Open-access Palavras gramaticais como possíveis marcadores de estilo: uma aplicação à análise de autoria forense da carta-testamento de Getúlio Vargas

Function words as possible style markers: an application to the forensic authorship analysis of Getúlio Vargas' suicide note (carta-testamento)

Resumo

Em agosto de 1954, o então presidente do Brasil Getúlio Vargas tirou a sua própria vida com um tiro no peito. Ao lado do corpo, foi encontrada uma carta, que ficou conhecida como carta-testamento, cuja autoria foi contestada na época. Pessoas próximas a Vargas atribuíram a autoria da carta ao seu amigo íntimo e speechwriter, José Soares Maciel Filho. O suicídio de Vargas e a mensagem deixada em sua última missiva mudaram os rumos da História do Brasil e, por isso, acreditamos ser importante analisar a sua carta de suicídio pela perspectiva da análise de autoria forense. Nossa análise concentra-se, entretanto, apenas nas palavras gramaticais. Para tal, analisaremos também outros textos de autoria conhecida, tanto de Getúlio Vargas, quanto de Maciel Filho. Os resultados, parte de um projeto de pesquisa mais amplo, mostram que há diferenças consideráveis entre a carta-testamento e as demais cartas de suicídio escritas por Vargas. Além disso, os resultados da análise sugerem que a utilização de certas palavras parece estar mais ligada à relação entre locutário e alocutário do que ao gênero e aos tópicos textuais

Palavras-chave:
linguística forense ; cartas de suicídio ; idioleto ; Getúlio Vargas

Abstract

In August 1954, the then President of Brazil Getúlio Vargas took his own life with a shot to the heart. A suicide note was found next to his body stating his last will, which became known as the “carta-testamento”. The authorship of the letter, however, was then questioned. People close to the president attributed the authorship of the suicide note to his close friend and speechwriter, José Soares Maciel Filho. Vargas's suicide and his last letter changed the course of Brazilian history. Hence, his suicide note is worth analysing from the perspective of forensic authorship analysis, by focusing specifically on function words. The corpus used in this analysis includes also other texts written by Getúlio Vargas and Maciel Filho. The findings, part of a larger research project, show that there are significant differences between the “carta-testamento” and the other suicide notes written by Vargas. The findings also suggest that the use of certain words is linked more to the relationship between the speaker and addressee than to the genre and topic.

Keywords:
forensic linguistics ; suicide notes ; idiolect ; Getúlio Vargas

1. Introdução

“Pai dos pobres”, “maquiavélico”, “ditador” e, por fim, “mártir”. Foram muitas as alcunhas dadas ao político que ocupou por mais tempo a cadeira de presidente do Brasil.

Getúlio Vargas assumiu pela primeira vez o poder como presidente provisório no ano de 1930. Depois, em 1934, tornou-se presidente do Brasil através de uma eleição indireta, isto é, através do voto dos membros da Assembleia Nacional Constituinte. Porém, o primeiro governo constitucional de Vargas não durou muito tempo. Em novembro de 1937, Vargas deu um golpe de estado em seu próprio governo com a ajuda militar e instaurou o regime ditatorial denominado “Estado Novo” (Skidmore, 1967/2010; D’Araujo, 2011, Neto, 2013). Em 1945, no entanto, Vargas foi deposto do poder pelo mesmo Exército que outrora o tinha apoiado. Foi o fim da chamada “Era Vargas”, mas não o fim da sua história política.

Em 1951, Getúlio Vargas voltou à presidência da República, mas desta vez através do voto popular direto (Skidmore, 1967/2010; D’Araujo, 2011). Os anos que se seguiram não foram fáceis para Vargas. Em 1954, a sua liderança entrou em declínio. De acordo com Skidmore (1967/2010, p. 173), Vargas sempre confiou em seus talentos de “persuasão e manipulação”, mas agora seus amigos já o percebiam “velho e cansado”. Além disso, o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, em agosto de 1954, fez com que o resto da autoridade de Vargas desaparecesse (Skidmore, 1967/2010). A oposição exigia a sua renúncia, mas Vargas afirmou ao então vice-presidente Café Filho que do Palácio do Catete só sairia morto (Skidmore, 1967/2010; Neto, 2014). Dito e feito. Na manhã do dia 24 de agosto, Getúlio Vargas tirou a sua própria vida com um tiro no coração.

Na mesa de cabeceira, Vargas deixou uma carta de despedida, que é conhecida até hoje como carta-testamento. Destinada ao povo brasileiro, a carta foi imediatamente lida no rádio para todo o país (D’Araujo, 2011). O impacto causado pelo último ato de Vargas e pelas suas (supostas) últimas palavras foi brutal. Getúlio Vargas tornou-se um mártir nacional, um símbolo de resistência (Neto, 2014). Uma mistura de solidariedade a Vargas e de revolta tomou conta do país logo após o anúncio da sua morte. Durante muito tempo, a mensagem da carta-testamento ecoou na sociedade e a missiva acabou por se tornar um dos documentos mais importantes da política brasileira.

Entretanto, a autoria da carta-testamento foi alvo de muitas controvérsias. A primeira delas talvez seja o fato de a carta-testamento estar datilografada e, conforme afirma Neto (2014), Getúlio Vargas não sabia datilografar. Algumas pessoas intimamente ligadas ao presidente afirmaram na época que Vargas era o verdadeiro autor, embora José Soares Maciel Filho, amigo íntimo e redator de muitos dos discursos de Vargas, tivesse sido responsável por datilografá-la; por outro lado, outras figuras importantes da época afirmaram que a autoria da carta era, na verdade, de Maciel Filho (Dulles, 1964, 1991; Aurélio, 2009).

