Resumo
O objetivo é compreender o adolescer no contexto da pandemia da COVID-19. Estudo orientado pela Teoria Fundamentada nos Dados na vertente pós-positivista sob o referencial do Interacionismo Simbólico. A amostragem teórica foi composta por 23 adolescentes que foram entrevistados em profundidade ao longo de 2021. A análise por codificações aberta, axial e seletiva conduziu a uma teorização deste adolescer. Intersectados pelo isolamento imposto e pelo significado das interações sociais para o adolescer, os participantes buscaram escolhas relacionais para se ajustarem e perseguir seus projetos. Envolveram-se nos ciberespaços para resgatar interações com pares e, simultaneamente, manejaram relações familiares percebidas enquanto duais, próximas, intensas, mas conflituosas. Destarte, o enfrentamento requereu lidar com sentimentos e abertura ao novo. Avançaram na autonomia, no reconhecimento de si e do outro. Sob o entendimento de existirem conexões significativas para a continuidade do seu projeto e processo de desenvolvimento, adolescentes ajustaram-se ao contexto social imposto por meio de escolhas interacionais
Palavras-chave:
Adolescente; Identidade social; Pandemias; Enfermagem; Teoria fundamentada
Abstract
The aim is to understand adolescence in the context of the Covid-19 pandemic. Study guided by Grounded Theory in the post-positivist aspect under the framework of Symbolic Interactionism. The theoretical sample consisted of 23 adolescents who were interviewed in depth in 2021. The analysis using open, axial and selective coding led to a theorization of these adolescents. Intersected by the imposed isolation and the meaning of social interactions for adolescence, the participants sought relational choices to adjust and pursue their projects. They got involved in cyberspace to rescue interactions with peers and, simultaneously, managed family relationships perceived as dual, close, intense, but conflicting. Thus, the conflict required dealing with sentiments and being open to new things. They advanced in autonomy, recognition of themselves and others. On the understanding that there are significant connections for the continuity of their project and development process, adolescents adjusted to the social context imposed through interactional choices.
Keywords:
Adolescent; Social identification; Pandemics; Nursing; Grounded theory
Resumen
El objetivo es comprender el “adolescer” en el contexto de la pandemia de COVID-19. Estudio guiado por la Teoría Fundamentada en los Datos desde la perspectiva postpositivista en el marco del Interaccionismo Simbólico. La muestra teórica estuvo compuesta por 23 adolescentes que fueron entrevistados en profundidad a lo largo de 2021. El análisis mediante codificación abierta, axial y selectiva permitió teorizar este “adolescer”. Atravesados por el aislamiento impuesto y el significado de las interacciones sociales para el “adolescer”, los participantes buscaron opciones relacionales para adaptarse y llevar adelante sus proyectos. Se involucraron en los ciberespacios para rescatar las interacciones con sus pares y, simultáneamente, gestionaron relaciones familiares percibidas como duales, cercanas, intensas, pero conflictivas. Por lo tanto, la confrontación requirió lidiar con los sentimientos y abrirse a cosas nuevas. Avanzaron en autonomía, reconocimiento de sí mismos y de los demás. Bajo la comprensión de que existen conexiones significativas para la continuidad de su proyecto y proceso de desarrollo, los adolescentes se ajustaron al contexto social impuesto por medio de elecciones interaccionales.
Palabras clave:
Adolescente; Identidad social; Pandemias; Enfermería; Teoría fundamentada
Introdução
O adolescer remete à experiência de individuação circunscrita à vida sociocultural1, sob uma complexa e dinâmica interconexão entre vivências passadas e atuais, desdobradas em crescente reconhecimento de si1-4. Transformações biopsíquicas e de relações sociais5 ocorrem, com vistas a projetos de vida, estruturação identitária e autonomia6-7. As relações estabelecidas nos espaços sociais influenciam e conformam o adolescer e o enfrentamento dos desafios a ele circunscritos4,8.
Pandemias intersectam processos sociais, e a da Covid-19 envolveu restrições às relações sociais, afetando construções identitárias, comportamentos, autonomia e delineamento do projeto futuro de adolescentes9. Nesse contexto, estudos concentraram-se em retratar o impacto da pandemia no comportamento e na saúde mental de adolescentes10-19. Houve predomínio de abordagens metodológicas quantitativas11,15-16,18-20, apesar da existência de estudos qualitativos13,17,21, de métodos mistos10, de reflexão22-24 e revisões12,14,25-26. Não foi localizada nenhuma teorização sobre o adolescer neste contexto.
