Open-access Competências do intérprete: uma análise bibliométrica das produções científicas entre 2003 e 2023

Interpreter competences: A bibliometric analysis of scientific publications from 2003 to 2023

Resumo

O objetivo deste estudo foi realizar uma análise bibliométrica da produção sobre competência em interpretação com a finalidade de identificar nas referências bibliográficas de maior impacto os conceitos e teorias sobre competências do intérprete. Para tanto, foram utilizados os modelos de análise quantitativa propostos por Aria e Cuccurullo (2017). Os dados da produção científica sobre o tema foram coletados a partir de consulta nas bases Scopus e Web of Science e filtrados considerando critérios prévios de inclusão e exclusão. Por fim, foram analisados os dez de maior impacto obtidos no estudo bibliométrico. Conclui-se que a subcampo que trata sobre a competência do intérprete ainda está em evolução, já que as publicações apresentam uma taxa de crescimento de 10,35% no número de publicações nas últimas duas décadas. Nota-se também que a maioria dos autores são pesquisadores ocasionais do tema e há baixo índice de colaboração internacional nas pesquisas publicadas, bem como baixa citação local. Outro destaque é a forte presença da China como o país de origem de autores que mais publicam e que mais são citados. A partir dos resultados e conclusões deste estudo é possível identificar lacunas no campo de estudo e propor uma agenda de pesquisa.

Palavras-chave
interpretação; habilidades; conhecimentos; capacidades; bibliometria

Abstract

The aim of this study was to conduct a bibliometric analysis of research on interpreter competence to identify the concepts and theories related to interpreter competencies in the most impactful bibliographic references. To achieve this, we used the quantitative analysis models proposed by Aria and Cuccurullo (2017). Data on scientific production on the topic were collected from Scopus and Web of Science databases and filtered according to predefined inclusion and exclusion criteria. Finally, the ten most impactful articles identified in the bibliometric study were analyzed. The study concludes that the field of interpreter competence is still evolving, as publications show a growth rate of 10.35% in the number of publications over the past two decades. It is also noted that most authors are occasional researchers on the topic and there is a low level of international collaboration in the published research, as well as low local citation rates. Another notable point is the strong presence of China as the leading country in terms of authors who publish the most and are most cited. Based on the results and conclusions of this study, it is possible to identify gaps in the field and propose a research agenda.

Keywords
interpreting; skills; knowledge; abilities; bibliometrics

1. Introdução

A interpretação — também definida como tradução oral — foi, por muito tempo, considerada um subcampo dos Estudos da Tradução (Baker & Saldanha, 2009; Gambier & Van Doorslaer, 2010; Munday, 2016; Williams & Chesterman, 2014). No entanto, em 1992, durante o Congresso de Estudos da Tradução da Universidade de Viena, Daniel Gile propôs a criação de uma novo campo disciplinar, a qual denominou “Estudos da Interpretação” (Pöchhacker, 2016). Desde então, os Estudos da Interpretação têm ganhado destaque, com a publicação de pesquisas dedicadas a uma ampla gama de temas, incluindo o estudo das competências do intérprete — o objeto de análise deste trabalho.

A necessidade de compreender as competências do intérprete é cada vez mais evidente, dada a importância desse profissional em contextos multiculturais e multilíngues. No entanto, apesar do crescente interesse nessa temática, Grbic e Pöchhacker (2015) destacam que o desenvolvimento das competências nos Estudos da Interpretação tem sido subestimado, com a maioria dos autores priorizando aspectos relacionados às habilidades e aptidões por influência das abordagens cognitivas, em detrimento das competências necessárias para o desempenho profissional e ético.

Alguns estudos já foram realizados no sentido de identificar e definir as competências do intérprete. Por exemplo, as pesquisas de Albl-Mikasa (2013); Cavallo (2019); Kermis (2008); Kutz (2010, 2012); Pöchhacker (2000); e Stéphanie Abi Abboud (2010), que apresentaram modelos ou categorias de competências de intérpretes e fornecem uma base para investigações posteriores.