Não obstante tais controvérsias, não foi encontrado na literatura nenhum trabalho que tenha buscado verificar a verdadeira autoria da carta-testamento. Adicionalmente, embora existam inúmeros trabalhos sobre análise de autoria forense, especialmente em língua inglesa, os trabalhos sobre a autenticidade da autoria de cartas de suicídio são raros e, em português, praticamente inexistentes. Ademais, uma grande parte dos trabalhos de análise de autoria forense tem como foco a análise das palavras lexicais, excluindo, por conseguinte, as palavras gramaticais ou deixando-as em segundo plano. Entretanto, como apontam alguns estudos (e.g., Green, 1990; Binongo, 2003; Argamon & Levitan, 2005; Stamatatos, 2009; Kestemont, 2014; Coulthard, Johnson & Wright, 2017; Marko & Locker, 2024), as palavras gramaticais podem ser marcadores de estilo robustos, uma vez que um falante/escritor dificilmente conseguirá controlar, de maneira consciente, o uso que faz dessas palavras.

Assim, este estudo tem como objetivo preencher tais lacunas, a nosso ver, tanto na história da política brasileira, quanto no âmbito da análise de autoria forense. Para tal, analisaremos as palavras gramaticais presentes na carta-testamento visando identificar possíveis padrões linguísticos (marcadores de estilo) que sejam não somente relevantes para a análise de autoria do texto, mas para a análise de autoria forense de uma maneira geral. Nossa análise consiste basicamente em examinar como as palavras gramaticais são utilizadas na carta-testamento e, subsequentemente, em outros textos de autoria conhecida, a saber: outras quatro cartas de suicídio manuscritas por Getúlio Vargas nos anos de 1954, 1945 e 1932 e cartas escritas entre os anos de 1950 e 1954 por Vargas e por Maciel Filho. Importa ainda dizer que esta análise faz parte de uma tese de doutorado em desenvolvimento e, portanto, não é conclusiva.

Serão utilizados como referencial teórico estudos prévios na área da análise de autoria forense (e.g., McMenamin, 2002; Coulthard, 2004; Coulthard, Johnson & Wright, 2017; Johnson & Wright, 2014; Grant, 2022), que serão apresentados na seção seguinte. Antes de passarmos à análise dos dados e à discussão, entretanto, serão ainda apresentados em mais detalhes os dados e a metodologia utilizada neste trabalho. Por fim, serão apontadas algumas considerações finais e algumas orientações para trabalhos futuros.

2. Análise de Autoria Forense

A análise de autoria não é propriamente um tema novo, especialmente na área dos estudos literários. Segundo Love (2002), as disputas acerca da autoria de textos eruditos são, provavelmente, tão antigas quanto a escrita ou, até mesmo, mais antigas do que ela. Paralelamente, também não é nova a ideia de que cada indivíduo possui uma maneira única de usar a sua língua. Já em 1939, Sapir afirmava que “dois indivíduos da mesma geração e localidade, falando precisamente o mesmo dialeto e movendo-se nos mesmos círculos sociais, nunca apresentariam os mesmos hábitos linguísticos1” (p. 69). Isso implica dizer que, enquanto falantes de uma mesma língua, não conseguimos perceber e usar a língua exatamente da mesma maneira (McMenamin, 2002). Assim, diz-se que cada falante tem uma versão muito particular da sua língua, ou seja, o seu idioleto (Coulthard, 2004).

O idioleto, no entanto, não é menos complexo do que a própria língua, pois por ele permeiam diferentes fatores linguísticos e extralinguísticos, tais como: idade, gênero, região, nível de escolaridade, grupo social ou profissional a qual pertencemos, polidez, propósito comunicativo, tópico, prestígio social etc. (Biber, 1991; Mateus & Cardeira, 2007; Fromkin, Rodman & Hyams, 2011). Esses fatores fazem com que adotemos uma forma particular de falar e de escrever em uma determinada língua e, à medida que eles mudam, nossa forma de usar a língua também muda.

Na visão de Coulthard e Johnson (2007), cada falante, ao longo da sua vida, constrói um extenso vocabulário, que difere dos vocabulários construídos por outros falantes. Essas diferenças não estão relacionadas apenas a itens reais disponíveis, mas também à preferência por certas palavras e colocações específicas. Em outras palavras, isso significa que, enquanto falantes de uma língua, temos também as nossas “preferências expressivas” (Faraco, 2018). Ademais, essas escolhas ou preferências dependem do contexto em que são utilizadas, dos propósitos comunicativos do falante/escritor, dos alocutários, etc. Pode-se dizer, então, que fazemos escolhas até mesmo dentro do leque linguístico formado por nossas “preferências expressivas”.

Assim, de uma maneira geral, é possível afirmar que escolhemos os recursos linguísticos disponíveis ou pelos quais temos predileção que melhor nos atendem em uma determinada interação social. Por isso, o estilo de escrita de um autor ou os seus hábitos linguísticos nem sempre são óbvios ou facilmente identificáveis, pois eles não estão imunes à variação (Slater, 1988; Binongo, 2003). Por conseguinte, como as nossas escolhas podem variar de um texto para outro, Grant (2022, p.559) afirma que não se pode mensurar o idioleto de um falante em todo ou qualquer texto produzido por ele. Por outro lado, quando essas escolhas são recorrentes, elas podem determinar um padrão linguístico. Grant e MacLeod (2018) afirmam que, para que um autor seja identificado, é necessário que algumas características linguísticas se mantenham estáveis ao longo de diferentes interações. Grant (2021; 2022), no entanto, vai mais além ao afirmar que a análise de autoria forense pode até depender conceitualmente de uma teoria sobre idioleto, mas, na prática, ela depende muito mais da identificação, de modo empírico e observável, de padrões consistentes no uso da língua. Assim, mais importante do que mensurar o idioleto seria conseguir identificar um grau de consistência e, ao mesmo tempo, de distinção entre as escolhas linguísticas que permita diferenciar o estilo de escrita de um autor de outros possíveis autores (Grant, 2013).

