Open-access Textos que desassossegam o corpo e a mente: tradução audiovisual e emoção na percepção de tradutoras

Texts that unsettle the body and mind: Audiovisual translation and emotion as perceived by female translators

Resumo

Este trabalho pretende analisar as ligações intrínsecas e indissociáveis entre pensamento e corpo, cognição e sensibilidade que aparecem em excertos de narrativas de tradutoras profissionais provenientes de entrevistas e questionários on-line sobre suas atuações na tradução de dublagem e de legendas de vídeos de diversos gêneros, tais como documentários, novelas e filmes. Três eixos principais de investigação aparecem no recorte selecionado: a somatização das emoções no corpo (Robinson, 2003, 2020), a preocupação com a interferência das emoções no processo e nas escolhas tradutórias (Lima & Pisetta, 2023; Lima & Pimentel, 2024a) e as possíveis consequências do reconhecimento da intervenção das emoções para os agentes envolvidos no processo. As narrativas ontológicas (Baker, 2006) são o ponto de partida para as discussões sobre as percepções das tradutoras sobre os impactos emocionais e confirmam que elas recorrem ao uso de estratégias específicas na tradução de materiais audiovisuais (Perdikaki & Georgiou, 2022). Além disso, uma leitura atenta dessas narrativas mostra que há uma responsabilidade (Derrida, 2006) e uma preocupação ética (Berman, 2007) face aos conteúdos que provocam alguma perturbação emotiva e, embora as emoções sejam experiências individuais, estão inscritas em contextos sociais e são diretamente relacionadas a emoções compartilhadas e coletivas (Ahmed, 2014). Em última instância, o artigo mostra que o estudo da influência das emoções na tradução pode auxiliar na compreensão do papel de quem traduz e no entendimento das escolhas tradutórias nas esferas cultural, social e política.

Palavras-chave
emoção; experiências tradutórias; narrativas de tradutoras; tradução audiovisual

Abstract

The aim of this paper is to examine the intrinsic and inseparable connection between mind and body, cognition and sensibility, as evidenced by excerpts from professional female translators’ narratives derived from interviews and an online survey consisting of open-ended questions about their work in translating video dubbing and subtitles for different genres, such as documentary, soap opera, and movies. Three main areas of research arise from the chosen section: how emotions are expressed in the body (Robinson, 2003, 2020), how emotions influence the translation process and decisions (Lima & Pisetta, 2023; Lima & Pimentel, 2024a), and the emotional consequences for translators and those involved in the process. Discussions about how translators perceive emotional impacts begin with ontological narratives (Baker, 2006), which confirm that translators use specific techniques when translating audiovisual materials (Perdikaki & Georgiou, 2022). Furthermore, a close reading of these narratives reveals responsibility (Derrida, 2006) and an ethical concern (Berman, 2007) to address content that causes emotional distress, and although emotions are individual experiences, they are embedded in social contexts and closely linked to shared and collective emotions (Ahmed, 2014). The article concludes by suggesting that recognizing the impact of emotions on translation could contribute to a better understanding of the translator’s role and the decision-making process in cultural, social, and political contexts.

Keywords
emotion; translation experiences; translators’ narratives; audiovisual translation

I. Estudos da tradução e o papel de quem traduz

A pessoa que traduz não é alguém cuja tarefa

é conservar algo, mas propagar, espalhar

e desenvolver: tradutoras e tradutores

são agentes de mudança

(Chesterman, 1997, p. 2)1.

The Name and Nature of Translation Studies, de Holmes (1972/2000) é um marco na área que retoma algumas nomenclaturas usadas para referenciar o estudo da tradução, tais como tradutologia, ciências, filosofia, arte, fundamentos e princípios da tradução. Também nessa obra, o autor propõe que se nomeie o campo como Estudos da Tradução (Translation Studies), elencando possíveis subáreas que depois foram resumidas no clássico mapa (na figura proposta por Toury). Na ocasião divididos em dois grandes grupos – puro e aplicado –, os Estudos da Tradução foram ampliados e passaram por diversas “viradas”, por exemplo, cultural, tecnológica, pragmática e sociológica (Snell-Hornby, 2006), que trouxeram mais especificações e desenvolvimento às subdivisões iniciais. De maneira geral, os estudos aplicados abrangem a formação de tradutoras e tradutores, ferramentas, políticas e crítica de tradução, enquanto os puros são divididos em teóricos (gerais ou parciais, restritos ao meio, à área, à categoria, ao tipo de texto, ao tempo e ao problema) e descritivos (orientados ao produto, ao processo ou à função).

Revisitando o mapa mais de 30 anos depois da primeira proposta, Chesterman sugere uma subárea, os Estudos do Tradutor (Translator Studies)2, nos quais “os textos são secundários, os tradutores são a fonte primária de estudo” (Chesterman, 2015, p. 36). Ele relaciona esses estudos à virada sociológica da tradução, que abrange desde o “estatuto de diferentes tipos de tradutores em culturas distintas, a remuneração, condições de trabalho, modelos e hábitos do tradutor” até “a prova da imagem pública da profissão de tradutor” (Chesterman, 2015, p. 37).

Os estudos e as pesquisas sobre a tradutora ou o tradutor como agente já existiam antes de haver um nome específico para isso – assim como há séculos existiam os estudos da tradução com nomenclaturas variadas. Douglas Robinson, por exemplo, havia publicado The Translator´s Turn (1991) que, como lembra John Schmitz (2012), é um título propositalmente ambíguo, uma vez que turn tanto pode significar que é a vez do tradutor (o momento em que ele assume o protagonismo), como pode significar aquilo que o tradutor faz (to turn como tradução do grego tropein e do latim vertere).

Na época da publicação, Robinson (1991), foi criticado por enfatizar a emoção, intuição e sentimento da pessoa que traduz em contraponto ao pensamento e à razão, e por propor que a tradutora e o tradutor passam por experiências idiossomáticas com a tradução, que diz respeito a reações sentidas no corpo, individualmente (por isso somáticas), que repercutem em marcas reguladas coletivamente (ideossomáticas), dialogando com os marcadores somáticos de António Damásio (2012), para o qual o corpo responde somaticamente a estímulos externos de acordo com a subjetividade da percepção em relação a determinado objeto3. Mais recentemente, Robinson defende que a tradução

É uma atividade afetiva, determinada por regras do que e de como as pessoas sentem (se gostam do que estão fazendo). Mas também é uma atividade cognitiva, uma atividade inteligente, regulada por regras de como as pessoas aprendem e como usam o que aprendem: como as tradutoras e os tradutores desenvolvem suas preferências e hábitos idiossincráticos em um processo geral para transformar textos de partida em textos traduzidos bem-sucedidos

(Robinson, 2020, p. 52)4.

