Resumo
Este artigo apresenta ao leitor a primeira edição completa e tradução das poesias de Nietzsche. As edições publicadas até então são, na verdade, meras antologias. Muitas de suas obras poéticas, especialmente sua Juvenília, não estão incluídas nessas coleções, e, no entanto, elas testemunham um estrato primário de sua imaginação e, consequentemente, ajudam-nos a explorar seu uso de metáforas em seu pensamento. Esta edição dos poemas, que tenta ser fiel à sua forma original, tem como objetivo lançar uma nova luz sobre o corpo de trabalho de Nietzsche, dando à sua poesia uma posição central dentro de seus escritos filosóficos.
Palavras-chave:
poesia; tradução; filosofia
Abstract
This article introduces the reader to the very first complete edition and translation of Nietzsche’s poems. The hitherto published editions are in fact mere anthologies. Many of his poetical works, especially his Juvenilia, are not included in these collections, and yet they bear testimony to a primary stratum of his imagination and consequently help us to explore his use of metaphor in his thinking. This edition of the poems, which tries to be faithful to their original form, aims at shedding new light on Nietzsche’s body of work by giving his poetry a central position within his philosophical writings.
Keywords:
poetry; translation; philosophy
Para redescobrir a poesia de Nietzsche, pareceu-me interessante proceder me apoiando em duas operações que são, todas as duas, em modesta medida, nietzschianas: a filologia da edição de texto por um lado, a tradução por outro. Nietzsche, com efeito, foi um tradutor de poesia. Eu tive a oportunidade de abordar essa questão recentemente ao publicar, como apêndice, seus Poemas completos, quase quatro anos mais tarde, suas traduções de poemas sérvios, ou ainda quando reescreveu traduções alemãs dos “cantos populares sérvios”, uma matéria poética romântica que deu vida a autores alemães e franceses, de Herder a Lamartine, passando por Goethe e Mérimée, o autor de Carmen.
No entanto, isso não foi mais do que uma digressão. O essencial não está nessa pequena nota, mas exatamente na massa dos Poemas completos.
O volume que publiquei em 2019, e que foi reimpresso em 2022, constitui a primeira edição completa, ininterruptamente publicada e crítica, dos poemas de Friedrich Nietzsche em alemão, ao mesmo tempo que sua primeira tradução integral em francês, como, aliás, em qualquer outra língua.
Esse conjunto exaustivo tinha por objetivo contribuir para uma melhor compreensão e apreciação da escrita poética de Nietzsche, a fim de determinar com mais precisão o lugar da poesia em sua obra de filósofo, mas também na história literária da Europa. É, portanto, um Nietzsche diferente, que compreende melhor o papel do poema na formação, evolução e expressão de sua sensibilidade, imaginação e nas ideias, que deveria ser possível encontrar aqui. Os leitores francófonos, em especial, descobrirão nele inúmeras páginas totalmente inéditas nessa língua. Pois, ao lado de suas obras mais célebres, publicadas ou póstumas, ao lado mesmo de suas brilhantes pesquisas em filologia e contrariamente à sua atividade de compositor logo abandonada, Nietzsche raramente deixou de escrever seus poemas, dos anos de infância ao colapso em Turim. Seus poemas formam uma massa e uma mina de textos frequentemente desconhecidos e até negligenciados pelos exegetas.
Assim, e contra todas as expectativas, dada a vasta bibliografia que a obra do filósofo tem suscitado há mais de um século, especialmente na França, onde sua trajetória foi particularmente rica, não existia volume algum completo de seus poemas, inclusive no original em alemão.
É verdade que houve edições apresentadas como completas. Foi o caso, por exemplo, dos Sämtliche Gedichte (“poemas completos”) publicados pelas edições Manesse, em Zurique, em 1999, por Ralph-Rainer Wuthenow. No entanto, esse volume não possui mais do que 200 páginas, ou seja, menos do que a metade da parte alemã daquele que apresentamos aqui. Os versos de juventude foram nele objeto de uma drástica seleção. Eles representam apenas 52 páginas, ou um quinto em média da edição em questão, parecida com seu tamanho real na produção poética do autor. Nietzsche, que compunha um poema por dia teria, aliás, queimado lotes inteiros1, se acreditarmos no testemunho de sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche. Um sacrifício parecido preside os Gedichte da edição bastante acessível Reclam, que, por sua vez, é verdade, não pretende ser completa2. Aliás, na maior parte dessas edições e de suas traduções, o volume antológico das Gedichte und Sprüche, publicado a partir de 1898 por Elisabeth, não deixou de produzir sua marca3. Foi exatamente ela, por exemplo, quem decidiu que os poemas de seu irmão não se tornaram interessantes antes de 1858, momento quando o adolescente inaugura o começo de seu “terceiro período” poético. Foi ela quem publicou o poema dele sobre Luís XV, mas não aquele sobre Luís XVI, que curiosamente ficará inédito para os leitores francófonos até a nossa edição. Foi ela também quem distribuiu os textos em “poemas” e “ditados”, destacando neles a relação entre o aforismo e certos trechos de versos, mas obliterando dessa maneira a tradição epigramática na qual se inscreve o poeta.
Em relação à exaustividade, as edições francesas dos poemas sofriam, até hoje, das mesmas lacunas que as alemãs. Os dois volumes unilíngues das Poesias completas, traduzidas em francês pelo germanista Paul Arnold e pela poetisa Yanette Delétang-Tardif, publicados há setenta anos4, são certamente muito ricos e as traduções, quase sempre de boa qualidade. No entanto, por serem integrais, eles pecam apenas pela sua seleção sem critério quanto aos fragmentos póstumos e aos poemas de juventude: apenas 35 poemas, compostos entre 1859 e 1864, são assim apresentados no fim do segundo tomo, uma ínfima proporção dessa imponente massa.
Nas pretensas Poesias completas, traduzidas pelo poeta Georges Ribemont-Dessaignes, as ausências são ainda mais cruéis. Nenhum poema antes de 1871 vem, por exemplo, compor este volume de 170 páginas5. As poesias vertidas para o francês por Jean-Jacques Briu propõem, quanto a elas, uma paleta de poemas de juventude igualmente muito restrita6. O Nietzsche da prestigiosa coleção “Poètes d’aujourd’hui” (Poetas de hoje), da Seghers se considera pelo qual ele é: uma “escolha de textos”7. Após um prefácio de uma centena de páginas, uma inteligente seção de abertura (14 páginas) apresenta dois textos críticos do filósofo sobre a poesia, todos tirados de Assim falava Zaratustra. Segue um conjunto de 16 “Primeiros poemas” que não carecem de estranheza. De fato, ele proporciona textos que vão de 1864 (“Ao Deus desconhecido”) a 1887 (“Sils-Maria”). O leitor distraído poderia se enganar com eles: muitos desses “Primeiros poemas” são contemporâneos de grandes obras de Nietzsche, tais como Humano, demasiado humano, Aurora e até a segunda edição de A gaia ciência. Essa seção, apresentada sem data, não respeita a cronologia. De acordo com um tropismo frequente, essa organização compõe a parte mais bela ao que é considerado pelos editores como os dois grandes polos da poesia nietzschiana: Assim falava Zaratustra (presente na Seghers em uma seção de 42 páginas) e os Ditirambos de Dionísio (que ocupam 33 páginas). Restam, então, 8 páginas de uma seção de “Últimos poemas”, durante a seção inicial, que reúne textos tão pouco “últimos” quantos os precedentes são “primeiros”. Assim, o poema inicial, “Piedade” (na verdade, “Der Freigeist”, “O livre pensador”), data do outono de 1884 e teria então podido também pertencer à primeira seção: os últimos teriam sido os primeiros. “Das altas montanhas” (“Aus hohen Bergen”) data certamente de 1886 e é então anterior aos Ditirambos de Dionísio apresentados anteriormente no volume. Quanto ao último texto do conjunto, “Ao mistral (um canto de dança)”, ele data de 1887 e é então igualmente anterior aos Ditirambos8. O mais impressionante do volume talvez seja a última seção, “Vontade de potência (Excertos)”, que propõe, em 5 páginas, 6 fragmentos em prosa da filosofia estética de Nietzsche9. Se nos guardarmos de fazer aqui o processo de uma edição anterior aos trabalhos de Mazzino Montinari10, o procedimento não é menos significativo. Com a ajuda de um interessante efeito de ring composition com a seção inaugural, esses textos envelopam a poesia de Nietzsche em sua filosofia, de sorte que os poemas do filósofo se encontram não apenas inseridos em suas reflexões, mas também subjugados por elas, o que reforça o lugar imponente atribuído a uma narrativa alegórica artística de Assim falava Zaratustra. Uma teleologia interna à escrita nietzschiana está realmente sendo levada a efeito, o que faz da prosa poética de Assim falava Zaratustra e do verso livre dos Ditirambos de Dionísio o coração de sua atividade de poeta e, por assim dizer, seu apogeu, margeado dos dois lados pelas encostas poéticas mais e menos ensolaradas. Nietzsche, porém, se exercitou toda a sua vida com uma intensidade inaudita em poemas de versos rimados e de métrica regulares. Não resta praticamente nenhuma evidência disso, como tal - mesmo sem falar no efeito de apagamento causado pela tradução.
