Open-access Uma história de como os Waiwai da Amazônia vêm construindo e agora contando suas arqueologias

RESUMO

Neste texto falo de momentos importantes de trajetórias de meu povo, os Waiwai, que, junto com vários outros parentes, atualmente vivem no Território Wayamu. Narro alguns episódios que transformaram significativamente essas trajetórias, como o contato com missionários. Abordo também a minha descoberta da arqueologia e como isso proporcionou o reencontro com uma parte importante de nossa história. Esse reencontro/retorno me fez pensar na necessidade de falar de uma arqueologia indígena e também mudar um pouco do que vem sendo falado do passado da Amazônia.

PALAVRAS-CHAVE:
Waiwai; Arqueologia indígena; Passado; Conhecimento; Ancião

ABSTRACT

This text speaks about important moments for the trajectory of my people, the Waiwai, who, along with various of our relatives, live in the Wayamu Territory. I narrate episodes that have significantly transformed these trajectories, for example contact with missionaries. Along with this, I discuss my discovery of archaeology and how it has allowed me to re-encounter important parts of our history. This re-encounter, or return, has led me reflect and speak on the necessity for an indigenous archaeology and about changing the narrative of the Amazonian past from what it has been.

KEYWORDS:
Waiwai; Indigenous archaeology; The past; Knowledge; Elders

Atualmente ainda vivem muitos povos indígenas no Brasil. Alguns deles têm terras demarcadas, outros não, mas estão em todas as regiões do país. Na Amazônia, um desses povos é o meu, os Waiwai, que é uma denominação que congrega vários outros povos ligados por parentesco, a maioria deles falantes de línguas da família Karib. Esses povos habitam os estados do Pará, do Amazonas e de Roraima, no Brasil, além de pessoas Wai Wai que vivem no sul da Guiana e Suriname. No Brasil, eles estão nos Territórios Indígenas Trombetas-Mapuera, Nhamundá-Mapuera e Kaxuyana-Tunayana, que são territórios adjacentes, e também na Terra Indígena Wai Wai. Atualmente, todas essas Terras Indígenas (TI), juntamente com a TI Katxuyana-Tunayana englobam um território reconhecido como Território Wayamu (Caixeta de Queiroz, 2008). A maioria das pessoas estão nas Terras Indígenas Trombetas-Mapuera, Nhamundá-Mapuera e Kaxuyana-Tunayana (Iepé, 2021, p.80). O Território é compartilhado entre vários povos, como Waiwai, Mawayana, Hiskariyana, Xerew, Tunayana, Katwena, Kaxuyana, Parukwoto, Tiriyo, Kahyana, Hiskariyana, Mawayana, Cikyana, entre outros. Antes esses povos estavam dispersos, mas eram vizinhos e havia interações em rede de relações, envolvendo casamento, alianças, guerras e trocas. Depois do aldeamento promovido por missionários todos eles foram reunidos para se tornarem evangélicos.

O primeiro aldeamento promovido por missionários foi na antiga Guiana Inglesa, atual Guiana, no final da década de 1940. A aldeia Kanaxen foi fundada por missionários para reunir grupos e para evangelizar. Lá se estabeleceu o contato definitivo com os missionários norte-americanos que ficaram reconhecidos como paranakarî. Temos registros etnográficos em outros trabalhos de pesquisadores e viajantes que descrevem essa trajetória (Gallois, 2005; Howard, 1993). No meu trabalho de mestrado (Wai Wai, 2022) procurei também o relato dos antigos moradores do Rio Kikwo (Baracuxi) sobre esse momento histórico de contato com os missionários.

