Open-access Violências interseccionais e a saúde de mulheres migrantes no Brasil e de brasileiras no exterior: uma revisão de escopo

Resumo

Os fluxos migratórios têm se intensificado com o aumento da migração de mulheres da América Latina e de outros continentes para o Brasil, bem como com a emigração de brasileiras para o Norte Global. Considerando a realidade da feminização das migrações e a importância de compreender as opressões vivenciadas pelas mulheres em face aos seus deslocamentos, esta revisão de escopo analisa, sob uma perspectiva interseccional, as evidências científicas sobre a saúde e as expressões de violências contra mulheres migrantes no Brasil e mulheres brasileiras no exterior. As bases de dados utilizadas foram BVS, Cochrane, Embase, PubMed, SciELO, Scopus e Web of Science, empregando-se descritores relacionados à temática. Ao todo, 26 documentos foram incluídos para análise. Sobre a saúde das migrantes, os resultados indicam que a migração tem implicações para o acesso e a atenção à saúde, a saúde sexual e reprodutiva, o adoecimento mental e a manifestação de sofrimento, além das barreiras de acesso aos serviços de saúde decorrentes de aspectos interculturais e linguísticos. Tanto as migrantes no Brasil quanto as brasileiras no exterior sofrem com as violências interseccionais, incluindo expressões de racismo, xenofobia, desigualdade racial e de gênero no mercado de trabalho, violência obstétrica, sexual e patrimonial, e condições análogas à escravidão, somadas à hipersexualização das mulheres brasileiras no Norte Global. Contudo, apesar dos desafios, opressões e violências, a revisão revela as resistências e os protagonismos das migrantes ao longo de suas trajetórias, à medida que estratégias individuais e coletivas são desenvolvidas para garantir seus direitos enquanto migrantes e mulheres.

Palavras-chave:
Migração Humana; Mulheres; Enquadramento Interseccional; Violência; Saúde de Migrantes


Abstract

Migratory flows have expanded with the increased movement of women from Latin America and other continents to Brazil, in addition to the emigration of Brazilian women to the Global North. Considering the context of the feminization of migration and the importance of understanding women's oppression in the face of displacement, this scoping review analyzes, from an intersectional perspective, scientific evidence on health and expressions of violence against migrant women in Brazil and Brazilian women abroad. The adopted databases are VHL, Cochrane, Embase, PubMed, SciELO, Scopus, and Web of Science, using descriptors related to the topic. Twenty-six documents were included for analysis. Regarding the health of migrant women, the results indicate that migration has implications for access to and care for health, sexual and reproductive health, mental disorder, and the manifestation of suffering, in addition to barriers to access to health services due to intercultural and linguistic aspects. Both migrant women in Brazil and Brazilian women abroad suffer from intersectional violence, including expressions of racism, xenophobia, racial and gender inequality in the workplace, obstetric, sexual, and patrimonial violence, and conditions analogous to slavery, in addition to the hypersexualization of Brazilian women in the Global North. However, despite the challenges, oppression, and violence, the review shows the resistance and protagonism of migrant women throughout their life trajectories, as individual and collective strategies are developed to guarantee their rights as migrants and women.

Keywords:
Human Migration; Women; Intersectionality; Violence; Migrant Health


Resumen

Los flujos migratorios se han intensificado, con un aumento del movimiento de mujeres de América Latina y de otros continentes hacia Brasil, así como la emigración de mujeres brasileñas hacia el Norte Global. Considerando la realidad de la feminización de la migración y la importancia de comprender las opresiones vivenciadas por las mujeres en este contexto, esta revisión analiza, desde una perspectiva interseccional, evidencias científicas sobre la salud y las expresiones de violencia contra las mujeres migrantes en Brasil y las mujeres brasileñas en el extranjero. Las bases de datos utilizadas fueron BVS, Cochrane, Embase, PubMed, SciELO, Scopus y Web of Science, con descriptores relacionados con el tema. En total, se incluyeron 26 documentos en el análisis. Respecto a la salud de las migrantes, los resultados indican que la migración impacta en el acceso y en el cuidado de salud, en la salud sexual y reproductiva, en la salud mental y en las manifestaciones de sufrimiento, además de evidenciar barreras de acceso a los servicios de salud asociadas a aspectos interculturales y lingüísticos. Tanto las migrantes en Brasil como las mujeres brasileñas en el extranjero enfrentan violencia interseccional, que incluye racismo, xenofobia, desigualdades raciales y de género en el entorno laboral, violencia obstétrica, sexual y patrimonial, condiciones análogas a la esclavitud y la hipersexualización de las mujeres brasileñas en el Norte Global. Pese a los desafíos, a la opresión y a la violencia, la revisión también destaca las resistencias y los protagonismos de las migrantes a lo largo de sus trayectorias, expresados en el desarrollo de estrategias individuales y colectivas para garantizar sus derechos como migrantes y mujeres.

Palabras-clave:
Migración Humana; Mujeres; Interseccionalidad; Violencia; Salud del Migrante


Introdução

Os fluxos migratórios têm se intensificado na América Latina, especialmente no Brasil. Dados oficiais brasileiros indicam que 481 mil pedidos de residência foram regularizados no país de 2022 a julho de 2024 e que, embora os homens sejam a maioria, o número de mulheres, crianças e adolescentes cresceu significativamente, sendo as nacionalidades mais prevalentes a venezuelana, a boliviana, a colombiana e a argentina 1. Nesse mesmo período, aproximadamente 139.200 pessoas solicitaram refúgio no país, com predominância de venezuelanos, mas também incluindo cubanos e angolanos: “...96,0% delas de nacionalidade venezuelana, com as mulheres representando 47,2% dos refugiados1.

É fundamental elaborar estudos e produzir dados (empíricos, teóricos e metodológicos) sobre a migração de mulheres, sobretudo no que diz respeito às suas motivações, uma vez que, historicamente, elas têm sido vistas como coadjuvantes de seus companheiros, e não como protagonistas de sua própria história 2.

É cada vez mais comum que as mulheres migrem sozinhas ou acompanhadas de seus filhos, tendendo a buscar emprego para sustentar suas famílias 2. Portanto, no Brasil, enquanto país que tem recebido uma grande diversidade de migrantes, especialmente nas últimas décadas, deve-se compreender a violência interseccional 3 contra mulheres migrantes com o intuito de prover cuidados de saúde, prevenir situações de violência e desenvolver políticas públicas eficazes para o enfrentamento desse grave problema de saúde pública.