Poemas 1858-1888. Ditirambos para Dionísio: o amplo intervalo cronológico de trinta anos, anunciado pela edição de Michel Haar na coleção “Poésie/Gallimard”11, pode parecer enganoso. De fato, esse volume está longe de abranger a totalidade dos poemas escritos durante essas três décadas. Melhor ainda, segundo o próprio editor, essas páginas consistem apenas em uma seleção dos poemas e outras prosas poéticas que Nietzsche não publicou em vida12. No entanto, sabe-se que Nietzsche incluiu poemas na maioria de suas obras publicadas, especialmente a partir de Humano, Demasiado Humano. Ele enriqueceu Aurora, Além de Bem e Mal, Ecce Homo e Assim Falou Zaratustra com poemas próprios. O caso de A gaia ciência é ainda mais evidente: o livro se inicia com um rico “Prelúdio em rimas alemãs” (“Vorspiel in deutschen Reimen”) composto por 63 poemas e conta com um “apêndice” de nada menos que 14 poemas, os “Cantos do Príncipe Vogelfrei” (“Lieder des Prinzen Vogelfrei”), que em parte são uma reedição de um conjunto publicado em uma revista, os Idílios de Messina (“Idyllen aus Messina”). É, portanto, uma parte essencial da poesia de Nietzsche que está ausente nessa prestigiosa edição. Isso terá sido para evitar o duplo emprego com as Obras filosóficas completas de referência publicadas pelo mesmo editor? Não, pois já existia um volume dos Ditirambos de Dionísio (1882- 1888), seguido de Poemas e fragmentos poéticos póstumos, traduzido do alemão por Jean-Claude Hémery, oitavo volume das mencionadas obras completas, lançado em 197513. Além disso, Michel Haar propõe sua própria tradução dos Dionysos-Dithyramben14.
Seguindo a metodologia em selecionar apenas a partir do “Nachlaß” (“Fragmentos póstumos”), a edição de Haar contém uma seleção de poemas da juventude, que continua, no entanto, limitada15. O editor, de fato, excluiu significativamente toda a poesia histórica do jovem Nietzsche, a qual é uma parte fundamental de sua escrita em verso e um verdadeiro prefácio poético de seu “sentido histórico”, em prol apenas dos Lieder e outros poemas intimistas. Essa poesia histórica abordava gêneros e temas que podem lembrar a pintura histórica praticada na Alemanha por Carl von Piloty16: longos retratos líricos de Napoleão “Cinquenta anos após” a batalha de Leipzig, os últimos momentos de Luís XV e Luís XVI, a última ceia dos Girondinos, a epifania maligna de Saint-Just, fragmento épico em torno do rei godo Hermenerico, evocação do assassinato de Conradin por Carlos de Anjou, túmulo do imperador Barbarossa, assim como Shakespeare, a morte de Beethoven... Tudo isso desapareceu, assim como o vasto afresco de história mítica da Grécia, distribuído em unidades de 50 versos, no qual o jovem poeta se lançou corajosamente, já com a alma de filólogo... Todo o aspecto de uma “grande jornada” poética pelo continente europeu que esses poemas assumem, a partir de um enraizamento regional que media uma inspiração funérea prontamente “gótica17” e que se desenvolve especialmente em torno da ideia pictórica das “Geisterschlachten”, essas batalhas de espíritos travadas acima do campo de batalha, todas as peregrinações centro-europeias do admirador de Petöfi e do adaptador das canções populares sérvias18, toda essa antecipação, em verso e no poema, da postura do “bom europeu”, ao mesmo tempo regional, nacional e supranacional, desapareceram completamente dessas páginas selecionadas, assim como o ímpeto espartano e marcial que Nietzsche toma emprestado de Theodor Körner, o poeta patriota das chamadas guerras de liberação contra a França imperial, e inúmeras outras tonalidades a serem consideradas para melhor perceber as camadas de sua sensibilidade, como as fantasias de atmosfera Biedermeier ou românticas de seus primeiros dias, ou mesmo seus primeiros epigramas.
Além disso, a predominância do póstumo neste pequeno volume aparece principalmente como a ênfase, datada, de uma estética do fragmento, que prevaleceu sobre as escolhas do próprio filósofo, assim como, em minha opinião, sobre sua própria concepção da poesia, mais preocupada com a formalização expressiva do que com a sugestão de incompletude. Acrescenta-se a isso o fato de que grande parte dos textos propostos pertence ao conjunto que envolve Assim falava Zaratustra. A exaustividade do presente volume, por outro lado, deveria permitir finalmente uma visão panorâmica, sem exclusões, da poesia nietzschiana, sendo também uma das poucas edições bilíngues disponíveis19.
De fato, publicar a totalidade dos poemas em alemão20 poderia ter consistido apenas na reunião em um único volume dos poemas dispersos nas obras completas de referência do filósofo, a “Kritische Gesamtausgabe”21, iniciada pelos renomados estudiosos Colli e Montinari e continuada por seus sucessores. Isso já seria, de fato, uma contribuição, poder ler juntos e em sequência esses textos que, na publicação estritamente cronológica da edição completa, muitas vezes se perdem no meio de anotações de natureza bastante heterogênea, que vão desde notas de aula a desenhos de guerra, de citações em grego a trabalhos em latim, de fragmentos de reflexão a listas de livros a serem lidos, passando por diários e outros trabalhos, inclusive esboços filológicos. Os poemas se misturam a notas onde o filósofo faz pausas, se desenvolvem na forma de trechos de prosa com status às vezes ambíguos. Não é fácil, ao percorrer esses volumes, ter uma visão geral precisa da poesia nietzschiana, que às vezes pulula, às vezes se cala, renasce, recai, retorna. Além disso, o princípio de editar tudo em ordem cronológica, ou, se preferir, em desordem cronológica, condena a grande edição a repetições. Um mesmo poema aparece várias vezes, com uma diferença de alguns meses, às vezes alguns anos, em versões cujas diferenças às vezes são sutis, com tantas variantes, que me esforcei para indicar aqui, e que nunca foram publicadas como tais, o que deve ajudar os leitores a não mais ficarem divididos entre diferentes redações de um mesmo poema. Além da lógica de coletar dos trabalhos completos, acrescentei sistematicamente, para tornar a coleção o mais abrangente possível, os poemas que Nietzsche espalhou aqui e ali em sua correspondência. No entanto, outra razão além do efeito de agrupamento justifica a utilidade de uma edição como essa. É que a transcrição dos manuscritos nietzschianos pelos sucessores dos grandes editores italianos frequentemente se revela estranhamente imprecisa. Essas deficiências exigiram um trabalho de pesquisa nos manuscritos dos Arquivos Nietzsche em Weimar, bem como no site “Nietzsche Source”, e também o uso de uma edição completa mais antiga, à qual os editores modernos parecem infelizmente não ter recorrido, a edição realizada por Joachim Mette, Carl Koch e Karl Schlechta22. As escolhas editoriais dessa edição anterior, provavelmente devido a uma maior familiaridade com a escrita gótica, são de grande ajuda para corrigir a edição recente, ao passo que esta, por sua vez, complementa aqui e ali algumas omissões da edição Mette ou simplesmente textos de Nietzsche que ainda não eram conhecidos, particularidades que indico nas notas do texto alemão. O texto assim estabelecido, ao corrigir e complementar as duas edições uma com a outra e referindo-se, por meio de pesquisas sucessivas, aos manuscritos de Nietzsche, pretende ter também um valor filológico mais sólido do que a edição de referência atual em alemão.