A trajetória e objetivo desses povos não era ir atrás da conversão. O motivo da ida era conseguir ferramentas oferecidas pelos forasteiros. Depois os missionários convenciam os líderes mais fortes dos grupos a avisarem seu povo para não retornar para suas moradas antigas. Os anciões que entrevistei, três pessoas que participaram dessa trajetória, contaram essa história de como começou a chegada. Um deles, meu pai, Renato Poriciwi Wai Wai, minha mãe, Lea Wahciki Wai Wai, e a irmã do meu pai, Kamña Wai Wai. Chegaram em uma aldeia chamada Yakayaka, alguns Waiwai já moravam lá, dentro de uma maloca grande. Yakayaka não tem sua localização atualmente conhecida com precisão, mas ficava relativamente próximo de Kanaxen (Mapa 1). Lá moravam também Carumas (também chamados Tarumã). Nessa aldeia não tinha posto de missão. Todo domingo e quarta-feira os pastores vinham ministrar culto, mas ainda os indígenas continuavam com práticas esporádicas da pajelança. Mas já se iniciava as proibições relativas ao xamanismo. Depois as pessoas começarem a fazer suas moradas em Kanaxen (Mapa 1). O grupo de meus pais, liderado por Maporio, uma liderança importante, chegou lá provavelmente entre setembro e dezembro. Fizeram a roça perto dos missionários, para poder pegar maniva para plantar. Os missionários tinham roça grande, tinham cana, macaxeira, mandioca brava, abacaxi e milho na roça. De vez em quando as pessoas pegavam escondido as coisas da roça, mas o missionário os proibia de pegarem as plantas e alimentos. Por esse motivo, alguns queriam retornar para suas aldeias, mas os missionários não queriam deixá-los retornar. Os indígenas queriam fazer maloca grande em Kanaxen, para todos morarem juntos. Mas os missionários falaram para fazer casas menores, para cada família, para que evitar que alguns homens não mexerem com as mulheres dos outros. Assim eles começaram a deixar de usar casa grande, como moradia coletiva. Hoje em dia, dentro de casa grande só fazemos festas, eventos, casamentos e outros. E as casas menores foram adotadas para moradia das famílias.

Assim começou a evangelização e a busca de novos yanan (outros povos isolados). Conversando com meu pai Poriciwi, busquei saber por que eles estavam reunindo todo esse povo. Ele respondeu: o xamã Ewka se assumiu como um dos líderes dos pastores e com isso ele queria que todos os grupos viessem para Kanaxen, ouvir história de Deus. Esse é o motivo do nome da aldeia, Kanaxen que na língua waiwai significa “Deus ama você” akexe nay Kaan.

Nessa aldeia ocorreram várias mudanças, muitas coisas deixaram de ser praticadas e outras foram alteradas. Depois de ter muitas gentes morando lá, Ewka pensou em fundar nova aldeia, no rio das antigas aldeias, o Rio Kumowo (rio de muitas bacabas) - chamado de Rio Mapuera hoje em dia, nome dado por motivo de ter concentração de palmeira de bacabeiras. Nesse tempo meu avô materno, Caramca, era vice do Ewka. Eles tiveram reunião interna e Ewka queria que todos que tinham vindo para Kanaxen pudessem retornar para suas aldeias. Eles falaram para os demais líderes, que iam fundar aldeia e levar seus grupos de volta para o Brasil. Assim, retornaram para o Rio Mapuera, já no Brasil (Mapa 1). Os missionários não queriam perder contato com eles. Queriam que eles fizessem aldeia em um lugar do rio sem curva, para que os missionários pudessem pousar o avião no rio e assim manter o contato com os Waiwai. Esse foi então o motivo da escolha do lugar onde se situa a aldeia Mapuera.

Mapa 1
Mapa do território Wayamu destacando localidades mencionadas no texto.

Mas a aldeia Mapuera foi aberta em um lugar que é uma aldeia antiga. Temos histórias que nossos pais contam. A aldeia Mapuera foi reocupada pelos nossos parentes Xerew nos últimos anos antes da evangelização. Eles vieram da cabeceira do igarapé Kari, que deságua na margem direita do Rio Mapuera, abaixo da atual aldeia Tamyuru (Mapa 1), na margem direita do Rio Mapuera. A aldeia Mapuera anteriormente foi abandonada por motivo de muito roubo de mulheres. Depois os Xerew recuperaram essa aldeia antiga. Eles tinham duas aldeias perto do rio e outra distante quase 1km da aldeia Mapuera, perto do igarapé Minirwaka (Mapa 1). Sabemos do relato dessa aldeia pois, até hoje, na frente do Rio Mapuera tem duas pedras. Nelas apareciam um macaco guariba, xîpîrî em waiwai, na língua Xerew a pedra se chama mawtohrî, por isso o local é chamado de “pedra de guariba”. Pessoas que moravam na aldeia Mapuera viam imagem dos homens que roubavam as mulheres Xerew. Assim eles denominaram esse como o “povo da anaconda”, okoymo yana, por isso, até hoje, essa pedra é respeitada pelo nosso povo.