A compreensão do significado de competência tem evoluído ao longo dos anos e pode ser analisada sob diferentes perspectivas, incluindo as psicológicas, as de gestão de pessoas e as educacionais. Na perspectiva pedagógica, compreender o sentido específico do termo competência passa antes pelo entendimento dos conceitos de conhecimentos e habilidades. Essa relação conceitual, conforme a AQU (2022), pode ser compreendida da seguinte forma: o conhecimento é o resultado da assimilação da informação por meio da aprendizagem, abrangendo fatos, princípios, teorias e práticas relacionadas a um determinado campo de estudo ou trabalho. As habilidades são a capacidade de aplicar esse conhecimento e utilizá-lo para realizar tarefas e resolver problemas, podendo ser cognitivas, envolvendo o uso do pensamento lógico, intuitivo e criativo, ou práticas, que requerem destreza manual e o uso de métodos, materiais, ferramentas e instrumentos. Sendo assim, a competência é a capacidade demonstrada para utilizar tanto o conhecimento quanto as habilidades em contextos de trabalho ou estudo, bem como no desenvolvimento profissional e pessoal.

A identificação e, por sua vez, a delimitação das competências do intérprete, em relação às demandas atuais da sociedade frente ao aprimoramento da profissão e aos avanços tecnológicos, é o ponto inicial para a elaboração de programas de formação adequados às necessidades do mercado em diferentes níveis de formação (técnico, superior, especialização), sejam eles voltados à formação de intérpretes de línguas vocais ou de línguas sinalizadas.

Dessa maneira, a pesquisa, que deu origem a este artigo, propõe-se a avaliar a atividade científica sobre a “competência do intérprete” com o emprego de indicadores bibliométricos, os quais se fundamentam na análise estatística de dados quantitativos extraídos da produção técnica e científica atual.

2. Metodologia

Essa pesquisa adota uma abordagem quantitativa, caracterizada pelo emprego de uma análise bibliométrica do conjunto de dados coletados.

A bibliometria é um método de investigação da ciência e tecnologia e foi definido por Raan (1988, p. 1) como o “o campo de pesquisa de utilização de métodos e técnicas matemáticas, estatísticas e de análise de dados para coletar, manipular, interpretar e prever uma variedade de características do empreendimento científico e tecnológico, como desempenho, desenvolvimento e dinâmica”.

Em nosso estudo, dado o elevando número de publicações que abordam o tema “competência em interpretação”, a bibliometria serve de filtro para selecionar os documentos levando em conta uma determinada métrica — fator de impacto, número de citações, intervalo temporal, relevância da fonte ou da autoria. Entretanto, para além disso, os dados estatísticos demostram as características intrínsecas das pesquisas publicadas sobre competência em interpretação.

2.1 Busca e seleção do conjunto de dados

Na condução desta pesquisa, a garantia da qualidade, abrangência e confiabilidade das análises bibliométricas são um elemento crucial. Nesse contexto, a utilização de fontes de dados bibliométricos reconhecidas, como as bases de dados Scopus e Web of Science, desempenham um papel fundamental. Essas plataformas oferecem acesso a uma ampla gama de publicações científicas, cobrindo diversas áreas do conhecimento e submetidas a rigorosos processos de seleção e revisão por pares. Neste contexto, esta seção detalha a metodologia empregada para a realização da busca e seleção do conjunto.

Para tornar o resultado o mais abrangente possível, a query de busca incluiu variações que apontam para a noção de competência e que, portanto, poderiam apresentar um ou mais conceitos que delimitassem o entendimento sobre este termo.

Quadro 1
Busca e resultados

Como a busca ocorre em duas bases de dados distintas, o sexto critério (Quadro 2) foi implementado de maneira automatizada no ambiente R, excluindo os documentos duplicados e mesclando os dados em um só arquivo.

Quadro 2
Critérios de inclusão e exclusão de artigos

A estratégia de seleção foi orientada por critérios de inclusão e exclusão de documentos, definidos como parte das decisões metodológicas da pesquisa. Os critérios adotados foram:

O primeiro e o segundo critérios tratam do campo temático que foi listado na query de busca. Foram incluídas as variações da temática central e termos correlatos ou que são frequentemente tratados como sinônimos em dicionários ou thesaurus (critério 2).

2.2 Processamento e análise dos dados

No âmbito do processamento dos dados, optou-se por utilizar o pacote bibliometrix, desenvolvido por Aria e Cuccurullo (2017), em conjunto com o software R Studio, uma plataforma amplamente reconhecida e adotada por sua versatilidade e poder de análise estatística. A escolha por essa combinação específica de ferramentas se deu em virtude de sua robustez e capacidade de lidar com as demandas complexas inerentes à análise bibliométrica.

O pacote bibliometrix proporciona uma série de funcionalidades especializadas para a análise de dados bibliométricos, incluindo métricas de produtividade, cocitação, coocorrência de palavras e diversas outras análises relevantes para o estudo em questão. Por sua vez, o ambiente R é flexível e personalizável, permitindo a integração de diferentes pacotes e a implementação de análises avançadas, o que se mostrou fundamental para explorar a complexidade dos dados de forma aprofundada.

