Open-access Climb, creep e fall em traduções para o português e para o francês

Climb, creep, and fall in Portuguese and French translations

Resumo

Realizou-se uma análise de 128 amostras contendo os verbos de movimento climb (‘trepar’, ‘escalar’), fall (‘cair’) e creep (‘rastejar’) recolhidas de três romances originais em inglês e suas traduções profissionais para o português e o francês. Em seus sentidos mais básicos, climb e fall codificam o trajeto e uma maneira de movimento, enquanto creep denota somente a maneira. Em 66% dos contextos com climb, os tradutores substituíram esse verbo por um verbo de trajeto em português e um verbo de maneira e trajeto em francês. Fall foi traduzido por cair em português (75%) e tomber do francês (50%), e todos os três verbos expressam trajeto e maneira de forma semelhante. A tradução da maneira em cenas com creep ficou em torno de 70% nas duas línguas. Nas traduções de climb e fall com um satélite, expressando mais de uma trajetória, os tradutores conservaram apenas uma delas no texto alvo, o que corrobora a literatura sobre o tema. Mas, no francês, eles conservaram duas trajetórias quando foi possível empregar dans. Além de efeitos tipológicos previsíveis segundo a Tipologia do Movimento (L. Talmy), nas cenas com fall, a ‘volição’ e a ‘animação’ da figura em movimento parecem ter influenciado as escolhas tradutórias. Foram observadas semelhanças intratipológicas e diferenças intertipológicas como esperado. Entretanto, no francês, a manutenção da maneira foi mais preponderante. No geral, as traduções para o francês apresentaram maior diversidade de tipos verbais que combinavam maneira e trajeto. Tais afirmações se restringem às estratégias usadas na tradução dos três verbos escolhidos.

Palavras-chave
tradução; movimento; climb ; creep ; fall

Abstract

We analyzed 128 samples containing the movement verbs climb, fall, and creep from three English novels and their professional Portuguese and French translations. In their most basic senses, climb and fall encode the path and a manner of motion, while creep conveys only the manner. In 66% of the climb contexts, the translators replaced this verb with a path verb in Portuguese and a manner-and-path verb in French. They translated fall as Portuguese cair (75%) and French tomber (50%), and all three verbs express similar information about the path and the manner. Rendering the manner in scenes with creep reached around 70% in both languages. In the translations of climb and fall with a satellite, expressing more than one trajectory, the translators kept only one in the target, corroborating the literature on the subject. In French, though, they kept the two directions in cases with dans. In addition to predictable typological effects according to L Talmy’s Motion Typology, the moving figure’s volition and animation seem to have influenced the translators’ choices in the scenes with fall. We observed intratypological similarities and intertypological differences as expected. However, in French, the maintenance of manner was more prevalent. The French translations generally showed a greater diversity of verb types that conflated manner and path. We restrict our claims to the strategies used for translating the three chosen verbs.

Keywords
translation; motion; climb; creep; fall

1. Introdução

Na tradução de cenas de movimento, chama atenção a semântica mais ou menos especializada de verbos que codificam o trajeto (direção) ou a maneira do movimento, ou ambos. A “transferência” (Reiss & Vemeer, 2013) desses componentes semânticos para o texto alvo dependerá de escolhas do tradutor que poderão ser influenciadas pela gramática da língua alvo. É possível que as línguas fonte e alvo disponham de diferentes recursos gramaticais e lexicais para a expressão de eventos de movimento (Talmy, 1991 e outros), o que leva os tradutores a cuidar para que suas escolhas não descaracterizem o conteúdo original, nem, tampouco, o estilo retórico dos falantes da língua alvo (Ibarretxe-Antuñano & Filipović, 2013).

Slobin (2004) relata que predicados em inglês formados pelo verbo climb (‘escalar’, ‘trepar’), que indica maneira e, tipicamente, uma direção canônica ‘para cima’, mas se combina livremente com partículas direcionais diversas (chamadas satélites), demandam estratégias específicas ao serem traduzidos para idiomas como o português e o francês e outras línguas de seu grupo tipológico (cf. a seção 3 abaixo). Nestes idiomas, não há verbo que expresse um movimento semelhante com orientação ‘para baixo’ (* ‘descer agarrando com as mãos’) que possa traduzir compostos verbais como climb down. Fall (‘cair’) também costuma aparecer seguido de partículas que denotam uma direção não descendente, como fall out. Além desses, o verbo creep não expressa o trajeto, mas codifica duas maneiras distintas de movimento – ‘lentamente com as mãos e os joelhos’; ‘dissimuladamente’ – que podem se perder na tradução e que ocorrem no padrão de lexicalização típico do inglês.

Nessa língua, o núcleo do predicado pode vir seguido por várias dessas partículas ou sintagmas preposicionais que evocam diferentes partes de um único trajeto complexo (Slobin, 2006a). Esse autor denomina tal padrão sintático de compactação de orações. No português como língua materna, observou-se uma tendência a que cada etapa seja expressa em uma oração separada (Oliveira & Fernandes, 2022). Isso pode levar à omissão de parte do trajeto na tradução para as línguas de moldura verbal (MV), como o português (Slobin, 2004).

Segundo esse autor, o maior número de verbos de maneira e diversidade de tipos de maneira codificadas nas línguas de moldura de satélite (MS) colaboram para descrições mais vívidas do movimento. A depender das escolhas do tradutor, a narrativa também se torna mais ou menos dinâmica. Para Berman e Slobin (1994), um trecho de narrativa com compactação de orações, como ocorre no inglês, é mais dinâmico. O contrário ocorre em narrativas em línguas MV, que geralmente contêm descrições estáticas da localização do protagonista e de pontos finais do movimento.

2. Tradução e Linguística Cognitiva

A atividade de tradução é entendida por alguns como a conversão de informações fidedignas de um idioma para outro, numa orientação voltada para o texto fonte. A isso, House (2018) denomina equivalência semântica. Porém, essa autora afirma que a tradução vai além, visto ser o processo tradutório intermediado pela interpretação do texto fonte por parte do tradutor, o qual a converterá, a seguir, para a língua alvo. Nesse processo, é o tradutor/intérprete que define aquilo que será ou não cabível na língua alvo a partir das suas características morfossintáticas e semânticas, do léxico disponível e do estilo retórico típico dos falantes da língua alvo (Ibarretxe-Antuñano & Filipović, 2013).

Alinhado com esta última visão sobre o papel do tradutor e do processo tradutório, este trabalho também se vale da natureza multidisciplinar da tradução como campo de estudo, o qual tem se desenvolvido sob perspectivas diversas além da linguística, como a dos estudos literários, políticos, sociais e cognitivos (Baker, 2013). Igualmente, Cifuentes Férez (2018) destaca que a tradução humana tem sido entendida como uma atividade intercultural e, novamente, cognitiva. Por fim, a interdependência entre língua e cultura é fortemente defendida por Reiss e Vermeer (2013).

Associando língua, cultura e cognição, a Linguística Cognitiva e a Psicolinguística têm contribuído para um maior entendimento da atividade tradutória. Em particular, do ponto de vista linguístico, a Tipologia do Movimento (Talmy, 1991, 2000a e outros) mostra como as línguas do mundo se organizam em tipos diferentes, de acordo com padrões léxico-gramaticais específicos, para a expressão de componentes conceituais de cenas de movimento. Na Psicolinguística, através de suas hipóteses neorrelativistas Pensar para falar e Pensar para traduzir, Slobin (1987, 2006a) busca decifrar como as diferenças entre as gramáticas das línguas influenciam a cognição de falantes quando esta é acessada para interpretar, produzir ou traduzir discursos falados ou escritos.