Essas declarações de Robinson remetem ao aspecto performativo da linguagem (Austin, 1990), à ideia de que a pessoa que traduz sente e age na sua língua e na língua do outro, bem como a uma das afirmações mais citadas de Derrida no que diz respeito à tradução:

Nos limites em que ela é possível, em que ela, ao menos, parece possível, a tradução pratica a diferença entre significado e significante. Mas, se essa diferença nunca é pura, tampouco o é a tradução, e seria necessário substituir a noção de tradução pela de transformação: uma transformação regulada de uma língua por outra, de um texto por outro (Derrida,

(1972/2002, p. 26).

A tradução, portanto, é uma transformação regulada em diversos sentidos – inclusive pela afetividade, como defende Robinson (2020), reverberando a ideia de Didi-Huberman (2021, p. 38) de que as emoções “são também transformações daqueles e daquelas que se emocionam”. Traduzir, portanto, é escrever um novo texto, que requer criações na língua de chegada, considerando a historicidade de cada palavra e as complexas interconexões textuais que a envolvem. Esse processo decorre de uma interpretação, na qual os sentidos são constantemente construídos e reconstruídos a partir da leitura de quem traduz, transformando o texto de partida em um texto traduzido em uma determinada época e com determinados propósitos. Nessa esteira, entendemos a tradução como uma “construção do comparável” (Ricoeur, 2011, p. 68) que mostra a relação inevitável entre as línguas, ampliando o conhecimento que temos da que é, para nós, a nossa própria língua.

Em 2016, Robinson retoma as críticas feitas ao aspecto somático da tradução explicando que colocou os sentimentos no centro dos argumentos, mas que “muitos leitores não perceberam a regulação social dos sentimentos, e, portanto, dos pensamentos, crenças e práticas” (Robinson, 2016, p. 299)5. Ainda segundo o autor, havia um meio-termo entre materialismo e idealismo, entre objetividade científica e subjetividade solipsista que foi igualmente ignorado.

Mais do que se apropriar de uma língua, mesmo que essa apropriação nunca seja completa, a pessoa tradutora vive e transita entre línguas, conectando diferenças em tempos e espaços distintos, mostrando a instabilidade dos sentidos e a impossibilidade de um significado único e transcendental, que são concepções que têm sido questionadas há anos, mas que passaram a ser mais debatidas a partir do que se nomeou o pensamento pós-estruturalista. Parafraseando o conhecido livro de Austin (1990) sobre os atos de fala, podemos dizer que quem traduz faz coisas com palavras. Ricoeur também recorre à ideia do performativo quando pergunta: “Como faz um tradutor? Emprego propositalmente o verbo ‘fazer’. Pois é com um ‘fazer’, à procura de sua teoria, que o tradutor ultrapassa o obstáculo – e mesmo a objeção teórica – da intraduzibilidade de princípio de uma língua a outra” (Ricoeur, 2011, p. 62).

Quem traduz contra-assina esse novo texto, garantindo a sobrevivência por meio de possibilidades de tradução, colocando em ação “um saber muito peculiar, um saber das relações com e entre obras, línguas, culturas6. Um saber (que é também um saber-fazer) dos limites e diferenças entre o próprio e o estrangeiro” (Veras, 2021, p. 264).

A tradução é um processo relacional complexo de negociação entre diferentes línguas, culturas e pessoas, e a tradutora e o tradutor são agentes políticos responsáveis eticamente por suas escolhas, inclusive teóricas, em cada projeto tradutório. Nesse sentido, a hermenêutica, como “reflexão filosófica universal sobre o caráter linguístico de nossa experiência do mundo” (Gadamer, 2003, p. 576) nos auxilia a entender que não é apenas nosso olhar que modifica uma obra, mas a obra também muda o nosso olhar. Em tal perspectiva, o entendimento se elabora por antecipações constitutivas, uma vez que toda interpretação é perpassada pelo nosso ponto de vista, por aquilo que sabemos de um determinado contexto, de um determinado tempo histórico, que se funde com o conhecimento que temos do presente.

O exemplo do tradutor que tem de superar o abismo das línguas mostra, com particular clareza, a relação recíproca que se desenvolve entre o intérprete e o texto, que corresponde à reciprocidade do acordo na conversação. Pois, todo tradutor é intérprete. O fato de que algo esteja numa língua estrangeira significa somente um caso elevado de dificuldade hermenêutica (...) Como toda interpretação, a tradução implica uma reiluminação. Quem traduz tem de assumir a responsabilidade dessa reiluminação

(Gadamer, 2003, p. 562).

“Todo tradutor é intérprete” e, como tal, “é pressuposto ineludível do intérprete que ele participe do seu sentido” (Gadamer, 2003, p. 565), pois não existe “observador neutro” ou uma mera determinação objetiva da verdade, já que a hermenêutica é a arte de ser capaz de ouvir, de entender e ser entendido em uma rede de sentidos. Gadamer (2003) lembra que uma teoria de interpretação de textos tem um significado muito mais amplo do que apenas se limitar a textos, e a hermenêutica lida com o texto do mundo, ou talvez até mesmo com o texto da história do mundo.

A tarefa de quem traduz, então, é ser capaz de assinar o texto traduzido considerando que cada língua tem suas especificidades. Essa responsabilidade tem gerado discussões em torno de uma ética do traduzir que, nas palavras de Berman (2007, p. 68), pode ser entendida como “reconhecer e receber o Outro enquanto Outro. [...] Acolher o Outro, o estrangeiro, em vez de rejeitá-lo ou de tentar dominá-lo”.

Essas considerações sobre a tradução como uma complexa prática da diferença e sobre o papel da pessoa tradutora como produtora de sentidos que está sempre entre duas línguas, culturas e histórias, visam mostrar, de maneira bastante rápida, a relevância da tradução como prática interrogativa e do pensamento sobre a tradução como um lugar questionador que vai muito além das tradicionais crenças sobre fidelidade, imparcialidade e neutralidade de quem traduz. Assim, em consonância com os Estudos do Tradutor propostos por Chesterman (2015) que, entre outros aspectos, abrangem o discurso público e individual da profissão, e compreendem o estudo de ideologias, ética, emoções e atitudes; e em consonância com uma abordagem hermenêutica da tradução, este artigo apresenta algumas narrativas de tradutoras e visa analisar os efeitos da emoção que essas profissionais perceberam após terminarem a tradução de legendas ou textos para dublagem.

Os excertos analisados são provenientes de questionários on-line e/ou de entrevistas individuais com quatro tradutoras, como será explicitado na seção de metodologia. Nesse sentido, considera-se que este estudo, caracterizado como etnográfico e qualitativo, insere-se, ainda, na virada sociológica da tradução audiovisual, que tem como “principal objetivo analisar a figura e o papel da tradutora e do tradutor, suas condições de trabalho, seu habitus, o chamado capital simbólico – cujo valor pode ser reduzido ou ampliado pelo contexto histórico em que é acumulado”7 (Chaume, 2018, p. 51).