A análise dos dados contidos no conjunto irá abranger as informações sobre as fontes, ou seja, a origem dos documentos — neste caso, periódicos e livros indexados — e suas características; os autores e a frequência de palavras. Dentro desse escopo analítico, aplicaremos também integralmente duas leis bibliométricas fundamentais: a Lei de Bradford (dispersão da produtividade) e a Lei de Lotka (relação do quadrado inverso de autoria). Essas leis fornecem informações sobre a distribuição e o padrão de citações, produtividade dos autores auxiliando assim na compreensão mais profunda do cenário bibliográfico em estudo.

A terceira lei básica, ou seja, a Lei de Zipf (menor esforço em terminologia) não será empregada em sua totalidade neste estudo, uma vez que será realizada apenas a frequência de ocorrência de palavras provenientes do título, das palavras-chaves do autor e dos resumos. Ainda assim, somadas às análises temáticas, será o suficiente para concluir sobre os termos que melhor representam o enfoque deste artigo1.

Os recursos fundamentais para replicação e expansão deste estudo estão acessíveis através do repositório Harvard Dataverse. Todos os dados brutos, juntamente com o script de análise desenvolvido, estão disponíveis para consulta e reutilização (Souza-Júnior, 2024). Essa disposição não apenas reforça a credibilidade dos dados presente trabalho, mas também contribui com a cultura de transparência e colaboração científica.

3. Resultados

A seguir, são apresentados os principais resultados obtidos a partir da análise bibliométrica realizada. Esta seção está estruturada em quatro partes. Inicialmente, em 3.1, oferece-se uma visão geral dos dados, com informações quantitativas sobre a produção científica identificada. Em 3.2, são detalhadas as principais fontes de publicação considerando a quantidade de artigos e citações. O item 3.3 trata dos autores mais produtivos e influentes, evidenciando padrões de autoria, colaborações e impacto. Por fim, em 3.4, são analisadas as publicações mais relevantes, considerando critérios como número de citações, ano de publicação e temática abordada. Esses resultados fornecem uma base para compreender o panorama da produção acadêmica sobre o tema investigado.

3.1 Visão geral dos dados

O conjunto de dados deste estudo foi composto de 129 documentos (Tabela 1) publicados entre os anos de 2003 e 2023, não havendo nenhuma publicação em 2003 como delimitado inicialmente na busca. Estes documentos partem de 86 fontes diferentes e incluem 2.586 referências e 460 palavras-chaves diferentes definidas pelos respectivos autores.

Tabela 1
Principais informações do conjunto de dados

Quanto a autoria e colaboração entre autores, foi possível identificar 194 autores, sendo que 65 são autores de documentos de autoria única, ou seja, são autores que publicaram sozinhos um ou mais dos 75 documentos de autoria única. A colaboração entre autores internacionais foi identificada em apenas 7 (5,303%) documentos.

Os Estudos da Interpretação são um campo considerado novo e em evolução, e certos temas vem despertando maior interesse na pesquisa acadêmica, como, por exemplo, a formação de intérpretes que está diretamente relacionada com o tema deste estudo.

Em uma de suas análises bibliométricas, Yan et al. (2018, p. 61) conduziram um estudo focado na temática “formação de intérpretes”, utilizando um conjunto de dados composto por 180 artigos provenientes de periódicos científicos, abrangendo o período de 2000 a 2014. Ao confrontarmos os dados desse conjunto com os resultados obtidos em nossa própria pesquisa, é possível inferir que o tema em questão tem apresentado um desenvolvimento positivo ao longo do tempo. O Gráfico 1 ilustra essa evolução, revelando um aumento no número de publicações ao longo dos anos, com uma taxa média de crescimento anual em 10,33% durante o período analisado. Essa tendência ascendente sugere um crescente interesse e engajamento da comunidade acadêmica em explorar e discutir aspectos relacionados a aspectos da competência em interpretação.

Gráfico 1
Produção científica anual

3.2 Fontes

No que diz respeito às fontes dos documentos, procedemos à análise da relevância, através da qual os principais periódicos foram identificados e classificados com base nos critérios de quantidade de artigos e número de citações dentro do próprio conjunto de dados. Com esses dados é possível determinar o Índice H que avalia a produtividade e impacto de cada fonte.