Slobin (1996a) foi pioneiro na sistematização de estratégias empregadas por tradutores na tradução de cenas de movimento tendo como suporte a Tipologia do Movimento de Talmy. Ibarretxe-Antuñano (2003) e Ibarretxe-Antuñano e Filipovič (2013) ampliaram o número dessas estratégias, as quais, grosso modo, foram identificadas em termos da manutenção total ou parcial de componentes semânticos, omissão de algum componente ou troca do tipo verbal. Esses trabalhos já influenciaram inúmeros outros sobre o assunto, inclusive mais recentemente no Brasil, os quais têm como foco as escolhas dos tradutores para traduzir o trajeto e a maneira do movimento em diferentes amostras, e levam em conta os grupos tipológicos a que pertencem as línguas envolvidas (cf. Ferreira & Moura, 2023).

3. A Tipologia de Movimento

A categorização tipológica das línguas proposta por Talmy (1991) surgiu a partir da observação de padrões linguísticos típicos usados na expressão de certos eventos complexos, constituídos de um evento principal e um evento secundário. Tais eventos complexos poderiam ser codificados em duas orações, mas também são passíveis de ser expressos juntos em uma só oração. Entre os domínios conceituais que podem constituir o evento principal ou estruturante, encontra-se o movimento. Eventos nesse domínio têm como constituintes o movimento, o trajeto percorrido, a figura que se desloca e o fundo ou cenário de referência. Como componentes secundários ou de suporte, podem ocorrer relações mais específicas, tais como maneira, causa, concomitância, capacitação, constituição1 e precursion (situação em que um evento precede, mas não provoca o movimento).

Aos modelos de codificação lexical e morfossintática desses componentes, esse autor denomina padrões de lexicalização. Considerando o verbo principal como elemento linguístico de destaque na expressão de eventos de movimento, Talmy inicialmente observou que alguns deles fundem, em seu radical, o movimento e a figura (chover, rain, pleuvoir), o movimento, o fundo e o trajeto (aterrissar, land, atterrir), o movimento e a direção do trajeto (subir, ascend, remonter), o movimento e a maneira (correr, run, courir), o movimento, a maneira e o trajeto (trepar, climb, escalader)2. Alguns verbos, como fall, também codificam uma mudança de postura, como em fall on one’s side (‘cair de lado’).

Cada evento principal apresenta um esquema central que define sua natureza e o distingue de outros potenciais tipos de eventos estruturantes. No caso dos eventos de movimento, o esquema central é o trajeto. A descrição do trajeto pode ser somente a direção do movimento ou incluir, também, elementos do fundo. Com base na codificação linguística desse esquema central, Talmy passou a classificar as línguas naturais em dois padrões de lexicalização. As línguas MV, entre elas, o português e o francês, tipicamente codificam a direção do trajeto no radical do verbo (por exemplo, sair ‘mover-se para fora’), e as línguas MS, como o inglês e muitas outras, geralmente expressam esse componente fora do radical, em prefixos, partículas ou advérbios, que Talmy batizou de satélites (como out ‘para fora’).

Os dois grupos também diferem quanto à codificação típica do componente maneira. As línguas MS com frequência a expressam no verbo principal e as MV fazem-no através de gerúndios, sintagmas adverbiais ou adjetivais etc. Os padrões de lexicalização dos idiomas tratados neste estudo são ilustrados abaixo a partir dos exemplos (1) e (2), de Hickmann et al. (2009, p. 210, nossa tradução), que foram adaptados para o português:

(1) Inglês (MS):   John ran <MANEIRA> away <TRAJETO> (2) Francês (MV):   Jean est parti <TRAJETO> en courant <GER.MANEIRA>. (3) Português (MV):   João foi embora <TRAJETO> correndo <GER.MANEIRA>.   João saiu <TRAJETO> correndo <GER.MANEIRA>.

Como se vê, a amostra em inglês traz um verbo principal de maneira e a do francês e a do português, um verbo de trajeto ou uma locução formada por um verbo neutro de movimento e um advérbio de direção. A maneira também é distribuída em classes diferentes, a depender do grupo tipológico. Essas diferenças morfossintáticas na expressão dos mesmos componentes semânticos dificultam o processo de tradução, especialmente partindo de uma língua MS para uma MV, como observado por Slobin (2006a).

Os falantes de línguas de grupos distintos também tendem a diferir entre si em seu estilo retórico por razões internas aos idiomas. Esse fato deriva, em parte, do inventário de verbos de maneira disponível na língua e da construção gramatical típica em que se inserem (Slobin, 2017). Com base em Snell-Hornby (1983), que compara verbos de maneira do inglês e do alemão, Slobin (2000) destaca que a maneira do movimento não é uma categoria natural, mas, sim, definida linguisticamente. O reflexo dessa condição cultural é um léxico maior e mais diversificado de verbos de movimento, especialmente de verbos de maneira mais expressivos, nas línguas MS em contraste com um léxico muito menor desses verbos nas línguas MV (Talmy, 2000a; Slobin et al., 2014).

Além disso, o padrão de lexicalização MS permite compactar a maneira e o trajeto nos componentes centrais do predicado. Em contrapartida, o recurso de expressão da maneira fora do predicado é cognitivamente mais pesado (Talmy, 2000a). Assim, como também afirmam Moura e Badaracco (2019), nas línguas MV, a maneira é comumente omitida em situações nas quais ela pode ser inferida com facilidade através do contexto.

Em síntese, esses dois fatores – lexical e morfossintático – interferem na quantidade de informação que os falantes disponibilizam ao descreverem eventos de movimento e também marcarão as traduções.

Verb-framed translators generally lack a comparably elaborate lexicon upon which to draw, and they are also faced with the need to avoid non-native heaviness of motion event descriptions that—in separate phrases or clauses—would serve to spread out details of path and manner that were conveniently compacted in the English original

(Slobin, 2004, p. 123).

4. A semântica dos verbos de movimento

Ibarretxe-Antuñaño (2003) também considera que a maior dificuldade para um tradutor é ter de lidar com características da língua fonte naquilo que é cabível ou não na língua alvo, prezando pelo máximo de naturalidade possível. Mesmo uma escolha linguística correta pode não caber no estilo retórico usual dos falantes (Ibarretxe-Antuñano & Filipovič, 2013). Essa é a condição dos verbos aqui estudados.

Certos verbos codificam somente um ‘movimento básico’, sem expressar uma trajetória definida ou a maneira como o movimento se dá, por exemplo, no português, com ir, dirigir-se e mover-se. A maneira é um termo “guarda-chuva” para múltiplas dimensões do movimento: padrão motor, velocidade, dinâmica de forças, atitude, instrumentos de apoio, meios de transporte, entre outros (Slobin, 2006b; Slobin et al., 2014). O trajeto, por sua vez, é caracterizado como o caminho seguido pela figura, e sua direção básica, por exemplo, para cima, para baixo, para fora, para dentro, para longe etc. pode ser distribuída diferentemente a depender do idioma (Talmy, 2000a). Como já dito, as línguas MS tendem a codificar a direção do trajeto em satélites e as línguas MV, através das raízes verbais.

Para os tradutores nativos de idiomas MV, um ponto de dificuldade específico pode ser verbos da língua inglesa que codifiquem a maneira e o trajeto na direção vertical e que, também, aceitem outras direções no mesmo predicado. Em traduções de cenas de movimento, como no exemplo (4) abaixo, do romance The Hobbit, de J. R. R. Tolkien (1937), Slobin (2004) identificou um número maior de verbos significando ‘ascender’, compatíveis com climb do inglês, empregados por tradutores de línguas germânicas e eslavas (MS), comparados a um único verbo citado por tradutores de francês, português, espanhol, italiano, hebraico e turco (línguas MV). Para o francês e o português, o autor cita grimper e trepar, respectivamente.

(4) Dori climbed out of the tree.   Lit.: ‘Dori escalou para fora da árvore’.