Esse animal que se parecia com o macaco ficava sentado na pedra pegando sol. Quando os indígenas passavam remando ele atacava, era muito perigoso navegar perto dali. À noite, na aldeia da margem do rio, onde agora é a aldeia Mapuera, moravam alguns Xerews. Esses macacos vinham como homens de noite namorar as mulheres. Os Xerews não sabiam ainda, estavam pensando que eram os visitantes que vinham de outras comunidades. Depois de algum tempo, uma moça foi levada por um jovem okoymo yana, povo da anaconda. Ela foi e viu como era o fundo do rio. Ela entrou no rio e não se afogou, entrou como se fosse entrando para casa e viu as cobras. Ela falou para seu namorado, essa é sucuri, okoymo? O jovem respondeu: isso e kwahsî tipici. Depois, continuaram andando e ela viu as cachoeiras. O jovem respondeu: não são cachoeiras, essa é a montanha îîpî. Para os povos que vivem embaixo do rio o que nós chamamos de um nome eles chamam de outro. A jovem Xerew ficou lá por três dias. O pai e a mãe estavam preocupados que ela tinha sumido. Os xamãs do povo da anaconda então pediram para o jovem trazer ela de volta. Ouviram que os pais dela choravam muito e falou para a moça: pode voltar, seus pais estão chorando por sua causa. Ela voltou com macaco moqueado, banana, cara e batata. Ela a avistaram no caminho andando e a família que estava esperando correu para abraçá-la. Depois os pais começaram perguntar aonde ela tinham ido. A moça contou para sua mãe que o jovem a convidou para ir com ele, entrar com ele no rio, ela não queria, o jovem insistiu no convite e ela foi. Contou para sua família que tinha gente morando embaixo do rio. Os Xerews que moravam nessa aldeia perto do rio saíram para morar perto do igarapé Minirwaka (Mapa 1). E foi assim que descobriram a existência do povo que vivia na água e vinha roubar suas mulheres. Assim, os anciões que foram para Guiana contaram para os Waiwai e quando eles vieram ocupar de volta essa aldeia, passaram a contar essa história para nós, que hoje em dia chamamos essa pedra xîpîrî tohnî.

Além dessa aldeia, os Xerew tinham outra no igarapé Akari. Para lá eles fugiram também. Nessa aldeia tinham muitos sintomas de febre e muitas pessoas morriam, provavelmente de malária. Alguns anciões Xerew falavam que essa aldeia não era boa para fazer morada. No lugar tinha morrido muita gente. Hoje em dia, no tempo da chuva, dá muita malária na aldeia Mapuera. Talvez fosse nessa época que eles eram infectados. São esses os motivos que os levaram a mudar dessa aldeia. Depois de muito tempo reocupamos novamente esse lugar. No Rio Mapuera, subindo para a sua cabeceira tem marcas das ocupações, antigos acampamentos, antigas aldeias, polidores e marcas nas pedras nos igarapés e nas cachoeiras, onde nossos ancestrais passaram e viveram.

Mas, depois Ewka pensou em fundar uma nova aldeia em Roraima. Convidou seu vice, Caramca, e falou para ele: “Caramca, vamos levar nosso grupo para viver somente entre os Waiwai em Roraima?”. Como os Katwena queriam viver perto dos Waiwai, Caramca falou para Ewka: “Saímos da Guiana, chegamos aqui no Mapuera e construímos aldeia, trouxemos as pessoas, deu muito trabalho para trazer eles”. Então disse para não irem para outro lugar, pois queria morrer no meio deles, na aldeia Mapuera.

Nessa aldeia começou então a convivência em conjunto de vários grupos indígenas em definitivo. Anteriormente havia as visitas, pelo menos de alguns povos que viviam mais longe, por questão de distância. Atualmente existem aldeias maiores em três países: no Brasil, na Guiana e no Suriname. Ainda hoje continuam alguns encontros e trocas de bens com parentes que moram longe. Acontece no tempo de conferência da igreja com parceiro warawan em nossa língua e aproveitam. Nossas redes de relações nunca foram interrompidas.