Há premência de suporte ao processo de adolescer na direção de bem-estar físico e mental na fase adulta, assim como melhores condições de vida27. Apesar de maior visibilidade e esforços para acolher adolescentes, permanecem fragilidades na atenção à saúde a essa população, sobretudo em países não desenvolvidos28.
No Brasil, a população estimada é de 207 bilhões de habitantes, e os adolescentes representam cerca de 15% desse total29 no intervalo dos 10 aos 19 anos28, faixa etária adotada pelo Ministério da Saúde brasileiro.
Ao observar os indicadores de saúde, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que, em 2019, mais de 1,5 milhão de adolescentes e jovens adultos com idades entre 10 e 24 anos morreram no mundo; entre as principais causas estiveram a violência, o suicídio e os acidentes de transporte30. No que diz respeito à questão social, em 2021, o percentual de crianças e adolescentes brasileiras vivendo na extrema pobreza e na pobreza alcançou o maior nível em relação aos anos anteriores: 16,1% e 26,2%, respectivamente29. Esses dados revelam a importância demográfica e social deste grupo e a necessidade de implementar ações das Diretrizes Nacionais de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens31, buscando atender as demandas que esta população detém.
Alinhado ao exposto e à Ação Global Acelerada para a Saúde de Adolescentes (AA-HA!) e Estratégia Global para a Saúde das Mulheres, das Crianças e de Adolescentes (2016-2030)28,32, este estudo indaga: Como as interações sociais e os processos identitários do adolescente foram afetados pela pandemia da Covid-19? O objetivo foi compreender o adolescer no contexto da pandemia da Covid-19.
Método
Desenho do estudo
Trata-se de um estudo qualitativo, interpretativo, sob o referencial metodológico da Teoria Fundamentada nos Dados (TFD) na vertente pós-positivista33. A TFD supera a descrição ao desenvolver um modelo teórico no qual o pesquisador faz uma análise indutiva e dedutiva dos dados, alternando entre a experiência individual e coletiva, para, assim, validar os fenômenos no processo de geração de uma teoria33.
Nessa direção, o Interacionismo Simbólico (IS) revelou-se referencial teórico pertinente ao enfatizar o comportamento humano como desdobramento de interações sociais e dos significados estabelecidos a partir delas34. Nessa perspectiva, o adolescer é processo singular, estruturado e derivado das interações sociais (inclusive aquelas internalizadas), com vistas ao alcance identitário.
Local do estudo
O estudo foi realizado com adolescentes residentes em município do interior paulista, cuja população estimada em 2022 foi de 254.822 habitantes, 13% deles adolescentes35. Reconhecida pelo alto grau de desenvolvimento, a cidade possui um Produto Interno Bruto (PIB) per capita de R$ 47.701,04, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,805 e 6,5 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)35.
Em relação ao Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS)36, a população concentra-se em território de muito baixa vulnerabilidade, com 62% estratificados como baixa e baixíssima vulnerabilidade, e 17% da população encontra-se em território de alta e muito alta vulnerabilidade.
Participantes do estudo
Foram convidados 26 adolescentes, 23 deles aceitaram participar e três não responderam após três tentativas de contato, considerados como negativa. Foram localizados pela técnica snowball sampling, a partir de informantes-chave identificados via atividade de extensão desenvolvida em ambiente escolar com adolescentes, no ano de 2019. A técnica snowball sampling está indicada para localização de populações com experiências específicas37.
O convite ao estudo ocorreu via WhatsApp, por meio de uma apresentação da pesquisadora por escrito junto a um áudio explicativo sobre o estudo, seu objetivo e sua estratégia de coleta de dados. Solicitou-se, para aqueles que manifestaram interesse em integrar o estudo, o contato do seu responsável para o envio do termo de consentimento. Os termos de assentimento e de consentimento foram enviados via link do Google Forms®. Após o recebimento da anuência para a participação, foram agendadas as entrevistas.
