Open-access Teichmüller, filosofastro: Nietzsche, estudo de fontes, perspectivismo (parte 1)

Teichmüller, philosophaster: Nietzsche, Source study, Perspectivism (part 1)

Resumo

Dividido em duas partes, este artigo pretende discutir, à luz do método do estudo de fontes, como Nietzsche recepciona o perspectivismo de G. Teichmüller. Minha hipótese, com base nos termos de KSA 11, 608, é de que Nietzsche subverte a historiografia usual ao tratar a fonte como um alimento que é digerido em um processo de “seleção”, “incorporação” e “rejeição”. No caso de Teichmüller, este processo assume uma forma ainda mais curiosa na medida em que, criticamente, a digestão da fonte tem por objetivo descaracterizá-la, ou melhor, re-caracterizá-la ao modo de um tipo, uma caricatura, uma ofensa (Schimpfwort).

Palavras-chave
Nietzsche; Teichmüller; estudo de fontes; perspectivismo

Abstract

Divided into two parts, this article aims to discuss, in light of the source study method, how Nietzsche receives G. Teichmüller's perspectivism. My hypothesis, based on the terms of KSA 11, 608, is that Nietzsche subverts conventional historiography by treating the source as nourishment to be digested through a process of “selection,” “incorporation,” and “rejection.” In the case of Teichmüller, this process takes on an even more curious form insofar as, critically, the digestion of the source aims to de-characterize - or rather, to recharacterize it in the manner of a type, a caricature, an offense (Schimpfwort).

Keywords
Nietzsche; Teichmüller; source study; perspectivism

1. Introdução: Wasser auf meine Mühle!

A pesquisa-Nietzsche nas últimas décadas intensificou de tal modo o debate sobre os métodos de leitura de sua obra que “[a]tualmente, qualquer investigação rigorosa do seu pensamento deve começar expondo os pressupostos metodológicos adotados para a interpretação de sua obra, justificando-os ou apenas indicando-os”1. Tal é o propósito desta primeira seção.

Prolongando o esforço do trabalho crítico-filológico de M. Montinari2, projetos como o de reconstrução da biblioteca ideal de Nietzsche levado adiante por Campioni3, e mais recentemente a consolidação dos Nietzsche-Kommentar sob a supervisão de Sommer4, tem particularmente evidenciado a importância do método de estudo de fontes para uma interpretação genética documentada da obra de Nietzsche. Em termos gerais, o mapeamento do que “Nietzsche leu e o que não leu”5, oferece um aporte substantivo para a compreensão da trama do texto na medida em que ilumina as conexões que permanecem ocultas sem a devida consideração do contexto e de seus interlocutores6.

A investigação sobre a biblioteca de Nietzsche induz a uma reflexão sobre a específica trama do texto nietzschiano. Um dos resultados principais deste método de leitura consiste na mais clara compreensão do desenvolvimento interno do mesmo pensamento nietzschiano, nas suas profundas rupturas e desvios, mas também nos seus inegáveis motivos de continuidade. […] A reflexão sobre as leituras de Nietzsche é um tema central não somente, como é óbvio, para a definição do texto, mas também, para a “individualidade” do filósofo - “sempre mais peculiar quanto mais se consegue colher a posição de Nietzsche na tradição, no seu tempo e no futuro que ele constrói”7.

Muito embora intérpretes como p. ex. Jaspers (1936), desde a década de 1930, tenham se atentado para a “origem material” de algumas expressões nietzschianas, como o substantivo masculino em análise aqui, “perspectivismo” (Perspektivismus), seu potencial elucidativo para o “sentido do filosofar” de Nietzsche, até muito recentemente, não havia sido devidamente considerado:

Não raro, aquilo que foi lido é convertido em palavra e pensamento em Nietzsche, o que é menos interessante para o sentido de seu filosofar que para a origem material de seus meios de expressão. Que o “além do homem” apareça em Goethe, e que os “filisteus da cultura” seja uma expressão empregada por Haym é tão pouco essencial como que as palavras “perspectivismo”, “mundo verdadeiro e mundo aparente” tenham sido retiradas de Teichmüller e “decadência” de Bourget. Tudo se deve à receptividade de Nietzsche que se cumpre com naturalidade, de um modo imediato e que em si mesmo é cambiante. Sem ela, a criação seria impossível8.

Palavras e expressões análogas àquelas que aos olhos de Jaspers pareceram “pouco essenciais”, ressurgem no atual estágio de especialização da pesquisa como um verdadeiro “tesouro”, estimulando uma reindexação da obra e a expansão do inventário de fontes. Como ilustra Campioni (2013, p. 22): “Às vezes, uma pista que parece de pouca importância (como uma minhoca que se pode jogar fora) pode abrir o caminho para a exploração de temas importantes e pouco estudados”.

O fato das palavras “perspectivismo” e do par conceitual “mundo verdadeiro e mundo aparente” terem sido retirados (entnehmen) da obra de Gustav Teichmüller (1832-1888), portanto, não é mero preciosismo quanto à “origem material” dos meios de expressão, mas incide diretamente sobre o “sentido do filosofar” de Nietzsche. Como o próprio Nietzsche confessa em uma carta a Overbeck de 27 de outubro de 1883 (KSB 6.449), na exclamação que figura no subtítulo desta seção, Teichmüller é: “Wasser auf meine Mühle!” (Água para o meu moinho!).

