RESUMO
O presente artigo tem como núcleo um exame psicológico dos testemunhos de hibakusha, mais especificamente da história da sobrevivente Keiko Ogura. Para que esse exame pudesse ser realizado, foi dada atenção especial a dois fenômenos psicológicos fundamentais para a compreensão dessas memórias: o trauma e o sentimento de culpa. O trauma será abordado como uma vivência transbordante que deixou para trás enigmas traumáticos e que exigiu dos sobreviventes uma apropriação do passado em sua dimensão tanto biográfica quanto histórico-política, numa importante tentativa de atribuir alguma forma e sentido ao evento incompreensível que os sobreviventes vivenciaram. Nesse percurso, muitos hibakusha foram tomados por angústia, a qual por vezes os fez se organizar como culpados, um sentimento que, na maioria dos casos, lhes atribuiu responsabilidade desmedida ou distorcida. Tanto o trauma quanto a culpa apresentaram-se como elementos centrais no sofrimento dos sobreviventes, mas também propuseram caminhos de elaboração do evento atômico.
PALAVRAS-CHAVE:
Culpa; Hibakusha; Testemunho; Trauma
ABSTRACT
The core of this article is a psychological examination of hibakusha testimonies specifically the story of the a-bomb survivor Keiko Ogura. In order to carry out this examination special attention was given to two psychological phenomena that are central in the understanding of these memories: trauma and the feeling of guilt. Trauma will be approached as an excessive experience that left behind traumatic enigmas and thus required an appropriation of the past in both its biographical and historical-political dimensions in an important attempt to give some form and meaning to the incomprehensible event that was lived by survivors. Through that process many hibakusha were taken by the feeling of anguish, which sometimes led them to organize themselves as guilty, a feeling that in most cases gave them an inordinate or distorted sense of responsibility. Both trauma and guilt were central elements in the suffering od survivors, nevertheless, they have also proposed ways of dealing with the atomic event.
KEYWORDS:
Guilt; Hibakusha; Testimony; Trauma
Dentre as grandes barbáries cometidas pelo ser humano ao longo da Segunda Guerra Mundial está o bombardeio atômico à cidade de Hiro- shima, no Japão. Esse, acompanhado do avanço da ciência e da técnica, deixou para trás sobreviventes que carregam marcas profundas de um tipo muito singular e brutal de violência, um segredo perturbador: o testemunho do extremo potencial destrutivo e da completa falta de escrúpulos morais e políticos dos seres humanos quando em busca de poder.
São eles, os hibakusha, que conferem imagem e voz às experiências de morte e quase morte impostas brutalmente por interesses outros à preservação da vida, que nos contam que ser atravessados pela violência intencional do outro deixa na carne e na psique, como aprendemos com Jean Laplanche (1998), enigmas traumáticos: enigmas oriundos do trauma psíquico que exigem dos sobreviventes, quando frente à imensa dificuldade de pensar o horror que testemunharam, apreender o que viram, ouviram e sentiram, uma urgência da apropriação do passado em sua dimensão tanto biográfica quanto histórico-política - dados esses que apoiam uma constante e incessante tentativa de dar alguma forma ao evento disforme e incompreensível que compõe o trauma.
Em outras palavras - e com base em centenas de testemunhos estudados no acervo do Memorial da Paz de Hiroshima e ainda pelas dezenas de entrevistas realizadas pessoalmente com sobreviventes ao longo de 14 anos de pesquisa - os hibakusha, na tentativa de compreenderem o acontecimento que viveram e que os superaram, passaram a buscar, por exemplo, informações não apenas dos fatores que desencadearam a guerra de que participaram, mas também as condições que propiciaram a criação e o desenvolvimento de uma arma cuja finalidade era o extermínio de toda a comunidade da qual faziam parte. Esse estudo conduziu à formação neles de um conhecimento didático, porém parece não ter oferecido suficientes representações que pudessem amparar uma reflexão e compreensão de seus traumas ligados ao ataque nuclear.
Nesse sentido, e ainda com base nos testemunhos, muitos hibakusha perceberam que a história ensinada nas escolas e nos livros didáticos não atina com aquilo que eles viveram e, portanto, concluíram que somente suas narrativas, seus relatos e suas lembranças poderiam conferir àquela tragédia uma face e uma voz humanas. Esse pensamento os fez tomarem para si a responsabilidade e a consequente tarefa de contarem suas próprias versões do bombardeio atômico. Contudo, dar testemunho daquelas vivências, segundo muitos, não se impõe como tarefa fácil. Pelo contrário. Narrar o que se viu, ouviu, sentiu e pensou traz consigo uma grande dificuldade de tradução por parte dos hibakusha e uma grande dificuldade de compreensão por parte de seus interlocutores. Essa dificuldade parece dizer respeito ao fato de se tratar de transmissões de cenas traumáticas.
Nesse ponto, é importante relembrar que em Mais além do princípio do prazer, Freud (2010) afirma que a extrema violência - um acontecimento excessivo e transbordante, que supera os limites psíquicos, portanto, um acontecimento traumático - leva a psique a viver uma paralisação, uma interrupção de qualquer atividade psíquica secundária na tentativa de garantir a sobrevivência e reestabelecer o equilíbrio psíquico, tentativa essa que corresponde ainda a um recurso de defesa, um recurso de tipo agonístico.
