Open-access Trinta anos da Ciência & Saúde Coletiva e a inserção da Saúde Ambiental: avanços e desafios

Treinta años de Ciência & Saúde Coletiva y la inserción de la Salud Ambiental: avanzos y desafíos

Resumo

O artigo faz um balanço do modo como o tema da Saúde Ambiental vem sendo inserido e tratado na Ciência & Saúde Coletiva (C&SC). De início, cita palavras de seus editores chefe, no aniversário de 20 anos do periódico, sobre os enfoques privilegiados e algumas estatísticas sobre os temas publicados até aquela data. Em seguida, descreve algumas definições e a evolução do tema Saúde Ambiental. Posteriormente, retrata análise feita nos volumes dos 10 anos recentes, baseada em busca de artigos publicados no tema, anualmente. Resultados indicaram oscilações e até uma retração na porcentagem de publicações dedicadas ao tema, que caíram de 7% no período anterior, para 3%, em que pese o agravamento da crise ambiental no planeta e um apelo das associações e publicações da área da saúde de que a saúde precisaria um enfoque planetário, em que as ameaças de mudanças climáticas e a perda de biodiversidade precisariam ser incorporadas em políticas de saúde. Os temas dos artigos publicados revelam uma rica produção de evidências para embasar ações presentes e futuras, mas há uma agenda de pesquisa ainda pouco tratada no periódico.

Palavras-chave:
Saúde ambiental; Produção científica; Pesquisa; Divulgação

Abstract

The article takes stock of how Environmental Health is inserted and addressed in the Journal Ciência & Saúde Coletiva (C&SC). Initially, references are made to the editor’s words on the 20th anniversary of the Journal on the privileged focus and statistics up to that date. Secondly, it describes some Environmental Health definitions. Then, it presents the results of an analysis performed in all the volumes published in the last ten years based on articles published on the theme yearly. Results indicated variations and even a decline in the percentage of publications dedicated to the field, from 7% to 3%, despite the aggravated environmental crisis on the planet and the call from associations and publications of the health sector that health needs a planetary focus in health policies due to climatic changes and biodiversity loss. The themes in the articles published reveal rich evidence production for current and future actions, in contrast to a poor research agenda still addressed in C&SC.

Key words:
Environmental health; Scientific production; Research; Publication

Resumen

El artículo hace un balance de la forma en que el tema de la Salud Ambiental ha sido insertado y tratado en la Ciência & Saúde Coletiva (C&SC). En primer lugar, cita palabras de sus editores jefe, en el 20º aniversario de la revista, sobre los enfoques privilegiados y algunas estadísticas sobre los temas publicados hasta esa fecha. A continuación, se describen algunas definiciones y la evolución del tema de la Salud Ambiental. Posteriormente, se retrata un análisis realizado en los volúmenes de los últimos 10 años, a partir de una búsqueda de artículos publicados sobre el tema, anualmente. Los resultados indicaron oscilaciones e incluso una retracción en el porcentaje de publicaciones dedicadas al tema, que bajó del 7% en el período anterior, al 3%, a pesar del agravamiento de la crisis ambiental en el planeta y del llamado de las asociaciones y publicaciones del área de la salud a que la salud necesitaría un enfoque planetario, en el que las amenazas del cambio climático y la pérdida de biodiversidad deberían incorporarse a las políticas de salud. Los temas de los artículos publicados revelan una rica producción de evidencias para apoyar las acciones presentes y futuras, pero existe una agenda de investigación que aún es poco abordada en la revista.

Palabras clave:
Salud ambiental; Producción científica; Investigación; Publicaciones

Introdução

O aniversário de 30 anos do periódico Ciência & Saúde Coletiva traz o desafio de traçar os caminhos percorridos e apontar para o futuro. Dentre os diversos e ilustres editores associados convidados para discutir estas questões, nas diversas áreas da Saúde Coletiva, coube-me, como editora associada, o papel de discutir a relação entre a Saúde e o Meio ambiente, no âmbito deste importante periódico científico.

