Open-access Díaz-Cintas, J., & Remael, A. (2021). Subtitling: Concepts and practices. Routledge.

Díaz-Cintas, J.; Remael, A.. 2021. Subtitling: Concepts and practices. Routledge

O livro Subtitling: Concepts and Practices, de Jorge Díaz-Cintas e Aline Remael, lançado em 2021 pela editora Routledge (Díaz-Cintas & Remael, 2021) é uma edição revista e atualizada da obra publicada originalmente em 2007 sob o título Audiovisual Translation: Subtitling, pelos mesmos autores (Díaz-Cintas & Remael, 2007). Essa nova edição incorpora avanços recentes na área da legendagem, bem como novas perspectivas teóricas e práticas em tradução audiovisual (TAV), refletindo as transformações tecnológicas e culturais ocorridas desde então. O poder de alcance e de influência das mídias audiovisuais no mundo atual é inegável, o que por si só desperta a atenção para a relevância científica, social, política e econômica dos Estudos da Tradução e da legendagem. Os autores lembram, com muita propriedade, que “Em nossa vida profissional e pessoal, estamos cercados por telas de todas as formas e tamanhos: televisores, computadores, laptops, consoles de videogame e smartphones, uma característica comum do nosso ambiente sociocultural, fortemente baseado na onipresença e onipotência da imagem” (Díaz-Cintas & Remael, 2021, p. 20-21) Onipresença e onipotência: termos que denotam a realidade do audiovisual no mundo. Até mesmo os espaços de consumo de obras audiovisuais, quando se pensa em salas de estar tomando o lugar das salas de cinema, graças às recentes plataformas de streaming. Essas mudanças demandam novas falas, definições, conceitos.

Ao mesmo tempo, o desenvolvimento tecnológico e o avanço das técnicas e recursos disponíveis e a serviço dos Estudos da Tradução e, especificamente, da TAV Acessível e da Legendagem traz alguns desafios, entre eles, a necessidade de familiarização com a natureza, metodologia e uso de novas ferramentas e técnicas e a capacitação dos profissionais tradutores e legendadores. É disso que trata a obra de Díaz-Cintas e Remael (2021), sem deixar de olhar para adiante, contemplando a necessidade de uma atenção constante aos novos desafios e às mudanças.

Escrita para uma audiência internacional, o que envolve instrutores de tradução, estudantes, pesquisadores, profissionais e todos os interessados na prática e na teoria da legendagem, o que para os autores constituiu o desafio de um empreendimento ambicioso, a obra Subtitling: concepts and practices (Díaz-Cintas & Remael, 2021) compõe um projeto multimídia interativo, consistindo em um livro, um site complementar, além de uma vasta quantidade de material audiovisual e exercícios. Escrito em inglês, o livro tem 292 páginas e está dividido em dez capítulos, que abordam: 1) uma reconceituação da legendagem, 2) o ecossistema profissional, 3) a semiótica da legendagem, 4) características espaciais e temporais, 5) características formais e textuais, 6) linguística da legendagem, 7) legendagem de variação linguística e canções, 8) legendagem de referências culturais, humor e ideologia, 9) tecnologia em movimento, 10) referências.

Uma explicação inicial mostra ao leitor como tirar o melhor proveito do projeto. Cada capítulo do livro inicia com sugestões de discussões preliminares e termina com uma seleção de exercícios, que refletem a teoria da legendagem discutida, além da prática de legendagem. Recursos adicionais podem ser encontrados no site (Taylor & Francis Group, n.d.), que exige uma senha particular. Todas as informações para o acesso gratuito ao projeto estão disponíveis no site, que também disponibiliza um glossário de termos empregados na profissão da legendagem e seis apêndices sobre tecnologia e indústria da legendagem. Outra vantagem desse projeto é a inclusão do Wincaps Q4, um software profissional pago de legendagem, desenvolvido pela Screen Subtitling Systems, parte da BroadStream Solutions, Inc. (n.d.).

O primeiro capítulo, intitulado “Reconceptualising Subtitling” [Reconceituando a legendagem], inicia com uma definição da TAV e discute as transformações tecnológicas em seu entorno e seu impacto na comunicação mundial e nos Estudos da Tradução. A expansão e desenvolvimento do conceito de tradução e dos objetos de interesse dos Estudos da Tradução se deram de forma muito mais lenta do que o desenvolvimento da TAV como prática de tradução. A indústria do cinema, usada pelos autores como exemplo, evoluiu das salas de projeção para as salas de estar familiares, com o advento da internet e das plataformas de streaming. Entendendo o processo de tradução a partir de uma perspectiva flexível, heterogênea e de movimento, os autores passam à discussão da conceituação genérica do termo TAV e sua abrangência, termo esse cunhado após uma flutuação de definições ligadas à TAV Desde as décadas de 1980, 1990 e 2000, incluindo a dimensão semiótica (áudio e vídeo) do produto traduzido. O advento da indústria de softwares e videogames levou ao surgimento de mais três termos ligados à legendagem e que não podem ser ignorados (Chaume, 2012): 1) fansubs, 2) guerrilla subtitles, 3) altruist subtitles. O primeiro capítulo propõe uma categorização da legendagem a partir de seis critérios básicos: linguístico, técnico, tempo de preparação, modo de exibição, métodos de projeção e meios de distribuição, visando um melhoramento da experiência do audiovisual.