Duas aldeias cresceram com populações diversas etnicamente. Levou um tempo para se entenderem, trocar conhecimentos e casamentos. Ao longo do tempo, as aldeias estavam divididas e separadas por grupos, como Waiwai, Mawayana, Hiskariyana, Katwena, Cikyana, Xerew, entre outros. Eu percebi que esses grupos antes citados não queriam se misturar. Demorou e, muito devagar, começaram a se dispersar e fundar novas aldeias pequenas nas margens do rio Mapuera.

Em Roraima, a aldeia Jatapuzinho foi fundada para evangelizar parentes Karapawyana. A ideia era fundar uma nova morada dos Waiwai. Desde então, os Karapawyana vêm morando perto dos Waiwai. Mas levou muito tempo para acostumar-se com eles. Os Karapawyana, da mesma forma que os Waiwai, no começo queriam buscar ferramentas e depois retornar para suas aldeias. Alguns Karapawyana ficaram e não quiseram vir com os Waiwai. Aqueles que não vieram se mudaram para outra aldeia. Eles falaram para os que ficaram, se eles não retornassem era para avisar que estavam mortos. Como até hoje os Karapawyana não retornaram, os que vieram junto com Waiwai pensam que os outros estão todos mortos. Essa última aldeia, Jatapuzinho, foi fundada pelo líder Ewka para trazer esses parentes isolados. Atualmente tem várias outras aldeias no rio Jatapuzinho. Com o tempo foram fundadas novas aldeias.

Antes dos missionários nossos ancestrais viviam de outro modo. Havia muitas visitas, trocas e também guerras. As aldeias eram pequenas, cada etnia vivia nas aldeias de origem dos pais. Algumas aldeias tinham bastante gente, mais de uma maloca, mas tinham o costume de fazer vários acampamentos de moradia. Também eram visitadas sempre e, às vezes, por motivo de conflito, outros se mudavam. Às vezes iam para outra aldeia dos parentes vizinhos. Eram livres e viviam de acordo com seus costumes e modo de ver o mundo.

Quero falar principalmente desse tempo. Esse trabalho é uma continuidade de pesquisa que já venho fazendo para traduzir nossas culturas. São nossas culturas e línguas que estão nos guiando e nós indígenas precisamos colocar no papel (Wai Wai, 2017; Jácome; Wai Wai, 2020).

Nosso conhecimento vem das nossas aldeias e do nosso território, depois veio outro conhecimento que nós também quisemos aprender. Nossos pais queriam que nós jovens aprendêssemos coisas novas dos brancos. Muitas coisas não eram mais faladas sobre as práticas culturais mais antigas. Quando eu cheguei na Universidade, fui entender a importância de considerar o passado, nossos conhecimentos, nossas tradições e o modo que vivemos. Hoje parece que nós estávamos deixando de lado as nossas coisas, deixando de praticar nossas culturas. Os anciões que me ensinaram também me perguntavam por que eu estava querendo aprender essas histórias. Tem outras histórias que devem ser passadas só internamente, não podem ser passadas para outras pessoas. Quando eu falava que eles eram pessoas importantes, os meus interlocutores traduziam para mim: falaram que muitas gentes morreram. Mas eu queria chegar nesse ponto da conversa, falava que não é só o conhecimento dos brancos que temos que aprender. Nós jovens precisamos aprender também sobre nosso conhecimento. No início meu povo achou estranho, eu como indígena fazendo curso de arqueologia, pois já estava proibido falar dessas coisas antigas. Demorei um pouco para traduzir para eles o que é arqueologia nas nossas línguas. Depois vieram outros pesquisadores waiwai cursando arqueologia e antropologia, Otekmi Wai Wai (2021), Cooni Wai Wai (2019), Walter Wai Wai (2017), Roque Yaxikma (2018), Alexandre Wai Wai (2018). Assim, os anciões acharam importância no conhecimento e começaram a entender melhor. Começaram a receber mais as visitas, a aceitar fazer entrevistas, gravar os áudios e tirar fotos. Tudo isso já é entendido como algo que nos ajuda na nossa luta.

Eu tenho adquirido um pouco de conhecimento de arqueologia. Já sabia, desde criança, algumas coisas da nossa história, mas, naquela época, não podia imaginar que era nossa arqueologia. Quando eu cursei arqueologia, aos poucos fui entender a diferença do modo de classificar a trajetória da história dos Waiwai. Antigas aldeias, artefatos, paisagem antrópicas... Fui entendendo e tentando traduzir na minha dissertação de mestrado um conceito de história para nossa língua. Com essa tradução, nós Waiwai podemos tentar explicar para os Waiwai do futuro e para os brancos.