Ao completar 20 anos, em 2015, o periódico publicou um artigo, de autoria de seus editores Maria Cecília de Souza Minayo e Romeu Gomes, em que discutiam o papel da revista Ciência & Saúde Coletiva na disseminação de conhecimento no país e no exterior, os novos desafios enfrentados à época e o papel da revista na consolidação do campo da saúde pública. Na ocasião, consideravam superado o questionamento havido na criação da revista, em 1996, sobre porque a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) deveria ter um periódico científico. Ressaltavam que, em 2015, os desafios eram dois pontos de uma tensão promissora: o compromisso com o SUS (Sistema Único de Saúde) e a intensificação da internacionalização dos conhecimentos que a revista divulgava. Havia uma nítida preocupação dos editores com a saúde como um bem público, no caso ainda bastante centrado na provisão de serviços de saúde em diferentes níveis de atenção à população brasileira, haja vista que o SUS é um sistema de saúde brasileiro. Quanto à internacionalização, se prendia mais ao “movimento nacional de internacionalização e de adesão aos avanços das teorias, tecnológicas e práticas de divulgação científica e seus desafios no curto prazo. Isso inclui desde os mais simples processos de padronização até a discussão acalorada dos parâmetros de medição do impacto dos textos nela publicados”1 (p.2015).

Minayo e Gomes1 comentam que, na criação da revista, haviam sido convidados autores para participar da sua construção, com a publicação de artigos. Destacavam seu enfoque:

Sem deixar de fora a contribuição do núcleo duro do pensamento do campo, que tradicionalmente congrega epidemiologia, planejamento e ciências sociais, desde então integra a multiplicidade de olhares de outras disciplinas, como por exemplo, saúde bucal, história, demografia, enfermagem, educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia social e psiquiatria, conquanto se orientem para a análise e avaliação dos problemas de saúde e qualidade de vida da população brasileira1 (p.2015).

Percebe-se, por esta citação, o principal foco do periódico em ciências ligadas à saúde, e a ausência da preocupação com a questão ambiental, ou mesmo com a saúde global, ou seja, de todos os povos do mundo. A saúde ambiental e a saúde global não foram mencionadas pelos editores.

Entretanto, ao fazer um levantamento dos temas publicados em artigos, nos 20 primeiros anos de existência da revista, Minayo e Gomes1 (p.2017) afirmam que o quarto tema por ordem de quantidade era Saúde e Ambiente, com 7% dos artigos (67 artigos). Lembraram do intenso e efervescente debate sobre a questão ambiental no mundo e no Brasil, desde o final da década de 1980 e início dos anos 1990, quando, em 1992, o Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente, a ECO 92, popularmente chamada de Rio 92. Aparentemente, as questões ambientais vieram se inserindo lentamente e sem alarde, ou política editorial definida, no conteúdo temático e acadêmico da Ciência e Saúde Coletiva. De fato, o distanciamento dos pesquisadores da saúde pública das questões ambientais era quase que geral no país e se retrata em outra estatística divulgada1.

Dos 70 artigos sobre saúde pública e ambiente disponíveis na Scielo, em 19 de março de 2015, 21% foram publicados pela Ciência e Saúde Coletiva, que então ficou em primeiro lugar no conjunto dos principais periódicos de Saúde Pública1 (p.2017).

Em 2020, quando a Ciência & Saúde Coletiva completou 25 anos, um número especial da efeméride, contou com o artigo Saúde e Ambiente nos 25 anos da Ciência & Saúde Coletiva, liderado pelo médico e pesquisador Nelson Gouveia2, em coautoria com diversos outros autores, com atuação de destaque no tema. Nesse artigo, os autores fizeram um levantamento em todos os números prévios do periódico, e identificaram 248 artigos na interface Saúde e Ambiente, que representava 5% da produção, em 25 anos. Em que pese destacarem a crescente relevância do tema no âmbito da Abrasco, é de se notar a redução do interesse relativo a outros temas, com queda de 7% para 5%.

Saúde Ambiental é uma área da Saúde Pública relativamente recente, data da segunda metade do século XX. No entanto, como campo do saber, tem origens há mais de 2 mil anos, quando Hipócrates, na Grécia Antiga, escreveu a obra Dos Ares, das Águas e dos Lugares.

A definição de Saúde Ambiental vem evoluindo ao longo do tempo, mesmo no âmbito da Organização Mundial de Saúde, refletindo preocupações das sociedades e da classe científica. O conceito também depende da instituição que o utiliza e dos objetivos a que se propõe.