O protagonismo e os desafios que as mulheres enfrentam no deslocamento humano vêm sendo cada vez mais discutidos sob uma perspectiva feminista, elucidando o movimento crescente e as diversas razões para a migração 4. Embora a partida de sua terra natal seja motivada por uma privação de direitos, as mulheres deparam-se com políticas de mobilidade social limitadas para a melhoria de suas condições de vida, o que contribui para o aumento de suas vulnerabilizações 5.

Além disso, nos contextos migratórios, as violências podem ser exacerbadas, evidenciando como a migração se entrelaça com o colonialismo e a subalternizações dos corpos 4. Historicamente, as violências contra as mulheres estão ligadas à dominação masculina e foi agravada pela colonização, na qual a racialização e a sexualização das relações de gênero caracterizam as estruturas forjadas desde a invasão europeia na América Latina. Dentro do padrão colonial de gênero, a crueldade, a impunidade e a naturalização das violências contra as mulheres são cada vez mais prevalentes, afetando suas vidas, incluindo os casos de feminicídio 6.

Nesse sentido, os estudos interseccionais fundamentam as análises das opressões e violências contra as mulheres, como o sexismo, o racismo e o classismo, que tornam complexas as dinâmicas das violências. Por essa razão, aborda-se as diversidades entre as mulheres, inclusive entre aquelas de uma mesma classe social e etnia. Em outras palavras, analisar como as intersecções das opressões moldam as suas experiências é relevante para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas a atender às suas necessidades e a enfrentar as violações de direitos e as violências 5,7.

Com relação aos processos migratórios, há um consenso de que eles impactam a vida das mulheres de maneira diferenciada, a depender de sua nacionalidade, status migratório, orientação sexual, identidade de gênero, raça/etnia e classe social 5,8,9. Consequentemente, ao utilizar a interseccionalidade como eixo de análise, é possível explorar com maior profundidade as experiências das mulheres migrantes, compreendendo suas opressões e resistências para além das relações assimétricas de gênero, incluindo também as distinções e discriminações baseadas em raça e classe social, o acesso ao emprego e as condições de migração, a afinidade com o idioma do país de destino, entre outros indicadores 8,9.

Assim, considerando que as violências são interseccionais e complexas, Collins 3 reitera que se trata de um problema social que acarreta sofrimento e danos àquelas que a vivenciam. A autora acredita que, para além das intersecções das violências de raça, gênero, nacionalidade e classe social, é crucial identificar os seus determinantes no contexto da exploração em uma sociedade capitalista, especialmente em países que sofreram com a colonização 3, característica da região latino-americana. Portanto, ao considerar essas reflexões no contexto das mulheres migrantes, infere-se que as mais empobrecidas, negras, indígenas e oriundas do Sul Global são as mais afetadas pela violência racial e de gênero, perspectiva esta adotada no presente artigo.

Se os deslocamentos de mulheres envolvem inúmeros desafios, como se interrelacionam os processos migratórios e sua saúde? Uma revisão recente da literatura 10 constatou que, além das dificuldades migratórias, as mulheres também enfrentam vulnerabilizações e desigualdades sociais e econômicas exacerbadas, vínculos empregatícios precários e a falha dos serviços em atender às suas necessidades de saúde, especialmente durante a pandemia. As mulheres encontram barreiras para conciliar o trabalho produtivo com o cuidado familiar, o que se expressa pela sobrecarga de demandas, impactando sua saúde física e mental. Elas são frequentemente submetidas às violências racial, de gênero e xenofóbica, o que pode causar ou agravar o sofrimento e os transtornos psicológicos 10.

Contudo, essa violência não se restringe ao Brasil. Elas também são vivenciada por mulheres brasileiras no exterior que, ao decidirem migrar para o Norte Global, relatam sofrer racismo e xenofobia, além da hipersexualização de seus corpos, estigmatizados como “fáceis” e sensuais 11,12, somadas a expressões de violência obstétrica 11. Dessa forma, elucidar como nossas conterrâneas experienciam os processos migratórios e o acesso aos cuidados de saúde no Norte Global é importante para revelar as violências 11 e o padrão colonial de gênero que se perpetua 6. Essa perspectiva reforça a Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) 13, que incentiva a produção de estudos e pesquisas sobre mulheres brasileiras no exterior, visto que essa população é uma responsabilidade do Estado brasileiro.

Assim, esta revisão de escopo tem como objetivo analisar as evidências científicas sobre a saúde e as expressões das violências contra mulheres migrantes no Brasil e mulheres brasileiras no exterior. A questão de pesquisa é: Quais são as evidências científicas sobre a saúde e as expressões das violências contra mulheres migrantes no Brasil e mulheres brasileiras no exterior?

Método

Esta revisão de escopo tem como objetivo apresentar uma visão ampliada sobre o tema, discutir a diversidade de conhecimentos produzidos, identificar lacunas e subsidiar futuras revisões sistemáticas 13. Foram seguidas as recomendações do Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR; Itens de Relatórios Preferenciais para Revisões Sistemáticas e Metanálises: Extensão para Revisões de Escopo) 14,15, que preveem o registro prévio do protocolo da revisão de escopo, realizado em outubro de 2024 (https://osf.io/c9vba/overview), no qual podem ser consultadas as bases de dados e os descritores utilizados. A estratégia de busca foi elaborada por bibliotecária com doutorado em Ciências da Saúde e experiência nas principais bases de dados da área da saúde e interdisciplinares.

Após a definição do objetivo e da questão de pesquisa, foram estabelecidos os critérios de população, conceito e contexto (PCC) da revisão 14: (a) população: mulheres migrantes (jovens maiores de 18 anos, adultas e idosas); (b) conceito: violências e cuidado em saúde; e (c) contexto: o Brasil como país de destino de migrantes transnacionais e outros países de migração de mulheres brasileiras.

O Quadro 1 apresenta as bases de dados consultadas - SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Embase, Web of Science, Scopus, Cochrane e PubMed -, os campos de busca utilizados e o número de documentos identificados.

Quadro 1
Bases de dados consultadas, campos utilizados e número de documentos.