Coleta de dados
Os dados foram obtidos ao longo do ano de 2021 e, considerando o contexto pandêmico, a coleta foi on-line, por meio de entrevista aberta e única, áudio gravado na plataforma Google Meet, com duração média de 20 minutos. Inicialmente obtiveram-se informações sociodemográficas, para depois apresentar as questões norteadoras dos grupos amostrais.
Com vistas ao alcance de saturação teórica e densidade das categorias, ou seja, não surgimento de novos elementos vinculados ao fenômeno, a amostragem teórica33, formaram-se cinco grupos amostrais (Quadro 1).
Os critérios de seleção inicial dos participantes foi: a) ser pessoa entre 12 e 18 anos incompletos; b) ter interesse em contribuir com o estudo; e c) ter o consentimento de um responsável legal.
Análise dos dados
Os dados coletados foram transcritos na íntegra e analisados simultaneamente33. Todo o percurso de coleta e análise dos dados foi realizado pela primeira autora, enfermeira, doutoranda em Ciências da Saúde, membro da equipe de extensão em um ambulatório de saúde do adolescente e em uma escola, com experiência prévia na TFD (pesquisa de mestrado).
A codificação aberta deu-se pelo processo de análise linha a linha para a elaboração dos códigos e conceitos. Os códigos foram organizados pela similaridade, com estabelecimento das categorias iniciais. Na codificação axial ocorreu o processo interpretativo dos dados a partir dos cinco componentes do Modelo do Paradigma, relacionando e fundamentando as categorias. Na codificação seletiva, a organização analítica dos dados permitiu identificar o modelo paradigmático, com a delimitação do fenômeno e categoria central do estudo. Esse modelo foi validado junto a dois adolescentes, um menino de 17 anos, da rede privada de ensino, e uma menina com 15 anos, da rede pública de ensino. A validação ocorreu de forma remota, via Google Meet, onde foi apresentado o diagrama representativo da Categoria Central, com a leitura da narrativa da experiência. Os adolescentes se identificaram com ela, com destaque aos sentimentos e sofrimentos advindos do isolamento e afastamento dos pares. Essa constituiu a etapa final da TFD, importante para analisar sua pertinência e representatividade33.
Todas as recomendações éticas foram respeitadas, e o estudo foi aprovado por Comitê de Ética e Pesquisa com Seres Humanos, CAAE 39524120.2.0000.5504. Os participantes foram identificados pela letra (A), seguido do número ordinal em que a entrevista foi realizada.
Resultados
Os participantes eram 11 do sexo masculino e 12 do feminino, tinham idade entre 12 e 17 anos, a maioria estava no ensino fundamental II (n = 17), os demais no ensino médio (n = 6). Quanto à rede escolar, 11 eram de escolas públicas e 12 de escolas privadas. Conviviam em família nuclear 15 adolescentes e em família monoparental feminina, 6. Em relação à localização da moradia, segundo IPVS36, 4 viviam em região de baixíssima vulnerabilidade, 5 em região de baixa, 8 em região de média e 6 em região de alto índice de vulnerabilidade social.
Os resultados mostram que o adolescer na pandemia da Covid-19 está representado pelo fenômeno “Mantendo conexões significativas para continuidade e alcance do projeto de vida”, sustentado por cinco categorias conceituais, organizadas a partir dos componentes do modelo paradigmático: Contexto (adolescer); Condições causais (ter o projeto cerceado pela pandemia da Covid-19); Condições intervenientes (ser subitamente exposto a mudanças e viver a intensificação das relações familiares); Estratégias (aprofundar a relação consigo, imergindo em ciberespaços, intensificar o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação, TICs, e revisitar projetos e expectativas); Consequências (sofrer desgaste emocional, reconhecendo a essencialidade das relações sociais e ampliando a autonomia, além de se descobrir).
Contexto
O adolescer é contexto da experiência, conforma-se a partir de interações sociais e abarca o entrelaçamento de elaboração de mudanças de desenvolvimento (de ordem física, emocional e de demandas sociais) sob projeções sociais de responsabilidade e futuro, com o desejo e anseio atual de convivência junto a pares e organização de sua história.
Na adolescência você evolui muito; além da aparência física, o psicológico muda, os pensamentos, os desejos de sair, ficar com os amigos, essas coisas. E eu sempre quis ficar adolescente, pois via meu irmão saindo, meus primos saindo, se divertindo, contando história, e eu pensava, eu quero sair com meus amigos, eu quero ter histórias para contar (A14).