Na última citação de Jaspers (1936), destaquei o verbo retirar (entnehmen, que pode ser traduzido também como extrair, recolher, tirar, obter) para uma importante ressalva. Embora a tradicional historiografia filosófica nos induza a pensar em uma relação linear e/ou causal entre os autores, como se um autor simplesmente “retirasse” de outro um conceito, argumento, ideia etc., ao modo de uma transmissão ou herança - a famigerada “influência” -, o estudo de fontes revela uma situação muito mais complexa.

A leitura de Nietzsche, em especial, frustra as expectativas e compromissos epistêmicos da tradicional historiografia, justamente por isso o debate sobre os métodos de leitura necessita ser específico e vem recebendo tanta atenção. O que pode significar uma influência em Nietzsche é algo que a crítica especializada ainda tem buscado precisar, afinal de contas trata-se de um autor que designa o interlocutor como “inimigo” e o exercício de interlocução como “prática de guerra”9. Como indiquei em outro momento10, apoiado em KSA 11.608, a dinâmica da leitura em Nietzsche constitui-se como um “experimento de alimentação, de antropofagia e, muitas vezes, de autofagia”. Trata-se, assim, menos de retirar (entnehmen) e mais de incorporar (einverleiben), de se apropriar de uma tradição. Nesta medida, o estudo de fontes logra

[…] expor, com a sobriedade científica que a caracteriza, o modo como um autor é admirável na arte do aprendizado fecundo, na medida em que é capaz de se apropriar de forma criativa de tudo aquilo que a tradição e o acaso de sua própria época lhe oferecem como estímulos para a sua reflexão11.

O intérprete argumenta ainda que o estudo de fontes permite contornar algumas más práticas da historiografia filosófica, como a “crença, pouco produtiva em minha opinião, de que a filosofia é um monólogo de seres de exceção em torno de questões atemporais”, e “de atribuir Nietzsche um lugar único na história da filosofia e aplicar à sua obra o monstruoso conceito de causa sui”12. Um dos maiores prejuízos da escassez do estudo de fontes para o perspectivismo incide sobre o que Campioni (2013), anteriormente, denominou como a “individualidade” de Nietzsche, pois nesse caso se deixa de “colher” a posição mais específica na tradição com e contra a qual ele dialoga. Em virtude disso, argumenta Marton, comentar Nietzsche exige um cuidadoso trabalho de contextualização:

Contextualizar a obra nietzschiana no quadro da história da filosofia é, a nosso ver, imprescindível. Não hesitaríamos em afirmar que não se pode comentá-la sem recorrer a um quadro histórico. Pois, muitos dos equívocos que ocorreram e ainda ocorrem no trato com a obra de Nietzsche se devem ao fato de não se levar em conta seus interlocutores […] Pesquisas que levem em conta esse material poderiam concorrer para identificar fontes de que se serviu e de que, de modo sempre original, se apropriou13.

A ausência de uma investigação das fontes, especificamente no caso de Teichmüller, foi um grande obstáculo para se distinguir com clareza o lugar que o perspectivismo de Nietzsche ocupou no debate moderno e, cumpre destacar, o lugar que ele não ocupou. Isso porque alguns dos equívocos ou, pelo menos, das imprecisões que envolvem a interpretação do perspectivismo de Nietzsche, dizem respeito a se atribuir a ele, no rasto dos neo-kantianos, uma posição que seria mais compatível com autores como Teichmüller. Tais equívocos teriam sido evitados se a fortuna crítica não houvesse, a exemplo do que fez Jaspers (1936), dispensado certas palavras e pensamentos importantes como se fossem “minhocas”, e perseguido com rigor os “rastros que as leituras que realizou deixaram em seus livros”14.

A falta de uma atenção mais detalhada às fontes (afinal, se trata de tentar reconstruir a biblioteca ideal de Nietzsche, um inventário completo de suas leituras), produziu outra má prática interpretativa. O debate sobre o perspectivismo é um bom exemplo disso, na medida em que ele foi delineado em contraste com interlocutores, Teichmüller em especial, que a história da filosofia não canonizou. A certa distância tende-se a vincular Nietzsche a um autor mais canônico, como Kant, sem considerar um ajuste fino em termos de atualização do debate, e, como consequência disso, atribuir a Nietzsche uma posição que não se aplica a ele. Na verdade, o próprio Nietzsche parece estrategicamente incentivar esta prática, na medida em que “obscurece”15 ou invisibiliza alguns de seus interlocutores contemporâneos. Ainda que Nietzsche possa ser designado, em alguma medida, programaticamente, pela herança de alguns debates, um “neo-kantiano”16, se o vinculamos diretamente a Kant sem considerar algumas conexões ou mediações, como Teichmüller (e, também, Lange, Spir), perdemos os meandros do estado da arte - e o confundimos. Mesmo porque, e isto é particularmente curioso, Nietzsche provavelmente leu mais Teichmüller do que Kant, que conhecia de segunda mão17.

Até muito recentemente o estudo da fonte Teichmüller foi bastante discreto18. Seu marco inicial é o artigo de Hermann Nohl (1879-1960), Eine historische Quelle zu Nietzsches Perspektivismus, de 1912, um estudo realmente Avant-garde não só em termos da interlocução entre Nietzsche e Teichmüller, como sobre o estudo de fontes em Nietzsche de modo geral19. Com exceção de Jaspers (1936), que faz uma rápida e pouco significativa menção a Teichmüller, a pesquisa-Nietzsche na primeira metade do século XX passou ao largo desta interlocução. Na segunda metade, com exceção de poucos trabalhos como os de Dickopp (1970), Stack (1983), Orsucci (1992) e Venturelli (1994), e das incursões de Montinari, a situação também não é muito diferente. Apenas mais recentemente Teichmüller passou a figurar entre os interlocutores de Nietzsche, por exemplo em estudos como os de Small (2001) e Brobjer (2008), “documentações” (Nachweise) publicadas nos Nietzsche Studien20, e recebeu a atenção de intérpretes como Holub (2002), Emden (2005), Riccardi (2009), Stegmaier (2012), Sommer (2016), Dellinger (2017) etc. Em destaque, por sua atenção específica a Teichmüller, figuram os trabalhos de H. Schwencke (2006; 2013).