Assente em tais pressupostos, é possível afirmar que o grande desafio da análise de autoria forense é justamente identificar essas “pistas linguísticas” (Johnson & Wright, 2014) deixadas pelo(s) falante(s)/escritor(es) nos textos. Tais “pistas” seriam, na verdade, os padrões linguísticos ou, como também são chamados, os marcadores de estilo do(s) autor(es) que podem estar presentes em diferentes níveis textuais (e.g., sintático, semântico, morfológico, lexical, ortográfico e discursivo). Os estudos nessa área, entretanto, tendem a focar, como já mencionado, as palavras lexicais2 presentes no(s) texto(s). Porém, as palavras gramaticais também podem representar traços distintivos do estilo de um autor, uma vez que constituem uma classe de palavras fechada, ou seja, que não admite a inserção de palavras novas, ao contrário do que acontece com a classe de palavras lexicais. Ademais, enquanto estas últimas podem cair em desuso de uma geração para outra, as palavras gramaticais dificilmente tornam-se arcaicas (Binongo, 2003). Ao mesmo tempo, apesar de fazerem parte de um conjunto menor de palavras, as palavras gramaticais ocorrem com maior frequência nos textos e não apresentam uma relação de dependência com o tópico textual (Binongo, 2003; Kestemont, 2014). Logo, são consideradas mais estáveis do que as palavras lexicais, que tendem a variar mais conforme o(s) tópico(s) presente(s) no(s) textos(s).

Contudo, importa dizer que, dentre as palavras gramaticais, os pronomes parecem gerar alguma controvérsia no que se refere à estabilidade do seu uso e, por conseguinte, à sua fiabilidade no âmbito da análise de autoria: enquanto alguns estudos mostram que o seu uso é mais dependente do tópico e gênero textual (e.g., Burrow, 1987) ou ainda do propósito comunicativo (e.g., Macrae, 2015; Sorlin, 2017), o que torna os pronomes menos estáveis e menos fiáveis, outros acreditam que a análise dos pronomes pode ser útil em determinados casos de análise de autoria (e.g., Marko & Locker, 2024). Voltaremos a essa questão, no entanto, na conclusão deste artigo.

3. Metodologia e Dados

Nosso interesse consiste em investigar a carta de suicídio de Getúlio Vargas, conhecida como carta-testamento, pela perspectiva da Linguística Forense, em geral, e da análise de autoria forense, em particular. Partimos da premissa de que a análise de autoria forense se baseia na comparação de um texto de autoria desconhecida ou questionada com um conjunto de textos de autores suspeitos e/ou de autoria conhecida (Grant, 2013; Coulthard, Johnson & Wright, 2017). Assim, neste estudo analisaremos os seguintes corpora: (i) a carta-testamento, supostamente escrita por Getúlio Vargas em 1954, (ii) outras quatro cartas de suicídio manuscritas por Getúlio Vargas nos anos de 1954, 1945 e 1932, (iii) cartas escritas entre os anos de 1950 e 1954 por Vargas e (iv) cartas escritas entre os anos de 1950 e 1954 por Maciel Filho. Quanto à carta de 1945, importa dizer que os primeiros parágrafos dessa carta são, na verdade, parte de um discurso proferido por Getúlio Vargas, como ele mesmo deixa claro na missiva, e, por este motivo, essa citação não será considerada na análise dos dados.

Quanto à coleta dos dados, todos os textos são provenientes do site do CPDOC/FGV - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas e foram coletados entre os anos de 2020 e 2023. Esses documentos, vale frisar, são originais e encontram-se digitalizados e disponíveis para leitura no site sem qualquer necessidade especial de acesso. Quanto ao tamanho dos textos, a carta-testamento possui 542 palavras e os demais textos coletados 49.985 palavras no total, conforme é detalhado na Tabela 1. Importa dizer que, para se obter esse número de palavras de forma automática, foi necessário excluir todas as translineações (divisões silábicas) presentes nos referidos textos. Embora as translineações sejam bastante recorrentes em textos datilografados e em textos manuscritos, elas não foram consideradas na nossa análise, visto que elas poderiam caracterizar o estilo de escrita ou de datilografia de quem transcreveu/datilografou os textos e não do autor, propriamente dito. Portanto, seguindo essa mesma linha de raciocínio, também não foram levados em consideração aspectos como, por exemplo, gralhas ou erros e inconsistências nas formas escritas (e.g., ‘para’ e ‘p.ª’). O fato de os textos estarem datilografados ou manuscritos fez com que a transcrição tivesse de ser totalmente manual. Diferentes softwares de leitura automática foram testados, mas nenhum deles apresentou bons resultados.

Com relação ao limite temporal estabelecido para a recolha de dados (1950 a 1954), baseamo-nos na ideia de que todo texto questionado é fruto de uma situação única e, portanto, o corpus ou os corpora devem ser compostos por textos de autoria conhecida produzidos em um período próximo ao da produção do texto questionado (Grieve, 2007). Entretanto, optamos por analisar também duas cartas de suicídio escritas por Vargas em datas mais distantes (1932 e 1945), pois elas pertencem ao mesmo gênero textual (carta de suicídio), têm propósitos comunicativos semelhantes (e.g., explicitar as razões que o levaram a cometer ou a pensar em cometer suicídio, já que o ato só foi consumado em 1954) e apresentam tópicos muito semelhantes (i.e., governo e suicídio). Tais aspectos, a nosso ver, são relevantes para que possamos analisar a possibilidade de alguns marcadores de estilo estarem diretamente relacionados ao gênero e/ou tópico textual.

