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Nietzsche Source: Search, check, quote

Resumo

Neste artigo, o editor e diretor científico do Nietzsche Source, Professor Paolo D’Iorio, descreve as duas edições da obra de Nietzsche atualmente publicadas nesse Web site científico Em primeiro lugar, a edição crítica, a Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe (eKGWB), que fornece uma versão eletrônica da edição alemã das obras completas do filósofo alemão, com base no texto crítico estabelecido por Giorgio Colli e Mazzino Montinari. Em segundo lugar, a edição fac-símile, a Digitale Faksimile-Gesamtausgabe (DFGA), que publica todos os documentos relativos à vida e à obra de Nietzsche. Ambas as edições podem ser consultadas gratuitamente através da Internet e são regularmente utilizadas por especialistas em Nietzsche de todo o mundo.

Palavras-chave:
Nietzsche Source; edição crítica; edição fac-símile; internet

Abstract

In this article, the editor and scientific director of Nietzsche Source, Professor Paolo D'Iorio, aims at describing the two editions of Nietzsche’s work currently published on this scientific Web site Firstly, the critical edition, the Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe (eKGWB), which provides an electronic version of the German edition of Nietzsche's complete works, based on the critical text established by Giorgio Colli and Mazzino Montinari. Secondly, the facsimile edition, the Digitale Faksimile-Gesamtausgabe (DFGA), which reproduces all the documents relating to Nietzsche's life and work. Both editions can be consulted free of charge through the Internet and are regularly used by the German philosopher specialists around the world.

Keywords:
Nietzsche Source; critical edition; facsimile edition; internet

As estatísticas de consultas nos mostram que, há quinze anos, estudiosos e estudantes utilizam a Nietzsche Source de maneira regular e constante para o seu trabalho diário. Uma média de 4.000 leitores por mês de todo o mundo consultam cerca de um milhão de páginas por ano. 200 destes leitores mensais provêm do Brasil, e, em particular, das regiões de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O objetivo deste artigo é esclarecer o status e as características editoriais de uma ferramenta que os estudiosos, no Brasil e no mundo, já utilizam amplamente. Pareceu-me útil fazer esse esclarecimento, porque, frequentemente, a Nietzsche Source é citada com uma terminologia inadequada, por exemplo, usando termos como “portal”, “banco de dados”, “mecanismo de pesquisa”, “plataforma”, “apresentação na Web”, “recurso digital”… Ou, em muitos casos, a Nietzsche Source é consultada diariamente para realizar pesquisas e verificações textuais ou para acessar os fac-símiles dos documentos originais, mas não é citado correta e sistematicamente nos artigos e nas monografias publicadas pelos estudiosos.

Em primeiro lugar, devemos, portanto, perguntar-nos: o que é a Nietzsche Source? A resposta é simples, Nietzsche Source é um site da Web que opera como uma editora digital publicando materiais cientificamente confiáveis no tocante a vida e obra de Nietzsche. Poderíamos considerá-la como um exemplo de edição total da obra de um autor. Total, mas não totalitária; pelo contrário, compartilhada e cumulativa. Nietzsche Source é, na verdade, dirigida pela Associação HyperNietzsche, uma associação internacional sem fins lucrativos, de direito francês, sediada na École normale supérieure de Paris. Atualmente, esta associação inclui 81 dentre os melhores especialistas em Nietzsche de 16 países, escolhidos por um comitê científico, e reúne as 10 associações nacionais de estudos nietzschianos1. A Nietzsche Source é composta de diversas partes. Três delas já estão disponíveis: a edição fac-símile, a edição crítica e Studia Nietzscheana, uma revista internacional e multilíngue. Duas partes da Nietzsche Source estão em preparação: a biblioteca e as leituras de Nietzsche, a edição genética. Além disso, existe um espaço da Nietzsche Source chamado Contexta, onde essas diversas partes são relacionadas umas com as outras e no qual é possível, por exemplo, confrontar uma página de um caderno de anotações de Nietzsche publicada na edição fac-símile com a transcrição correspondente publicada na edição crítica. Neste artigo, apresentaremos as características das duas edições atualmente disponíveis e nos concentraremos, em particular, sobre as modalidades de utilização e de citação nas publicações científicas.

A edição crítica, eKGWB

A Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe (eKGWB) 2, a edição crítica digital das obras e do epistolário de Nietzsche, publica uma versão correta e filologicamente atualizada do texto crítico estabelecido por Giorgio Colli e Mazzino Montinari.

A edição Colli/ Montinari

Quando falamos da edição Colli/Montinari estamos nos referindo a duas coleções: Nietzsche Werke, da qual constam as obras e os fragmentos póstumos do filósofo alemão, abreviada como KGW, e Nietzsche Briefwechsel, que contém suas cartas e é abreviada como KGB3. Apesar das acuradas e construtivas observações de alguns filólogos4 e as críticas mal-informadas e mal-intencionadas de alguns intérpretes5, pode-se tranquilamente afirmar que a edição Colli/Montinari é a melhor edição crítica das obras de Nietzsche que existe hoje. Iniciada no ano de 1961, é atualmente composta por 46 volumes de obras e 23 de cartas6. Entre os seus méritos, destacamos a publicação de um grande número de páginas inéditas de Nietzsche7; o fato de ter disponibilizado o material póstumo em uma ordem cronológica confiável, renunciando a qualquer ordenamento sistemático; de ter revelado as falsificações e omissões feitas pela irmã do filósofo alemão - sobretudo no caso do espólio - e, é claro, ter definitivamente demonstrado que Nietzsche havia desistido de escrever uma obra intitulada “A vontade de potência”8.

Toda grande edição enfrenta o problema relativo aos erros descobertos somente depois da impressão. Frequentemente, trata-se de simples equívocos de digitação, às vezes erros crassos de transcrição dos manuscritos e das cartas. No caso da KGW e da KGB, esses erros foram quase completamente identificados e as correções foram publicadas em uma longa lista de erratas contidas nos diversos tomos do aparato crítico. Alguns exemplos: pathetisch (patético) em vez de synthetisch (sintético), Körper (corpo) em vez de Küche (cozinha), Willen (vontades) em vez de Wollen (querer)9. Lamentavelmente, porém, talvez por motivos comerciais, os volumes afetados pelas correções não foram atualizados e reimpressos após a publicação dos aparatos críticos; portanto, o texto contido na edição impressa não reflete perfeitamente o estado da arte. Naturalmente, muitos dos cerca de 6.600 erros presentes no texto (4.600 nas obras e 2.000 nas cartas) podem ser considerados marginais, tais como, por exemplo, a falta de um itálico ou o acréscimo de uma quebra de linha. Mas há erros muito mais insidiosos: às vezes, uma vírgula deslocada ou uma palavra mal decifrada podem mudar o significado de uma frase inteira e influenciar na interpretação filosófica. Por conseguinte, quando se lê o texto da KGW e da KGB é preciso levar em consideração as erratas dispersas nos diversos tomos do aparato crítico.

A segunda versão impressa da edição Colli/ Montinari é a Studienausgabe, a edição de bolso - abreviada como KSA, para as obras, e KSB, para as cartas. Apenas uma pequena parte dos erros foi corrigida no texto dessas edições de bolso, as quais, além disso, tampouco contêm as listas de erratas. A KSB declara ter atualizado o texto corrigindo os erros impressos contidos na KGB10, mas isso é parcialmente verdadeiro. Através de uma série de verificações aleatórias, evidencia-se que a KSB, tanto na primeira edição de 1986 quanto na segunda edição de 2003, que é idêntica à primeira, corrigiu apenas uma pequena parte dos erros, sem nenhum critério explícito ou reconhecível11. A situação textual da KSA, que inclui somente as obras filosóficas e os fragmentos póstumos de 1869 a 1889, é ainda mais irregular daquela da KGB. A primeira edição de 1980 declarou que o texto da KSA era idêntico àquele da KGW e não mencionou as correções (ver KSA 14.18). Na realidade, o texto da KSA estava diferente daquele da KGW, porque, por um lado, integrava as correções destacadas no volume de aparato da KGW publicado em 1969 (KGW IV/4), e, por outro, havia introduzido novos erros de impressão - alguns dos quais foram reportados em uma errata impressa em um folheto volante datado em outubro de 1981. A segunda edição, publicada em 1989, três anos depois da morte de Montinari, fornecia informações contraditórias: no colofão, afirmava que o texto da segunda edição era idêntico àquele da primeira, mas, algumas linhas depois, acrescentou que a segunda edição havia sido revisada, sem explicar de qual tipo de revisão se tratava; além disso, a página 18 reiterou que o texto da KSA era idêntico àquele da KGW. Em realidade, o cotejo a mostra que o texto da segunda edição da KSA difere tanto daquele da KGW quanto o da primeira edição da KSA. É bem verdade que a segunda edição foi de fato revisada, integrando as correções contidas na errata do folheto volante de 1981 e também algumas das correções destacadas nos dois tomos do aparato da seção VII publicados em 1984 e em 1986. Porém, também neste caso, tal como o da KSB, não se compreende por que apenas uma pequena parte dos erros descobertos até aquele momento não foi corrigida. Depois de 1989, não foram feitas novas atualizações, e as milhares de correções indicadas dos aparatos críticos da KGW não foram integradas no texto da KSA12.