Essa paralisação parece corresponder ao “estranho anestesiamento” descrito em inúmeros testemunhos como algo que fora vivido por muitos hibakusha no dia do bombardeio, uma perda de sentidos, um quase desmaiar e uma impossibilidade de interpretar rapidamente o que se testemunhava não apenas com os olhos. Porém, esse anestesiamento psíquico - como deixam claro as memórias lidas e ouvidas - foi muitas vezes compreendido pelos próprios sobreviventes não como um mecanismo de defesa, mas como um fenômeno incompreensível, uma vez que, segundo eles, os fez agir com súbita frieza ante circunstâncias perturbadoras, o que mais tarde seria lembrado sob a torturante suspeita de indiferença pelos outros.
Em outras palavras, um “parar de sentir” que os tornou capazes de se mover em busca de refúgio naquele cenário terrível, mas que, no entanto, foi lembrado num sentido que lhes pareceu o de colocar a própria sobrevivência acima do socorro de milhares de suplicantes que compunham o cenário catastrófico de Hiroshima após a explosão.
Parece evidente que a paralisação ou adormecimento psíquico deu-se num momento em que quase nenhuma representação era possível aos sobreviventes, os quais olhavam a cena traumática como aquilo que violentamente se impunha sobre eles, e que bastou naquele momento ser concebido como a imagem que tinham do inferno cristão: em meio à destruição completa, estavam rodeados por corpos sem vida e entulhos de construções desabadas. Por todos os lados estavam cercados pelo fogo e ouviam gemidos de dor e sofrimento dos moribundos. Muitos hibakusha relataram que não tinham certeza se ainda estavam vivos. Alguns só perceberam que haviam sobrevivido após encontrarem um familiar ou amigo que os despertaram para a urgência de fugirem da morte certa; outros por intermédio da viva dor de seus ferimentos corporais.
Muitos sobreviventes relatam que após algum tempo aquela estranha anestesia, somada aos vestígios daquele terrível encontro com o horror começaram a lhes corroer a alma, e parece ser nesse momento que a ferida que ficou impressa como uma queimadura que arde e sangra tanto no corpo físico quanto no corpo psíquico do hibakusha se torna consciente. E é essa breve, mas intensa tomada de consciência, o reconhecimento da vivência da morte dos outros e de sua própria quase-morte, que parece se constituir como o ato de sobrevier. Em outras palavras, sobreviver implica necessariamente uma sobrevivência psíquica, e essa, por sua vez, envolve a percepção de se ter vivido um evento que trouxe consigo destruição e morte.
A partir daí, inicia-se um longo e difícil percurso em busca de representações que possam auxiliar no processo de metabolização e elaboração traumática, sendo representação, para a psicanálise, todo e qualquer conteúdo cognitivo, ou seja, percepções, imagens, lembranças, palavras ou ideias. Não a representação, mas a elaboração psíquica é que parece ter ficado quase impossível na primeira exposição ao evento traumático. Nesse sentido, pode-se concluir que o primeiro tempo do trauma psíquico não é em todo sem representação.
Vejamos. O trauma psíquico se faz em diversos tempos: o primeiro tempo, inaugural, inclui necessariamente o impacto de acontecimentos estranhos e a vivência imediata de seus estranhos desdobramentos nos sobreviventes, desdobramentos esses que são afetivo-cognitivos. E é em diversos outros tempos que o trauma psíquico se perfaz, cada vez que o hibakusha sofre outra vez ou retoma ativamente as reminiscências do acontecimento inaugural, multiplicando ou atenuando sua angústia segundo o modo como volta a senti-lo e interpretá-lo. O sofrimento reiterado ou as várias retomadas do trauma variam favoravelmente com o amadurecimento psicossocial do sobrevivente ou vão desenvolver-se morbidamente quando ele precisar valer-se de negação ou quando apenas alcançar superficial elaboração de suas lembranças.
Nesse sentido, e com o auxílio de Jean Laplanche (1998), podemos interpretar que o sentimento de culpa, tão presente nos testemunhos dos hibakusha, parece assumir importante relevância aqui, se o tomarmos como uma possível e superficial elaboração da angústia traumática. O sentimento de culpa é usualmente interpretado como a responsabilidade por danos ou faltas cometidos contra outrem. Em psicologia, a culpa corresponde à difícil consciência dessa responsabilidade. Os sobreviventes, portanto, parecem concluir muito rapidamente que não fizeram o suficiente para salvar alguém além de si mesmos e, portanto, são parcialmente culpados pelas milhares de mortes que testemunharam.
Isso exemplifica a consciência de culpa em psicanálise, frequentemente tomada como uma consciência muito afastada dos verdadeiros disparadores desse sentimento: fala-se, nesse caso, de uma consciência agarrada a fatos que não são precisamente aqueles que efetivamente trouxeram o culpado para a sofrida ruminação de suas potenciais faltas. A psicanálise frequentemente opinou que a culpa poderia levar o culpado a estimar falsas origens para sua angústia: aquilo que costuma alegar para a justificação de suas autorrecriminações não corresponderia com os fatores determinantes da culpa, os quais deveriam sempre ser encontrados do lado da vida sexual e da destrutividade do culpado.
Essa forma de pensar costuma acarretar a invalidação desses sentimentos que, então, perdem sua necessidade de ser e de formar-se: o culpado, para atinar com o que verdadeiramente o coloca em culpa, deveria admitir que houve motivos internos e não externos, que foram suas motivações libidinais ou agressivas que o levaram a agir de determinadas formas e, assim sendo, ao invés de experimentar tal sentimento de forma mais profunda, deveria buscar uma reconciliação consciente com suas genuínas e angustiadas motivações, uma forma de interpretar a culpa na qual a objetividade do processo culposo parece ficar perdida.