De acordo com Small (2001, p. 47), não há dúvida de que a ideia de perspectiva seja um claro “débito” de Nietzsche para com o pensamento de Teichmüller. Schwenke (2013, p. 08) considera que Nietzsche “adotou” e “radicalizou” o perspectivismo elaborado por Teichmüller. Brobjer (2008, p. 97) pondera que não só a influência de Teichmüller foi fundamental para o desenvolvimento do perspectivismo, como também as de Spir e Lange. Estou de acordo com os três intérpretes, especialmente Brobjer, mas meu interesse recai sobre Teichmüller por três motivos. Em primeiro lugar, porque é dele que efetivamente Nietzsche “retira”, para usar o termo historiograficamente pouco engajado de Jaspers (1936), a palavra perspectivismo; em segundo lugar, porque também na filosofia de Teichmüller há nomeadamente um perspectivismo, diferente de Lange21 e Spir; e, em terceiro lugar, porque entendo que ao estabelecer um quadro comparativo entre os perspectivismos de Teichmüller e Nietzsche as diferenças entre eles podem se tornar mais claras, possibilitando, tal é o meu objetivo específico, lançar luz sobre alguns mal entendidos que envolvem o perspectivismo de Nietzsche. Nas seções que se seguem, à luz dos objetivos, pretendo examinar: i) as características gerais do perspectivismo de Teichmüller; ii) as (des)continuidades entre Kant, Teichmüller e Nietzsche; iii) a crítica de Nietzsche à metafísica renovada e à psicologia rudimentar de Teichmüller; iv) a título de conclusão, a designação de Teichmüller como “filosofastro”.

2. O perspectivismo de Gustav Teichmüller

Teichmüller22 relegou um amplo trabalho filosófico desenvolvido em duas dezenas de obras, além de artigos e outras publicações em periódicos. Antes de desenvolver um pensamento autoral, ele esteve envolvido com a escola de Trendelenburg e debruçou-se sobre os estudos de filosofia antiga, particularmente Aristóteles. Schwenke (2013, p. 64) divide a sua produção em três períodos: i) pesquisas sobre Aristóteles (1859-1869); ii) história dos conceitos, dos pré-socráticos a Platão e Aristóteles (1873-1879); iii) pesquisas históricas (1881-1889), que envolvem uma teoria sistemática sobre problemas metafísicos caudatários da filosofia transcendental, como a dicotomia entre realidade e aparência. Ryzhkova (2013) ratifica essa divisão e ainda observa que o início da filosofia autoral de Teichmüller coincide com a sua mudança em 1871 da Universidade da Basileia, onde Nietzsche lecionava23, para a Universidade de Dorpat (ou Universidade de Tartu, na Estônia)24. O primeiro contato de Nietzsche com Teichmüller provavelmente ocorreu em 1867, num congresso de filologia em Halle25, onde o então professor de filosofia da Universidade da Basileia26 proferiu uma conferência sobre a Poética de Aristóteles27.

Die wirkliche und die scheinbare Welt (1882), sua obra capital, sistematiza boa parte das posições que ele desenvolveu ao longo de toda a década de 1870. Para que possamos compreender o desenvolvimento de seu perspectivismo, todavia, faz-se necessária uma breve digressão por três de suas obras anteriores: Über die Unsterblichkeit der Seele (1874), Darwinismus und Philosophie (1877) e Über das Wesen der Liebe (1879), que sumarizo aqui também a título de divulgação de um autor que recebeu tão pouca atenção entre nós28.

Em Über die Unsterblichkeit der Seele, imbuido de uma investigação temática e histórica sobre o conceito de alma (Seele), Teichmüller se aproxima do amplo debate sobre os desdobramentos da filosofia transcendental e sua recepção no idealismo alemão. Na transição entre o período inicial como intérprete de filosofia antiga e sua fase mais produtiva e autoral, essa obra é marcada pela formulação de certo “panpsiquismo monadológico radical”, como designa Schwenke (2006, p. 70): “Radical, pois para a Teichmüller não apenas tudo é animado (beseelt), mas tudo é anímico (seelisch). Monadológico, pois a realidade consiste em uma multidão de indivíduos independentes”. Teichmüller está preocupado, sobretudo, com a posição ofuscada que o Sujeito acabou por assumir diante do Todo (das Allgemeine) no programa teórico do idealismo. Numa mescla curiosa (não para um leitor de Nietzsche), entre as filosofias de Leibniz, Platão e a fisiologia do séc. XIX, por exemplo, J. P. Müller (1801-1858), Teichmüller passará a edificar uma teoria (perspectivista) da projeção, um “projetivismo”29, que recusa a existência do mundo material, um todo objetivo por trás dos fenômenos sensoriais.