Para dar um exemplo dos tipos de erros nos quais se pode incorrer utilizando a KSA, citemos a tradução em inglês de uma antologia de fragmentos póstumos de Nietzsche publicada na conceituada coleção Cambridge Texts in the History of Philosophy13. Na página 31, lê-se: “Tragic knowledge, even in relation to the primal single being, is indeed only a representation, an image, a delusion”. O tradutor traduziu acertadamente o trecho da KSA: “Die tragische Erkenntniß ist ja auch dem Ureinen-Wesen gegenüber nur eine Vorstellung, ein Bild, ein Wahn”, isto é, “O conhecimento trágico também é, por certo, uma representação, uma imagem, uma ilusão em relação à essência do Uno-primordial”. Todavia, a errata da KGW nos indica que Nietzsche não havia escrito “Ureinen-Wesen” (a essência do Uno primordial), mas “Ureinen-Wahren (a verdade do Uno primordial) 14. Portanto, era preciso ler: “Die tragische Erkenntniß ist ja auch dem Ureinen-Wahren gegenüber nur eine Vorstellung, ein Bild, ein Wahn”, e, consequentemente, a tradução deveria ter sido: “Compared to the truth of the primordial one, even the tragic knowledge, is indeed only a representation, an image, an illusion”, ou seja: “O conhecimento trágico também é, por certo, uma representação, uma imagem, uma ilusão em relação à verdade do Uno-primordial”. Sob um ponto de vista filosófico, a diferença é evidente, sendo que a frase, agora, ajusta-se melhor com o resto do fragmento NF-1870,6[3], o qual visa a apresentar a oposição entre a verdade do Uno primordial e a ilusão do conhecimento trágico.

Por conseguinte, quando se utiliza a KSA ou a KSB para a interpretação filosófica ou para a tradução em outras línguas, deve-se sempre levar em consideração as listas de erratas presentes nos diversos tomos do aparato crítico da KGW e da KGB. De qualquer forma, é incrível que editoras conceituadas como a de Gruyter e DTV continuem a vender duas Studienausgaben que contêm 6.600 erros de impressão antigos e de decifração já descobertos e corrigidos por estudiosos nos últimos trinta anos.

Características da eKGWB

Desde 2009, a Nietzsche Source publica a Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe (eKGWB) e atualmente estão disponíveis todas as obras filosóficas, os fragmentos póstumos de 1869 em diante e todas as cartas de Nietzsche. As cartas endereçadas a Nietzsche e o aparato crítico estão em processo de publicação15. São três as características que distinguem esta edição digital da edição impressa e das outras edições digitais: correções, pesquisas e referências estáveis.

A primeira característica é a correção de todos os 6.600 erros presentes no texto das edições impressas. Para evitar mal-entendidos, gostaria de deixar explícito que o objetivo da eKGWB não é o de corrigir os erros da edição crítica através de uma releitura dos textos e dos manuscritos originais de Nietzsche. O nosso propósito, ao contrário, foi ler e reproduzir cuidadosamente da melhor forma possível o texto da KGW e da KGB. Para tanto, realizamos um trabalho meticuloso de comparação, verificando cada palavra do texto eletrônico com o texto impresso. Cada escrito de Nietzsche foi cotejado duas vezes por dois filólogos diferentes. Em relação às edições impressas, que ainda não atualizaram os seus textos, a eKGBW é a primeira versão da edição crítica Colli/Montinari que inseriu no texto todas as 6.600 correções contidas nas longas listas de erratas presentes nos diversos volumes do aparato crítico. As passagens corretas foram codificadas a fim de aparecerem destacadas, sendo que, com um clique, os leitores podem visualizar o exemplo errado impresso na edição física. No caso do exemplo que demos acima, a versão correta de Ureinen-Wahren é diretamente legível no texto e acha-se destacada, enquanto a versão incorreta Ureinen-Wesen está acessível em uma janela que aparece quando se clica na palavra indicada16. Provavelmente, a eKGBW contém a melhor versão existente do texto crítico estabelecido por Colli e Montinari. Às vezes, diz-se que as edições digitais são de qualidade inferior em relação às impressas (e, em geral, isso é verdade), mas, no nosso caso, é o contrário que se verifica: a edição digital é filologicamente mais precisa do que a impressa. Evitar imprecisões é um requisito importante para todas as edições, porém é isso particularmente importante para as edições digitais, pois, se as palavras não estão escritas de maneira ortograficamente correta, os mecanismos de pesquisa textual não podem encontrá-las e, assim, as listas de ocorrências ficam incompletas.

A segunda característica da eKGWB diz respeito, precisamente, às pesquisas textuais. A eKGWB dispõe de uma série de recursos de pesquisa simples e eficazes. Conforme se digita uma palavra na caixa de pesquisa, como, por exemplo, a palavra Wille (vontade), um menu suspenso apresenta a lista de todas as palavras contidas na obra de Nietzsche que começam com as letras digitadas. Isto nos permite ver de imediato se a palavra que estamos buscando é uma das utilizadas por Nietzsche e notar eventuais diferenças na ortografia oitocentista. Uma vez iniciada a busca, obtém-se não apenas a lista de todas as ocorrências daquela palavra, mas também a indicação do número das unidades textuais na qual ela se acha presente. Na caixa de pesquisa é possível ainda usar os caracteres chamados coringas: o ponto de interrogação (?), que substitui um único caractere, ou, então, asterisco (*), que substitui um conjunto de caracteres: W?lle encontra Wille, assim como wollen e Welle. Se, como muitas vezes acontece, Nietzsche varia entre c e k na ortografia de nomes como Perikles, bastará buscar Peri?les para obter as ocorrências de ambas as versões. Wille* com o asterisco encontra Wille, como também Willens e Willensfreiheit. Caso se procure por wille*, com a inicial minúscula, clicando na opção “Distinguir maiúsculas e minúsculas”, encontrar-se-á willen e willenverneinende, mas não Willensfreiheit. É possível buscar duas ou mais palavras juntas, como, por exemplo, Leidenschaft e Erkenntniss. Caso deseje obter as unidades textuais nas quais aparecem ambas as palavras, é preciso escolher a opção: “Todas estas palavras”, e, com isso, se obtêm 29 ocorrências. Do contrário, seleciona-se a opção “Pelo menos uma destas palavras”, obtendo-se, no caso, 585 ocorrências. Para buscar uma frase precisa, por exemplo “Leidenschaft der Erkenntniss”, basta inseri-la na opção de pesquisa entre aspas. É possível limitar a pesquisa a um período, por exemplo, para encontrar todos os textos escritos desde 01 de janeiro até 31 de março de 1880. Ou, então, pode-se limitar a pesquisa a um grupo de textos, por exemplo, somente às obras publicadas ou aos fragmentos póstumos. Pode-se também limitar a pesquisa a uma ou mais partes, ou capítulos das obras de Nietzsche, e buscar, digamos, a palavra Musik nos capítulos de 1 a 8 de O nascimento da tragédia. Da mesma forma, pode-se limitar a pesquisa a um grupo de cartas, como, por exemplo, as cartas que Nietzsche escreveu a Carl von Gersdoff, de Bonn. Ou, quiçá, podemos visualizar todas as cartas que Nietzsche escreveu em Sils-Maria. Ao abrir novas linhas de pesquisa, é possível combinar todos esses critérios. Por exemplo, pode-se combinar quatro critérios de pesquisa para encontrar todas as vezes que Nietzsche escreveu: 1) a palavra Paris, 2) mas somente nos fragmentos póstumos ou 3) nas cartas de Sils Maria 4) de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 1884. A lista das ocorrências pode ser consultada na tela ou impressa, para poder trabalhar mesmo quando não se dispõe de um computador ou de uma conexão com a internet. É possível simplesmente imprimir a lista das siglas, ou, então, um extrato do texto que contém a palavra buscada.

Não menos importante, a terceira característica da edição digital é o fato de que ela dispõe de referências bibliográficas estáveis, simples e semânticas e que, portanto, podem ser citadas na literatura científica. Na verdade, a eKGWB utiliza um sistema de catalogação digital que atribui a toda obra, capítulo, aforismo ou fragmento um endereço de internet único, estável e citável. Como exemplo, o primeiro parágrafo d’O anticristo se encontra no endereço: www.nietzschesource.org/eKGWB/AC-1.

O endereço de internet tem uma estrutura muito precisa. A primeira parte corresponde à editora. Como dissemos, Nietzsche Source é de fato uma editora que usa o meio digital. A segunda parte, por seu turno, identifica a edição - neste caso a edição crítica eKGWB. A terceira parte indica a obra, no caso aludido, O anticristo, abreviado como AC. Esta terceira parte utiliza as abreviações que são muito similares àquelas utilizadas pela edição Colli/ Montinari e que, por conseguinte, são familiares aos leitores e estudiosos de Nietzsche. A última parte, por sua vez, identifica o número do parágrafo ou do aforismo - neste caso mencionado, trata-se do primeiro parágrafo. Graças a este sistema de catalogação, os estudiosos de Nietzsche podem indicar facilmente e sem ambiguidades cada parágrafo, aforismo e fragmento da sua obra em seus artigos ou em suas monografias, utilizando um endereço simples, estável e imediatamente compreensível aos leitores17. Dessa forma, a eKGWB pode ser citada como qualquer outra edição. Basta sinalizar as referências bibliográficas da edição na primeira nota de um artigo ou na de uma monografia, do seguinte modo:

“Para os textos de Nietzsche, referimo-nos à Digitale Kritische Gesamtausgabe Werke und Briefe, editado por Paolo D’Iorio, Paris, Nietzsche Source, 2009 -, www.nietzschesource.org/eKGWB”.