Ademais, observam-se na Tabela 2 não apenas os critérios mencionados anteriormente, mas também o ano em que cada periódico publicou seu primeiro artigo sobre o tema deste estudo.

Tabela 2
Fontes mais relevantes pelo Índice H

Esta análise detalhada permite uma compreensão do desenvolvimento e da contribuição de cada periódico para o campo de estudo em questão, oferecendo insights sobre sua evolução ao longo do tempo e sua relevância dentro da comunidade acadêmica. Vale notar que neste ranking não houve a ocorrência de livros ou capítulos de livros.

Outra maneira de verificar a relevância das fontes é por meio da Lei de Bradford, também conhecida como Lei de Bradford das Distribuições de Citações, que descreve como as fontes de informação em um campo específico estão distribuídas em termos de importância. A Lei afirma que, em qualquer campo acadêmico, há um reduzido número de fontes principais que produz a maioria das informações relevantes (zona 1 ou núcleo). Além disso, há um número maior de fontes secundárias que produzem informações adicionais (zona 2), mas em menor quantidade. Por fim, há muitas fontes terciárias (zona 3), que produzem informações em quantidade ainda menor (Guedes, 2012; Lousada et al., 2012).

Desta forma, os dados revelados por essa lei bibliométrica sugerem que, ao conduzir uma pesquisa bibliográfica, pode ser possível identificar um conjunto relativamente pequeno de fontes principais que fornecerão a maior parte das informações necessárias sobre um tópico específico. Ao aplicar a Lei de Bradford às fontes do conjunto de dados, delimitam-se as fontes que compõe a zona 1 ou núcleo e que podem ser observadas na Tabela 3. Em contraste com a classificação pelo Índice H (Tabela 2), encontram-se na zona delimitada pelas métrica de Bradford os periódicos Current Trends in Translation Teaching and Learning e Perspectives – Studies in Translation Theory and Practice, enquanto os periódicos Lingua e Meta figuram na zona 2, a qual não foi evidenciada neste estudo.

Tabela 3
Zona I da Lei de Bradford e frequência acumulada (FC)

Ainda sobre a Tabela 3, nota-se através da frequência acumulada que as três principais fontes representam aproximadamente a metade dos documentos na zona 1 (percentual acumulado 66,67%). Esse dado reforça a relevância desse subconjunto de fontes, evidenciando sua influência significativa no campo disciplinar em questão. Essa concentração de documentos em um reduzido número de fontes sugere que essas fontes são particularmente proeminentes, podendo ser objeto de uma análise mais aprofundada em investigações futuras.

3.3 Autores

Como mencionado anteriormente, o conjunto de dados compreende um total de 194 autores distintos, cujas contribuições serão examinadas em relação à quantidade de publicações, fator de impacto dentro do conjunto de dados, produtividades ao longo do tempo e aplicação da Lei de Lotka de produtividade científica. Inicialmente, apresentamos na Tabela 4 os dez autores com maior quantidade de documentos que contribuíram para o conjunto e seu impacto local, ou seja, dentro do próprio conjunto de dados, aferido pelo Índice H.

Embora seja relevante, a mera contagem de artigos por si só pode não refletir totalmente o impacto que os autores exercem sobre o conjunto ou campo disciplinar em questão. A análise do Índice H revela que a quantidade de artigos não necessariamente corresponde à quantidade de citações recebidas pelos autores dentro do conjunto analisado. Por esse motivo, posteriormente serão destacados os principais autores com base no impacto global de suas contribuições.

Tabela 4
Autores classificados por quantidade de artigos

Procedeu-se, então, à análise da produção desses autores ao longo do período de 20 anos abrangido pela pesquisa. O Gráfico 2 compara a produção de cada autor em relação ao ano de publicação de seus artigos. O tamanho dos círculos representa o número de artigos publicados num determinado ano, enquanto a intensidade da cor azul indica uma maior quantidade de citações recebidas por ano para cada artigo.

Os primeiros documentos destacados foram publicados por Angelelli (2006, 2007, 2011) e figuram isolados das demais publicações que ocorreram entre os anos de 2014 e 2023. Já os autores com maior número de publicações iniciam sua série nos anos de 2015 — como Dong Y. e Li X. — e de 2017 — nesse caso Yenkimaleki M.

Essa observação ressalta a importância contemporânea do tema, uma vez que a maioria dos principais autores começou a contribuir para o campo nos últimos dez anos. No entanto, é importante notar que poucos mantiveram uma regularidade consistente em suas produções ao longo desse período. Essa análise revela não apenas a recente emergência do tema como um foco de interesse acadêmico, mas também sugere a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre as razões por trás da variabilidade na produção dos autores.