Esse exemplo indica um trajeto direcionado para baixo num movimento realizado com a figura ‘se agarrando’ à árvore. Aqui, o verbo climb codifica somente a maneira. Como mostrado pelo autor, esse verbo tende a ser traduzido para línguas MS com outro verbo de maneira de mesmo valor semântico. Por outro lado, as línguas MV utilizam verbos que codificam apenas a trajetória para baixo, como bajar do espanhol (ou descer do português), ficando omitida a maneira e a direção ‘para fora’.

(5) Dori bajó del árbol.   Lit. : ‘Dori desceu da árvore’.

Segundo esse autor, as línguas MV, muitas vezes, não dispõem de um verbo que expresse o significado de ‘agarrar’ e, ao mesmo tempo, um ‘movimento para baixo’. Aqueles correspondentes a climb expressam movimentos ‘para cima’. As outras direções que não sejam para cima – out, into, aboard – podem ficar comprometidas na tradução.

O verbo fall também pode fundir informações sobre o trajeto e a maneira. Porém, para Slobin et al. (2014), não existe consenso se verbos como fall (‘cair’) e flee (‘fugir’) apresentam ou não um conteúdo de maneira além da direção do movimento. Neste trabalho, assume-se que fall codifique os dois elementos.

Por fim, creep representa bem o padrão característico de verbo de maneira, que não denota o trajeto e sempre carece de um satélite ou de uma preposição direcional. Estima-se que as duas maneiras que ele expressa, mencionadas na introdução deste artigo, demandem mais atenção por parte do tradutor.

Abaixo são apresentados os contextos de significado de movimento desses verbos, adaptados do dicionário Webster’s third new international dictionary of the English language, unabridged, e explorados neste artigo: 4 para climb, 2 para creep e 3 para fall, seguidos de nossa tradução.

Climb (a) [trajeto]to rise or go upward with gradual or continuous progress; ascend through or to the higher parts. ‘subir ou ir para cima num progresso gradual ou contínuo’; ‘subir por ou para partes mais altas.’ Ex.: watching the smoke climb ‘olhando a fumaça subir’, climb a step ‘subir um degrau’. (b) [trajeto + maneira]to go upward or raise oneself especially by grasping or clutching with the hands ‘subir ou erguer-se especialmente segurando ou agarrando com as mãos’ Ex.: climbed up a steep hill ‘subiu uma colina íngreme’; climbing aboard a car ‘subir a bordo de um carro’ (c) [trajeto + maneira]to reach by climbing; to go or proceed upwards upon or along, to the top of or over, typically with some effort ‘galgar, alcançar um local subindo’; ‘mover-se ou prosseguir para cima, sobre ou ao longo de, para o topo ou por cima de algo, tipicamente com algum esforço’ Ex.: He dreams of climbing Kilimanjaro. ‘Ele sonha em escalar o Kilimanjaro.’ Climb a hill ‘subir uma colina’; energy spent climbing stairs ‘energia gasta subindo degraus’; the car climbed the long hill ‘o carro subiu a longa colina’ (d) [maneira]to go about or down usually by grasping or holding with the hands to facilitate progress or ensure safety ‘deslocar-se ou descer usualmente agarrando ou segurando com as mãos para facilitar o progresso ou garantir segurança’ Ex.: climb down the ladder ‘descer uma escada’ Creep (a) [maneira]to move along with the body prone and close to or touching the ground ‘mover-se com o corpo debruçado e próximo ou a tocar no chão’ Ex.: …watched the foxes creep into their den. ‘... viu as raposas se arrastarem para suas tocas.’ (b) [maneira]to go timidly or cautiously so as to escape notice ‘mover-se tímida ou cautelosamente para não ser notado’ Ex.: She crept away from the festive scene. ‘Ela saiu discretamente da cena festiva.’ Fall (a) [trajeto + maneira]to descend by the force of gravity when freed from suspension or support ‘descer pela força da gravidade quando livre de suspensão ou suporte’ Ex.: Ripe fruit falling off a tree. ‘Fruto maduro caindo de uma árvore.’ (b) [trajeto + maneira]to drop suddenly and involuntarily ‘cair de repente e involuntariamente’ Ex.: Slipped and fell heavily to the ground. ‘Escorregou e caiu pesadamente no chão.’ (c) [maneira + postura]to let oneself down, usually swiftly and suddenly to a sitting, reclining, or a kneeling position ‘deixar-se cair, geralmente de modo rápido e súbito, para uma posição sentada, reclinada ou ajoelhada’ Ex.: She fell on the window seat by the coat closet and began to sob. ‘Ela se jogou no assento da janela perto do armário de casacos e começou a soluçar.’

Este último significado de climb implica uma mudança voluntária de posição em relação ao próprio corpo. Sua inclusão se justifica por poder ser expresso por formas diferentes no português (deixar-se cair) e no francês (se laisser tomber).

Tomando por base as definições acima, pretendeu-se apontar estratégias de tradução que os tradutores utilizaram para lidar com a informação contida nesses três verbos. Como se trata de processos de tradução de uma língua MS para línguas MV, esperava-se que a maneira fosse omitida com frequência, como relata Slobin (1991, 1996b, 1997), e que esse componente fosse substituído por um verbo evocando apenas uma direção. Também foi de interesse verificar os casos em que esses verbos viessem acompanhados por satélites indicando direções não verticais, tais como climb out.

5. Metodologia

As amostras em inglês e português provêm de três seções do corpus paralelo do projeto Anotação semântica da expressão do movimento em inglês e português, constituídas dos romances em inglês The Adventures of Tom Sawyer (Twain, 2005a), The Grapes of Wrath (Steinbeck, 1939) e The Lord of Flies (Golding, 1954), e de suas traduções para o português (Twain, 2005b, trad. William Lagos; Steinbeck, 2012, trad. H. Caro & E. Vinhaes; Golding, 2011, trad. G. G. Ferraz)3. A essas, foram acrescentadas amostras em francês recolhidas das respectivas traduções (Twain, 2021, trad. T. W. L. Hughes, I. A. Sirouy & I. T. Williams; Steinbeck, 1947, trad. M. Duhamel & M. Coindreau; Golding, 1968, trad. L. Tranec-Dubled) (cf. o Conjunto de dados de pesquisa). A unidade de análise seguiu o conceito de jornada ou trajeto complexo (Slobin, 2006a), que corresponde ao deslocamento total de um protagonista, incluindo fonte, percurso, eventuais pontos de parada e o alvo do movimento. Para fall, foram acrescentadas amostras de quedas de objetos inanimados para a análise do papel da ‘volição’.

As 128 amostras analisadas dos textos originais correspondem ao total de cenas efetivamente traduzidas para o português e o francês e contêm somente falas do narrador com trechos de movimento real no espaço, através de formas variadas dos verbos climb, creep ou fall4. Não se levou em conta usos metafóricos (cf. 6), usos em situações hipotéticas (cf. 7), usos referentes a eventos habituais (cf. 8) ou casos que Talmy (2000b) denomina fictive path (um trajeto “inverídico”) do tipo “sombra” (cf. 9). Foram consultados o dicionário on-line do Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales (2012) e o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Houaiss et al., 2004).

(6) Tom … thenfellinto a moody jog. (Twain)   Tom… pôs-se a caminhar lentamente, sentindo-se melancólico. (Trad. Lagos) (7) Ma held her so Granmawould not fallwhen she squatted. (Steinbeck)   E a mãe segurava-a, enquanto ela se acocorava, para que não caísse. (Trad. Caro e Vinhaes) (8) And the yellow fruitfallsheavily to the ground. (Steinbeck)   E os caroços caem no chão (Trad. Caro e Vinhaes) (9) At that moment a shadowfellon the page (Twain)   Foi nesse mesmo momento que uma sombra caiu sobre a página (Trad. Lagos)

6. Análise

Apesar de o verbo ser o foco deste trabalho, outros componentes foram analisados em certos casos, em especial, nas cenas com duas trajetórias, em que os verbos climb e fall vêm seguidos de um satélite (partícula) ou sintagma preposicional que indiquem uma direção não exclusivamente vertical, como nas construções climb out ou fall off (cf. Introdução).