Condição causal
Tendo o projeto cerceado pela pandemia da Covid-19, o jovem compreende a condição causal desse fenômeno, visto que a prospecção da adolescência junto aos pares de modo mais livre e intenso foi interpelada.
Eu tive muita expectativa da adolescência, de sair, ir para muitas festas, curtir com meus amigos, mas daí veio a pandemia e acabou com toda a expectativa que eu tinha (A15).
Condições intervenientes
Perceberam-se sendo subitamente expostos a mudanças e vivendo a intensificação das relações familiares, condição interveniente das expectativas projetadas ao adolescer. O deslocamento do curso do processo de adolescer força interação social em contexto simbolicamente imerso no medo e na restrição, defrontando expectativas do passado e do futuro.
As mudanças foram sentidas de forma mais intensa a partir do fechamento das escolas e diante da percepção de estarem confinados em casa. Passam a ser impedidos de estar em espaços sociais de interação com os pares, principalmente escolas.
Antes da pandemia, eu chegava desanimada e saía da escola feliz, com dor de barriga de tanto rir, era bem legal, (...) de um dia para outro, pá, não teve mais nada, acabou, todo mundo teve que ficar em casa, só na tela do celular, então foi um baque, tipo, como assim, do nada surgiu a doença e acabou (A17).
O ser isolado foi um símbolo de difícil elaboração, assim como o uso de máscara que impossibilitava ver e sentir o outro, com interferência nas interações.
É difícil, só vejo meus amigos na escola, e ainda tem que ser de máscara, eu não lembro do rosto de quase ninguém, e quando eles tiram a máscara, eu penso, “meu Deus!!” (A10).
O ensino on-line foi complexo; os estudantes descreveram dificuldades com as plataformas utilizadas pelas escolas, limites para a concentração e o não vínculo educador/adolescente. A forma como tudo ocorreu exigiu uma brusca adaptação.
Foi um pouco estranho, do nada não poder mais olhar para ninguém, só ouvir a voz da pessoa, ou ver ela pela tela do celular. Foi difícil, a gente ficava entediado e simplesmente saía da aula e deixava o professor falando e ia mexer em outro lugar, sabe, então foi bem difícil aprender alguma coisa, foi bem difícil se concentrar (A10).
A mudança foi repentina, simbolizou uma tensão e exigiu intenso processo da Mente, com diretivas às (res)significações e ações. Foram impostos à inversão dos espaços interacionais em conjunto com a intensificação das relações familiares. Nessa direção, a forma como a família se posicionou no suporte interferiu sobremaneira na experiência.
As relações familiares, por vezes pontuadas enquanto fortalecidas frente à imposição de convívio, também estiveram imersas em conflitos derivados da divisão de espaços, tarefas, da forma como lidar com as diferentes personalidades, além de envolver a contínua supervisão dos pais/familiares.
(...) eu comecei a ficar muito triste, assim, eu roo unha, e aí comecei a roer muito minha unha, e aí minha mãe chamou alguns amigos para ajudar a fazer lição, ficar aqui em casa, para se ajudar, sabe, ver se a gente se animava um pouco, foi o que me ajudou (A9).
Ficar em família até que foi legal, mas acho que como a gente ficava muito tempo junto e não tinha espaço, tinha brigas, a gente respondia um para o outro, eu e meu irmão, na verdade toda a minha família brigava (risadas) [...] minha mãe controlava tudo, o tempo todo. Mas também a gente começou a fazer mais coisas juntos, como assistir filmes, programa na TV, a gente fica na sacada, almoçando ou tomando sol (A3).
No global, as interações familiares foram apreendidas como de pouca contribuição para o alcance da individualidade do SER e ESTAR na adolescência e suas particularidades.
Estratégias
Frente aos intervenientes do isolamento social, os adolescentes tiveram que mobilizar estratégias para seguirem a vida, o projeto. Intensificaram a relação consigo, imergiram em ciberespaços, aumentaram o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), revisitando projetos e expectativas.
Ser imposto a este novo contexto interacional fez com que qualificassem o adolescer na pandemia como difícil e complicado, pois entenderam estar sendo privados da melhor fase da vida, restritos à casa, não podendo sair, viajar e principalmente estar com os amigos.