Para Jean Laplanche (1998), os sentimentos de culpa são sentimentos de angústia. A angústia é o mais indeterminado dos afetos, pois é afeto que partiu de experiências que, enigmáticas, superaram muito a capacidade das pessoas de compreendê-las, assimilá-las e, finalmente, desprender-se delas. Experiências, portanto, traumáticas. Ou seja, assim concebida, a angústia liga-se à história objetiva da pessoa, liga-se a fatos ou acontecimentos maiores que a pessoa e que vieram a golpeá-la. O angustiado, na tentativa então de superar angústia, poderá vir a se organizar como um culpado diante de danos ou faltas em que efetivamente tomou parte.
Essa angústia está muito presente em relatos de hibakusha quando eles, por exemplo, falam sobre o estranho anestesiamento e a subsequente frieza que os permitiram fugir em busca de abrigo. Em muitas memórias - tanto registradas pelo Memorial da Paz de Hiroshima quanto pela pesquisadora - parte dessa angústia se apresenta mais intensamente relacionada aos momentos anteriores à fuga, quando os sobreviventes narram cenas detalhadas de suas tentativas de socorrerem familiares soterrados pelos escombros de suas casas desabadas, uma corrida contra o tempo já que o fogo, proveniente dos incêndios provocados pela explosão atômica, se aproximava rapidamente. Recordam das inúmeras tentativas de salvá-los até o momento em que ouviram suas súplicas que pediam que os deixassem onde estavam e fugissem para longe do fogo que em pouco tempo os consumiria. A decisão de fugir da morte trouxe como consequência a fixação da imagem que se fez eterna, de familiares e/ou amigos sendo engolidos por uma Hiroshima em chamas.
Muitos sobreviventes de Hiroshima, na tentativa de superar a angústia, organizaram-se como culpados. Contudo, o culpado pode assumir responsabilidade desmedida: pode chamar demais para si o horror de Hiroshima, como em uma tentativa de tornar dependente apenas dele mesmo a solução para um mal que, no entanto, tendo sido socialmente e não individualmente produzido, pede solução coletiva e não apenas individual. Mas é de duvidar que os sobreviventes da violência nuclear pudessem dispensar-se de pensar a catástrofe em termos de responsabilidade geral, grupal e pessoal. Vemos nos testemunhos dos hibakusha que não é sem verdade a ideia de que participaram dos danos de Hiroshima e de que, de alguma forma, chegaram a cometer faltas contra as vítimas.
É evidente que cada sobrevivente, individualmente tomado, não participou diretamente do lançamento da bomba. Também parece ser evidente que as faltas cometidas no auxílio imediato das primeiras vítimas são compreensíveis e que não deveríamos ligar facilmente e sem mediações ao egoísmo e à perda de consideração pelos outros. Mas há sinais, contudo, de que os hibakusha viveram alguma ligação da bomba com a guerra em curso e, nessa medida, viveram alguma ligação entre a bomba e a participação dos japoneses na guerra. Viveram? Talvez o termo não seja o mais adequado. O que queremos dizer é que a bomba nuclear lançada sobre a cidade de Hiroshima se liga objetivamente à guerra em curso e, portanto, à participação de todos os beligerantes, aí certamente incluídos todos os japoneses.
Nesse sentido, entretanto, é necessário enfatizar que há níveis de responsabilidade em jogo: há a responsabilidade que envolve todos os japoneses e há a responsabilidade que envolve individualmente cada um deles. Os sobreviventes de Hiroshima que mais longe levaram o trabalho de metabolização do trauma sofrido foram sentindo cada vez mais a necessidade de considerar o sentido político da guerra, suas motivações coletivas, a participação e os motivos da participação da nação japonesa no conflito, os sentidos históricos da guerra e da paz.
Em suma, o sentimento de culpa nos hibakusha é objetivamente justificado e, todavia, só alcançará um desdobramento saudável se levado bem longe e até o fim, até aquele ponto em que é possível notar que o desastre de Hiroshima propôs aos sobreviventes problemas histórico-políticos, a exigência de soluções que são de todos e cada um, e finalmente um modo de elaboração cuja profundidade supõe recursos que o hibakusha tira de si mesmo tanto quanto de sua cultura.
A cultura, como também a mentalidade de uma pessoa, pode censurar ou travar o desenvolvimento afetivo-cognitivo de uma experiência. Mas nos depoimentos há sinais de que a cultura muitas vezes apoiou e fecundou o desenvolvimento do sentimento, como demonstra a história da hibakusha Keiko Ogura.
Ogura2 tinha 8 anos no dia 6 de agosto de 1945 e afirma que tem lembranças muito vivas do dia e dos dias seguintes ao bombardeio, memórias que relata terem ficado guardadas em segredo dentro dela durante aproximadamente 30 anos, uma vez que inicialmente não desejava compartilhá-las com ninguém pela forte discriminação sofrida pelos hibakusha após o final da guerra. Entretanto, assombrada pelo medo de que a catástrofe atômica pudesse vir a se repetir, decidiu começar a dar seu testemunho.
Morava, em 1945, a aproximadamente dois quilômetros do hipocentro,3 dentro da área que foi severamente atingida pela explosão, e sua escola ficava bem no centro da cidade, tendo sido completamente destruída pela bomba. Relembra que quando os alarmes de ataque aéreo soavam e ela estava na escola, precisava deixar imediatamente todas as suas coisas para trás e correr direto para casa para se abrigar - lembrança essa que se tornou uma das piores da época da guerra. Explica que por ser pequena não corria rápido e, além disso, se via sozinha, invadida por um medo muito grande, o que a fazia chorar e gritar por sua mãe enquanto percorria aquele trajeto.