No texto do artigo ou nas notas complementares, utilizam-se as abreviações das obras, das cartas e dos fragmentos da seguinte maneira:

AC-1 = primeiro parágrafo de Der Antichrist.

BVN-1881,135 = carta de Nietzsche número 135 de 1881.

NF-1878,28[4] = fragmento póstumo 28[4] de 1878.

Em todos os casos, ao leitor bastará inserir a abreviação no final da URL da edição para consultar diretamente o texto de Nietzsche: www.nietzschesource.org/eKGWB/AC-1 ou: www.nietzschesource.org/AC-1.

A meu ver, é completamente inútil acrescentar a data da consulta, por exemplo, na forma “consultado em 12 de junho”. Esta frase não acrescenta em nada na precisão da referência bibliográfica. Na verdade, as referências bibliográficas devem permitir ao leitor verificar as afirmações do autor. Mas como poderia o leitor verificar o que o autor consultou em 12 de junho? Aliás, esta observação também se aplica quando se refere a um manuscrito em um arquivo ou a um livro em uma biblioteca que poderiam desaparecer, como às vezes desaparecem as páginas da Web. No entanto, ninguém escreve “consultado no dia 12 de junho” quando se refere a um livro impresso ou a um documento conservado em arquivo. As páginas da Web desaparecem com mais frequência? Certamente, mas acrescentar “consultado no dia 12 de junho” não as faz reaparecer e não permite ao leitor verificar as afirmações do autor.

Além disso, gostaria de enfatizar que a eKGWB ainda não está concluída, porque faltam as cartas a Nietzsche, os escritos de juventude e os escritos filológicos. Observei que alguns colegas escrevem, por exemplo, “Nietzsche cita somente 5 vezes o nome de Eduard Zeller, conhecido historiador da filosofia”. Mas, como sabem? Leram toda a obra de Nietzsche e contaram as ocorrências do nome Zeller? Acredito que não. Muito provavelmente, fizeram uma pesquisa na eKGWB, mas estranhamente não indicam a sua fonte. Gostaria de destacar que a afirmação deles não é apenas incorreta do ponto de vista acadêmico, porque não cita a fonte utilizada, mas também está errada: Nietzsche decerto citou mais de 5 vezes o nome de Zeller, no entanto, a eKGWB ainda não incluiu os textos filológicos nos quais o nome de Zeller é mencionado com frequência. Portanto, para serem exatos precisariam escrever que o nome de Zeller, como resultado de uma pesquisa na eKGWB, aparece 5 vezes nos textos de Nietzsche do período de 1868 a 1889.

A ekGWB se baseia no texto crítico da edição Colli/Montinari, porém não se trata de uma mera reprodução, um tipo de “fotocópia digital” da KGW ou da KSA. Como vimos, do ponto de vista filológico as duas edições não são idênticas, pois o texto da edição impressa não está atualizado; e, do ponto de vista bibliográfico, trata-se definitivamente de duas edições independentes. Para não promover esse mal-entendido - típico de muitas “fontes eletrônicas” que não são verdadeiras edições digitais, mas simples substitutos das edições impressas -, a eKGWB não oferece um sistema de concordância com os volumes e com a paginação da KGW ou da KSA. Pelo contrário, dispõe de um sistema particular de classificação digital que não se baseia na paginação da edição impressa e não reproduz passivamente a estrutura dos volumes e das páginas da edição física, visando a reconstruir a classificação adotada por Montinari e reproduzi-la no meio digital. No meu entender, essa é uma característica menos evidente, mas muito importante da eKGWB, pois diz respeito ao estatuto dos textos de Nietzsche e ao seu grau de publicidade. Do ponto de vista teórico, ao ampliar a classificação canônica de Hans Joachim Mette, Montinari distinguiu claramente seis tipologias de escritos do filósofo: 1) as obras publicadas por Nietzsche (Veröffentlichte Werke); 2) as edições fora do circuito comercial (Privatdrucke); 3) os manuscritos autorizados, quer dizer, preparados para a publicação, mas não publicados diretamente por Nietzsche (Autorisierte Schriften); 4) os escritos póstumos, ou seja, aqueles que Nietzsche não tinha a intenção de publicar ou que tinha renunciado publicar (Nachgelassene Schriften); 5) os fragmentos póstumos, isto é, as meras notações que se encontram nos blocos de notas e cadernos do filósofo (Nachgelassene Fragmente); 6) as cartas escritas por Nietzsche, as que a ele foram endereçadas e as que terceiros redigiram a seu respeito18. Todavia, a transposição dessa divisão teórica nos volumes da edição impressa está imperfeita. Para alguns volumes, a editora escolheu um critério cronológico, publicando na mesma seção ou até no mesmo volume as obras publicadas, os escritos e os fragmentos póstumos que pertencem a um mesmo período, como acontece nas seções IV e V da KGW - nas quais, por exemplo, no mesmo volume, acham-se publicados Aurora e os fragmentos póstumos que lhe concernem. Contudo, isso não acontece nas seções seguintes onde, por exemplo, Para além de bem e mal não vem acompanhado pelos fragmentos a ele relacionados - o que não ocorre na KSA, onde Aurora foi publicada no volume 3 e os fragmentos a ela concernentes estão publicados nos volumes 8 e 9. Ademais, no caso de Zaratustra, por razões editoriais, a quarta parte foi impressa junto com as primeiras três, mesmo se tratando de uma impressão privada, fora do circuito comercial, que Nietzsche nunca tornou publico. A eKGWB, em vez disso, não estando condicionada pela forma do livro e pelas exigências do mercado editorial, pôde disponibilizar os escritos de Nietzsche seguindo de maneira rigorosa a classificação teórica feita por Montinari. Deste modo, o leitor pode ver claramente qual é o grau de publicidade que o filósofo alemão pretendia dar aos seus diversos textos19.

Para concluir, permitam-me fazer algumas considerações econômicas sobre o acesso à obra de Nietzsche. A edição completa das obras (KGW) e das cartas (KGB) é uma edição esplêndida, bem preparada e bem editada; porém, infelizmente, não é acessível para todos os bolsos: os 69 volumes até agora publicados custam 19.033 euros. As edições de bolso das obras (KSA) e das cartas (KSB) custam apenas 400 euros, mas estão incompletas e desatualizadas. A eKGWB é uma edição científica da obra de Nietzsche, confiável, atualizada e acessível a todos, gratuitamente, na internet. Pode ser utilizada livremente para as finalidades de pesquisa ou para o ensino, na condição de sempre citar a fonte e indicar corretamente o endereço da internet, bem como as abreviações dos trechos citados; no entanto, é proibida a disponibilização de qualquer forma de utilização comercial não autorizada20. Nietzsche é um autor difícil e aristocrático, que escrevia para poucos, mas a sua aristocracia não é a do privilégio econômico ou social. Quem quer realmente entendê-lo, quem quer se arriscar com o seu texto, deve ser capaz de fazê-lo armado somente da própria paixão e inteligência filosófica; o patrimônio pessoal ou a possibilidade de consultar boas bibliotecas não devem entrar em jogo. As obras de Nietzsche são para todos, ou, talvez, para ninguém, mas não devem ser somente para alguns.

A edição fac-símile, DFGA

A segunda edição publicada pela Nietzsche Source é a edição fac-símile, a Digitale Faksimile-Gesamtausgabe21. Por que publicar uma edição fac-símile da obra de Nietzsche? Buscaremos entendê-lo por meio de uma breve história dos manuscritos do filósofo alemão.

Os manuscritos de Nietzsche

É mérito de Elisabeth Forster-Nietzsche ter fundado o Arquivos Nietzsche e ter reunido a maior parte dos documentos que dizem respeito à vida e à obra de seu irmão. É bem verdade que Elisabeth tinha coletado esses materiais não apenas para conservá-los e publicá-los, mas também para ocultá-los, alterá-los ou destruí-los22. Assim, enquanto Nietzsche estava aprisionado pela loucura, os seus manuscritos foram trancados no cofre do Arquivo, inacessíveis não apenas para os estudiosos externos, mas até mesmo para os filólogos que editaram as obras completas. O testemunho de Ernst Horneffer, de 1907, é muito eloquente:

Não se deve acreditar que quem trabalhou no Arquivo Nietzsche pudesse desenvolver a sua atividade de acordo com os requisitos mínimos exigidos para um trabalho científico. Não tínhamos à nossa disposição nem os manuscritos das obras que devíamos publicar, nem a correspondência de Nietzsche. [...] A constante preocupação da senhora Föster-Nietzsche era a de sempre permanecer em uma posição dominante e assegurar que os seus filólogos não se tornassem muito competentes. Para tal escopo, sacrificava-se todo o resto até mesmo a verificação científica dos fatos mais importantes 23.

