Open-access De A a Z: um guia para entender os negacionismos

SZWAKO, J.; RATTON, J. L.. Dicionário dos negacionismos no Brasil. Recife: Editora Cepe, 2022

Pelo menos desde a pandemia de Covid-19, palavras como “negacionismo” e “negacionista” parecem ter sido introduzidas no cotidiano dos brasileiros. Em 2021 a Academia Brasileira de Letras (ABL) reconheceu a palavra “negacionismo” e a incorporou ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, assim como os termos “pós-verdade”, “infodemia”, “necropolítica”, entre tantos outros. De acordo com a ABL, o negacionismo pode ser definido como atitudes tendenciosas que consistem em negar a existência, validade ou veracidade de algo, como eventos históricos ou fatos científicos, mesmo quando confrontados com evidências ou argumentos que os sustentam. De fato, a partir de 2020, o Brasil experimentou um significativo aumento no negacionismo, manifestado de várias maneiras, incluindo a minimização da gravidade da doença, a resistência ou desconfiança em relação às medidas preventivas, a subestimação dos dados epidemiológicos, a ausência de formulação de estratégias de saúde nacionais eficazes, a promoção de terapias não respaldadas pela ciência e tentativas de minar a confiabilidade das vacinas, entre diversas outras demonstrações desse fenômeno. É no contexto de análise, compreensão e combate aos negacionismos que a obra Dicionário dos Negacionismos no Brasil se insere.

Das curas “milagrosas” sem comprovação científica que incluíam ozonioterapia, chá de erva-doce e fígado de boi, até as teorias de pneumonia bacteriana decorrente do uso de máscaras, o acumulado de negacionismo se fortaleceu através dos ecossistemas de desinformação, ganhou escala nas redes sociais e mobilizou um forte discurso de desconfiança em relação à ciência. Apesar da proeminência nesse período, o negacionismo é um fenômeno persistente, mundial, multifacetado e que mira em diferentes objetos. Com origens em manifestações pontuais, ele passou a ser gradativamente integrado em campanhas políticas com inclinações autoritárias e antidemocráticas. Além disso, tornou-se uma estratégia política deliberada, com o propósito de promover o descrédito da comunidade científica e histórica, ao mesmo tempo em que atua como um instrumento para mobilizar grupos de interesse em busca de objetivos políticos específicos. É a partir dessa manifestação que surge a importância de se analisar o conceito em camadas, destacando como os diferentes negacionismos ganharam forma no Brasil e penetraram em tantas áreas da sociedade.

A proposta do Dicionário dos Negacionismos no Brasil é, acima de tudo, promover a compreensão de que o negacionismo não se constitui como um fenômeno isolado. Pelo contrário, ele está intrinsecamente ligado a elementos da esfera política, social, econômica e histórica, representando uma parte integrante do discurso, das ações e do pensamento político de cunho reacionário. O livro, organizado pelos professores e pesquisadores José Szwako (Iesp-Uerj) e José Luiz Ratton (UFPE), reúne especialistas de áreas como ciência, política, direito e história para apresentar, em forma de verbetes, conteúdos e debates científicos de maneira acessível ao público não especializado. Já em sua apresentação, elaborada por Celso Rocha de Barros, é enfatizado o princípio orientador de toda a obra: os verbetes apresentados não buscam estabelecer uma conclusão definitiva sobre os fatos e estão abertos à avaliação com base em dados, lógica e argumentação moral.

É a partir desse pensamento que a obra se insere de forma categórica no campo antinegacionista, como uma ferramenta de caráter educativo que traz consigo maior clareza de conceitos e caminhos para que os leitores consigam entender de forma crítica temas importantes que estão sendo pautados pelo debate público. Através desse papel educativo, ela também busca combater as manifestações reacionárias e valorizar o conhecimento científico interdisciplinar e sistemático, produzido especialmente nas universidades e institutos públicos de pesquisa do Brasil.

Ao todo, a obra contempla 112 verbetes distribuídos em ordem alfabética e a escolha dos temas dicionarizados obedece a três critérios. O primeiro, diz respeito a momentos e contextos históricos que atualmente estão em disputa na esfera social e política, como a Revolta da Vacina de 1904 e a Ditadura de 1964-1985. O segundo, trata de instituições e autoridades científicas que produzem e defendem a ciência nos níveis nacional e internacional, como a Academia Brasileira de Ciências e a Fiocruz, além de personalidades como Naomi Oreskes. Por fim, o terceiro é o mais extenso e aborda a variedade de negacionismos existentes, suas táticas de ataque e os indivíduos que os promovem. Uma vez que não existe uma definição única para o termo “negacionismo”, os autores sugerem que sejam considerados negacionismos as estratégias que desqualificam deliberadamente a ciência com o objetivo de alcançar fins políticos, econômicos, morais entre outras. Além disso, apesar de sua diversidade, os negacionismos também compartilham certas lógicas de funcionamento e complementaridade, conforme indicam os autores nos verbetes sobre negacionismo climático, negacionismo histórico e negacionismo científico.