Já falamos muito sobre o “nosso passado” e sobre a “ nossa história”, mas será que estamos falando a mesma coisa que os brancos (karaywa) quando nos expressamos dessa forma? Acho que aquilo que nós chamamos de história, os brancos (ou os antropólogos e arqueólogos) chamam de mitologia, mas, para nós, essas são histórias verdadeiras, vividas pelos nossos antepassados. Na língua wai wai, há três termos para nos referirmos ao passado:

  • - Pahxantho yehtopo (pahxantho = passado antigo; yehtopo = história): um tempo muito antigo, ancestral, no qual os personagens “reais” da história não são nomeados.

  • - Pahxa Ehtoponhîrî Komo (pahxa = passado; ehtoponhîrî = história; komo = povo): história que se passou num tempo anterior, num passado relativamente distante, mas no qual se pode localizar o povo e o lugar (por exemplo, o tempo de uma festa que acontecia entre os meus pais ou avôs).

  • - Amna ponho (amna = nós; ponho = passado): um evento do qual participamos e podemos relatar, por exemplo, amna totoponho quer dizer “a viagem que fizemos”.

  • - Orotono yehtopo (oroto = agora; yehtopo = história). A história ou o relato do que está acontecendo.

Portanto, as duas histórias que relato a seguir se aparentam mais ao que chamamos de Pahxa Ehtoponhîrî Komo, por serem histórias que se passaram no tempo de meus avós no rio Kikwo, das danças e festas daquela época. Já as histórias que relato depois se passaram num tempo bem antigo e se parecem mais com uma versão do tipo Pahxantho yehtopo. Já nossa viagem de pesquisa para o local destes acontecimentos no passado é uma “amna totoponho” (Wai Wai, 2022 p. 44).

Aqui queria trazer arqueologia do meu povo Waiwai, de um grupo específico, de um grupo com quem convivi. Quero trazer alguns exemplos de conversas na minha família, que vivem na aldeia Mapuera, Terra Indígena Trombetas-Mapuera. Hoje em dia, onde eu moro, no Rio Mapuera, vivem juntos muitos povos que antes eram separados. Esses grupos se misturaram pelo casamento, como disse acima. Eles sobreviveram aos tempos antigos, aos tempos das doenças e hoje nós somos quase 2 mil pessoas somente nas aldeias do Rio Mapuera (há ainda gente Waiwai espalhada em outros rios, do lado do Brasil, da Guiana e do Suriname, ao todo somos mais ou menos 5 mil pessoas) (Wai Wai, 2022, p.30).

Tem outros pesquisadores que vêm trazendo, desde muito tempo, informações etnográficas, através de materiais, desenhos e pinturas corporais feitas por indígenas. Alguns desses materiais são encontrados nas antigas aldeias e fazem parte de nossas histórias, Amna yehtoponho. Nós do povo Waiwai somos descendentes desse povo milenar, continuamos o que nosso povo vem transmitindo para nós, os filhos atuais.

Somos descendentes de Mawari e Woxi. Já existem trabalhos escritos de outros pesquisadores sobre isso. É possível encontrar versos de histórias de Mawari e Woxi (Caixeta de Queiroz; Migliano, 2009). Eu tenho ouvido histórias que meu pai e o irmão dele, Axwarapa, ouviram de meu bisavô, o xamã Maporio. Nós somos descendentes dos dois irmãos, Mawari e Woxi. Eram irmãos que viviam antes da nossa criação, da criação do nosso povo. Eles também eram xamãs. Eram caçadores que sabiam fazer bem as flechas. Eles tinham habilidade de acertar a caça. Mawari pescou filhas de okoymo yana (anaconda), duas moças. Desde então, nosso povo vem se misturando, desde muito tempo, desde a nossa criação. Nesse sentido, os pajés vêm compartilhando conhecimento, suas ciências da natureza e o desenvolvimento de suas formas de viver. Encontramos em muitas regiões sítios arqueológicos e fragmentos de cerâmicas feitos de argila. Talvez, se há anos os ancestrais não praticassem essa troca de conhecimentos, casamentos, ajuda de espíritos da natureza, nós, atuais filhos, não saberíamos que esses nossos povos vieram trazendo o modo de viver, a diversidade cultural, a língua, a cultura e todas as histórias de participação de conjuntos de troca de sua sabedoria da natureza.