Os documentos recuperados nas bases (n = 1.036) foram inseridos no software de gerenciamento de referências Zotero (https://www.zotero.org/) para identificação e remoção de duplicatas, totalizando n = 899 após essa etapa. Em seguida, esse conjunto foi importado para o sistema Rayyan (https://www.rayyan.ai) e a ferramenta de detecção de duplicatas foi novamente acionada, identificando mais quatro registros duplicados e resultando em uma amostra final de n = 895. Nesse mesmo sistema, realizou-se o processo de seleção em duplo mascaramento por duas pesquisadoras independentes, sem necessidade de terceira avaliadora, uma vez que os eventuais conflitos foram resolvidos por consenso.

Foram incluídos artigos, livros, teses e dissertações que: (a) abordassem saúde e violência contra mulheres migrantes (jovens maiores de 18 anos, adultas e idosas) no Brasil ou mulheres brasileiras no exterior; (b) estivessem disponíveis online e na íntegra; e (c) estivessem redigidos em português, inglês ou espanhol. Foram excluídos trabalhos que: (a) tratassem de temáticas alheias ao escopo da pesquisa; (b) abordassem homens, mulheres, crianças ou adolescentes; e (c) não estivessem disponíveis na íntegra. A Figura 1 apresenta o fluxograma da revisão conforme o PRISMA 15.

Figura 1
Fluxograma do PRISMA para a seleção de documentos para a revisão de escopo.

Resultados

Após a definição dos estudos incluídos para análise, foi elaborado o Quadro 2, contendo os principais resultados das pesquisas acerca das expressões das violências e da saúde de mulheres migrantes.

Quadro 2
Síntese dos artigos selecionados: nacionalidade das migrantes, localização no Brasil e no exterior, objetivo, metodologia, principais resultados sobre saúde e expressões de violência.

Aspectos gerais da amostra selecionada

Foram selecionados 26 documentos para análise: (a) 20 artigos 11,12,16,17,18,19,20,21,22,23,24,25,26,27,28,29,30,31,32,33; (b) dois livros 34,35; e (c) quatro teses/dissertações 36,37,38,39. Vinte documentos abordam mulheres migrantes no Brasil, dos quais: quatro tratam de migrantes de diversas nacionalidades 20,21,26,36; três de mulheres bolivianas 24,25,37; três de mulheres venezuelanas 19,22,29; dois de mulheres congolesas 38,39; um de uma migrante da Gâmbia 17; um de médicas cubanas 23; um de mulheres haitianas 28; e dois de migrantes internas brasileiras 18,27.

No que se refere à formação de profissionais de saúde ou à assistência a migrantes no Brasil, foram identificados dois documentos oficiais elaborados pelo Ministério da Saúde, publicados em 2012 34,35. Além disso, foram incluídos seis artigos sobre mulheres brasileiras no exterior: (a) três sobre brasileiras em Portugal 11,12,31; (b) dois sobre brasileiras em diferentes países 30,33; e (c) um sobre brasileiras na Inglaterra 32.

A maioria dos estudos adota abordagem qualitativa, com uso de entrevistas, grupos focais e análise de literatura e de mídias sociais. Apenas um trabalho é quantitativos 16, e dois apresentam abordagem quali-quantitativa 24,32. Quanto à localização das migrantes mencionadas nas pesquisas no território brasileiro, identificaram-se: (a) quatro produções 24,25,36,37 realizadas na cidade de São Paulo; (b) três na cidade do Rio de Janeiro 17,38,39; (c) duas no Estado do Rio Grande do Sul 18,29; (d) duas no Estado de Roraima 19,22; (e) duas no Estado do Paraná 21,26; e (f) uma abrangendo os estados de São Paulo e Paraná 27. Como não foi estabelecido recorte temporal, observou-se que 18 documentos foram publicados entre 2020 e 2024 (cinco sobre brasileiras no exterior), enquanto oito produções foram publicadas entre 2012 e 2019, indicando o crescimento da temática da violência contra mulheres migrantes no Brasil e contra mulheres brasileiras no exterior nos últimos quatro anos.

Saúde e migração: mulheres migrantes no Brasil e brasileiras no exterior

Esta seção apresenta uma síntese do que pode ser inferido da amostra quanto à relação entre saúde e migração, sendo abordadas as seguintes categorias: saúde mental, implicações das migrações forçadas forçada e das condições de trabalho para a saúde, impactos da violência na saúde, saúde sexual e reprodutiva e barreiras de acesso aos serviços de saúde.

Com relação à saúde das mulheres migrantes no país, observa-se que elas são heterogêneas e que essa condição está estritamente relacionada à nacionalidade, raça/etnia, geração, classe social, orientação sexual, tempo de permanência no país, proficiência na língua portuguesa, profissão e relações de trabalho (formal ou informal), além do status migratório. Nesse sentido, com base na ideia da pluralidade das mulheres e de suas condições de vida, considera-se que: “Diferentes peculiaridades as singularizam e, com isso, demandam olhares específicos, tanto para análises acadêmicas quanto para seus possíveis desdobramentos em termos de elaboração de políticas públicas relacionadas a elas20 (p. 3).

Os processos migratórios podem envolver dificuldades de adaptação, integração social, barreiras linguísticas e sociais e decisões que implicam deixar familiares e filhos no país de origem 36. Portanto, foi comum encontrar produções que complexificam os aspectos de saúde, relacionando-os às condições de vida, aos processos migratórios e às violências contra as migrantes.

Destacam-se as produções sobre a saúde mental das migrantes, uma vez que as discussões sobre sofrimento psicossocial e transtornos mentais se sobressaem na amostra 19,21,34,35,38. Quando os estudos dialogam com a interseccionalidade, a saúde mental aparece relacionada às opressões de raça, classe social e gênero, além das situações de vulnerabilização das migrantes, sendo o adoecimento expresso por sofrimento psicossocial, crises de ansiedade, distúrbios do sono, cefaleias, síndrome do pânico e necessidade de uso de psicotrópicos 36.

As mudanças nas condições de vida e nas redes de apoio social e familiar, as dificuldades com o idioma e a integração social, as tensões cotidianas, o isolamento, a irregularidade do processo migratório e a solidão vivenciada podem impactar a saúde, causando sofrimento e o desenvolvimento de transtornos mentais 35,36.

Os deslocamentos forçados agravam os obstáculos à manutenção e ao cuidado da saúde mental das migrantes: “Quando nos referimos à migração forçada, estamos mencionando indivíduos que estão fugindo de guerras, perseguições políticas, religiosas, sociais ou violações de direitos humanos20) (p. 4). Em situações de refúgio, as mulheres tendem a desenvolver transtorno de estresse pós-traumático após deixarem seus países, sendo obrigadas a lidar com adaptações, vulnerabilização socioeconômica e violências 20.

