Resumo
A nüshu, um misterioso sistema de escrita utilizado apenas por mulheres chinesas e único no mundo, surgiu em um período em que as mulheres não tinham direito a mesma educação oferecida aos homens, nem tinham a possibilidade de se expressar. Este fenômeno linguístico representa um exemplo de empoderamento feminino da antiguidade ao criar um espaço de união, empatia e solidariedade entre as mulheres que o utilizavam. Este artigo reúne diversas pesquisas, sobretudo chinesas, acerca da nüshu, e nele analisamos a origem, o uso, a morfologia, a evolução, a decadência e as perspectivas modernas para revitalização desse sistema de escrita.
Palavras-chave:
Nüshu; Escrita feminina; Posição feminina; História chinesa
Abstract
Nüshu, a mysterious writing system used only by Chinese women and unique in the world, emerged at a time when women did not have the equal right to education as men, nor the possibility of expressing themselves. This linguistic phenomenon represents an example of female empowerment during ancient times and created a space of unity, empathy and solidarity among the women who utilized the technique. This article brings together various studies, mainly Chinese, on nüshu writing system in order to analyze its origin, use, morphology, evolution, decadence, and the modern prospects for revitalizing this writing system.
Keywords:
Nüshu; Women’s writing; Women's position; Chinese history
Introdução
Durante a sua pesquisa de campo realizada entre 17 de novembro de 1982 e 2 de janeiro de 1983, o investigador da Universidade de Wuhan, Dr. Gong Zhebin descobriu, na zona de Montanha Yao (em mandarim: 瑶山), um grupo de símbolos especiais, não apenas escritos nos leques, mas também bordados nas bolsas, cintos de mulheres, carteiras de homens e gorros de crianças. Por meio da visita de alguns aldeões locais, o investigador chegou à conclusão de que esses símbolos são, de fato, um sistema de escrita linguística chamado pelos locais de 女书 (em pinyin, sistema de registro da fonética de mandarim: nüshu, cujo significado literal em português é "escrita feminina” ou "escrita de mulheres”), tendo esse descobrimento sido publicado, pela primeira vez, em 1983. Sendo um conjunto de códigos utilizado somente dentro da comunidade de mulheres dessa região, o descobrimento de nüshu chamou logo a atenção do mundo acadêmico nacional e mundial. Até 2018, encontramos 605 publicações sobre a nüshu na base de dados CNKI (China National Knowledge Infrastructure), cujos temas abordam estudos em diferentes áreas, como Linguística, estudos folclóricos, Antropologia, feminismo, Literatura, Pedagogia, entre outras, e foram organizados cinco congressos no âmbito nacional e um internacional no tocante a pesquisas sobre esse sistema de escrita linguística (He, 2018).
Neste artigo apresentamos a origem dessa língua misteriosa e suas principais teorias. Em seguida, centramo-nos nos seus caracteres e formas de expressão e, por fim, analisamos a posição social das mulheres chinesas na antiguidade, seu laço de irmandade e a importância da nüshu no empoderamento feminino da época.
No primeiro artigo publicado sobre nüshu, Gong (1983) apresentou a sua perspectiva e frisou que a esmagadora maioria dos símbolos desse sistema tinha sido inventada com base nos caracteres do Han, que eram chamados na zona de 男书 (em pinyin: nan shu, cujo significado é precisamente oposto de nüshu, indicando que nan shu é uma escrita de homens). Afirmou também que nüshu é um sistema de fonogramas monossilábicos, distinguindo-se dos caracteres do Han, os quais são efetivamente logogramas. O autor considerou ainda que esse sistema de escrita foi apenas o aproveitamento de caracteres do Han para registar a fonética do dialeto regional e ressalta que os fonogramas são escritos de uma forma inclinada.
Aqui, cumpre-nos chamar a atenção para o conceito de "chinês” ou língua chinesa. Sendo um país geograficamente grande e multiétnico, utiliza-se nesse país não apenas um idioma: cada região ou povoado de etnias minoritárias tem o seu próprio dialeto. Hoje em dia, muitas vezes, usa-se a palavra mandarim para evitar a ambiguidade. De acordo com Glossário Luso-asiático, de Dalgado (1919, p. 20), "mandarim” refere-se a "magistrado, alto funcionário do extremo Oriente, especialmente na China”. Apesar de ter passado "do português para outras línguas da Europa”, a origem etimológica da palavra é malaia. Entretanto, mandarim também era utilizado para indicar a língua que os magistrados da corte imperial utilizavam (Dalgado, 1919, p. 22):
É também o nome do idioma dos mandarins, isto é, do dialeto oficial e literário, mais conhecido pela designação de ‘língua mandarina’, em chinês kuan-kua. Os principais dialetos vulgares diferem foneticamente tanto entre si, que os indivíduos pouco instruídos de diversas províncias têm de se servir da sua escrita ideográfica, mais inteligível, para se fazer entender.
Em outras palavras, essa língua, nomeadamente,官话 (pinyin: guan hua, cujo significado literal em português é ‘língua dos magistrados’) era utilizada somente entre os altos funcionários oriundos de diferentes regiões para que pudessem se comunicar entre si e com o imperador, sendo considerada também um registro formal. De acordo com o Dicionário Michaelis, nos dias de hoje, a palavra mandarim, em língua portuguesa, é usada para se referir ao "principal dialeto do leste asiático, (...) baseado no pequinês, dialeto de Pequim, e considerado língua oficial”1. A língua franca da China de hoje também é conhecida como 汉语 (pinyin: han yu), a saber, "idioma do povo Han”, o qual ocupa mais 90% da população chinesa.