Este trabalho crítico também permitiu levantar problemas não apenas de estabelecimento, mas de autoria de certos textos que parecem ter escapado aos editores nietzschianos anteriores. Assim, alguns poemas que constam nas obras completas de referência não são da autoria de Nietzsche, que, como aconteceu frequentemente mais tarde, apenas os copiou. O poema que começa com o verso “Daß ich dein auf ewig bliebe23” (“Para que eu permaneça eternamente teu”), embora citado às vezes em apoio a uma ou outra tese sobre o filósofo24, não é de Nietzsche, mas sim do poeta austríaco Alfred Meissner: trata-se de seu poema “Einsamkeit” (“Solidão”), publicado desde 184525, quando Nietzsche tinha apenas um ano de idade. Outro poema, copiado no mesmo período por Nietzsche, é também de Meissner, “O Meer im Abendstrahl” (“Ó mar no raio do entardecer26”), doze versos que foram musicados por Liszt. A mediação do compositor húngaro tão amado, em algum momento, pelo jovem Nietzsche, no entanto, não é a origem desse registro escrito, já que a publicação da Lied foi muito mais tardia27. A ausência de alguns outros poemas aparentes em nossa edição também se deve à necessária exclusão deles do corpus nietzschiano. Esse é o caso de um conjunto bizarro, intitulado “Epigrammata”, que na verdade não é composto de epigramas, mas sim de citações da Bíblia, às vezes de Paulo, às vezes do Eclesiastes28. Da mesma forma, o coro em rimas “Jesus meine Zuversicht29” é quase inteiramente composto por versos já presentes na tradição dos hinos religiosos. Portanto, trata-se ou de uma pura colagem de cantos existentes, ou de um canto existente em algum lugar nessa forma, mas que não foi encontrado em meu material de pesquisa, especialmente nas digitalizações disponíveis na internet. Talvez um verso ou dois tenham sido interpolados por Nietzsche em um conjunto majoritariamente exógeno, mas isso está longe de ser certo30. Não é difícil imaginar que algumas dessas anotações estão relacionadas à atividade de compositor do jovem Nietzsche - indissociável na época de sua atividade como poeta - e também à sua atividade de filólogo em formação, como mostra o impressionante tríptico histórico, poético e musical em torno do rei Hermenerico. Um caso mais delicado é apresentado pelo quarteto rimado “Das Laub fällt von den Bäumen” encontrado em um diário de Nietzsche datado de 10 de agosto de 185931, onde o jovem se aplica em descrever o calor intenso e a tempestade de verão e seus efeitos sobre ele. O aprendiz de aedo talvez não perceba que seus versos beiram o plágio. Aqui estão, lado a lado, os versos de Nietzsche e o primeiro quarteto do poema “Herbstlied” de Siegfried August Mahlmann (1771-1826):
Das Laub fällt von den Bäumen; Das Laub fällt von den Bäumen
Der wilden Winde Raub; Das zarte Sommerlaub!
Das Leben mit seinen Träumen; Das Leben mit seinen Träumen
Vergeht zu Asch und Staub!; Zerfällt in Asch und Staub!
O primeiro e o terceiro versos são os mesmos, os quartos versos são quase idênticos, apenas o segundo foi modificado por Nietzsche, a ponto de Mette ter indicado, para essa página, o nome de Mahlmann em seu índice nominum no final do volume - o que não ocorre com os versos de Meissner e não permite ao leitor casual saber que se trata de tal forma de empréstimo. Ora, Mahlmann, que nasceu e morreu em Leipzig, era uma “referência” para Nietzsche, um poeta saxão muito popular na época, cujos textos frequentemente eram musicados, especialmente esse poema outonal.
Essa determinação não é insignificante ao se ler os poemas de juventude do filósofo, profundamente enraizados na “pequena pátria” e, de forma mais geral, em uma lira alemã hoje em dia mais ou menos esquecida. É aí, de Meissner a Körner, o mais lido hoje em dia dos três, passando por Mahlmann e tantos outros, toda uma camada da cultura do jovem Nietzsche da qual esses versos sugerem a influência desconhecida, uma redescoberta à qual este volume também pretende se dedicar.
Por fim, esta obra pretende trazer alguma novidade em outro aspecto, o da tradução. Certamente não se trata aqui de elogiar o resultado, que cabe aos leitores apreciarem, mas de explicitar os pressupostos que visam contribuir para um melhor conhecimento da poesia nietzschiana e, por consequência, de sua importância em sua obra como escritor e pensador. O ponto central dessa abordagem foi considerar que a tradução dos poemas de Nietzsche deveria ser a mais poética possível, entendendo-se por isso a mais conforme à estética de cada poema, liberta de qualquer teleologia filosófica, e que, somente por esse caminho, esses textos poderiam, eventualmente e “além disso” (à maneira de certos sistemas da graça), descobrir ou recuperar sua plena dimensão filosófica. Isso é o caso, por exemplo, da tradução de um poema que considero crucial, “An die Melancholie” (“À Melancolia”), no qual Nietzsche, admirador de Albrecht Dürer, se insere não apenas na longa tradição alemã dos hinos à melancolia, mas também se situa no contexto contemporâneo da poesia animal, como ilustrado na França por um Leconte de Lisle ou, mais tarde, pelo exato contemporâneo de Nietzsche, Anatole France, para, através de uma reviravolta sem precedentes, torná-lo, em minha opinião, o lugar poético da invenção do conceito de “vontade de potência32”. Uma tradução em verso visa recentrar esse poema em seu contexto estético e destacar, por contraste, sua singularidade poética, indissociável da revolução filosófica que ele realiza. A ideia básica por trás dessa escolha é baseada na convicção de que o modo de expressão escolhido ou criado por Nietzsche é, em sua origem e profundidade, indissociavelmente filosófico e poético, e que, portanto, para dizê-lo de maneira um tanto acadêmica, respeitar sua forma constitui a melhor maneira de fazer justiça ao seu conteúdo. Todos sabem e sentem o quanto, especialmente a partir de Humano, Demasiado Humano, Nietzsche, como prosador, é capaz de convocar as potências poéticas da palavra a serviço de um pensamento que procura se situar em outro lugar que não a tradição da prosa puramente racional e tradicional do tratado ou mesmo do ensaio.
O uso singular do aforismo convida constantemente a sinestesias intelectuais e conceituais, desenvolve sua investigação genealógica em digressões e harmonias sensíveis, cujo jogo sábio e profundo frequentemente foi comparado a uma composição musical33. Essa prosa mantém, assim, relações fecundas com a poesia em geral e, em particular, com a poesia do próprio autor, descrita pelo filósofo como agonais34. Por isso, uma tradução em versos dos poemas de Nietzsche me pareceu indispensável: ela deve destacar melhor o polo poético ao redor do qual se construiu, por comparação e contraste, essa prosa filosófica impregnada de consonâncias e “nuances35”. Ela pode abrir, assim, um terceiro espaço entre filosofia e música, o espaço da música das palavras próprio do poema - e, por isso, nos ajudar a compreender melhor suas harmônicas. Esse projeto se depara, portanto, com um corpus de grande diversidade, que se estende cronologicamente desde os primeiros ensaios do jovem de 10 anos até as últimas anotações do filósofo experiente de 45 anos. No entanto, podemos esperar que, por meio dessas fidelidades contrastantes da tradução às diversas formas da poesia nietzschiana, sua amplitude e variedade se tornem mais claras do que no cadinho esperado do mero verso livre, cujo uso, por mais conforme que seja ao nosso gosto contemporâneo, poderia arriscar embotar as diferenças e desvanecer as evoluções. Às vezes, tive a oportunidade, em prefácios de traduções ou em intervenções orais, de esclarecer o papel que, aos meus olhos, desempenha um certo respeito à forma em uma estética da tradução poética. Nisso, inscrevo-me em uma tradição que parece minoritária na França, mas que, além de ser dominante em muitos outros países europeus, me parece perfeitamente coerente com o projeto poético - e filosófico - de Nietzsche, bem como com sua própria concepção e prática de tradução poética.
Os aspectos tradicionais da forma, como a rima, o ritmo fixo ou a organização estrófica, parecem ser cada vez mais criticados na tradição francesa em comparação com outras partes da Europa e do mundo, talvez porque a noção de “revolução” tenha sido mais forte na França do que em outros lugares36. O abandono da forma regular sinaliza, de acordo com uma história simplificada da poesia francesa, o fim de um uso multissecular do gênero37 no qual Nietzsche continua a se inscrever, embora seus últimos ensaios em verso abalem essa fidelidade. A forma parece, então, na França, tão morta quanto o Deus de Nietzsche. É um fenômeno do mesmo tipo: o de uma impossibilidade do gosto e da inteligência, uma etapa coletiva da consciência poética, assim como a constatação de Nietzsche marca uma etapa da consciência filosófica. Para simplificar, após Rimbaud, a forma deve ser desafiada, subvertida, ou até mesmo simplesmente ignorada, e as poucas exceções, como Gilbert Lely ou Jacques Réda, ou mesmo Aragon, cujo destino popular talvez perdoe o classicismo formal, parecem estar lá apenas para confirmar a regra, sem nunca conseguir abalá-la profundamente. A essa tradição, cujas fronteiras estão atualmente em pleno movimento, alia-se aquela que prontamente considera o respeito à forma como o pior presente a se fazer a um poema em tradução. Certamente, isso não significa negar os perigos de um formalismo excessivo na tradução e em qualquer arte. Eles são muitos.