Ainda mais eloquente é o relato de Karl Schlechta que, em 1934, apesar de tudo, descobriu as provas de algumas das falsificações da irmã. Quando lhe mostrou e pediu que ela visse outros documentos originais, tal senhora de quase noventa anos ficou furiosa, soltou um grito de indignação e lhe atirou a sua bengala na cabeça: “Tive a sensação de que ela queria me matar”, confessou Schlechta ao biógrafo Heinz Friedrick Peter24. Somente depois da morte de Elisabeth, em 1935, os editores da edição histórico-crítica publicada por Beck finalmente tiveram acesso a todos os manuscritos, incluindo as sete caixas de documentos que a “irmã abusiva” guardou em seu legado pessoal25.

Infelizmente, a edição Beck foi interrompida pela guerra e depois definitivamente abandonada depois da derrota da Alemanha. Em 12 de abril de 1945, as tropas americanas entraram em Weimar seguidas pelas tropas russas, em julho. Considerado, com razão, como um centro de propaganda nazista26, o Arquivo Nietzsche foi fechado, os seus materiais embalados e selados, e o seu diretor, Max Oehler, preso e depois deixado para morrer de fome pela Sowiet-Militär-Administration. Todavia, em maio de 1946, o presidente da Turingia, Rudolf Paul, escreveu ao diretor do Arquivo Goethe-Schiller de Weimar, Hans Wahl, convidando-o a reabrir o Arquivo Nietzsche, dizendo ter informado à administração militar sobre o papel feito pela irmã do filósofo e do interesse dos estudiosos de “libertar o verdadeiro Nietzsche dessas falsificações” 27. A partir dessa carta, por três anos, Hans Wahl e Rudolf Paul tentaram reabrir o Arquivo Nietzsche, então purificado das influências nazistas, a fim de colocar o corpus nietzschiano à disposição dos estudiosos. Mas em fevereiro de 1949, devido à morte repentina de Hans Wahl e a uma mudança no clima político e cultural, o projeto foi bruscamente interrompido e, em outubro de 1949, as 111 caixas que continham todos os manuscritos e os livros do Arquivo Nietzsche foram transportadas para o Arquivo Goethe-Schiller28. Em 2 de agosto de 1951, o novo diretor, Gerhard Scholz, pôde enviar um comunicado oficial ao Staatssekretariat für Hochschulwesen em Berlim relatando que os documentos haviam sido reorganizados e podiam ser transmitidos aos estudiosos. Acrescentava, contudo, que “para evitar usos inapropriados (visto que os numerosos pedidos provenientes da Alemanha Ocidental e de outros países sob a influência dos EUA revelam um crescimento sintomático do ‘interesse por Nietzsche’) não concederemos a ninguém a autorização de utilizar os materiais nietzschianos sem antes ter recebido a vossa autorização por escrito”.

Em agosto de 1951, os manuscritos de Nietzsche, ainda que por trás da cortina de ferro, estavam pela primeira vez teoricamente acessíveis a todos os estudiosos29. A edição de Erich Podach dos últimos escritos nietzschianos, publicada em 1961, é o primeiro trabalho realizado que libertou e ampliou o acesso a todos os manuscritos do filósofo alemão. Podach está perfeitamente ciente de que uma nova fase se inicia:

Esta publicação assinala uma ruptura nos estudos sobre Nietzsche. Pela primeira vez, todos aqueles manuscritos que foram reunidos no Arquivo Nietzsche com o objetivo de monopolizar o legado nietzschiano e de exercer uma influência ditatorial sobre a literatura crítica, estavam sendo utilizados sem nenhuma limitação. Do início ao fim, de 1893 a 1945, o Arquivo Nietzsche esforçou-se, não sem sucesso, para escapar do controle científico e publicou os materiais nietzschianos a seu exclusivo critério. Muitos manuscritos importantes para o conhecimento da vida e obra de Nietzsche não foram publicados, ou então foram falsificados ou reproduzidos de maneira imprecisa 30.

Em abril do mesmo ano, Mazzino Montinari realiza a sua primeira estadia em Weimar sob o encargo de Giorgio Colli, sendo que, a partir daquele momento, inicia o projeto da grande edição crítica de Nietzsche, possibilitada precisamente pelo uso rigoroso e inteligente dos documentos originais e do apoio que as instituições de Weimar asseguraram para esse empreendimento “sem dúvida ousado” 31.

Esta breve história nos revela como a indisponibilidade das fontes primárias atrasou e condicionou o conhecimento e a compreensão das obras e da biografia de Nietzsche. Se os manuscritos estivessem acessíveis, todos os estudiosos poderiam constatar que “A vontade de potência” era apenas uma falsificação que fez uso do que foi descartado de Crepúsculo dos Ídolos e de O anticristo. Porém, os manuscritos estavam trancafiados no cofre do Arquivo Nietzsche. As edições, como se sabe, podem ser falsas, incompletas ou erradas. A edição de “A vontade de potência” era falsa; as edições das obras completas editadas pelo Arquivo Nietzsche estavam incompletas e continham uma grande quantidade de erros. A edição Colli/ Montinari é a melhor edição crítica existente, ainda que contenha diversos erros de impressão ou de transcrição. Portanto, por que publicar uma edição fac-símile da obra de Nietzsche? Uma resposta inicial é uma constatação histórica: porque historicamente todos os progressos na edição e, portanto, também na compreensão da filosofia de Nietzsche ocorreram na medida que os documentos originais foram disponibilizados. De resto, do ponto de vista epistemológico, os documentos originais são as fontes primárias para o estudo da obra de um autor. O único modo de desmascarar os falsos escritos e corrigir os erros é consultando os originais. A consulta dos documentos originais permanece ainda hoje indispensável para completar aquelas partes da edição crítica que ainda não foram publicadas; para controlar e, se necessário, corrigir as partes já publicadas e para experimentar novas formas de edição. Naturalmente, nem todos os estudiosos podem visitar Weimar, Basileia, Sils-Maria e outros centros de conservação, e, mesmo que pudessem fazê-lo, a consulta continua colocaria em perigo a conservação dos manuscritos. A edição em fac-símile dos manuscritos de Nietzsche permitirá maximizar, ao mesmo tempo, a consulta e a preservação dos originais. De fato, por um lado, graças a difusão na internet, todos os estudiosos do mundo poderão consultar uma reprodução confiável das fontes primárias; e, por outro, assim terão menos necessidade de acessar os originais - salvo para pesquisas muito especializadas, sobretudo de natureza codicológica -, que poderão ser conservados em ótimas condições.

Uma quimera de muitas faces

Não é por acaso que todos os grandes editores de Nietzsche levaram em consideração a ideia de uma edição fac-símile. No início do século XIX, esta ideia surgiu sob uma forma de quimera. Em um livreto de 1906, August Horneffer, criticando a atividade editorial do Arquivo Nietzsche e argumentando, com razão, que “A vontade de potência” não existe, evidenciou o problema sobre como publicar os póstumos de Nietzsche, e propôs duas soluções: 1) tentar reconstruir, ou melhor, construir a obra que o autor tinha em mente ao escrever, ou, então, 2) renunciar a qualquer tipo de ordenação e “reproduzir os manuscritos de Nietzsche como eles são, um após o outro”. Horneffer preferiu a segunda solução, especialmente no caso de querer realizar uma edição crítica “em grande estilo”, mas não omitiu as dificuldades:

Esta edição é injusta para com o autor porque apresenta a sua obra em um formato embrionário, que não corresponde com aquilo que ele tinha em mente. Nietzsche pensava de maneira muito mais coerente do que mostram os seus cadernos. Quando ele esboçava o plano de uma obra, esse plano era para ele uma estrutura viva e totalmente interligada, mas para o leitor não passa de um esquema morto. […] Esta edição exigiria muito do leitor; muita imersão e muita capacidade construtiva. Quem quisesse se orientar rapidamente nos percursos conceituais e nas teorias de Nietzsche, não encontraria nenhuma ajuda32.

No ano seguinte, Ernst Horneffer retomou e radicalizou as posições do irmão, escrevendo que existe somente uma única possibilidade de publicar os póstumos de Nietzsche:

os manuscritos de Nietzsche devem ser publicados assim como estão, palavra por palavra, renunciando a qualquer ordenação e reagrupamento. É claro que, desse modo, um deserto aparece diante dos olhos do leitor. Mas foi exatamente dessa maneira que Nietzsche escreveu, tão caótica, opaca e confusa. Toda tentativa do editor de dar uma mão, de ajudar o leitor, de oferecer algo que seja compreensível, só pode levar a uma falsificação do fato dado 33.