Quanto ao dialeto regional que nüshu registra, conhecido por dialeto de Jiangyong (em mandarim: 江永), na opinião de Gong (1983), observa-se uma relação estreita com um ramo do povo Yao (em mandarim: 瑶族). Essa argumentação baseia-se na comparação da pronúncia dos números de um a dez entre o dialeto de Jiangyong e o idioma utilizado pelo Yao no Condado de Jianghua (江华). Segundo o autor, dentro dos dez números, oito apresentam uma pronúncia idêntica e dois são semelhantes. Embora esse ramo de Yao já tenha residido com o povo Han há décadas, mantêm-se ainda, na sua língua, as caraterísticas básicas da língua tradicional do povo Yao, por exemplo, o fenômeno de anástrofe nas expressões2.
Origem da nüshu
Apesar de ser um fenômeno cultural popular ainda no início da fundação da República da China, a história sobre nüshu é obscura, uma vez que não se encontram nos registros históricos ou crônicas locais nem as inscrições gravadas nas pedras nem volumes de genealogia que constatem precisamente a sua origem. Por motivos pessoais e superstição, as utilizadoras da nüshu costumavam encarregar os seus descendentes de queimar ou enterrar as suas obras em conjunto com o seu corpo, no seu sepultamento, para que pudessem ler na outra vida (Xie, 1987; Gong, 1983). Por outro lado, muitas obras também foram danificadas durante a Campanha de Educação Socialista, nos anos 60. Tudo isso tornou o estudo da nüshu bastante difícil, o que levou a poucos resultados (Gong, 1983; Xie, 1991, 2003).
Apesar de não existirem registros escritos sobre esse sistema de escrita, ainda encontramos algumas lendas sobre a origem da nüshu. Em geral, existem principalmente três versões em relação à sua criação, a saber, Moça de nove jins, Qiao Pan e Concubina imperial (Xie, 1987; Gong, 2001; Li, 2003; Zou, 2003) (Tabela 1). Contudo, de acordo com Zou (2003), todas as lendas em relação ao surgimento e divulgação da nüshu apresentam os seus pormenores ilógicos e irracionais. Entretanto pode-se observar que as três principais versões partilham, com efeito, algumas características em comum: em primeiro lugar, a nüshu foi criada por uma pessoa, e, não, por um deus ou deusa e o seu gênero é feminino. Em segundo lugar, as criadoras eram nativas do condado de Jiangyong. Por fim, a nüshu era utilizada para comunicação, ora dentro do círculo de amigas, ora como código secreto com a família. Isso revela o feminismo, o regionalismo e a natureza de encobrimento da nüshu.
Ao analisarmos a tabela acima, observamos que, nas três lendas, a nüshu foi criada para dar às mulheres a liberdade de expressão que não encontravam nas comunidades daquela época, já que a vida dessas mulheres era profundamente controlada e oprimida por uma sociedade dominada pelos homens. Com a nüshu, suas mágoas, aflições e dores podiam ser externadas sem que os demais pudessem saber e, assim, criava-se um sentimento de cumplicidade, companheirismo e irmandade entre as mulheres que compartilhavam desse sistema de escrita.
Uso da nüshu e suas formas de expressão
A ferramenta tradicional para escrever nüshu limitou-se ao pincel e à tinta chinesa, ou seja, feita de pedra de tinta, e os materiais de apresentação costumavam ser papel, roupa, lenço e leque de papel (Xie, 1991). À luz de Peng e Li (2012a), devido ao espaço limitado para escrever, as usuárias da nüshu tinham de inclinar os leques, o que resultou nas formas oblíquas dos caracteres.
No final da dinastia Qing (1644 – 1911 d. C.), esse sistema de escrita era bastante popular na região, onde a maioria das mulheres locais sabia ler e escrever. Todavia, algumas que não escreviam eram capazes de ler. Nüshu não foi apenas utilizada para escrever poemas, cartas e convites e traduzir livretos, mas também bordada em roupas e cintos como ornamentos. Porém, o seu uso foi, principalmente, centrado na comunicação entre amigas íntimas, na elaboração da biografia pelas mulheres idosas e na tradução dos poemas em mandarim. As obras da nüshu registravam a história, serviam como orações para proteção contra desastres e expressavam votos e desejos de felicidades, sendo um presente precioso entre as mulheres da época. Geralmente, o estilo das obras da nüshu era de poesias que podiam ser cantadas, cujos versos eram compostos, majoritariamente, por sete caracteres. Porém, existem também poucos poemas com versos de cinco caracteres. Comparandas aos antigos poemas chineses, as obras da nüshu não apresentam uma regra rigorosa no que diz respeito ao ritmo e à rima. Ler e cantar os poemas escritos no papel e leques era a forma de entretenimento preferida pelas mulheres da região (Xie, 1987; Gong, 1983; 1992a; Li, 2003).
Caracteres em nüshu
Diferentes dos caracteres chineses, ou melhor, daqueles do Han (em mandarim: 汉字), nesse caso, os caracteres em nüshu partilham algumas particularidades das escritas em ossos oraculares e em bronzes. Em virtude da dureza dos materiais, a ferramenta de escrever costumava ser faca ou navalha. Em comparação com os caracteres modernos do mandarim, nüshu carece de traços como "丿” e "㇏”, mas existem nesse sistema de escrita traços como curvas e círculos, que se pode dizer que quase não se encontram nos caracteres do Han, nos dias de hoje. Além disso, os traços em nüshu normalmente são inclinados, e a maioria deles é direcionada para a esquerda. A sequência de escrita é da direita para a esquerda, apresentando uma forma de retângulo oblíquo ou losango. Normalmente o ponto na parte superior direita é o mais alto, enquanto o da parte inferior esquerda é o mais baixo (Tabela 2). Os caracteres são escritos de cima para baixo e da direita para a esquerda, sem uso de pontuações nem divisão de parágrafos (Xie, 1987; Li, 2003).