São abordados três eixos principais: a somatização das emoções no corpo (Robinson, 2003, 2020), a preocupação com a interferência das emoções no processo e nas escolhas tradutórias (Lima & Pisetta, 2023; Lima & Pimentel, 2024a) e as possíveis consequências do reconhecimento da intervenção das emoções para agentes que participam do processo (tradutoras, tradutores, gerentes, clientes, público etc.). O artigo começa com uma contextualização sobre os estudos da emoção e a análise de narrativas ontológicas na área da tradução; em seguida, apresenta a metodologia da pesquisa, seguida da análise de alguns excertos de questionários e entrevistas feitas com tradutoras que trabalham na área audiovisual, sobretudo com tradução de dublagens e legendas de diversos gêneros; por fim, traz algumas considerações sobre os resultados e sobre a abordagem da emoção nos estudos de tradução audiovisual.

2. Estudos de narrativas e emoção na tradução

Tradução para mim é persona. Quase heterônimo.

Entrar dentro da pele do fingidor para refingir tudo de novo,

dor por dor, som por som, cor por cor.

Por isso nunca me propus a traduzir tudo.

Só aquilo que sinto, como diria ainda outra vez

Pessoa em sua própria persona

(Campos, 2009, p. 7).

A declaração de Augusto de Campos ilustra algo que aparece especialmente em falas de tradutoras e tradutores de textos literários, mas também se encontra em relatos concernentes à tradução audiovisual ou de textos classificados como científicos, técnicos, jurídicos, entre outros: somos afetadas e afetados por aquilo que traduzimos, independentemente do gênero no qual estamos trabalhando. Como afirma Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, há uma indissociabilidade entre o que falamos e sentimos:

Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual. A palavra contém uma ideia e uma emoção. Por isso não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo. Por isso não há exclamação, nem a mais abstractamente emotiva, que não implique ao menos o esboço de uma ideia

(Reis, s. d.).

A despeito do uso de palavras que denotam emoções e sentimentos atrelados à tarefa de quem traduz estarem sendo empregadas por tradutores desde o século XVIII (por exemplo, em Nogueira da Gama, 1798/2018), e das declarações sobre nossa potência de agir estar determinada por nossos afetos terem sido feitas no século XVII (Spinoza, 1677/2014), é de conhecimento coletivo que ainda hoje qualquer expressão de subjetividade na tradução em geral não é vista com bons olhos. Espera-se uma assepsia e uma imparcialidade, decorrentes de concepções de língua e de tradução que continuam a ressoar em certos discursos.

Embora a discussão sobre as emoções como determinantes para e em nossa vida seja milenar, apenas nas últimas décadas os estudos sobre o tema ganharam espaço, principalmente por meio da “virada afetiva” iniciada nas ciências sociais (Clough, 2007). Em consonância com essa mudança, pesquisas recentes sobre tradução colocam a emoção como o Zeitgeist de nosso tempo (Koskinen, 2020). Nesse sentido, vários estudos dedicam-se à medição e análise empírica das emoções em quem traduz, com o auxílio de recursos mais “objetivos”, como óculos para rastreamento ocular, coletor de saliva e cintas cardíacas, principalmente na área da tradução audiovisual, cujas pesquisas abrangem desde medições de reações de quem traduz no momento em que está traduzindo (como nível de estresse e autoconfiança) até reações do público leitor ao uso de metáforas na tradução (Ramos Caro, 2016; Rojo et al., 2021). Muitas vezes essas medições são complementadas com uso de outros recursos, como protocolos verbais, questionários e entrevistas, considerados mais subjetivos, a fim de assegurar que mais variáveis sejam cobertas nas análises (como exemplificado em Lima, 2024a, 2024b).

Diferentemente dessas pesquisas, este artigo propõe uma reflexão sobre a emoção na tradução a partir das percepções das tradutoras de experiências profissionais com tradução audiovisual ocorridas no passado e que ficaram marcadas na memória de cada uma, a ponto de serem selecionadas como exemplos de traduções que, de alguma maneira, foram impactantes para elas8. Assim, não se trata de análises empíricas com medições das emoções, mas de interpretações das impressões das pessoas envolvidas em relação a efeitos do processo no corpo, a suas ações em resposta a esses efeitos e ao reconhecimento da influência das emoções, tanto nas escolhas tradutórias quanto na interação com os agentes envolvidos no processo. Nessa esteira, importa muito menos estabelecer definições e diferenças de sentidos entre emoção e outros termos, como sensação, sentimento, afeto, perturbação, paixão etc. (como abordado em Lima, 2024a, 2024b) do que investigar a forma como as emoções circulam e quais são seus efeitos sociais e políticos. A emoção, portanto, é empregada com um sentido amplo, em diálogo com Sarah Ahmed (2014, p. 97) quando defende que a “emoção diz respeito a um sentimento em resposta a algo – contudo, é muito mais complexo e socialmente mediado do que isso”9.

Para a interpretação das experiências narradas, parto das concepções de tradução e do papel de quem traduz, apresentadas anteriormente, e recorro a Mona Baker (2006), quando retoma os quatro tipos de narrativas – ontológicas, públicas, conceituais e metanarrativas – propostos pelas sociólogas Margaret Somers e Gloria Gibson (1994). As narrativas ontológicas são as mais relevantes aqui, uma vez que dizem respeito a histórias interpessoais a respeito do lugar que ocupamos no mundo, construídas a partir de experiências individuais de vida que selecionamos na nossa memória de acordo com nossas subjetividades e nossa relação emocional com cada uma dessas experiências. Como e o que narramos interfere nas narrativas públicas, que são histórias que circulam na família e na sociedade em geral. Essas narrativas mostram que, ao traduzirmos, somos responsáveis pela disseminação de histórias ou pelo questionamento dessas histórias no mundo. As narrativas conceituais, também conhecidas como disciplinares, estão relacionadas diretamente a campos do conhecimento, e as metanarrativas, como indica o próprio nome, são situadas em períodos que marcam cada época, tais como industrialização, globalização, crise climática, guerras, ditaduras etc.

Baker (2006) também propõe que sejam consideradas quatro características principais dessas narrativas: articulação causal, apropriação seletiva, relacionalidade e temporalidade. Resumidamente, a articulação causal diz respeito à interpretação que cada pessoa constrói de um acontecimento e das relações que estabelece com o contexto (relação de causa e efeito); a apropriação seletiva refere-se ao recorte dado ao acontecimento (o que se escolhe para ser narrado); a relacionalidade evoca a conexão que um evento tem com outros que fazem parte da história coletiva e a temporalidade estabelece associações entre o momento histórico em que o acontecimento se deu e o momento em que a narrativa ocorre. Essas caraterísticas auxiliam no entendimento das narrativas ontológicas das tradutoras que serão apresentadas neste artigo. As narrativas também são apontadas como positivas por Hokkanen e Koskinen:

O foco nos afetos de tradutores e tradutoras, entendidos como a criação de significados incorporados e operacionalizados em narrativas, oferece um caminho promissor para a compreensão e a análise da experiência tradutória como uma interface em que o cognitivo e o social são reunidos e entendidos por meio do engajamento afetivo do tradutor com eles

(Hokkanen & Koskinen, 2018, p. 18)10.