No segundo capítulo, “Professional Ecosystem” [Ecossistema Profissional], Díaz-Cintas e Remael (2021) evocam o ambiente da prática profissional da legendagem e trazem à tona a figura do legendista. O processo de legendagem é inicialmente apresentado como um trabalho em equipe. São mencionados todos os profissionais envolvidos: o spotter, responsável por determinar o tempo das legendas; o(s) tradutor(es) ou adaptador(es), encarregados das estratégias de tradução, condensação e redução textual; e os revisores, que asseguram a qualidade final do produto legendado. O trabalho de TAV é amplamente auxiliado pela lista de diálogo, que pode ser definida como uma compilação dos diálogos do filme. Uma das principais contribuições do segundo capítulo é mostrar que a legendagem serve a uma multiplicidade de gêneros, “como documentários, vídeos educacionais e corporativos, comerciais e muito mais” (Díaz-Cintas & Remael, 2021, p. 61).

O terceiro capítulo tem como título “The Semiotics of Subtitling” [A semiótica da Legendagem]. Semiótica é o estudo de sinais e símbolos em seu uso ou interpretação como parte de um sistema de significação usado para comunicação. Nesse capítulo, os autores apresentam a relação entre três conceitos específicos, a saber: “textura intersemiótica”, ou relações semânticas entre diferentes modalidades realizadas através dos dispositivos coesivos intersemióticos no discurso multimodal; “coerência”, ou “a rede de relações conceituais que destacam o texto superficial” (Baker, 1992); e “coesão”, ou critério crucial para distinguir texto do não-texto. A partir desses três conceitos, a natureza dos filmes como textos multissemióticos e multimodais deve ser levada em conta na legendagem na busca por significado.

As dimensões técnicas da legendagem são cobertas pelos capítulos quatro e cinco, “Spatial and Temporal Features” [Traços Espaciais e Temporais], e “Formal and Textual Features” [Traços Formais e Textuais], que detalham as técnicas convencionadas na prática da legendagem, apresentando soluções para problemas comuns. De início, é apresentado ao leitor um código de “boas” práticas de legendagem, seguido dos principais parâmetros que caracterizariam a produção e a apresentação de legendas em nossos dias. Três categorias principais são apresentadas para cobrir esses parâmetros: dimensão espacial, dimensão temporal e dimensões formal e textual; estas duas últimas constituindo o teor do quinto capítulo. Capítulos seis, “The Linguistics of Subtitling” [A Linguística da Legendagem], sete, “Subtitling Language Variations and Songs” [Legendagem de Variações Linguísticas e Canções], e oito, “Subtitling Cultural References, Humour and Ideology” [Legendagem de Referências Culturais, Humor e Ideologia], como deixam claro os títulos, elaboram e oferecem estratégias proveitosas aos legendadores no que diz respeito às dificuldades linguísticas envolvidas na legendagem desses campos específicos. No capítulo seis, os autores discutem e justificam técnicas como redução textual, condensação, reformulação e omissão, em diferentes níveis, e fornecem vários exemplos ilustrativos. O capítulo oito apresenta as diferentes definições e categorizações das referências culturais, que os autores dividem em referências geográficas, referências etnográficas, referências sociopolíticas, e referências culturais intertextuais. Os autores ainda estabelecem os principais desafios dessas mesmas referências culturais para a tradução e suas soluções. Os fatores que condicionam a tradução dessas referências culturais e algumas estratégias de tradução são apresentados e exemplificados nesse capítulo.

O capítulo nove, “Technology in Motion” [Tecnologia em Movimento], é a última unidade temática do livro de Díaz-Cintas e Remael (2021). Após as perguntas preliminares de praxe, os autores apresentam inicialmente novas ferramentas para os legendistas, o que se mostra compatível com um crescimento duplo observado no século vinte e um, onde não apenas o volume de traduções aumentou, também cresceu potencialmente a quantidade de ferramentas de tradução e de legendagem, este último fruto do reconhecimento do potencial da TAV e da legendagem por parte do empresariado da tecnologia. Programas de tradução automática e legendagem, como o pioneiro Mutilingual Subtitling of Multimedia Content (MUSA), passando pela democratização das ferramentas de legendagem e tradução permitidas pelo YouTube e chegando no ambiente virtual da nuvem são apresentados brevemente neste capítulo em seu ambicioso objetivo de incrementar o trabalho de tradução e de legendagem.