No adolescer, o desenvolvimento do self ocorre em meio a interações, inclusive consigo próprio, quando se perceberam como oscilantes, com diferentes vibes em um único momento.
A adolescência também tem seus malefícios, porque é quando você vai se descobrindo e vai passando por diferentes emoções, e às vezes são emoções que te afetam e que vai dizendo mais sobre sua personalidade, e assim, é algo bem estranho, meio bipolar, pois uma hora você está de um jeito e outra hora você está de outro, cada hora você está em uma ‘vibe’ diferente, escolhas diferentes, acho que é isso (A13).
O processo de se compreender estruturou o adolescer, pois os jovens refletiram sobre o que e como as coisas e as pessoas são concebidas e sentidas, com maior sensibilidade aos símbolos emitidos ao seu redor. A pandemia impôs um processo solitário e sofrido de relação consigo.
Eu tive que aprender a viver na minha própria companhia, e isso é difícil (...) eu vou pensando muita coisa sozinho e acabo ficando paranoico, e meus amigos me ajudavam a eu esquecer um pouco, (...) Esse tempo sozinho foi bom para eu me conhecer mais, amadurecer, (...), ficar sozinho me mudou bastante, eu me tornei muito crítico a mim mesmo, estou aprendendo a conviver com isso, e mudei bastante pela tristeza de ficar sozinho, me tornei meio medroso, muito sentimental e emotivo (A18).
Imergir em ciberespaços e intensificar o uso de TICs foi um movimento desempenhado pelos adolescentes na busca pelas interações sociais, pelo suporte por ela ofertado. Significaram o ciberespaço propício à liberdade de escolhas, de com quem conversar, o que acessar e de como se relacionar.
Quando eu estou no celular, eu saio um pouco desse mundo da pandemia e vou para um mundo com mais gente, entendeu, é isso, de me enturmar com mais pessoas (A4).
O isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 restringiu experiências interacionais e impactou a identidade pessoal e social.
A escola era o símbolo da liberdade, já que nela se sentiam mais livres, teciam escolhas sem tantas projeções e imposições familiares. Assim, a impossibilidade de frequentá-la, de interagir com os pares foi significada enquanto a principal perda e lançou adolescentes nos ciberespaços desejosos por novas formas de se relacionar livremente e de amenizar sofrimentos.
Ficamos presos em casa, tive dias péssimos, fiquei o dia inteiro sozinho, no quarto escuro, sem fazer absolutamente nada, e acabei que chamando alguns amigos meus para a gente fazer videochamadas, quase que diária para conversar, pois é muito difícil não conversar, não falar mesmo, é difícil ser tudo por mensagem, então psicologicamente me afetou demais a pandemia, afetou demais ficar sem meus amigos (A19).
Foi possível apreender que as TICs permitidas e facilitadas pela pandemia atenuaram a falta de interação com os pares e proporcionaram conhecer pessoas, momentos de distração e lazer. Apesar disso, reforçaram a perda e o afastamento de relações de amizades.
O que mais mudou com a pandemia acho que foi o contato físico com os amigos, agora a gente só fala por chamada de vídeo ou chamada de voz, e pelos jogos on-line, e acabou que eu acabei perdendo alguns amigos, a relação com meus amigos distanciou bastante (A1).
A necessidade de ver e sentir o outro no processo interacional foi apontada com pesar. A timidez esteve reconhecida como um entrave agravado nesse contexto; os jovens sentiram saudades de rir e conversar com amigos. Estar presencialmente com o outro oportuniza sensações e trocas diferentes, quando comparadas com o virtual.
Embora tenham vivido dificuldades, eles permaneceram esperançosos pelo retorno do cotidiano e mantiveram investimentos em seus projetos, sustentaram olhares para além da pandemia, apesar das perdas, amigos, encontros, formatura, festas, viagens e até mesmo entes queridos. A astúcia e o desejo de novos desafios sobressaíram na esperança de retomada de seus projetos.
Minha expectativa com o fim da pandemia é sair, falar com os amigos, o que eu mais senti falta, (...) No futuro, eu pretendo fazer uma faculdade, estudar, ter um trabalho, quem sabe mais para frente, comprar meu próprio carro, ter minha própria fonte de renda (A14).
