Resumo
O artigo pretende enfatizar a historicidade das representações sociais como aspecto fundamental para a compreensão de seus processos de generatividade e de estabilização de conteúdos. Para tanto, considera que as representações sociais são resultado, de um lado, da reapropriação de conteúdos advindos de períodos cronológicos distintos e, de outro, daqueles gerados por novos contextos. Assim, são apresentados aspectos de reciprocidade entre representações sociais e a perspectiva da história das mentalidades enfatizando que os processos de objetivação e de ancoragem, formadores das representações sociais, são privilegiados para a investigação dessa historicidade.
representações sociais; história; psicologia social
Abstract
The article aims to emphasize the historicity of the social representations as a basic aspect for the understanding of their processes of generativity and of stabilization of contents. For so, it considers social representations as the consequence, on the one hand, of the appropriation of contents from chronological different periods and, on the other hand, from those contents produced by new contexts. Therefore, the article presents some aspects of the reciprocity between social representations and history of mentalities in order to emphasize that the processes of objectivation and anchorage, which are constitutive of the social representations, are privileged processes for the investigation of this historicity.
social representations; history; social psychology
TEMA EM DESTAQUE - REPRESENTAÇÃO SOCIAL E PENSAMENTO SOCIAL
Uma abordagem da historicidade das representações sociais
Lúcia Pintor Santiso Villas Bôas
Pesquisadora do Centro Internacional de Estudos em Representações Sociais, Subjetividade e Educação do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas lboas@fcc.org.br
RESUMO
O artigo pretende enfatizar a historicidade das representações sociais como aspecto fundamental para a compreensão de seus processos de generatividade e de estabilização de conteúdos. Para tanto, considera que as representações sociais são resultado, de um lado, da reapropriação de conteúdos advindos de períodos cronológicos distintos e, de outro, daqueles gerados por novos contextos. Assim, são apresentados aspectos de reciprocidade entre representações sociais e a perspectiva da história das mentalidades enfatizando que os processos de objetivação e de ancoragem, formadores das representações sociais, são privilegiados para a investigação dessa historicidade.
Palavras-chave: representações sociais história psicologia social.
A historicidade1 das representações sociais se caracteriza pelo fato de que elas, ao serem apresentadas como uma "modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos" (Moscovici, 1978), são alimentadas tanto por conhecimentos oriundos da experiência cotidiana como pelas reapropiações2 de significados historicamente consolidados e que, grosso modo, fazem parte daquilo que Hobsbawm (1997) denominou "tradição inventada"3.
Essa reapropiação do passado, longe de ser estática, é permeada por certa plasticidade na medida em que cada geração altera, ou não, o sentido e a compreensão dos conhecimentos preexistentes e dos significados historicamente consolidados4. Ou seja, cada contexto atual seleciona um conteúdo do passado que será reatualizado por meio de um recorte e de uma interpretação própria, dependentes, em última instância, do sentido que um determinado grupo irá atribuir ao seu espaço de experiência e horizonte de expectativa5.
Ora, se, como afirma Marková (2006), o escopo teórico das representações sociais pressupõe que seus conteúdos sejam estruturados e um dos objetivos da teoria é justamente identificá-los e analisá-los a consideração de sua historicidade é fundamental para a compreensão dos processos de generatividade e de construção de estabilidade, haja vista que as representações sociais são tanto fruto da reapropriação dos conteúdos advindos de outros períodos cronológicos como daqueles gerados pelos novos contextos, o que faz com que elas se estabeleçam, concomitantemente, como pensamento constituído e constituinte (Suárez Molnar, 2003).
Essa constatação gera a necessidade de discutir as representações sociais também como fenômenos "psico-históricos" dissipando a impressão de que elas se apresentam ou como um "corpus organizado", esperando pelo uso da ferramenta metodológica adequada para serem desveladas (Di Giácomo, 1987), ou como produto de uma espécie de "universal abstrato", estabelecidas em um contexto anistórico.