A pouca quantidade de publicações por autores sobre o tema desta pesquisa (Gráfico 2) pode causar estranheza, visto que se espera que pesquisadores sejam especializados nos assuntos que pesquisam e publicam e tenham alta produtividade em temas específicos, todavia trata-se de um padrão de produtividade validado pela Lei de Lotka.

Gráfico 2
Produção dos autores ao longo do tempo

Na Ciência da Informação, a Lei de Lotka é uma teoria que descreve a distribuição de produção de artigos científicos em um determinado campo. Essa lei sugere que a maioria dos autores produzirá apenas alguns artigos, enquanto poucos autores produzirão muitos artigos (Vinkler, 2010 p. 116). Essa distribuição é frequentemente referida como “lei do inverso do quadrado”, na qual o número de autores que produzem uma certa quantidade de artigos é inversamente proporcional ao número de artigos produzidos. Essa lei é essencial para entender a dinâmica da produção científica e sua disseminação. Ela sugere que a produção de conhecimento em uma determinada área é altamente concentrada em um reduzido número de autores, enquanto a maioria dos autores contribui com apenas algumas publicações.

Como forma de representar a relação dos dados com a Lei de Lotka apresentamos no gráfico a seguir a correspondência entre os dados e o postulado da lei. Observa-se que a linha pontilhada no Gráfico 3 representa a distribuição teórica postulada pela Lei de Lotka, enquanto a linha contínua, o resultado da aplicação da Lei sobre o conjunto de dados demonstrando sua validade.

Gráfico 3
Produtividade de autores através da Lei de Lotka

Assim, percebe-se no Gráfico 3 que 87,5% dos autores publicaram apenas um artigo sobre a temática, o que revela, portanto, que são pesquisadores esporádicos desta temática. Levando em conta o restante de autores, apenas 2% publicou 4 ou 5 artigos no intervalo do conjunto. Essa distribuição desigual pode ter implicações significativas para políticas de financiamento, avaliação de pesquisa e estratégias de colaboração no campo.

Outra maneira de medir a relevância de autores é pela contagem de citações que recebem. Primeiramente, apresenta-se na Tabela 5 os autores mais citados nos documentos do próprio conjunto de dados desta pesquisa, ou seja, aqueles que possuem mais citações locais.

Tabela 5
Autores mais citados no conjunto de dados

Os documentos incluídos, nesta análise bibliométrica, contêm 2.584 referências. Comparando-se com o resultado apresentado anteriormente, percebe-se que há pouca influência dos autores nos trabalhos que compõem este conjunto de 129 documentos. Das posições 1 a 6, cada autor recebeu apenas 4 citações e, a partir da posição 9, os demais autores não tiveram citações.

Também é possível inferir que não há pesquisadores individuais ou grupos de pesquisa consolidados na temática, diferentemente do que se observa em outros subcampos dos Estudos da Tradução e da Interpretação. Isso pode ocorrer porque a interpretação é considerada, na estrutura de alguns sistemas universitários, uma especialização e há uma menor demanda por professores nesse campo. Além disso, os profissionais da interpretação frequentemente combinam sua prática profissional com atividades de ensino. No entanto, como tendem a não trabalhar em tempo integral nas universidades, acabam não se dedicando à pesquisa.

Os dados da Tabela 4 contrastam com o resultado da medição do impacto dos autores pela contagem de citações globais vista no Gráfico 4. As citações globais representam a somatória do número de citações registradas nas bases de dados — neste caso, Scopus e Web of Science — de um determinado autor considerando-se apenas os documentos que compõem o conjunto de dados deste trabalho. Essa métrica abrange o impacto mais amplo dos trabalhos de um autor, fornecendo, portanto, uma perspectiva mais abrangente de sua contribuição.

O Gráfico 4 destaca que os autores com maior número de citações globais são Barbara Köpke e Jean-Luc Nespoulous, afiliados à Université de Toulouse, na França e com apenas uma publicação em coautoria no conjunto de dados. Entretanto, é importante notar que Yanping Dong e Rendong Cai, ambos da Guangdong University of Foreign Studies, na China, e Claudia Vivian Angelelli, da Heriot-Watt University, no Reino Unido, apresentam uma relevância significativa em termos de citações globais e figuram ao mesmo tempo entre aqueles com maior quantidade de publicações no conjunto. Enquanto isso, Sárka Timarová, da Lessius University College, Bélgica, aparece na lista de autores com mais citações locais.