Revisando a doutrina da imortalidade da alma de Platão30, que ele pretende desarticular pela diferenciação entre o Platão “literato” e o “cientista”, Teichmüller estabelece, divergindo de E. Zeller31, que as almas não podem ser completamente separadas do material e que almas e ideias não possuem uma existência transcendente (seu “panpsiquismo”). A “imortalidade” da alma em Platão apenas designaria a persistência da espécie humana mediante a reprodução e renovação dos indivíduos, logo, o pretenso conhecimento da eternidade não passaria de uma projeção indevida de uma perspectiva temporal, individual, restrita32. Nesta medida, as percepções de um sujeito, inclusive a que ele tem do próprio corpo, não passam de projeções, representações dos efeitos que um ser produz sobre outro.

Em Darwinismus und Philosophie (1877)33, Teichmüller detalha alguns elementos de sua teoria da projeção, como a projeção do tempo, compreendido como uma “forma de reflexão” (Reflexionsform) constituída pela posição do indivíduo, enquanto Eu substancialmente pensante, em um determinado momento, em uma perspectiva de antes e depois, de tal modo que: “O conhecimento nada sabe do tempo; apenas a comparação dos estados através da imaginação e o entendimento dessa representação”34,35. De modo análogo, a projeção do espaço também se constitui a partir de um ponto de vista aleatório, cuja posição demarca outros pontos no espaço, o aqui e o ali, por assim dizer. Teichmüller apresenta o exemplo de alguém que se levanta em uma sala e estabelece, a partir de seu ponto de vista espaço-temporal, as coordenadas de direita e esquerda, antes e depois. Por certo que, observa Teichmüller no movimento argumentativo que encerra o texto, tal concepção de tempo e espaço incide sobre a validade de teorias científicas, como o próprio evolucionismo de Darwin em voga na segunda metade do séc. XIX. Para além de uma crítica ao darwinismo, seu objetivo é ampliar o alcance da crítica ao idealismo filosófico também ao âmbito das ciências naturais, que a exemplo do darwinismo, acabaram por ensejar uma visão objetiva e atemporal da natureza, numa reedição do Todo na forma de uma proposição do tipo “tudo sempre evolui”.

Já em Über das Wesen der Liebe, que também segue a estrutura de uma investigação histórica e temática, agora sobre o conceito de amor, o problema da motivação moral está no horizonte das preocupações de Teichmüller. Particularmente importante para a discussão sobre o perspectivismo será o aprofundamento da divisão entre o mundo em si e a perspectiva que se estabelece nesta obra. Importante notar que é justamente a pretexto de uma discussão moral que a divisão entre mundo real e mundo aparente (nos termos de sua posterior obra capital) será consolidada; ecos do kantismo. Teichmüller necessita desta divisão para poder estabelecer outra: a diferença metafísica entre o amor e o egoísmo. Enquanto o egoísmo é circunscrito ao limite da perspectiva, o amor ultrapassa a perspectividade em prol de um conhecimento objetivo. Em termos morais, a postura egoísta é composta e condicionada por uma visão estreita, restrita, unilateral dos interesses e motivações do agente (em termos kantianos, fenomêmica), enquanto o amor rechaça a primeira pessoa, o ponto de vista do agente, em prol do reconhecimento de outras motivações e interesses, melhor dizendo, do desinteresse altruísta (nos mesmos termos, noumênica). Teichmüller ainda se valerá do conceito de amor para explicar a interação entre as substâncias individuais de seu panpsiquismo monadológico; ali, o amor atua como uma espécie de força motriz que leva as substâncias móveis e dependentes a interagirem entre si.

Como bem sintetiza Ryzhkova (2013), a filosofia de Teichmüller constitui-se a partir de uma leitura crítica da tradição filosófica, dividida por ele em quatro grandes extrações: i) materialismo; ii) idealismo; iii) positivismo e; iv) leibnizianismo. O foco da divergência, como já pudemos antever pela breve análise das obras da década de 1870, deve-se à compreensão do estatuto e da relação entre sujeito e objeto, que em Teichmüller são pensados em termos de projetivismo ou perspectivismo. Assim, o materialismo e o positivismo estariam equivocados ao conceber as projeções da alma como objetos empíricos independentes, e, por conseguinte, ao conferir valor da verdade a eles. Já o idealismo substancializa conceitos e ideias, desconsiderando a sua fundamental condição de perspectiva, o que compromete particularmente a explicação das existências individuais. O leibnizianismo, por sua vez, pareceu a Teichmüller uma explicação mais viável filosoficamente, em primeiro lugar por avançar sua concepção de multiplicidade de substâncias individuais e, em segundo, por recusar a existência objetiva do tempo e espaço, fenômenos ilusórios da alma. Teichmüller se distancia de Leibniz, todavia, ao perseguir: i) um entendimento mais dinâmico e complexo das interações entre as substâncias, ainda muito incipiente, segundo a sua leitura, nas ideias de percepção e apetição das mônadas; ii) uma definição de ser mais compatível com o projetivismo, para além daquela da mônada como princípio de força e atividade.

As investigações desenvolvidas ao longo de toda a década de 1870 pavimentam o terreno para a obra que marcará a guinada para o terceiro e mais autoral período do pensamento de Teichmüller, Die wirkliche und die scheinbare Welt: Neue Grundlegung der Metaphysik (1882), onde o seu perspectivismo será definitivamente arregimentado. Curioso notar, como relata Szylkarski em Dyroff (1940, p. XVII), que inicialmente Teichmüller havia sugerido em uma carta para a editora o título “A metafísica da quarta visão de mundo” (Die Metaphysik der vierten Weltansicht), e que apenas diante do texto impresso, o par conceitual que figurou no título definitivo (que despertou a atenção, e recebeu as aspas de Nietzsche em JGB/BM 10, KSA 5.22-24) foi cunhado. Seja como for, a proposta de um novo fundamento da metafísica ou de uma metafísica de tipo especial tornou-se a referência do próprio Teichmüller nas futuras referências à obra.