Tabela 1: Visão
geral dos dados analisados

Importa dizer que esta análise é de natureza maioritariamente qualitativa. Entretanto, utilizamos a ferramenta WordSmith Tools (Scott, 2024) com o objetivo de listar as palavras, concordâncias e colocações com maior número de ocorrências nos textos. Os resultados obtidos através dessa ferramenta foram o ponto de partida para a nossa análise qualitativa, visto que nos ajudaram a isolar as palavras gramaticais e a analisar a sua relação com as palavras adjacentes. Portanto, o primeiro passo da nossa análise consistiu em listar e examinar todas as palavras gramaticais presentes na carta-testamento (documento de autoria questionada). Por conseguinte, foi analisada a presença e a utilização dessas mesmas palavras nos demais textos de autoria conhecida. Em um terceiro momento, analisamos as frequências das palavras nos textos, obtidas através da mesma ferramenta. Essa informação permitiu-nos perceber algumas tendências no uso da língua nos corpora como, por exemplo, a utilização de uma palavra com um significado ou uma função sintática específica em detrimento de outras.

Por fim, vale ressaltar que, devido ao seu formato limitado, neste trabalho apresentaremos apenas a análise de algumas das palavras gramaticais presentes na carta-testamento e nos demais textos. Tais palavras, a nosso ver, constituem marcadores de estilo de escrita dos autores e, por isso, são relevantes para a análise de autoria da carta-testamento. Ademais, as palavras gramaticais selecionadas para este estudo suscitam questões relevantes para a análise de autoria forense, sobretudo de textos escritos em língua portuguesa.

4. Análise dos dados

A nossa análise começou pela observação dos possessivos (pronomes ou determinantes) presentes na carta-testamento (doravante CT), tendo tal escolha sido feita baseada na lista de palavras obtidas no WordSmith Tools. Porém, como já mencionado, não há um consenso na literatura acerca da relevância dos pronomes na análise de autoria forense em estudos de língua inglesa.

Os possessivos são a segunda palavra gramatical com maior número de ocorrências na CT (i.e., 27 no total), perdendo apenas para os artigos definidos ‘o’ e ‘a’, que, juntos, somam 57 ocorrências. Estes artigos, por sua vez, podem anteceder os possessivos, assim como a preposição ‘de’. Conforme mostra a Tabela 2, junto com a conjunção ‘e’, essas são as palavras gramaticais com maior número de ocorrências na CT. Importa lembrar que, no português do Brasil, o uso do artigo definido antes do possessivo não é obrigatório. Assim, o seu uso, ou não, pode representar uma escolha do autor e, portanto, ser um marcador de estilo relevante.

Tabela 2: Palavras
gramaticais com maior número de ocorrências na carta-testamento.

Posto isto, observou-se a presença dos seguintes possessivos na CT: ‘meu’, ‘minha’, ‘seu’, ‘sua’, ‘nosso’, ‘nossa’, ‘nossas’, ‘vosso’, ‘vossos’ e ‘vossa’. Em seguida, analisou-se a presença desses mesmos possessivos nos demais textos, como apresentado na tabela abaixo (Tabela 3). Para fins de análise, vale dizer que não foram considerados os possessivos empregados como pronomes de tratamento nos corpora (e.g., “Vossa Excelência” e “Sua Excelência”).

Tabela 3: Possessivos
presentes na CT e nos demais corpora.

Com relação aos possessivos, observa-se, então, que ‘meu’ é o possessivo com maior número de ocorrências na CT e nas cartas de Maciel Filho e de Vargas. Já na carta de suicídio de 1945, ‘meu’ ocorre tantas vezes quanto o possessivo ‘seu’, sendo eles os possessivos que mais ocorrem nesta carta. Entretanto, verificamos que o possessivo ‘meu’ é utilizado sem artigo definido na maioria das ocorrências na CT e na carta de 1945 (i.e., em seis ocorrências e em quatro, respectivamente)3. Por outro lado, nas cartas de Maciel Filho e de Vargas, a maioria das ocorrências de ‘meu’ vem acompanhada do artigo definido ‘o’, como podemos ver nos exemplos (2) e (3). Os possessivos masculinos ‘seu’ e ‘nosso’, entretanto, não seguem o mesmo padrão. Na CT, há duas ocorrências de ‘seu’, estando uma delas acompanhada de artigo definido, e uma ocorrência de ‘nosso’ antecedida pelo artigo definido ‘os’. Já nas cartas de Maciel Filho e de Vargas, observa-se que os autores tendem a utilizar mais os possessivos ‘seu’ e ‘nosso’ antecedidos por artigo definido. Na carta de suicídio de 1945, o possessivo ‘seu’ também ocorre com artigo definido na grande maioria dos casos (i.e., das cinco ocorrências, quatro vêm acompanhadas do artigo definido).