O embasamento teórico das análises das narrativas é decorrente, ainda, do diálogo com autoras e autores que auxiliam a pensar as relações que temos com a linguagem de maneira geral, seja em termos verbais ou imagéticos (Didi-Huberman, 1998), passando por pesquisadoras e pesquisadores que se dedicam ao estudo das emoções e dos afetos na tradução (Koskinen, 2020) e por pesquisas sobre as emoções de forma geral, como Martha Nussbaum (2001, p. 1), quando nos lembra que:

[A]s emoções moldam a paisagem de nossa vida mental e social. Assim como as “transformações11 geológicas” que viajantes podem descobrir em uma paisagem onde antes só se via um plano, elas marcam nossas vidas como irregulares, incertas e propensas a reversões. Por que e como? Será que é porque as emoções são energias ou impulsos animais que não têm conexão com nossos pensamentos, imaginações e avaliações?12

Nussbaum (2001) constrói sua argumentação com base na ideia de que as pessoas conseguem reconhecer as emoções em seu dia a dia sem que seja necessário que tenham uma explicação consciente dessas emoções ou de seu papel social e político. Assim, o reconhecimento das emoções faz parte de julgamentos que fazemos de situações pelas quais passamos, e a linguagem é uma das formas de expressão dessas emoções, mas não é a única (Nussbaum, 2001). Importa, então, a forma como as tradutoras descrevem a percepção que têm das emoções e os efeitos que reconhecem em cada situação, seja em diálogo com perspectivas mais biológicas (Damásio, 2012), culturais ou políticas (Ahmed, 2014), como será desenvolvido ao longo deste artigo.

3. A trajetória de pesquisa: considerações metodológicas

Antes de apresentar a trajetória que resultou no recorte aqui apresentado, é importante retomar as já mencionadas considerações de Gadamer (2003) quando afirma que não há observador neutro, o que dialoga com Rajagopalan (2014), quando argumenta que os dados em ciências humanas (que não se deixa categorizar como positivista) são formados e não estão imunes à subjetividade, nem constituem em simples aplicação de algum método. Nesse sentido, os “meus” dados originam-se de um trabalho de cunho etnográfico, composto por questionários e entrevistas que são reconhecidos como acontecimentos da vida de cada participante, e a própria escolha dos trechos analisados é interpretativa, pois representam momentos em que vejo a sensibilidade das tradutoras sendo expressa de maneira mais significativa.

A pesquisa foi desenvolvida com tradutoras e tradutores profissionais de diversas áreas, que responderam a uma postagem feita em dois grupos de redes sociais se voluntariando a compartilhar experiências tradutórias que tivessem, de alguma forma, afetado suas vidas, por meio de questionários e/ou entrevistas13. Foi feito um roteiro semiestruturado, conforme o projeto submetido ao comitê de ética, com 13 perguntas, três das quais se relacionam diretamente com este artigo:

  • De que maneira você considera que essa experiência tradutória afetou sua vida pessoal? E profissional?

  • Você sentiu algum sintoma, no corpo, durante o processo tradutório ou depois dele, quando a tradução já estava pronta?

  • Quando você aceitou fazer essa tradução, você imaginava que poderia ser trabalhosa e/ou ter consequências (pessoais/profissionais)?

As pessoas poderiam optar em responder as perguntas por escrito, a partir do uso de formulário on-line e/ou por meio de entrevistas, também on-line, gravadas e depois transcritas. Cabe ressaltar que apenas duas convenções foram adotadas na transcrição dos textos orais das entrevistas: reticências para pausa, marcando hesitação ou silêncio, e reticências entre parênteses para supressão de trechos.

Os excertos analisados são provenientes de respostas a essas perguntas e a diálogos que se desenvolveram a partir delas durante as entrevistas de cerca de quarenta minutos cada. Duas narrativas são provenientes de respostas escritas, as demais foram transcritas após os encontros virtuais14. Uma vez que nas entrevistas foram usadas as mesmas perguntas, de forma a retomar o que as pessoas voluntárias já tinham visto nos formulários on-line, em ambos os casos (participação escrita e oral) houve um tempo para que as respostas fossem minimamente pensadas, de forma a direcionar a interação para os aspectos pertinentes para a pesquisa.

Foram recebidas 30 respostas à postagem, algumas nos grupos, em forma de comentários, e outras de modo privado. Após o primeiro contato e o envio do questionário, recebi a resposta de 18 tradutoras e dois tradutores. O perfil dessas pessoas é bastante heterogêneo, variando desde a faixa etária (de 30 até mais de 60 anos) até as línguas (inglês, espanhol, francês e italiano) e a experiência profissional (entre 10 e mais de 30 anos de experiência). Cinco profissionais atuam exclusivamente com tradução audiovisual, ao passo que o restante do grupo atua em diversas áreas, tais como medicina, psicologia, biologia, educação, religião, autoajuda, tradução técnica e literária.

As narrativas dos 20 participantes evidenciam que determinados conteúdos traduzidos geraram forte impacto emocional, especialmente aqueles que tratavam de temáticas sensíveis, tais como violência contra a mulher, doenças terminais, pandemia de Covid-19, ditadura e holocausto. Também mencionaram reações psicofísicas, como bruxismo, dores corporais, distúrbios do sono, apatia e crises de depressão. Outros efeitos bastante citados foram a alteração do rendimento e a paralisação temporária do trabalho por dias ou semanas, além de preocupação e receios quanto à reação de clientes e gerentes de projetos em relação ao desempenho profissional nesses projetos. Tais conteúdos demandaram não apenas competência tradutória, mas também estratégias subjetivas de enfrentamento, como será exemplificado nas narrativas das quatro tradutoras selecionadas para este artigo.

A fim de manter a anonimidade, essas tradutoras são designadas por T1, T2, T3 e T4, uma vez que algumas preferem não ser identificadas. Três trabalham unicamente com tradução audiovisual, nas modalidades legendagem e dublagem, todas têm mais de dez anos de experiência e encontram-se na faixa de 30 a 60 anos de idade. T1 e T 3 trabalham com os pares português <> espanhol, enquanto T2 trabalha com português <> inglês e T4 com português <> inglês e espanhol, conforme resumido no quadro abaixo:

Quadro 1
Resumo das informações sobre as tradutoras

Como mencionado, são abordados três eixos principais: a expressão ou somatização das emoções no corpo (Robinson, 2003, 2020), a conscientização e preocupação com a interferência das emoções no processo e nas escolhas tradutórias (Lima & Pisetta, 2023; Lima & Pimentel, 2024a) e as possíveis consequências do reconhecimento da intervenção das emoções no trabalho para as próprias tradutoras e para demais agentes, como clientes e gerentes de projetos.