O prefácio da obra é bastante elucidativo quanto à caracterização do problema e à posição que Teichmüller aspira galgar na filosofia pós-Kant e Trendelenburg. Após algumas breves declarações sobre o estatuto da filosofia e sua história recente, ele aponta para a especificidade e a longevidade do debate que pretende enfrentar:

Agora ficou claro que nenhum dos mais novos foi além da meta estabelecida por Platão no Parmênides; pois todos os idealistas de nosso século estão preocupados com a mediação da oposição entre pensamento e ser, espírito e natureza, ideal e real, uno e múltiplo, e nenhum foi capaz de alcançar esta mediação de outra forma que Platão em seu Parmênides36.

Como sabe um leitor iniciado, Parmênides é um dos diálogos em que Platão discute aspectos cruciais de sua metafísica, como a teoria das formas, o problema da relação entre uno e múltiplo e o conceito de participação. Nem mesmo os “mais novos” (numa referência à escola de Trendelenburg), todavia, conseguiram “ir além” do imbróglio ali encenado por Sócrates, Parmênides e Zenão, isto é, a relação entre ser e pensamento. Se o ser é e o não-ser não é, se há identidade entre ser e pensamento, se há e como há participação entre uno e múltiplo etc. são questões formuladas nos limites de uma metafísica peculiar, da qual a tradição não foi efetivamente capaz de se desvencilhar. Imbuído desta hipótese ampla acerca da história do pensamento ocidental, Teichmüller classifica:

De fato, quando analisamos todo o conteúdo de todo o conhecimento humano, podemos distinguir dois grupos: o conteúdo empírico e o conteúdo especulativo. Todo conteúdo empírico está relacionado a objetos sensuais; todo conteúdo especulativo a ideias e inteligíveis. Agora me parece que a direção de todos os filósofos difere de acordo com isso; pois o chamado materialismo, o “democritismo” e o empirismo projeta nossas imagens visuais e o conhecimento subsequente para o mundo exterior e acredita em uma natureza sensual, em objetos ou substâncias sensualmente empíricas, em maioria ou em unidade […] O chamado idealismo, por outro lado, projeta nossos conceitos para o mundo exterior e faz com que um Logos livre da natureza, um nous, um amor, o bem, o propósito, a ideia, a ordem mundial, a lei e afins pareçam poderes inteligíveis mais altos do que a substância real37.

A diferenciação no Prefácio entre dois grandes grupos do conhecimento humano, seguida da objeção a ambas, demonstra que a crítica de Teichmüller não incide apenas sobre uma das posições que desde o Parmênides polarizaram a querela ser versus pensamento. Antes, trata-se de uma denúncia programática da incapacidade, tanto do materialismo quanto do idealismo, de desvencilharem-se da gramática platônica e do tipo de mediação entre ser e pensamento, uno e múltiplo, que ela possibilita ou, por que não dizer, determina. A objeção central de Teichmüller, desenvolvida ao longo da década de 1870, é reapresentada aqui e ratifica o perspectivismo que orienta toda a obra:

Portanto, todos estes sistemas são representações projetivas do nosso conteúdo cognitivo e, uma vez que a cognição está necessariamente relacionada com o ponto de vista do Sujeito, são meramente imagens perspectivísticas. Como em toda a atividade de reconhecimento, tanto nas visões sensuais como nas chamadas ideias e princípios, apenas é dado o nosso conteúdo cognitivo, que tem apenas um ser ideal como seu conteúdo cognitivo, nego que a existência e o ser substantivo podem ser encontrados por e em qualquer um destes sistemas, e oponho estas imagens ideais e perspectivadas do mundo com o Sujeito, que está no ponto de vista do olho e apenas foi “virado de cabeça para baixo” e atirado para a superfície da imagem por uma ficção. Este Sujeito é a substância procurada em vão no seu conteúdo ideal objetivo. As nuances dos vários sistemas e também todos os seus chamados principais opostos desaparecem, portanto, para este novo ponto de vista, do qual todos eles só podem ser considerados como imagens de perspectiva. Esta é a breve declaração da minha posição sobre a filosofia e as orientações do passado; a justificação detalhada e a explicação e responsabilidade mais detalhadas devem ser dadas pela própria obra38.

Ainda que divirjam quanto ao conteúdo ideal objetivo, idealismo e materialismo incorrem no mesmo erro fundamental (e por isso não vão além de Platão), ao ignorarem que tanto as “intuições sensíveis” (sinnlichen Anschauungen) quanto as ideias e princípios não passam de “representações projetivas” (projektivische Darstellungen) provenientes do “conteúdo cognitivo” (Erkenntnisinhalt)39 do ser ideal ou substância, que Teichmüller aqui designa como o Sujeito (das Subjekt), mas que também definirá como Eu40, o elemento “x” do “novo fundamento da metafísica”, por sua vez dividida em uma ontologia, Livro I “O mundo real - Ontologia” (Die wirkliche Welt - Ontologie), e uma fenomenologia, Livro II “O mundo aparente - Fenomenologia”.

A única possibilidade que nos resta para determinar o “x” é uma analogia com o Eu; pois o Eu é a primeira e única substância que conhecemos diretamente e em todas as suas atividades e no conteúdo de sua atividade. Portanto, se formos obrigados a pensar numa essência fora do Eu, só poderemos formá-la à imagem do Eu. Nós criamos os seres à nossa própria imagem41.