Consequências
Todo esse rearranjo de vida e interações para adolescer na pandemia fez com que o adolescente sofresse desgaste emocional e reconhecesse a essencialidade das relações sociais, ampliando a autonomia e se descobrindo.
As restrições frente à circulação em espaços sociais para as interações com pares foi uma perda apreendida pelos adolescentes, com destaque para a escola.
O que eu queria era poder ter continuado com os meus amigos, poder continuar rindo, ter eles perto de mim (A20).
Que saudades da escola presencial, a escola era um lugar que eu me sentia bem, que às vezes eu chegava triste e saía dando risada, e com o on-line ninguém nem conversa, não fala nada, é bem ruim (A15).
As estratégias de enfrentamento adotadas foram insuficientes em termos de acolhimento emocional. Perceberam-se tristes, ansiosos, sozinhos, entediados, com raiva e medo. Vários revelaram desgaste emocional, e alguns desenvolveram sofrimentos psíquicos. O acolhimento de sentimentos esteve descrito enquanto complexo e não suprido na totalidade.
Antes eu conversava mais com a minha mãe; agora na pandemia, eu não sei explicar os motivos dos sentimentos que eu sinto, tipo tristeza de sentir falta da família, dos amigos, ou algum aborrecimento que eu sinto. Acho que antes eu sabia mais o que eu estava sentindo, e agora como estão acontecendo muitas coisas, eu são sei o que está acontecendo com os sentimentos, é um pouco mais difícil de falar, e eu sinto mais tristeza, é difícil viver com a pandemia (A2).
(...) na pandemia foi muito difícil a questão psicológica, porquedesenvolvi ansiedade, teve alguns meses que foram difíceis, até tive alguns problemas com o estado depressivo, perdi muitos amigos, muito mesmo, porque uma coisa são as conversas presenciais e outra é longe, então é muito difícil psicologicamente, tanto psicologicamente quanto fisicamente, pois o contato físico, o calor de ter gente perto de você é muito bom, e faz falta (A7).
Eu desenvolvi um transtorno alimentar por conta de tudo isso, por conta de ficar em casa, por conta da pandemia mesmo (A21).
Essa maior imersão no sentimento, a tristeza e os anseios, permitiu aos adolescentes um amadurecimento, favoreceu solidariedade e empatia, de modo a destacar a evolução dos processos interacionais com eles mesmos, na sua sensibilidade.
A pandemia, ela fez eu pensar que não existe só eu no mundo, e eu preciso ajudar o próximo, tipo não sair, usar máscara, passar álcool em gel, tipo não transmitir essa doença para minha família (A6).
Eu senti bastante falta de encontrar as pessoas, pois eu não estava mais conseguindo me socializar, nem mesmo dentro de casa, eu não sabia mais responder as pessoas, eu não conseguia mais prestar atenção, ter contato físico, qualquer coisa que encostasse em mim, eu não conseguia identificar o que era, qual o sentido (A12).
Reforçaram a essencialidade das relações sociais para o adolescer, em especial das relações de amizade. O ciberespaço, apesar de proporcionar o encontro virtual dos adolescentes, esteve significado enquanto “distante” e impessoal.
Com a liberdade proferida no pertencimento e manejo dos ciberespaços, os adolescentes foram desafiados em sua autonomia nas tomadas de decisão frente ao estudo e cumprimento de prazos nas entregas das tarefas e provas. Vivenciaram dificuldades para a autoorganização.
Porque tive que criar uma rotina, uma rotina de acordar, animar, fazer tarefa, conversar com as pessoas, mesmo que on-line. Agora a gente conversa bastante, faz bastante coisa na aula, e eu aprendo bastante coisa também, mas tive que organizar meus estudos, as entregas de atividade, ter atenção aos prazos, cuidar de tudo da escola (A5).
Essa autonomia transcendeu para inserções familiares, pois, com a obrigatoriedade de permanecer em casa, novos papéis foram direcionados ao adolescente, e eles passaram a assumir cuidados com a casa e irmãos caçulas, principalmente quando os pais mantiveram a rotina de trabalho.
Em um movimento de simultaneamente transpor a frustração de não viver o prospectado para a sua adolescência e permitir-se experimentar novos papéis e situações, os jovens fizeram descobertas em diferentes âmbitos, como leitura, escrita, atividades esportivas, culinária, maquiagem, artes corporais, e interação social através de jogos e plataformas on-line de comunicação.