Sobre ser essa uma de suas piores lembrança, contextualiza dizendo que um dia estava em sua casa quando o alarme de ataque aéreo subitamente soou. Sua família rapidamente parou o que estava fazendo e correu para o abrigo ali perto. Ficaram apreensivos com a aproximação de um avião inimigo, e perceberam que ele estava voando muito próximo do solo. Logo na sequência, sons de tiros ecoaram e, ao olhar por uma fresta, Ogura viu sua casa pegando fogo, o que para ela foi algo aterrador.
A casa sobreviveu tendo sido apenas parcialmente queimada, e Ogura afirma que naquela época teve dificuldade em entender o motivo pelo qual um avião se daria o trabalho de atear fogo em sua casa. Intrigada, questionou sua irmã mais velha e ficou sabendo que na realidade a casa não era o alvo principal do atirador, mas sim, um pedestre. Logo que os alarmes foram suspensos, os vizinhos encontraram um homem morto a tiros e concluíram que o rapaz estava correndo para se abrigar quando o piloto do avião o avistou e o matou. Ao ouvir essa história, Ogura diz ter sido inundada pela certeza de que teria uma morte semelhante, uma vez que percebeu que, como o pedestre em questão, quando o alarme soava e ela estava na escola, precisava correr em direção à sua casa. Dali para frente, voltar naquelas condições da escola tornou-se quase insuportável: seu medo ficou ligado e acentuado pela sensação de que um avião poderia se aproximar a qualquer momento e matá-la a tiros.
Relata que décadas depois da explosão - em um momento em que morava nos Estados Unidos e ainda não dava seu testemunho - foi chamada para atuar como intérprete de um grupo de hibakusha em evento sediado pelo Smithsonian Institute, Washington. Chegando ao museu, Ogura e os demais sobreviventes foram conduzidos a um salão onde o Enola Gay4 estava exposto, o que causou grande surpresa e comoção entre os presentes. Porém, Ogura afirma que apesar de o B-29 ser grande e imponente, sua atenção foi rapidamente capturada pela fileira de aviões de apenas um piloto que estava disposta atrás do bombardeiro. Imediatamente pensou ter visto um brilho intenso saído subitamente daquela fileira de aviões, um flash de luz refletido pelas asas de um deles, o que a deixou atônita e a fez sair correndo desesperada, gritando, em direção a um dos cantos do grande salão onde, apavorada, se encolheu. Uma colega que a acompanhava aproximou-se para saber o que havia acontecido, e Ogura prontamente a agarrou pelo braço cheia de pavor. Havia muitos fotógrafos e jornalistas cobrindo o evento e, naquela noite, a cena foi reproduzida no noticiário tanto nos Estados Unidos quanto no Japão.
Sobre a madrugada do dia 6 de agosto de 1945, Ogura recorda que os alarmes de ataque aéreo dispararam várias vezes ao longo da noite, o que fez seu pai pedir aos filhos5 que não saíssem de casa, pois ficara intrigado com a ausência de qualquer tipo de ataque depois de uma noite conturbada como aquela. Ela o obedeceu, mas seu irmão mais velho decidiu arriscar e foi ao encontro de seus colegas na estação de Hiroshima - que ficava a 2 quilômetros do marco zero - para receber as instruções sobre o trabalho que sua turma executaria naquele dia.6
Às 8h15 da manhã, Ogura estava caminhando perto de sua casa, e a primeira coisa que sentiu foi um forte choque que fez tudo ficar branco. O golpe foi tão violento que sentia que não podia respirar, como se tivesse sido atingida por um tufão que a lançou longe e a fez desmaiar. Quando despertou, foi tomada por um sentimento intenso de medo: se viu envolvida por uma grande escuridão como se tivesse repentinamente anoitecido. Mesmo não conseguindo enxergar direito, foi tomada pela urgência de voltar para casa. Ao começar a caminhar, sentiu que andava sobre coisas quebradas. Não compreendia o que havia acontecido, apenas percebeu que as telhas das casas estavam espalhadas pelo chão da rua.
Depois de se assegurar de que todos em casa estavam vivos, Ogura passou a se questionar como e por que aquilo tudo havia acontecido. Saiu de casa correndo e percebeu que toda a vizinhança havia sido atingida. Nesse cenário, recorda que as casas destruídas e os pequenos ferimentos que ela e sua família haviam sofrido não lhe causaram tanto impacto, mas a fala de seu irmão sobre o que ele viu no caminho da estação de Hiroshima até sua casa lhe prendeu totalmente a atenção: a cidade cheia de pessoas muito feridas, que se assemelhavam a fantasmas, indo na direção dos locais onde moravam em busca de refúgio. Ogura disse que as palavras do irmão a impactaram de tal maneira que aguçou seu desejo de testemunhar as cenas com seus próprios olhos.
Conta que ao longo dos dias seguintes saiu várias vezes escondida de casa para ver os feridos, os quais lhe provocavam uma grande curiosidade. Chegou a escalar colinas, viu pessoas morrendo, sentia-se muito ativa, ao contrário de sua irmã mais velha, que passou o mês seguinte ao bombardeio dentro de casa. Setenta anos depois da explosão, Ogura perguntou a ela o motivo do enclausuramento, ocasião em que a irmã lhe falou pela primeira vez sobre suas próprias memórias daqueles dias. Ela lhe contou que um dia uma pessoa muito ferida os visitou e pediu para usar o banheiro. Aparentemente, sua irmã ficou muito chocada ao notar que, apesar do rosto horrivelmente machucado, do corte que mostrava o interior do seu corpo, a pessoa ainda tinha o desejo de se esconder, usar o banheiro privadamente e sobretudo ainda fora muito educada. A irmã recordava que a pessoa disse algo como: “com licença, posso usar o banheiro?”. Esse episódio a marcou tão profundamente, e a deixou tão assombrada, que ela não conseguiu usar o banheiro por aproximadamente três dias.