Não obstante a importância do estudo da historicidade das representações sociais para a compreensão de seus processos de gênese e de construção da estabilidade de seus conteúdos, este é um aspecto que, sem ser novo, ainda resta pouco explorado como evidenciam os trabalhos de Castorina (2007), Villas Bôas e Sousa (2007), Jodelet (2003), Bertrand (2003, 2002), Moliner (2001) e Rouquette e Guimelli (1994). De modo geral, as investigações sobre representações sociais tendem, muito mais, a enfatizar a ação das práticas cotidianas na análise do estado atual de uma determinada representação do que seu processo de gênese e de estabilização em que é fundamental o papel dos determinantes historicamente constituídos.
Em que pese a importância dessas discussões, a compreensão da dinâmica das representações sociais, bem como dos mecanismos que a constituem, obriga a que se analise sua historicidade sob risco de considerá-las um fenômeno anistórico constituído em um contexto genérico o que, de modo geral, tem contribuído para a existência de pesquisas, tanto no âmbito educacional como em outras áreas, cada vez mais descritivas e pouco interpretativas.
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E HISTÓRIA DAS MENTALIDADES: ASPECTOS DE RECIPROCIDADE
Dentre os estudos na área de representações sociais que enfatizam aspectos históricos6, pode-se citar o de Jodelet (2005) que investigou uma comunidade rural francesa na década de 70, em que os doentes mentais viviam livremente. Em suas análises, entra em cena a historicidade da loucura como objeto representacional devido à constatação de comportamentos que indicavam que os indivíduos pensavam aspectos de seu cotidiano tendo, por referência, teorizações historicamente situadas. Em trabalhos mais recentes, pode-se fazer alusão ao de Herzlich (2001) acerca da representação social da saúde, cujas considerações são próximas às desenvolvidas por Jodelet (2005) e ao de Bertrand (2003), sobre as representações sociais da vagabundagem e da mendigagem, em que a autora discute a historicidade desses objetos comparando, por meio da análise do discurso jurídico, documentos produzidos nos séculos XIX e XX.
Apesar de a teoria das representações sociais, na produção do conhecimento histórico, ser pouco referenciada, o mesmo não ocorre com o termo "representação" que, a despeito de sua polissemia atestada por Cardoso e Gomes (2000), autores que chegam mesmo a identificar sua utilização como "sinônimo de 'interpretação', de 'concepção' ou de 'entendimento' que vários espaços/tempos históricos produziram"7, tem-se caracterizado como central na atual produção das distintas correntes historiográficas8.
Entre os trabalhos na área de história que discutem a questão da representação e que consideram aspectos psicossociais em suas análises, podem-se citar o clássico de Marc Bloch (1993), Os reis taumaturgos, lançado em 1924, que analisa a crença difundida na Europa de que os reis tinham o poder de curar doenças de pele com o toque, e O grande medo, de Georges Lefebvre (1979), que realiza um mapeamento dos comportamentos psicológicos coletivos em relação à Revolução Francesa. Nos trabalhos brasileiros, há os estudos de Carvalho (1990) que, ao investigar a formação de nossa república, aponta o fracasso da tentativa desse novo sistema de se associar a uma imagem feminina, no caso, a Marianne francesa. Motivo de chacota, os tablóides populares acabaram por ancorar a nova república na única imagem de mulher pública da época: a prostituta. Ou seja, como não havia representações sociais de mulheres com participações cívicas, a figura de Marianne não encontrou um terreno propício para ser ancorada e acabou fracassando como símbolo pátrio.
Evidentemente que, com esses exemplos, não se pretende desconsiderar aqui as diferenças de abordagem entre as áreas de história e psicologia que têm perguntas distintas, ainda que complementares, a responder. Segundo Moscovici, a perspectiva dos historiadores difere da dos psicólogos sociais na medida em que estes
...destacam a produção das ideologias e se perguntam de onde proveem as ideias que temos sobre a sociedade e a política. Essas ideias são socialmente determinadas? Qual a validade que elas podem pretender? Contudo, não são estas as questões que me apaixonam e as quais, como psicólogo social, procurarei responder. Outras são as questões da minha disciplina: Como as idéias são transmitidas de geração para geração e comunicadas de um indivíduo a outro? Por que elas mudam o modo de pensar e de agir das pessoas até tornar-se parte integrante de suas vidas? (1991, p. 77)
Ainda que essas diferenças sejam sopesadas, é possível concluir que trabalhos tanto na área de história com ênfase nas representações, quanto na de representações sociais com ênfase em história, dão conta da existência de zonas de fronteiras, explicitadas em linhas gerais a seguir, que envolvem esses dois campos de saber, zonas estas já delineadas desde o trabalho inicial de Moscovici9, uma vez que, de acordo com esse autor, a noção de "representação coletiva", da qual ele derivou a de representações sociais, "teria mesmo caído em desuso se não fosse uma escola de historiadores que lhe conservou os traços, ao longo de pesquisas sobre as mentalidades" (Moscovici, 2001).