As narrativas iniciais dizem respeito à tradução de legendas de documentários, filmes e dublagem de novela que trazem experiências ideologicamente marcadas; em seguida, é apresentado um excerto referente à legendagem de materiais na área da saúde, que, diferentemente das anteriores, destaca a empatia e o compromisso social; por fim, trago rapidamente uma questão ético-ativista na tradução.

4. As tradutoras e a percepção da emoção

A tradução sempre foi algo político para mim.

Defino-a como um saber lidar com as diferenças.

E hoje, saber lidar com diferenças

é o que mais nos faz falta

(Cassin, 2024, p.10).

As duas primeiras narrativas são de tradutoras que foram impactadas por materiais audiovisuais que trazem representações das mulheres na sociedade, um deles traduzido há mais de uma década. Embora não sejam traduções em que há uma defesa explícita do feminismo na língua ou o uso de estratégias para tornar o feminino visível, não se pode ignorar que a tradução é feita por pessoas inseridas em contextos culturais, ideológicos e políticos. Esse aspecto aparece na narrativa da tradutora T1, com mais de dez anos de experiência no par português <> espanhol, sobre a tradução de legendas de filmes “com formações de personagens que eram homens muito desencanados e mulheres que se esforçam para agradar esses homens” e na tradução para dublagem de uma cena de uma novela mexicana que a tradutora interpretou como apologia ao estupro.

As características da narratividade (temporalidade, relacionalidade, articulação causal e apropriação seletiva) retomadas por Baker (2006), podem ser observadas desde o início. A tradutora contextualiza a experiência, organizando o relato em sequência temporal para torná-lo compreensível, e relaciona a situação narrada a uma ação recorrente e que causa aversão – que T1 acredita ser intensificada pelo fato de ela ser ativista feminista. A apropriação seletiva diz respeito ao recorte feito por T1, que enfatiza a representação da mulher na sociedade.

Geralmente, nas novelas, a cena é mostrada de forma bem maniqueísta, o cara é sempre do mal... mas passei por uma novela que não era tão caricatural, tinha um formato um pouco mais realista [...] uma narrativa que é: a mulher manifesta que não queria [ter relação sexual], não queria, não queria, mas quando ela é agarrada à força, ela descobre que na verdade ela queria. Então é o maior reforço possível de cultura de estupro e tá aí nas nossas novelas o tempo inteiro e nas novelas mexicanas também. [...] No meio da cena, comecei a passar muito mal e comecei a chorar.

Nessa narrativa, a interpretação da tradutora e as emoções que a cena desencadeou são decorrentes da relacionalidade que é construída a partir da memória daquele acontecimento em referência ao que constitui sua subjetividade dentro de uma configuração de eventos mais ampla – no caso, a luta feminista e a denúncia de estupro. A articulação causal, ou o significado (ético) que a experiência trouxe para a tradutora, se mostra nos sintomas sentidos. Baker (2006) aponta a articulação causal como uma característica importante da narratividade, porque a identificação da causa e dos efeitos possíveis de um evento pode ajudar a determinar as ações que devemos ou podemos tomar em determinada situação. T1 continua:

Comecei a pensar em todo tipo de solução pra aquilo...Na novela, parecia uma cena de sexo consentido, então poderia não ser entendida como cena de estupro, daí ia ser pior. Eu pensei “todo sofrimento que estou passando vai ser deslegitimado”. Resolvi falar com a gerente de projetos – essa cena não consegui fazer.... e fiquei preocupadíssima – entrou o dilema ético. Bom, e se ela achar que sou uma fraca por não ter conseguido, sou não profissional ou não ética por ter feito isso? De repente ela poderia me passar menos trabalho e era um cliente bom.

O receio da tradutora não diz respeito aos fatos, mas à interpretação dada e às consequências decorrentes de uma possível divergência de entendimentos. Na narrativa, observa-se que T1 vive um dilema entre compartilhar ou não as impressões que a cena trouxe, com medo de perder o cliente ou de não conseguir a empatia da colega de trabalho (a gerente de projeto) que poderia não entender a sua preocupação com a gravidade da cena. Nesse caso, ela entende que foi afetada e opta por não traduzir, reconhecendo o impacto emocional desencadeado pela tradução, e posiciona-se em relação ao que acha correto de forma a não reforçar uma postura machista e misógina.

A tradutora afirma que se emocionou muito, e que isso resultou em sintomas físicos (dor de cabeça, choro, sofrimento) que influenciaram negativamente o seu desempenho, pois sequer conseguia voltar a traduzir. A imobilidade devida à dor e à raiva causadas pela percepção da vulnerabilização da mulher diante da opressão é decorrente não só do incômodo desse tipo de representação da mulher, mas do agravamento dessa percepção por ela ser feminista, ativista e ter um posicionamento político absolutamente contra os estereótipos alimentados em novelas e em filmes com formações de personagens homens que representam o poder em relação a mulheres que se esforçam para obedecê-los e agradá-los. A relação entre convicções e emoção é defendida por Nussbaum (2001, p. 41), que afirma: “A convicção é fundamental para a emoção, e a emoção é necessária para a convicção absoluta”15.

Há uma sensação marcante de estagnação e de insegurança quando a tradutora relata que teve receio de externalizar que não estava conseguindo traduzir a cena e, em decorrência disso, perder o cliente. Volta a ideia do senso comum de que expressar emoção indica falta de profissionalismo, e que há uma ambivalência entre a impossibilidade de não se envolver e a preocupação de não demonstrar esse envolvimento, também presente nas declarações de outras tradutoras que afirmam: “é claro que a gente não passa isso para o cliente”.

Em relação a estratégias para lidar com essas emoções, T1 afirma que, nesses dias que define como “trabalho difícil”, costuma tomar “florais calmantes” e, no caso de legenda, muitas vezes tira a imagem para ficar mais fácil de lidar com o assunto, algo impossível de ser feito na dublagem, uma vez que precisa ser considerada a sincronia labial. A ação de cobrir as imagens está entre as propostas de Perdikaki e Georgiou (2022), que sugerem formas de criar “resiliência emocional” na tradução de legendas.

A alteração de elementos técnicos da tarefa e, mais especificamente, do texto audiovisual, também é usada com frequência como estratégia de enfrentamento de materiais que desencadeiam a emoção. Esses ajustes incluem diminuir o tamanho do segmento ou retirá-lo totalmente da interface do software de legendagem, ocultar a tela para evitar a entrada visual do vídeo, diminuir ou desligar o volume da faixa de áudio e navegar manualmente quadro a quadro do vídeo16

(Perdikaki & Georgiou, 2022, p. 69).

No estudo empírico sobre estratégias usadas por um grupo pequeno de tradutores, as autoras apontam que, além dessas ações, as pessoas pesquisadas também costumam fazer pausas durante o processo de tradução; alterar a tradução com aspectos mais técnicos da legendagem; fazer interações sociais; evitar trabalhar com material que possa desencadear fortes emoções; estabelecer compensações após terminar a tradução. Outros mecanismos mencionados incluem caminhar, tomar banho, rezar, meditar, fazer exercício e, muitas vezes, parar de traduzir para chorar, assumindo que está sendo afetado e experienciando a emoção.