Esses dois irmãos foram descobrindo muitas coisas que, hoje em dia, temos de conhecimento das florestas. A partir da floresta vinham também seus outros conhecimentos. Existem épocas que dão frutos nas florestas, para animais e para humanos, algumas também servem para remédio. Qual melhor época de fazer as roças e a melhor época de festas? Meu pai, durante meu percurso de pesquisa de campo, contou histórias de festas. Tinham festas feitas por eles, na época, entre janeiro e março, quando existem mais frutos e quando os animais se alimentam melhor e ficam mais gordos. Essa festa era conhecida como festa do mawa, um tipo de sapo que canta na época da chuva. Essa era a época que faziam festa. Hoje em dia, segundo Poriciwi, já não é mais como eles organizavam festa. Os missionários, com quem eles moraram em Kanaxen, intervieram e já não podem mais fazer festa com bebida fermentada, uso de cigarro e a festa virou festa de Páscoa.

Outra festa era organizada também na época de seca, a festa dos caçadores e coletores. Nessa época as bebidas também eram feitas. Bebíamos vários vinhos como de buritis, bacabas e castanhas. Hoje em dia, comemoramos a festa dos caçadores e coletores no Natal. Em 2017, quando eu traduzi um áudio gravado pela antropóloga Leonor Valentino, para sua pesquisa de doutorado (Valentino, 2019), apareceu essa narrativa. Outras informações e narrativas podem ser vistas em Valentino (2019 p.197-9), na aldeia Ayarama, com o povo Tunayana, no Rio Trombetas.

Nesses áudios de entrevistas, Pooco Kawukma conta que o gavião-real tinha ensinado, a primeira vez, para um homem Tunayana, mostrando pucukwa, bebida fermentada feita de mandioca. Ele mostrou um cipó duro, ele foi conhecendo como era o processo de fazer, ele aprendeu com ele. Também aprendeu como fazer veneno de caçar, como temperar e mostrou o cipó para utilizar. Existem dois tipos de veneno, cipó de Okomkîrîsî e outro cipó de Yaymo. E foi assim que eles foram dando nome para os cipós. Esses tipos de conhecimento é o que depois os povos indígenas vêm compartilhado com diversos outros povos indígenas. Segundo Yakuta, ancião que tem me explicado um pouco, perguntei para ele: Por que, às vezes, encontramos na antiga aldeia artefatos parecidos com o que foi feito em outro lugar longe? Ele me respondeu: existe um dono desse mundo, ele vem ensinado, é o mesmo dono dessa natureza, ele que ensinou nossos pajés. Esses donos, os conhecedores anciões traduzem como espírito ekatî. Por isso, acreditamos que ekatî existe. Todos os seres naturais é que alimentam o conhecimento de diversos povos indígenas.

Quando eu fui convidado pela antropóloga Mryan Barboza para participar de seu campo de pesquisa de doutorado com os Katukina (Leitão-Barboza, 2019; Leitão-Barboza et al., 2019), povo indígena que vive no Amazonas, ouvimos muitas histórias. Uma parte da história contada para ela, aqui quero registrar e compartilhar. É sobre o conhecimento Katukina. Quando eu contava a história do pajé Maporio, que entrava em contato com o espírito dos ponko, porco do mato, o cacique Katukina contou:

Os homens foram derrubar roça, vários deles, e deixaram suas esposas na casa cuidando de suas comidas. As lontras vieram com peixe e trocaram com as mulheres em troca de sexo. Assim, as mulheres alimentavam seus maridos com peixes. Mas, depois eles descobriram que elas estavam traindo-os. Assim, os homens começam a matar todas as suas esposas. Depois o pajé perguntou para eles: e agora, o que vocês podem fazer? Todos eles acharam que queriam conhecer outro mundo, assim o pajé transformou metade de homens em porco do mato e caititu.

Quando eu contei, ele acreditou, pois muitos outros povos já viraram animais e muitos animais já viraram pessoa. Quando levei essa história para contar em nossas arqueologias para os indígenas, eles contaram outras histórias parecidas. Temos histórias contadas por nossos pais também (ver Jácome; Wai Wai, 2020; Caixeta de Queiroz, 2015).

