Resumo
Os objetivos deste artigo são investigar as articulações entre a agroecologia e a educação em estudos brasileiros, da primeira publicação encontrada até o ano de 2020, bem como compreender a extensão das pesquisas que promovem essa articulação no país. Para tal, realizou-se uma revisão sistemática e os resultados foram organizados em diferentes eixos, que representam níveis e modalidades da educação nos quais as articulações foram encontradas, e subeixos, que representam enfoques, temas e práticas dessa articulação. Também, identificou-se que, ao longo dos anos, houve um aumento das publicações que articulam a agroecologia e educação no Brasil, embora de forma assimétrica entre as regiões do país. Além disso, observou-se que a demanda por espaços educacionais, nessa interseção, está em crescimento, refletindo uma tendência confirmada pela literatura. Por fim, este estudo recomenda novas investigações para ampliar a compreensão dessa articulação, incluindo a análise de publicações em outras bases de dados e idiomas.
Palavras-chave:
agroecologia e educação; educação básica; educação do campo; educação ambiental.
Abstract
The objectives of this study are to investigate the articulations between agroecology and education in Brazilian studies from the first publication that has been found up until the year 2020, as well as to understand the extent of research promoting this articulation in the country. A systematic review was conducted, and the results were organized into different axes, which represent levels and modalities of education where these articulations were found, and sub-axes, which represent approaches, themes, and practices of this articulation. It was also identified that, over the years, there has been an increase in publications articulating agroecology and education in Brazil, albeit asymmetrically between regions of the country. Furthermore, it was observed that the demand for educational spaces at this intersection is growing, which reflects a trend confirmed by the literature. Finally, this study recommends new investigations to broaden the understanding of this articulation, including the analysis of publications in other databases and languages.
Keywords:
agroecology and education; basic education; rural education; environmental education.
Introdução
Compreender o conceito de agroecologia torna-se simples quando o contrastamos com a agricultura convencional. A agricultura convencional é um modelo que surgiu durante a Revolução Verde, quando a transformação artificial dos ecossistemas alcançou níveis extremos. Petersen, Weid e Fernanders (2009, p. 1-2) destacam como esse paradigma científico-tecnológico da segunda metade do século XX se espalhou globalmente, abrangendo seis práticas fundamentais: “[...] as monoculturas, o revolvimento intensivo dos solos, o uso de fertilizantes sintéticos, o controle químico de pragas e doenças, a irrigação e a manipulação dos genomas de plantas e animais domésticos. [...]”. Ou seja, a agricultura convencional não respeita o tempo natural do solo, das plantas, das frutas e da colheita, buscando, sempre, a alta produtividade e o lucro.
Em contraste com esse modelo de agricultura uniforme e predatório, que não considera a qualidade do solo, dos alimentos e da saúde dos consumidores (Primavesi, 2016), existem alternativas com diversas denominações, como a agricultura orgânica, ecológica e agroecológica. De maneira geral, essas alternativas compartilham o objetivo de promover práticas agrícolas mais sustentáveis, sem o uso de agrotóxicos ou sementes modificadas, embora cada uma possua particularidades filosóficas e técnicas distintas.
A agroecologia aspira reduzir os impactos socioambientais e econômicos resultantes da Revolução Verde (Rosset et al., 2014). Frequentemente confundida com a agricultura orgânica, a agroecologia possui uma característica distinta, pois ser orgânica é apenas um dos seus princípios, e não seu objetivo final. A Agricultura Orgânica, por exemplo, embora produza alimentos sem insumos agrícolas, pode ser vista como uma “[...] agricultura empobrecida e desprotegida, cujos agricultores não têm ou não tiveram acesso aos insumos modernos devido a restrições econômicas, falta de informação ou ausência de políticas públicas adequadas” (Caporal; Costabeber, 2004, p. 9). Segundo os autores, a agroecologia não se limita a ser uma forma de agricultura que evita o uso de insumos agrícolas em sua produção. Seu significado mais abrangente revela seu potencial multidimensional.