Observam-se sofrimento social, solidão, ansiedade, esgotamento emocional, cefaleias, insônia, estresse, taquicardia, luto, depressão, desânimo, angústia, medos e traumas 38, além de tristeza 29,38, síndrome do pânico e sentimentos de vergonha, humilhação e inferioridade 29. A migração forçada e a perseguição política contra mulheres congolesas agravam o sofrimento e os transtornos mentais, reforçando a necessidade de cuidados em saúde mental 39.

Arruda-Barbosa et al. 19 indicam que, no caso das mulheres venezuelanas, as condições de migração forçada, interseccionadas com opressões de raça e gênero, exacerbam o adoecimento mental e a vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), sobretudo quando exercem trabalho sexual. Em alguns casos, homens oferecem pagamento mais elevado para que não utilizem preservativos. Além disso, a vivência de violências está associada ao desenvolvimento de depressão e ansiedade.

A migração forçada também é vivenciada por mulheres brasileiras que se deslocam internamente em busca de melhores condições de vida e trabalho, o que, aliado à violência estrutural, às condições precárias de moradia e à negligência estatal, tem implicações para sua saúde física e mental, exigindo a oferta de cuidados específicos e acessíveis 18. Mesmo quando o deslocamento ocorre voluntariamente, por exemplo para estudar dentro do Brasil, ou seja, fora do contexto de migração forçada, sofrimento psicológico, depressão, somatização, tristeza, baixa autoestima e ganho de peso podem ocorrer, especialmente quando se tornam mães, o que pode agravar sentimentos de medo e solidão e estar associado a transtornos de ansiedade 21.

Nesta revisão, o processo migratório está intimamente relacionado à saúde das mulheres que o vivenciam, com expressiva presença de sofrimento psicológico associado às condições de migração e de vida no destino 16,34. Dependendo do status migratório, como nos casos de documentação em situação irregular, elas enfrentam barreiras ainda maiores para acessar serviços de saúde, assistência social e outros, agravadas pela ausência de apoio social e familiar 24,35.

A saúde das mulheres migrantes também está inter-relacionada a condições precárias de trabalho, exposição a riscos ocupacionais, insalubridade, violência laboral e tráfico de pessoas para trabalho escravo contemporâneo e/ou exploração sexual. Dependendo da localização, rural ou urbana, torna-se ainda mais difícil romper com redes de tráfico humano, o que agrava a vulnerabilidade psicológica e o adoecimento 35. É comum que essas mulheres estejam desempregadas ou inseridas no setor informal 36, o que compromete ainda mais o acesso às redes de cuidado.

As migrantes relatam rotinas exaustivas, com sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado familiar, que impede a fruição de tempo de lazer 36. Além disso, durante a pandemia de COVID-19, mulheres haitianas relataram dificuldades para conciliar o cuidado familiar com o trabalho, uma vez que muitas escolas e creches permaneceram fechadas, situação diretamente relacionada à sobrecarga do trabalho de cuidado 28.

Mulheres congolesas também relatam dificuldades para obter vagas em creches para seus filhos e o peso da divisão sexual do trabalho de cuidado. Além de serem responsáveis pelo cuidado, em alguns casos mencionam estar “a serviço” de seus parceiros, em conformidade com ensinamentos bíblicos cristãos. Ao mesmo tempo, consideram a subsistência econômica uma obrigação masculina, embora desejem encontrar emprego 38. Ainda no que se refere ao trabalho reprodutivo, mulheres venezuelanas são responsáveis pelo cuidado familiar e sentem-se obrigadas a desempenhá-lo 22.

Para aquelas que estão empregadas, as violências e as violações de direitos não são menos presentes. As mulheres bolivianas, por exemplo, são impedidas por seus empregadores de tirar licença-maternidade e de acessar os serviços de saúde, uma vez que qualquer tempo afastado das máquinas representa menos lucro para o capitalismo. Elas também estão distantes das redes de apoio e da família, o que dificulta a a saída das redes de exploração e das violências. Suas condições de trabalho frequentemente beiram a escravidão, com jornadas longas e intensas e salários irrisórios 25.

Uma vez inseridas em oficinas de costura, elas podem deparar-se com condições de trabalho precárias, como a atuação em espaços mal ventilados, com mofo e problemas elétricos (frequentemente as mesmas condições de suas moradias), o que desencadeia problemas respiratórios e distúrbios do sono, bem como distúrbios musculoesqueléticos decorrentes de maquinário não ergonômico e sobrecarga de trabalho. Além de utilizarem seus salários para o próprio sustento e o de seus filhos, elas também enviam parte de sua renda para suas famílias na Bolívia 37.

O status migratório também pode ser utilizado como justificativa para baixos salários 19, exploração laboral, jornadas de trabalho intensas e moradias precárias 21. Soma-se a isso a divisão racial do trabalho, na qual mulheres negras ocupam posições de menor prestígio social, com salários ainda mais baixos e atividades mais precárias 38.

Os artigos sobre mulheres brasileiras no exterior raramente exploram questões de saúde, sendo um dos pontos levantados as dificuldades de acesso a esses serviços 11,32. Quando se encontram em situação migratória irregular, enfrentam dificuldades para acessar serviços sociais, de saúde e de segurança, bem como para exercer seus direitos trabalhistas, sendo o medo da deportação uma realidade 32.

O medo é um sentimento recorrente nas pesquisas sobre mulheres brasileiras 12,30,32. Contudo, também se observam frustração, humilhação e tristeza 12, além de vergonha e culpa 30,32. Caso vivenciem violência obstétrica, xenofobia e racismo, as mulheres brasileiras podem desenvolver depressão pós-parto, o que impacta o autocuidado e a autoestima 11.

Outra questão levantada pelas mulheres brasileiras é a de que são socialmente consideradas como aquelas que “levam” doenças sexualmente transmissíveis para os homens estrangeiros − neste caso, os portugueses −, reiterando a estigmatização e a hipersexualização das mulheres dessa nacionalidade 31. Essa objetificação e discriminação podem causar estresse emocional e sentimentos negativos, como culpa e dificuldade de reagir à violência em situações de assédio perpetradas por homens 30.