De acordo com Xie (1987), as obras em nüshu existentes foram efetivamente elaboradas na época recente, e a mais antiga não tinha mais de 80 anos de história ou, em outras palavras, 116 anos a contar de hoje. Logo, a estrutura dos caracteres desse sistema de escrita pode ter evoluído e mudado na história. O autor categorizou os caracteres da nüshu descobertos em cinco grupos, em conformidade com a sua composição, mais especificamente, pictogramas, ideogramas compostos, junção de símbolos/caracteres, modificação de caracteres e composição fono-semântica. Dentro deles, o número de pictogramas, ideogramas compostos e composição fono-semântica é bastante limitado e a maioria dos caracteres em nüshu pertence às outras duas categorias.
Pictogramas são um grupo de caracteres inventados com base no desenho de algum objeto ou alguma parte desse objeto; alguns exemplos são "
”, que era usado para indicar "flor”, e "
”, cujo significado é "pássaro”. Quanto aos ideogramas compostos, trata-se dos caracteres compostos por um ou mais do que um caractere e/ou símbolos, conforme determinada associação, veja o exemplo do caractere que significa "carta/ informação” – "
”, composto pelos caracteres de "pessoa” – "
” e "palavra(s)” – "
”. Quando a composição não se estabelece em nenhuma lógica explícita, o autor classificou os caracteres em uma nova categoria, junção de símbolos/caracteres, alguns exemplos são: "
”,cujo significado é "janela”, e "
”, que significa "esposa” em português.
Outra categoria envolve a adição ou redução de traços, sendo efetivamente um grupo de caracteres morfologicamente semelhantes que podem partilhar, ou não, consoantes ou vogais idênticas, tais como "nüshu. A variante de algum caractere pode exprimir igualmente o seu significado original, tendo como exemplo, "nüshu alicerça-se na escrita manual, com base em uma forma espontânea, carecendo da regularização sistemática e de materiais impressos uniformes. A frequência do uso de caracteres também varia muito, e algumas variantes resultaram, de fato, do desleixo ocasional de certo indivíduo. Os morfemas com mais frequência de uso relacionam-se normalmente com mais possibilidade de erros.
(caneta/ pincel)” e "
(bolinha)” sem ligação fonética, "
(bonito/beleza)” e "
(sonho)”, que partilham a mesma consoante; e "
(sopa)” e "
(lança/ pistola)”, que têm vogal e entoação idênticas. Contudo, a adição e redução de traços e mudança da posição de traços ou símbolos não se iguala ao surgimento de novos caracteres em
” e "
”, ambos significam "sítio/ lugar”. De acordo com Peng e Li (2012b), o número de variantes de um caractere pode se associar com a frequência ao seu uso. A divulgação e herança do sistema em
Em relação à última categoria, os caracteres são compostos por duas partes. Uma delas expressa o seu significado enquanto a outra marca a sua fonética. Um dos exemplos é o caractere que transmite o significado de "companhia” – "
”, em que a parte direita registra a sua pronúncia e a esquerda é, com efeito, apenas um símbolo, que contém o significado de "pessoa”, porém, não se pode interpretá-lo como um caractere individual.
Em comparação com o mandarim, o número de caracteres em nüshu é relativamente limitado. Normalmente, um caractere apresenta variadas pronúncias e diversos significados, o que faz com que todos tenham sido utilizados ao nível máximo na prática (Xie, 1987). Entretanto, seu número reduzido também comprova o fato de nüshu ser um sistema de escrita silábica, uma vez que o mandarim requer a quantidade suficiente de logogramas para corresponder aos morfemas. Em nüshu, centenas de caracteres são suficientes para indicar todas as sílabas. Devido à sua natureza folclórica e arbitrariedade, podiam-se utilizar diferentes caracteres para indicar a mesma sílaba, o que ocasionou o surgimento das variantes. Todavia, também não se pode avaliar a associação entre os caracteres em nüshu e as sílabas do dialeto regional, já que não existem registros que comprovem as mutações fonéticas durante esse percurso temporal (Peng & Li, 2012b).
Não obstante, segundo Peng (2012), com base no Dicionário de Caracteres Femininos (em mandarim: 女汉字典), 2.305 caracteres correspondem apenas a uma sílaba, enquanto 1.130 caracteres apresentam mais do que uma pronúncia, ocupando 32,9% do número total. Revelam-se três situações dos caracteres polifónicos, designadamente, sílaba idêntica com diferentes entoações, diferença entre linguagens formal e coloquial e caractere do mesmo significado, mas com pronúncias distintas.
Nüshu e a posição social das mulheres locais na época
Conforme um estudo publicado em 1987 por Xie (1987), uma utilizadora da nüshu de 81 anos na época, Nianhua Yi (em mandarim: 义年华) afirmou que tinha começado a aprender nüshu com a sua tia, aos 10 anos. A aprendizagem da nüshu era considerada quase uma obrigação naquele período. Mesmo que não fossem capazes de escrever, as mulheres tinham que saber ler os caracteres, se não, não conseguiriam ter uma lao geng (em mandarim: 老庚). Lao geng também é conhecido como lao tong (em mandarim: 老同) ou xing ke (em mandarim: 行客), referindo-se à amiga íntima com irmandade, porém, sem laço parentesco. O costume de ter lao tong era muito popular na região do condado de Jiangyong, não requeria nome de família idêntico nem proximidade local ou condições físicas. Costumava ser os pais da menina, quando ainda pequena, que procuravam alguém nascida no mesmo ano para criar o laço de irmandade. Caso encontrassem uma criança ideal com idade semelhante e aparência parecida, pediam a alguém familiar para ir até a casa desta para comunicar o intento aos seus pais. Após o consentimento das duas meninas, seus pais e idosos das famílias escolhiam uma boa data para fazer uma cerimônia (Gong, 1992a).