O enfoque agroecológico, ao mesmo tempo em que oferece uma perspectiva ecológica e técnica sobre o agroecossistema, também é uma ciência que contempla a necessidade de gerar conhecimento de maneira sistêmica (Sevilla Guzmán, 2001). Assim, esse enfoque, além de ser um modelo alternativo de cultivo, se compromete a promover a inclusão social e a melhorar as condições de vida dos agricultores. Ao compreender o funcionamento e as complexidades dos agroecossistemas, com o princípio de conservar e expandir a biodiversidade (Rosset et al., 2014), a agroecologia integra, de forma multidimensional, diversas estratégias de ação e trabalho.
Wezel et al. (2009) apresentam um panorama histórico da agroecologia e afirmam que ela surgiu como uma disciplina científica entre os anos 1930 e 1960, embora não sob a denominação específica. Ou seja, o conceito científico de agroecologia já era compreendido, de várias maneiras, por meio do estudo e da integração da agricultura com a ecologia. No entanto, essas abordagens científicas não seguiam necessariamente os princípios fundamentais e os ensinamentos da agroecologia (Caporal; Costabeber, 2004). Esses princípios e ensinamentos começaram a se concretizar a partir da década de 1970, quando a agroecologia se estabeleceu no meio acadêmico.
Além da dimensão científica da agroecologia, foram incorporados movimentos e práticas que já existiam, mas que ainda não eram considerados agroecológicos por não estarem alinhados com o enfoque científico. Os movimentos socioculturais e políticos da agroecologia podem ser descritos como uma busca pela melhoria da qualidade de vida de grupos e indivíduos, representando a luta ambientalista (Prates Junior; Custódio; Gomes, 2015; Toledo, 2011). As práticas agroecológicas são reconhecidas como tão antigas quanto a própria agricultura (Embrapa, 2006) e contribuem para a manutenção da agrobiodiversidade por meio do manejo do solo (Wezel et al., 2009). De acordo com esse autores, os movimentos e as práticas agroecológicas variam conforme as particularidades de cada país.
Portanto, a disciplina científica da agroecologia ultrapassa os limites institucionais da ciência ao abordar questões populares como as relações sociais de produção e segurança alimentar (Gomes, 2005). A agroecologia é, portanto, também uma questão política.
No Brasil, as práticas agroecológicas baseiam-se na “[...] pequena propriedade, na força de trabalho familiar, em sistemas produtivos complexos e variados, adaptados às condições locais e integrados a redes regionais de produção e distribuição de alimentos” (Sousa, 2017, p. 98).
Paralelamente à dimensão prática da agroecologia, está o movimento agroecológico, representado pelos movimentos sociais do campo, como o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) (Mello, 2006). A luta pela democratização do acesso à terra (reforma agrária) é a principal questão desses movimentos, mas não a única. A inclusão da soberania alimentar em suas agendas levou a agroecologia a ser adotada como princípio para o trabalho no campo (Abreu; Bellon; Torres, 2016). Assim, os movimentos sociais desempenham um papel significativo no processo de transição agroecológica no Brasil, promovendo a produção em larga escala e articulando a agroecologia com outras esferas como a política, social, ambiental e educacional, que serão discutidas adiante.
Tendo em vista as três dimensões da agroecologia, a científica, do movimento e da prática, e sua expansão no campo brasileiro, passou a surgir a demanda pela ocupação de espaços pedagógicos, que contemplassem a formação de camponeses, com o objetivo inicial de formar profissionais para atuar nos movimentos sociais, através da educação popular e da formação técnica (Sousa, 2017) e, posteriormente, no ensino superior.