Como a história do homem e de suas esposas que não engravidavam. Eles criavam uma sucuri de nome Petaru. Quando seu dono foi caçar, trouxe grande caça e cutia. Como nós temos costume, nós indígenas, quando alguém mata caça grande, seus vizinhos vêm buscar pedaços de carne. Assim, os seus vizinhos vieram e eles deram carne para eles. Mas eles esqueceram Petaru, ela já estava ouvindo as falas. Quando os vizinhos passaram perto de Petaru falaram: seus donos mataram caça grande, você sabe? Alguns minutos depois o dono veio trazer sua comida, abriu a cerca e disse: “está aqui sua comida Petaru”. Petaru pulou em cima, engoliu seu dono e foi embora. O pajé convidou as ariranhas para irem procurar e matar a Petaru. As ariranhas são um dos maiores predadores que existe no rio, elas são fortes, velozes e lutam coletivamente. Então são com elas que os pajés entravam em contato para auxiliar e resolver seus problemas.

Dessa maneira, esse mundo não é somente para os humanos sobreviverem, para tudo isso continuar, para os indígenas continuarem, deve haver biodiversidade. As florestas fazem parte, hoje em dia, da continuidade da construção da vida dos povos indígenas.

É assim que nossos ancestrais vêm conhecendo a floresta amazônica e nomeando as demais florestas. De modo geral, assim como os Waiwai, outros grupos provavelmente também sabem muitos nomes das árvores. Entre outras conversas que tive com meus parentes, eles falaram que as árvores são naturais, mas sim, elas também têm seu dono, mesmo as que são utilizadas por nós indígenas. A maioria delas por causa de frutas, pelo uso e pela necessidade de resolver tarefas. Por exemplo, quando as árvores são reconhecidas por pessoas por causa do uso de fruto, casca para remédio ou uso das folhas, elas se tornam plantas natarî, às vezes, plantadas por indígenas. Tornam-se plantas levadas e plantadas por indígenas, mas, muitas outras não são comestíveis. Algumas plantas são também plantadas por animais como anta, jabuti, tucano, jacamim entre outros. Como alguns frutos de palmeiras como patauá, bacaba, buritis, também eram usados por indígenas que pegaram de seus donos, pegaram e deram nome para essas plantas. Tornaram-se outros donos, com outros nomes.

Eu tenho acompanhado o arqueólogo Igor Rodrigues em suas pesquisas com os anciões e conhecedores de vegetais (Rodrigues, 2022). Um deles, Amaña, afirma que os animais são os donos das plantas. Mas essas plantas são também usadas pelos homens para fazer trançados vegetais. Depois de muito tempo é que vieram as mudanças culturais, chegaram novos conhecimentos, novas formas de fazer as coisas, formas de fazer o mesmo desenho das coisas. Depois vieram outros grupos traduzindo os mesmos desenhos de acordo com seu povo.

Particularmente, o modo de informação dos meus povos, hoje em dia, é reconhecido como Waiwai, sempre foi transmitido oralmente. Quando eu conversava com meu pai, primeiro para a pesquisa de conclusão de curso de graduação (Wai Wai, 2017), tentei escrever histórias de como era a vida antes do contato com esse mundo em que vivemos. Depois de quase 80 anos que os Waiwai deixaram suas aldeias antigas. Mas, hoje em dia, esses lugares antigos são como “poupança”, onde os animais, peixes e outros reproduzem naturalmente, onde não vivem perseguidos. Somente em épocas comemorativas podemos ir nesses lugares. Com o crescimento do número de pessoas nas aldeias, próximos da moradia não tem mais caças e peixes. Os lugares como montanhas, terra firme, onde tem vários tipos de árvores frutíferas, é onde muitos animais vivem. As caças fugiram para muito longe. Tinha muito peixe, mas com o contato com os brancos, muitos homens adquiriram malhadeiras, o que fez também diminuir os peixes. Por isso, segundo informação de Poriciwi, ele viu que no passado havia pesca com timbó uma vez por ano, para evitar a perseguição de peixes.