Evidentemente que, apesar da origem em comum, esses termos não são inteiramente sinônimos10 nem tiveram a mesma trajetória: enquanto a história das mentalidades11 teve, sobretudo no meio francês, um ápice na década de 60, atualmente, essa noção tem se desgastado no meio acadêmico apesar de, segundo Vainfas (1997), haver recentemente um "extraordinário vigor dos estudos sobre o mental, ainda que sob novos rótulos e com outras roupagens"12. Já a teoria das representações sociais sofreu o processo inverso: pouco usada no início, observa-se, atualmente, uma grande utilização dessa abordagem em diversas áreas do conhecimento (Jodelet, 2003).
A reciprocidade entre a teoria das representações sociais e a história das mentalidades pode ser observada, de acordo com Jodelet (2003) no que tange à definição dos objetos, ao caráter coletivo dos fenômenos estudados e à tomada de consciência da dimensão afetiva, sendo possível ainda acrescentar a preocupação com os tempos históricos: longa, média e curta duração13.
Também Emilani e Palmonari (2001) apontam que a abordagem da história do cotidiano14, filiada à das mentalidades (Vainfas, 1997), aproxima-se do conceito de representações sociais não apenas pelo fato de terem seu objeto de estudo focalizado no âmbito das ideias, mas por se preocuparem com uma espécie de "edificação espontânea" dos conhecimentos. Assim, Moscovici (1978), ao apresentar a ideia da existência de duas formas de racionalidade15 o pensamento lógico-científico e o pensamento social, que permite que o mundo social se torne um lugar familiar e previsível , traz, para a Psicologia Social, a preocupação com a vida cotidiana como um "lugar particular e específico de nossa experiência e do conhecimento, lugar por vezes público, por vezes privado, baseado em sentidos comuns e procedimentos partilhados de interpretação e de negociação" (Emilani, Palmonari, 2001, p. 143).
Mais do que conceitos que guardam certa similaridade, pode-se afirmar que a própria questão da generatividade e funcionamento das representações sociais é, de certo modo, tributária dos processos ligados às mentalidades, na medida em que,
...em sua qualidade de saber socialmente construído e compartilhado, oferecendo-se como uma versão da realidade sobre e com a qual atuar, a representação é um pensamento prático e sociocêntrico [...], posta ao serviço da satisfação e justificação de necessidades, interesses e valores do grupo que a produzem. O que, por um lado, a aproxima da ideologia e, por outro, compromete o conjunto dos códigos, modelos e prescrições que, orientando a ação, participam da cultura e das mentalidades. (Jodelet, 2003, p. 102-103)
Um outro aspecto que também pode ser apontado como continuidade, tanto no plano da história quanto no da teoria das representações sociais, refere-se a uma crítica ao uso analítico da noção de "representação", que teria ainda um aspecto mais descritivo do que explicativo em ambas as áreas16:
Muitas vezes desprovida dos instrumentos teóricos necessários à elaboração de um quadro formal e/ou conceitual de análise, a maior parte dos historiadores que trabalham nessa perspectiva faz uso limitado e quase sempre factual dessas duas noções [representação e cultura política]. Empregado de maneira isolada, sem referência ao sistema de relações teóricas das quais ele depende, o conceito de representação parece, em determinados casos, servir unicamente de figura retórica e de justificativa a um certo modismo intelectual. (Silva, 2000, p. 96)
Em termos de descontinuidade17, a relação entre representações sociais e mentalidades se desenvolve mais em torno das pequenas diferenças do que de grandes divergências. Como exemplo de uma delas, pode-se citar o uso indiscriminado do termo "inconsciente" que, por vezes, reduz o papel do social na ação dos indivíduos (Jodelet, 2003).