(1) “Meu sacrificio nos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta.” (Carta-testamento - grifos nossos)4

(2) “Quero acentuar bem o meu ponto de vista, [...]. (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

(3) “Desejo sublinhar, ainda, que o meu Embaixador [...].” (Carta de Getúlio Vargas - grifos nossos)

Com relação ao ‘minha’, que é o segundo possessivo com maior número de ocorrências na CT, observamos que, com exceção da carta de 1945, ele ocorre mais vezes acompanhado do artigo definido ‘a’ nos textos. O mesmo acontece com os demais possessivos femininos (‘sua’, ‘nossa’ e ‘nossas’) nas cartas de Maciel Filho e de Getúlio Vargas, com exceção do possessivo ‘sua’, que ocorre mais vezes sem o artigo definido nas cartas de Vargas. Já na CT, observa-se que os possessivos femininos ‘sua’ e ‘nossa’ ocorrem sem o artigo definido. Quando antecedidos pelas preposições ‘de’ ou ‘em’, notamos um maior uso do artigo definido antes dos possessivos na carta de 1945 e nas cartas de Maciel Filho e de Getúlio Vargas. Entretanto, não é possível determinar um padrão na CT quando o possessivo ocorre acompanhado dessas preposições.

Também na CT, observamos o uso da locução prepositiva “a vosso lado” sem artigo definido. Ainda que não haja ocorrências do possessivo ‘vosso’ nas cartas de Maciel Filho e de Vargas, notamos que essa locução ocorre com outros possessivos nos textos. Nas cartas de Maciel Filho, há duas ocorrências da expressão “a seu lado” e, nas cartas de Vargas, três ocorrências de “ao meu lado”. Assim, pode-se dizer que, enquanto Maciel Filho usa essa locução sem o artigo definido, Vargas parece ter tendência para utilizá-la com o artigo definido.

Vale ainda destacar que os possessivos ‘vosso’, ‘vossos’ e ‘vossa’ só ocorrem na carta-testamento e os possessivos ‘teu’, ‘tua’, ‘teus’ e ‘tuas’ ocorrem com frequência nas cartas de Getúlio Vargas, haja vista que ‘teu’ ocorre tantas vezes quanto ‘meu’, isto é, 102 vezes. No geral, analisando todos os possessivos presentes nos textos de autoria conhecida, independentemente de ocorrerem ou não na CT, nota-se uma tendência para o uso de possessivo acompanhado de artigo definido na carta manuscrita de 1954 e nas cartas de Maciel Filho e de Vargas. Na carta de suicídio de 1945, os possessivos são utilizados sem artigo definido na maioria das vezes. Já na carta de 1932, só há um possessivo, e este foi utilizado sem o artigo definido.

Em relação ao uso da preposição ‘de’, importa ainda mencionar a colocação “de mais de”, que ocorre uma vez na CT (4). Essa mesma colocação ocorre apenas nas cartas de Maciel Filho, como pode ser visto em (5).

(4) “[...] existiam fraudes constatadas de mais de cem milhoes de dolars por ano.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(5) “[...] um prejuizo anual de vinte milhões de cruseiros num saldo de mais de 10 milhões, [...].” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

Isto posto, passamos, então, a analisar outras palavras gramaticais presentes na CT, tais como: a conjunção subordinativa temporal ‘mal’, as preposições ‘até’ e ‘sobre’, os advérbios ‘dentro’, ‘agora’ e ‘sempre’, o pronome indefinido ‘nada’, o pronome sujeito ‘eu’ e, por fim, a colocação “a mim mesmo”.

Sobre o uso da palavra ‘mal’, observamos que ela ocorre uma única vez na CT, com a função de conjunção subordinativa temporal (6), e não ocorre nas outras cartas de suicídio de Vargas. Nas cartas de Maciel Filho, no entanto, foram encontradas duas ocorrências de ‘mal’: em uma ‘mal’ tem a função de advérbio (7) e, em outra, de substantivo. Já nas cartas de Vargas, foram encontradas 11 ocorrências de ‘mal’, mas em nenhuma delas foi empregada com a função de conjunção (8).

(6) “[...] e mal começa a funcionar a onda de agitaçaõ se avoluma.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(7) “[...] e apresentar soluções que possam ser mal interpretadas.” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

(8) “Tendo de atender toda essa gente, ler, ouvir, responder, rever manifestos, etc mal pude passar a vista em tuas tres cartas.” (Cartas de Getúlio Vargas - grifos nossos)

No que tange à utilização da preposição ‘até’, há duas ocorrências na CT (9)(10). Já na carta de 1945, há duas ocorrências da palavra ‘até’ utilizada com denotação de inclusão (“e até meus inimigos” e “e até animadas”). A preposição ‘até’ não foi encontrada nas outras cartas de suicídio, mas ocorre nas cartas de Maciel Filho e de Getúlio Vargas.

(9) “A Electrobras foi obstaculada até o desespero.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(10) “Os lucros das emprezas extrangeiras alcançavam até 500 por cento ao ano.” (Carta-testamento - grifos nossos)

Ainda sobre o seu uso na CT, observamos que a preposição ‘até’ ocorre uma vez seguida de artigo definido e substantivo (9). Neste caso, como rege um substantivo, a preposição poderia vir acompanhada da preposição ‘a’ (Cunha & Cintra, 2013, p. 580). Assim, também seria correto dizer “até ao desespero”, mas o autor da CT preferiu omitir a preposição ‘a’ da locução. Essa mesma escolha linguística é observada nas cartas de Maciel Filho e de Vargas, ou seja, essa locução é utilizada sem a preposição ‘a’ em todos os textos. Em (10), no entanto, a preposição ‘até’ indica um limite quantitativo, ocorrendo acompanhada de um numeral cardinal escrito com algarismos. Nas cartas de Maciel Filho, foram encontradas cinco ocorrências semelhantes, porém, em quatro delas, os cardinais representam um valor monetário (e.g., “e até 50 milhões de cruzeiros”) e, em uma ocorrência, uma data (“Até 15 de julho”). Nas cartas de Getúlio Vargas, também foi encontrada uma ocorrência com cardinal assinalando uma data (“até 29 que caiu no domingo”), isto é, a preposição ‘até’ é utilizada apenas para indicar um limite temporal e não quantitativo.