Contudo, as lao tong das mulheres adultas não precisavam ter uma idade igual. Depois de algum contato, se uma tivesse interesse, escrevia uma carta em nüshu, para transmitir a sua intenção de criar o laço de irmandade. O compromisso de lao tong era por razões femininas, por companheirismo, um símbolo de união entre elas. Caso a outra concordasse, respondia-lhe igualmente em nüshu. A criação de irmandade entre duas meninas simbolizava também a ligação afetuosa entre duas famílias. Na data de aniversário de cada uma delas, os idosos da outra família faziam-lhe roupa, calçados e meias. Visitavam-se no Festival da Primavera e trocavam presentes e, quando uma família precisava, a outra vinha logo ajudar como familiares íntimos.
Não obstante, as mulheres que utilizavam a nüshu não tinham uma posição muito elevada na família nem na sociedade, e desempenhavam um papel bastante subordinado na época. Quase todas tinham pés de lótus (Zhao, 1999): pés deformados em virtude do critério de beleza anormal da sociedade, o que as impossibilitava ao trabalho realizado pelas mulheres no cultivo do campo. Isso as diferenciava das mulheres que habitavam na zona central ou sul, que se caracteriza pela cultura agrícola, e daquelas que viviam nas tribos nômades. Suas tarefas principais na região de Jiangyong eram apenas trabalhos domésticos e trabalhos de costura e bordados em casa, e a elas foi dado o nome de "meninas no andar de cima (em mandarim: 楼上女)” (Xie, 1987; Wei, 2004).
Além disso, nessa zona existia a tradição de "不落夫家”, cujo significado é "não ficar na casa do marido”. Diferenciando-se da maioria das culturas, depois do terceiro dia da cerimônia do casamento, as mulheres voltavam a viver com os pais até o nascimento de filho. Esse costume também foi registrado nas obras em nüshu. Devido ao código ético feudal na época, desde pequenas, as mulheres eram proibidas de ter contato com homens, sendo trancadas em casa para fazer trabalhos manuais e de costura (Gong, 1992a).
Para essas mulheres, os maiores eventos de socialização eram o convívio dentro da comunidade feminina entre 15 de janeiro e 18 de abril, no calendário lunar, e este último é conhecido como "斗牛节” (Xie, 1987; Gong, 1992a). Literalmente, o termo significa "festival da luta de touros”, embora, em mandarim moderno, também possa designar a tauromaquia ibérica, sendo uma coincidência puramente lexical. Quanto à origem etimológica do nome do festival, encontramos duas teorias. Em conformidade com Wei (2004) e Xu (2015), originalmente esse dia era o festival de tourada dos homens, e as mulheres podiam conviver entre si e fazer festa em casa, compartilhando comidas. Todavia, por algum motivo, o festival dos homens deixou de ocorrer, mas as mulheres continuaram a celebrar esse dia especial do ano como uma festa para elas. Já Peng e Li (2012a) apresentam uma perspectiva diferente, os autores interpretam o primeiro caractere "斗” como "cruzar dois paus”, em conformidade com a caraterística hieroglífica do caractere, com um significado figurado de "reunir(-se)”. Quanto ao segundo caractere "牛”, cujo significado, em mandarim, é "vaca” ou "boi”, foi explicado como "pratos saborosos como carnes e peixes”. Contudo, ambas interpretações confirmam a natureza social desse festival pertencente exclusivamente às mulheres, no qual elas levavam as suas obras em nüshu, trabalhos de bordado e costura e comidas para partilhar experiências. Também liam poemas escritos no papel e nos leques. Além disso, era uma oportunidade que permitia que as mulheres encontrassem suas amigas (Xie, 1987; Gong, 1992a).
O laço de irmandade entre as mulheres da zona de Jiangyong mantinha-se durante a vida toda, independentemente da distância e do casamento que as afastava. Ficavam sempre informadas das situações e novidades acontecidas nas suas casas, comunicavam-se constantemente por meio de cartas escritas em nüshu (Xie, 1987). De acordo com Wei (2004), as mulheres não participavam das atividades agrícolas e executavam menos funções na produção econômica, perdendo, por isso, a sua posição social. A desigualdade entre homens e mulheres não permitia a comunicação livre entre eles, e essa condição não igualitária transformou e fortaleceu a socialização dentro da comunidade feminina. As mulheres eram proibidas de entrar em contato com homens, exceto com seus irmãos, e de participar de atividades que envolvessem o gênero oposto. O casamento também era decidido pelos pais. Em conformidade com o conteúdo das obras em nüshu, as mulheres da zona de Jiangyong se situavam em uma posição social miserável e não tinham nenhum direito, nem mesmo à vida conjugal. Há registros de que uma mulher foi vendida primeiro como o dote de casamento na primeira vez e, depois, como esposa a outro homem, como se fosse uma mercadoria secundária (Gong, 1992b).
Elas eram privadas da liberdade na vida social até mesmo após o casamento, e eram restritas a direitos pelo código ético da sociedade feudal, ou seja, só podiam confiar em si mesmas. Como essas mulheres não podiam trabalhar no campo, costumavam se juntar para fazer trabalhos de costura e bordado, fortalecendo assim a comunicação entre elas e, também, a aprendizagem, criação e utilização da escrita em nüshu (Wei, 2004). Por isso, muitas obras elaboradas em nüshu descrevem cenários de convívio entre amigas íntimas (Gong, 1992a). Partindo de uma perspectiva psicológica, pode-se dizer que o isolamento social em relação aos homens tornou a ligação afetiva entre mulheres, sobretudo, com a mãe e amigas com irmandade (lao tong), bem mais forte do que aquela com os seus maridos. Nüshu foi precisamente o fruto desse fenômeno social, desempenhando o seu papel de comunicação e entretenimento (Gong, 1992a; 1992b). Podemos dizer que a escrita em nüshu foi um código utilizado e divulgado dentro da comunidade feminina, desafiando a sociedade patriarcal daquele tempo. Foi um fenômeno linguístico importante para minimizar o estado da inferioridade feminina em que, entre tantas outras proibições, as mulheres eram impedidas de expressar seus sentimentos na língua dos homens.