Ogura lembra que havia pessoas moribundas por todos os lados, incluindo na porta de sua casa, e que apesar das cenas horríveis e medonhas, tinha um grande desejo de ver7 e de saber o que estava acontecendo. Então, não apenas saía escondida sempre que podia, mas também fazia muitas perguntas aos outros, especialmente a seu pai que diariamente cremava os corpos das vítimas no parque próximo de sua casa, de onde vinha um cheiro muito ruim e onde ele a proibiu de ir. Ogura diz que seu pai não falava absolutamente nada, como se tivesse decidido não falar sobre as cremações. No entanto, ela não desistia e perguntava centenas de vezes: “como você os cremou? Como colocou o corpo morto? Como estava o rosto dos corpos mortos? Quando você tocou os corpos, você sentiu alguma coisa?”. Recorda que um dia, após questioná-lo incessantemente, ele finalmente falou como cremou, como se sentiu, quais partes do corpo das vítimas ele carregou, como eram as expressões de seus rostos. Naquela ocasião, seu pai descreveu suas atividades de forma tão precisa que ela memorizou tudo, cada detalhe, e passou a imaginar o pai realizando suas atividades: “agora papai está carregando o corpo escorregadio, ensanguentado e colocando...”, como se estivesse assistindo ao que ele estava fazendo. Pedia diariamente para que o pai a deixasse ir ao parque ver o seu trabalho, ao que ele sempre negava.
Ogura diz que o desejo de observar tudo sempre foi uma característica sua, a qual foi aguçada e intensificada pelo bombardeio e pelas muitas pessoas morrendo após a explosão. Começou a ir para lugares onde conseguia ver melhor tudo o que estava acontecendo pela cidade, e um desses locais era um templo no alto da colina que ficava próxima de sua casa - local que servia como ponto de primeiros socorros em caso de emergência. No caminho para lá, começou a observar de perto os feridos. Afirma que nunca contou sobre isso para ninguém com receio do julgamento, mas olhava os moribundos fixamente tentando adivinhar quando iriam morrer, ou seja, o momento exato em que a morte chegava. Era tomada por um desejo de todos os dias ver algo diferente e, assim, continuava a fugir de casa para andar pela cidade destruída e assistir às pessoas morrendo. Notou que a maioria das pessoas simplesmente gemiam sem falar nada, com exceção de súplicas por água.
Lembra que havia moscas muito grandes e em enormes quantidades, moscas que ela só viu naquela situação. Elas pousavam nos ferimentos abertos das pessoas, depositavam seus ovos e a noite surgiam milhares de larvas. Por essa razão as crianças tinham que ficar ventilando os feridos e não podiam deixar que as moscas pousassem neles. Ogura diz que observava atentamente as larvas comendo as feridas abertas das pessoas e recorda que algumas delas conseguiam apenas gemer. Acredita que eram gemidos de dor, uma vez que supõe ser muito doloroso sentir sua própria carne sendo comida por larvas que, além de tudo, moviam-se pela carne viva exposta. Eram apenas nessas situações - quando gemiam ou contorciam seus rostos com expressões de dor - que Ogura percebia que aqueles feridos ainda estavam vivos, o que a fazia observá-los ainda mais atentamente.
Percebeu ainda que havia níveis de atividade envolvidos nesse processo: os feridos começavam espantando as moscas; depois paravam de espantá-las; em seguida, gemiam e se contorciam de dor enquanto as larvas comiam suas carnes; quando paravam de reagir completamente é porque estavam prestes a morrer. Sentia que queria lembrar de tudo claramente, e por isso prestava muita atenção.
O templo encontrava-se no topo de uma colina e, por estar bem no alto, só era possível acessá-lo subindo uma grande escadaria de pedra. Relata que as pessoas não paravam de chegar em busca de socorro e que vinham centenas delas pelo lado direito e outras centenas pelo lado esquerdo, uma multidão de feridos que se amontoavam ao pé da escadaria para tentar subi-la. Quando Ogura chegava perto dessa escadaria, não conseguia enxergar os degraus em razão da enorme quantidade de corpos espalhados e empilhados. Observando atentamente aquela cena, chegou à conclusão de que as pessoas não conseguiam chegar ao topo, iam ficando pelos degraus e seus corpos iam se empilhando. Os que de fato conseguiam chegar ao topo também não recebiam ajuda, pois apesar de o templo servir de ponto de primeiros socorros, não havia médicos, enfermeiros ou medicamentos - apenas um soldado sem condições de ajudar os feridos.
Ogura afirma que no meio disso tudo há um episódio que a marcou profundamente. Um dia, quando estava voltando do templo para sua casa, viu uma pessoa muito ferida suplicando por água. Como resposta, ela correu para um poço próximo e, ao retornar, deu um pouco de água para a pessoa que, após o primeiro gole, morreu. Assustada, Ogura voltou correndo para casa e antes de ter a oportunidade de falar qualquer coisa, seu pai chamou-a e ao irmão. Ele lhes disse: “As pessoas estão pedindo água, mas vocês não podem dar. Se derem água a elas, elas morrem. Vocês deram água para alguém?”. O irmão apressou-se em responder: “Claro que não. Todos sabem que não se pode dar água para pessoas feridas com queimaduras”. Diante das palavras do pai e do irmão, Ogura diz que ficou chocada, e que seu primeiro impulso foi mentir para os dois, dizendo que ela também não havia dado água para ninguém.