Poucos meses depois, Ernst Holzer, filólogo clássico discípulo de Rohde e editor de Nietzsche, respondeu aos dois irmãos com um artigo importante no qual considerava insustentável a ideia de publicar os manuscritos página por página. Na verdade, um manuscrito geralmente contém diversas folhas que pertencem a épocas diferentes e, às vezes, nem se quer é possível entender se o caderno foi escrito do início ao fim ou vice-versa; além disso, como reproduzir os diversos tipos de tinta ou de escrita? “Parece-me que só nos resta uma única saída: se realmente essa matéria-prima deve ser publicada como matéria-prima, assim como ela é, sem acréscimos ou omissões, então, se quisermos obter resultados coerentes, devemos necessariamente postular uma edição fac-símile de todos os cadernos de esboços e rabiscos de Nietzsche. Que os manuscritos sejam todos fotografados e depois deixados para aquele leitor “interessado no aspecto psicológico” [do qual falava August Horneffer na p. 85 de seu livro] a tarefa de realizar magicamente uma edição obtida através do “deserto que se apresenta diante dos seus olhos”. Mas é claro que, segundo Holzer, uma edição fac-símile não é uma solução viável:

Uma edição fac-símile de todas as anotações e esboços de Nietzsche? Ao apenas fazer essa pergunta inaudita já se entende que a resposta só pode ser negativa. Quantos a comprariam? E dos poucos que a comprassem, quantos a leriam? E quantos daqueles que a leram seriam capazes de construir por si só a imagem do desenvolvimento da filosofia de Nietzsche? Trata-se de um número de pessoas assustadoramente restrito. E quantas delas dedicariam tempo e trabalho para isso? Quæeritur34.

Nas páginas de Holzer, portanto, a evocação da edição fac-símile funciona como um paradoxo que serve para mostrar o absurdo da consequente aplicação do princípio dos irmãos Horneffer. Em 1907, esta foi uma resposta de puro bom senso filológico considerando que, como Holzer argumentou na sequência do seu artigo, Nietzsche não era ainda um clássico. Contra a lenda do escritor caótico que teria afogado a obra no mar de seus manuscritos, publicando apenas coleções de aforismos de pouco valor, Holzer sustentou que Nietzsche tem o direito de ser julgado, antes de tudo, a partir do seu pensamento finalizado e publicado; que não se deve confundir as anotações póstumas com os aforismos editados por Nietzsche, que as obras desse último são obras-primas cuja total riqueza ainda não foi compreendida pelo público e que, por todas essas razões, é ainda muito cedo para fazer uma edição completa dos póstumos. Segundo Holzer, bastaria publicar uma seleção de anotações classificadas baseada em um critério escolhido pelos editores, contanto que os critérios editoriais fossem documentados e verificáveis, e que o leitor fosse suficientemente inteligente para saber usar esse tipo de edição.

A resposta de Horneffer ao artigo de Holzer é a de alguém que trabalhou por mais de três anos com os cadernos de Nietzsche diante dos olhos e gostaria de fazer o leitor perceber a unidade do desenvolvimento desse pensamento. De acordo com Horneffer, as obras publicadas não passam de fragmentos mortos ao serem comparadas com os póstumos, a verdadeira obra de Nietzsche. Por esta razão, também uma edição fac-símile não é uma hipótese absurda:

a ideia de reproduzir os manuscritos fac-símiles, que Holzer aduz como consequência monstruosa de nossa concepção, foi à época levantada, se não me engano, pelo nosso venerado Peter Gast. Sem dúvida, como uma quimera. Mas essa quimera nos parecia responder adequadamente às características desse legado literário. Pessoalmente, não consigo ler uma linha de Nietzsche sem imaginar a sua caligrafia, os seus manuscritos e em geral a imagem viva do filósofo. Somente desse modo um pensamento seu conquista a justa ressonância 35.

De fato, também Peter Gast, que, em 1906, junto com Elisabeth Förster-Nietzsche, organizou a segunda edição de “Vontade de potência”, reconheceu em uma nota privada que uma edição que publicasse os manuscritos de Nietzsche tal como são seria um verdadeiro deleite e um prazer para os especialistas do filósofo alemão; porém, acrescentou que estes são uma pequena minoria e o grande público precisa de uma compilação36.

Karl Jaspers é um dos primeiros grandes intérpretes a formular, no apêndice de sua monografia de 1936, uma lista dos trabalhos editoriais desejáveis para o estudo da filosofia de Nietzsche. Jasper é muito crítico em relação a “A vontade de potência” e a qualquer tentativa de ordenar tematicamente os póstumos, acreditando que todas as notas devem ser publicadas em ordem cronológica: “É preciso publicar as suas notas assim como ele mesmo as escreveu, e não realizar esta ou aquela sistematização, pois em tal caso a escolha da disposição seria de qualquer forma determinada pelo editor, não por Nietzsche”. Este é “o único modo de restituir uma imagem verdadeira e direta do pensamento de Nietzsche”. Nesse contexto, Jaspers também faz menção à hipótese de publicar uma edição fac-símile que, todavia, não aprova, mais por motivos econômicos do que por razões científicas. Dado que os manuscritos são de difícil leitura, argumenta Jaspers, uma edição fac-símile venderia poucas cópias e, portanto, do ponto de vista econômico, não faria sentido publicá-la37. Contudo, esse argumento não é válido do ponto de vista científico. Exatamente devido à dificuldade de leitura, deve-se chegar à conclusão oposta: precisamente porque os manuscritos são de difícil leitura é necessário publicar uma edição fac-símile, de modo que todos tenham à disposição a reprodução fotográfica dos originais e possam eventualmente corrigir os erros de transcrição, sem dúvida mais frequentes que no caso dos manuscritos mais legíveis. Sem se referir diretamente a Jaspers, Karl Schlechta utilizará precisamente esse argumento científico tanto no que diz respeito à cronologia, quanto no que diz respeito à transcrição dos manuscritos, concluindo que, sendo ambos extremamente árduos, no fim será provavelmente inevitável publicar os manuscritos fac-símiles de Nietzsche:

Talvez a cronologia pudesse ser reconstruída através da observação precisa do desenvolvimento dos manuscritos, levando em consideração alguns aspectos exteriores como o papel, o tipo de caderneta ou de caderno e através de pesquisas de crítica estilística - todos os aspectos que até então não foram considerados; talvez algumas notas possam ser identificadas como rascunhos preparatórios dos textos publicados por Nietzsche, mas na minha opinião a cronologia da maior parte dos materiais permanecerá indeterminada. Além disso, a caligrafia de Nietzsche no último período, no que toca os primeiros esboços, é parcialmente tão difícil de ler e a decifração das partes mais difíceis é tão discricionária que para publicá-la fielmente será difícil não recorrer a uma reprodução fotomecânica38.

Em suma, se Jaspers dissesse: já que os póstumos são de difícil leitura, é inútil publicá-los como cópia, Schlechta então responderia que, precisamente porque são de difícil leitura, ele devem ser reproduzidos em fac-símile.

A quimera é uma figura mitológica de três cabeças que simboliza as tentações e os desejos irrealizáveis. A edição fac-símile é uma quimera com muitas faces. Para os irmãos Horneffer (e para Peter Gast) é uma deliciosa quimera que encanta os entusiastas e os especialistas, prometendo-lhes seguir a história de uma alma: para eles, o fac-símile é a única edição verdadeira e qualquer outro modo de publicar os manuscritos do filósofo é pura falsificação. Para o filólogo clássico Ernst Holzer, o fac-símile é, ao contrário, uma renúncia à edição; a máscara do editor incapaz de tornar o texto e o seu desenvolvimento claros e inteligíveis para o leitor. Em Gast e Jaspers aparece também o rosto do comerciante que não vê público pagante suficiente, enquanto Schlechta enfrenta o desespero do filólogo diante da enormidade do trabalho de reconstrução e transcrição. Encontraremos outras faces dessa quimera no próximo parágrafo, passando do nível da ideia para o plano da realização.

Primeiras edições fac-símiles

Os falsos ditirambos. Até onde sabemos, a primeira edição fac-símile de um escrito de Nietzsche foi publicada em 1923. Trata-se da reprodução do manuscrito da última obra de Nietzsche, os Ditirambos de Dioniso, disponível em 400 exemplares numerados, provavelmente editados por Friedrich Würzbach e Elizabeth Förster-Nietzsche39. O manuscrito para impressão dos Ditirambos é composto por um conjunto de folhas soltas de formato grande, 16 por 24 centímetros, que contém o título da obra e a transcrição em versão final de oito dos nove ditirambos indicados no índice (D-24,47). O oitavo ditirambo, intitulado Glória e eternidade, foi originalmente destinado a Ecce homo, mas em 2 de janeiro Nietzsche o solicitou de volta ao editor para inseri-lo no manuscrito dos Ditirambos (páginas D-24,38 A D-24,46). Até mesmo o nono ditirambo, Sobre a pobreza do mais rico, originalmente destinado para Nietzsche contra Wagner, foi solicitado por Nietzsche ao editor que, no entanto, o reteve em Leipzig, na esperança de, provavelmente, convencer Nietzsche a não renunciar à impressão de Nietzsche contra Wagner40. A edição fac-símile de 1923 pretende, em vez disso, dar a impressão de que existe um único manuscrito e, por essa razão, altera de maneira significativa a reprodução dos manuscritos de Nietzsche. Por exemplo, a reprodução da página inicial do ditirambo Sobre a pobreza do mais rico foi modificada para não parecer que provém do manuscrito de Ecce homo. Foram removidas sete linhas e algumas palavras dispersas, o título foi deslocado e, além disso, foram acrescentados cinco versos provenientes da página seguinte. A partir daqui, toda a formatação das estrofes foi deslocada e, portanto, o ditirambo, que no original ocupa seis páginas, ocupa agora sete no fac-símile41. Por conseguinte, essa primeira reprodução fac-símile de um manuscrito de Nietzsche não corresponde ao original, pois foi modificada para se tornar compatível com a edição textual anteriormente publicada pelo Arquivo Nietzsche. A falsificação foi revelada apenas em 1961 por Erich Podach, quando os originais ficaram finalmente acessíveis aos estudiosos42. Isto deve nos alertar no que toca à grande impressão de objetividade que é transmitida por todas as reproduções fotográficas ou digitais. É preciso sempre lembrar que as verdadeiras fontes primárias são os documentos originais conservados nos arquivos.