Segundo Ribeiro, Ferreira e Noronha (2007, p. 260), a agroecologia e a educação do campo, enquanto práticas pedagógicas, são baseadas em um modelo alternativo de produção e socialização de conhecimentos, e sua articulação se “[...] apresenta como primordial para a construção de uma educação libertadora, proporcionando aos camponeses e camponesas uma melhor qualidade de vida”. Nesse propósito, destacam-se as políticas públicas da educação do campo, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), e sua importância na promoção da formação técnica em agroecologia nos assentamentos (Garcia Hernandez; Araujo, 2010).
O diálogo entre agroecologia e educação no Brasil tem se expandido continuamente, a cada ano. A inserção dos cursos de agroecologia nas universidades, escolas e eventos ocorreu, principalmente, nos anos 2000 (Balla; Massukado; Pimentel, 2014). De acordo com os autores, os cursos superiores em agroecologia visam “[...] preparar os educandos para atuarem junto aos agricultores na construção de racionalidades ecológicas a partir dos modos de produção camponesas” (Balla; Massukado; Pimentel, 2014, p. 4). Quanto às escolas, a agroecologia se apresenta como um diferencial na construção de racionalidades contra hegemônicas e ecológicas.
Assim, a institucionalização dos cursos de agroecologia no sistema educacional brasileiro é crucial para o progresso da ciência, bem como para o desenvolvimento das técnicas e a transição agroecológica em nosso território. Além disso, desempenha, também, um papel no avanço pedagógico da educação, através do desenvolvimento de práticas pedagógicas que desafiem a racionalidade hegemônica por diversos caminhos - epistemológico, ecológico, técnico, social, econômico, histórico etc. Balla, Massukado e Pimentel (2014) identificaram, em sua pesquisa, a existência de cento e trinta e seis cursos no país, dos quais cento e oito são técnicos, vinte e quatro são de graduação, incluindo bacharelados e cursos tecnológicos, e quatro são de pós-graduação stricto sensu, sendo três de mestrado e um de doutorado.
Percebe-se, portanto, que a educação ocupa um papel importante na articulação da agroecologia no Brasil, e vice-versa. A educação contribui para a estruturação e a difusão de um conhecimento urgente para a sociedade ocidentalizada, visando construir possibilidades de um mundo mais diverso e saudável. A agroecologia, por sua vez, em sua multidimensionalidade, mostra-se como um grande potencial pedagógico por abordar, de forma integrada, os âmbitos científico, social, histórico, econômico, cultural e espiritual.
Nesse contexto, esta pesquisa tem como objetivos compreender como ocorrem as articulações entre a agroecologia e a educação em pesquisas e práticas no contexto educacional brasileiro e compreender a abrangência das investigações que promovem essa articulação no Brasil.
Metodologia
Este estudo foi conduzido por meio de uma revisão bibliográfica sistemática, que visa compilar, avaliar e sintetizar os resultados de diversas publicações (Cordeiro et al., 2007). Para isso, foi empregado o fluxograma PRISMA, que estabelece diferentes fases para a revisão (Moher et al., 2009).
O método PRISMA foi utilizado de forma adaptada, e para essa revisão foi dividido em três etapas. A primeira etapa do método PRISMA (Moher et al., 2009) é a identificação, que conta com a escolha da base de dados e identificação das publicações sobre o tema; a segunda etapa inclui a seleção das publicações, orientada por critérios de inclusão e exclusão, escolhidos pela pesquisadora; a terceira etapa de elegibilidade se resume no estudo qualitativo das publicações incluídas.
Na etapa de identificação, elegeu-se a base de dados para o desenvolvimento da pesquisa, no caso, o Portal de Periódicos da Capes, com recorte para publicações brasileiras, em português, contendo os descritores Agroecologia e Educação no título ou no assunto, com intervalo de investigação compreendendo desde a primeira publicação encontrada até o ano de 2020.