Destacam-se, dentre as definições, as seguintes:

  • Da Organização Mundial de Saúde, de 1972: Saúde Ambiental diz respeito ao controle de todos os processos físicos, químicos e biológicos, influências e fatores que exercem ou podem exercer, por meio direto ou indireto, um efeito significativo no bem-estar físico, mental ou social do homem e sua sociedade.

  • Da Organização Mundial de Saúde, de 1989: Saúde Ambiental compreende aqueles aspectos da saúde humana e da doença que são determinados por fatores do ambiente. Também se refere à teoria e à prática de avaliar e controlar os fatores do meio ambiente que potencialmente podem afetar a saúde.

  • Da Organização Mundial da Saúde, de 1993, na carta de Sofia: Saúde Ambiental são todos aqueles aspectos da saúde humana, incluindo a qualidade de vida, que estão determinados por fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos do meio. Também se refere à teoria e prática de valorar, corrigir, controlar e evitar aqueles fatores do meio ambiente que potencialmente possam prejudicar a saúde de gerações atuais e futuras.

Estas três definições, de uma mesma instituição, nos permitem ver a evolução do conceito. Na década de 1970, as preocupações focavam-se nos processos físicos, químicos e biológicos que poderiam afetar o bem-estar do homem e da sociedade. A definição parecia se prender ao diagnóstico de situações. Ainda não havia referência ao papel daquela ciência em prevenir os fatores do ambiente que causavam danos à saúde. Na década de 1980, há um enfoque no estabelecimento de teoria e prática para avaliar e controlar os fatores do meio ambiente danosos à saúde, seguindo os avanços científicos e tecnológicos no âmbito de controle das poluições, nos diversos elementos do meio. Por fim, no início da década de 1990, percebe-se uma nítida influência da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, quando o termo desenvolvimento sustentável, cunhado no relatório Brundtland, se populariza como aquele que atende às necessidades das gerações presentes sem prejudicar as gerações futuras. Outros pontos importantes da definição de 1993 são a inclusão de aspectos psicológicos do meio e do termo qualidade de vida, ampliando, portanto, o escopo da saúde ambiental; e a referência à prevenção (evitar). Desta forma, há um aumento da complexidade do termo e das áreas de atuação que contribuem para a saúde ambiental3, além de seu compromisso com o presente e o futuro.

Outro ponto a se destacar é que a doença deixa de ser o foco principal, se bem que ainda bem presente em definições mais atuais.

O sítio eletrônico da Associação Americana de Saúde Pública assim a definiu: Saúde Ambiental é o ramo da saúde pública que enfoca a relação entre as pessoas e o seu ambiente; promove a saúde e o bem-estar humanos; e objetiva comunidades saudáveis e seguras. Segundo aquela associação, a saúde ambiental é componente chave de todo sistema integral de saúde pública, garantindo que todos tenham um lugar seguro para viver, aprender, trabalhar e se divertir. Entretanto, comunidades negras, indígenas, de cor e de baixa renda são desproporcionalmente sobrecarregadas por riscos à saúde ambiental, racismo sistêmico e estrutural e desinvestimento, impactando negativamente sua saúde e bem-estar. O campo da saúde ambiental promove políticas e programas que reduzem a exposição a produtos químicos e outros produtos ambientais no ar, água, solo e alimentos4.

No Brasil, a Abrasco só reconheceu a importância de organizar um grupo temático GT “Saúde e Ambiente” no V Congresso Brasileiro de Epidemiologia, de 2002, seis anos depois da criação da revista Ciência & Saúde Coletiva. O objetivo do GT era “para, de maneira mais organizada, participar da luta pelo desenvolvimento sustentável, através da ação política no campo da saúde coletiva, em busca de ambientes saudáveis e da promoção da Saúde”5. O grupo reconheceu dois eixos principais para o desenvolvimento das políticas de saúde e ambiente: Desenvolvimento/sustentabilidade voltado para ações intersetoriais e interdisciplinares e ações em saúde e ambiente, de caráter mais setorial6.