As barreiras de acesso aos serviços de saúde no Brasil foram identificadas reiteradamente como um fator social que compromete ainda mais a saúde das mulheres migrantes, as quais se encontram isoladas e privadas do direito ao cuidado 35. Oliveira 36 destaca a discriminação e a xenofobia perpetradas nos serviços de saúde. O uso de expressões xenofóbicas por profissionais durante o parto e o pós-parto também foi identificado 20,37, assim como barreiras culturais e linguísticas 37,39. Tais realidades distanciam ainda mais as mulheres do seu direito à saúde e constituem motivos para a não busca por atendimento em situações de violência doméstica 25.

No que tange às abordagens linguísticas e culturais em saúde, ressalta-se a relevância e a urgência de ofertar programas de mediação intercultural para que as migrantes possam receber atendimento de qualidade e ter seu direito à saúde garantido 39. Deve-se lembrar que um dos motivos para a vinda ao Brasil é a possibilidade de utilização dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), a exemplo da assistência à gravidez e à maternidade, consultas com endocrinologistas e ginecologistas e vacinação 36. Portanto, assegurar um cuidado que considere as dimensões interculturais é fundamental para a prestação adequada da assistência em saúde.

As publicações voltadas à formação de trabalhadoras no Brasil partem desse reconhecimento para construir possibilidades de acesso e cuidado 34,35, considerando a responsabilidade do poder público no enfrentamento das violências contra migrantes, notadamente o tráfico de pessoas nas modalidades de trabalho escravo contemporâneo, exploração sexual, casamento servil e tráfico de órgãos. Essa perspectiva fundamenta o desenvolvimento de propostas de formação para profissionais da rede SUS, que devem ser sensíveis às vulnerabilizações implícitas na exposição a “riscos de contágios, infecções, adoecimentos, sofrimentos psíquicos e transtornos mentais35 (p. 35). O risco significativo para a saúde sexual e reprodutiva 35, bem como a dificuldade de acesso aos serviços que ofertam esse cuidado, é destacado e reconhecido como uma realidade no país 34. Há necessidade de que os serviços identifiquem e intervenham em situações de violência contra mulheres migrantes 34, reconhecendo que muitas podem sofrer violência institucional nos serviços de saúde 35,36.

No que se refere às estratégias de cuidado em saúde mental para mulheres migrantes, encontra-se uma menção importante à criação de um campo específico de produção de conhecimento e cuidado, denominado “‘psicologia do migrante’; ‘antropsiquiatria’; ‘psicologia transcultura’; ‘psicoterapia transcultural’35 (p. 49), a fim de compreender os efeitos da migração na saúde mental, no sofrimento e no adoecimento 35.

A “psicologia da migração” tem se concentrado na análise de fatores macrossociais, carecendo de maior atenção a fatores mais próximos ao indivíduo implicados no adoecimento, tais como aspectos subjetivos, comportamentais, socioculturais e intersubjetivos 35. Contudo, critica-se a perspectiva medicalizante que reduz o sofrimento ao indivíduo e que frequentemente orienta as práticas de cuidado em saúde mental.

Violência e migração: mulheres migrantes no Brasil e brasileiras no exterior

Esta seção apresenta os tipos de violência contra migrantes identificados na amostra, incluindo violência de gênero, racial, xenofóbica e institucional. A migração forçada é compreendida aqui como um fenômeno violento que vulnerabiliza as mulheres ao obrigá-las a se deslocarem de seus locais de origem devido às violências direta, como as violências baseadas em gênero, e às violências indiretas, como a violência estrutural, que torna determinados territórios insustentáveis para a vida − a exemplo da fome, da presença de grupos armados e de desastres climáticos, entre outros fatores 40.

Ressalta-se que, embora alguns documentos façam referência específica a determinados tipos de violência, uma ampla gama de produções 11,12,19,25,29,31,32,33,36,37,38,39 aborda a violência contra migrantes de forma interseccional, evidenciando a complexidade das opressões em seu cotidiano.

A pesquisa de Barata 11, por exemplo, intersecciona e racializa a violência obstétrica, contextualizando as relações coloniais que marcaram o Brasil e Portugal. Oliveira 36, baseando-se em Kimberlé Crenshaw e Carla Akotirene, expõe as opressões de raça, classe social, gênero e nacionalidade, demonstrando que as violências coloniais − como o racismo, a xenofobia e a desigualdades de gênero − influenciam as condições de vida de migrantes e refugiadas. Hora 39 mostra que a violência sexual, obstétrica e armada nos grandes centros urbanos, além do racismo institucional, podem impactar a saúde mental das mulheres congolesas.

Diante do exposto, empreendeu-se um esforço para organizar os tipos de violência segundo sua natureza e suas expressões, a fim de compor um quadro capaz de visualizar a realidade social das mulheres migrantes. No entanto, a intersecções dos tipos de violência descritos em cada artigo ilustram claramente a complexa submissão a estruturas de poder xenofóbicas, misóginas, racistas e classistas, aproximando esse quadro de uma miríade caleidoscópica. Assim, destaca-se que, apesar do movimento em direção à síntese dos estudos, essa perspectiva da complexidade intrincada da violência deve ser considerada.

A fome, enquanto expressão da violência estrutural, é uma realidade para milhões de mulheres e famílias. A amostra identificou que as migrantes vivenciam violências intrinsecamente ligadas à produção de vulnerabilidade 19,20,36: “Faz dois dias que eu não sei o que é comer, tanto por causa da dor quanto pela falta de dinheiro. Às vezes eu penso que se tivesse uma arma já teria ido embora, não aguento mais sofrer assim19 (p. 4). Esse excerto também indica a inter-relação entre a fome e a fragilidade da saúde mental, culminando em uma situação grave na qual a mulher entrevistada relatou ideação suicida.

Outra questão levantada, embora raramente, refere-se à relação direta entre as violências e a saúde das migrantes. Arruda-Barbosa et al. 19 argumentam que a exploração sexual contra mulheres venezuelanas está associada ao sofrimento psicológico, à depressão e à ansiedade. Migrantes que vivenciaram ou vivenciam violência doméstica relatam temer seus parceiros e, quando acolhidas em abrigos, também temem outros homens com quem compartilham o espaço, especialmente quando precisam utilizar os banheiros do local 22. A violência doméstica também está relacionada à depressão, dores de estômago, vergonha, medo, estresse e hipertensão arterial 25. De modo semelhante, a depressão relaciona-se a situações de violências por parceiro íntimo 32.