Na etapa de seleção, o critério de inclusão contemplou a existência de intersecções entre agroecologia e educação nos textos analisados, possibilitando ampliar a diversidade de referências para a posterior categorização. Por isso, a análise abrangeu tanto publicações em periódicos quanto em livros e anais de congressos e eventos da área. Com base na leitura dos títulos, palavras-chave e resumos, foram excluídas as publicações que mencionavam agroecologia e educação, mas não faziam a conexão entre os dois temas, bem como publicações em idiomas estrangeiros ou textos duplicados. Essa metodologia também pode ser visualizada no fluxograma na figura 1.
Após essa definição prévia, todos os textos remanescentes foram lidos na íntegra. Ao revisar cada artigo, foram organizadas as informações relevantes para a pesquisa em uma planilha. Essa planilha incluía os títulos, autores, anos de publicação e a categorização, realizada com base no agrupamento qualitativo das características comuns entre os diferentes textos. Como resultado deste trabalho, as formas de articulação da agroecologia com a educação, objetivo desta pesquisa, foram organizadas em eixos e subeixos.
Resultados e discussões
Das 462 publicações encontradas a partir do lançamento dos descritores e da equação de busca descrita acima e após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão mencionados, 28 foram escolhidas para leitura completa, análise e sistematização. A organização dos resultados identificou que a articulação entre agroecologia e educação se dá de forma interseccional nos casos analisados, o que justifica a categorização dos dados em eixos e subeixos.
Para os propósitos deste trabalho, o eixo identifica o chão em que pisam as diferentes articulações entre agroecologia e educação, ou seja, representa os níveis/modalidades de educação nos quais essas articulações foram encontradas. No que tange a esta pesquisa, os três eixos da articulação entre agroecologia e educação, são: Educação Básica e Agroecologia; Educação do Campo e Agroecologia e Cursos de Formação e Agroecologia.
Os subeixos, contidos dentro de cada eixo, foram compostos por enfoques, temas e práticas de educação abordados pelas publicações revisadas. A categoria dos subeixos abarca particularidades, além de ilustrar experiências, pesquisas e raciocínios compartilhados entre as publicações, estabelecendo conexões mais específicas entre elas. Os dez subeixos da articulação da agroecologia com a educação gerados por esta pesquisa foram: Construção do conhecimento agroecológico; Curso técnico; Educação ambiental; Educação popular; Ensino técnico; Hortas agroecológicas; Institucionalização; Movimentos sociais; Práticas agroecológicas; Projeto de extensão.
A organização entre eixos, subeixos e publicações pode ser observada no quadro 1.
O eixo Educação Básica e Agroecologia compreende os textos em que a articulação entre a agroecologia e a educação se deu no âmbito da educação básica. Nesse caso, essa articulação foi identificada por meio de várias temáticas, o que é possibilitado pela vocação interdisciplinar da agroecologia. Muitas das publicações analisadas (Cunha, 2015; Duarte; Silva, 2009; Oliveira; Vasconcelos, 2016; Santos et al., 2014; Silva et al., 2015; Vargas et al., 2012); ressaltaram a interdisciplinaridade da agroecologia como uma característica valiosa para a educação básica, pois possibilita a comunicação com todas as disciplinas e o ensino de forma teórico-prática. Esse aspecto foi salientado, sobretudo, nos textos do subeixo das Hortas Agroecológicas, que tem o maior número de artigos do eixo Educação Básica e Agroecologia e destacam as hortas como laboratórios vivos para as matérias escolares. Em um dos estudos, Cunha (2015) apresentou um panorama das hortas agroecológicas em escolas de vários países da América Latina e constatou que as abordagens relacionadas a essa prática oferecem diversas potencialidades, como a dinamização do currículo, a educação ambiental, a segurança alimentar e nutricional e a conexão entre soberania alimentar e agroecologia. Essas potencialidades demonstram que o uso pedagógico de hortas agroecológicas na educação básica pode ir muito além do tradicional aprender a plantar e comer o que plantou, típico de práticas nessa área.