É ideal que o tradutor seja poeta antes de ser versificador; mas, talvez seja útil para um tradutor de poemas do século XIX ser também versificador e não apenas acreditar-se poeta. Ter à disposição os principais recursos do verso e ser capaz de adaptá-los ao texto de outra língua pode parecer, a princípio, uma tarefa desafiadora. É por isso que, aos olhos de uma certa ortodoxia, as traduções em forma só podem ser, no máximo, “belas infiéis”. No entanto, é possível argumentar o contrário, e toda uma tradição, da qual Nietzsche é um dos defensores, defendeu a ideia paradoxal, mas poderosa, da fertilidade da restrição. É sob a restrição (ou até mesmo sob tortura!) que a natureza, segundo Bacon, revela seus segredos; a restrição (“Zwang”) é até mesmo, para Nietzsche, inseparável do desdobramento de toda “vontade de potência”, inclusive no campo poético. Portanto, pode ser um bom método consentir, pelo menos em parte, às regras ou restrições que os poetas adotaram como regras e que eram inerentes ao crescimento de sua arte, assim como as resistências são ao desenvolvimento de toda “vontade de potência”, que busca e acumula obstáculos espontaneamente para se desenvolver.
Traduzir em forma é seguir o exemplo do ensinamento nietzschiano sobre a questão, o de uma “dança nas correntes” que as gerações de poetas não cessaram, em sua opinião, de tornar mais difícil38. A poesia de um poema é certamente algo além de sua forma, ninguém teria a tolice de afirmar o contrário.
No entanto, são poucos aqueles que percebem ser justamente em uma forma específica que essa qualidade poética se encarnou e revelou. Essa tensão não deve ser negligenciada e merece mais do que posições teóricas. De fato, a “forma” de um poema não poderia, até certo ponto, ser assimilada à sua “letra”, como definido pelo renomado tradutólogo Antoine Berman39? Qual é a relação entre a forma do poema e alguma outra estrutura percebida como mais profunda, que organiza seu significado e beleza? Sem dúvida, como Berman destaca, existe também, nessa história da recepção dos textos que é a história de sua tradução, uma duração marcada por épocas de sensibilidade, que leva a traduzir um texto de maneira diferente se é a primeira tradução ou uma retradução. No caso de uma obra parcialmente inédita em francês e parcialmente já abundantemente traduzida, essa problemática da retradução adquire uma importância especial. A escolha de respeitar, tanto quanto possível, a forma dos poemas de Nietzsche também se explica pela história de suas traduções. Um certo tropismo filosófico levou a maioria dos tradutores de seus poemas - talvez menos familiarizados com essas questões formais do que os literários e do que o próprio Nietzsche - a buscar antes de tudo o seu “espírito”, ou até mesmo a captar sua “letra” conforme suas próprias expectativas noéticas. Diante desse conjunto de versos livres, a escolha de prestar uma maior atenção à forma me pareceu necessária para devolver ao filósofo as cores de uma modernidade mais ambígua, mais “inatual”, capturada em sua gênese e nos meandros de suas explorações. Certamente foi necessário tentar “desfilosofar” esses poemas, à maneira como Nietzsche ele mesmo havia buscado “desgermanizar-se40”. Essa tentativa de tradução, seguindo esses princípios, pareceu-me capaz de destacar a poeticidade dos poemas de Nietzsche, ou até mesmo o que poderíamos chamar de sua “poematicidade”, se entendemos isso como a poesia própria do gênero poema, que ele não deixou de praticar. Tratou-se, em suma, de libertar a tradução de Nietzsche das armadilhas do “poético” - recentemente desconstruído de maneira eficaz por Martin Rueff - “esse adjetivo sem lugar nem Deus, sem fé nem lei, que parece soar mais apropriado quando aplicado a um filme do que quando se tenta aprisioná-lo nos limites dessa coisa estranha e insensível que é a linguagem de um poema41”. A abordagem adotada e o desafio foram, portanto, buscar em Nietzsche a poesia do poema e não apenas a poesia fora do poema. A ambição desse trabalho, no entanto, não é tão desmedida quanto possa parecer. Não se tratou aqui de reproduzir as formas desses poemas com uma exatidão absoluta. Tal empreendimento me pareceu inviável e indesejável. Toda tradução, evidentemente, exige sacrifícios, e procurei conciliar duas exigências: traduzir a letra do texto e fornecer uma ideia o mais precisa possível de sua forma, relaxando, se necessário, algumas restrições, mas me esforçando para não ceder no sentido nem interpolando elementos excessivamente exógenos à letra. Eu quis, assim, com esse esboço de fidelidade musical adicionada à literalidade do sentido, indicar ao leitor francês a que estética cada poema traduzido pertencia. Assim, por exemplo, respeitei a presença das rimas, não necessariamente sempre sua ordem ou riqueza, sempre que esse esforço me parecia resultar em um desequilíbrio prejudicial. Busquei sugerir e imitar os ritmos, não necessariamente reproduzi-los exatamente como são. É apenas por meio dessas metáteses e licenças que esse projeto me pareceu viável e talvez válido: refazer, toda vez, um poema fiel do ponto de vista semântico e o mais semelhante possível do ponto de vista estético formal, em virtude de uma dose que sempre dependerá, no final das contas, da subjetividade do tradutor, da apreciação pessoal de seus meios poéticos e da resistência dos textos e das línguas. Teria me parecido completamente absurdo apresentar Lieder (canções) de 1858 sem rimas e sem um ritmo perceptível, pois não acredito que uma canção desse tipo possa ser oportunamente representada por um poema em verso livre. Sem dúvida, essas adaptações são possíveis para quem busca uma filosofia em todos os lugares e teme que o som o afaste do sentido, ou ainda para quem se torna o importador de produções exóticas de uma língua rara, mas no caso de uma língua próxima e já bem relacionada ao francês como o alemão, no caso de um autor há muito tempo abundantemente traduzido segundo outros princípios, parecia interessante seguir outro caminho. Ao fazer isso, para os poemas da juventude em particular, deve emergir uma ideia mais precisa da datação estética desses textos e de sua inserção em seu tempo. O romantismo do jovem Nietzsche é acentuado de uma maneira que contrasta com o simbolismo emergente de seus poemas mais tardios, ou ainda com o rico uso filosófico que ele faz, no período intermediário, da forma do epigrama, ao qual me dediquei mais detalhadamente em outro texto42. A reviravolta antirromântica inaugurada durante o período que antecede Humano, Demasiado Humano é logicamente acentuada. Dessa forma, torna-se evidente, de maneira ainda mais clara do que pela simples confrontação das ideias e estilos do prosador, que Nietzsche arranca de si um vasto e antigo complexo cultural no qual ele havia se desenvolvido por mais de duas décadas. Em suma, toda uma estilística de Nietzsche poderia ser mais bem delineada, e, por consequência, é claro, sua evolução no campo das ideias, sempre inseparáveis de uma forma de expressão em constante movimento. A revelação desse corpus poético coloca uma questão essencial: a do valor da poesia para Nietzsche, o filósofo dos valores. Seria ela marginal apesar de sua abundância? “Nada mais que um louco! Nada mais que um poeta!”. Seriam os solavancos e a variedade de vozes nas quais Nietzsche se destacou a marca de uma deriva, até mesmo de uma incompletude estilística? Certamente não me permitiria fazer um julgamento tão assertivo sobre uma obra tão rica, diversa, prolífica e inventiva, mas poderia traçar primeiramente alguns temas e depois algumas etapas essenciais do desenvolvimento de Nietzsche como poeta e pensador da poesia43.
Do ponto de vista temático, esses poemas são marcados, em primeiro lugar, por um silêncio quase total em relação ao amor. A presença de versos amorosos é surpreendentemente reduzida nesse conjunto, inclusive nos poemas da juventude, que geralmente são mais expressivos sobre esses sentimentos. Quando um poema aborda o amor, Elisabeth menciona que seu irmão emprestou sua pena aos sentimentos de um amigo44. Outro exemplo é uma mulher aflita à beira do mar que imediatamente lamenta seu “Eu te amo”, “derretendo-se em lágrimas” em seu casamento, e o idílio que parece começar a se formar com o músico não acontece devido à incompletude do poema45. Mais tarde, o amor será frequentemente satirizado também, por exemplo, nas Idílicas de Messina (1882)46. Quando se fala de sinais de amor, no poema de encerramento de Além de bem e mal, “Do alto das montanhas”, na verdade se trata de amizade, um tema essencial na vida e no pensamento do filósofo47. Muitos poemas são desabafos do eu solitário na forma de Lieder (canções) em estrofes parcialmente rimadas, emocionantes principalmente quando expressam a nostalgia de casa e o luto pelo pai:
Avec vous ces fleurs si frêles !
Je les cueillis pour parure
Du lointain toit paternel.
Ô rossignol, ô toi vole,
Descends jusqu’à moi plutôt
Et porte ce bouton de rose
À mon père, sur son tombeau!48
(Ó, cotovias, levai
Com vocês essas flores tão frágeis!
Eu as colhi para adornar
O distante telhado paterno.
Ó rouxinol, ó tu que voas,
Desce até mim em vez disso
E leva este botão de rosa
Ao meu pai, em seu túmulo!)