Outra diferença refere-se à questão da inércia ou do apego a mudanças praticamente imperceptíveis, o que provocou diversas críticas à história das mentalidades relacionadas, sobretudo, à ideia da temporalidade herdada da linha braudeliana. Contudo, essa diferença em relação à teoria das representações sociais tem se diluído, sobretudo após a abordagem realizada por Vovelle (1991) que insiste na efetividade analítica dos conceitos de "longa duração" e de "olhar antropológico", bem como da necessidade de relacionar as mentalidades com totalidades históricas explicativas, pois, segundo esse autor, a ideia de inércia e imutabilidade são noções incompatíveis com o próprio ofício do historiador, traduzido, em linhas gerais, como o de explicar as transformações sociais no tempo.
De acordo com Jodelet (2003), a ótica da psicologia social difere da ótica da história em sua escala temporal, na medida em que "as mentalidades comprometem o passado e o tempo longo, as representações o término curto e um tempo acelerado, incluindo precipitações conjunturais em razão dos meios de comunicação contemporâneos". Contudo, apesar de as representações serem comumente associadas ao tempo curto, é possível que, em algumas situações, elas apresentem uma duração temporal maior como indicam, por exemplo, os estudos de Banchs (1999) sobre gênero. Acredita-se que essa situação também seja particularmente observável naquilo que Moscovici (2003, 1988) denomina representações hegemônicas18, caracterizadas por transpassarem os grupos e por apresentarem estabilidade estrutural e temporal, ainda que passíveis de mudança, uma vez que se ancoram nas crenças e valores culturalmente difundidos, como é o caso, por exemplo, das representações sociais de país. Isso, de certa forma, justificaria a existência de uma "regularidade de estilo"19 (Moscovici, 2003), uma espécie de continuidade nas categorias de pensamento relacionadas, por exemplo, às "comunidades imaginadas"20, para utilizar a expressão cunhada por Anderson. Segundo Roussiau e Bonardi
...a inteligibilidade do processo de construção de uma representação reclama que se faça um apelo ao passado, à história, à memória, tanto para enfatizar o que do passado se insere nas novas representações (a marca do passado e, por consequência, as especificidades do presente) como para compreender como a memória e o conhecimento se articulam, como o pré-construído age sobre a aquisição de informações e saberes novos. (2002, p. 41)
Ou seja, ainda que a gênese de determinadas representações sociais possa estar no tempo histórico definido como de longa duração, elas são articuladas, necessariamente, ao tempo de curta duração, haja vista sua dependência em relação ao contexto ideológico do momento, ao grau de implicação do(s) grupo(s) que a(s) elabora(m) e à ligação e ao estilo das comunicações partilhadas por ele(s)21, dado que é no epicentro das representações sociais que se encontra, justamente, o sistema de valores compartilhados a priori por um determinado grupo, e "é no interior desse mesmo sistema de valores que se ancoram o estrangeiro e a novidade" (Gigling, Rateau, 1999, p. 64).
Nesse sentido, a articulação entre história e representações sociais vincula-se, diretamente, a um dos principais objetivos destas últimas, que é o de transformar o estranho em familiar (Moscovici, 2003), para indicar não apenas a relação que os grupos e indivíduos estabelecem com os demais e com o seu ambiente mas também orientar a ação deles por meio de um código que permita nomear e classificar, de forma precisa, os diferentes aspectos da vida cotidiana22. É por isso que o estudo da historicidade das representações sociais é um campo privilegiado para análise dos processos de naturalização de conteúdos, sobretudo, por meio dos conceitos temporais de continuidade e mudança, conceitos estes, acrescente-se, fundamentais também para a compreensão do processo histórico.