A Produção em Saúde e Ambiente na revista Ciência & Saúde Coletiva nos 10 anos recentes

A produção de artigos no eixo de Saúde e Ambiente foi computada, pela editoria da revista, a partir de Relatório total de artigos por área de conhecimento, de março de 2014 a 2024. Nesse período, o total de artigos recebidos pelo periódico, que não foram descartados pelos editores chefe em uma primeira avaliação, e foram encaminhados para editores associados das diferentes áreas temáticas da revista, somaram 14.923 manuscritos. Dentre esses, foram encaminhados para editores associados na área de Saúde e Ambiente 540 artigos, representando 3% da produção recebida. Aparentemente, em que pese uma produção maior, houve uma queda /diminuição proporcional de artigos submetidos na área de conhecimento Saúde e Ambiente, de 7%, entre 1996 e 2015, para 3%, na última década. Isto se deu em contexto de um agravamento das questões ambientais, com aceleração de mudanças climáticas, desastres naturais e antrópicos e enormes impactos sobre a saúde pública.

Dentre os artigos submetidos, foram aprovados para publicação somente 81, incluindo artigos de autoria de editores associados à época, em números temáticos.

Pergunta-se, então, por que este distanciamento do tema Saúde e Ambiente em um dos mais relevantes periódicos da Saúde Coletiva brasileira, ou da própria Saúde Coletiva brasileira, representada pela Abrasco e pela área da CAPES (Coordenação de apoio ao Ensino Superior) do Ministério da Educação. Ou por que pesquisadores da Saúde Ambiental não direcionam suas publicações para o periódico?

Estudos publicados em meados da década passada demonstraram que 23% das mortes totais do mundo e 26% das mortes de crianças abaixo de 5 anos se devem a fatores ambientais evitáveis. As principais causas de morte relacionadas a estes fatores ambientais são: acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas isquêmicas, câncer, diarreia e infecções respiratórias. E as pessoas de países de baixa renda são as que recebem a maior carga dessas doenças7.

Esses dados embasaram decisões de chefes de estado que, em 2015, adotaram os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) como política principal da Organização das Nações Unidas para 2030. Estes ODSs baseiam-se em forte ação intersetorial para criar ambientes mais saudáveis e melhorar a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo.

No item seguinte, analisa-se o assunto dos artigos publicados, anualmente, na revista Ciência & Saúde Coletiva, no eixo temático de Saúde e Ambiente, para verificar a evolução dos temas tratados na revista por pesquisadores da Saúde Coletiva/Pública.

Temas de Saúde e Ambiente abordados em artigos publicados na Ciência & Saúde Coletiva

A autora deste manuscrito empreendeu uma busca na página da revista, procurando artigos publicados no eixo temático Saúde e Ambiente, em maio de 2025. A busca foi feita a partir de leitura dos títulos dos artigos publicados em todos os números da revista a partir do início de 2015. Foram identificados 99 artigos no eixo temático Saúde e Ambiente, de um período de 10 anos e meio. Este número é ligeiramente superior ao encontrado pela editoria do periódico, pois alguns deles podem ter sido encaminhados para outro editor associado, que não o de Saúde e Ambiente, por tratar-se de um tema transversal.

Em 2015, 10 artigos foram publicados sob a editoria de Saúde e Ambiente, com uma maior entrada em cena de aspectos socioambientais, tais como homicídios; acidentes de transporte; uso de álcool e sexo desprotegido; cuidados domiciliares; diagnóstico participativo no entorno de complexo petroquímico; queimadas na Amazônia (um dos poucos temas recorrentes); cepas de Aedes aegypti e um em uma vertente mais tecnológica, sobre uso de modelos fuzzy para avaliar tempo de internação por doenças cardiovasculares.

Em 2016, foi publicado um número especial sobre questões ambientais relacionadas à água e saúde e à educação ambiental, incluindo a disponibilidade de fósforo nas águas pelo uso de detergentes; a potabilidade do uso recreativo das águas; a fluoretação em água de abastecimento; os emissários submarinos de esgotos para reduzir riscos à saúde. Em 2017, um número temático sobre Vigilância, publicou dois artigos sobre agrotóxicos; um sobre organismos geneticamente modificados e 1 sobre saberes sociais pela preferência de água de consumo. Em 2016 e 2017 foram publicados 11 artigos, com alguns temas livres novos, como a influência ambiental na incapacidade física; a carga de retardo mental leve atribuída à exposição pré-natal ao metil mercúrio na Amazônia; a luta dos povos indígenas por saúde em contexto de conflitos ambientais; a influência das condições socioambientais na hipertensão arterial de comunidades ribeirinhas da Amazônia; variáveis climáticas na prevenção de infecções respiratórias agudas. Como artigo mais teórico há o modelo FPSEEA no gerenciamento de serviços de saúde.