Essa tonalidade se revela tanto pela visão quanto pela música, que muitas vezes se resume ao tintilar dos sinos, a um chamado à nostalgia e ao além49. Nestes versos que são como um diário de humores, emoções e descobertas intelectuais de um grande espírito com uma sensibilidade aguçada, e onde também vemos um jovem extraordinariamente talentoso aprimorar sua habilidade em composições às vezes no limite do pastiche50, encontramos muitos temas mais obsessivos do que o amor. Há elogios, é claro, sendo o aniversário da mãe de Nietzsche até mesmo a ocasião para presenteá-la com uma rica coleção de poemas51, poemas de Natal52, de Ano Novo53 e do Dia de Finados54, todos versos que ressaltam, se necessário, o quanto o retorno das datas marcou o filósofo desde a infância. Ele frequentemente apresenta um quadro poético dessas ocasiões através da emotiva pintura do ciclo das estações55, evocando a grandeza de Deus56 e a lei do devir, inicialmente compreendida como a passagem da vida terrena para a vida celestial57. Sinalizando o que esses versos antecipam, as “rodas eternas do mundo58” giram muito antes do Eterno Retorno e das paródias no final de Fausto59.
Essas pinturas do mundo exterior desdobram uma poesia da natureza na qual os animais, e especialmente os pássaros60, ocupam um lugar de destaque. Descobrimos uma extraordinária atenção às paisagens, uma veia e um ímpeto que Nietzsche saberá, como filósofo simbolista, pontilhar em suas prosas de pensamento no futuro. Entre essas paisagens, a terra, os prados, os campos, os rios, especialmente o Saale, mas acima de tudo a montanha e o mar já estão onipresentes, que se tornarão mais do que um mero cenário e um horizonte simbólico de sua filosofia, um verdadeiro local de experiência do filosófico dentro da metáfora, seja navegando ou escalando61. O tema da tempestade, em terra ou no mar, incluindo seu alcance simbólico, dominado precocemente pelo jovem, é onipresente62. Algumas figuras humanas naturalmente se destacam com mais frequência e relevo: a imagem de uma bela jovem abandonada à beira das ondas, ora uma desconhecida63, ora Andrômeda64, prefigura Ariadne, que nunca sairá do imaginário de Nietzsche65 até as cartas da loucura66, sem esquecer dos “Cantos de Nausicaa67”. Um longo poema sobre Jasão e Medeia68, outra mulher abandonada69, acompanhado aliás de reflexões filosóficas, oferece um primeiro substrato ao famoso chamado da maturidade aos “Argonautas do ideal70”. Àqueles marinheiros ávidos por encontrar o Velocino de Ouro, responde a audácia do navegante que parte em busca do Eldorado e descobridor de um novo mundo, esse Cristóvão Colombo, ao qual Nietzsche dedica diversos poemas da juventude71 e da maturidade, e faz mais de uma alusão, ele que tanto amava a cidade natal do grande explorador, Gênova72. Quando não sonha com conquistas, o jovem Nietzsche fala com prazer de batalhas: guerra sem local preciso73, guerra da Crimeia74, guerras médicas75, guerras messênias76, guerras napoleônicas77, guerra de Troia78...
O gosto de Nietzsche pelo heroísmo o leva a evocar várias figuras históricas e mitológicas: podemos ver um ciclo em torno de Aquiles, centrado mais em sua educação por Quíron do que em suas proezas marciais79, assim como a incursão poética espanhola em torno de “Dom Afonso, o Cid” se transforma em uma busca filosófica pela felicidade80. O jovem Nietzsche também elabora um ciclo de poemas em torno de Perseu lutando contra o dragão, mais focado, aliás, em Andrômeda81; ele narra a morte de Siegfried82, mas, desta vez, é a angústia da traição que o inspira, assim como o reverso de sua moralidade luterana e de seu já agudo senso de amizade: quando ele não recorre à lenda, ele até inventa suas próprias figuras medievais de amigo traído83. As paisagens também não são apenas idílicas, longe disso. Muito antes da canção “Ao mistral” de A gaia Ciência, furacões irrompem constantemente nesses versos. Eles cercam “A morte de Beethoven84”, rasgam as nuvens sobre o Gólgota85, se interiorizam mais de uma vez, especialmente em metáfora do sopro divino86, preparam a chegada de uma Amazona alegórica com traços um tanto sádicos87, que lembra uma “Reunidora de nuvens e lançadora de raios / Ó Rainha, teu poder” de um poema mais antigo88. Essa evocação das forças hostis e assustadoras da natureza frequentemente leva à catástrofe, especialmente ao incêndio89, acompanhando e antecipando, desde os primeiros poemas, outro tema obsessivo: o apocalipse. A morte de Hermenerico já retrata, mais de quinze anos antes do drama musical de Wagner, o “crepúsculo dos deuses”90; a “catedral dos discursos” de Saint-Just ergue uma “fogueira monstruosa” e o “arcanjo diabólico” do Terror abre um “abismo” onde o leitor é tentado a segui-lo91... Também se delineia uma veia religiosa, hino, oração ou contrição, hesitando entre paganismo92 e cristianismo93, mas que não deixa de se transformar, com o tempo, em blasfêmia, como no poema “Diante do crucifixo94”, um primeiro sarcasmo que certamente terá muito eco nos poemas da maturidade95. E uma ambivalência que perpassa Assim falava Zaratustra.
Após esse longo período de fecundidade juvenil, até mesmo adolescente, a Musa, por um tempo, se cala. As pesquisas filológicas, seguidas pelos ensaios polêmicos e filosóficos, a sufocam quase que completamente. Sobretudo, a “metafísica do artista”, que Nietzsche desenvolve em torno de O nascimento da tragédia (1872) é marcada por uma cruel ambivalência em relação à poesia. Por um lado, é a poesia, em seu sentido mais amplo, que morre com a tragédia grega; por outro lado, a arte é colocada acima da racionalidade socrática, o que parece ser uma oportunidade para o discurso em versos; mas, por outro lado, a estrutura do Gesamtkunstwerk (“Obra de arte total”), tanto antiga quanto wagneriana, da qual Nietzsche desdobra sua arquitetura, faz da poesia uma simples força complementar do drama musical grego e contemporâneo. A filologia e a filosofia nietzschiana veem o poema como uma tradução simbólica, entre outras, dos dois instintos fundamentais. No aspecto dionisíaco, o poema é secundário em relação à música geradora de todas as coisas, como indicado pelo subtítulo do trabalho (“A partir do espírito da música96”) e pela extensa referência a Schopenhauer, que o transforma em um substituto irracional da Ideia platônica; no aspecto apolíneo, o poema permanece secundário, desta vez em relação à plasticidade. As “imagens” produzidas pelos poemas são menos puras do que as visões de sonho do “mito”, essa sucessão silenciosa de “Vorgänge”, “processos” ou “avanços” tão profundamente significativos quanto radicalmente inarticulados. O poeta é apenas um dos elementos que compõem o gigantesco dramaturgo trágico, conforme concebido por Nietzsche naquela época. Quanto mais ele insiste que a tragédia grega, tal como entendida pelos modernos, é apenas um “libreto” do qual o tempo foi privado de sua música, mais a poesia, como a concebemos, perde importância aos seus olhos. Nesse sentido, O nascimento da tragédia sinaliza a depreciação que Nietzsche tem pela poesia de sua época, começando por Mörike, cujos versos ele admite não compreender em que sentido seriam “música”. No entanto, a ruptura, a partir do outono de 1876, com a filosofia schopenhaueriana e a estética wagneriana não permite uma reavaliação: a irreverência emancipadora do “espírito livre” que ele agora preconiza tende a rejeitar, de uma só vez, a poesia e a filosofia tradicionais como duas atividades fundamentalmente falaciosas. Encontramos, então, em sua escrita, em várias ocasiões, a expressão “os poetas e os filósofos” que, em um único gesto, desqualifica os dois tipos. No entanto, essa aproximação do pensador e do aedo finalmente inscreve, mesmo que inicialmente de forma crítica, a poesia nietzschiana em seu horizonte mais interessante: se todo logos é metáfora, como já havia sido visto em Sobre verdade e mentira no sentido extramoral, se o filósofo é “nada além de um poeta”, como proclamarão os Ditirambos de Dionísio, então o poeta também pode retomar, em boa lógica e simetria, seus direitos de filosofar: os poemas então voltam a povoar as obras, especialmente em A gaia ciência, adquirem o valor de uma música, um “prelúdio”, carregam uma nova ironia, cheia de sentido e autodepreciação. Eles não mais deixarão as obras de Nietzsche e se tornarão gradualmente um dos lugares de exercício e expressão dessa filosofia dos valores, capazes de restituir ao mais alto grau o caráter irracional e o substrato metafórico, as cores, o ritmo e o sabor. Isso é o que propõem, em poemas que expressam filosofemas, os “epigramas” de A gaia ciência, bem como suas sequências póstumas; isso é ilustrado, na ordem da prosa poética também incrustada de versos, o Zaratustra; isso é o que os Ditirambos de Dionísio realizam, na forma nova do verso livre, como a concretização de uma tomada de consciência que a longa atividade de escrita poética de Nietzsche trouxe à luz: a poesia pode ser o lugar por excelência do surgimento crítico de uma verdadeira música original - aquela dos valores.