Com relação à preposição ‘sobre’, ela ocorre duas vezes na CT com o significado de “em cima de” (11)(12), mas não é utilizada nas cartas de suicídio de Vargas, à exceção da carta de 1945 (13), em que a preposição ocorre com o sentido de “acerca de” ou “a respeito de”. Já nas cartas de Maciel Filho, foram observadas 87 ocorrências dessa preposição, porém, na maioria delas (i.e., em 63 ocorrências), ‘sobre’ também é empregada com o sentido de “a respeito de” (14). Nas cartas de Vargas, há 103 ocorrências de ‘sobre’, mas apenas em uma delas a preposição é empregada com o sentido de “em cima de” (15). No entanto, nesta mesma ocorrência, observa-se que a preposição ‘sobre’ faz referência ao substantivo ‘pressão’, à semelhança do que ocorre na CT (12).

(11) “Mais uma vez, as forças que os interesses contra o povo coordenanram novamente, se desencadeam sobre mim.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(12) “[...] a resposta foi uma violenta pressaõ sobre nossa economia [...].” (Carta-testamento - grifos nossos)

(13) “[...] os entendimentos secretos com Juarez Tavora e Juracy Magalhães, tambem não deixam duvidas sobre o assunto.” (Carta de 1945 - grifos nossos)

(14) “E não tenha ilusões sôbre a eficiência do Adhemar nem sôbre a sua lealdade.” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

(15) “Contribue, [...], uma mal disfarçada pressão sobre o Brasil, [...]” (Carta de Getúlio Vargas - grifos nossos)

Quanto ao advérbio ‘dentro’, ele ocorre uma vez na CT fazendo referência a um espaço abstrato, isto é, à “espiral inflacionária” (16). Nas cartas de Maciel Filho e de Vargas, foram encontradas ocorrências do advérbio ‘dentro’ fazendo também referência a um espaço abstrato tal como ocorre na CT. Já o advérbio ‘agora’ ocorre duas vezes na CT, sendo uma vez no início de período (17). Nas cartas de Maciel Filho e de Getúlio Vargas, também foram encontradas ocorrências de ‘agora’, entretanto observamos que Vargas tende a usar mais este advérbio no início de período do que Maciel.

(16) “Assumi o governo dentro da espiral inflacionaria, [...].” (Carta-testamento - grifos nossos)

(17) “Agora ofereço a minha morte.” (Carta-testamento - grifos nossos)

No que se refere ao advérbio ‘sempre’, observamos que há três ocorrências desse advérbio na CT, a saber: na primeira o advérbio ocorre na expressão ‘como sempre’; na segunda, após o verbo ‘estar’; e, na terceira, ocorre anteposto da preposição ‘para’ (i.e., “para sempre”). Este advérbio também ocorre nas cartas de suicídio escritas em 1945 e em 1932. Na carta de 1945, há uma ocorrência de ‘sempre’ que ocorre em posição pré-verbal. Já na carta de 1932, ‘sempre’ ocorre uma vez entre os verbos ‘procurar’ e ‘inspirar’ (18). Nas cartas de Maciel Filho, encontramos 25 ocorrências do advérbio ‘sempre’ e, nas cartas de Getúlio Vargas, foram encontradas 17 ocorrências de ‘sempre’. No entanto, não é possível dizer se há uma preferência no que se refere à posição do advérbio, visto que o número de ocorrências nas posições pós-verbal e pré-verbal é bastante semelhante em ambos os corpora. Importa salientar, no entanto, que a expressão ‘para sempre’ não ocorre em nenhuma das outras cartas; porém, ‘como sempre’ ocorre duas vezes nas cartas de Maciel Filho (19).

(18) “Procurei sempre inspirar-me nos interesses superiores [...].” (Carta de 1932 - grifos nossos)

(19) “[...] estou, como sempre, às suas ordens.” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

Com relação ao pronome indefinido ‘nada’, foram observadas duas ocorrências em início de período na CT: uma vez acompanhado do advérbio ‘mais’ (20) e outra acompanhado da forma verbal ‘receio’, sem o pronome sujeito ‘eu’ (21). Tanto Maciel Filho (22) quanto Vargas utilizam esse pronome em início de período, porém é preciso ressaltar que a colocação “nada mais” ocorre quatro vezes nas cartas de Vargas (23) e uma única vez nas cartas de Maciel na expressão “pouco ou nada mais”. Por outro lado, “nada receio” ocorre somente nas cartas de Maciel Filho (24).

(20) “Nada mais vos posso dar a naõ ser o meu sangue.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(21) “Nada receio.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(22) “Nada farei que importe em divergência [...].” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

(23) “Nada mais tenho a acrescentar [...].” (Carta de Getúlio Vargas - grifos nossos)

(24) “Bem sabe que nada receio para mim [...].” (Carta de Maciel Filho - grifos nossos)

Já que mencionamos o pronome sujeito ‘eu’, vale dizer que há quatro ocorrências desse pronome na CT, sendo dois em início de frase. Normalmente, os pronomes sujeitos são omitidos na língua portuguesa, porque a desinência verbal costuma ser suficiente para indicar o sujeito a que se refere (Cunha & Cintra, 2013, p. 296). No entanto, encontramos as seguintes ocorrências do pronome ‘eu’ nos textos de autoria conhecida: quatro ocorrências na carta de 1945, 77 nas cartas de Maciel Filho e 82 nas cartas de Vargas. Nas outras cartas de suicídio de Vargas, os verbos na 1ª pessoa do singular ocorrem sem o pronome, isto é, as frases ocorrem com sujeito nulo subentendido. Já em início de período, como ocorre na CT, o pronome ‘eu’ foi encontrado apenas nas cartas de Vargas e de Maciel Filho, porém este tende a usar mais vezes o pronome nesta posição do que Getúlio Vargas. Ainda sobre o uso desse pronome, como pode ser visto no exemplo (25), ‘eu’ também ocorre acompanhado da locução conjuntiva ‘para que’ na CT. Embora haja ocorrências dessa locução na carta de 1945 e nas cartas de Maciel Filho, encontramos essa locução acompanhada do pronome ‘eu’ apenas nas cartas de Vargas (26).