Teorias em relação à origem da nüshu
Levando em conta a origem obscura da nüshu, os pesquisadores tentaram desvendar o segredo desse sistema de escrita misterioso a partir de diferentes pontos de vista. Atualmente, três teorias principais estão em evidência, sendo estas a língua do povo Yao, a evolução de um sistema de escrita antigo e uma invenção na recente.
Língua do povo Yao
A primeira teoria sustenta que a nüshu teria origem entre o povo Yao, com base em evidências etnográficas, sociogeográficas e dialetológicas. Pesquisadores que defendem essa hipótese (Chen, 2004; Li, 2003; Peng, 2012; Wei, 2004; Xu, 2015) argumentam que as características geográficas isoladas de Jiangyong e a convivência prolongada entre Yao e Han favoreceram o desenvolvimento de um sistema gráfico próprio, refletindo o contexto linguístico e social da região.
O condado de Jiangyong situa-se efetivamente em uma bacia rodeada por cinco montanhas, nomeadamente, Yuecheng (越城岭), Dupang (都庞岭), Mengzhu (萌诸岭), Qitian (骑田岭) e Dageng (大庚岭), confinando com a Região Autônoma de Guangxi e a província de Guangdong (Cantão). Desde a antiguidade, o transporte dessa zona tem sido inconveniente e havia apenas uma estrada no sentido de norte a sul com caminhos estreitos e sinuosos ligando os outros três condados. As condições geopolíticas fazem com que essa região fique isolada do exterior, formando, nesse caso, uma comunidade fechada, não participativa e relativamente independente (Wei, 2004; Chen, 2004).
Os habitantes dessa região caracterizam-se pelo seu bilinguismo, pois usam tanto a língua franca do Han, em outras palavras, mandarim do Sudoeste na zona urbana, quanto falam entre si, especialmente no espaço rural, o seu próprio dialeto. Milhares de falantes dominam o dialeto desta região. Embora exista certa diferença e complexidade no uso do dialeto entre diferentes condados, até diferentes aldeias, o idioma distingue-se das línguas xiang, hacá, cantonesa e do mandarim do Sudoeste, usadas nas regiões vizinhas. É possível comunicar-se dentro da zona de Jiangyong e até com o condado limítrofe com o dialeto regional (Chen, 2004; Peng, 2012). A escrita em nüshu foi precisamente descoberta na zona central dessa região, a qual registra não apenas a linguagem coloquial moderna, mas também uso linguístico antigo. O dialeto regional também é a única chave com que se pode descodificar o segredo dos fonogramas nüshu (Xu, 2015; Chen, 2004).
Baseando-se na área de difusão da nüshu, nos costumes folclóricos locais, aspectos dos caracteres e na relação entre a linguagem coloquial em nüshu e o idioma utilizado pela etnia Yao – especificamente, de um ramo que não reside nas montanhas –, alguns pesquisadores chegaram à conclusão de que nüshu é um tipo de caractere do povo minoritário (Li, 2003). Isso porque o povo Yao é categorizado em dois grupos pelo seu povoado: um deles habita nas zonas montanhosas e o outro vive em conjunto com o povo Han. Desde a dinastia Song, começaram a surgir registros de revoltas do povo Yao contra a corte por causa da opressão. Durante os conflitos, um grupo migrou para as montanhas, voltando ao estilo tradicional da vida dos seus ascendentes, enquanto o outro grupo começou a habituar-se aos costumes do Han e a conviver com eles. No ano 29 da era Hongwu, durante a dinastia Ming, isto é, em 1396 d. C., o povo Yao que vivia na zona entre Hunan e Guangxi, talvez por ameaças ou por um comprometimento com a legalização da identidade e a redução dos impostos, saiu das montanhas para guarnecer os territórios pelo governo central. Já na dinastia Qing, além do regime preferencial no aspeto dos impostos, o governo do Manchu tentou assimilar o Yao mediante os meios de educação, por exemplo, permissão da participação no exame imperial e construção de escolas (Peng & Li, 2012a; Xu, 2015).
Acredita-se que o povo Yao começou a viver nessa zona aproximadamente no início do século VII. Desde as dinastias Song e Yuan (1271 – 1368 d. C.), a maioria dos magistrados que surgiram na história de Jiangyong associou-se com a opressão do Yao. A migração do Han para essa região, remonta de meados até o final da dinastia Tang (618 – 709 d. C.), em quantidade muito pequena. A maior parte do Han enraizou-se no condado de Jiangyong, que foi dominado pelo Yao por um milênio, durante as dinastias Ming e Qing e o período da República da China, o que resultou em um convívio equilibrado e harmonioso entre as duas etnias hoje em dia (Liu, 2000).
De fato, segundo Gong (1983), uma parcela da etnia Han é efetivamente de descendentes do Yao. Por meio da sua pesquisa acerca da origem genealógica do sobrenome Yi (义), os seus antepassados saíram do povoado do Yao para escapar da opressão pelos mongóis, na dinastia Yuan. Por outro lado, Xu (2015) analisou a hipótese da origem genealógica pelos povos indígenas do Sul, que continuou a ter o maior número dos habitantes até as dinastias Ming e Qing, com o objetivo de assegurar e promover a posição social da sua família naquela época, a partir de um ângulo etnológico.
A construção do conceito de "centro” e da etnia Han provoca o surgimento dos papéis secundários e sujeitados. No entanto, cumpre-nos realçar, em mandarim, que o nome "China” é "中国” e significa, literalmente, "país do centro”, o que indica a origem da nação da bacia do Rio Amarelo. A invenção ou modificação da origem genealógica das famílias do Yao reflete, justamente, o processo do desenvolvimento e formação do país, e os motivos para as minorias lutarem pelos recursos de sobrevivência em diferentes contextos históricos (Xu, 2015). Durante esse processo, o regime de centralização ocasionou a resistência e o espírito de rebelião do Yao contra a cultura do Han, incluindo os seus caracteres, sobretudo das mulheres que não tinham direito à educação na época (Wei, 2004).