6.1 Climb

6.1.1 Traduzindo para o português

A Tabela 1 sintetiza os significados da análise das 66 amostras com climb e suas traduções para o português. Na coluna da esquerda, encontram-se quatro contextos diferentes desse verbo com base nas definições acima. Os três primeiros representam trajetórias ascendentes e o quarto, um sentido de maneira ligado a trajetos não ascendentes. Cada um é seguido pelo número absoluto e percentual de ocorrências em relação ao todo. Os verbos e substantivos do português na segunda coluna são seguidos por letras maiúsculas indicando o componente semântico codificado: D=direção ou trajetória; M=maneira; MD=maneira e direção e P=postura. Nos parênteses, estão números de ocorrências de cada verbo e seu percentual em relação ao total de verbos no respectivo contexto.

Tabela 1
Traduções de climb para o português

As estratégias de tradução identificadas são apresentadas a seguir. Cada amostra traz um código de identificação no corpus de pesquisa: capítulo, autor e ordem de ocorrência no capítulo.

6.1.1.1 Omissão da maneira e manutenção do trajeto

Os contextos de movimento ascendente foram traduzidos, com grande frequência, pelo verbo de trajeto subir e sua forma nominalizada subida (40,91% de todas as traduções de climb) e outros verbos de trajeto. Isso representa uma perda da maneira em 66,15% dos contextos (b), (c) e (d), mesmo nos casos em que o percurso ascendente se dá em relação a uma rocha, uma cerca, uma montanha e a um caminhão (cf. Tabela 1 e Conjunto de dados de pesquisa).

Os exemplos (10) e (11) ilustram essa estratégia, em que o tradutor emprega verbos de trajeto, e a maneira como a figura se desloca, provavelmente com esforço, é deixada para ser inferida. Esta parece ser uma dimensão menos saliente no português, e sua omissão é esperada nas línguas MV (Hijazo-Gascón & Ibarretxe-Antuñano, 2013).

(10) Then heclimbedthe edge of the platform. – 1G#25   Depois, subiu pela beira da plataforma. (11) A brown spotted ladybugclimbedthe dizzy height… – 4T#7   Uma joaninha de pintas marrons ascendeu às alturas estonteantes…

O mesmo foi observado em amostras do contexto (d), em que climb expressa a maneira em trajetos não ascendentes, expressos em down, out e into, traduzidos em cerca de 80% dos casos através de verbos de trajeto, como descer, sair e saltar. Este último tem somente a interpretação de ‘descer, apear’, como em (12). Conservar somente as direções ‘para baixo’ e ‘para fora’ ilustra a ausência, no português, de verbos que traduzam a maneira de climb numa direção não canônica.

(12) Thendownfrom the car the weary peopleclimbed. – 17S#3   Aí todos descem, fatigados (13) Now Maclimbedheavilydownfrom the truck. –18S#43   A mãe, agora, saltou do caminhão. (14) … heclimbed downthe back of the rocks… – 10G#11   … desceu para trás das pedras... (15) Ralphclimbed outof the bathing pool. – 4G#10   Ralph saiu da “piscina”.
6.1.1.2 Manutenção de toda a informação de maneira e trajeto

Para traduzir climb quando o movimento ascendente envolve mais claramente o uso dos braços e das mãos como uma dimensão da maneira, depois de subir, o verbo preferido foi trepar (em troncos e em caminhões), em cerca de 25% desses casos. É possível também que essa seja uma dimensão mais saliente, mais perceptível, da maneira do movimento. E, talvez pelo mesmo motivo, o português tenha no verbo trepar uma semântica parecida com a de climb no significado (b), como aparece no exemplo (16). Por outro lado, no contexto (c), nenhuma tradução manteve a maneira ‘subir com algum esforço’.

(16) Theyclimbedup the side of the truck. –13S#18   Treparam no caminhão por um dos lados.
6.1.1.3 Omissão da maneira e trajeto e emprego de um verbo sem informação de movimento

No exemplo (17), que acumula duas trajetórias, a maneira de climb e esses trajetos também foram omitidos. O tradutor escolheu um verbo de postura – sentar-se. Nesse caso, tais componentes do movimento serão inferidos a partir do contexto anterior, que mostra a família se preparando para partir no caminhão.

(17) Pa and Uncle Johnclimbed inbeside him. – 22S#68   O pai e tio John sentaram-se ao seu lado.
6.1.1.4 Omissão parcial da informação de um trajeto complexo

Um trajeto complexo é aquele que contém várias etapas entre o início e o fim do movimento. Foram 22 casos como esse, ou 33,33% dos usos de climb, com um trajeto ascendente e uma segunda trajetória (in, into, over e back). Em inglês, essas múltiplas etapas, expressas em satélites e sintagmas preposicionais, podem suceder um único verbo. Em português, costuma-se dividir o trajeto em predicados diferentes. Entretanto, em cerca de 90% das traduções, foi mantida apenas uma direção. O exemplo (18) ilustra essa tendência com um único verbo de trajeto, que ocorreu 17 vezes, especialmente, com o verbo subir. Em outras três vezes, foram mantidos o trajeto ascendente e a maneira, com o verbo trepar, como em (19). Em exemplos semelhantes, fez-se uma distinção, devido à altura do veículo: subir em um caminhão e entrar em um automóvel ou barco.

(18) Tomclimbed inand drove on. – 18S#44   Tom subiu na cabine e continuou a viagem. (19) Tom climbed up over the tail-board of the truck.   Tom trepou na carroceria do caminhão. (20) heclimbed intothe back seat – 20S#34   entrando no carro
6.1.1.5 Omissão de um evento de movimento

Nenhuma amostra de trajeto complexo foi traduzida para o português mantendo-se duas trajetórias. Em um desses casos, observou-se um traço peculiar das línguas MV, que é a omissão de um evento de movimento que possa ser inferido (Slobin, 2006a; Oliveira & Fernandes, 2022). Em (21), somente a parte descendente do trajeto – drop – é mantida. O leitor pode inferir que o personagem ‘trepou por cima da carroceria do caminhão’ e saltou ‘para o chão’.

(21) Tomclimbed overthe truck side anddroppedto the ground. 22S#15   ----- Tom saltou da carroceria,
6.1.1.6 Tradução por um verbo sem movimento

Como observou Slobin nas traduções do romance The Hobbit, nas descrições de cenas de movimento com diversas etapas expressas por um único verbo em inglês, as traduções para línguas românicas tenderam a omitir parte desse trajeto. Nos exemplos abaixo, foram empregados verbos sem movimento, mas mostrando perspectivas diferentes: em (22), em vez do local do trabalho, o tradutor enfocou o trabalho em si; em (23), retirou a atenção do movimento para destacar o fato de os personagens se assentarem próximos uns dos outros.

(22) Tomclimbedback into the ditch – 22S#42   Tom tornou a entregar-se ao seu trabalho (23) Pa and Uncle Johnclimbed inbeside him – 22S#68   O pai e tio John sentaram-se ao seu lado

Como se pode observar, as traduções de climb confirmaram a pouca saliência da maneira na descrição de eventos de movimento em português em contraste com grande saliência do trajeto. Também se confirmou um número reduzido de tipos verbais.