Em 2018 foram publicados 9 artigos, a maior parte sobre efeitos de contaminantes químicos à saúde: mercúrio em comunidades ribeirinhas da Amazônia; fluoreto em crianças do semiárido; NO2 em crianças do Rio de Janeiro; pesticidas em estudantes e suas famílias em Friburgo-RJ; fósforo nas águas. Ademais, um trata do esgotamento sanitário em área do Rio de Janeiro; um discorre sobre influências socioambientais em hipertensão arterial de ribeirinhos; dois discorrem sobre aspectos conceituais, em especial a Agenda 2030.

Em 2019, 11 artigos foram publicados no eixo Saúde e Ambiente. Três trataram de efeitos à saúde da poluição atmosférica; quatro trataram de efeitos de agrotóxicos nas águas e em trabalhadores rurais. Dois artigos trataram dos resíduos sólidos urbanos, como fator de risco para dengue e como risco aos trabalhadores em galpões de reciclagem. Dois enfocaram aspectos gerenciais, como o controle social e a ação dos conselhos municipais em políticas de saneamento.

Em 2020 foram publicados 12 artigos na relação saúde e ambiente. Um, já mencionado, faz um balanço da produção de artigos no tema, na revista. Outros tratam de assuntos variados, três de saneamento e sua relação com arboviroses, leishmaniose e saúde indígena; quatro de poluição química; um de desastres naturais; um de acidentes ofídicos; um de efeitos de ruído e um de influência do clima em casos de asma. Dois destes artigos tratam de locais que não o Brasil (Índia e México).

Em 2021, o volume 26, número 10, teve como tema especial: Ciências diante de questões contemporâneas da saúde global. O artigo de destaque foi “Global health and planetary health: perspectives for a transition to a more sustainable world post Covid-19”, que dá uma visão mundial do tema, diferentemente dos artigos frequentes no periódico, que tratam de questões locais e territorializadas. No total do ano, 14 artigos enfocaram a Saúde Ambiental. Além deste, há artigos sobre emergências e desastres; mudanças climáticas e mudanças produtivas; inundações; dois sobre efeitos de agrotóxicos, sendo um sobre ideação suicida; exposição a metais; derramamento de petróleo; alguns têm enfoque mais qualitativo sobre participação de comunidades e comportamentos.

Em 2022, 10 artigos foram publicados no eixo. Destes, cinco tratam de mudanças climáticas, ou aspectos do clima que afetam a saúde; dois tratam de efeitos de agrotóxicos; um de efeitos do mercúrio em crianças e adolescentes da Amazônia; um analisa a cobertura e a qualidade da água de abastecimento em diferentes regiões do país e um destaca os conflitos e vulnerabilidade socioambiental em área canavieira.

No ano de 2023, foram publicados 10 artigos, com destaque para o tema do saneamento (cinco artigos), possivelmente motivados por processo de concessão de companhias de saneamento à iniciativa privada no país. Os restantes trataram de riscos de agrotóxicos; agricultura urbana; sistemas alimentares no Brasil, Colômbia e Panamá; resíduos de descarte de medicamentos e vigilância popular.

O ano de 2024 surpreendeu com só 3 artigos sobre o tema, sendo um ano com desastres ambientais catastróficos no Brasil: as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, a seca sem precedentes e o baixo nível dos rios na Amazônia, com impactos incalculáveis à saúde e aos serviços de saúde. Os artigos publicados versaram sobre biodiversidade e saúde; um sobre acesso a água para consumo no Amazonas; um sobre efeitos de agrotóxicos a comunidades indígenas. Identifica-se uma falta de prontidão de pesquisadores e da própria revista de lidar de forma ágil com grandes crises de saúde pública e ambiental.

Em 2025 (volume 30, número 1) houve um número temático sobre Saúde e Sustentabilidade, com cinco artigos. Os temas tratados foram: população das águas, saúde e ambiente no baixo Amazonas; impactos das políticas e dos planos municipais sobre indicadores de saneamento básico; relação temperatura e ambiente em internações por doenças respiratórias em Cuiabá; determinação socioambiental da saúde em territórios produtores de cana-de-açúcar em Pernambuco; associação entre exposição ocupacional a agrotóxicos e ototoxidade em Pontal do Paranapanema, São Paulo.