Todavia, considerando que a zona de Jiangyong tem sido um povoado do Yao desde tempos remotos, Liu (2000) opinou que, independentemente de ser inventada com base nos caracteres do Han ou não, a nüshu só pode ter sido criada pelo povo Yao, uma vez que os Han já tinham os seus próprios logogramas e não havia necessidade social de utilizar outro sistema de escrita linguística. Entretanto, o autor ainda apontou o fato de que, em certas regiões onde ainda se mantinha uma sociedade tradicional do Yao, a posição social das mulheres era mais elevada do que a dos homens (Liu, 2000). Na primeira publicação sobre o descobrimento da nüshu em 1983, Gong (1983) confirmou igualmente que a transição da matrilinearidade para patrilinearidade na sociedade do povo Yao era tardia e incompleta. Existia um costume especial durante o casamento dos habitantes da região de Jiangyong: a noiva cantava, chorando em conjunto com as suas amigas em irmandade (lao tong), para agradecer os pais pela sua criação (Gong, 1983; Wei, 2004; Xie, 1987). Na interpretação de Gong (1983), esse costume relaciona-se com a história etnográfica do Yao, sendo diferente da situação atual: na sociedade antiga, os homens eram os que se mudavam para viver com a família das mulheres após o casamento. Com a degradação da posição social, a despedida dos pais pelas mulheres no casamento tornou-se uma tristeza, em vez de uma celebração feliz. Diante disso, pode-se considerar que a posição privilegiada das mulheres em uma sociedade matrilinear cria essas distinções das Han que tinham de cumprir o código ético na época, sendo a maior parte delas analfabeta na sociedade antiga.
Dessa forma, essa teoria associa a origem da nüshu ao ambiente sociocultural do povo Yao, considerando o isolamento geográfico, o bilinguismo e as transformações históricas provocadas pela interação com os Han.
Evolução de um sistema de escrita antigo
A segunda teoria propõe que a nüshu se originou como uma evolução dos antigos caracteres chineses, sendo, portanto, um ramo derivado do sistema gráfico Han. Essa hipótese, defendida principalmente por Xie (1987), fundamenta-se em análises morfológicas comparativas entre os caracteres nüshu e as escritas em ossos oraculares e bronzes.
Analisando a estrutura morfológica dos caracteres em nüshu, Xie (1987) concluiu que esse sistema de escrita é, com efeito, uma variante dos caracteres antigos do Han, após um processo histórico duradouro de evolução e mutação. Dada à ausência de instituições oficiais para a sua divulgação, a herança e o uso da nüshu baseavam-se na espontaneidade dentro da comunidade feminina, sobretudo, em virtude do seu valor particular de comunicação. Foi justamente por causa disso que um mesmo caractere possuía diferentes formas de escrever, sendo não apenas uma caraterística do sistema de escrita linguística obsoleto, mas também a evidência de falta de um padrão linguístico unificado à época
Em comparação com a morfologia dos caracteres das escritas em ossos oraculares e em bronzes, existem duas situações: um primeiro caso em que um caractere em nüshu se assemelha a uma das escritas em ossos oraculares ou em bronzes em específico, demonstrando uma associação individual; e um segundo caso no qual a correspondência existe entre grupos dos caracteres da nüshu e das escritas antiquadas do Han no aspeto da sua estrutura. Conforme Xie (1987), dentro dos 1.741 caracteres em nüshu coletados por ele, cerca de 140 têm origem nas escritas em ossos oraculares ou em bronzes, ocupando 12.34% do número total. Por outro lado, com exceção de um número limitado de vocabulário do dialeto e do empréstimo linguístico, existe uma relação regular e completa entre nüshu e a língua chinesa antiga. No final dos anos 70, foram descobertos mais de dez locais arqueológicos do neolítico relacionados às dinastias de Shang (século XVI – XI a. C.) e Zhou (1046 – 256 a. C.). Além disso, há um número significativo de túmulos da dinastia Han (202 a. C – 9 d. C.) no condado de Jiangyong, onde se desenterram antiguidades como armas antigas, tijolos de túmulo e objetos de cerâmica (Xu, 2015), comprovando a existência das culturas antigas nessa região.
Segundo a teoria gramatológica, qualquer sistema de escrita linguística pode servir tanto para um povo como para outro. Não existe uma associação necessária entre a pertença dos caracteres e a etnia dos utilizadores, visto que qualquer povo pode aprender e dominar a língua e o sistema de escrita alheio. No caso da nüshu, que registra a língua do povo Han, não é possível ter origem em outras etnias, sendo um resultado do desenvolvimento e evolução dos caracteres da língua antiga do Han. Na opinião de Xie (1987), nüshu é um ramo individual e sistemático dos caracteres do Han, e o seu uso exclusivo dentro da comunidade das mulheres da região de Jiangyong resultou de motivos históricos peculiares. No entanto, à luz de Xu (2015), na sociedade da Idade Antiga, ainda não existia o conceito de etnia ou nação, em vista disso, os caracteres criados naquela época também não deveriam ter nenhuma origem etnográfica. O fato dos caracteres do Han começarem a ser a referência para outros aconteceu só depois do surgimento do conceito de país.
Para essa perspectiva, a nüshu seria um sistema de escrita autóctone, mas fortemente influenciado pelas formas gráficas do chinês antigo. A escrita teria evoluído dentro da comunidade feminina, de modo espontâneo e desvinculado de etnias específicas. A teoria, portanto, interpreta a nüshu não como um produto étnico, mas como uma manifestação independente de um processo linguístico-histórico de adaptação de caracteres.