Na pandemia a gente ficou muito no celular, então a gente aprendeu muita coisa pelo celular, eu, por exemplo, eu aprendi a cozinhar melhor, fazer maquiagem e também comecei a ler pelo celular, foi bem legal (A13).
Assim, o modelo teórico “Ajustando-se às circunstâncias impostas pela pandemia”, representado na Figura 1, emerge no movimento e nas estratégias de ajustamento do adolescente frente às circunstâncias impostas pela pandemia, numa tentativa de manter conexões significativas e a continuidade, a integridade e a normalidade do seu processo de vida. Essa projeção para viver a adolescência apreendida no fenômeno em estudo denota a preponderância das categorias “Condições intervenientes”, “Estratégias” e “Consequências”.
Modelo teórico ajustando-se às circunstâncias impostas pela pandemia, fenômenos e categorias que o compõem. São Carlos, 2023.
Discussão
Adolescer está socialmente associado à construção identitária e ao projeto de vida, processos assentados na e a partir das relações sociais. Ancoradas no IS, as identidades requerem e transcendem reconhecimento do self, o Eu nas relações, com reflexões acerca das ações individuais e dos outros, das inferências culturais, sob processo comparativo e com esforços compreensivos sobre interações, valores, comportamentos e condutas38.
Na adolescência há um maior direcionador das identidades, visto a ascendência da autonomia, o reconhecimento comportamental e de personalidade, todos influenciados pelas relações sociais. A condição socioeconômica, a configuração familiar e os processos interacionais entre pais e filhos, assim como os direcionadores de afeto e abertura de diálogo, refletem no comportamento social dos adolescentes7.
Quando comparados às crianças, os adolescentes passam mais tempo com seus pares do que com a família e, dessa forma, constroem relacionamentos mais complexos com estes9. Essa reorientação para os pares promove desenvolvimento, permite-lhes um senso de autoidentidade social9. Os adolescentes deste estudo assinalaram a importância das relações de amizade para a construção da identidade, sendo que a interferência no convívio, provocada pela pandemia, foi significada como uma adversidade, ameaçou o desenvolvimento, afetou projeções, gerou rupturas, incertezas e sofrimentos.
Segue-se então que mudanças generalizadas no ambiente social, como o distanciamento físico forçado e o contato social face a face reduzido com pares, podem ter um efeito substancial no adolescer9.
A pandemia causou a perda de amigos, impossibilitou a vivência de acontecimentos sociais com caráter de “ritos de passagem”, anteriormente projetados. Contudo, trouxe contribuições, com destaque ao reconhecimento e à valorização da amizade e das relações28.
O isolamento social do contexto pandêmico foi significado como restritivo à concretização do projeto, à edificação de relações significativas. Para contrapô-los, houve intensificação da comunicação por meio das TICs, inclusive como recurso para vivências agradáveis39, aspecto que conduz à discussão da finalidade das TICs no adolescer.
No que se refere à adolescência, cabe traçar um paralelo acerca da restrição social percebida pelos adolescentes na pandemia com as relações familiares controladoras. A socialização de jovens não controlados ou sem supervisão é destacada como anúncio de comportamentos desviantes40; contudo, adolescer requer liberdades. É nos encontros sem supervisão que os adolescentes exercitam seu poder de decisão7, constroem relações e desenvolvem autonomia. A liberdade de escolhas está socialmente prospectada ao transcurso das adolescências, desde aquelas com quem, como e onde se relacionar até as decisões que norteiam o futuro. Os adolescentes projetam a aquisição disso, que no contexto em estudo sofreu entraves, mas foi buscada, assinalando ser eixo estruturante do adolescer, com indicativo de ser fundamentada no suporte às famílias com adolescentes.
As interações sociais com pares permitem aos adolescentes um reconhecimento de si nas relações, autorreflexão sobre seu comportamento e o comportamento do outro; é espaço de voz e escuta. Assim, contribui com o bem-estar e os projetos do adolescente9. Fortalecer relações de amizade é essencial, motivo pelo qual a busca pelos pares é intensa4. As amizades são potentes para enfrentamentos, inclusive diante de experiências ruins, destacando-se enquanto rede de apoio4,41. O presente estudo referendou o sentido diferenciado das amizades na adolescência.