O livro apresenta uma análise aprofundada sobre a evolução da legendagem, destacando como as mudanças tecnológicas e a convergência midiática alteraram significativamente o processo e o consumo desse tipo de TAV. Os autores apontam o crescimento exponencial de conteúdos audiovisuais e o advento de plataformas de streaming como fatores determinantes para a expansão do mercado de legendagem, que passou a demandar maior rapidez, flexibilidade e, muitas vezes, soluções automatizadas. Nesse sentido, embora as ferramentas digitais tenham ampliado o acesso e facilitado a colaboração, também geraram novas tensões, como o risco de padronização excessiva das traduções. Além disso, os autores evidenciam como a pesquisa acadêmica sobre legendagem acompanhou essas mudanças, integrando aspectos técnicos, sociolinguísticos e culturais na análise de produtos e processos. Essa perspectiva multidisciplinar, embora rica, poderia, segundo os autores, ser mais crítica quanto às desigualdades regionais no acesso às tecnologias e às condições de trabalho, bem como quanto à predominância de estudos focados no eixo Europa-Estados Unidos em detrimento de realidades dos países da África, Ásia e Oceania. Em síntese, o livro fornece um panorama abrangente, mas ainda demanda uma análise mais aprofundada das consequências sociais e econômicas dessa evolução no consumo e produção da legendagem.

Finalmente, o capítulo dez é dedicado às referências bibliográficas, o que dá ao leitor a oportunidade de se atualizar e de se contextualizar no que diz respeito à produção acadêmica recente e aos novos recursos disponíveis sobre o tema. Embora o capítulo consista principalmente em uma lista de referências, a seleção cuidadosa das obras citadas reflete as discussões e os temas abordados ao longo do livro. Assim, mesmo sem uma discussão textual extensa, as referências servem como um guia para aprofundamento nos tópicos tratados, como práticas de legendagem, variações linguísticas, aspectos culturais e avanços tecnológicos na TAV.

Em linhas gerais, o livro apresenta uma rica e valiosa contribuição para os Estudos da Tradução e da Legendagem, seja do ponto de vista teórico ao revisitar e reformular conceitos fundamentais, seja do ponto de vista da prática da legendagem, apresentando as inovações tecnológicas em ferramentas e softwares, o que resultou num aumento considerável do volume de traduções e da produção de recursos tecnológicos, afetando positivamente a prática da legendagem no mundo.

As inovações tecnológicas desempenharam um papel crucial nesse crescimento do volume de traduções ao automatizar e agilizar diversas etapas do processo de legendagem, como a segmentação de legendas, a sincronização temporal e a tradução automática. Ferramentas como softwares de legendagem colaborativa, bancos de dados terminológicos, tradução assistida por computador (CAT tools) e plataformas de gestão de projetos facilitaram a coordenação entre tradutores, revisores e equipes técnicas, otimizando a produção em larga escala.

Por outro lado, o aumento expressivo na demanda por legendas em múltiplos idiomas, impulsionado pela globalização dos conteúdos audiovisuais e pelas plataformas de streaming, exigiu investimentos ainda maiores no aprimoramento dessas tecnologias. A necessidade de atender a prazos cada vez mais curtos, à multiplicidade de formatos e ao controle de qualidade reforçou a busca por soluções mais robustas, como a aplicação de inteligência artificial, machine learning e sistemas de legendagem automática, que vêm sendo integrados às plataformas profissionais.

Desse modo, estabelece-se uma relação de retroalimentação: enquanto as inovações tecnológicas expandem o volume de traduções e a agilidade das entregas, a demanda crescente por legendas em diversas línguas e formatos alimenta a necessidade de desenvolver ferramentas cada vez mais sofisticadas e precisas, impulsionando um ciclo de aperfeiçoamento contínuo.

  • Conjunto de dados de pesquisa
    Não se aplica.
  • Financiamento
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    Não se aplica.
  • Publisher
    Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo(s) autor(es) mediante solicitação.

Referências

  • Baker, M. (1992). In Other Words: A Coursebook on Translation Routledge.
  • BroadStream Solutions, Inc. (n.d.). Captioning & subtitling BroadStream Solutions. Acesso em 17 de agosto de 2025, em https://broadstream.com/solutions/captioning-subtitling/
    » https://broadstream.com/solutions/captioning-subtitling/
  • Chaume, F. (2012). Audiovisual Translation: Dubbing St. Jerome Publishing.
  • Díaz-Cintas, J., & Remael, A. (2007). Audiovisual Translation: Subtitling Routledge.
  • Díaz-Cintas, J., & Remael, A. (2021). Subtitling: Concepts and Practices Routledge.
  • Taylor & Francis Group. (n.d.). Companion websites for … Diaz Cintas. Routledge. Acesso em 17 de agosto de 2025, em https://routledgetextbooks.com/textbooks/_author/diaz-cintas/
    » https://routledgetextbooks.com/textbooks/_author/diaz-cintas/

Editado por

  • Editores de seção
    Andréia Guerini – Willian Moura

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Nov 2024
  • Aceito
    03 Maio 2025
  • Revisado
    27 Jun 2025
  • Publicado
    Ago 2025
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