Afirma que isso a deixou se sentindo muito culpada. Pensou ter feito algo muito estúpido e sente que ali começou seu trauma. Passou a dizer para si mesma: “Eu sou uma má menina, eu contei uma mentira”, e “Eu dei água e aquela pessoa morreu”. Conta que foi muito difícil guardar aquele segredo, o que se tornou traumático para ela.
Essa mentira fez que Ogura passasse décadas atormentada pela culpa em razão de ter dado água para aquela pessoa, até o dia em que encontrou uma amiga de infância que lhe confidenciou suas memórias acerca do bombardeio. Soube que essa amiga se culpou a vida toda porque seu pai morreu em seus braços suplicando por um pouco de água. Em seu relato, a amiga disse que seu pai estava no centro da cidade trabalhando e chegou em casa muito ferido e implorando por um pouco de água, ao que a amiga terminantemente negou, justamente por saber que dar água a pessoas que haviam sofrido queimaduras profundas aceleraria sua morte. Porém, ao perceber que ele estava realmente morrendo, ela decidiu molhar um pano e colocá-lo gentilmente em sua boca para umidificá-la, mas assim que tocou o pano nos lábios de seu pai, ele imediatamente morreu. Ogura refletiu sobre o ocorrido e conclui que ela se culpou a vida toda por ter dado água para uma pessoa que acabou morrendo, e a amiga culpou-se a vida toda por não ter dado água para o pai que também acabou morrendo. Concluiu que dar ou não a água poderia não ter feito a menor diferença naquela situação, o que de alguma forma amenizou - sem extinguir - o sentimento de culpa que carregava.
Ogura diz que sofreu sozinha por mais de 70 anos, até que um dia ela e os irmãos se reuniram em Osaka na ocasião da morte do pai e decidiram que, pela primeira vez, compartilhariam uns com os outros todas as suas memórias do bombardeio. Então, seu irmão disse: “Eu estava prestes a dar água”, “Eu peguei água em uma chaleira para dar para as pessoas lá fora... eles estavam pedindo água”, mas quando a mãe viu, apressou-se na direção dele e disse: “O que você está fazendo, você não deve dar água... eles vão morrer”. O irmão conta que ficou com medo e jogou fora a água que estava carregando na chaleira. Ogura perguntou quando foi isso exatamente, e o irmão disse que no mesmo dia em que o pai os chamou e perguntou se haviam dado água aos feridos. Diante dessa revelação, Ogura diz que ficou furiosa com o irmão por ele ter permanecido em silêncio sobre o assunto por 70 anos.
Atualmente Ogura afirma que não se sente mais culpada, mas quando decidiu começar a dar seu testemunho, entrevistou muitos hibakusha em asilos para conhecer suas histórias. Diz que ouviu muito sobre o sentimento de culpa e acredita que esse está relacionado com a sensação de impotência por não terem sido capazes de ajudar mais os outros. Afirma que muitos sobreviventes pensaram em cometer suicídio após a guerra, pois se culpavam e se perguntavam: “Por que eu sobrevivi?”. Tratava-se de pessoas que, por exemplo, viram seus filhos morrendo e gritando por socorro sem poder ajudá-los; pessoas que não conseguiram ajudar as vítimas que se encontravam presas nos escombros das casas desabadas e que, com a chegada do fogo, morreram queimadas vivas. Diz ainda que ouviu pessoas contarem que após a cidade ter sido destruída, o centro de Hiroshima estava todo coberto de escombros, pregos, cacos de vidro e corpos. Além disso, o chão estava muito quente por causa dos incêndios. Então, para fugir atravessando o centro da cidade, estando a maioria das pessoas descalças,8 muitas vezes se fez necessário pisar nos corpos espalhados pelo chão para conseguirem caminhar e, em algumas situações, as pessoas pisoteadas ainda estavam vivas. Ogura enfatiza que essas pessoas lhe disseram que aquela fora a única forma de atravessar a cidade, porque como já dito, o chão estava muito quente e havia muitos corpos espalhados por todos os lados, o que tornava impossível desviar de todos eles no momento da fuga. Tentavam não pisar nos rostos, mas era inevitável pisar nas outras partes dos corpos espalhados pelo chão. Disse que, ao contar esses segredos, as pessoas acrescentavam: “Eu sou como um demônio”, pois consideram que, ao invés de ajudar aqueles que ainda estavam vivos, usaram seus corpos para caminhar pela cidade e fugir daquele “inferno”, literalmente pisando neles.
Nesse sentido, em um determinado momento de seu testemunho, Ogura repete que “logo após o final da guerra, as pessoas em geral estavam muito tristes, desesperadas, e muitas desejavam morrer, tendo havido numerosos suicídios nos anos que se seguiram à rendição do Japão”. A forma que fez esse comentário, o tom de voz que usou, a expressão facial e seus gestos não deixaram dúvidas sobre como a questão lhe toca intimamente: Ogura, enfrentando nitidamente uma questão que lhe é muito sensível, dirigiu-se à sensibilidade de sua entrevistadora tocando diretamente nos enigmas que jazem por trás das vivências biográficas da última, criando um incômodo por meio do qual a transmissão traumática tornou-se possível. Esse vínculo comunicativo criado entre Ogura e sua entrevistadora foi também criado entre os hibakusha que, logo após a explosão, sem a necessidade do uso de palavras, transmitiram a gravidade da experiência que estavam vivendo por meio de seus olhares. Isso fica evidente quando Ogura diz que jamais pôde esquecer aqueles olhares, “Um olhar difícil de explicar, parecia cheio de desespero ou de outra coisa. Um olhar que nem eu pude esquecer e nem os sobreviventes com quem conversei até hoje esqueceram”.