Referências
- BERMAN, Antoine. La Traduction et la Lettre ou L’auberge du lointain Paris: Seuil, “L’Ordre philosophique”, 1999.
- FRIEDRICH, Hugo. Die Struktur der modernen Lyrik. Von Baudelaire bis zur Gegenwart Hambourg: Rowohlt, 1956.
- FÖRSTER-NIETZSCHE, Elisabeth. Friedrich Nietzsche und die Frauen seiner Zeit Hamburgo: Severus Verlag, 2014.
- GARNIER, Pierre. Frédéric Nietzsche, seleção de textos e bibliografia. Paris: Seghers, “Poètes d’aujourd’hui” (n.º 59), 1957.
- LIÉBERT, Georges; Nietzsche et la musique Paris: PUF, 2012.
- MEISSNER, Alfred. Gedichte Leipzig: Philipp Reclam jun., 1845.
- MÉTAYER, Guillaume. Nietzsche poète du Gai Savoir, ou la folie de l’épigramme. À propos d’une traduction recente, Études germaniques, vol. 266, n° 2, 2012, p. 333-350.
- MÉTAYER, Guillaume. Nietzsche et Voltaire. De la liberté de l’esprit et de la civilisation, Paris: Flammarion, 2011.
- MONTINARI, Mazzino, La « volonté de puissance » n’existe pas; texto estabelecido e posfácio por Paolo D'Iorio; tradução do italiano e precedido por uma nota de Patricia Farazzi e Michel Valensi, Paris: Éditions de l'éclat, “Philosophie imaginaire”, 1996.
- NIETZSCHE, Friedrich. Werke. Kritische Gesamtausgabe (KGW). Berlin/New York, Walter de Gruyter, 1967 ff.
- NIETZSCHE, Friedrich. Sämtliche Briefe: Kritische Studienausgabe (KSB). Berlin/ New York: Walter de Gruyter, 1986.
- NIETZSCHE, Friedrich. Sämtliche Werke. Kritische Studienausgabe (KSA). Berlin/New York, Walter de Gruyter , 1999.
- NIETZSCHE, Friedrich, Jugendschriften, 1854-1868, herausgegeben von Hans Joachim Mette, Carl Koch und Karl Schlechta (5 vol.), Munique, Deutscher Taschenbuch Verlag, 1994.
- NIETZSCHE, Friedrich. Poesias completas, apresentadas e traduzidas por Georges Ribemont-Dessaignes. Paris, Plasma, 1982.
- NIETZSCHE, Friedrich, Poésies, nova tradução de Jean-Jacques Briu, Paris, ed. Éole, “Les Européennes, 1991.
- NIETZSCHE, Friedrich, Poèmes 1858-1888. Dithyrambes pour Dionysos, apresentação e tradução por Michel Haar, Paris, Gallimard, NRF, “Poésie/Gallimard”, 1997, p. 246-247.
- NIETZSCHE, Friedrich. Vidám Tudomány trad. Romhányi Török Gábor. Budapeste: Holnap Kiadó, 1997.
- RUEFF, Martin, La non-poésie des non-poètes Libération, 19 de maio de 2013.
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1
Gedichte und Sprüche, 1908, “Vorwort zur I. Auflage”, p. XI.
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2
Friedrich Nietzsche : Gedichte. Hrsg. Mathias Mayer, Stuttgart: Reclam, 2010, 197 p. As “Frühe Gedichte (1858-1864)” ocupam as p. 91 a 104.
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3
Isso ocorre com a organização da edição Manesse, bem como com os volumes franceses de Arnold e Delétang-Tardif. Aqui, simplesmente, o poema “Au loin, au loin” (“In der Ferne, in der Ferne”) foi inserido adicionalmente, para substituir a “Deutsche Sangeswonne”, um canto patriótico e antifrancês excluído da seleção. Na verdade, este poema não é de Nietzsche.
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4
Paris, Les Presses littéraires de France, 1949, 2 vol.
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5
NIETZSCHE, Friedrich , Poésies complètes, apresentadas e traduzidas por G. Ribemont-Dessaignes. Posfácio de Jean-Pierre Begot, Paris: Plasma, 1982. Edição anterior em 1948, depois reeditada por Gérard Lebovici, Paris, 1984, 183 pp.
- 6
- 7
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8
Este poema existe desde o período do “verão-outono” de 1884, então apenas como um título parcialmente abandonado, evocando uma “rapsódia”, forma lisztiana e magiar querida por Nietzsche, finalmente substituída por um “canto de dança”, NF/FP 1884, 26 [235], KSA 11. 210: “An den Wind Mistral. / Eine Rhapsodie”. A carta para Köselitz de 22 de novembro de 1884, KSB 6. 558-561, já fornece uma versão completa.
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9
“O que é o romantismo?”; 2) “Pessimismo na arte”; 3) “Apolinismo, dionisismo”; 4) “São os estados de exceção que determinam o artista”; 5) “Realismo na arte”; 6) “A hierarquia”.
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11
1997.
- 12
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13
Volume que não é exaustivo, apesar de alguns esquecimentos que indiquei em nota, apenas para o período de seis anos anunciado, com exceção também dos poemas presentes na correspondência, que não foram incluídos: carta para Heinrich Köselitz, 10 de janeiro de 1883, KSB 6. 316-318; dedicatória em uma cópia de Aurora ao músico August Bungert, carta a Franz Overbeck, dia 9 de março de 1883, KSB 6. 341-342; carta para Elisabeth Nietzsche, por volta de 20 de agosto de 1883, KSB 6. 433; carta para Josef Viktor Widmann, 15 de setembro de 1887, KSB 8. 156; carta para Heinrich Köselitz, 17 de maio de 1888, KSB 8. 315-317.
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14
NIETZSCHE, Friedrich, Poèmes 1858-1888. Dithyrambes pour Dionysos, apresentação e tradução por Michel Haar, Paris, Gallimard, NRF, “Poésie/Gallimard”, 1997, p. 246-247. Ao contrário do tradutor, parece-me que a tradução “para Dionísio” não captura completamente a ambiguidade da adjunção do título de Nietzsche. Pois Dionísio é, em O nascimento da tragédia, o deus oculto por trás das máscaras dos grandes personagens clássicos, como Édipo ou Ajax. Portanto, nada indica que se trate aqui de um culto prestado e não de uma das encarnações essenciais de Dionísio no poeta que Nietzsche pretende ser aqui.
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15
26 unidades, algumas das quais incluem extensos conjuntos de Lieder, totalizando 44 páginas (ed. Haar, op. cit., p. 27 a 71).
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16
Pode-se pensar em seus quadros sobre Cristóvão Colombo, os Girondinos, a história arcaica dos Germânicos (Thusnelda).
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17
Veja, por exemplo: NF/FP 1856-1857, 2 [17], 2 [22], KGW I, 1. 149 e 155; NF/FP 1859, 6 [45], KGW I, 2. 66.
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18
NF/FP 1861, 10 [4], KGW I, 2. 244-252.
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19
É também o caso da edição de Jean-Jacques Briu, mas não da maioria das outras (edições Haar, Arnold e Delétang-Tardif, Pierre Garnier na Seghers, as reedições de Ribemont-Dessaignes), algumas das quais nem sequer fornecem os títulos originais. A falta de um índice detalhado na edição de Haar torna o uso do volume bastante difícil.
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20
Por outro lado, não coletei os fragmentos dramáticos em verso, nem alguns poemas em línguas antigas.
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21
A seguir, abreviada como KGA.
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22
NIETZSCHE, Friedrich, Jugendschriften, 1854-1868, herausgegeben von Hans Joachim Mette, Carl Koch und Karl Schlechta (5 vol.), München, Deutscher Taschenbuch Verlag, 1994. Reprodução da edição completa publicada em Munique, C. H. Beck’sche Verlagsbuchhandlung, 1933-1940. Abreviado a seguir como Mette seguido pelo número do volume em algarismos romanos.
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23
NF/FP 1861, 10 [5], KGW I, 2. 252-253; Mette, I, p. 274.
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24
Por exemplo, sobre sua relação com o suicídio - enquanto Meissner, acusado de explorar um “ghostwriter”, se suicidou - em Josef M. Werle, Projeto de Nietzsche 'Filósofo da Vida', Würzburg, Königshausen und Neumann, “Trierer Studien zur Kulturphilosophie”, 2003, p. 47.
- 25
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26
NF/FP 1861, 10 [6], KGW I, KGW I, 2. 253; Mette, I, p. 274.