6.1.2 Traduzindo para o francês

A análise das traduções do verbo climb para o francês são apresentadas na Tabela 2. Da mesma forma que na tabela anterior, são analisados quatro contextos diferentes do verbo climb com base no componente semântico codificado nesse verbo, os quais aparecem na primeira coluna e vêm seguidos pelos números absolutos e pelo percentual de ocorrências entre as amostras. Na segunda coluna, encontram-se as expressões correspondentes em francês, seguidas por letras maiúsculas que indicam o componente de movimento que eles expressam: D=trajetória; M=maneira; MD=maneira e trajetória e P=postura. Um quarto contexto é aquele que apresenta uma segunda trajetória não ascendente. Além disso, cada expressão em francês também é seguida por um número que indica suas ocorrências e o percentual nas traduções.

Tabela 2
Traduções de climb para o francês
6.1.2.1 Omissão da maneira e manutenção do trajeto no verbo ou substantivo

Uma estratégia comum (34,84% das traduções) foi substituir climb por um verbo de trajetória e não expressar a maneira do movimento nos contextos (b), (c), e (d), como mostra a Tabela 2 e é ilustrado pelo exemplo (24). Essa era uma estratégia esperada, especialmente tendo o francês verbos bastante comuns de trajeto ascendente como monter e remonter. Em (25), o mesmo efeito foi obtido com o substantivo ascension.

(24) Uncle Johnclimbedup on the load. – 20S#2   L’oncle John était remonté au sommet du chargement.   Lit.: ‘O tio John subiu no topo da carga.’ (25) They… stillclimbedupward. – 29T#7   Ils… continuèrent sans hésiter leurascension.   Lit: ‘Eles… continuaram sem hesitar sua ascensão.’
6.1.2.2 Manutenção de toda a informação de maneira e trajeto

Porém, surpreendentemente, 54,54% das traduções de climb mantiveram a maneira do movimento, destacando-se os contextos (c) com 66,66% e (b) com 62,16% traduzidos por verbos de maneira e trajeto. E, no outro extremo, o contexto (d), com 11,11%. Acredita-se que o primeiro caso seja devido à saliência das duas maneiras – ‘com esforço’ e ‘usando as mãos’ – semelhantes ao sentido dos verbos franceses empregados. Já o contexto (d) traz outra questão, que é a presença de uma trajetória não ascendente. Como se mencionou anteriormente, as línguas MV não dispõem de verbos que codifiquem uma trajetória descendente e a maneira do movimento. Isso se estende para outras trajetórias, como ‘para fora’ e ‘para dentro’. Como mostra a Tabela 2, os verbos de maneira e trajeto ascendente mais empregados foram escalader independente da natureza do percurso (sobre rochas ou na carroceria do caminhão), grimper com o sentido de ‘escalar’ e gravir ‘subir com dificuldade’. Além desses, outros cinco verbos de maneira e trajeto foram encontrados.

(26) Heclimbedover the tail gate. – 26S#139   Il escalada le panneau arrière.   Lit: ‘Ele escalou a tampa de trás.’ (27) Then heclimbedthe edge of the platform. – 1G#25   Il escalada le bord du plateau.   Lit: ‘Ele escalou a borda da plataforma.’ (28) Ralphclimbedon to the platform carefully. – 10G#2   Ralph grimpa sur le plateau avec précaution.   Lit: ‘Ralph escalou sobre a plataforma com cuidado.’
6.1.2.3 Omissão da maneira e emprego de um verbo sem informação de movimento

O emprego de verbo sem movimento (s’installer) ou postura (s’asseoir) como nos exemplos abaixo, levaram à perda da maneira e do trajeto em 7,57% do total de casos. No exemplo (29), o movimento vertical poderá ser inferido da preposição sur e, no exemplo (30), o contexto anterior também permite inferir um movimento para cima antes de a personagem se sentar na cabine do caminhão: “Al s’escrima à la manivelle, suant et soufflant. Le moteur se décida, crachota un peu mais rugit lorsque Tom régla l’arrivée des gaz. Il mit de l’avance et réduisit l’accélération”. Como já mencionado, deixar o trajeto para ser inferido a partir do cenário é uma estratégia retórica comum no padrão MV que também foi observada em português.

(29) Those littluns who hadclimbedback on the twister… – 5G#19   Les petits, qui s’étaient installés de nouveau sur la balançoire…   Lit.: ‘Os pequenos, que se instalaram de novo sobre o balanço…’ (30) Ma climbed inbesidehim. – 26S#13   Man s’assit à côté de lui.   Lit: ‘A Mãe se assentou ao lado dele.’
6.1.2.4 Omissão parcial da informação de trajeto complexo

Em um terço das amostras com climb nos contextos (b) ou (c), o movimento ascendente veio combinado com uma outra orientação seguindo um só verbo. Em metade desses casos, escolheu-se traduzir apenas a orientação não ascendente, com ou sem a maneira. Em (31), pénétrer dans destacam a entrada na região montanhosa do Arizona. Essa escolha contrasta com a tradução para o português em que se manteve a trajetória ascendente com o verbo ‘galgar’. Porém, a causa é a mesma: os dois idiomas geralmente não codificam duas partes distintas de um trajeto que venham compactadas em inglês. No exemplo (32), traduziu-se só o movimento ascendente. E em (33), um verbo de maneira diferente, enjamber, também só evoca a trajetória não ascendente, expressa por over. A maneira, nesse caso, diz respeito a um padrão motor ‘ultrapassar um obstáculo estendendo a perna’.

(31) Theyclimbedinto the high country of Arizona. – 18S#2   Ils pénétrèrent dans la région des Hauts Plateaux de l’Arizona.   Lit: ‘Eles penetraram na região dos Altiplanos do Arizona.’ (32) He climbed into the back seat. – 20S#34   Et il monta et prit place à l’arrière.   Lit. : ‘E ele subiu e pegou lugar atrás.’ (33) Tom climbed upoverthe tail-board of the truck. – 22S#14   Tom enjamba la planche arrière du camion.   Lit.: ‘Tom passou a perna por cima da prancha traseira do caminhão.’
6.1.2.5 Manutenção de duas trajetórias

Nos contextos mencionados acima, também se observou a manutenção das duas trajetórias originais em cinco ocasiões. Quase sempre é uma combinação do trajeto ascendente no verbo e outra trajetória na preposição dans, especialmente porque se trata de entrar em um veículo, como em (34).

(34) Wainwrights and Joads climbed into the truck. – 28S#62   les Wainwright et les Joadmontèrent dansle camion.   Lit.: ‘Os Wainwrights e os Joads subiram para dentro do caminhão.’
6.1.2.6 Omissão da maneira e substituição de climb por um verbo de trajeto não ascendente

Nos casos onde climb aparece com uma trajetória não canônica, no contexto (d), o verbo de trajeto escolhido codifica somente a direção do satélite em 77,77% dos casos, como em (35), com sortir ‘sair’.

(35) Ralph climbedoutof the bathing pool. – 4G#10   Ralphsortitde la piscine.   Lit.: ‘Ralph saiu da piscina.’
6.1.2.7 Substituição da maneira por outra diferente

Em duas ocasiões, o verbo climb foi traduzido por um verbo de maneira diferente. O primeiro deles foi mencionado acima no exemplo (33), em que a maneira expressa por enjamber poderia ser inferida no original em inglês. Porém, em (36), ocorreu um acréscimo na maneira como a família desce do caminhão, com o emprego de se laisser dégringoler sugerindo uma descida rápida e deliberada. Nesse caso, observa-se o emprego do padrão de lexicalização MS, como no original.

(36) The familyclimbed downfrom the load 20S#5   La famille se laissa dégringoler à bas du chargement   Lit.: ‘A família se deixou cair rapidamente da carga’

A manutenção da informação de maneira em uma grande quantidade de traduções para o francês surpreendeu, porque a estrutura da língua teoricamente não favorece essa situação. Porém, as maneiras básicas de climb encontram eco em um número considerável de verbos de ascensão do francês como grimper, escalader e gravir entre outros.