Segundo Frosh (2018), o olhar é um elemento fundamental no pensamento psicanalítico, sendo necessário voltar a atenção não apenas para o que foi visto por aquele que porta o olhar de difícil descrição, mas também como esse olhar é visto e recebido pelo outro que o testemunha. Isso faz referência ao olhar como fonte de uma mensagem criptografada, que por meio do enigma impõe um vínculo com aquele que o recebe, pois gera uma tal perturbação que implicará constantes trabalhos de interpretação e esclarecimento, como aquele imposto pela metáfora da medusa: o que aqueles olhos viram que foi capaz de petrificá-los, que foi capaz de arrancar-lhes a alma? Ou ainda, como diz Levi (2004), a certeza de que os portadores daquele olhar fitaram a górgona e retornaram emudecidos, mas mudos de palavras, já que transbordavam por meio do olhar algo difícil de nomear e que, portanto, pedirá daquele que viu e daquele que foi visto um árduo trabalho de representação.
Aqui, dar o testemunho significa mostrar claramente que aquele que se tentou “desalmar” retorna para provar sua essência humana, sua capacidade de perdão e de generosidade, ao supor que alguém será capaz de ouvi-lo e, consequentemente, será tocado e intimado a lutar por mudanças no espaço sociopolítico, provando que a bomba que deveria destruir tudo não foi capaz de destruir a humanidade dos humanos e, desse ponto, fracassou em sua missão.
Tanto a guerra quanto a bomba, entretanto, deixaram fortes marcas naqueles que tocaram. Sobre isso, Ogura falou com muita ênfase que “suas piores memórias” são daqueles momentos em que corria sozinha da escola para sua casa ao soar os alarmes de ataques aéreos. O som do alarme configurava um cenário de perigo e, embora sentisse medo, Ogura não sabia exatamente o que a aterrorizava. Porém, esse medo foi intensificado após aquele episódio em que um avião de pequeno porte matou a tiros um pedestre e ateou fogo à casa de Ogura. Ao compreender o que havia se passado, algo pareceu fazer sentido, como se ela compreendesse o motivo pelo qual sentia grande pavor de correr sozinha da escola para casa sob o som da sirene. A partir daquele momento, Ogura diz que passou a ter certeza de que morreria como aquele pedestre: vítima de tiros disparados pelos aviões que comportavam apenas um piloto.
O pavor que sentia durante a guerra foi revisitado naquele outro episódio décadas depois do final da guerra, quando Ogura estava no Smithsonian Institute, em Washington. Como relatado anteriormente, na referida ocasião, ela e os demais sobreviventes foram conduzidos ao salão onde estavam expostos os aviões utilizados na guerra, incluindo o B-29, Enola Gay, que apesar de imponente não lhe assustou tanto quanto aqueles que estavam expostos logo atrás, os quais chamaram sua atenção e se anunciaram no reflexo de uma luz em princípio inofensiva, mas que para Ogura assumiu simbolicamente a violência do flash atômico, condensando ambos os traumas e obrigando-a a reagir aterrorizadamente: gritou, correu e encolheu-se em um dos cantos da sala, sendo instantânea e demoradamente tomada pelo medo de morte imposto tanto pelos aviões de apenas um piloto, os quais, em sua fantasia, seriam responsáveis pela sua própria morte, quanto pela bomba atômica, responsável pelas milhares de mortes que testemunhou.
Durante a entrevista, quando Ogura falou sobre sua experiência pós-explosão, ela fechou os olhos e descreveu tudo o que viu, sentiu e pensou, enfatizando sua “curiosidade” sobre os corpos que se encontravam espalhados pela cidade. Novamente aqui, corre-se o risco de desmoralizar a memória de Ogura se suas descrições forem interpretadas apressadamente. É necessário analisar o movimento que ela realiza ao longo de suas descrições detalhadas, e colocar atenção sobre a sedução imposta pelo enigma, que parece operar de maneira mórbida, obrigando Ogura a voltar repetidas vezes ao que é traumático na tentativa - que na criança muito provavelmente está fadada ao fracasso - de compreender, simbolizar, elaborar tudo aquilo que estava vivendo, mecanismo esse semelhante àquele do sonho traumático que tem a repetição orientada pela angústia.
Para Ogura, aquelas mortes testemunhadas não são meramente brutais do ponto de vista da destruição dos corpos que se encontravam espalhados pela cidade, mas são mortes enigmáticas, porque acompanhadas pela difícil decisão sobre o sentido de um golpe tão violento que supõe necessariamente a indiferença humana sobre determinados seres humanos. Esse enigma da morte superou muito uma Ogura traumatizada, que passou a retornar repetidamente ao elemento mais concreto do trauma - aos corpos brutalmente assassinados - também a repetidamente fracassar em sua compreensão, impedindo qualquer tipo de orientação psíquica e, logo, mantendo Ogura paralisada em uma manifestação abstrata mais ou menos desligada do fato enigmático total.
Em outras palavras, Ogura estabelece um contato desajeitado com os corpos humanos agonizantes, porque não tinha condições, naquele momento, de perceber a relação existente entre eles e a bomba que foi jogada sobre a cidade, uma bomba que atingiu as pessoas de um modo muito estranho, incompreensível e, portanto, foi tomada independentemente das mortes que provocou, e cujo enigma não decifrado mantém a experiência em sua mais forte concretude: pessoas morrendo físico-organicamente, e seus corpos biológicos espalhados pela cidade destruída.