O mundo objetivo, ideal ou material, é tão somente uma aparência perspectivista do universo psíquico do único ser ideal verdadeiro, o Eu (Ich)42. Platão, e à esteira dele toda a metafísica subsequente, inclusive a moderna, errou de “alvo” ao procurar o “x” da metafísica num conteúdo ideal ou material objetivo (a ideia, a substância etc.). Os materialistas porque dissolveram esse “x” em elementos e processos materiais e fisiológicos; os idealistas porque perderam esse “x” em conceitos gerais, sem considerar que perante o Eu toda a pretensa objetividade é simplesmente uma nuance da projeção perspectivista.

Se tudo o que podemos conhecer do mundo objetivo é uma ficção, a única consciência imediata possível é a de si mesmo, o que não significa que o Eu seja uma espécie de construção teórica, mas sim uma realidade que conhecemos intuitivamente. Como esclarece Graumann (1960, p. 37):

Somente o ego possui todos os conteúdos em si e sabe da existência de suas atividades; ele projeta esses conteúdos para fora, mas como um ego autoconsciente também é capaz de julgar essa projeção e, nesse julgamento, especialmente no julgamento científico, de separar o ser real da aparência perspectiva, de acordo com a analogia direcionada por sua própria substancialidade43.

É tão somente a partir da imagem (Bild) do Eu, de seu modelo (Vorbild), que o mundo externo é criado, conformado. A objetividade, a exterioridade, o assim designado “mundo” é tão somente uma “ficção invertida” (umgeklappt Fiction) do único ser ideal, o Eu, primeira e única substância que conhecemos diretamente, “protótipo de toda essência” (Prototyp alle Wesen)44. Como sintetiza Nohl (1912, p. 07): “A verdadeira substância é o sujeito e a verdadeira interpretação é por analogia o nosso Eu”, por conseguinte, tudo o que o Eu projeta é apenas um mundo aparente (die scheinbare Welt), um reflexo de imagens refletido pelo mundo verdadeiro (die wirklich Welt) do Eu, ao modo de um espelho. Do que se conclui:

Assim, nós nos encontramos em um mundo aparente, como se estivéssemos apenas olhando o mundo no espelho e, acima dos objetos olhados ali, incluindo o nosso próprio reflexo, nos esquecemos completamente de nós mesmos como uma pessoa real, que aqui olha e vive45.

“Se aquelas formas de percepção nas quais combinamos nossas múltiplas sensações em unidades de qualquer tipo são perspectivistas em seu caráter”, tal seria o limite da posição de Teichmüller segundo Graumann (1960, p. 37), “então elas nada têm a ver com a realidade (no sentido de Teichmüller)”.

Se a existência do Eu é único conhecimento imediato que podemos ter, enfatiza Small (2001), o que denominamos por conhecimento não passa de uma “semiótica”46, um tipo de signo da linguagem. Toda a experiência é uma ilusão, o produto de uma projeção perspectivista do mundo real psíquico do Eu que engendra um mundo aparente47. A história da metafísica buscou em vão a objetividade do ser com o sujeito “virado de cabeça para baixo” (umgeklappt).

Como outros filósofos do final do milênio, Nietzsche dentre eles, Teichmüller faz uma crítica em bloco da metafísica ocidental, aprofundando as consequências da guinada copernicana de Kant. Como Teichmüller ainda observa no Prefácio, não há motivo para surpresa, uma vez que a pedra de toque para o perspectivismo já havia sido estabelecida por Kant, de tal modo que “se Kant tivesse dito ‘perspectivístico’ ao invés de ‘dogmático’, o que certamente não poderia fazer do seu ponto de vista, nós já estaríamos em solo firme com ele”48. Essa última observação, contudo, precisa ser submetida ao escrutínio.

Continua na Parte 2.

Declaração de disponibilidade dos dados

Os autores afirmam que os artigos publicados no periódico Cadernos Nietzsche procedem à revisão bibliográfica enquanto método de pesquisa que analisa e sintetiza informações existentes, especialmente, em livros e artigos científicos sobre a filosofia de Nietzsche, objetivando identificar conceitos-chave, teorias relevantes, lacunas na literatura existente e propor interpretações originais acerca do pensamento do filósofo. Os dados concernentes aos artigos constam nas referências bibliográficas no final de cada texto, detalhando a procedência em notas de fim de página, disponibilizando assim todo o material utilizado na pesquisa.