OBJETIVAÇÃO E ANCORAGEM COMO PROCESSOS "PSICO-HISTÓRICOS"
Para a consideração da historicidade das representações sociais importa observar a ação combinada de dois processos23, objetivação e ancoragem, que estão na base da origem e do funcionamento das representações sociais24 e que concorrem para a determinação de seu conteúdo e de sua estrutura. De acordo com Jesuíno, os processos de objetivação e ancoragem
...são antes sucessivos, ou melhor, justapostos ou, ainda, paralelos, não sendo possível bem discernir qual deles está em funcionamento, dado que jamais o começo de um segue a finalização do outro. Haveria como que uma espécie de gestalt switch na passagem de um ao outro. Por conseguinte, a teoria parece dar as costas à integração, ela permanece aberta, sem fechamento, o que talvez não seja uma fragilidade, mas, ao contrário, a tradução da natureza dos fenômenos sobre os quais ela é erigida. (2001, p. 288)
Embora, atualmente, o processo de objetivação seja estudado investigando-se os elementos que concentram a significação do objeto representado, bem como sua articulação com a prática cotidiana no interior dos grupos sociais (Casado, Calonge, 2001), Moscovici (1978) o concebeu, inicialmente, como um processo desenvolvido em três etapas sucessivas: seleção construtiva ou descontextualização da informação; criação do núcleo ou esquema figurativo; naturalização.
Na primeira etapa, algumas informações privilegiadas são selecionadas e destacadas do contexto original de criação, sendo reorganizadas em um conjunto teórico e novamente integradas ao sistema de pensamento do grupo em questão (Di Giacomo, 1987). Segundo Paez,
...isto se dá junto a um processo de descontextualização do discurso, ou seja, este se abstrai de suas condições de produção, do aparato ideológico e do suposto emissor, das características do objeto-conteúdo da informação e das características do receptor "vítima" do discurso. (1987, p. 307)
A segunda etapa consiste na composição de um esquema ou núcleo figurativo em que determinados elementos passam a apresentar um papel mais importante do que outros, por meio da construção de uma "estrutura imaginária tributária de uma estrutura conceitual, a qual vai conformar o núcleo central da representação" (Casado, Calonge, 2001), ou seja, o conceito converte-se aqui em imagem vinculada a ideias ou a palavras. Ayestaran, De Rosa e Páez (1987) acrescentam ainda que, apesar de o conhecimento prévio ativado ser conceitual, ele também possui aspectos figurativos que se associam com uma dimensão afetiva de modo a construir uma determinada estruturação.
A terceira e última etapa é a da naturalização, em que os elementos do esquema figurativo são percebidos pelos indivíduos como uma expressão direta daquilo que está sendo representado, ou seja, a imagem se naturaliza e é tratada como real25: "o esquema figurativo vai 'ser' o fenômeno apresentado. Os conceitos se transformam em categorias sociais de linguagem que expressam diretamente a realidade. Os conceitos se ontologizam e tomam vida automaticamente" (Páez, 1987, p. 309). É justamente isso que exprime Abric (1994), ao afirmar que toda realidade é representada, não existindo realidade objetiva a priori. Nesse sentido, após essas três etapas, a objetivação "fornece aos indivíduos o sentimento de que seu discurso sobre o mundo não é uma construção intelectual, uma visão teórica do real, mas o simples reflexo da realidade circundante"26 (Moliner, 2001).
Contudo, a naturalização da novidade em que o abstrato se transforma em concreto, somente se completa quando esta se inscreve não apenas nas relações intergrupais, mas também nos sistemas de pensamento preexistentes por meio da ancoragem27, processo pelo qual "o sistema de conhecimentos da representação se ancora na realidade social, atribuindo-lhe uma funcionalidade e um papel regulador da interação grupal." (Páez, 1987). É por isso que, quando se identificam os pontos em que uma representação está ancorada, reconhecem-se também os domínios de conhecimento que engendram suas significações mais gerais (Moliner, 2001).
Duas formas complementares de ancoragem28 são identificadas por Moliner (2001), uma corresponde ao fato de as informações acerca de um dado objeto serem interpretadas segundo os sistemas sociocognitivos existentes, de forma que os conhecimentos produzidos em um domínio possam guiar o trabalho cognitivo elaborado em outro; a outra refere-se à ideia de que os saberes produzidos e interpretados com base nesse sistema preexistente serão instrumentalizados pelos grupos sociais para legitimar suas posições, ou seja, tais saberes serão, necessariamente, classificados e etiquetados por meio de categorias e significações consideradas positivas ou negativas (Palmonari, Doise, 1986). Nesse sentido, é duplo o objetivo do processo de ancoragem dado que ele permite a construção de sistemas de pensamento e de compreensão, ao mesmo tempo em que engendra visões consensuais e aceitáveis de ação (Moscovici, 2003).