6.2 Creep

6.2.1 Traduzindo para o português

Como visto na seção 4, creep somente expressa a maneira do movimento, de duas formas: ‘mover-se de maneira lenta com as mãos e os joelhos’ (a) e ‘mover-se tímida ou cautelosamente para não ser notado’ (b). A Tabela 3 traz, na coluna da esquerda, esses dois significados de creep. Na coluna da direita, encontram-se os verbos e outras expressões do português empregados nas traduções, junto aos códigos da informação semântica e, como nas demais tabelas, aos algarismos com o número absoluto e percentual de ocorrências nas amostras.

Os verbos arrastar-se e rastejar expressam uma maneira de movimento parecida com o sentido (a) de creep e são de uso muito comum no português. Por isso, assim como outros verbos de maneira muito recorrentes – correr, voar etc. –, aqueles costumam aparecer como verbo principal. Por outro lado, a informação de maneira pode ser omitida com o emprego de um verbo exclusivamente de trajeto.

Tabela 3
Traduções de creep para o português

As traduções de creep se destacam pelo alto percentual (68,42%) de manutenção da maneira, comparado a climb e fall. Especula-se que, sendo a maneira o único componente semântico de creep, é importante mantê-lo na tradução sempre que possível. Além disso, o significado de (a) é potencialmente mais saliente que o de (b) porque envolve aspectos mais visíveis, como a mudança de postura ao se locomover, e também compõe o significado de verbos de movimento do português nesse contexto, como é o caso de arrastar-se. Essa hipótese se fundamenta no maior número de tipos de verbos de trajeto usados para traduzir (b) (cf. Tabela 3 acima).

6.2.1.1 Manter a informação de maneira de creep em um verbo de maneira

Os significados (a) e (b) foram mantidos em verbos de maneira, nos exemplos (37) e (38) respectivamente. O emprego dos verbos arrastar-se e esgueirar-se permitiu a manutenção do mesmo padrão de lexicalização MS da língua fonte. Também foram mantidas todas as informações do trajeto em elementos externos ao verbo.

(37) When Tomcreptin at his bedroom window. – 10T#8   Quando Tom se arrastou através da janela para dentro de seu quarto. (38) Shecreptto the entrance of the Joad tent – 22S#45   Esgueirou-se, afinal, até a tenda dos Joad.
6.2.1.2 Manter toda a informação de maneira de creep fora do verbo

Para manter a maneira de creep também se empregou o padrão de lexicalização MV, com o trajeto no verbo principal e a maneira no gerúndio, como em (39), ou em um sintagma preposicional, como em (40). Entretanto, a maneira escolhida não parece coincidir com a do original no segundo exemplo.

(39) Theycreptforward, Roger lagging a little. – 7G#47   Avançaram rastejando, Roger um pouco atrasado. (40) He crept out of the tent cautiously – 22S#46   Saiu de gatinhas da tenda
6.2.1.3 Omissão da informação de maneira, substituindo creep por um verbo de trajeto

Como mencionado em 6.2.1, esta estratégia foi mais recorrente no contexto (b), em 26,31% dos casos, (cf. 41), com um verbo só de trajeto. Além de cair e despencar, o português não apresenta verbos de trajetória descendente e maneira expressiva, nos termos de Slobin (1997).

(41) Hecrept downthe bank, – 15T#7   Ele desceu à margem
6.1.2.4 Omissão da informação de maneira, substituindo creep por um verbo sem movimento

Em (42), o verbo ficar expressa localização em vez de movimento. A descrição estática da cena permite se inferir o trajeto, o que já foi descrito como parte do estilo retórico do português.

(42) Find the deepest thicket, the darkest hole on the island, andcreep in. – 12G#33   Descobrir o matagal mais cerrado, a cova mais escura da ilha e ficar lá.
6.2.2 Traduzindo para o francês

As traduções de creep para o francês preservaram a maneira em proporções ainda mais altas que as do português: 14 em 19, ou 73,68% das amostras totais desse verbo. Isso se deu especialmente com o emprego de verbos de maneira (por exemplo, ramper), mas também construções com um verbo de trajeto e um gerúndio de maneira (s’approcher en rampant). Embora seja uma diferença importante em comparação com climb e fall, esse resultado não sugere uma tendência geral a se manter a maneira nas traduções de movimento para o francês. Nenhum dos dois contextos apresenta muita variação nos tipos verbais, predominando glisser e ramper em formas variadas. Verbos de maneira muito comuns podem ser empregados como verbos principais, sem, com isso, representarem um fenômeno produtivo o suficiente para transformar o padrão de lexicalização do francês. A tabela abaixo traz os dois significados de creep à esquerda e os verbos empregados para sua tradução à direita. O restante da informação disponível segue como nas tabelas anteriores.

Tabela 4
Traduções de creep para o francês

As estratégias empregadas pelos tradutores foram:

6.2.2.1 Manter a informação de maneira de creep em um verbo de maneira

No exemplo (43), que traz o sentido (a), os verbos principais creep e ramper expressam ambos um mesmo padrão motor, que se caracteriza pelo emprego das mãos e pés para executar o movimento, com o corpo rente ao chão. Foi mantido aqui o padrão MS da língua inglesa. E em (44), por sua vez, tanto creep como glisser têm o potencial para evocar o significado (b), de ‘mover-se secretamente, sem alarde’. No francês, o trajeto perde um pouco da característica do percurso representado pelas ruas periféricas da vila, que favoreceria aos personagens permanecerem ocultos.

(43) … creeping along the roof of the “ell” on all fours –9T#1   … rampait le long d’une espèce d’auvent.   Lit.: ‘… rastejava ao longo de uma espécie de toldo’ (44) They .. had thencrept throughback lanes and alleys – 18T#2   se glissant à travers les rues désertes   Lit.: ‘…deslizando pelas ruas desertas’
6.2.2.2 Omissão de toda informação sobre maneira, substituindo creep por um verbo de trajeto

Entretanto, em cerca de 27% dos casos, a estratégia foi omitir a maneira de creep e manter a informação disponível em outros elementos na oração. Em (45), os tradutores escolheram um verbo de trajeto apenas – tourner – correspondente a round and round no original. Aparentemente, eles se valeram da expressão “dans l’attitude d’un chat-tigre qui guette sa proie”, que pode sugerir as duas modalidades de maneira do movimento presentes em creep.

(45) … wentcreeping, catlike and stooping,round and roundabout the combatants, – 9T#5   … dans l’attitude d’un chat-tigre qui guette sa proie, iltournaautour des deux lutteurs.   Lit.: ‘..., na atitude de um felino selvagem à espreita de sua presa, circulou em torno dos dois lutadores.’

6.3 Fall

6.3.1 Traduzindo para o português

Como já mencionado, o verbo fall não tem uma classificação clara entre os tipos verbais. De fato, grosso modo, fall equipara-se a cair, e encontra-se entre os verbos com uma trajetória definida, assim como descendre do francês ou descer do português. Contudo, mais que descer, inclui ‘a força da gravidade’, um tipo de dinâmica de forças que também é considerada uma dimensão do componente maneira.

Assim, a diferença entre os três significados de fall poderia ser apontada como ‘volição’. Fall pode expressar um significado involuntário correspondente a uma ‘queda livre de objetos inanimados’ (a), ou à ‘queda involuntária de um ser volitivo’ (b) e, finalmente, a uma ‘queda voluntária’ (c). Por isso a inclusão de amostras de cenas de movimento com objetos inanimados como figuras que se movem. Além desses sentidos, mesmo apresentando essa noção inerente de ‘movimento descendente’, fall pode ocorrer na companhia de satélites ou preposições que indicam outra direção. Esses usos serão tratados como os exemplos (18) a (20) de climb, que envolvem duas direções.

