Há exatos dez anos, Jurema Werneck assinalou, em artigo 1, que nem mesmo o reconhecimento do racismo como um dos fatores centrais na produção de iniquidades em saúde fora suficiente para que a saúde da população negra - como campo de pesquisa e ação - ocupasse lugar relevante nas Ciências da Saúde. De fato, passada uma década, o tema segue sub-abordado no campo referido por ela, em que o racismo é inclusive frequentemente denegado, evocando aqui o conceito de pacto denegativo, a aliança organizadora de vínculos que possibilita que grupos se organizem em relação àquilo que é tolerável e aceitável para seus membros 2, um mecanismo de defesa social e psicológica muito comum no Brasil, sustentado pela crença no mito da democracia racial brasileira.
Se por um lado o campo da Saúde ainda não enfrenta o debate sobre o racismo em saúde, por outro, na Antropologia o tema tornou-se um campo de pesquisa em expansão nos últimos anos, frequentemente interseccionando com a Antropologia da Saúde. O livro Racismo e Saúde: Perspectivas Antropológicas Contemporâneas3, organizado por Rosana Castro & Ana Cláudia Rodrigues, resulta desse movimento.
Refletindo uma mudança contemporânea observada na Antropologia em relação ao perfil docente e discente, à agência e autoria negras e à visibilidade de suas contribuições - como informam as organizadoras -, as reflexões reunidas na coletânea, de perspectiva anticolonial e antirracista, são todas produzidas por estudantes negras e negros com base em suas pesquisas de mestrado e doutorado, fundamentadas sobretudo na epistemologia feminista negra.
O foco em perspectivas mais contemporâneas estimula a atualização de referenciais bibliográficos, tão necessária nos debates que os tempos atuais instigam. Além desse traço, também chama a atenção na obra o modo como as autoras e os autores dos nove estudos acionam múltiplas vozes em suas análises, valendo-se dos distintos lugares que ocupam como estudantes, antropólogas e antropólogos, ativistas, e mulheres e homens negros, marcadores indissociáveis nas interpretações realizadas, todas elas permeadas pela interseccionalidade de raça, gênero e classe, entre outras.
Ao apostar na perspectiva do “Eu sobre o Outro” para a ótica do “Nós sobre Nós”, o livro aponta uma importante inflexão: abandona a perspectiva em que o Eu - sujeito universal branco - define e estuda o não branco como o Outro - o “não-ser” 4 - para adotar uma perspectiva situada onde sujeitos racializados e subalternizados constroem saberes baseando-se em suas próprias vivências e/ou de sua comunidade.
Os estudos antropológicos podem funcionar - e frequentemente funcionam - como instrumentos de denúncia. A Antropologia, por meio de métodos como a Etnografia, permite documentar violações de direitos e desigualdades raciais como as descritas no livro, as quais são muitas vezes invisibilizadas ou naturalizadas. Nesse sentido, todas as reflexões da coletânea indagam o racismo de forma situada, posicionada e engajada, sustentando compromissos éticos e políticos de denunciar negligências, silenciamentos e denegações.
“Você não encontrará neste texto imparcialidade, e sim uma etnografia feminista encarnada e situada” (p. 75), informa uma das autoras logo no início de seu texto, em que entrelaça a escrevivência e a autoetnografia para relatar situações de negligência e maus-tratos sofridos pela tia, primas e irmã nos serviços de saúde de municípios da Região Metropolitana de Manaus, no Amazonas, que resultaram, inclusive, na morte da irmã, vítima fatal de procedimentos médicos mal realizados durante o parto.
Os compromissos ético-políticos assumidos pelas autoras e autores em suas escritas se expressam de vários modos nas páginas do livro, seja questionando a negligência por trás dos casos de mortalidade materna ou na atenção às mulheres negras com traço falciforme, seja indagando o sistema de morte silenciosa que envolve as pessoas negras no contexto da aids ou inquirindo a denegação do racismo nos documentos que orientam a formação de graduandos em Psicologia de uma universidade.
Esses efeitos do racismo nos roteiros de algumas doenças e na formação médica geraram, nos últimos anos, a produção de engajamentos antirracistas, que colocam em perspectiva as especificidades da Lei de Cotas, da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e de práticas coletivas e individuais.
