O presente artigo tem como núcleo um exame psicológico dos testemunhos de hibakusha, mais especificamente da história da sobrevivente Keiko Ogura. Para que esse exame pudesse ser realizado, foi dada atenção especial a dois fenômenos psicológicos fundamentais para a compreensão dessas memórias: o trauma e o sentimento de culpa. O trauma será abordado como uma vivência transbordante que deixou para trás enigmas traumáticos e que exigiu dos sobreviventes uma apropriação do passado em sua dimensão tanto biográfica quanto histórico-política, numa importante tentativa de atribuir alguma forma e sentido ao evento incompreensível que os sobreviventes vivenciaram. Nesse percurso, muitos hibakusha foram tomados por angústia, a qual por vezes os fez se organizar como culpados, um sentimento que, na maioria dos casos, lhes atribuiu responsabilidade desmedida ou distorcida. Tanto o trauma quanto a culpa apresentaram-se como elementos centrais no sofrimento dos sobreviventes, mas também propuseram caminhos de elaboração do evento atômico.
PALAVRAS-CHAVE:
Culpa; Hibakusha; Testemunho; Trauma