Ainda, a pandemia da Covid-19 trouxe à tona a reflexão acerca da saúde mental e sofrimentos psíquicos frente a restrições nas relações sociais42, aspecto aqui reforçado. Estudo apontou que 51% dos adolescentes manifestaram ter piorado o nível de irritabilidade, 48% o nível de ansiedade e 47% o nível geral de humor durante a pandemia da Covid-19. Destes, 39% relatam ter piorado em relação à depressão19.
Quanto à relação familiar, ela esteve reconhecida de forma dual, promotora de afetos, proteção e cuidado, mas também de sentimentos negativos, como solidão, tristeza, menosprezo, em muito pelo seu funcionamento, discussões e desentendimentos familiares42. Compreender as relações em família é ação direcionadora de intervenções de suporte a adolescentes e famílias durante e após a pandemia43.
As relações sociais ampliadas revelaram-se um lugar diferenciado na adolescência, com indicativos para proteger sua ocorrência e exercer suas escolhas, sobretudo as interacionais e junto a pares que sustentam o processo de “experimentações” típicos e necessários ao adolescer. Por outro lado, a construção social que vincula a adolescência a situações de risco e vulnerabilidade leva a surgir, em algumas famílias, um comportamento de vigilância e controle. Profissionais de saúde e educação podem oportunizar diálogos acerca disso, na direção de dar suporte para que famílias e adolescentes consigam manter uma comunicação aberta e tomadas de decisões que deem vazão e sustentação a essa necessidade do adolescente.
A escola, nesse quesito, é espaço social propício e destacado nos resultados deste estudo. Ocorre que as ações neste contexto tendem a estar impregnadas pelo capacitismo, sob a gramática da proteção e do entendimento de ser o adolescente “condição de ser menor, quase um não sujeito”44. A proteção é importante, mas precisa ser sustentada por processos que promovam o eu, a partir da relação consigo e com outros; do contrário, não irá amadurecer pessoas.
Toda situação que conduz à restrição ou ao cerceamento nas relações sociais coloca o desenvolvimento do adolescente e seu projeto em risco. Portanto, é premente retomar relações sociais essenciais aos processos identitários, quando pensar no contexto social e nas intersubjetividades que estão no rol de ações de suporte à adolescência.
Para as políticas públicas fica o desafio de transpor a simples ampliação numérica de espaços de socialização para qualificar os diálogos e as intersubjetividades nesses espaços. É o vivido nas interações sociais que atua no adolescer, na autonomia crítica.
Os achados deste estudo permitem apontar a essencialidade de um olhar que aloque as relações sociais (pares, familiar e ampliada) na centralidade, em contraponto ao que insiste em dar premência às questões biológicas e de riscos. Estas só terão sentido se tematizadas sob os alicerces das interações sociais que estão a projetar e sustentar o adolescer. Portanto, a aposta deve ser na edificação de ambientes relacionais promotores de emancipação, os quais têm contornos próprios, são dependentes da singularidade de cada adolescente e de sua inserção social.
Considerações finais
O modelo teórico “Ajustando-se às circunstâncias impostas pela pandemia” teoriza o movimento dos adolescentes para enfrentar os desdobramentos do isolamento e viver o adolescer apesar das restrições impostas, mantendo seu projeto no horizonte. Retrata o significado atribuído às adolescências quanto a liberdade para estar e relacionar-se nos espaços sociais.
A teoria aqui desenvolvida representa uma estrutura para a compreensão das escolhas relacionais dos adolescentes, quando diante de crises e adversidades com restrições sociais. Permite aos profissionais de saúde, educadores e família dar suporte ao adolescer, às escolhas relacionais, com diretivas a um diálogo aberto e valorizador de tais escolhas e do projeto delineado pelo adolescente.
Quanto às limitações, sobressai o fato de o estudo ter sido realizado apenas em um município, não abarcando todas as classes sociais, o que aponta para explorações de novas facetas do fenômeno adolescer. Ressalta-se que a experiência retratada não generaliza a vivida por todos os adolescentes, pois sempre algo novo pode surgir, e pode ser aprofundada para posterior inclusão no modelo teórico, o que é característica do método empregado.
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Fonte: Autores.