A minha vida. Além disso, um fac-símile confiável foi impresso em 1945 em um livreto de 15 páginas intitulado A minha vida, que reproduz uma autobiografia escrita por Nietzsche em setembro de 1863. O manuscrito desse pequeno texto, que nunca foi publicado nas diversas edições das obras de Nietzsche, foi encontrado no Arquivo Nietzsche depois da morte de Elisabeth, em 193543.

Ecce fac-símile. A edição fac-símile do manuscrito impresso de Ecce homo publicada em 1985 por Karl-Heinz-Hahn e Mazzino Montinari é, a meu ver, a mais bem-sucedida em termos técnicos e a mais interessante do ponto de vista científico de todas as edições fac-símiles da obra de Nietzsche44. Esta é a primeira verdadeira aparição da nossa quimera, em uma apresentação suntuosa e inigualável, ainda que limitada a apenas 104 folhas - mas importantes e sugestivas - que reproduzem o manuscrito para a impressão de Ecce homo. Os papéis do manuscrito não são impressos nas páginas de um livro encadernado, mas se apresentam, como no original, com folhas soltas de grande formato, coloridas, impressas frente e verso, página única ou dupla, ou, então, sob o formato de tiras recortadas; mais do que reproduzidos, esses manuscritos parecem quase uma recriação em toda a sua materialidade. O fac-símile do manuscrito é acompanhado pela transcrição diplomática, palavra por palavra, incluindo as numerosas passagens suprimidas. Um livreto de comentários que narra a gênese do texto e contém todos os rascunhos preparatórios. Ecce homo é o escrito mais afetado pelas censuras e falsificações, primeiro de Peter Gast e depois da irmã de Nietzsche. Apenas Montinari conseguiu publicar a primeira versão filologicamente correta desse texto. No tocante às omissões e falsificações de Elisabeth Förster-Nietzsche e à escolha de Erich Podach em renunciar à constituição do texto e de apresentar os textos e os fragmentos como disjecta membra, Montinari deixou bem claro que o papel do editor consiste em propor a própria reconstrução do texto e, ao mesmo tempo, colocar à disposição do leitor todos os documentos restantes. Às vezes, a quimera da edição fac-símile toma a forma do desespero do editor que não consegue encontrar-se nos manuscritos de Nietzsche e não sabe indicar ao seu leitor um texto constituído e uma hipótese plausível com desenvolvimento genético, tal como no caso de Karl Schlechta, para as anotações póstumas e de Podach, para as obras do último período. A edição fac-símile editada por Montinari, ao contrário, expressa a maestria do historiador e do filólogo que tem as ideias perfeitamente claras, que constituiu o texto e reconstruiu a sua gênese, acrescentando a reprodução fac-símile dos originais como um gesto de cortesia e, simultaneamente, desafia o leitor para que seja capaz de verificar ou eventualmente invalidar a sua reconstrução. Todavia, Montinari não se dirige apenas aos filólogos, considerando que a publicação do manuscrito seja preciosa sobretudo para os intérpretes: “somente o conhecimento do manuscrito completo, incluindo as passagens eliminadas, substituídas e modificadas, nos permite lançar um olhar sobre o mundo conceitual de Nietzsche imediatamente anterior ao colapso psíquico, e formular juízos fundamentados na natureza e no valor dessas últimas palavras do filósofo” 45. Na época, a Alemanha Oriental ainda era dominada pela imagem nazista de Nietzsche desenhada por Baeumler e retomada por Lukács. De acordo com as palavras de Marcuse, Nietzsche era considerado o inimigo público número um e as suas obras não podiam ser publicadas46. Somente a edição fac-símile de Ecce homo conseguira escapar da censura e é a única obra de Nietzsche publicada na República Democrática Alemã47. Contudo, antes de ser impressa, a censura conseguiu remover o posfácio filosófico escrito por Steffen Dietzsch48. Esta publicação teve um forte valor simbólico e atuou como uma espécie de catalisador, transformando a difusão clandestina da obra de Nietzsche em uma discussão pública. A tal ponto que, como medida de represália, houve uma tentativa de bloquear a edição crítica, como escreve Müller-Lauter: “Ainda me lembro do dia em que Montinari, vindo de Weimar para Berlim, me contou, com grande preocupação e contendo a emoção, dos esforços dos funcionários influentes do SED para proibir a consulta do fundo Nietzsche conservado no Arquivo Goethe-Schiller” 49.

Os verdadeiros ditirambos. Em 1991, Wolfgang Groddeck publicou uma esplêndida edição genética dos Ditirambos de Dioniso, que contém também uma edição fac-símile formada por 142 páginas impressas em branco e preto, de dimensões reduzidas com relação ao original, mas perfeitamente legíveis50. Na verdade, Groddeck, seguindo o caminho da edição de Hölderling realizada por Sattler, considera o fac-símile como uma parte constitutiva de uma edição genética: “A edição se baseia na completa tradição manuscrita, que é reproduzida de maneira integral na seção fac-símile. Isso revela criticamente a dimensão interpretativa inerente a toda transposição editorial de esboços de textos transmitidos em formato manuscrito” 51.

A IX seção. A nova versão da edição dos manuscritos de Nietzsche do período de 1885-1888, publicada a partir de 2001 como a IX seção da edição Colli/Montinari, inclui, além da transcrição diplomática, uma reprodução fac-símile digital dos manuscritos disponíveis em formato PDF em um CD-ROM anexado ao volume correspondente52. A resolução é boa e as imagens são geralmente retocadas aumentando o contraste e alterando as cores a fim de tornar o texto mais legível. Desde 2010, a IX Abteilung também está disponível na Web no banco de dados “Nietzsche online” da Gruyter.

Datilografados. Uma reprodução fac-símile de todos os textos que Nietzsche redigiu com a sua máquina de escrever foi publicada em Weimar, em 2002, por Stephan Günzel e Rüdiger Schmidt-Grépály53. Os 60 fac-símiles dos textos datilografados são reproduzidos em cores, em tamanho natural, e acompanhados por um breve aparato crítico que contém a transcrição das poucas linhas manuscritas. Os fac-símiles foram igualmente reeditados, em 2005, num volume de Dieter Eberwein que narra o delicado processo de restauração da máquina de escrever de Nietzsche54. Este estudo confirma cientificamente que a máquina de escrever atualmente conservada nas instalações do antigo Arquivo Nietzsche em Weimar é a mesma que escreveu as folhas conservadas no legado de Nietzsche e, portanto, trata-se precisamente da máquina de escrever que pertenceu ao filósofo.

A coleção Rosenthal-Levy. Maud Levy (1909-2007), historiadora da arte no Courtauld Institute, era filha do médico anglo-alemão Oscar Levy, que editou a primeira edição em inglês da obra de Nietzsche. Albi Rosenthal (1914-2004) advinha de uma importante família alemã de livreiros antiquários. Em 1933, chegou à Inglaterra, onde estudou história da arte em Warburg Institute, antes de se dedicar ao comércio de autógrafos musicais. Um dos resultados de seu matrimônio foi a coleção Rosenthal-Levy, a maior coleção de manuscritos de Nietzsche em mãos privadas no mundo, atualmente conservada pela fundação Nietzsche Haus, de Sils-Maria. Em 2009, foi publicado um suntuoso volume que reúne as reproduções fac-símiles coloridas de 58 autógrafos de Nietzsche, principalmente cartas, das quais algumas não estão incluídas na edição crítica Colli/Montinari, e de uma série de primeiras edições das obras com dedicatória do filósofo55. Além da reprodução fac-símile, para cada documento é fornecida uma transcrição diplomática e um comentário filológico.

Plano da obra

A Digitale Faksimile-Gesamtausgabe (DFGA), a edição fac-símile digital completa, publica desde 2009 todas as fontes primárias relacionadas à vida e à obra de Nietzsche. Por fontes primárias, entendemos os seguintes tipos de documentos: 1) manuscritos; 2) impressões; 3) cartas e 4) documentos biográficos. Na edição fac-símile, os documentos são classificados de forma diferente em relação à edição crítica. De fato, o critério fundamental de ordenação para a edição crítica, como indicado acima, é o nível de publicidade dos textos; na edição fac-símile, ao contrário, privilegia-se a materialidade e a tipologia do documento.

1) Os manuscritos são documentos autográficos ou ideográficos dos quais Nietzsche é autor, escritos a lápis, caneta ou datilografados. Subdividem-se em: bloco de notas, nas quais o nosso filósofo costumava fazer anotações, muitas vezes a lápis, durante os seus passeios; cadernos, que contêm geralmente cópias belamente escritas a tinta, como também trechos de leitura, anotações para os cursos da universidade de Basileia ou notas dispersas de vários tipos; folhas soltas, muitas vezes reunidas em pastas que remetem a um projeto literário ou que pertencem a uma fase de escrita ou coleta dos materiais; manuscritos para impressão, enviados ao editor visando a publicação, ou, no caso das últimas obras, como O anticristo e os Ditirambos de Dioniso, preparados e autorizados para a publicação, mas não fisicamente enviados ao editor; composições musicais, que às vezes contêm simples rascunhos e esboços, mas também músicas completas. O assunto dos textos contidos nesses documentos não constitui um elemento de diferenciação e, portanto, dentro de cada tipologia serão publicados documentos que contêm textos filológicos, literários, filosóficos, notas ocasionais, exercícios escolásticos, etc.