Tais questões são discutidas na segunda parte da coletânea, iniciada por um estudo que discute o histórico mutualismo entre medicina e branquitude e o efeito das cotas raciais na propositadamente embranquecida Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde até o fim do século passado a presença negra só se materializava nos “corpos não reclamados”, usados como objetos de estudo nas aulas de anatomia.
Digo “propositadamente embranquecida” porque na medida que o texto avança, detalhando a forma como essa exclusão foi construída historicamente na base sólida do pacto narcísico da branquitude 5, vamos percebendo como acontecem as dinâmicas de produção social do racismo institucional, favorecidas por contextos e estruturas sociais, políticas e econômicas que organizam as relações de poder. Trazendo a discussão para os dias atuais, o autor analisa como o ingresso de estudantes negras e negros naquela Faculdade (com a implementação das cotas raciais) desestabilizou o pacto narcísico e possibilitou a criação de um coletivo negro atuante, frente à persistente desproporção racial.
A leitura dos textos da coletânea inevitavelmente desperta lembranças em pessoas racializadas. Movido por uma dessas memórias, compartilho um pequeno relato de experiência: como jornalista de ciência e saúde, lembro do meu grande desconforto quando, na minha primeira cobertura de um congresso médico, por acaso realizado em Belo Horizonte, deparei-me com uma demarcada separação racial na festa que oficialmente abria o evento: de um lado, a categoria médica, toda branca, em seus vestidos longos e black ties; de outro, garçons e garçonetes, todos negros, que circulavam com suas bandejas pelo salão. O apartheid colonialista daquela noite nunca mais me saiu da cabeça. A leitura desse artigo em questão me fez enxergar com clareza - passados todos esses anos - que o que se passava naquela noite era a operacionalidade do ideário estético que atribui valor à categoria médica no imaginário social. Para ser médico, tem de ter “cara de médico”, nos lembra o autor.
O artigo seguinte da coletânea nos lembra que nem sempre o racismo ocorre de maneira direta. Muitas vezes, seus efeitos aparecem como uma “presença ausente”, ideia sugerida por M’Charek et al. 6 e utilizada pelo autor como referencial de análise. Partindo da instigante pergunta - É preciso racializar o cuidado? -, ele reflete sobre a importância de se considerar as especificidades da saúde da população negra quando se planeja a organização do cuidado.
Neste momento, o livro nos conduz a um debate ainda inacabado, que tomou corpo no contexto de implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e que coloca de um lado os que defendem a racialização do cuidado como uma proposta positiva para a efetivação da universalização e da equidade e, de outro, as forças contrárias, que não reconhecem o racismo como um determinante social de saúde e negativamente classificam o campo saúde da população negra como um esforço de “racialização das políticas de saúde”, atribuindo a ele o distanciamento da luta pela universalização da saúde 7.
A questão das especificidades em saúde segue presente nos capítulos finais do livro, nos quais são desenvolvidas discussões interessantes sobre o racismo obstétrico e práticas específicas de letramento racial voltadas a vítimas de violência obstétrica, e sobre o autocuidado de mulheres negras com base no cultivo de plantas.
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- 1 Werneck J. Racismo institucional e saúde da população negra. Saúde Soc 2016; 25:535-49.
- 2 Costa ES. Vínculos, grupos e redes em prol da vida ou na pactuação racista para a produção de morte. Revista da ABPN 2020; 12(Edição Especial):78-107.
- 3 Castro R, Rodrigues AC. Racismo e saúde: perspectivas antropológicas contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2025.
- 4 Carneiro S. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar; 2023.
- 5 Bento MAS. Pactos narcísicos do racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público [Tese de Doutorado]. São Paulo: Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo; 2002.
- 6 M'Charek A, Schramm K, Skinner D. Technologies of belonging: the absent presence of race in Europe. Sci Technol Human Values 2014; 39:459-67.
- 7 Faustino DM. A universalização dos direitos e promoção da equidade: o caso da saúde da população negra. Ciênc Saúde Colet 2017; 22:3831-40.