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27
S. 344, de acordo com a classificação de Humphrey Searle, publicada em 1881 [dueto para soprano e alto com piano ou harmônio], Budapeste, Táborszky & Parsch. A Biblioteca Nacional da França possui um manuscrito autógrafo “a tinta preta, incompleto, com correções a lápis vermelho” da partitura inicialmente revisada por Liszt, sob o título Abend am Meere.
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28
NF/FP 1861, 10 [29-30], KGW I, 2. 290-291.
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29
NF/FP 1857, 3 [16], KGW I, 1. 195-197.
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30
Da mesma forma, “Reu und Leid”, listado por Mette (I, 49-50) como um poema de Nietzsche e incluído em seu índice, é na verdade de Clemens Brentano. Da mesma forma, o poema “Wie liegt im Mondenlichte” (Mette, III, 121, também presente no índice) é de Theodor Storm.
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31
NF/FP 1859, 6 [77], KGW I, 2. 103.
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32
Desenvolvi este ponto na minha apresentação no colóquio “As figuras do poder em Nietzsche. Do espírito livre à inversão de todos os valores”, organizado no ITEM (Instituto de Textos e Manuscritos Modernos, École Normale Supérieure/CNRS) por Alexandre Avril, David Simonin, Rachele Salerno e Yannick Souladié, em 29 de março de 2018 na ENS, depois de ter apresentado uma primeira versão no meu seminário de literatura comparada dedicado ao “Sujeito Lírico” na Sorbonne em dezembro de 2015. Uma publicação dos procedimentos está planejada.
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33
Ver, por exemplo, Liébert, 2012.
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34
FW/GC, 92, KSA 3.447-448.
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35
EH/EH, O caso Wagner 4, KSA 6.362-364.
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36
A título de exemplo, podemos observar que a edição húngara de A gaia ciência oferece traduções em verso regular, realizadas por diferentes tradutores, muitos dos quais poetas famosos, como Lőrincz Szabó, Dezsö Tandori, László Lator (Cf. Vidám tudomány, trad. Romhányi Török Gábor, Budapeste, Holnap Kiadó, 1997).
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37
Cf. Friedrich, 1956.
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38
Sobre essas questões, permito-me remeter ao meu livro Nietzsche et Voltaire. De la liberté de l’esprit et de la civilisation, prefácio de Marc Fumaroli, Paris, Flammarion, 2011, especialmente ao capítulo “Le maître de danse de Nietzsche”, p. 72-113.
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39
Cf. Berman, 1999.
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40
“Gut deutsch sein heisst sich entdeutschen”: ver em especial VM/OS 323, KSA 2.511-512.
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42
Ver meu artigo em Études germaniques (supra, nota 14), que apresenta minha primeira tentativa de compilação e tradução das Epigramas (Paris, Sillage, 2011), cuja introdução é reproduzida, mas não os comentários no final do volume.
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43
Para uma apresentação mais detalhada, pode-se consultar minha palestra “Nietzsche, valeur de la poésie et philosophie de la valeur” nos procedimentos a serem publicados do colóquio “Valeurs de la poésie (séculos XVI-XXI)”, organizado na Universidade Paris-Sorbonne (CELLF - Centre d'étude de la langue et des littératures françaises) nos dias 11 a 13 de outubro de 2018 por Olivier Gallet, Adeline Lionetto, Stéphanie Loubère, Laure Michel e Thierry Roger.
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44
Ver “Amor infiel” (“Untreue Liebe”, NF/FP 1863-1864, 16 [13], KGW I, 3.287), supostamente escrito para Paul Deussen (Förster-Nietzsche, 2014, p. 38-40).
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45
“À beira do oceano [...] E a boca, no entanto, que tinha dito essas palavras, contorcia-se de dor imediatamente”. Ver NF/FP 1862-1863, 14 [40], KGW I, 3. 85 e 87.
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46
“Em torno do amor dança / Sem parar meu belo leme” (“O pequeno veleiro chamado 'O Angelote'”) ou ainda, no mesmo ciclo, a “Declaração de amor (na ocasião em que o poeta caiu em um buraco)” ou o “Canto de um pastor siciliano” que mostra uma espera amorosa trivialmente comparada à coceira de um comedor de cebolas (“O amor está aqui me corroendo / À maneira das sete pragas / Quase não consigo comer nada. / Adeus, minhas cebolas, para sempre!”). IM/IM, KSA 3. 337-338
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47
Eu me permito aqui recomendar a seguinte seleção de textos: Friedrich Nietzsche, Hino à amizade, trad. Nicolas Waquet, pref. Guillaume Métayer, Paris, Rivages, 2019.
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48
NF/FP 1858, 4 [9], KGW I, 1.226.
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49
Por exemplo, neste poema: “A escuridão se eleva ao redor, / Ouço o Angelus ecoar. / Estou sozinho, longe de todos, / Ah! Meu coração está pesado, angustiado! / Adeus! Adeus! / Adeus! Ó vale silencioso!” (NF/FP 1858, 4 [35], KGW I, 1.250)
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50
De Wieland (NF/FP 1858, 4 [7], KGW I, 1. 214); de Goethe (“Italia”, NF/FP 1858, 4 [21], KGW I, 1. 239-240), cuja Gretchen se une facilmente à Lorelei de Heine no Lied “Junge Fischerin” (“Jovem pescadora”) que talvez sonhe ser a “Schöne Müllerin” (“bela moleira”) (“Ninguém pode saber / Por que estou tão triste desta forma”); de Eichendorff (NF/FP 1859, 6 [45], KGW I, 2.66); de Christian Dietrich Grabbe para o poema “Cinquenta anos depois” inspirado por Napoleão ou os Cem Dias (1831) - peça aliás traduzida por Emmy de Némethy, introdução húngara de Nietzsche na França - de acordo com Barbara Beßlich, Der deutsche Napoleon-Mythos. Literatur und Erinnerung 1800 bis 1945, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 2007, p. 285-287 (agradeço a Éric Chevrel por me fornecer esta referência); e de muitos outros ainda...
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51
Em NF/FP 1856-1857, 2 [1], KGW I, 1. 115-125. Veja também: carta nº 5 para Franziska Nietzsche; NF/FP 1857, 3 [3], 3 [8], KGW I, 1. 180-181 e 191; NF/FP 4 [9], 1858, KGW I, 1. 215-226; NF/FP 1858-1859, 5 [20], KGW I, 2. 21; NF/FP 6 [72], 1859, KGW I, 2. 93-95, NF/FP 1861-1862, 12 [18], KGW I, 2. 375-376. Em 11 [65], trata-se mais de um aniversário relacionado ao seu falecido pai, tratado com um certo esforço de autodepreciação distanciada pelo jovem. NF/FP 1861-1862, 11[15], KGW I, 2. 324-325.
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52
NF/FP 1858, 4 [69]; NF/FP 1858-1859, 5 [9].
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53
NF/FP 1857, 3 [12], KGW I, 1. 193; NF/FP 1858, 4 [1-2], KGW I, 1. 211-212; NF/FP 1858-1859, 5 [34], KGW I, 1. 26-29 (litania sobre este tema); NF/FP 1863-1864, 16 [14], KGW I, 3. 288 (em uma forma mais elaborada); NF/FP 1859-1860, 7 [6], KGW I, 2. 180-183. “A angústia te apanha hoje enquanto você atravessa a porta / Do novo ano”.
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54
NF/FP 1862-1863, 14 [29], KGW I, 3. 57.
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55
A chegada da primavera é celebrada no hino a Zeus (NF/FP 1856-1857, 2 [12], KGW I, 1. 145-146), mas ainda mais nos poemas NF/FP 1858, 4 [37] e 4 [70], KGW I, 1. 251 e 276; NF/FP 1858-1859, 5 [18], KGW I, 2. 19-20; NF/FP 1859, 6 [35], 62-63; NF/FP 1861-1862, 11 [81], KGW I, 2. 331. Também encontramos uma evocação da chegada do verão em NF/FP 1858, 4 [42], KGW I, 1. 253, do inverno na carta para Franziska Nietzsche de 27 de novembro de 1858, KSB 1. 30-31, e no poema “O inverno” em NF/FP 1858, 4 [9], KGW I, 1. 216-220. O inverno também é tematizado em Dia dos Mortos (NF/FP 1862-1863, 14 [29], KGW I, 3. 57).
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56
NF/FP 1858, 4 [19], 4 [30], KGW I, 1. 239 e 244-245.
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57
“Após um inverno frio e severo, / Vem maio e sua alegria primaveril. / Após o todo-poderoso transe, / A celeste beatitude”. NF/FP 1858, 4 [9], KGW I, 1. 219.
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58
NF/FP 1862, 13 [11], KGW I, 2. 444-445.
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59
“A Goethe”: “Ao girar, a Roda do Mundo / Derruba nossos projetos”. FW/GC, Apêndice, KSA 3. 639.