Em sua primeira coluna, a Tabela 5 apresenta esses três contextos acompanhados do número de ocorrências e seu percentual em relação ao total de amostras. Na segunda coluna, encontram-se os verbos e substantivos usados na tradução das 43 amostras avaliadas, seguidas de informação semântica e quantitativa, como nas demais tabelas.

Tabela 5
Traduções de fall para o português

As estratégias empregadas para traduzir esses contextos foram:

6.3.1.1 Emprego de cair/queda indicando trajeto descendente e maneira genérica

O verbo cair significa ‘descer por força da gravidade por perda de sustentação’. Por essa razão, como fall (cf. seção 4), é considerado um verbo de trajeto e de maneira que aqui recebe o nome provisório de ‘genérica’ por ser natural e inevitável. Provavelmente devido à semelhança semântica com fall, cair foi empregado amplamente (cerca de 75%) nas traduções, junto com o substantivo queda, nos três contextos, como mostra a Tabela 5. Por extensão, cair também cobre o sentido de ‘deixar-se cair’.

Os exemplos abaixo representam os três contextos, nesta ordem:

(46) And as she went, out of the dim sky the rain began tofall.– 28S#81   Entrementes, a chuva começara a cair do céu turvo. (47) He grabbed her when shefell.– 26S#143   Apanhou-a na queda. (48) They waited for two minutes, then theyfellin the sea, they went into the forest; they just scattered everywhere. – 2G#19   Ficaram ali uns dois minutos. Depois, caíram no mar, entraram pela floresta, espalharam-se por toda parte.
6.3.1.2 Omissão da volição no contexto (c)

No romance de aventura, de Golding, o cenário de uma floresta tropical e de disputas favorece um número particularmente alto de quedas, a maioria, involuntária. As “quedas voluntárias” foram apenas seis e o emprego do verbo cair nesses casos gera ambiguidade, resolvida pelo contexto.

(49) Percival, surrounded by the comfortable presence of humans,fellin the long grass and went to sleep. – 5G#17   Percival, cercado pela confortadora presença de humanos, caiu na grama alta e começou a dormir.

Fall foi traduzido uma vez por tombar, que também não codifica uma maneira específica, mas evoca com mais clareza mudança de postura em vez de queda de uma posição elevada qualquer.

(50) They …fell, grateful and exhausted, in the sheltering shadows beyond. – 10T#3   Tombaram, exaustos, mas cheios de gratidão, no abrigo das sombras...
6.3.1.3 Manutenção total da volição

Em contraste com o exemplo anterior, para traduzir uma queda voluntária, o tradutor fez um uso da locução deixar-se cair, que expressa com o máximo de transparência a iniciativa da figura na realização do movimento.

(51) Piggyfellagainst a rock – 2G#17   Porquinho deixou-se cair contra uma pedra
6.3.1.4 Acréscimo de volição

Para acrescentar ‘volição’ ao contexto (b), o tradutor empregou a estratégia de personificação, processo metafórico pelo qual um ser inanimado ou animal conceitualizado e descrito com características antropomórficas. Nesse caso, trata-se do carrapicho, cuja simples queda expressa por fell é traduzida como uma jornada [planejada] até o chão, que se realizou porque a semente recorreu ao casco da tartaruga, para cumprir seu destino natural. O efeito retórico é, portanto, mais complexo e se alinha com aquele que marca o original de Steinbeck em diferentes momentos.

(52) … slid of his shell, and the clover burrsfellon him and rolled to the ground – 3S#1   … o peso de seu casco, … a quem recorreu o carrapicho em sua jornada ao solo.
6.3.1.5 Omissão do movimento

Em cerca de 12% das vezes, a direção descendente foi omitida se pudesse ser inferida. Apenas a forma como o movimento se encerra é enfatizada em (53). No par (54), só se traduziu a localização final on como cobrir, sem movimento. E no exemplo (55), cabe ao leitor inferir a localização da figura e a trajetória de seu movimento a partir de elementos externos, como é típico no português. Comparada ao original, a tradução perde em dinamicidade por não trazer o trajeto, mas atribui uma importância de protagonista a elementos inanimados do cenário.

(53) He..fell sprawling, himself, under Becky’s nose. – 12T#8   Acabou por estirar-se no chão exatamente embaixo do nariz de Becky. (54) The dust from the roads … spread out andfell onthe weeds beside the fields. – 1S#1   A poeira dos caminhos … espraiava-se, cobrindo as orlas… (55) Canvas sneakers, …, lay nearby where they hadfallenwhen they were kicked off. – 4S#14   As sandálias de lona, ... revelavam, por sua posição, que o homem se livrara delas...
6.3.1.6 Omissão de parte do trajeto

Como esperado nas traduções de fall acompanhado de um satélite indicando outra direção além da descendente, o tradutor escolheu uma das trajetórias e, nos dois casos encontrados, empregou um verbo de trajeto descendente apenas. Isso se deu com out e off, que expressam com mais nitidez a ideia de uma segunda trajetória: sair de algum lugar contido e de alguma superfície.

(56) The wild oat head fell out and three of the spearhead seeds stuck in the ground. – 3S#11   O ramo de aveia-brava tombou ao chão e três sementes aderiram ao solo. (57) Those littluns …fell offagain – 5G#19   Os pequenos … caíram de novo
6.3.2 Traduzindo para o francês

Nesta última seção da análise, são detalhadas as traduções das cenas de queda para o francês. Os resultados são resumidos na Tabela 6, como nas tabelas anteriores. C indica movimento causado.

Tabela 6
Traduções de fall para o francês
6.3.2.1 Empregar um verbo de trajeto e maneira

No francês, um pouco mais da metade (51,16%) das ocorrências de fall foram traduzidas pelo verbo tomber, ou sua versão retomber nos três contextos analisados (cf. Tabela 6), especialmente em referência à queda de um objeto inanimado, como em (58) e (59). Entretanto, esse verbo também se destacou nos demais contextos.

(58) … and the clover burrs fell on him and rolled to the ground – 3S#10   … et les graines de trèfle tombaient sur elle et roulaient par terre.   Lit.: ‘e as sementes de trevo caíram sobre ela e rolaram no chão.’ (59) The dust from the roads … spread out andfellon the weeds beside the fields, – 1S#6   La poussière des routes … s’étendit, retomba sur les herbes au bord des champs   Lit.: ‘A poeira das estradas … se espalhava, caindo novamente sobre as ervas na beira dos campos.’

Evocando uma maneira mais vaga e um trajeto descendente, fall se assemelha a tomber (‘cair’ e ‘deixar-se cair), como em (60) e (61).

(60) She fell sideways and her arms and legs twitched. – 22S#108   Elle tomba sur le côté, les bras et les jambes agités de soubresauts.   Lit.: ‘Ela caiu sobre seu lado, os braços e as pernas se debatendo.’ (61) Percivalfellin the long grass – 5G#17   Percival tomba dans l’herbe épaisse   Lit.: ‘Percival caiu em meio ao capim espesso.’
6.3.2.2 Acréscimo de volição

A alternativa a essa estratégia foi o emprego da locução se laisser tomber, correspondente a deixar-se cair no português, substituindo fall. O emprego dessa construção reflexiva representa o extremo oposto do contínuo de volição.

(62) They …fell, grateful and exhausted, in the sheltering shadows beyond.-- 10T#3   Ils … se laissèrent tomber derrière un mur protecteur.   Lit: ‘Eles se deixaram cair por trás de um muro protetor.’
6.3.2.3 Omissão de parte do trajeto

Esta seção se refere às quatro ocorrências de fall com os satélites out ou off, isto é, que evocam uma segunda trajetória além da descendente e demandam uma escolha por parte do tradutor, pois, em todos os casos, o que se observa é a manutenção de apenas um desses sentidos: trajetória para baixo (2) e outras (2). No exemplo (63), foi omitido o sentido de out e, em (64), o de fall.