2) As impressões incluem aqueles documentos que Nietzsche mandou imprimir em seu nome. Subdividem-se em rascunhos de impressão enviados ao editor, de modo que o autor pudesse verificar o texto antes da impressão definitiva; impressões para uso privado, isto é, escritos que Nietzsche mandou imprimir, mas que não autorizou a distribuição ao público, como, por exemplo, Homero e a filologia clássica ou a quarta parte de Assim falou Zaratustra; obras, ou seja, escritos que Nietzsche autorizou tanto a impressão quanto a divulgação pública, por exemplo, De Laertii Diogenis fontibus ou Aurora. Para a impressão privada e as obras, será reproduzido um exemplar fac-símile para cada edição impressa por Nietzsche.

3) As cartas incluem as mensagens autógrafas ou idiográficas realmente enviadas, ou, então, recebidas por Nietzsche (cartas em sentido estrito, cartões postais, telegramas, bilhetes de vários tipos) ou pelo menos preparadas para tal fim, mesmo que não tenham sido enviadas (esboços e rascunhos de cartas) 56. Subdividem-se em: cartas de Nietzsche, que incluem as mensagens enviadas pelo próprio Nietzsche ou em seu nome para terceiros; cartas para Nietzsche, que incluem as mensagens de terceiros endereçadas a Nietzsche e realmente recebidas; as cartas sobre Nietzsche, escritas por terceiros a terceiros, poderiam fazer parte se considerarmos o seu conteúdo, aos documentos biográficos, mas no caso de uma edição fac-símile a materialidade do documento prevalece, e por isso as classificamos como terceira subdivisão na categoria das cartas.

4) Os Documentos biográficos são documentos produzidos por terceiros relacionados à vida de Nietzsche. Incluem um grande número de papéis de diversos tipos, a começar pelos documentos administrativos, atestados, diplomas, faturas de todos os tipos, incluindo as de compras de livros, recibos de restaurantes ou de hotéis, registros das aulas, fotos ou desenhos de vida que retratam Nietzsche etc. Para não aumentar demais a extensão desse projeto já muito amplo, a DFGA não se compromete em localizar e publicar todos os documentos biográficos conservados, mas irá se concentrar, em primeiro lugar, nas cerca de 11.600 páginas de documentos biográficos conservados no arquivo Goethe-Schiller em Weimar.

Também os livros da biblioteca pessoal de Nietzsche, preservados na biblioteca da duquesa Anna Amalia, em Weimar, bem como as cartas do filósofo, fazem parte das fontes primárias. Muitas vezes, os volumes contêm anotações marginais da mão de Nietzsche e, em todo caso, mesmo a mera presença de um livro na biblioteca representa uma informação importante para a interpretação da obra57. Contudo, os fac-símiles de todos os livros pertencentes ao filósofo alemão não serão publicados no âmbito da DFGA, mas em um projeto editorial paralelo intitulado Nietzsches Bibliothek. De fato, o catálogo da biblioteca apresenta características filológicas específicas - combinação dos catálogos anteriores, exame dos traços de leitura, transcrição das anotações, pesquisas textuais nos livros que eram da posse de Nietzsche - que excedem as características de uma edição fac-símile. Por ser um projeto editorial separado, também a edição da biblioteca de Nietzsche será publicada pelo Nietzsche Source e, portanto, estará facilmente acessível aos leitores, junto à edição fac-símile, em uma estante distinta da mesma biblioteca digital58.

Os lugares de conservação dos originais59. No Arquivo Goethe-Schiller e na Biblioteca da duquesa Anna Amalia em Weimar, estão conservados quase a totalidade dos manuscritos originais e das primeiras edições das obras de Nietzsche, o núcleo mais consistente das cartas e muitos documentos biográficos para um total de aproximadamente 70.000 páginas60. Numerosos documentos encontram-se na Suíça: a biblioteca universitária de Basiléia conserva, entre outros, a correspondência com Overbeck, Burckhardt e Meta von Salis; os registros das aulas e outros documentos administrativos podem ser consultados no Arquivo do Estado da Basileia, e uma coleção de cartas e de exemplares das obras com dedicatória autografada é preservada na fundação Nietzsche-Haus, em Sils Maria61. As cartas são, é claro, os documentos mais sujeitos à dispersão: “Coleções substanciais de cartas de Nietzsche estão espalhadas em toda Europa, nas instituições e com particulares; unidades de cartas encontram-se em todo lugar, mesmo na América e até no Japão” 62.

Filologia

Digitalização e comparação. A edição fac-símile começa com a digitalização dos documentos originais. Para permitir aos estudiosos ampliar de maneira significativa as imagens a fim de lhes facilitar o estudo e a transcrição, a DFGA digitalizou os originais em cores e em altíssima resolução. A digitalização foi acompanhada por uma comparação minuciosa das imagens digitais com os originais, para verificar a integridade e a qualidade da reprodução; nos casos em que o fac-símile não correspondia ao original ou apresentava imperfeições, novas digitalizações foram sistematicamente exigidas.

Graças à colaboração entre o Arquivo Goethe-Schiller e a Associação HyperNietzsche, e a um duplo financiamento da Deutsche Forschungsgemeinschaft, todos os documentos conservados em Weimar foram digitalizados completamente em duas fases: a primeira fase, de 2015 a 2018, abrangeu os manuscritos e as primeiras edições das obras; a segunda fase, de 2020 a 2023, concentrou-se nas cartas e nos documentos biográficos. Um acordo celebrado em 2023 com a fundação Nietzsche-Haus permitiu enriquecer a edição com os documentos conservados em Sils Maria. Em seguida, procederemos com a digitalização dos materiais contidos nos outros lugares de conservação, em função da disponibilidade dos legítimos proprietários. Cabe salientar que não se trata de uma simples digitalização da coleção de Nietzsche para fins arquivístico e de uma “galeria de imagens”, como se diz, disponibilizada na internet. Trata-se, porém, de uma verdadeira edição fac-símile, que prevê: 1) a digitalização e a comparação dos originais; 2) a catalogação digital de cada página; 3) uma descrição arquivística precisa de cada documento; 4) as concordâncias entre as páginas dos manuscritos e os locais textuais correspondentes da edição crítica.

Catalogação digital e citação. A formação de um único arquivo digital e a publicação de uma edição fac-símile permitirá catalogar de forma unitária todos os documentos que estão atualmente espalhados em diversos arquivos públicos. No que concerne aos manuscritos de Nietzsche, a DFGA pretende ser o mais compatível possível com a edição de referência e com a literatura crítica existente. Por isso, em vez de adotar uma catalogação completamente nova, adaptou aquela realizada em 1933 por Hans Joachim Mette, utilizada também pela edição crítica e pela maior parte dos estudiosos, corrigindo seus erros e preenchendo lacunas e imprecisões63. Como a eKGWB, também a DFGA atribui a cada página um endereço simples de internet, único, estável, baseado nas abreviações normalmente usadas pelos especialistas. Por exemplo, a página 194 do caderno M-II-1 pode ser visualizada no seguinte endereço: www.nietzschesource.org/DFGA/M-II-1,194. Estas características fazem da DFGA uma edição digital capaz de ser utilizada e citada na pesquisa científica. No entanto, a catalogação dos fac-símiles das cartas foi inspirada na classificação da edição crítica eKGWB. Se o texto da carta de Nietzsche a Köselitz de 14 de agosto de 1881 leva o número 136 na KGB e na eKGWB se encontra o endereço BVN-1881, 136, o fac-símile da carta foi publicado pela DFGA no endereço FBVN-1881-136 (FBVN = Faksimile Brief von Nietzsche). Para os documentos biográficos, uma nova catalogação unitária será realizada.

Concordâncias. A tabela de concordância e/ou correlação da DFGA permite interligar as abreviações utilizadas na edição fac-símile, as colocações utilizadas pelos arquivos e os locais textuais correspondentes da edição crítica64. Graças a essa tabela é possível rastrear o texto de um fragmento póstumo publicado na edição crítica, por exemplo o NF-1876, 18 [1], até ao fac-símile relativo/relacionado publicado na DFGA com a sigla M-I-1, 1 e à colocação do documento original (71-123,1) conservado no Arquivo Goethe-Schiller em Weimar. Obviamente, a tabela funciona também no sentido contrário, permitindo aos estudiosos que consultem os originais arquivados para acessar imediatamente as transcrições relacionadas publicadas na edição crítica. Além disso, as concordâncias são parte integrante do sistema informático e são utilizadas pela interface sinótica Contexta65, que ativa as concordâncias entre as diversas partes da Nietzsche Source diretamente no curso da consulta dos textos ou dos fac-símiles.