É, portanto, por meio do processo de ancoragem que a representação se enraíza nas relações sociais, com base nos quadros de pensamento preexistentes29 acessados com o objetivo de familiarizar as experiências novas e estranhas (Moscovici, Vignaux, 1994) e que permitem
...integrar o objeto da representação no sistema de valores do sujeito. Mas é igualmente ele [quadro de pensamento preexistente] que traduz a inserção social e a apropriação pelos grupos sociais de uma representação emergente em um ambiente social com todos os conflitos sociais e culturais que daí se seguem. (Roussiau, Bonardi, 2001, p. 20)
Ao final, portanto, dos processos de objetivação e ancoragem, a representação vai se "saturando de realidade" (Casado, Calonge, 2001) até que, num certo momento, o estranho é convertido em familiar e passa a ser percebido como uma realidade objetiva sendo, então, incorporado à linguagem e à memória coletiva. A função social desses processos consiste, justamente, em facilitar a comunicação a partir da transformação de teorias e conceitos complexos em um instrumento para categorizar comportamentos a fim de servir de guia para a ação30.
Para concluir, e retomando a ideia dos processos formadores das representações sociais, vale lembrar que, ao mesmo tempo em que a objetivação e a ancoragem operam, acessam-se, segundo Moliner (2001), os processos de comunicação coletiva (as comunicações interpessoais, os debates públicos, a mídia, as comunicações culturais etc.) que contribuem para que os indivíduos partilhem do saber por eles elaborado. Assim, se a objetivação permite a naturalização de uma construção intelectual e a ancoragem possibilita a integração de um dado objeto no sistema de valores do indivíduo e do grupo, surge, "ao mesmo tempo, um processo de comunicação coletiva, podendo revestir-se de diversas formas que acompanham e modulam os processos de produção de saber" (Moliner, 2001).
De qualquer modo, é nessa transformação do estranho em familiar que a objetivação e a ancoragem podem ser vistas como processos privilegiados para investigar a historicidade das representações sociais na medida em que estas se inscrevem nos quadros de pensamento preexistentes "tributários, a cada vez, de sistemas de crença ancorados em valores, tradições, imagens do mundo e do ser" (Moscovici, Vignaux, 1994) e que são dependentes das condições sócio-históricas não podendo, portanto, ser associados a princípios atemporais, imutáveis e anistóricos, motivo pelo qual as representações podem ser analisadas também como processos psico-históricos31. Assim, enquanto Guareschi e Jovchelovitch (1995) afirmam que "a dimensão cognitiva, afetiva e social estão presentes na própria noção de representações sociais"32 é a dimensão histórica que fundamenta estas demais dimensões, de modo que a constituição mesma das representações seja dependente das variáveis históricas e esteja sempre atrelada aos conceitos temporais de permanência e mudança.
PERMANÊNCIA E MUDANÇA: A PLASTICIDADE DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
A historicidade das representações sociais se constitui em uma zona de confluência entre conteúdos com características mais estáveis, porque oriundos de épocas históricas anteriores e que são reapropriados no senso comum e conteúdos flexíveis, dependentes do contexto imediato, e que são caracterizados pela mobilidade de seus elementos.
Em outras palavras, a articulação entre permanência e mudança, é um aspecto intrínseco à historicidade das representações sociais33 e não uma "medida externa em que a duração depende da distância cronológica que separa a dois estados distintos de um fenômeno" (Suárez Molnar, 2003, p. 98). Assim, apesar de a representação se ancorar em conhecimentos preexistentes, apreendidos segundo o efeito que estes provocam no presente34, esta não perde de vista seu aspecto pragmático de ser guia para ação e tradutora da realidade social, motivo pelo qual ela se define, concomitantemente, como produto e como processo (Jodelet, 1986); produto porque se constitui por meio de conteúdos oriundos de outras épocas históricas e, processo, porque ainda que se possa localizar sua origem, esta é sempre incompleta visto que outros conteúdos a alimentam, o que levou Moscovici (2003) a afirmar que "estamos sempre em uma situação de analisar representações de representações".