A subnotificação de casos de violências e feminicídio, bem como falhas no registro de dados, como no campo raça/cor, também configuram um problema grave, especialmente em municípios de pequeno porte, municípios fronteiriços e naqueles com populações indígenas 16. Somam-se a isso as subnotificações de violências contra mulheres migrantes, sobretudo daquelas em situação de tráfico e exploração sexual e em situação migratória irregular, dado que frequentemente se encontram sob o controle de redes criminosas internacionais 34.

O tráfico de pessoas para trabalho escravo contemporâneo (TEC), a exploração sexual e a prostituição forçada ocorrem nas regiões de fronteira do Brasil 16,35, com mulheres bolivianas inseridas no TEC 37, onde as mulheres mais pobres, desempregadas, negras e jovens são as mais expostas a essas violências 35. Em situações de exploração sexual, a condição de refugiada pode intensificar o racismo, a xenofobia, a misoginia e a pobreza 19.

Diversos tipos de violência baseada em gênero foram relatados na amostra, como violência sexual 16,20,21,24,29,39, estupro 19,24, ocorrido no local de trabalho 35 e no contexto de violência armada no país de origem 38; violência psicológica 20,22,35; violência obstétrica 26,37,39; casamento infantil no país de origem como forma de submissão ao patriarcado e às desigualdades de gênero 17; violências nas relações domésticas 18,22,29,38, com abusos físicos e verbais e ameaças psicológicas 22; ameaças com o uso de armas brancas 19; e violência física 24,35 nas relações domésticas, conforme mencionado, também associada ao trabalho sexual 19. As desigualdades de gênero entre estudantes universitárias também foram objeto de um estudo 21.

Além das tipologias de violência já descritas, identificam-se o racismo interpessoal contra mulheres negras ou indígenas 21,29,36,37,39, o racismo institucional nos serviços de saúde 38 e o racismo contra profissionais de saúde cubanas 23. Neste último caso, o racismo manifesta-se quando mulheres brasileiras, nas redes sociais, questionam a profissão dessas profissionais − seriam realmente médicas? − e as tratam como trabalhadoras domésticas 23. Embora não mencionado explicitamente no artigo, observa-se também a misoginia interseccionada a essas violências.

As relações entre racismo, xenofobia e saúde mental são destacadas em três documentos 28,38,39. Em síntese: “Sobre a saúde mental das refugiadas entendeu-se que o sofrimento mental não se restringe a fatores meramente psicopatológicos ou apenas biomédicos, ele ocorre por causas sociais como a precariedade, as injustiças, as perdas, a separação familiar, a xenofobia, o racismo e a violência39 (p. 194).

Diante do exposto, observa-se que diversas formas de violência contra mulheres migrantes se interseccionam em alguns estudos, comprometendo a saúde mental dessas mulheres. Especificamente, a xenofobia é apontada como um tema relevante na amostra 17,19,20,22,28,29,35,36,37, sendo vivenciada diretamente pelas mulheres migrantes e, em alguns casos, por suas filhas e filhos 37,38.

A perseguição política no país de origem é tratada na literatura 36,38 como uma das possíveis motivações para a saída da terra natal, assim como a violência estrutural 18,21, que leva ao deslocamento forçado para outros países em busca de melhores condições de vida 20. As violências também se configuram como motivação para o deslocamento, como no caso de uma mulher que deixou seu lar após sofrer violências física e moral na infância em razão de sua homossexualidade 27.

A violência patrimonial no local de trabalho 19,37, em abrigos para refugiados 22 e por parte de parceiros íntimos 25 também afeta as mulheres, assim como as ameaças de deportação 37. O Estado brasileiro negligencia a migração forçada decorrente de questões ambientais, o que gera precarização nas condições de vida de mulheres que enfrentam desterritorialização, endividamento e envolvimento com o narcotráfico 18, além da violência armada em grandes centros urbanos, como o Rio de Janeiro 39. Destaca-se que apenas um estudo mais recente evidencia também discriminações expressas por meio do capacitismo, do etarismo contra migrantes idosas, da intolerância religiosa, do racismo, do sexismo e da heteronormatividade 20.

Os artigos que apresentam resultados de estudos sobre mulheres brasileiras no exterior contextualizam e historicizam a colonialidade e as representações das mulheres latino-americanas, especialmente em cinco artigos 11,12,30,31,33, ressaltando a importância desse contexto para a compreensão dos discursos perversos e violentos em torno dos corpos das mulheres brasileiras: “O problema está na própria existência do estigma de prostituta, o qual, relacionado com a colonialidade, o sexismo e o racismo, cria papéis e imaginários para as mulheres, sendo as brasileiras consideradas as ‘pecadoras, Evas, prostitutas, disponíveis, inferiores, hipersexualizadas’. O problema está, portanto, no estigma de ‘corpo colonial’, corpo disponível, que atinge todas as brasileiras31 (p. 880).

Mulheres brasileiras no exterior também sofrem violências baseadas em gênero, como a violência obstétrica, marcada por diversos procedimentos invasivos e não consensuais 11. Nesse contexto, há igualmente relatos de racismo e xenofobia no cotidiano 11,30,31,33 e durante a gestação e o parto. As expressões de violência de gênero vivenciadas por brasileiras incluem fetichização, hipersexualização e objetificação, conforme discutido anteriormente 12,30,31,33. A violência sexual também é destacada e vinculada a questões estruturais, como o machismo e a xenofobia, que ampliam medos e inseguranças 30.

Apesar das opressões e violências, os estudos também ressaltam a resistência e o protagonismo das migrantes ao longo de suas trajetórias. São desenvolvidas estratégias para obtenção de emprego e para o cuidado próprio e familiar, com o objetivo de garantir direitos. Observa-se também atuação diante do racismo, explicitando seu caráter discriminatório aos perpetradores, além do reconhecimento da divisão racial do trabalho 38. No caso de mulheres brasileiras em Portugal, há enfrentamento de resistências e promoção de pautas por meio de movimentos sociais em rede, com apoio e participação de outras migrantes e de mulheres portuguesas 31.

Discussão

Vocês partiram o mundo

<

em vários pedaços e

<

chamaram de países

<

declararam posse sobre

<

o que nunca lhes pertenceu

<

e deixaram os outros sem nada

<

− colonizado

Rupi Kaur 41 (p. 137).