Cobrir a tela também foi uma estratégia apontada na segunda narrativa, igualmente atravessada por ideologia feminista, da tradutora T2, com mais de 20 anos de experiência em traduções no par português <> inglês, que diz respeito à tradução de legendas de filmes pornográficos. De acordo com a tradutora, durante os anos em que traduziu centenas de filmes pornográficos, ela percebeu que esse trabalho tinha efeitos diferentes sobre ela. A tradutora, a única que pediu para que seja mantido seu anonimato, confessa que se sentia envergonhada por ter traduzido tantos filmes e que essa vergonha não se deve ao fato de se considerar pudica ou conservadora, mas ao gênero em si. Como lembra Ahmed (2014, p. 104), a palavra “vergonha” vem do verbo indo-europeu “cobrir”: “por um lado, a vergonha cobre o que está exposto (nós nos afastamos, abaixamos o rosto, desviamos o olhar), enquanto, por outro lado, a vergonha expõe o que foi coberto (ela des-cobre)”17.

A atitude da tradutora remete ao que Ahmed (2014) diz em um contexto diferente sobre a vergonha coletiva: há um sentimento ruim, um sentimento de negação, um sentimento que é mais agudo do que o constrangimento. Esse sentimento pode ser uma consequência do conhecimento de senso comum dos problemas que a pornografia traz para a sociedade, especialmente em termos de violência contra as mulheres, de influências e comportamentos desrespeitosos, de efeitos sobre a imagem corporal e de uma infinidade de mensagens prejudiciais à saúde e à autoimagem, em especial para as pessoas mais jovens. Ao evitar imagens, a tradutora sinaliza que vê a indústria pornográfica como responsável por produções que evocam a objetificação das mulheres, com cenas muitas vezes perturbadoras. Mesmo no momento da entrevista (15 anos depois), ela não parece se sentir à vontade para falar sobre isso e não quer ser exposta. Ela conta que, depois de um tempo, começou a traduzir sem ver as imagens.

Chegou um momento em que eu cobria a tela; aquilo estava afetava minha vida sexual. Eu removia a imagem e ficava apenas com o som. Comecei a sentir o impacto emocional que estava acontecendo com os recursos visuais e tive que fazer alguma coisa.

A tradutora também observa que nunca comentou com o cliente que evitava ver as imagens porque tinha medo de que, se ele soubesse disso, deixaria de enviar trabalhos. Embora ela reconheça que as imagens quase não fazem diferença para as legendas por causa do gênero com poucos diálogos, ela acredita que, para o cliente, afirmar que estava desconfortável ou até incomodada com o conteúdo poderia transmitir a ideia de falta de profissionalismo, pressupondo uma relação de causa-efeito.

Novamente a ideia de emoção como perturbação perpassa o processo, assim como a sensação de que assumir que há um envolvimento no ato tradutório não é o esperado pelo “mercado”. Nessa narrativa, a estratégia usada para lidar com o incômodo é evitar as imagens ou, nas palavras de Didi-Huberman (1998, p. 29), “o que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha.” As imagens se instalam negativamente, perseguindo os olhos, causando incômodo – talvez trauma – além de mudanças no comportamento sexual da tradutora.

As características da relatividade, da causalidade e da temporalidade são perceptíveis pelo fato de ser uma mulher a traduzir filmes de uma indústria que continua sendo perniciosa para a imagem feminina, bem como do reconhecimento das consequências que essa indústria tem para a sociedade – que incentiva esse tipo de material – que tem alcançado ainda mais pessoas com as redes sociais e o crescimento do soft porn.

Se, de um lado, as traduções que trazem representações femininas contrárias às ideologias das tradutoras causam incômodo e perturbação, de outro também podem causar raiva e uma postura de resistência, como recusa de trabalhos que vão contra as posições políticas. Um exemplo é também de T2, que não aceitou traduzir um documentário sobre uma igreja norte-americana que pregava a obediência das mulheres. A série mostra a vida de um grupo de mulheres, “donas” da igreja, que vivem em mansões, com muitos empregados, ostentando riquezas e que pedem dinheiro para pessoas carentes. Para a tradutora, aquela situação “dava uma raiva. Eu pensava: gente, como é possível alguém fazer isso? Eu decidi que, pelas minhas mãos, não ia ser divulgado esse tipo de assunto”.

Outra postura de resistência foi narrada por T3, com mais 20 anos de experiência com o par espanhol <> português, que se recusou a traduzir tópicos que eram contrários à sua ideologia e se sentiu “empoderada em poder rejeitar os trabalhos”. O empoderamento também aparece em uma situação na qual o cliente diz explicitamente que prefere contratar tradutores e não tradutoras. T3 comenta:

Quando iniciei na tradução, traduzia muito material técnico. E uma determinada empresa me disse que preferia um homem para realizar a tradução, e não uma mulher. Eu os convenci a fazer um teste e o teste os convenceu de que eu estava preparada para fazer a tradução para eles.

Essas narrativas ilustram a função política da tradução e as relações de poder que perpassam o processo e o mercado. A resistência dessas tradutoras a discursos opressivos e patriarcais e à desvalorização da mulher mostra que podemos ser agentes da história e não apenas vítimas do machismo. Toda tradução pode ser um espaço de ação política e de mudanças sociais (Tymoczko & Gentzler, 2002; Baker, 2018), mesmo aquelas que começam com a sinalização de que um determinado texto não merece ser traduzido ou a problematização das consequências daquilo que traduzimos.

Diferentemente das narrativas apresentadas, em que as tradutoras não estavam envolvidas com os temas de forma direta, embora se sentissem tocadas e responsáveis, de alguma maneira, pelo conteúdo traduzido, nas narrações a seguir as traduções foram feitas quando as tradutoras passavam por situações reais relativas ao que estavam traduzindo. Como nas experiências anteriores, a responsabilidade (Derrida, 2006) é um fator predominante. A narrativa é novamente de T3:

Quando aceitei, era para ser um projeto de tradução como qualquer outro. Era uma série de vídeos sobre oncologia. Aconteceu que durante o projeto, uma tia muito amada descobriu um câncer que estava já em estágio muito avançado. E muitos dos vídeos eram sobre o tipo de câncer da minha tia. Eu sofri muito traduzindo sobre uma situação dolorosa que eu estava vivendo naquele momento e acabei me identificando muito com o material. Eu sofri sabendo tudo o que aconteceria com ela, e chorava muito durante a tradução. Às vezes, precisava parar para tomar um ar e sentia um grande bloqueio para traduzir. Finalizei o projeto pensando nas muitas pessoas que precisavam daquela informação legendada, mas foi um desgaste imenso e precisei de ajuda psicológica.