A articulação proposta entre permanência e mudança como intrínseca à historicidade das representações sociais corresponde, em última análise, à dimensão estável e à dimensão dinâmica do senso comum, embora, em linhas gerais, difira da teorização do núcleo central e do sistema periférico (Abric, 2003, Flament, 1994, 1994a), na medida em que apenas a consideração da historicidade das representações sociais é que permite verificar a permanência ou mudança de um determinado conceito em momentos históricos distintos, indicando a estabilidade estrutural dos conteúdos representacionais, uma vez que a referência cronológica se torna obrigatória para identificar o que há de comum ou de diferente em uma perspectiva temporal.
Evidentemente que não se trata de afirmar que as vertentes sociológica e estrutural consideram a teoria das representações sociais como um fenômeno anistórico. O próprio Abric (1994), representante da linha estrutural, alega que "as representações sociais são fortemente marcadas por sua inscrição em um processo temporal e histórico", motivo pelo qual a teoria do núcleo central, tributária dessa linha, propõe variados mecanismos de coleta e análise dos dados para a identificação dos elementos que compõem seu núcleo e seu sistema periférico.
Nesse sentido, trabalhos fundamentados em uma abordagem estrutural, se trazem uma preocupação com a dimensão histórica de uma determinada representação, não se podem basear apenas na técnica de associação livre35, uma vez que considerar apenas os indicadores de frequência e de posição de evocação é enfatizar o conhecimento inferido de uma experiência direta dos sujeitos em relação às informações disponíveis na atualidade, o que pode fazer com que se considerem permanentes e, portanto, estáveis ou centrais, elementos advindos não necessariamente da vida social.
A observação da historicidade das representações sociais gera, portanto, parâmetros que permitem interpretar como permanentes apenas aqueles elementos que efetivamente emergem da vida social, o que leva à conclusão de que mesmo uma abordagem estrutural ou ainda sociológica, que trabalha em torno da ideia dos princípios organizadores das representações (Doise, 1986) não prescinde de um exame histórico desses elementos. Evidentemente que, com isso, não se tem a intenção de afirmar que todas as pesquisas em representações sociais devam considerar sua historicidade como objeto de estudo, uma vez que essa escolha está atrelada à pergunta elaborada pelo pesquisador. Contudo, se a intenção é investigar processos de generatividade, bem como a construção da estabilidade ou mesmo dos princípios organizadores das representações sociais, então, não há como desconsiderar a dimensão histórica uma vez que somente o estudo das representações sociais, aliado a uma análise histórica de seu conteúdo, é que permite verificar se a permanência de um conteúdo corresponde à respectiva permanência de seu significado ainda que seja outro o contexto histórico de sua utilização.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A contribuição de uma análise que considere a historicidade das representações sociais oferece, portanto, a possibilidade de, ao sopesar sua dimensão estável e dinâmica, estabelecer um referencial analítico e interpretativo acerca do conteúdo representacional no sentido de investigar os processos que o constitui, contribuindo, com isso, para sua desnaturalização, ou seja, para a compreensão de que ele é parte de uma construção histórica e não uma espécie de "universal abstrato", na medida em que permite tornar visível a "experiência histórica de nossa sociedade"36, que se expressa na atualização de elementos do passado presentificados nas representações sociais contemporâneas.
Isso pressuposto, do ponto de vista dos quadros estruturantes da representação social, a presença de elementos oriundos de uma base de conhecimento constituída em uma outra época histórica é um fato inerente à própria natureza da representação, o que "prova que ainda há conexões profundas entre problemas que se formulam e são vividos de maneira diferente", conforme Koselleck em entrevista concedida a Fernández Sebastián e Fuentes (2006, p. 138), pelo fato de ser outro o contexto histórico. Sendo assim, apenas uma análise histórica, articulada à uma perspectiva psicossocial, permite discutir o contexto que possibilitou o estabelecimento de certos conteúdos representacionais em detrimento de outros.
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Recebido em: janeiro 2009
Aprovado para publicação em: junho 2009
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