As palavras contundentes de Rupi Kaur 41 ecoam nesta revisão de literatura e associam-se aos percursos migratórios de mulheres migrantes no Brasil e de brasileiras no exterior. Evidencia-se que tais mulheres enfrentam a materialização de processos históricos de invasão e colonização que intensificaram inúmeras formas de violências contra seus corpos. Verifica-se que as violências contra migrantes estão circunscritas pela colonialidade de gênero, na qual dominação, relações de poder e o mandato das masculinidades estruturam abusos, violência psicológica, estupro e feminicídio 6. É também no interior do padrão colonial de gênero que “(...) as mulheres e suas proles se tornam vulneráveis e matáveis como nunca antes6 (p. 24).

A revisão demonstra que as violências associada aos processos migratórios representam adversidades enfrentadas por mulheres latino-americanas. Contudo, simboliza também a construção de resistências traduzidas em ações de enfrentamento ao racismo, à xenofobia, ao sexismo, à violência baseada em gênero e à divisão sexual e racial do trabalho, nem sempre acompanhadas por redes de apoio ou por ações estatais voltadas à garantia de direitos. A migração forçada, que engloba pessoas refugiadas, deslocadas internas, solicitantes de asilo, apátridas e migrantes de crise e sobrevivência, caracteriza-se por intensas violações de direitos humanos e por violências contra mulheres 42. Esse processo não se encerra na chegada ao Brasil como país de destino, onde persistem diversas situações de violência com implicações para vida, saúde e trabalho.

Embora alguns estudos enfoquem o status de refúgio e sua relação com violência e saúde 19,20,29,36,38,39, observa-se que as migrações forçadas emergem articuladas às violências, sobretudo quando são motivadas a deixa a terra natal porque são violentadas.

No entanto, destaca-se o fato de que, independentemente do status migratório − inclusive entre aquelas que chegam ao Brasil para fins de estudo 21 −, as violências permanecem recorrentes, o que reafirma a insuficiência de uma única categoria analítica para compreender suas múltiplas expressões. Por seu caráter interseccional e complexo, tais violências não podem ser padronizadas, devendo-se considerar perspectivas históricas e intersecções de opressões relacionadas à nacionalidade, classe social, raça/etnia, status migratório, entre outras 3,7,9.

Ainda que muitos estudos não explicitem ou conceituem a interseccionalidade, parte da amostra 11,12,19,24,25,29,31,32,33,36,37,38,39 evidencia composições de expressões de violência articuladas a iniquidades estruturais, tanto no país de origem quanto no Brasil. Nessa perspectiva, a interseccionalidade, como ferramenta analítica, teórica e metodológica 7, mostra-se fundamental para pesquisas sobre mulheres migrantes, inclusive para a formulação de políticas públicas eficazes que as reconheçam como protagonistas de seus deslocamentos 9.

Os estudos indicam intersecções entre condições de vida, trabalho produtivo − marcado por exploração, precariedade, insalubridade e baixa remuneração − e condições reprodutivas, caracterizadas pela sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado, com repercussões na saúde mental das mulheres migrantes. Observa-se acúmulo de sofrimento, sintomas e adoecimentos, agravados pela intersecção de diferentes formas de violências. Identificam-se casos extremos em que o desejo de pôr fim à própria vida surge como tentativa de interromper o sofrimento 19, inclusive em contextos nos quais o feminicídio não ocorre previamente 16.

No que se refere ao trabalho, a revisão aponta experiências que se aproximam de condições análogas à escravidão contemporânea e à exploração sexual, com impactos no adoecimento físico e mental decorrente da exploração laboral e da violência no ambiente de trabalho. Socialmente responsabilizadas pelo cuidado, muitas mulheres acumulam a criação dos filhos e o sustento familiar sem redes de apoio ou suporte estatal, chegando a criar os filhos em ambientes de trabalho, como ocorre especialmente em oficinas de costura 43, onde espaço laboral e vida familiar se imbricam.

Ao correlacionar sofrimento e adoecimento mental às condições de vida, os estudos adotam uma perspectiva desindividualizada da saúde mental, compreendida não como atributo exclusivamente pessoal, mas como socialmente determinada. Condições de moradia, trabalho, alimentação, circulação, proteção, documentação, acesso a serviços e exposição a violências − como racismo e xenofobia − compõem o quadro de determinação social do processo saúde-doença, contribuindo para a fragilização da saúde física e mental de mulheres migrantes.

Considerando-se o lugar subjetivo e material ocupado por mulheres majoritariamente latino-americanas que buscam proteção e melhores condições de vida, impõe-se o peso da herança colonial que as insere em uma matriz de poder produtora e reprodutora de desigualdades sociais e de restrições quanto aos espaços que lhes são permitidos ocupar, sobretudo quando acumulam marcas de subalternização 44. Assim, raça, gênero, sexualidade, classe social e nacionalidade operam como marcadores de hierarquização que ampliam vulnerabilizações à medida que tais mulheres se distanciam do modelo hegemônico de indivíduo, especialmente em sociedades estruturadas por bases racistas, sexistas, patriarcais e xenofóbicas.

Segundo Lélia Gonzalez 45, tais marcas constituem elementos estruturantes da formação social brasileira, incidindo sobre todas as esferas da vida individual e coletiva e produzindo efeitos diretos e indiretos que naturalizam estereótipos e justificam a exploração sexual, o trabalho insalubre e mal remunerado e a sobrecarga do trabalho reprodutivo, particularmente entre mulheres negras.

Reconhecendo-se que relações sociais e formas capitalistas de matriz colonial influenciam as condições de vida das migrantes 9,46, torna-se inviável homogeneizar suas experiências ou desconsiderar as contradições entre avanços e retrocessos em seus deslocamentos. No campo da saúde mental, além das experiências inerentes aos processos migratórios, fatores econômicos, ausência de documentação e fragilidade de apoio social e familiar podem relacionar-se às demandas por cuidado. Tais dimensões nem sempre são adequadamente compreendidas por serviços e profissionais de saúde, que por vezes adotam perspectivas patologizantes diante de trajetórias plurais e singulares 46.

As experiências de migrantes com os serviços de saúde no Brasil revelam contradições significativas. Embora alguns estudos destaquem o Sistema Único de Saúde (SUS) como via relevante de acesso ao direito à saúde, identificam-se múltiplas barreiras. O acesso e a permanência nas redes de cuidado são condicionados por barreiras linguísticas, violência institucional, racismo e xenofobia presentes nos próprios serviços.