Descrição material. Parte constitutiva da edição fac-símile é uma descrição material de cada documento individual - a qual fornece, em primeiro lugar, uma breve descrição disponível em quatro idiomas, alemão, inglês, francês e italiano, que orienta o leitor durante a consulta da edição. Uma descrição arquivística completa e minuciosa, redigida em alemão, foi dedicada aos estudiosos e inclui: a indicação da localização atual, a história da tradição, uma descrição resumida do conteúdo, das informações sobre as dimensões do documento, sobre o tipo de papel, de encadernação, de tinta, sobre a foliação ou paginação dos papéis e sobre os redatores. Além disso, as descrições contidas nos inventários anteriores são notificadas - em especial, aquelas contidas na Historisch-Kritische Gesamtausgabe e na edição Colli/ Montinari, a fim de poder documentar eventuais diferenças ocorridas no curso dos anos.

Apresentação. Dado que essa edição pretende reproduzir o mais fielmente possível a estrutura física dos documentos, os fac-símiles digitais são apresentados acima de tudo por tipo de documento: bloco de notas, pastas que contêm folhas soltas, manuscritos para a impressão, composições musicais66. Dentro de cada tipo, os documentos são exibidos em ordem cronológica. Os cadernos são foliados de acordo com a sequência normal das páginas, mesmo que raramente coincida com a ordem de redação, porque Nietzsche tinha o hábito de escrever os seus cadernos do fim ao início nas páginas pares e depois, às vezes, do início ao fim nas páginas ímpares. Os leitores podem utilizar um diagrama cronológico, que lhes permite visualizar os manuscritos de acordo com a ordem em que foram escritos, na medida em que seja possível reconstruí-los67. Desta forma, por exemplo, é possível selecionar os cadernos utilizados por Nietzsche na primavera de 1880. Estamos aperfeiçoando essa função de modo que, na medida do possível, todos os papéis estejam dispostos na ordem cronológica na qual foram escritos, nos permitindo acompanhar aquilo que o filósofo alemão escreveu no dia a dia.

Conclusão

Para que serve, portanto, uma edição fac-símile? Não acreditamos, como August Horneffer, que a verdadeira obra de Nietzsche são as anotações póstumas; pelo contrário, sua obra inclui, antes de tudo, as obras que o próprio Nietzsche publicou ou deixou prontas para a publicação. Mas pensamos que a interpretação filosófica deva fundar-se sobre edições confiáveis, baseadas nos documentos originais, tanto manuscritos quanto para impressão. Se os manuscritos de Nietzsche tivessem sido consultados livremente, seria impossível publicar uma compilação risível de notas desmembradas e costuradas como “A vontade de Potência”. Bastaria comparar o manuscrito do importante fragmento “Lenzerheide” sobre o niilismo europeu com a colcha de retalhos que dele foi feita na edição canônica da “Vontade de potência”, que o desmembrou em quatro supostos “aforismos”, para perceber o grau de confiabilidade da compilação publicada do Arquivo Nietzsche68. Todas as discussões sobre a existência desta pretensa obra principal do filósofo surgiram porque os estudiosos não podiam consultar abertamente os manuscritos de Nietzsche; para não mencionar as distorções e a querelas biográficas criadas “naquela oficina de imposturas que foi o Arquivo Nietzsche” e que infelizmente influenciaram grande parte da crítica69. Com método filológico e profunda sensibilidade histórica, Montinari foi capaz de revelar as imposturas e de publicar pela primeira vez um texto confiável, que é a base correta de toda interpretação filosófica. A edição fac-símile completa a obra libertadora de Montinari, oferecendo a todos os estudiosos interessados a possibilidade de verificar a veracidade das diversas edições, de retificar eventuais erros de decifração, de trazer à luz as variantes que não foram ainda publicadas pela edição crítica; e em geral, nos permite compreender melhor as extraordinárias reconstruções filológicas de Montinari como ápice do trabalho de todos os editores anteriores70.

Ademais, a edição fac-símile permitirá aos estudiosos experimentar novos empreendimentos editoriais. O desenvolvimento da crítica e os progressos das tecnologias de impressão, de reprodução e de distribuição ampliaram as fronteiras da edição crítica tradicional. Os editores tendem, agora, a organizar transcrições diplomáticas refinadas ou edições genéticas efetivamente reais, considerando a publicação de reproduções fac-símiles como parte integrante de seu trabalho. No âmbito dos estudos sobre Nietzsche, vimos como isso acontece tanto no caso da edição genética de Groddeck quanto na nona seção da edição Colli/ Montinari. Pode-se imaginar que as novas edições, críticas, diplomáticas ou genéticas, de partes individuais da obra de Nietzsche utilizem a DFGA como ferramenta de trabalho71 ou a considerem expressamente, através de um ponto de vista teórico, como parte constitutiva da sua edição.

Os manuscritos são preciosos não apenas para fins editorais, mas também para abrir novos horizontes interpretativos. Se, como destaca Werner Stegmaier, a tarefa da filologia - e, parece compreender, também da interpretação filosófica - após Montinari é reconstruir a história e a genealogia de cada aforismo72, então, a menos que se queira ficar permanentemente em Weimar com viagens frequentes para Basileia e Sils-Maria, a edição fac-símile é um pressuposto necessário (mesmo que não suficiente) dessa nova filologia e filosofia pós-montinariana. De modo geral, a edição fac-símile poderá servir para estudar, com mais profundidade, os processos genéticos que se manifestam na escrita de Nietzsche e no desenvolvimento do seu pensamento, bem como para reconstruir e analisar a gênese tanto das obras e dos aforismos quanto dos conceitos filosóficos individuais de Nietzsche, de acordo com as metodologias da crítica genética73.

Qual é a face da nossa quimera? Uma quimera que se preze nunca teve apenas uma face e a nossa, depois de tantos anos de filologia nietzschiana, assumiu quase todas aquelas que apresentamos. Somos especialistas e entusiastas de Nietzsche, como Gast e Horneffer, e julgamos compreender melhor o nosso filósofo quando o seguimos nas páginas dos seus manuscritos; mas tenhamos também a lucidez de Holzer, o filólogo que sabe que não é possível publicar apenas em fac-símile, porque o editor deve arcar com suas responsabilidades e oferecer uma reconstrução inteligível e clara da obra; contudo, estamos cientes como Schlechta, Groddeck e os editores da Nona Seção da Edição Colli/ Montinari, que nem a edição crítica nem a edição diplomática podem restituir todas as características do manuscrito e que, portanto, a reprodução fac-símile sempre será necessária; somos realistas o bastante para saber, como Jaspers e Gast, que essa edição não está à venda - e, por isso mesmo, entendemos que é preciso dá-la de presente; somos historiadores e filólogos como Montinari, e pensamos que o historiador e o filólogo, juntamente a própria edição e interpretação dos fatos, deve publicar uma boa reprodução dos documentos originais e das fontes primárias, de maneira que todos possam verificar as edições existentes e eventualmente propor novas; e, finalmente, somos filósofos o bastante para considerar que todo esse trabalho pode e deve servir para a interpretação filosófica, permitindo enriquecer, colorir e refinar a imagem da filosofia de Nietzsche, tornando-a mais clara e mais precisa. Acrescentemos apenas uma última face à quimera da edição fac-símile: a face da livre difusão do saber que é característico da nossa época, marcada pela internet, a face que nos permitiu dar vida à quimera e, finalmente, reeditar todos os manuscritos do filósofo.

A história do legado literário de Nietzsche se inicia simbolicamente em 19 de janeiro de 1889. Nietzsche já está hospitalizado há alguns dias no hospital psiquiátrico de Basileia, mas os seus livros e os seus manuscritos permaneceram no seu quarto em Turim, no apartamento da família Fino. Em 19 de janeiro, Davide Fino envia a Franz Overbeck uma caixa de 116 quilos, seguida no dia seguinte por uma carta em francês impreciso: “Nous expedimmes hier à votre adresse une grande caisse qui contient tout ce qui appartient au professeur Nietzche; maintenant nous reste rien de tout. La caisse est forte e bien assurée, elle pèse le tout copris k 11674. Tudo aquilo pelo que Nietzsche viveu estava agora contido nessa caixa que começou a sua viagem de Turim a Basileia, de Basileia a Annaberg, com Peter Gast, e a Naumburg, com a sua irmã, e, enfim, a Weimar: primeiro no cofre do Arquivo Nietzsche e, depois, nas prateleiras do arquivo Goethe-Schiller. No entanto, nos agrada pensar que, em 2009, 120 anos mais tarde, os manuscritos de Nietzsche chegaram ao seu verdadeiro destino: a livre difusão na internet. Pois, somente agora, Nietzsche é verdadeiramente livre, livre das falsificações da irmã, livre das manipulações nazistas do Arquivo Nietzsche, livre da censura do “socialismo real”, livre dos direitos de reprodução dos arquivos, livre das vendas em CD-ROM. Agora, na internet, Nietzsche pertence somente à comunidade dos seus estudiosos. Estamos orgulhosos de lhe ter devolvido essa liberdade.

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  • Pareceristas:
    Fernando de Moraes Barros
    André Luís Itaparica
  • 2
    Tradução de Samantha Lopes Inacio da Silva e Luiz Felipe Xavier Gonçalves.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    18 Maio 2024
  • Aceito
    28 Jun 2024
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