Já o subeixo Práticas Agroecológicas se baseia no desenvolvimento de práticas agroecológicas participativas, buscando integração e envolvimento dos estudantes (Duarte; Silva, 2009), ou no desenvolvimento de oficinas pontuais dentro dos espaços formais, com a realização da oficina de plantas medicinais (Vargas et al., 2012).
A Construção do Conhecimento Agroecológico é um subeixo que aparece tanto em publicações do eixo Educação Básica e Agroecologia, quanto no eixo Educação do campo e Agroecologia. Esse subeixo reúne as publicações que deram o enfoque na metodologia para o ensino da agroecologia, seja dentro ou fora da escola. Um exemplo disso é o uso das metodologias participativas, como aparece na publicação de Souza e Santos (2016). Já Silva (2017), em sua publicação, analisa a produção do conhecimento agroecológico considerando diferentes níveis e modalidades de aprendizagem, no âmbito das escolas de campo e dos movimentos sociais.
Educação Ambiental é um subeixo de convergência entre os eixos da Educação básica e Agroecologia e Educação do Campo e Agroecologia, evidenciando que, em ambos os níveis e modalidades do ensino formal, a agroecologia é utilizada como tema pedagógico para promover a educação ambiental. Carvalho (2001) explora as possibilidades da educação ambiental na extensão rural e destaca a possível ingenuidade e conservadorismo da educação ambiental, uma perspectiva também abordada por Silva et al. (2015), que apontam que, apesar das boas intenções, as hortas escolares podem, às vezes, reforçar discursos dominantes. No entanto, a agroecologia, aliada à educação ambiental, tem o potencial de politizar o debate e as práticas, introduzindo questões agrárias e sociais, e proporcionando uma análise crítica da realidade. Esse entrelaçamento da educação ambiental com ambos os eixos é perceptível nas semelhanças entre as diretrizes para a educação nas escolas do MST e as teorias da educação ambiental crítica (Guimarães, 2004) e popular (Carvalho, 2001).
Uma característica bem conhecida no campo da articulação entre educação e agroecologia é sua estreita conexão com a educação do campo. Isso se deve às bases epistemológicas, teóricas e práticas da educação do campo, que geram muitos movimentos e pesquisas em agroecologia. Essa é, provavelmente, a razão pela qual há muitos trabalhos relacionados a esse contexto, o que levou à criação do eixo Educação do Campo e Agroecologia.
Nesse cenário, a luta dos movimentos sociais (um subeixo de referência nesse universo), como o Movimento Sem Terra, incorpora a agroecologia como uma forma de produção e organização produtiva (Bogo; Bogo, 2019). No Boletim da Educação (1994), número 4, intitulado Escola, Trabalho e Cooperação, é apresentado o potencial pedagógico do trabalho como base para a educação nas escolas do movimento - uma teoria que também é válida no subeixo da Educação Popular, que explora as possibilidades de organização social da classe trabalhadora. Nessa articulação, os movimentos sociais, enquanto práticas sociopolíticas e culturais que formam sujeitos coletivos, possuem uma dimensão educativa, ao elaborarem um repertório de ações coletivas que buscam concretizar seus projetos de vida melhor e mais saudável (Silva, 2006).
O subeixo da Educação Popular engloba a publicação de Andrioli (2009), que se dedica a falar do movimento agroecológico como espaço de educação popular para a agricultura familiar; de Vieira et al. (2018), que abordam sobre um projeto de educação para agricultoras no município de Itajaí (SC), visando o empoderamento feminino, de Duarte e Rabelo (2016) que apresentam, mais diretamente, a articulação entre a agroecologia e a educação popular enquanto estratégia educativa; e de Zanelli e Silva (2017), que articulam a educação do campo e agroecologia através da caracterização da dinâmica de formação dos agricultores na zona da mata mineira.