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Muito antes da águia de Zaratustra, prefigurada desde 1856-1857 pela águia que leva o viajante às civilizações antigas (“Voem para a margem próxima...”. NF/FP 1856-1857, 2[3], KGW I, 1. 126), antes dos “pássaros de rapina” dos Ditirambos de Dionísio, antes do príncipe “Vogelfrei”, antes do pica-pau zombeteiro do Apêndice de A gaia ciência (“Uma vocação de poeta”), os pombos de Veneza (“Minha felicidade” no mesmo Apêndice), o Fênix de Hafiz (NF/FP 1884, 28 [42], KSA 11. 316) e os corvos do Freigeist (NF/FP 1884, 28 [64], KSA 11. 329), encontramos o abutre da melancolia, em julho de 1871 (NF/FP 1871, 15 [1], KSA 7. 389-390), e antes dele, inúmeros filhotes de pássaros ou pássaros pequenos, cotovias e rouxinóis (NF/FP 1858, 4[9], 4 [36], 4 [37], KGW I, 1. 226, 250-251; NF/FP 1859, 6 [1], 6 [23], 6 [31], KGW I, 2. 33-36, 56, 59-60; NF/FP 1859-1860, 7 [6], KGW I, 2. 180-183.), guindastes (NF/FP 1862-1863, 14 [40], KGW I, 3. 85-91), e até mesmo gansos (NF/FP 1854-1856, I [4], KGW I, 1. 6-7; 19 [3]; NF/FP 1888, 20 [8]), especialmente "gansos de virtude" ("Ao mistral").
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Sobre esse ponto, veremos o artigo de Gaston Bachelard citado na bibliografia.
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"N. 2. Tempestade no mar"; "N. 7. Na rota dos mares navega um pequeno navio"; "N. 8. Tempestade". NF/FP 1856-1857, 2 [1], KGW I, 1. 116-117, 122-124; tempestade também em "Cécrops. 1500". NF/FP 1856-1857, 2[8], 2[9], 2[16], KGW I,1. 134-139 e 148. No poema de Alfonso (3 [1]), uma parte inteira (notada como "3.") é dedicada ao relato dos pescadores que desenvolvem a analogia da vida e das tempestades. NF/FP 1857, 3[1], KGW I, 1. 177-178.
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63
Ver o longo poema "À beira do oceano". NF/FP 1862-1863, 14 [40], KGW I, 3. 85-91.
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64
NF/FP 1856-1857, 2 [6], 2 [9], KGW I, 1. 130-131 e 136-139.
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65
DD/DD, Lamento de Ariadne, KSA 6. 398-405.
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Carta para Cosima Wagner em Bayreuth. Turim, supostamente em 3 de janeiro de 1889 ("Ariadne, eu te amo! Dionísio").
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67
NF/FP 1882, 19 [10], KSA 10. 585.
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68
NF/FP 1858, 4 [33], KGW I, 1. 246-248.
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69
Isso talvez seja um tratamento levemente deslocado do tema familiar da viúva, ao qual se deve adicionar Andrômaca deixada por Heitor (NF/FP 1858, 4 [53], KGW I, 1. 261-262) e Driope metamorfoseada em planta diante dos olhos de seu filho, sua irmã e seu pai (NF/FP 1857, 3 [7], KGW I, 1. 187-191).
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70
FW/GC 382, KSA 3. 635-637 e EH/EH, Assim falava Zaratustra 2, KSA 6. 337-339.
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71
NF/FP 1858, 4 [64], 4 [67], KGW I, 1. 272-274.
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72
"Yorick-Colomb". NF/FP 1884, 28 [63], KSA 11. 328.
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73
NF/FP 1854-1856, I [16], KGW I, 1. 34; “IV. Ataque”. NF/FP 1856-1857, 2 [1], KGW I, 1. 118-119.
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74
NF/FP 1854-1856, I [77], KGW I, 1. 103; “Sebastopol” em NF/FP 1856-1857, 2 [1], KGW I, 1. 124-125.
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75
"Viajante, quando estiveres na Grécia a viajar, / Encontrarás os Termópilas". NF/FP 1856-1857, 2[2], KGW I, 1. 125; ver também "Leônidas e Teláquio". NF/FP 1856-1857, 2[10], KGW I, 1. 139-142.
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76
NF/FP 1856-1857, 2 [19], KGW I, 1. 150-153.
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77
Especialmente a batalha de Leipzig, mencionada em vários poemas (NF/FP 1862-1863, 14 [7], KGW I, 3. 17-18), incluindo o poema épico "Cinquenta anos depois", que celebra seu aniversário (NF/FP 1863-1864, 16 [1-2], KGW I, 3. 231-239).
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78
NF/FP 1858, 4 [22] e especialmente 4 [53], KGW I, 3. 240 e 261-262.
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79
NF/FP 1856-1857, 2[25-27], KGW I, 1. 160-163. Grande mito da paideia antiga, celebrado especialmente por Píndaro e posteriormente por Ovídio em "Os Fastos". Quíron também foi o tutor de Jasão.
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80
“Alfonso”. NF/FP 1857, 3 [1], KGW I, 1. 175-180. Ver também NF/FP 1857, 3 [6], KGW I, 1. 185-187, onde as aventuras propriamente ditas são compactadas em um resumo inicial, e a revelação da sabedoria de Solon por um sábio solitário, anunciando o eremita de Zaratustra, ao contrário, é bastante desenvolvida.
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81
NF/FP 1856-1857, 2 [6], 2 [9], 130-131 e 136-139
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82
NF/FP 1861-1862, 12 [20], KGW I, 2. 376-380.
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83
"A joia de Ringgraf". NF/FP 1856-1857, 2 [11], KGW I, 1. 142-145.
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84
NF/FP 1863-1864, 16 [5], KGW I, 3. 279-281.
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85
NF/FP 1864, 17 [2], KGW I, 3. 365-366.
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86
"Ao Deus desconhecido": "Tu [...] Que vagas em minha vida como o furacão". NF/FP 1864, 17 [14], KGW I, 3. 391.
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87
"Depois de uma tempestade noturna". NF/FP 1871, 15 [2], KSA 7. 391.
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88
NF/FP 1859, 6 [37], KGW I, 2. 63-64.
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89
"Uma tempestade". NF/FP 1858, 4 [9], KGW I, 1. 220-221.
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90
NF/FP 1861-1862, 12 [17], KGW I, 2. 354-355, § 1.
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91
NF/FP 1862, 13 [21], KGW I, 2. 462-463, poema 8.
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92
NF/FP 1856-1857, 2 [12], KGW I, 1. 145-146; NF/FP 1859, 6 [53], KGW I, 2. 74-76 (estranha oração a Wotan em prosimetria, que parece ser a transcrição de uma cerimônia pagã que ambos teriam executado na floresta, de acordo com o testemunho da irmã de Nietzsche).
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93
Ver especialmente NF/FP 1856-1857, 2 [15], KGW I, 1. 148 (fragmento ambíguo); NF/FP 1857, 3 [10-13], KGW I, 1. 192; NF/FP 1858, 4 [9] ("Ao entardecer"), 4 [20] ("Glória ao Senhor, graças ao Senhor..."), 4 [23] ("Jesus Cristo"), 4 [49] ("O Domingo de Ramos"), 4 [51] ("Ao ar livre"), KGW I, 1. 226, 239, 240, 258-259; NF/FP 1859, 6 [19], KGW I, 2. 54 ("Próximo e distante"); NF/FP 1860-1861, 9 [2], KGW I, 2. 220 ("Canto de penitência"); NF/FP 1862, 13 [21], KGW I, 2. 460-461 ("Tu chamaste: eu me apresso, Senhor"); NF/FP 1864, 17 [2] ("Em raios dispersos e incertos brilha..."); 17 [3-4] ("Getsêmani e Gólgota"); 17 [14] ("Ao deus desconhecido"), KGW I, 3. 365-370 e 391.
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94
NF/FP 1863, 15 [1], KGW I, 3. 109-112.
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Brincadeira, riso e vingança, § 38. "A piedosa Beppa" nos Cantos do príncipe Aiglefin; a "Conversa com os reis" do Livro IV de Assim falou Zaratustra; nos "Sete pequenos ditos femininos" de Além do bem e do mal (IV, § 140); nos Ditirambos de Dionísio; em certos fragmentos do outono de 1884, como os NF/FP 1884, 28 [22] ("Os cansados do mundo"), 28 [53] ("Novo Testamento"), e 28 [66] ("Amigo Yorick, seja corajoso!"), KSA 11. 307-308, 321 e 331; nos fragmentos do verão de 1888, como os NF/FP 1888, 20 [17], 20 [28], 20 [37], 20 [89], 20 [135], KSA 13. 551, 553, 555, 565, 571-572.
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96
“Aus dem Geiste der Musik”.