Gráfico 4
Autores com maior número de citações

A influência de países e as respectivas instituições de origem dos autores também foram analisadas com objetivo de perceber a presença e estado de internacionalização das pesquisas publicadas no conjunto de dados. Inicialmente, foram totalizadas as citações locais por país, sendo 35 nações que contribuíram para o conjunto de dados. China e Estados Unidos emergiram como os principais destaques, representando conjuntamente 47,64% do total de 561 citações entre os dez países mais citados. Os dados detalhados podem ser observados no Gráfico 5.

Gráfico 5
Países mais citados no conjunto

Essa tendência corrobora com o que foi reportado por Brainard e Normile (2022) quando publicaram que pela primeira vez a China havia superado ligeiramente os Estados Unidos em termos do número de artigos mais citados, levando em conta todas as áreas do conhecimento. Os autores sugerem ainda que, além do aumento quantitativo já conhecido nos estudos chineses, também pode estar ocorrendo uma melhoria na qualidade das publicações. Em última análise, os autores tendem a conhecer mais profundamente os pesquisadores de seu próprio país e as publicações em seu idioma nativo. Consequentemente, é possível que os dados analisados apresentem um viés de citação nacional ou viés linguístico, isto é, uma tendência a citar preferencialmente estudos produzidos no mesmo país ou na mesma língua, o que pode influenciar a percepção do impacto científico real em uma escala global.

Gráfico 6
Países de origem de autores correspondentes e colaboração internacional

A colaboração internacional, ou internacionalização da pesquisa acadêmica, tem uma posição central na fomentação do progresso científico, na abordagem de questões de elevada complexidade e na instauração de um ambiente global de pesquisa caracterizado pela colaboração e inovação. Entretanto, ao observar o Gráfico 6 percebemos que há pouca atividade entre pesquisadores de diferentes países, e predomina a autoria nacional.

3.4 Publicações

Da mesma maneira como foi para os autores, os documentos podem ser classificados a partir do total de citações globais, contudo, nem sempre as publicações de maior impacto por número de citações convergem para os autores de maior impacto pela mesma métrica ou pelo Índice H. Ainda assim, na seleção dos dez principais documentos do conjunto, ocorreu a presença dos autores Köpke e Nespoulous (2006) e Cai et al. (2015), que ocupam respectivamente a posição primeira e oitava entre os autores mais citados globalmente; e Angelelli (2007) e Wang (2012), que figuram na quarta e sétima posição como autores com maior quantidade de documentos no conjunto de dados.

Tabela 6
Documentos mais citados globalmente

Também foi realizada uma análise para evidenciar as principais publicações a partir do total de citações locais e como observado na classificação por citações globais, as duas primeiras posições são ocupadas por autores também ranqueados entre os mais citados no conjunto de dados. São eles: Macnamara et al. (2011) e Timarová et al. (2014), que estão na terceira e sexta posição entre os autores mais citados localmente.

Tabela 7
Documentos mais citados localmente

É relevante salientar que a maioria dessas publicações listadas entre as mais citadas globalmente ou localmente, correspondem ao único documento desses autores no conjunto de dados — fenômeno validado pela Lei de Lotka, exceto pelos autores de Angelelli (2007) e Cai et al. (2015) que possuem, em ordem, três e dois documentos na coleção. Outra análise realizada no conjunto levou em conta as referências mais citadas pelos documentos, ou seja, as publicações que não fazem parte do conjunto de dados e que são citadas. A Tabela 8 relaciona as dez publicações de mais destaque.

Tabela 8
Referências mais citadas

Das publicações destacadas, três são livros amplamente conhecidos e citados nas pesquisas dos estudos da interpretação, sendo: a primeira edição de Basic Concepts and Models for Interpreter and Translator Training de Daniel Gile (429 citações globais); a primeira edição de Introducing Interpreting Studies escrito por Franz Pöchhacker (2.912 citações globais); e a coletânea de artigos organizada por David Sawyer intitulada Fundamental Aspects of Interpreter Education (117 citações globais).

Dos elementos textuais que compõem os documentos, ainda é factível a aplicação da Lei de Zipf, como mencionado anteriormente. Contudo, nesta análise, será empregada apenas a etapa inicial da lei, que parte da contagem das palavras ou termos com maior frequência de ocorrência sem avançar nas equações de estimativas.