Durante minha pesquisa de campo, aprendi com minha família que o Pajé Maporio (era também líder e ao mesmo tempo era pajé), quando eles foram para a Guiana, ele jogou de volta os amuletos que ele não podia levar para outro lugar, pois esses amuletos pertenciam àquele lugar. Foram deixados seus pertences durante a mudança para as novas aldeias. No sítio arqueológico, a aldeia antiga que era ocupada por seu povo, pelos relatos que ouvi descobri que muitas coisas foram deixadas por eles, como sua casa, as roças, cemitério, suas plantas, lago de pesca, montanhas em que coletavam frutas e outras coisas. São essas paisagens, ditas “naturais”, que tem se transformado para a concepção de que foram os indígenas que fizeram, mas fazem parte da construção de conhecimento milenar que envolvem indígenas e outros seres. Hoje em dia, algumas trilhas que davam acesso para as aldeias continuam e outras se fecharam.

Quando identificamos sítios e acampamentos na Amazônia, com certeza, são o resultado da vivência de outros grupos indígenas, que viveram nesse local depois de muito tempo. Nas aldeias existiam malocas e o ancião Towa contou que antes o povo dele só tinha casas menores, feitas de folha de açaí e as redes feitas de xaraw e pîîrî kahxapu. Segundo ele, um homem foi caçar no mato e quando ele estava lá choveu muito. O passarinho se aproximou, começou a chamar krahko e o homem mandou calar a boca. Depois o pássaro virou gente, chamou o homem e perguntou a ele: “você saber fazer a casa?” O homem respondeu não. Então, o pássaro indicou como fazer as casas, mostrou madeiras, cipós, palhas... O ancião Towa falou que foi assim que o povo dele tinha a história de como eles iniciaram a construção de malocas nas aldeias deles.

Considerações finais

Do meu ponto de vista, estudar arqueologia indígena, do passado e do presente, é o meu retorno. Aprender a minha arqueologia serviu para buscar as minhas origens. Na verdade, a arqueologia não foi o primeiro contato com essa origem. A arqueologia ajudou a organizar o conhecimento e tem indicado o caminho para aprender mais. A minha pesquisa é sobre o conhecimento orientado pelos anciões. A minha descoberta foi ver um modo que eu nem sabia, que meus povos trazem em memórias milenares. Os modos de conhecer a Amazônia são conhecimentos tão legítimos como os da ciência, mas eles são transmitidos com os pajés. A arqueologia mostrou uma trilha para entender o ponto de vista do meu povo. Para eles o valor da arqueologia é que eu possa escrever e registrar nossas tradições, o que nos conta os significados. Ouvir os velhos é uma conexão com passado e a minha formação na arqueologia e na comunidade é uma forma de fazer conexão com as teorias indígenas. Aprender e entender como viver na Amazônia, os cuidados com todas as naturezas, que tem vidas e espíritos, vai nos ajudar a curar as nossas dores. Se nós não formos cuidadosos com eles seremos prejudicados, pois existem outros seres nas florestas que podem fazer as coisas arruinarem a vida dos humanos. Assim quero contribuir para que esses conhecimentos sempre sejam passados e por muitas gerações.

Agradecimentos

De início, quero deixar meu agradecimento a minha família, na pessoa do meu pai, Poriciwi, e da minha mãe, Lea Wahciki; quero agradecer todos os anciões e anciãs que compartilharam seus conhecimentos comigo. Agradeço meus amigos antropólogos, arqueólogos e professores Karaywas. Quero também agradecer aos pesquisadores que me ajudaram com o texto e a compartilhar os conhecimentos escritos aqui, prof. Claide de Paula Moraes e Igor Rodrigues. Quero também agradecer a professora Carla Jaimes Betancourt e Carlos Machado, coordenadores do Projeto Heritage and Territoriality: past, present, and future perceptions among the Tacana, Tsimane’, Mosetén and Waiwai (financiado pela Fundação Volkswagen) que estão me ajudando a aproximar e falar com os Waiwai de Roraima. Agradeço também os Waiwai da comunidade Xaary, Anauá e do Jatapuzinho, além de todas as lideranças. Quero agradecer a professora Myrtle pela tradução do resumo em inglês e por toda a paciência que sempre teve comigo. Agradeço também a generosidade da(o) parecerista que fez ótimas sugestões para melhorar a versão final do texto.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2024

Histórico

  • Recebido
    05 Jun 2023
  • Aceito
    07 Jun 2024
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