Dessa maneira, existe uma genuína preocupação dos organizadores do livro em apresentar verbetes que não apenas destacam os objetos alvos do negacionismo, mas também os responsáveis por promovê-lo, conhecidos como negacionistas. É o caso, por exemplo, dos verbetes sobre Jair Messias Bolsonaro e Olavo de Carvalho, escritos respectivamente por Marcos Nobre (Unicamp) e Georg Wink (Universidade de Copenhague). Como observado por Szwako (2023), apesar de essa classificação carregar uma conotação acusatória pronunciada, ela apresenta uma notável característica paradoxal: ninguém se autodeclara como negacionista, e essa não é uma identidade que as pessoas assumem por conta própria.

Segundo a contribuição de Marcos Nobre (Unicamp), o negacionismo é um traço evidente na forma como Jair Messias Bolsonaro conduz sua vida política. Isso se manifesta através de sua postura negacionista em relação a diversos aspectos, incluindo os horrores da ditadura militar, a objetividade científica e jornalística, a confiabilidade das urnas eletrônicas de votação, a eficácia das vacinas e a importância do distanciamento social no combate à Covid-19. Nessa perspectiva, Bolsonaro negou enfaticamente tudo o que estava associado ao que ele chamava de “sistema”. O “sistema” por sua vez englobaria todas as instituições, como a mídia, a ciência, a tecnologia e assim por diante.

O negacionismo não é diferente em Olavo de Carvalho. No verbete escrito por Georg Wink (Universidade de Copenhague), o sucesso do olavismo é resultado de uma negação que opera em dois níveis: i) nega-se a competência das instituições científicas e educacionais em produzir e transmitir conhecimento e ii) nega-se a complexidade dos fenômenos mundiais. A partir desse movimento, as conspirações e as negações dão tom à marcha histórica na obra de Olavo de Carvalho (Borges, 2023). É possível verificar que ao longo de toda trajetória pública de Olavo de Carvalho, a decadência e a crise do mundo moderno sempre estiveram presentes como elementos explicativos para intenções e ações ocultas por parte de pessoas poderosas, da esquerda, da mídia, da opinião pública e tantos outros alvos de seu conspiracionismo.

Da mesma forma que os negacionistas, o livro também destaca importantes fenômenos que amplificam o negacionismo. Isso fica evidente nos verbetes que abordam questões como a desinformação, fake news, conspiritualidade, populismo digital, teorias da conspiração, pós-verdade, anti-intelectualismo e muitos outros. Neles, especialistas analisam aspectos relacionados ao ambiente, ao comportamento e às estratégias usadas na disseminação do negacionismo. Em cada um dos verbetes também é colocada a importância das novas mídias, que se fundamentam em conteúdos produzidos pelos próprios usuários, e da revolucionária economia dos influenciadores digitais, também conhecida como creators economy. Esses elementos assumem um papel central na propagação do negacionismo, indicando uma nova forma de abordar e compreender a política.

Dentre esses amplificadores, a desinformação se destaca. Definida pela literatura dominante como a disseminação intencional de informações falsas ou duvidosas, com o objetivo de causar algum dano, como enganar o público, obter ganhos políticos e econômicos ou gerar confusão (Wardle; Derakhshan, 2017). No Brasil, cresce o número de pesquisas que buscam entender a desinformação e sua relação com os ataques ao processo eleitoral brasileiro e às urnas eletrônicas (Dourado, 2020), às políticas públicas (Gomes, 2021), à literacia midiática e informacional (Samuel et al., 2023) e ao papel das agências de checagem dos fatos (Batista Pereira et al., 2022). Temas que andam lado a lado com o negacionismo.

Outros verbetes também merecem atenção. É o caso daqueles que abordam instituições e organizações brasileiras dedicadas à ciência e à defesa da ciência no país. Essas instituições ocupam uma posição de destaque pelo fato de que estão diretamente no radar do negacionismo, que busca questionar tanto os consensos científicos quanto as autoridades e instituições responsáveis por sua produção, conforme apontado por Szwako (2023). Entre os verbetes incluídos estão a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Rede Brasileira de Mulheres Cientistas (RBMC).