(25) “[...] para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os umildes.” (Carta-testamento - grifos nossos)

(26) “[...] e que acuses o recebimento desta, para que eu fique certo de que chegou [...].” (Carta de Getúlio Vargas - grifos nossos)

Por fim, importa mencionar que a expressão ‘a mim mesmo’ ocorre uma vez na CT e não ocorre nas demais cartas, com exceção das cartas de Vargas, em que ocorre duas vezes, como pode ser visto nos exemplos abaixo.

(27) “[...] renunciando a mim mesmo, para defender o povo [...]”. (Carta-testamento - grifos nossos)

(28) “[...] não posso esconder a mim mesmo, e muito menos a Vossa Santidade [...].” (Carta de Getúlio Vargas - grifos nossos)

5. Discussão

A partir dos resultados encontrados, é possível afirmar que há algumas semelhanças e diferenças no uso das palavras gramaticais e, por conseguinte, na sua relação com outras unidades linguísticas presentes nos textos. As diferenças podem ser percebidas, principalmente, na comparação da CT com as demais cartas de suicídio de Getúlio Vargas, ainda que estejamos a analisar o mesmo gênero textual e todas as cartas tenham, basicamente, os mesmos eixos temáticos, isto é, o governo de Vargas e a sua morte.

No que se refere à análise dos possessivos, importa dizer que os resultados não nos permitem concluir se o uso do artigo definido antes do possessivo é, ou não, uma característica do autor da CT, pois o número de ocorrências de possessivos com e sem artigo é muito similar. Entretanto, observamos que, na carta de 1954 e nas cartas pessoais, Vargas utiliza com mais frequência o possessivo acompanhado do artigo definido. O mesmo não ocorre nas cartas de suicídio de 1945 e de 1932, nas quais Vargas tende a utilizar o possessivo sem o artigo. Essa diferença na utilização do artigo caracteriza uma variação intra-autor que pode ser um reflexo da distância temporal em que as cartas foram escritas, já que a primeira carta de suicídio foi escrita em 1932, ou seja, 22 anos antes da CT. Assim, seguindo as teorias sobre idioleto e variação linguística, é expectável haver mudanças na forma como Vargas usa a língua ao longo dos anos.

Nas cartas de Maciel Filho, observamos que há mais ocorrências de possessivos acompanhados de artigos definidos, porém a expressão “a seu lado” ocorre sem o artigo, de maneira similar àquela que ocorre na CT (i.e., “a vosso lado”). Vale mencionar que alguns possessivos (e.g., ‘vós’ e ‘vossa’) só foram encontrados na CT, enquanto os possessivos referentes à segunda pessoa do singular (‘teu’ e ‘tua’) ocorrem somente nas cartas pessoais de Vargas. Na CT, o pronome ‘vós’ é utilizado fazendo referência ao povo brasileiro. Já ‘teu’ e ‘tua’ são utilizados por Vargas nas cartas manuscritas dirigidas a familiares (e.g., os seus filhos). Esses possessivos são muito característicos da região sul do Brasil, onde Getúlio Vargas nasceu e cresceu.

Ao mesmo tempo, observamos que, embora sejam muito amigos, Maciel Filho não utiliza o possessivo ‘teu’ e ‘tua’ nas cartas dirigidas a Getúlio Vargas. Ele prefere utilizar ‘seu’ ou ‘sua’, que são mais típicos da região fluminense (i.e., do Rio de Janeiro), onde Maciel Filho nasceu e viveu boa parte da sua vida. Ademais, ele jamais utiliza ‘vosso’ ou ‘vossa’, exceto como pronome de tratamento (e.g., “vossa excelência”), pronome que foi encontrado em cartas dirigidas a ministros, mas também em algumas raras cartas mais formais em que ele se dirige a Vargas como “Excelentíssimo Senhor Presidente da República” e não com o habitual “Meu caro Dr. Getúlio”. Logo, podemos afirmar que o uso dos possessivos está ligado a questões sociolinguísticas e, especialmente, à relação de intimidade existente entre locutor e alocutário. Sobre os pronomes, importa ainda dizer que alguns estudos sobre cartas de suicídio em língua inglesa mostram que o pronome pessoal ‘eu’ é bastante recorrente neste tipo de missiva (e.g., Shapero, 2011; Prokofyeva, 2013). Porém, observamos que o pronome sujeito ‘eu’ apenas ocorre em duas das quatro cartas de suicídio analisadas, ou melhor, ocorre na CT e na carta de 1945 e não ocorre nas cartas de 1954 e de 1932. Ao mesmo tempo, embora a maioria dos verbos presentes na CT esteja conjugada na primeira pessoa do singular, só foram encontradas quatro ocorrências desse pronome. Na nossa opinião, isso é um reflexo do fato de o português ser uma língua de sujeito nulo, isto é, que permite ao falante omitir o pronome sujeito em uma oração graças à desinência verbal. Portanto, o uso do pronome ‘eu’, assim como de outros pronomes pessoais em posição de sujeito, é uma escolha do falante e, logo, são potenciais marcadores de estilo robustos em termos de análise de autoria de textos em língua portuguesa.