Os textos dos documentos foram agrupados em títulos, resumos e palavras-chave criadas pelos autores analisados — o que significa que não foram calculadas as ocorrências de palavras-chave geradas automaticamente pelas bases de dados (keyword plus) nem o corpo dos textos.

Para esta análise ampliou-se o limite de visualização de dados para os 20 mais relevantes pois entendemos que a ocorrência de termos derivados (como interpreter e interpreting) ou simples e compostos (como training e interpreting training) poderiam afetar compreensão da influência dessas palavras nas publicações. Dessa forma, os 20 termos mais frequentes entre as 163 diferentes palavras-chaves dos autores são: interpreting (16); interpreting competence (14); interpreter training (11); simultaneous interpreting (10); training (7); consecutive interpreting (5); interpreters (5); interpreting training (5); public service interpreting (5); working memory (5); court interpreting (3); expertise (3); healthcare interpreting (3); professionalization (3); quality (3); self-efficacy (3); adaptavive expertise (2); attention (2); e bussiness interpreting (2), desconsiderando artigos e preposições.

Observando a frequência dos termos mencionados acima, os três primeiros têm a capacidade de sintetizar o cerne temático desta pesquisa, ou seja, interpretação, competência e formação. Além disso, nota-se que há uma frequência de termos que delineiam o contexto de interpretação no qual as pesquisas foram conduzidas: public service interpreting, court interpreting, healthcare interpreting e bussiness interpreting. Assim como o tipo de interpretação: simultaneous interpreting e consecutive interpreting.

Outros termos correlatos à competência, conforme previsto na busca, surgiram em menor quantidade: working memory, expertise, quality, self-efficacy, adaptavive expertise e attention. Essas informações sobre as palavras-chave mais recorrentes podem ser proveitosas como referência para uma melhor seleção de termos para indexação deste e de outros trabalhos.

Ao realizar a análise de agrupamento na rede de palavras-chave, é possível distribuir os diferentes temas de um determinado domínio em grupos — ou clusters — correlacionados por grau de importância e nível de evolução, conforme apresentado na Figura 1. Cada cluster pode ser representado em um gráfico conhecido como Mapa Estratégico ou Temático (Cobo et al., 2011):

Figura 1
Mapa Temático

No mapa temático apresentado na Figura 1, a abcissa “centralidade” é uma medida do grau de relevância dos temas identificados nos documentos por meio das palavras-chave do autor, ou medida do grau de interação de uma rede com outras redes. Por outro lado, a ordenada “densidade” é uma medida do grau de desenvolvimento do tema, ou medida de força interna da rede.

Implementando essa análise no conjunto de dados de palavras-chave identificamos a seguinte distribuição apresentada no Gráfico 7.

Gráfico 7
Mapa temático

Assim, no quadrante superior direito onde são identificados os temas motores, mesmo que no limite entre os temas básicos, estão as palavras-chave “interpreting”, “interpreting competence” Muito embora, também em nível internacional, as competências sejam polêmicas e historicamente antigas e “interpreting training”. Este resultado reforça uma vez mais a tendência crescente para pesquisas sobre os temas deste estudo e oportunidade de desenvolvimento (Grbic & Pöchhacker, 2015).

Na análise da frequência de ocorrência de palavras nos títulos, foi elaborado um gráfico do tipo Mapa de Árvore, onde foram identificados tanto o valor absoluto quanto o valor relativo de cada palavra, conforme demonstrado no Gráfico 8.

Gráfico 8
Frequência de palavras do título

No exame dos textos dos resumos, que naturalmente possuem tamanho superior aos elementos “título” e “palavras-chave”, encontrou-se o resultado visto a seguir, no Gráfico 9. Em uma comparação entre os elementos “título” e “resumos” ilustrados nos Gráficos 8 e 9, observa-se uma alta similaridade na frequência de ocorrência das palavras utilizadas nos textos, cabendo destacar os termos “interpreting”, “competence”, “skills”, “aptitude” que nortearam a query de busca. Assim como nas palavras-chaves, os títulos e resumos também demonstram a aproximação que as pesquisas possuem com o tema “formação de intérpretes”, haja vista a coocorrências das palavras “training”, “students” e “learning”.

Considerando ainda a análise do uso de palavras nos resumos, delimitou-se uma observação exclusiva dos termos compostos — ou bigramas — e sua frequência ao longo do intervalo de tempo do conjunto de dados. Observou-se que o termo mais frequente foi “interpreting skills” que emerge em 2005 em um crescente com acúmulo de 66 ocorrências até 2023. Já o segundo termo mais frequente foi “interpreting competence” que surge pela primeira vez no conjunto no ano de 2012 e mantem igualmente um crescente com acúmulo de 53 ocorrências, enquanto “interpreting training” na terceira posição, surge em 2007, estabiliza até 2010, quando passa a crescer, e soma 34 ocorrências ao longo do tempo.