Por fim, é imprescindível mencionar os verbetes que desempenham um papel fundamental no aprofundamento dos estudos sobre o negacionismo. Entre eles, destacam-se os verbetes dedicados a Bruno Latour e Naomi Oreskes, bem como aqueles que abordam o negacionismo científico, o negacionismo climático, o negacionismo dependente, o negacionismo estatístico, o negacionismo estrutural e o negacionismo histórico. A importância de Bruno Latour e Naomi Oreskes no contexto do livro é plenamente justificada por sua sólida contribuição no campo dos Estudos da Ciência e Tecnologia (STS) e na luta contra o negacionismo científico. Embora Bruno Latour tenha sido alvo de controvérsias, sua influência e contribuições acadêmicas são indiscutíveis, refletindo um compromisso pró-ciência. De maneira semelhante, Naomi Oreskes, ao longo de sua produção, demonstrou um firme compromisso com a promoção da ciência, destacando a importância de desenvolver estratégias democráticas para mitigar os impactos do negacionismo e facilitar debates informados sobre a prática científica.

Os verbetes abordando os diferentes aspectos do negacionismo e suas variações, mencionados previamente, desempenham um papel crucial na categorização desse fenômeno multifacetado. Seja na sua manifestação no âmbito científico, climático, dependente, estatístico, estrutural ou histórico, o negacionismo busca minar a validade das evidências e dos consensos estabelecidos em cada uma dessas áreas, promovendo uma desconfiança corrosiva que ameaça a integridade do conhecimento e da tomada de decisões. Ele opera não com o sentido de divergência ou contestação, mas com o sentido de guerra aberta, descredibilização e destruição dos pilares da construção do conhecimento.

Diante desse cenário, a variedade e amplitude de temas presentes no Dicionário apontam para um diagnóstico preciso do fenômeno, demonstrando que ele é multifacetado, complexo e enraizado em questões políticas e sociais profundas. Cada verbete, escrito em linguagem acessível, representa um compromisso com a democracia por parte dos especialistas que contribuíram para sua elaboração. Além de trazer a informação de forma detalhada e contextualizada, cada um possui recomendações de leituras adicionais para aprofundamento no tema. Essa riqueza de abordagens e perspectivas no Dicionário também reflete a união de esforços entre pesquisadores, cientistas e especialistas na construção de uma agenda antinegacionista interdisciplinar.

O Dicionário de Negacionismos no Brasil oferece uma plataforma valiosa para a compreensão aprofundada do negacionismo em suas diversas manifestações, ao mesmo tempo em que promove um diálogo necessário para identificar suas raízes e mecanismos de atuação. Ao disponibilizar informações claras e basea- das em evidências sobre temas relacionados ao negacionismo, ele capacita o público a resistir à desinformação e à manipulação, fortalecendo o compromisso com o conhecimento fundamentado e a democracia. Dessa forma, o livro não apenas contribui para a educação e conscientização, mas também para a preservação dos valores democráticos e da integridade do processo de tomada de decisões.

Referências

  • BORGES, T. A crise brasileira na obra de Olavo de Carvalho. Revista Insight Inteligência, v.101, p.140-53, 2023.
  • BATISTA PEREIRA, F., N. S. Bueno, F. Nunes, e N. Pavão. Fake News, Fact Checking, and Partisanship: The Resilience of Rumors in the 2018 Brazilian Elections. The Journal of Politics 84(4): 2188-201, 2022.
  • DOURADO, T. M. S. G. Fake News na eleição presidencial de 2018 no Brasil. Salvador, 2020. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) - Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia.
  • GOMES, C. P. de B. O impacto das fake news sobre as políticas públicas. Revista Digital de Direito Administrativo, v.8, n.2, p.23-48, 2021.
  • LYNCH, C.; CASSIMIRO, P. O Populismo Reacionário: ascensão e legado do bolsonarismo. São Paulo: Contracorrente, 2022.
  • LYNCH, C.; CASSIMIRO, P. Negacionismo e conspiracionismo como instrumentos do populismo reacionário. Revista Coletiva, n.32, jan.fev.mar.abr.maio. 2023.
  • SAMUEL, L.; ROCILLO, P.; PEREIRA, W. G. D. Educação midiática no Brasil: contribuições à consulta pública sobre educação midiática da Secretaria de Comunicação da Presidência da República aberta em 19/05/2023. Belo Horizonte: Instituto de Referência em Internet e Sociedade, 2023.
  • SZWAKO, J. Negacionistas: uma definição em camadas. Revista Coletiva, n.32, jan.fev.mar.abr.maio. 2023.
  • SZWAKO, J.; RATTON, J. L. (Org.) Dicionário dos negacionismos no Brasil. Recife, Editora Cepe, 2022.
  • WARDLE, C.; DERAKHSHAN, H. Information disorder: towards an interdisciplinary framework for research and policy-making. Council of Europe, 2017.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Fev 2024
  • Aceito
    06 Mar 2024
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