Quanto à palavra ‘mal’, ela ocorre com a função de conjunção subordinativa temporal somente na CT. Assim, podemos dizer que este é um marcador de estilo específico do texto questionado que não foi encontrado em nenhum outro texto. Já a preposição ‘até’, fazendo referência a um limite quantitativo, similar ao que ocorre na CT, foi encontrada somente nas cartas de Maciel Filho. Nestas também foram encontradas muito mais referências a cifras do que nas cartas de Vargas. Por conseguinte, notamos que a inclusão de cifras nos textos é uma característica de Maciel Filho que pode advir das suas funções profissionais, já que, além de jornalista, acumulou dois cargos no último governo de Vargas: o de superintendente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, conhecido hoje como BNDES) e o de diretor-executivo da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc).

Por fim, no que se refere à preposição ‘sobre’, notamos que ela é empregada na maioria das vezes por Maciel Filho e por Vargas, tanto na carta de 1945, quanto nas cartas pessoais de ambos os autores, com o significado de “a respeito de”, diferentemente do que encontramos na CT. Não obstante, essa preposição acompanhada do substantivo ‘pressão’ só ocorre na CT e nas cartas de Vargas. Ao mesmo tempo, o advérbio ‘agora’ é utilizado com mais frequência no início de período por Vargas do que por Maciel Filho.

6. Conclusão

Este estudo buscou analisar as palavras gramaticais como possíveis marcadores de estilo e a sua relevância para a análise de autoria forense. Para tal, analisamos primeiramente um texto de autoria questionada, a carta-testamento, e, em seguida, observamos a ocorrência dessas mesmas palavras em textos de autoria conhecida, tanto de Getúlio Vargas, quanto de Maciel Filho, possíveis autores da carta-testamento.

Os resultados mostram que há diferenças no uso das palavras gramaticais e, por conseguinte, na sua relação com outras unidades linguísticas, sobretudo no que se refere às cartas de suicídio de Vargas. Assim, podemos afirmar que o autor da carta-testamento apresenta escolhas por certas palavras gramaticais e cosseleções específicas que não correspondem àquelas presentes nas cartas de suicídio manuscritas nos anos 1954, 1945 e 1932. Por outro lado, observamos alguma sobreposição textual entre a carta-testamento e as outras cartas escritas por Vargas e por Maciel Filho. Contudo, não é possível afirmar se o autor da carta-testamento é Getúlio Vargas e/ou Maciel Filho. Faz-se necessário analisar as palavras lexicais e outros aspectos que possam ser relevantes para a análise de autoria forense deste caso específico, o que faremos como parte da análise presente na tese de doutorado em desenvolvimento.

Por fim, apesar de este trabalho não ser conclusivo, importa salientar algumas divergências entre os resultados aqui apresentados e estudos prévios sobre análise de autoria forense e, principalmente, sobre palavras gramaticais. Como mencionado anteriormente, alguns estudos apontam que os pronomes são mais dependentes do propósito comunicativo, do tópico e/ou do gênero textual. Porém, notamos que o uso de determinados pronomes reflete as escolhas linguísticas feitas pelo locutor tendo em conta, especialmente, a sua audiência. Além de refletir aspectos sociolinguísticos, parece-nos que o uso dos pronomes está mais ligado à relação de intimidade entre locutário e alocutário do que ao gênero e aos tópicos textuais (e.g., o uso do pronome de segunda pessoa do singular). Ademais, a possibilidade de sujeito nulo, característica da língua portuguesa, faz com que a utilização dos pronomes pessoais em posição de sujeito seja uma opção do falante/escritor, o que não ocorre em textos escritos em inglês, por exemplo. Assim, acreditamos que os pronomes, de uma maneira geral, podem ser marcadores robustos do estilo de um autor e não devem ser deixados de lado nas análises de autoria forense, especialmente em casos de língua portuguesa.

Agradecimentos

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto com o identificador https://doi.org/10.54499/UI/BD/154457/2022.

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  • 1
    “Two individuals of the same generation and locality, speaking precisely the same dialect and moving in the same social circles, are never absolutely at one in their speech habits.”
  • 2
    Tendo em conta as várias discussões encontradas na literatura sobre a divisão das classes de palavras, para fins deste estudo, seguimos a divisão sugerida por Raposo (2013, p.333) e Mendes (2013, p.249), a saber: classes lexicais (nomes, adjetivos e verbos) e classes gramaticais (preposições, advérbios, determinantes, quantificadores, pronomes, numerais, conjunções e interjeições). No entanto, importa destacar que os advérbios em -mente serão aqui tratados como palavras lexicais e, por isso, excluídos deste estudo, uma vez que, como apontado por Mendes (2013, p.260), esses advérbios constituem “um conjunto relativamente aberto e partilham propriedades do significado dos adjetivos de que derivam, propriedades essas que os aproximam das classes lexicais".
  • 3
    Neste caso não são considerados os possessivos que ocorrem precedidos por pronomes demonstrativos ou substantivos e expressões consagradas (e.g., "a meu ver" e, "por sua vez"). Também não são considerados os possessivos com valor afetivo utilizados em vocativos (e.g., “Meu caro Dr. Getúlio”), uma vez que, por norma, são utilizados sem artigo definido.
  • 4
    Gralhas/erros presentes nos exemplos são provenientes dos corpora, cujos textos são uma transcrição dos originais.
  • Disponibilidade de Dados
    O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2025

Histórico

  • Recebido
    14 Out 2024
  • Aceito
    06 Dez 2024
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