Como narrado, aconteceu algo inesperado e isso afetou a tradutora e o processo, que é lembrado com dor por T3, apesar de já terem se passado anos. O reconhecimento da importância da tradução para levar a informação às pessoas que estão passando por situações semelhantes perpassa a narrativa, concomitantemente à tristeza (expressa pelo choro), ao desejo de ajudar e a uma espécie de satisfação decorrente dessa possibilidade de ser “útil”, o que remete às paixões primárias de Spinoza (desejo, alegria/satisfação, tristeza). Aparece uma preocupação com o outro, que só pode ter acesso a determinadas informações graças à tradução. O choro, mencionado por T3, foi a reação mais apontada pelas tradutoras e tradutores que entrevistei, seguido pela necessidade de pausas constantes e recusa de outros trabalhos de temáticas semelhantes aos considerados negativamente impactantes.

Na tradução dos vídeos, a impossibilidade trazida por sintomas idiossomáticos (Robinson, 2003), dá lugar à necessidade da tradução e ao pensamento da tradução como ação política (Baker, 2018, 2023), ou seja, apesar de apresentar muitos sintomas no corpo, há uma conscientização e um orgulho em fazer um trabalho importante, sem o qual muitas pessoas seriam privadas de informação. A tristeza decorre da compaixão e não da incapacidade de fazer o trabalho, e em momento algum há questionamentos ou dúvidas sobre o resultado da tradução. De certa forma, pode-se observar a relação entre compaixão e poder (de quem traduz) em contraste com o sofrimento e a impotência (das pessoas em fase terminal).

A empatia aparece como uma característica na narrativa da tradutora, seja no sentido compassivo (de sentir a necessidade de colocar-se à disposição), projetivo (de tentar imaginar quais seriam os sentimentos da outra pessoa) ou reflexivo (de se colocar no lugar daquele que só tem acesso à informação por meio da tradução). Koskinen (2020, p. 167) defende que a empatia é um dos principais aspectos que diferenciam a tradução humana da tradução de máquina, e sugere que os cinco tipos de empatia (projetivo, cognitivo, afetivo, reflexivo e compassivo) devem ser uma das competências trabalhadas em sala de aula.

A última narrativa, da T4, com mais de 15 anos de experiência nos pares português <> inglês e português <> espanhol, ocorreu em 2019 e representou um desafio porque eram vídeos de manifestações a favor do Bolsonaro, que havia acabado de ser eleito. Segundo a tradutora,

Nos vídeos com entrevistas dos apoiadores do Bolsonaro, a minha vontade era reproduzir cada um dos erros de concordância e pronúncia para caracterizar os falantes como mais brutos e raivosos, menos educados e estudados, porém isso seria antiético porque quando legendo um vídeo de uma pessoa normal falando sobre um tema comum, se a pessoa comete algum ‘erro’ ou pronuncia diferente uma palavra ou outra, eu não faço essa marcação por entender que a fala não roteirizada e não ensaiada sempre tem pequenos deslizes. Então, se faço esse tipo de correção com um vídeo alinhado a meus princípios ideológicos (ou pelo menos que não os fere diretamente) eu tento dar ao conteúdo que vai contra minha ideologia a mesma atenção e cuidado.

Aparece, nesse excerto, a preocupação ética em não demonstrar um viés ideológico, resultante de “constante atenção e revisão”. T4 reconhece que “a língua é ideológica e subjetivamente marcada”, e essa conscientização leva a um policiamento maior quando se trata de conteúdos dos quais discorda, como é o caso do governo bolsonarista. Além do trabalho ser mais desgastante, dispende mais tempo e concentração. Ela afirma, entretanto, que apesar de ter tido muita raiva durante a legendagem, não se arrependeu de ter aceitado o trabalho porque o vídeo seria usado para “mostrar pontos negativos do governo”.

A tradutora acredita que seu posicionamento foi ético (Berman, 2007) e não acredita que tenha feito intervenções no texto, uma vez que procurou não mostrar seu posicionamento, o que dialoga com as preocupações que aparecem em narrativas anteriores de que qualquer tipo de envolvimento pode passar a impressão de falta de profissionalismo.

5. Considerações finais

Na tradução audiovisual, como é amplamente estudado, o sentido não é construído apenas pelas palavras, mas por uma multiplicidade de elementos que atuam conjuntamente, como imagem, som, perspectivas, iluminação, movimentos, expressões faciais, linguagem corporal e entonação. Esses fatores evidenciam que o processo tradutório transcende a linguagem verbal, envolvendo aspectos sensoriais e materiais que impactam diretamente a construção do significado. Essas características fazem da tradução audiovisual um lugar privilegiado para compreender a tradução como ação e a tradutora e o tradutor como agentes mediadores que tanto agem quanto reagem ao contato com outras línguas, transformando o texto e sendo transformado por ele, como defende Gadamer (2003). A interpretação, portanto, nunca se restringe às questões linguísticas, mas é atravessada pelo corpo que traduz e, ainda que não seja possível controlar as reações e emoções individuais diante de cada situação, é fundamental discutir essas questões. Isso contribui para a compreensão de que as emoções despertadas no processo tradutório podem enriquecer a leitura e a interpretação dos textos, ao mesmo tempo que permite atribuir sentido à experiência de traduzir, articulando-a às práticas discursivas inseridas em contextos sociais, culturais e políticos específicos.

Considerando as narrativas ontológicas (Baker, 2006) apresentadas, observa-se que a percepção das tradutoras não se limita a algo individual, mas está relacionada às histórias que circulam em discursos coletivos. Como defende Ahmed (2014), as emoções significam enquanto se propagam, e a maneira como sentimos, percebemos e expressamos as emoções ajudam no entendimento de que tudo o que nos constitui determina nossas leituras, interpretações e traduções. Nesse sentido, a circulação de narrativas ontológicas sobre experiências tradutórias pode proporcionar oportunidades de discussões sobre narrativas públicas e até conceituais sobre o nosso papel de tradutoras e tradutores.

As narrativas ontológicas possibilitam, ainda, uma análise êmica de como as tradutoras e tradutores entendem o ato de traduzir e os impactos das emoções no corpo e no processo tradutório desencadeados pelo trabalho principalmente com textos reconhecidos como sensíveis. Esse conhecimento, por sua vez, pode levar a uma análise mais detida sobre a subjetividade e responsabilidade ética (Berman, 2007) de quem traduz. Essas concepções, que coadunam com uma abordagem hermenêutica que considera a tradução como paradigma da alteridade (Ricoeur, 2011), também auxiliam a ampliar o entendimento das experiências idiossomáticas (Robinson, 2003) e, quem sabe, podem levar à problematização de narrativas que regulam o que deve ou não ser dito e assumido (por agentes diversos) no que diz respeito ao impacto das emoções no desempenho tradutório.