Evidencia-se, portanto, a necessidade de formação específica de profissionais para o atendimento a migrantes, conforme previsto nas diretrizes do SUS. Uma nota técnica recente do Ministério da Saúde referente ao cuidado de migrantes na atenção primária à saúde (APS) estabelece que a garantia da assistência requer respeito à cultura e ao idioma, atendimento independentemente da apresentação de documentos pessoais e disponibilização de materiais em múltiplos idiomas, entre outros princípios 47.

Práticas de saúde culturalmente sensíveis demandam o reconhecimento e a articulação da perspectiva teórico-metodológica da interseccionalidade 7 para ampliar a compreensão dos processos de saúde e adoecimento. No campo da saúde mental, tal abordagem permite superar determinismos reducionistas que responsabilizam indivíduos de forma isolada, incorporando fatores macro, meso e micropolíticos socialmente (re)produzidos. Também oferece subsídios relevantes para políticas públicas fundamentadas no reconhecimento e na assunção de responsabilidade pela formação de serviços e profissionais atentos, sensíveis, acolhedores e mais eficazes no cuidado e atenção às mulheres migrantes, com vistas ao enfrentamento das violências e à proteção de sua saúde física e mental.

Dada a complexidade das relações sociais e históricas que envolvem as migrantes, a proposta de cuidado intercultural no campo da saúde valoriza a reflexão sobre as práticas e os processos socioculturais existentes entre pessoas e grupos, reconhecendo suas heterogeneidades e as influências das desigualdades sociais, do racismo e da violência estrutural na atenção à saúde. É fundamental que as políticas públicas de saúde assegurem maior participação popular para sua efetiva implementação 46,48.

Com base nesta revisão de literatura, recomenda-se maior aprofundamento teórico e metodológico acerca dos agenciamentos das migrantes, que, dia após dia, em seus movimentos sociais, buscam o direito à saúde e ao trabalho, livres de violência e convictas de que são protagonistas de suas próprias histórias, conforme apontam pesquisas sobre interseccionalidade e feminismos negros e/ou decoloniais 6,7,9,45.

Outra abordagem apresentada na revisão refere-se às mulheres brasileiras no exterior. Sob uma perspectiva feminista, destaca-se que a maioria dos artigos aborda a fetichização e a hipersexualização das mulheres brasileiras no Norte Global. Estar distante do país de origem, inserida em outra cultura e vivendo em um território onde se forjou a colonialidade de gênero 6 faz emergir reflexões sobre o sofrimento e os desafios enfrentados na luta cotidiana por melhores condições de vida para si e para suas famílias. Além disso, esse contexto levanta questionamentos acerca das políticas de saúde pública a elas destinadas: quais são essas políticas? Quem é responsável pela prestação de serviços de saúde, considerando sua condição de migrantes? Por outro lado, observa-se que seus movimentos de resistências ecoam globalmente: “Suas vozes falam de experiências de serem mulheres expatriadas, enovelam-se com estruturas macrossociais e conectam-se a lutas pretéritas, revisitadas a partir de uma outra ótica feministas, aquela que tem colocado o mundo de cabeça para baixo33 (p. 23).

Apesar dos contextos heterogêneos do Brasil e dos países do Norte Global para os quais as brasileiras migram, uma diferença relevante reside no fato de que nem sempre há acesso a serviços públicos universais de saúde, como ocorre com o SUS, que, apesar de seus desafios, atende parte da população migrante no país. Entre as semelhanças, a violência destaca-se de forma contundente, evidenciando a necessidade de cuidado ao longo de todo o percurso migratório.

Uma limitação deste estudo consiste na ausência de análise da qualidade metodológica das pesquisas incluídas. A escassez de literatura sobre mulheres brasileiras no exterior também restringiu o alcance para além de Portugal e Inglaterra. Esse percurso, contudo, pode ser explorado em investigações futuras, ampliando-se a atenção à violência que afeta mulheres brasileiras, especialmente quando buscam novas oportunidades no Norte Global.

Considerações finais

Os estudos analisados evidenciam a violência interseccional que incide sobre mulheres migrantes no Brasil e mulheres brasileiras no exterior, reconhecendo-se a impossibilidade de generalizações diante das diversidades de trajetórias e experiências. Ainda assim, verifica-se que as violências se relacionam com o gênero, raça, classe social, nacionalidade, geração, deficiência e status migratório, conforme indicado por pesquisas interseccionais que destacam a complexa interação de opressões responsáveis por suas vulnerabilizações.

No que se refere aos processos de saúde e adoecimento, observa-se que condições de vida e trabalho, segurança alimentar, moradia, mobilidade e acesso — ou sua ausência — aos serviços de saúde e assistência social, bem como situações de violências (racismo, xenofobia, violências baseadas em gênero, etarismo, perseguição política, capacitismo, entre outras), estão inter-relacionadas aos adoecimentos físicos e mentais. Tais fatores, em muitas ocasiões, repercutem no bem-estar e no cuidado de si e da família.

A dinâmica do trabalho familiar, historicamente atribuída às mulheres, especialmente às mulheres negras e indígenas, constituiu uma das abordagens destacadas na revisão. Portanto, o trabalho não remunerado ou sub-remunerado desempenhado por mulheres deve ser considerado nas análises sobre a saúde de mulheres migrantes, uma vez que a sobrecarga de atividades laborais é recorrente. Apesar dos desafios impostos por sistemas de opressões e violências, a revisão evidencia práticas de resistências e protagonismos das migrantes ao longo de suas jornadas. Tais estratégias são projetadas tendo em vista a garantia de direitos enquanto migrantes e mulheres. Nesse sentido, elas não se encontram sozinhas. Por meio de movimentos coletivos, enfrentam e reafirmam as resistências às violências coloniais em um mundo onde “declararam posse sobre o que nunca lhes pertenceu e deixaram os outros sem nada”, conforme dito por Rupi Kaur 41 (p. 137).

  • Disponibilidade de dados
    Os bancos de dados utilizados no estudo, incluindo os códigos de extração, análises e resultados estão disponíveis em repositório: (https://osf.io/c9vba/overview).

Agradecimentos

Este estudo foi financiado pelo Ministério da Saúde (Departamento de Ciência e Tecnologia) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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    Coordenadora de avaliação: Suely Deslandes (0000-0002-7062-3604)

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Os bancos de dados utilizados no estudo, incluindo os códigos de extração, análises e resultados estão disponíveis em repositório: (https://osf.io/c9vba/overview).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Set 2025
  • Revisado
    28 Nov 2025
  • Aceito
    16 Dez 2025
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