  • 1
  • 2
    Cf.: NIETZSCHE, F. Werke und Briefe. Historisch-Kritische Gesamtausgabe (BAW: 05 vols.). Hrsg. von Hans Joachim Mette und Karl Schlechta. München: C. H. Beck'sche Verlagsbuchhandlung (1933-1940), 1994.
  • 3
  • 4
    Sobre os Nietzsche Kommentar, cf. Nasser, 2018.
  • 5
  • 6
    Embora não seja meu propósito aqui, no fundo, trata-se de iluminar certo “dialogismo” constitutivo dos textos, para recuperar o célebre conceito de M. Bakhtin. Cf.: Bakhtin, 2012.
  • 7
    Campioni, 2013, pp. 37-38.
  • 8
    Jaspers, 1936, p. 35.
  • 9
    EH/EH, Por que sou tão sábio, 07. KSA 6.274-275.
  • 10
  • 11
    Lopes, 2012, p. 241.
  • 12
    Lopes, 2012, p. 236.
  • 13
    Marton, 2018, p. 14.
  • 14
    Marton, 2018, p. 14.
  • 15
    No sentido pensado por Holub (2002, p. 126, tradução nossa): “Nietzsche também adotou um estilo que tendia a obscurecer seus interlocutores contemporâneos: ele raramente se engajava diretamente com os livros e autores que estava lendo, e quando incluía nomes próprios, geralmente eram os de autoridades mais veneráveis, em vez de contemporâneos. Assim, suas alusões, especialmente em suas obras publicadas, dão uma visão distorcida de sua leitura real, conforme refletido em sua biblioteca pessoal ou em seus empréstimos de diversas bibliotecas públicas ou universitárias. Muitas das obras que mais o influenciaram são raramente citadas diretamente, e embora ele tenha emprestado de outros suas opiniões sobre filósofos importantes, prefere escrever sobre os pensadores conhecidos em vez de suas fontes reais”.
  • 16
    No sentido que estabelece Bailey (2013, p. 141, tradução nossa): “Nietzsche está claramente ocupado com a noção de uma realidade inacessível em passagens como a seção em Sobre a Genealogia da Moral sobre o “conhecimento perspectivo” e a explicação de “Como o ‘mundo real’ finalmente se tornou uma fábula” em Crepúsculo dos Ídolos. Mas em outras discussões sobre o idealismo kantiano em seus textos posteriores, ele se preocupa com outras noções kantianas mais distintivas. Isso é particularmente evidente no capítulo Razão' na Filosofia” de Crepúsculo dos Ídolos. Ali, embora sem mencioná-los pelo nome, Nietzsche trata das posições de Spir e Gustav Teichmüller, posições que ele estudou particularmente de forma intensiva no final dos anos 1870 e 1880, e que o levaram a tratar o idealismo kantiano menos em termos de sua noção de uma realidade inacessível e mais em termos de como ele considera que fazemos julgamentos sobre a realidade”.
  • 17
  • 18
    Meu inventário baseia-se no acervo da Anna Amalia Bibliothek. Cf.: https://opac.lbs-weimar.gbv.de/DB=4.4/SET=1/TTL=1/NXT?FRST=11
  • 19
    A única tradução deste texto, até onde conheço, é de minha autoria e foi publicada nos Cadernos de Filosofia Alemã. Cf.: Nohl, Hermann. Uma fonte histórica do perspectivismo de Nietzsche: G. Teichmüller, o mundo real e o mundo aparente. Tradução de Ricardo Bazilio Dalla Vecchia. Cadernos de Filosofia Alemã. São Paulo, v. 25 n. 4, 2020.
  • 20
    Por exemplo: Brobjer, 2003; Von Rahden, 2003; Loukidelis, 2005; Riccardi, 2007.
  • 21
    Como bem observa Holub (2002, p. 126), embora Lange não utilize a palavra perspectivismo para tratar, p. ex., de nossa possibilidade de compreender apenas uma realidade fenomênica, seu pensamento flerta com posições perspectivistas em geometria e matemática, como a do espaço tridimensional.
  • 22
    Gustav Teichmüller nasceu em 1832 na Alemanha e morreu em 1888 na Estônia, onde residia desde 1871, por ocasião de um convite para lecionar na Universidade de Tartu, que o fez abandonar a cátedra de filosofia da Universidade da Basileia. Discípulo de F. Adolf Trendelenburg (1802-1872), foi especialista em filosofia antiga, sobretudo aristotélica, e dentre suas influências principais estão os pré-socráticos, Platão, Leibniz, Lotze e Kant.
  • 23
    Como se sabe, Nietzsche candidatou-se, sem sucesso, para a cátedra de filosofia deixada por Teichmüller na Basileia (Cf.: KSB 3.183).
  • 24
    Cf. Ryzhkova, 2013, p. 286.
  • 25
    Nietzsche relata, em termos musicais, a sua impressão sobre a participação neste congresso em uma carta a Rohde de 03 de novembro de 1867: “Esses dias em Halle são para mim, por enquanto, o finale engraçado ou, digamos, a Coda, da minha abertura filológica” (KSB 2.230).
  • 26
    C.P. Janz, em sua conhecida biografia, retrata alguns pormenores da relação entre Nietzsche e Teichmüller, dos quais cabe destacar: “De Teichmüller, Nietzsche adota conceitos como “perspectivismo” e “o mundo real e o mundo aparente” como expressão linguística e posição intelectual” (Janz, 2016, p. 308; vol. II).
  • 27
    De acordo com Brobjer (2008, p. 52): “Nietzsche provavelmente já havia ouvido Teichmüller falar durante a conferência filológica em Halle, em outubro de 1867, onde ele fez uma palestra intitulada “Die Lehre des Aristoteles über die Unterscheidung des Epos von der Tragödie””.
  • 28
    Até onde conheço, na Pesquisa-Nietzche do Brasil, são pouquíssimas as referências à fonte de Teichmüller. Lopes (2008, cap. 1 e cap. 4: seção 1 e 2) parece ter sido um dos poucos a se atentar para ela, mas com foco no platonismo político de Nietzsche e não no perspectivismo. Chaves (2012, p. 11) também o menciona brevemente, no contexto do debate sobre a recepção da Poética de Aristóteles.
  • 29
  • 30