Invenção na época recente
A terceira teoria, proposta por Gong (2001), argumenta que a nüshu é uma invenção relativamente recente, possivelmente surgida durante a dinastia Qing. Baseada em registros históricos e em análises comparativas, essa visão contesta a ideia de que a escrita tenha raízes em sistemas antigos ou em tradições étnicas.
Em 2001, Gong (2001) publicou um artigo intitulado "Discussão sobre a impossibilidade absoluta de nüshu ser um sistema de escrita antigo do início da Dinastia Qin (em mandarim: 《论江永女书决非先秦古文字》)”, em que refutou o argumento acima proposto por Xie (1987), com base nos fatos históricos. Na escrita em ossos oraculares, a maior parte dos caracteres são, de fato, logogramas, e os outros, que ocupam 20% do número total, manifestam caraterísticas fonográficas. Contudo, a proporção de logogramas é efetivamente reduzida em nüshu. Segundo o autor, comparando com as escritas antigas, os fonogramas monossilábicos em nüshu apresentam mais semelhança com a escrita regular (em mandarim: 楷书), a qual circulou após a dinastia Han. Portanto, a escrita em nüshu não tem muita probabilidade de ter origem nos caracteres antigos da dinastia Qin ou antes dessa época.
Quanto à história da escrita em ossos oraculares, cuja popularidade se limitava às dinastias Shang e Zhou, trata-se de um uso exclusivo da corte. Os ossos oraculares gravados com os caracteres antigos foram enterrados com o declínio das dinastias e foram apenas descobertos acidentalmente no final da dinastia Qing. Durante esses dois milênios, ninguém sabia da sua existência, incluindo as mulheres do condado de Jiangyong. Porém, a escrita regular dos caracteres do Han deriva dos símbolos e ideogramas da Idade Antiga, por isso, é razoável que a forma e estrutura morfológicas de alguns caracteres partilhem certa semelhança com a escrita em ossos oraculares. Caso a escrita nüshu tenha sido inventada com base no empréstimo da regular, não é de admirar que esse sistema de escrita descoberto na zona de Jiangyong seja parecido com os caracteres registados nos ossos oraculares. Além disso, dentro desse grupo de caracteres semelhantes com os do Han, a maioria aparenta uma semelhança não com os caracteres tradicionais, mas, sim, com os simplificados, cuja popularidade remonta às dinastias Song e Yuan, em virtude da divulgação da literatura dentro da comunidade plebeia. Por isso, temos razões para acreditar que o surgimento da escrita nüshu deve ter ocorrido depois dos séculos XII e XIII, provavelmente na dinastia Qing. Entretanto, os símbolos de felicidade utilizados na nüshu evidenciam, por outro ângulo, a sua relação com as dinastias Ming e Qing (Gong, 2001).
Com efeito, as obras em nüshu não foram todas queimadas depois do falecimento das suas autoras, um certo número delas foi oferecido e guardado pelos descendentes. Contudo, a obra mais antiga data apenas ao período final da dinastia Qing (idem). A existência da nüshu também foi encontrada num modelo de moeda emitida pelo Reino Celestial Taiping no século XIX, em que se gravaram "mulheres em todo o mundo (em mandarim: 天下妇女)” e "irmãs da mesma família (姊妹一家)” na parte de trás (Liu, 2000). Voltando às obras em nüshu, em conformidade com o seu conteúdo, existem dois tipos: um criado pelas mulheres locais, o qual reflete a sua vida, trabalho, amor e família; enquanto o outro eram traduções de poemas e lendas em mandarim, os quais se popularizaram nas dinastias Ming e Qing (Gong, 2001).
Durante a história, nenhum registro histórico ou crônicas locais constataram a existência da escrita em nüshu até 1931, quando um resumo sobre pesquisas nos condados da província de Hunan (em mandarim: 《湖南各县调查笔记》) registrou, pela primeira vez, esse sistema de escrita linguística, em que relatou o uso dos caracteres semelhantes à língua mongol, nos leques para cantar na cerimônia de prece em maio, e o desconhecimento pelos homens do condado. De acordo com Chen (2004), desde tempos antigos, o povo Yao já tinha o hábito de reproduzir e modificar os caracteres do Han e utilizavam esses caracteres para a comunicação secreta nas revoltas contra o governo central nas dinastias Yuan, Ming e Qing, o que foi proibido, posteriormente, pela corte. Portanto, o autor inferiu que os caracteres em nüshu devem ter sido inventados pelo Yao, e os homens deixaram de usar para se comunicar com o exterior depois da proibição, mas, como as mulheres não tinham nenhuma liberdade pessoal e não podiam ter contato com o mundo de fora, continuaram a utilizá-la dentro da sua própria comunidade. Todavia, isso também foi somente um dos pontos de vista em relação à origem do sistema de escrita nüshu, sem evidências objetivas diretas.
Segundo essa teoria, a nüshu teria sido criada por mulheres Yao em tempos recentes, como forma de comunicação restrita à comunidade feminina Assim, o sistema seria resultado de um processo tardio de adaptação e resistência, e não de uma continuidade direta com a escrita antiga.
Decadência da nüshu
Pode-se dizer que a escrita nüshu reflete a posição das mulheres de uma região específica da antiga sociedade chinesa. Na opinião de Gong (1992b), a popularidade e o desenvolvimento desse sistema de escrita associam-se indissoluvelmente com a consciencialização da igualdade entre homens e mulheres. O desenvolvimento do fenômeno nüshu atingiu o auge no final da dinastia Qing e no início do período da República da China, com um número significativo de obras. Apesar de se revelar uma quantidade limitada de obras com uma qualidade relativamente deficiente em meados da dinastia Qing, já havia, nesse período, obras elaboradas em nüshu. Contudo, conforme o autor, esse fenômeno não foi acidental e é possível ter resultado do surgimento repentino e desenvolvimento abrupto do Reino Celestial Taiping. Permitiu-se às mulheres, sem precedentes, juntar-se ao exército e ir até o campo de batalha, libertando-as das restrições feudais. Desde o início, foram instalados, nas forças rebeldes, campos militares exclusivos de mulheres, onde elas executavam funções de comandantes.