Dessa forma, Ogura adentra o ambiente da indiferença sem conseguir perceber que essa não é uma característica sua, individual e endógena, um traço de sua personalidade, a qual ela própria explica como uma curiosidade infantil mórbida, mas sim uma maneira muito atormentada de participar de uma dimensão do trauma que não pôde ser explicado e que, por esse motivo, operou de modo muito abstrato, resultando em experiências muito concretas, chocantes, tão enigmáticas quanto o próprio enigma do qual partiram: olhar os corpos de perto, ver as larvas comendo a carne viva das vítimas, tentar adivinhar por meio de sinais de dor se a pessoa ainda estava viva e, se estivesse, tentar prever o exato momento de sua morte.
Essas situações não passam de tentativas muito angustiadas e malsucedidas da criança de tentar viver a situação traumática, buscando compreender aquilo que estava ao seu alcance, ou seja, tentar descobrir mediante a atenta observação o que é que estava se passando ali, que morte era aquela e quais eram seus estágios - questionamentos insuficientes para responder a pergunta sobre a verdadeira gênese da violência que provocou aquelas mortes e, portanto, perpetradores de revisitações à cena traumática.
Isso também se deu com o sentimento de culpa relacionado ao episódio em que Ogura deu um pouco de água a um sobrevivente que, no primeiro gole, morreu. Assustada ao ouvir de seu pai e de seu irmão que aquela morte que acabara de testemunhar poderia ser sua responsabilidade, Ogura sentiu-se culpada. Porém, décadas mais tarde, quando ouve o relato de sua amiga que viveu em culpa por negar um último gole de água ao pai, Ogura compreendeu que a gênese daquela morte não se encontrava no seu ato de atender ao último desejo de uma pessoa à beira da morte, mas sim no bombardeio atômico e em suas vicissitudes. Ao compreender que a gênese daquela morte não estava em suas mãos, o sentimento de culpa de Ogura desapareceu.
Referências
- FLETCHER, J. Freud and the scene of trauma. New York: Fordham University Press, 2013. 365p.
- FREUD, S. Recordar, repetir y reelaborar. Buenos Aires: Amorrortu, 1991. (Obras completas de Sigmund Freud, v.XII)
- _______. Considerações atuais sobre a guerra e a morte. Trad. Paulo C. L. de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v.12)
- _______. Introdução a psicanálise das neuroses de guerra. Trad. Paulo C. L. de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v.14)
- _______. Mais além do princípio do prazer. Trad. Paulo C. L. de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v.14)
- _______. Por que a guerra? Carta a Einstein. Trad. Paulo C. L. de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 2010. (Obras completas de Sigmund Freud, v.18)
- FROSH, S. Assombrações: psicanálise e transmissões fantasmagóricas. Trad. Cristiane I. Nakagawa. São Paulo: Benjamin Editorial, 2018. 206p.
- HERSEY, J. Hiroshima. New York: Vintage Books, 1989. 152p.
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- HIROSHIMA PEACE CULTURE FOUNDATION. Eyewitness testimonies appeals from the A-Bomb survivors. 4.ed. Hiroshima: Nakamoto Sogo Printing, 2009. 173p.
- HIROSHIMA PEACE MEMORIAL MUSEUM. The spirit of Hiroshima. Hiroshima: The City of Hiroshima, 1999. 127p.
- KOSAKAI, Y. Hiroshima peace reader. Hiroshima: Hiroshima Peace Culture Foundation, 1980.
- LAPLANCHE, J. Problemáticas I: a angústia. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 346p.
- _______. Vida y muerte en psicoanálisis. Buenos Aires: Amorrortu, 2001. 177p.
- LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. São Paulo: Martins Editora, 2001. 574p.
- LEVI, P. Os afogados e os sobreviventes. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004. 175p.
- NAKAGAWA, C.I. Trauma e sentido, culpa e perdão, vergonha e honra nos hibakusha: um estudo de testemunhos e seus paradoxos. São Paulo: Benjamin Editorial, 2025. 216p.
- TAKAYAMA, H. Hiroshima in memoriam and today. 2.ed. Hiroshima: The Himat Group. 2000. 277p.
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Disponibilidade de dados de pesquisa
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
Termo em japonês que significa sobrevivente da bomba atômica.
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Keiko Ogura foi entrevistada por Nakagawa em janeiro de 2018 na ocasião do Estágio de Pesquisa no Exterior, com financiamento Fapesp (Bepe). Para a narrativa completa de Keiko Ogura, ver Nakagawa (2025).
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3
O exato local em que a bomba atômica explodiu - no ar, a 600 metros do solo - é denominado epicentro. Seu referencial no solo é denominado hipocentro.
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4
Trata-se da aeronave que lançou a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima em 6 de agosto de 1945. Responsável pelo treinamento do esquadrão e pela execução do primeiro bombardeio atômico da história, o coronel Paul Tibbets batizou o bombardeiro B-29 de “Enola Gay” em homenagem à sua mãe.
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5
Ogura tinha cinco irmãos: uma irmã e dois irmãos mais velhos, uma irmã mais nova e um irmão que nasceu depois da guerra.
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6
Naquela época, o governo japonês suspendeu as aulas dos alunos do Ensino Médio e as substituiu pelo chamado “esforço de guerra”, que envolvia trabalhos em fábricas de armamentos, nas áreas de demolição, em plantações, entre outros.
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7
Nesse momento, quando começou a falar sobre os dias seguintes ao bombardeio, Ogura fechou os olhos e narrou suas experiências dessa forma: com os olhos fechados.
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8
Muitos testemunhos de hibakusha relatam que após a explosão perceberam com estranhamento que estavam descalços.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