O subeixo Ensino técnico contém apenas uma publicação dentre as 28, que aborda uma experiência do ensino técnico em agroecologia na Escola Família Agrícola (EFA) em Acaiaca (MG), onde Vieira e Machado (2007) refletem sobre a formação dos estudantes através das vivências agroecológicas, destacando a construção da autonomia como um potencial pedagógico. As EFA são centros de formação que atendem, especialmente, a filhos de agricultores familiares, por meio da pedagogia da alternância (Freitas, 2018). Apesar de encontrada apenas uma publicação que articulasse a agroecologia com as EFA, deve-se reconhecer a importância pedagógica dessas escolas para a educação do campo e para o ensino da agroecologia, visto que essa interface “[...] pressupõe a transformação da realidade, levando em consideração um novo projeto de desenvolvimento do campo que rompa com a lógica da monocultura, do latifúndio e das demais formas de exclusão” (Ribeiro; Ferreira; Noronha, 2007, p. 260).
Ao analisar as publicações no eixo Educação do Campo e Agroecologia, uma questão que chamou a atenção foi a ausência de estudos que articulem a agroecologia com a Educação Quilombola e Indígena, e com políticas públicas de educação do campo, como a Política Nacional de Educação do Campo, o Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação do Campo e o Pronera. Esse cenário demonstra uma lacuna que pode ser preenchida por futuras investigações.
O eixo Cursos de Formação e Agroecologia agrupa textos cujos enfoques se dão em cursos de formação. Esse eixo engloba os subeixos Projeto de Extensão (textos que trazem a articulação entre agroecologia e educação por meio de projetos de extensão universitária), Curso técnico (textos nos quais essa articulação se dá por meio de cursos técnicos), e Institucionalização (textos nos quais a articulação ocorre através da institucionalização dos cursos de agroecologia no ensino formal. Sousa (2017, p. 639), por exemplo, afirma que, desde 2002, foram criados “[...] dezenas de cursos de ensino médio profissionalizante em agroecologia, além de cursos de graduação e pós-graduação reconhecidos pelo Ministério da Educação”. Como observado, os objetivos e a formação da agroecologia como bacharelado já são reconhecidos pedagogicamente, e vêm se expandindo pelo Brasil. Nesta pesquisa, não foram encontrados artigos que tratassem, especificamente, dos cursos de graduação e pós-graduação. No entanto, a maioria das publicações revisadas resulta de investigações acadêmicas, confirmando a agroecologia como uma ciência.
Para compreender a forma e a extensão das pesquisas que abordam a interação entre educação e agroecologia no Brasil, é apresentado um mapa das localidades de suas publicações (figura 2), incluindo experiências e estudos. Além disso, há dois gráficos que mostram os anos e os períodos das publicações (figura 3 e figura 4). Todas as publicações acessadas foram incluídas.
Linha do tempo da quantidade de publicações incluídas na revisão sistemática da articulação entre a agroecologia e a educação
Um estudo foi encontrado em cada um dos seguintes estados: Amapá, Alagoas, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba e Pernambuco. Na Bahia e em Santa Catarina, foram encontrados dois estudos cada. Em São Paulo, foram encontrados três estudos; no Rio Grande do Sul, quatro; e em Minas Gerais e no Paraná, cinco.
Dessa maneira, dentro do universo desta revisão, é possível observar que a tendência de publicações e práticas que articulam a agroecologia com a educação está concentrada na região Sul do país, com onze publicações, seguida pela região Sudeste (nove publicações), Nordeste (cinco publicações), Norte (duas publicações) e Centro-oeste (duas publicações), como observado na figura 3. Isso demonstra que, apesar do número reduzido de estudos, eles se encontram distribuídos pelas cinco regiões do país, o que indica um interesse pulverizado pelo tema.
O gráfico da figura 4 demonstra que a articulação da agroecologia e educação começou a representar uma importância maior no campo da pesquisa a partir de 2007, tendo o maior número de publicações no ano de 2016. Conforme os dados da pesquisa, entre 2001 e 2007, apenas uma publicação apresentou essa articulação.