Desafios atuais e futuros

Nos últimos 10 anos, em nenhum ano se alcançou o total de artigos de 2012, quando 31 artigos no tema foram publicados pela revista, refletindo os 20 anos de Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, a Rio +20, com grandes comemorações. Entretanto, já em 2013, parece ter havido um refluxo de interesse dos autores da revista em temas de saúde ambiental, pois só cinco artigos foram publicados na interface saúde e meio ambiente. Também em 2014, somente um número especial, sobre desastres naturais e impactos no setor saúde, com 12 artigos, se dedicou a esta interface saúde e ambiente.

Em quase todos os anos, há um número inferior de artigos em Saúde Ambiental ao número de volumes da revista (12 ao ano). O tema vem se inserindo ainda de forma muito tímida no periódico. O esforço dos editores, com chamadas temáticas e números especiais, tem conseguido atrair maior número de estudos, mas o fôlego logo se perde por livre demanda. De certa forma, a análise temática demonstrou uma evolução dos temas e uma maior ampliação de seu entendimento, com maior peso para aspectos sociais, como é a tradição da revista, uma ampliação de inter e multi disciplinaridade, mas ainda muito distante do potencial e da necessidade atual. A emergência ambiental, que se apresenta no presente e se delineia no futuro, não tem ainda ressonância na produção científica da área. A vertente relevante da Saúde Ambiental de mostrar soluções também tem se mostrado com tibieza, em comparação aos diagnósticos e críticas.

Como temas de destaque, nesses anos, aparece a poluição química, muito na tradição norte americana, e sobretudo o impacto de agrotóxicos à saúde. A preocupação com os pesticidas está mais no rastro da posição da Abrasco no questionamento do uso intensivo de pesticidas no Brasil, o maior consumidor mundial do produto. Há, também, uma recorrência de estudos sobre impactos de mercúrio e da má qualidade das águas em populações ribeirinhas da Amazônia. Possivelmente, grupos de pesquisa de grande envergadura e duração optam por fazer divulgação de seus resultados de pesquisa no periódico, daí a recorrência de alguns temas e a ausência de outros.

Em vista da dimensão da poluição atmosférica como problema de saúde ambiental global, o tema é tratado de forma bastante tímida na revista, sem uma preocupação maior com o trânsito de veículos e a mobilidade urbana, os maiores responsáveis por esta poluição. A própria relação clima e saúde só bem recentemente, e de forma tardia, aparece como objeto de pesquisa no periódico, lembrando que o Acordo de Paris sobre o Clima data de 2015. Há poucos artigos a tratar do importante tema de clima e saúde no contexto de mudanças climáticas.

Também no campo da internacionalização, a despeito dos avanços nas indexações internacionais, do aumento da classificação para A1, a nota máxima, recebida pela CAPES, e da publicação de vários artigos em outros idiomas, as pesquisas publicadas ainda se referem, em sua ampla maioria, a locais, cidades, estados, regiões e, quando mais amplas, ao Brasil. A produção de evidências científicas, retratada na Ciência e Saúde Coletiva, é para ser comemorada e elogiada, pois embasa políticas e programas mais efetivos e contribui para reduzir a iniquidade em saúde no país. No entanto, sob enfoque de Saúde Planetária e Saúde Global, um olhar para a busca da sustentabilidade do planeta e da equidade em saúde no mundo, exige, também, um olhar para as grandes questões globais e para o aprendizado e troca de experiências com outros locais e populações do mundo.

Referências

  • 1 Minayo MCS, Gomes R. Ciência e Saúde Coletiva no contexto nacional e internacional da divulgação científica. Cien Saude Colet 2015; 20(7):2013-2022.
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  • 4 American Public Health Association (APHA) [Internet]. [cited 2025 maio 23]. Available from: www.apha.org/topics-and-issues/environmental-health
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  • 7 Prüss-Ustün A, Wolf J, Corvalán C, Bos R, Neira M. Preventing disease through healthy environments: a global assessment of the burden of disease from environmental risks. Geneva: WHO; 2016.
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vânia de Matos Fonseca

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Set 2025

Histórico

  • Recebido
    03 Jun 2025
  • Aceito
    04 Jun 2025
  • Publicado
    06 Jun 2025
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