    Como bem observa Sommer (2016, p. 61): “Apesar de Kant, Teichmüller vê a filosofia até os dias atuais como sendo determinada pelas diretrizes (perniciosas) de Platão […] Teichmüller tem tantas reservas com Platão quanto Nietzsche”.
  • 31
    Sobre isso, cf.: Hartung (2010).
  • 32
    Conforme comenta Ferber (2013, p. 270), em virtude desta posição, desde Teichmüller, tornou-se usual falar em “questão platônica”, em analogia à “questão socrática”.
  • 33
    Dedicado a Karl-Ernst von Baer (1792-1876), também conhecido de Nietzsche como se depreende de MA/HH 265.
  • 34
  • 35
    Sobre a projeção do tempo segundo Teichmüller, Nietzsche anota em FP/NF 1883, 7[153], KSA 10.292: “Teichmüller p. 204 das O eu compara o conteúdo ideal de sua representação e encontra a consciência do anterior (ou de um conteúdo dado na memória). Assim, em todas as sensações temporais, o eu é ativo. “O ato de resumir e comparar a memória, a sensação e a expectativa fora do tempo - isso é a atividade do eu””. Sommer (2016, p. 74) observa que a citação, digamos parcial, de Teichmüller por Nietzsche, faz seu sentido destoar do original, onde se lê: “[…] originado e primeiramente formado em suas três dimensões, só é possível através da peculiar unidade substancial de nosso eu, que pode resumir e comparar os atos de memória, sensação e expectativa fora do tempo.” O intérprete, a partir disso, observa a sequência da última citação: “Para Teichmüller, portanto, a possibilidade de comparar diferentes estados de si mesmo ao longo do tempo deve fornecer a prova de um eu substancialmente pensável, como é justamente rejeitado nos § 16 e 17 de Além do bem e do mal (JGB). Em contrapartida, o argumento 30, 10-14, a partir da constatação empírica da comparação de estados, defende que o comparador conhece outros estados não-pensantes em si e só a partir dessa comparação, mas não da intuição imediata, é que se pode inferir o que é o pensamento - e o que não é.”
  • 36
    Teichmüller, 1882, pp. XI-XII.
  • 37
  • 38
  • 39
    Sobre a diferença entre conteúdo ideal objetivo e conteúdo cognitivo, esclarece Schwencke (2006, p. 99): “Teichmüller diferencia entre os diferentes tipos de ser. Ele sabe que, em primeiro lugar, (há) o ser ideal, que é o conteúdo do nosso pensamento. A pergunta: o que pensamos? visa o ser ideal. As nossas atividades da alma, os verdadeiros atos de pensar ou sentir, por outro lado, possuem um ser real. Quanto ao ser real, não importa o que reconhecemos, ou queremos, mas que reconhecemos ou queremos, diz Teichmüller. Mas com as atividades da alma há sempre um Eu, alguém que pensa, sente, ou quer. Este Eu tem um ser substancial. […] O Eu não é um mero conceito ou o produto de uma atividade pensante, mas uma realidade que é diretamente apreendida na consciência”.
  • 40
    Na tipificação do Eu, Teichmüller descreve: “1) no “Eu” temos a singular e imediata autoconsciência, que não pode ser composta de nenhuma outra representação mais simples; 2) no “ver” e no “ouvir” temos a consciência de nossas atividades ou estados; 3) no “verde” e no “suave” temos as sensações e sentimentos. Nada disso pode ser acessado ou comunicado de outra forma, mas é uma consciência simples, não relacionada”. (Teichmüller, 1882, p. 18).
  • 41
  • 42
    Em NF/FP 1885, 39[18], KSA 11.62, Nietzsche investe contra este tipo de argumento metafísico, oferecendo como exemplo justamente a filosofia de Teichmüller: “NB. A credibilidade do corpo é, primeiro, a base a partir da qual o valor de todo o pensamento pode ser avaliado. Suponhamos que tivéssemos concebido coisas que não existem! (como, por exemplo, Teichmüller supõe!) e assim por diante. O corpo se revela cada vez menos como uma ilusão! Quem teve até agora motivos para pensar o corpo como uma ilusão? O perfeito adorador de Brahman.”
  • 43
  • 44
    No contexto desta definição, que rivaliza com Kant e Hegel, cf. Teichmüller (1882, p. 116).
  • 45
  • 46
    Sobre isso, Cf.: Teichmüller (1882, p. 104).
  • 47
    Neste sentido, complementa Small (2001, p. 44): “Não há privilégio atribuído à experiência ou aos nossos estados mentais, como pensadores contemporâneos, como Brentano, haviam afirmado. Mesmo o que normalmente é chamado de autoconhecimento é, na visão de Teichmüller, apenas semiótico. Os idealistas estão errados nesse ponto, porque identificam o eu com o pensar. Na verdade, o pensar é apenas uma de suas várias atividades, e, apesar de sua ampla aplicação (números, por exemplo, não têm limite para sua aplicação), o pensar não tem um status privilegiado em relação ao eu. Descartes é alvo de crítica nesse aspecto, devido à sua invocação acrítica do conceito de ser e à sua crença na certeza imediata do pensar. Teichmüller enfatiza que ele não está desvalorizando o conhecimento conceitual, apenas apontando que ele “não é a essência da questão”. Precisamos entender as experiências de sentimento e de vontade a partir das quais esse conhecimento é construído semioticamente”. Nohl (1912, p. 06) também está de acordo quanto a tal semiótica.
  • 48
    Teichmüller, 1882, p. XVIII.

Referências

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  • Pareceristas:
    Célia Machado Benvenho
    Clademir Araldi

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2025

Histórico

  • Recebido
    24 Set 2025
  • Aceito
    03 Out 2025
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