Quando os trabalhos incluídos nesta pesquisa são reunidos em períodos de cinco anos, que permitem uma melhor observação de tendências (figura 5), observa-se, explicitamente, um panorama de crescimento no número de publicações que articulam a agroecologia e a educação, demonstrando, dessa maneira, que se trata de um tema emergente, reconhecido tanto no universo da agroecologia quanto no da educação. Entretanto, uma tendência que se sobressaiu vincula-se ao fato de a maior parte dos artigos publicados se encontrarem no campo da agroecologia e não da educação, destacando a agroecologia como uma área do conhecimento ainda pouco conhecida no universo educacional.
Distribuição temporal das publicações presentes na revisão sistemática da articulação entre agroecologia e educação
Conclusão
Neste trabalho, objetivou-se compreender como se dão as articulações entre a agroecologia e a educação em estudos e experiências no ambiente educacional brasileiro, bem como averiguar a abrangência das investigações que estudam essa articulação no Brasil. Para tal, foi feita uma revisão sistemática de publicações que propunham essa interseção. Nessa sistematização, as publicações que tratam das articulações entre a agroecologia e a educação foram categorizadas em eixos, que manifestam os níveis e modalidades da educação nos quais as articulações foram encontradas, e em subeixos, que representam os enfoques, temas e práticas utilizados nessas iniciativas.
Quanto ao primeiro objetivo, concluiu-se que as articulações entre a agroecologia e a educação se dão em três eixos e dez subeixos. No primeiro eixo, Educação Básica e Agroecologia, os subeixos foram compostos por Construção do Conhecimento Agroecológico, Educação Ambiental, Hortas Agroecológicas e Práticas Agroecológicas. No segundo eixo, Educação do Campo e Agroecologia, os subeixos foram constituídos por Educação Ambiental, Construção do Conhecimento Agroecológico, Movimentos sociais, Educação Popular e Ensino Técnico. No terceiro eixo, Cursos de formação e Agroecologia, os subeixos formados foram Curso Técnico, Projetos de Extensão e Institucionalização.
Os resultados também demonstram que os enfoques, temas e práticas que articulam a agroecologia e a educação mudam significativamente de acordo com os diferentes níveis e modalidades da educação em que a agroecologia é realizada, apesar da ocorrência de algumas sobreposições, o que demonstra o seu potencial para atender aos interesses e às necessidades pedagógicas em diferentes espaços da educação formal, por caminhos epistemológicos, ecológicos, técnicos, sociológicos, econômicos e históricos. Além disso, essa revisão apontou para a necessidade de mais estudos que articulem a agroecologia com cursos de graduação e pós-graduação, com a educação quilombola e indígena e com as políticas públicas de educação do campo, áreas estas que já estão relativamente consolidadas no campo da agroecologia.
Quanto ao segundo objetivo, concluiu-se que a abrangência dos estudos sobre a articulação da agroecologia com a educação no território brasileiro aumentou ao longo dos anos. Embora as publicações e práticas analisadas nesta revisão não estejam presentes em todos os estados do Brasil, foram encontradas, ainda que assimetricamente, em todas as regiões do país. Além disso, conclui-se que a demanda pela ocupação de espaços pedagógicos na agroecologia e seu diálogo com a educação está em crescimento, corroborando o disposto na literatura.
Por fim, este estudo recomenda a realização de novas investigações que busquem a articulação entre a agroecologia e a educação, com a finalidade de incorporar, por exemplo, resultados de publicações presentes em outras bases de dados e escritas em outras línguas, complementando, dessa forma, os resultados aqui expostos.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados da pesquisa estão incluídos no próprio texto do manuscrito.
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Editor:https://orcid.org/0000-0002-5018-3621 Roberto Nardi






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