma base de dados de acesso aberto de alcance regional é uma evidência da sua qualidade editorial, tendo em vista que passaram por uma avaliação com base nos critérios estabelecidos por essas bases, e indica o esforço por obter maior visibilidade e alcance. Esse aspecto se confirma quando vemos que uma das estratégias que essas revistas pretendem adotar para a internacionalização é a indexação em bases de dados de citação, como Scopus e Web of Science. De fato, nessas bases é onde o conjunto de revistas estudado se encontra menos representado, como já havia identificado Salatino (2010) em relação aos periódicos latino-americanos.

No entanto, a periodicidade anual ou semestral de algumas revistas, principalmente na Argentina, limita a possibilidade de se candidatarem a outras plataformas de indexação que exigem uma frequência de publicação mais alta.

Alguns editores mencionaram a falta de financiamento como um desafio significativo, que pode limitar a capacidade de adotar práticas editoriais que promovem a internacionalização, como a publicação de artigos em múltiplos idiomas, a inclusão de editores e revisores internacionais, e a indexação em bases de dados internacionais.

A adoção dessas mudanças mostra que a busca pela internacionalização influencia as práticas editoriais dos periódicos da área de ciências humanas, que são capazes de implementá-las mesmo quando recebem pouco ou nenhum financiamento institucional para a manutenção da revista, o que é o caso de metade das revistas brasileiras e mais da metade das argentinas.

A solicitação de financiamento pelos organismos nacionais de apoio à publicação científica - no caso do Brasil, o CNPq, e na Argentina, o MINCYT - é uma das prioridades identificadas, ressaltando a necessidade de investimento para possibilitar a melhoria da publicação acadêmica. É interessante notar que, em ambos os países, não se cogita publicar a revista através de uma editora comercial estrangeira.

Os comentários dos editores sobre as mudanças mais relevantes para a internacionalização revelam diferenças nas prioridades e estratégias adotadas por editores argentinos e brasileiros. Enquanto os editores argentinos focam em melhorias na gestão editorial - como a adoção do DOI, a verificação de plágio e o uso de ORCID - e na colaboração internacional, os editores brasileiros priorizam a publicação em inglês ou em versão bilíngue e a estruturação do conselho editorial para aumentar a visibilidade internacional dos periódicos.

As tendências identificadas indicam um movimento claro dos editores de periódicos das ciências humanas em direção à internacionalização, com o objetivo de aumentar a visibilidade, a acessibilidade e a credibilidade dessas revistas.

É importante reconhecer duas limitações associadas aos resultados apresentados. A primeira em relação ao recorte geográfico, que incluiu apenas dois países da América Latina, mas poderia ser estendido a outros países com produção científica relevante na região. E em segundo lugar, a representatividade dos dados pode ser afetada pela taxa de resposta moderadamente baixa, limitando a generalização dos resultados. Apesar dessas limitações, acreditamos que o recorte geográfico escolhido e a taxa de resposta obtida ainda fornecem uma amostra significativa para análise e oferecem insights valiosos sobre as políticas e práticas editoriais dos periódicos na área de ciências humanas.

Além das conclusões, este estudo levanta questões importantes para futuras pesquisas sobre a internacionalização da produção científica nas ciências humanas. Primeiramente, é necessário buscar formas de mensurar a eficácia dessas ações para a internacionalização em relação ao alcance de seus objetivos e resultados esperados, como a circulação e o intercâmbio de ideias, metodologias e teorias, a colaboração entre pesquisadores de diferentes países, a formação de redes de pesquisa mais robustas e diversificadas, e o aumento do impacto dos estudos realizados. Outro ponto importante é entender a dinâmica de interação com os sistemas de avaliação acadêmica, considerando que a internacionalização também pode contribuir para acentuar desigualdades, especialmente se os critérios de avaliação e financiamento adotados forem predominantemente baseados em padrões e métricas de países desenvolvidos. Por fim, recomendamos explorar se as ações para a internacionalização também geram impacto significativo na produção científica das ciências humanas para além das práticas editoriais, e quais seriam as suas implicações para a comunidade científica e para a sociedade. Essas perguntas em aberto oferecem um caminho promissor para aprofundar o conhecimento sobre os efeitos e desafios da internacionalização no campo da publicação acadêmica.

REFERÊNCIAS

Editado por

  • EDITORES
    Edgar Bisset Alvarez, Patrícia Neubert, Genilson Geraldo, Camila De Azevedo Gibbon, Jônatas Edison da Silva, Luan Soares Silva, Marcela Reinhardt e Daniela Capri.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Out 2024
  • Aceito
    28 Fev 2025
  • Publicado
    09 Maio 2025
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