Gráfico 9
Frequência de palavras do resumo

Conforme observado por Luhn (1957 apud Guedes, 2012), um autor de artigo científico costuma escolher um nível específico de linguagem e comunicação de palavras para transmitir sua mensagem e ressalta que, à medida que uma determinada noção ou combinação de noções ocorre com mais frequência, o autor tende a atribuir-lhes maior importância para expressar a essência de sua ideia. Ele também destaca que a probabilidade de um autor optar por palavras diferentes para expressar a mesma ideia é baixa. Essas observações realçam a propensão dos autores em adotar uma abordagem coesa e precisa na seleção de palavras ao comunicarem seus conceitos em artigos científicos.

4. Considerações Finais

Apesar da evolução significativa observada nos últimos 20 anos e da existência de um conjunto de dados substancialmente amplo, os resultados desta pesquisa indicam a necessidade premente de investigações mais aprofundadas sobre as competências do intérprete ou as habilidades envolvidas na interpretação. Embora o tema delimitado represente um foco central neste conjunto de dados, as publicações de maior destaque não abordam essa temática de maneira abrangente o suficiente para delinear com clareza o conjunto de competências, habilidades ou conhecimentos essenciais para a formação de intérpretes.

As fontes, ou seja, os periódicos e editoras, são aquelas reconhecidas e de alto impacto no campo dos Estudos da Tradução e da Interpretação tanto que coincidem em sua maioria quando avaliadas pelo seu impacto global e impacto local e na zona nuclear da Lei de Bradford. Isso sugere que os pesquisadores interessados nesse tema devem dar prioridade a essas fontes ao considerar futuras publicações. Contudo, essa postura pode ser questionada quando consideramos que novos periódicos especializados nos Estudos da Interpretação também precisam ser valorizados e incentivados pelos pesquisadores desse campo.

Não foram identificadas pesquisas fundamentais ou autores proeminentes nos estudos sobre competências ou habilidades na interpretação, conforme evidenciado pelo baixo número de citações locais, correferências e colaborações. Em contraste com os estudos que abordam a competência em tradução, a revisão sistemática apresentada por Salamah (2021) destaca a presença de pesquisadores e obras notáveis, incluindo Williams Chesterman, Amparo Hurtado Albir [Grupo PACTE], Donald Kiraly, Christiane Nord e Wolfrand Wilss. Essa diferença pode ser resultado do desenvolvimento mais recente dos estudos de interpretação como campo de pesquisa.

Em relação ao perceptível déficit de colaboração mútua e internacional, merece destaque o impacto positivo do compartilhamento de informações, integração de habilidades e cooperação entre pesquisadores na consecução de objetivos comuns, não apenas impulsionando a produção de conhecimento, mas também otimizando a eficiência ao economizar tempo, recursos financeiros e materiais (Balancieri et al., 2005).

Portanto, emerge não somente a necessidade destacada anteriormente, mas também uma lacuna marcante no campo da pesquisa, no qual a escassez de pesquisadores dedicados ao tema ao longo do tempo impacta diretamente a produção de resultados científicos substanciais, tal como validado pela Lei de Lotka. Esta carência de estudos aprofundados compromete a compreensão clara das competências, habilidades e conhecimentos que compõem a interpretação. Para o futuro, esta delimitação bibliométrica pode servir de base para uma análise qualitativa dos conteúdos das publicações de maior destaque listadas aqui.

  • Conjunto de dados de pesquisa
    Os dados da pesquisa fazem parte da tese de doutorado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e no Doctorat en Traducció i Estudis Interculturals da Universitat Autònoma de Barcelona (UAB).
  • Financiamento
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    Não se aplica.
  • Publisher
    Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
  • 1
    Para mais informações sobre as leis, recomendamos a leitura de Rousseau et al. (2018).

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelos autores mediante solicitação ou acessados para consulta ou reuso diretamente em: https://doi.org/10.7910/DVN/SMWS3R

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Editado por

  • Editores de seção
    Andréia Guerini – Willian Moura

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    09 Ago 2024
  • Aceito
    14 Maio 2025
  • Revisado
    15 Maio 2025
  • Publicado
    Jun 2025
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