Se a escrita nüshu foi utilizada pelas mulheres da região de Jiangyong para exprimir os seus sofrimentos, tristezas e angústias acerca da vida naquele contexto sócio-histórico e para comunicarem-se com as confidentes que sentiam essa compaixão, o advento da igualdade entre homens e mulheres determinou a sua decadência. Em 1913, inaugurou-se a primeira escola para moças com o objetivo de fornecer oportunidades de educação às jovens das zonas urbanas e arredores, porém, o número de vagas disponíveis foi muito limitado no início. Entretanto, o código ético tradicional também obstruiu o processo de divulgação de educação na comunidade feminina. Muitas jovens continuavam a ficar em casa a estudar nüshu. Essa situação se manteve até os anos 30, quando o ensino básico foi popularizado no âmbito de quase todo o condado. Desde que os seus pais autorizassem e a pessoa tivesse a intenção, uma mulher poderia estudar na escola, desvendando, daí, a decadência incontornável da nüshu (Gong, 1992b).
Além disso, a Revolução Cultural da China, ocorrida nos anos 60 e 70 do último século, com o objetivo de erradicar o passado feudal do país, também contribuiu para o declínio e apagamento dessa escrita misteriosa.
Considerações finais
Nüshu é indubitavelmente uma reflexão sobre a vida e a posição social das mulheres em um determinado contexto histórico. Localizado em uma região isolada, com condições restritivas de transporte, muitas tradições e costumes folclóricos da sociedade antiga conseguiram se preservar e foram registrados nas obras da nüshu, proporcionando recursos preciosos para pesquisas sócio-históricas (Gong, 1992a). Entretanto, durante a exploração sobre a origem desse sistema de escrita, também foram levantadas questões no tocante à identidade étnica do povo Yao e da sua relação com a influência cultural da zona central. Pode-se dizer que nüshu nos ajuda a revelar reconsiderações em relação aos conceitos de etnia e nação e à definição dos conceitos de língua e cultura chinesa.
Com o aprofundamento de estudos em relação à nüshu, entendemos que esses caracteres misteriosos, de fato, chegaram até os condados de Jianghua e Dao, da província de Hunan; às zonas de Fuchuan e Guanyang da Região Autônoma de Guangxi e até a província de Jiangsu, sendo o condado de Jiangyong o pivô da irradiação (Li, 2003; Zou, 2003). Trata-se de um vínculo indissolúvel entre nüshu e as mulheres de Jiangyong. Os símbolos que registram as suas felicidades, angústias e misérias vagueavam com o seu destino infortunado. As mulheres também são divulgadoras da nüshu, ao mesmo tempo em que são suas receptoras e usuárias (He, 2010).
Contudo, a pesquisa da nüshu enfrenta efetivamente um conjunto de desafios na prática. Por um lado, devido à carência de registros históricos e decesso das usuárias naturais da nüshu, observam-se fenômenos de invenção e falsificação dos caracteres e de alteração do conteúdo original das obras. Segundo Xie (2003), em um artigo publicado em 1995, há três variantes do caractere que significa "faca” e doze dos caracteres de "dinheiro”. Dentro dos 63 caracteres da nüshu exemplificados neste artigo, 24 deles não se encontram nas obras tradicionais, excedendo um terço do número total. Além disso, o autor comparou um poema escrito por uma utilizadora da nüshu, Yinxian Gao, e a versão desse poema publicada no livro Coleção das Obras da Nüshu da China (em mandarim: 《中国女书集成》), mas apenas nove versos correspondem à obra original da autora. Acrescentaram-se mais dois versos, enquanto os versos de oito ou onze caracteres foram modificados uniformemente para sete caracteres.
Por outro lado, de 1983 a 2017, os estudos sobre nüshu demonstram uma tendência ascendente na China e atingiram seu ápice em 2010. Porém, a partir de 2018, o número de pesquisas relacionadas com o tema reduziu abruptamente. Quanto à situação no âmbito internacional, entre 1994 e 2018, há uma esporadicidade em relação aos contributos sobre a pesquisa da nüshu (He, 2018). No âmbito do quadragésimo ano desde a primeira publicação do estudo da nüshu, cumpre-nos apresentar esse sistema de escrita linguística misteriosa e exclusivo da comunidade feminina a um maior público e apelar à atenção do mundo acadêmico. Os caracteres escritos pelas mulheres, que viviam naquela sociedade feudal, não marcaram apenas a sua vida malfada, mas também nos ajudam a reconsiderar a história de um povo, de uma etnia, de uma nação e de um período da história.
Nüshu é um exemplo extraordinário de linguagem feminina que enfrentou uma luta pela sobrevivência ao longo de sua história. Embora tenha experimentado um período de decadência, a língua está agora sendo redescoberta e celebrada como um tesouro cultural, o que oferece novas perspectivas para seu futuro. Além disso, a nüshu tem sido celebrada como uma forma de expressão única da cultura feminina, inspirando movimentos de empoderamento feminino e literatura contemporânea.
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2
De acordo com Gong (1983), o povo Yao dessa região costuma dizer "这人个”, em vez de seguir a ordem do mandarim "这个人”, com o classificador "个”entre o pronome "这”,que significa "este”, e o substantivo "人”, que significa "pessoa”.
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3
斤(em mandarim: jin) é uma medida de peso utilizada no Extremo Oriente, dois jins equivalem a um quilo.
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4
Na China, o sobrenome costuma ser colocado em primeiro lugar, antes do próprio nome. Por isso, o nome de família da protagonista é Pan.
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Os caracteres da nüshu são retirados através da plataforma online do Dicionário de Caracteres Padrão do Nüshu, disponível em: https://nushuscript.org/nsbzz/dict/ - acesso em 27 out. 2025.
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