(63) Two cottontails and a jackrabbitfell out… – 6S#13   Deux petits lapins de garenne et un gros mâle en tombèrent …   Lit.: ‘Dois pequenos coelhos selvagens e um grande macho caíram…’ (64) The wild oat headfellout – 3S#2   Le brin de folle avoine se détacha   Lit. : ‘O broto de aveia selvagem se soltou’
6.3.2.4 Adição de maneira do movimento

Uma estratégia inesperada foi observada nos contextos (a) e (b), em que se empregou écrouler três vezes. Esse verbo acrescenta informação de maneira e destaca-se das demais traduções, indo contra a noção de que pouco se expressa a maneira de movimento nas línguas MV.

(65) The deputyfellheavily and rolled, reaching for his gun. – 20S#79   L’adjoint s’écroula pesamment et roula sur lui-même, sa main cherchant son revolver.   Lit.: ‘O policial caiu subitamente com todo o seu peso, espatifando-se e rolou sobre si mesmo, sua mão buscando seu revólver.’

Conclusão

A proposta deste artigo foi identificar e analisar as estratégias empregadas na tradução de três verbos da língua inglesa, que podem gerar algum tipo de dificuldade para o tradutor falante de português ou de francês. Foram analisadas 128 amostras retiradas de romances em inglês e igual número de traduções para o português e para o francês, escolhidas segundo critérios pré-definidos. Seguindo a abordagem de L. Talmy para a descrição do movimento, o estudo essencialmente buscou verificar o impacto de diferenças tipológicas na tradução dos verbos climb, creep e fall em quatro, dois e três contextos, respectivamente. Além disso, foram investigadas traduções de climb e fall com satélites como out, off e in, em combinações de duas trajetórias em um só predicado, incomum em português e francês.

A principal estratégia na tradução de climb para o português foi destacar o trajeto ascendente pelo emprego do verbo subir em detrimento da maneira. A expressão desta última foi escassa, ficando em torno de 25% nas traduções de climb para essa língua, e somente com o verbo trepar, que, além do trajeto, denota uma maneira mais saliente – com o uso das mãos – especialmente quando o percurso envolvia uma árvore ou uma carroceria de caminhão. Ao contrário, as traduções de climb para o francês apresentaram algum tipo de maneira em metade das amostras, o que foi feito com uma diversidade maior de tipos de verbos de maneira e trajeto, como grimper, escalader, se hisser, gravir e enjamber.

Nas ocorrências de climb em orientação não vertical, como climb down, os tradutores quase sempre optaram por empregar um verbo como descer do português para manter o trajeto expresso originalmente em satélite ou preposição, omitindo a maneira. O mesmo foi observado no francês, por exemplo, com o frequente emprego do verbo descendre.

Fall foi majoritariamente traduzido como cair para o português e, em menos vezes, por tombar. Já em francês, o emprego de tomber e retomber ficou em torno da metade das amostras. A semântica de cair e tomber cobre todos os sentidos observados de fall, incluindo aquele de postura (‘tombar’ em português), o que justifica sua prevalência. Porém, novamente, as traduções do francês apresentaram uma variedade maior de tipos verbais denotando o trajeto descendente e uma maneira, como s’écrouler, s’abattre, s’affaler, s’enffondre, s’égrener, s’affaisser e s’abîmer. Esses verbos se distribuem independentemente do critério de volição. Como se observa, são todos pronominais e, junto com se laisser tomber (deixar-se cair), podem ter trazido maior saliência para esse componente dos eventos de movimento analisados. Além disso, bastante peculiar foi a personificação de objetos em cenas de queda na obra de Steinberg, que trouxe o conceito de volição para a tradução em português, nas cenas em que a figura que se desloca é um ser inanimado.

Em contextos incluindo um movimento com duas trajetórias em sequência como climb into, fall out e fall off, a tendência foi a manutenção de apenas um sentido de trajetória tanto no francês como no português. Por exemplo, a tradução para o português destacou o trajeto ascendente de climb apenas, especialmente com subir, ao passo que, no francês, tendeu-se a manter a trajetória do satélite. Contudo, neste último, também se observou a manutenção de duas trajetórias, especialmente com dans. Corroborou-se, assim, a argumentação de Slobin sobre a ausência, em línguas MV, de verbos de maneira que codifiquem esse componente de climb em um movimento de direção não canônica e a opção dos tradutores por não desdobrar as duas trajetórias em dois predicados.

A dinamicidade na tradução dessas cenas não pode ser avaliada, tendo em vista que, em vez de desdobramentos de trajetos complexos em sentenças encadeadas, o que se observou foi a opção por expressar apenas uma direção. Entretanto, confirmou-se o efeito do estilo retórico menos dinâmico quando se escolheu a descrição estática do cenário que pudesse induzir a ideia de movimento em vez de expressá-lo. Nesse quesito, as traduções de fall e climb foram menos dinâmicas que o original porque o movimento nem sempre foi traduzido ou traduzido em sua integralidade, sua inferência ficando a cargo do leitor. Por outro lado, a descrição dos cenários recebeu mais ênfase nas amostras analisadas.

Com o verbo creep, que codifica exclusivamente a maneira, esperava-se observar diferenças entre os dois padrões de lexicalização. Isso de fato ocorreu, com avançar silenciosamente e sair de gatinhas/engatinhado no português, e s’amener/s’approcher en rampant em francês. Porém, os dois idiomas alvo apresentam verbos de maneira com sentido muito próximo ao de creep que ocorreram no mesmo padrão MS do inglês, seguidos por um sintagma preposicional indicando o trajeto e, assim, a maneira esteve presente em quase 70% das ocorrências de português e pouco mais que isso nas amostras de francês. A análise desses contextos também demonstrou a flexibilidade possível nos grupos tipológicos e sugere uma investigação mais profunda sobre a relação entre a presença desses verbos de maneira e a variabilidade no padrão de lexicalização.

Este estudo, que partiu de uma perspectiva declaradamente intertipológica ao contrastar um idioma fonte MS com idiomas alvo MV, acabou por se revelar também um estudo intratipológico, na medida em que permitiu identificar semelhanças e contrastes importantes entre o português e o francês nos textos traduzidos, mesmo sendo essas duas línguas tão próximas. Cumpre ressaltar, entretanto, que o que aqui se afirma é restrito às conclusões sobre os três verbos investigados e não pode ser tomado como generalizações a respeito dessas línguas.

  • 1
    Nossa tradução do original manner, cause, concomitance, enablement e constitutiveness, respectivamente.
  • 2
    Respectivamente em português, inglês e francês.
  • 3
    Projeto do Grupo de Estudos Teóricos e Aplicados sobre a Expressão da Espacialidade (Gelteae – UFV).
  • 4
    Por exemplo, não foi possível encontrar a tradução para o francês do trecho A figure crept stealthily through a break in the other end of the ruined building (capítulo 10 do romance The adventures of Tom Sawyer).
  • Conjunto de dados de pesquisa
    O conjunto completo com os dados desta pesquisa está disponível no repositório do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGLetras) da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e pode ser acessado em: https://ppgletras.ufv.br/wp-content/uploads/2024/12/Microsoft-Word-dados-climb-creep-fall-cadernos-traducao_v2.pdf
  • Financiamento
    FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – APQ-00483-21
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    Não se aplica.
  • Publisher
    Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo(s) autor(es) mediante solicitação.

Referências

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Editado por

  • Editores de seção
    Andréia Guerini – Willian Moura

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Maio 2024
  • Aceito
    23 Set 2024
  • Revisado
    24 Nov 2024
  • Publicado
    Fev 2025
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