Os recortes analisados das quatro tradutoras deixam evidente que o ato tradutório é marcado pelas experiências pessoais (vivências, percepções, emoções, valores) e tem reflexos no corpo de quem traduz, mostrando, ainda, que a expressão dessa subjetividade pode ser cerceada por aspectos ideossomáticos (Robinson, 2003) relacionados a uma narrativa pública – muitas vezes até conceitual - da tradução como algo que pode ser neutro. Portanto, reforçar a ideia de que a tradução é um ato performativo (Austin, 1990) é primordial para a compreensão de que o papel da tradutora e do tradutor não é apenas transferir, mas transformar, reinscrever e deslocar um texto em outro (Derrida, 2006), para que produza efeitos em outros contextos, reencenando outros atos discursivos com diferentes implicações éticas, políticas e afetivas.

Agradecimentos

Agradeço às tradutoras pela generosidade em dividir comigo suas experiências tradutórias e por todas as emoções compartilhadas em plena pandemia, um momento dificílimo em que chamadas de vídeo traziam algum conforto em meio ao caos.

  • Conjunto de dados de pesquisa
    Este artigo traz alguns resultados da pesquisa de pós-doutorado intitulada Para além da dicotomia razão e emoção: um estudo sobre o sujeito-tradutor e o tradutor-personagem, desenvolvida na Universidade de São Paulo, sob a supervisão de Lenita Maria Rimoli Pisetta, de 2022 a 2023.
  • Financiamento
    Bolsa Pós-Doc Sênior, processo CNPq 102448/2022-1.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    As entrevistas fazem parte do projeto de pesquisa Tradução de textos ideologicamente marcados: um trabalho de corpo e mente, do qual decorreu o projeto de pós-doutorado. Aprovação CAAE 35266820.7.0000.8142, número do parecer 5.287.731, CHS/Unicamp.
  • Publisher
    Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
  • 1
    Textos indicados na língua original em nota de rodapé foram traduzidos por mim. No original: “A translator is not someone whose task is to conserve something but to propagate something, to spread and develop it; translators are agents of change” (Chesterman, 1997, p. 2).
  • 2
    Sempre que possível priorizei o uso da linguagem inclusiva, como adotado em projetos anteriores (explicado, por exemplo, em Lima & Pimentel, 2024b, 2024c). Mantive o padrão masculino quando são retomadas traduções já publicadas em português.
  • 3
    A relação entre os pensamentos de Robinson, Damásio e Austin foi desenvolvida em Lima e Pimentel (2024a).
  • 4
    “It is an affective activity, governed by the rules of what and how individuals feel (whether they enjoy what they’re doing). But it is also a cognitive activity, an intelligent activity, governed by the rules of how people learn, and how they use what they learn: how translators develop their own idiosyncratic preferences and habits into a general procedure for transforming source texts into successful target texts” (Robinson, 2020, p. 52).
  • 5
    “The social regulation of feelings, and thus of thoughts and beliefs and practices, is what many readers missed” (Robinson, 2016, p. 299).
  • 6
    Derrida chama de contra-assinatura o convite à leitura, como um gesto de hospitalidade, que envolve tanto o distanciamento quanto a proximidade do outro: “deixar espaço ao outro para uma intervenção pela qual ele poderá escrever sua própria interpretação: o outro terá que ser capaz de assinar meu texto” (2001, p. 31).
  • 7
    “The main objetive of analysing the figure and role of the translator, their work conditions, their habitus, the so-called symbolic capital – the value of which may be restricted or aggrandized by the historical context in which it is accumulated” (Chaume, 2018, p. 51).
  • 8
    Os dados são provenientes de duas entrevistas e dois questionários, selecionados entre 20 participações feitas pela plataforma Google, em janeiro de 2021, como será explicado na seção sobre a metodologia da pesquisa. O projeto foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado pelo comitê de ética em 2020 (CAAE: 35266820.7.0000.8142, número do parecer: 5.287.731).
  • 9
    “[E]motion is about having a feeling in response to something—however, it is much more complicated and socially mediated than that” (Ahmed, 2004, p. 97).
  • 10
    “A focus on translators’ affects, understood as their embodied meaning-making and operationalized with narratives, offers a promising avenue for understanding and analysing their experiencing self as an interface where the cognitive and the social are brought together and made sense of through the translator’s affective engagement with them” (Hokkanen & Koskinen, 2018, p. 18).
  • 11
    (N.T.) O termo upheavals foi traduzido por convulsões por Fernando Py (Proust, 2016). Optei por transformações para dialogar com as concepções de tradução que defendo.
  • 12
    “Emotions shape the landscape of our mental and social lives. Like the ‘geological upheavals’ a traveler might discover in a landscape where recently only a flat plane could be seen, they mark our lives as uneven, uncertain, and prone to reversal. Why and how? Is it because emotions are animal energies or impulses that have no connection with thoughts, imaginings, and appraisals?” (Nussbaum, 2001, p. 1).
  • 13
    A postagem foi feita nos grupos Tradutores, Intérpretes e Curiosos e Tradutores/Intérpretes, da rede social Facebook, em dezembro de 2019, em que expliquei que estava fazendo um estudo sobre como somos influenciados pelas traduções e como a tradução afeta as nossas vidas, nosso conhecimento de mundo e de nós mesmas. Na ocasião, pedi para que entrassem em contato comigo e, a partir disso, enviei os formulários e marquei as entrevistas.
  • 14
    Foram usadas as ferramentas Google Formulários e Google Meet, por terem sido a opção feita pela universidade para aulas e atividades a distância. As interações foram adiadas por um ano, devido ao isolamento social ocasionado pela pandemia de Covid-19, e ocorreram em janeiro de 2021. Inicialmente, as perguntas foram elaboradas para o projeto Tradução de textos ideologicamente marcados: um trabalho de corpo e mente (Fapesp 19/09310-9). Na análise das respostas, foi observado que as perguntas citadas possibilitavam uma ampliação do escopo da pesquisa, que originou o projeto de pós-doutorado Para além da dicotomia razão e emoção: um estudo sobre o sujeito-tradutor e o tradutor-personagem (CNPq 102448/2022-1), para o qual foi submetida uma emenda ao comitê de ética (Aprovação CAAE: 35266820.7.0000.8142).
  • 15
    “Belief is sufficient for emotion, and emotion necessary for full belief” (Nussbaum, 2001, p. 41).
  • 16
    “Altering the technical aspects of the task and the AV text, more specifically, is also frequently resorted to as a coping mechanism when faced with emotion-eliciting material. Such tweaks include making the video segment smaller or completely minimising it out of the subtitling software interface, hiding the screen so as to avoid visual input from the video, lowering or even switching off the volume of the audio track and manually navigating the video frame by frame” (Perdikaki & Georgiou, 2022, p. 69).
  • 17
    “On the one hand, shame covers that which is exposed (we turn away, we lower our face, we avert our gaze), while on the other, shame exposes that which has been covered (it un-covers)” (Ahmed, 2014, p. 104).

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pela autora mediante solicitação.

Referências

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Editado por

  • Editores do número especial
    Willian Moura – Iván Villanueva-Jordán
  • Editora de seção
    Andréia Guerini

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    25 Jan 2025
  • Aceito
    05 Abr 2025
  • Revisado
    08 Maio 2025
  • Publicado
    Jun 2025
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