Open-access Questões Sociocientíficas e a localidade: contribuições de Milton Santos para uma visão relacional

Socio-scientific issues and locality: Milton Santos’s contributions to a relational vision

Resumo:

Analisamos as contribuições da concepção de espaço geográfico de Milton Santos para a natureza epistêmica das Questões Sociocientíficas (QSC), contextualizando algumas de suas categorias para aprofundar a compreensão da não neutralidade das QSC sob uma perspectiva espaço-temporal. Ao mesmo tempo, dialogamos com trabalhos que sugerem a contextualização crítica das QSC no cenário educacional brasileiro e problematizamos sua relação com a localidade no contexto da globalização. Como resultado, apresentamos argumentos sobre a importância de uma visão relacional e sistêmica das Questões Sociocientíficas, fornecendo subsídios tanto para a ressignificação das dimensões local e global nessa perspectiva, como para a educação científica e tecnológica em geral. Com essas considerações, espera-se contribuir para o movimento de construção de um referencial latino-americano em QSC com caráter emancipatório.

Palavras-chave:
questões sociocientíficas; espaço geográfico; Milton Santos; educação científica; educação tecnológica

Abstract:

We analyze the contributions of Milton Santos’ conception of geographical space to the epistemic nature of Socio-scientific Issues (SSI), contextualizing some of its categories to deepen our understanding of the non-neutrality of SSI from a space-temporal perspective. Based on this theoretical foundation, we examine studies that propose critical contextualization of SSI within the Brazilian educational landscape and consider the relationship between SSI and locality in the context of globalization. The analysis results in arguments being presented on the importance of a relational and systemic perspective on socio-scientific issues. This approach supports the reinterpretation of local and global dimensions within this framework. Furthermore, it provides support for scientific and technological education in general. Taking these considerations into account, we aim to contribute to the construction of a Latin American SSI framework with an emancipatory character.

Keywords:
socio-scientific issues; geographical space; Milton Santos; scientific education; technological education

Introdução

Diante da dinâmica social contemporânea, cada vez mais baseada na Ciência, Tecnologia e Informação, ganham espaço na pesquisa em Educação em Ciências no Brasil propostas preocupadas com uma educação científica e tecnológica que possibilite aos educandos melhor compreender e intervir nesse contexto, a exemplo dos estudos no campo da Educação, Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA) (Santos; Auler, 2011; Teixeira, 2020) e das Questões Sociocientíficas (QSC) (Carvalho; Carvalho, 2012; Conrado; Nunes-Neto, 2018). Com abordagens mais ou menos críticas, isto é, preocupadas com a superação de situações de injustiça e com a transformação social, tais pesquisas argumentam sobre a importância de compreender tanto os conceitos científicos, quanto elementos da natureza da Ciência e suas relações com o contexto social, político e econômico.

No bojo dessas discussões, encontramos a preocupação com a natureza das situações propostas para análise em sala de aula. No campo das Questões Sociocientíficas. em particular, entende-se que o contexto abordado é especialmente importante (Högström et al., 2024). Ao discutir o desenvolvimento da argumentação sobre QSC, Simmoneaux (2007, p. 184, tradução nossa) destaca o seguinte:

Uma questão a ser levada em conta ao construir um debate em sala de aula é a escolha do contexto. Colocar os alunos em contextos específicos, por exemplo, uma empresa, uma vila ou uma escola, os encoraja a tomar uma posição, o que seria mais difícil em um problema abstrato descontextualizado. O contexto pode ser local ou global, autêntico ou quase autêntico (fictício, mas potencialmente real).

Sendo assim, diferentes pesquisadores, internacionais e nacionais, têm buscado caracterizar a natureza das QSC e fornecer encaminhamentos para a sua abordagem, conforme analisado por Sousa (2021).

A respeito da relação das Questões Sociocientíficas com a localidade, no Brasil alguns estudos têm sinalizado para a importância de se abordar questões próximas dos alunos, valorizando não apenas a relevância atribuída pelo professor à determinada questão, mas também a percepção dos estudantes sobre ela (Lopes; Carvalho; Faria, 2013). Fala-se em uma natureza espaço-temporal das Questões Sociocientíficas que necessita ser considerada no processo educativo (Sousa, 2015, 2021) e argumenta-se que a discussão de QSC mobiliza aspectos culturais, valorativos, políticos, econômicos, filosóficos, psicológicos, históricos e ontológicos que demandam uma abordagem contextualizada (Silva, 2016).

Estudos colombianos sugerem, ainda, a abordagem de QSC ligadas com problemáticas globais-locais (Martínez-Pérez; Lozano; Barragán, 2016) e propõem a abordagem de Cuestiones Sociocientificas Locales (CSCL) (Ramírez; Martínez-Pérez, 2014). Recentemente, trabalhos estadunidenses têm discutido a abordagem de Questões Sociocientíficas Baseadas no Local (Place-based Socioscientific Issues), argumentando sobre como o lugar geográfico e a cultura influenciam na discussão de QSC e como experiências socioculturais imersivas favorecem o engajamento dos estudantes para a transformação do mundo em que vivem (Herman; Newton; Zeidler, 2020; Zeidler; Herman; Sadler, 2019).

Diante desse cenário, cabe problematizar: o que define o local em um mundo globalizado? Quais as suas fronteiras? Qual a relação entre o local e o global na abordagem de Questões Sociocientíficas na dinâmica social contemporânea? Nesse sentido, com o intuito de colaborar com a proposição de fundamentos teórico-metodológicos para um referencial latino-americano sobre QSC, são apresentados elementos da concepção de espaço geográfico de Milton Santos e suas contribuições para uma compreensão dialética das dimensões local e global na educação científica e tecnológica e, em particular, na abordagem de QSC. Com isso, espera-se aprofundar a compreensão de não neutralidade das QSC sob uma perspectiva espaço-temporal e problematizar a relação das QSC com a localidade no contexto da globalização.

A visão contextual das Questões Sociocientíficas

As Questões Sociocientíficas podem ser compreendidas como questões controversas, fundamentadas em noções científicas, mas com implicações em outros campos (sociais, éticos, políticos, ambientais etc.), e que necessitam de raciocínio moral ou avaliação de aspectos éticos em sua discussão (Jiménez-Aleixandre, 2010; Simonneaux, 2007; Zeidler; Nichols, 2009). Zeidler e Sadler (2023), ao analisarem a conformação desta área, destacam que a abordagem de QSC também apresenta como características: (i) o uso de problemas pessoalmente relevantes, controversos e mal estruturados que exijam raciocínio científico, baseados em evidências para informar decisões sobre eles; (ii) o uso de tópicos científicos com ramificações sociais que exijam diálogo, discussão, debate e argumentação; (iii) a integração de componentes éticos implícitos e/ou explícitos que demandam raciocínio moral; e (iv) ênfase na formação do caráter como objetivo pedagógico de longo prazo.

Em Bencze et al. (2020), a abordagem de QSC é apresentada como uma das propostas que integram o movimento denominado Science in Context (SinC), ao lado da Educação CTSA e das Questões Socialmente Vivas. Isto é, são perspectivas nas quais se busca contemplar uma visão mais holística da Ciência e da Tecnologia, considerando sua relação com outros campos de conhecimento.

Nesse contexto, diante da expansão global dos estudos na área, Dana Zeidler apresenta em Bencze et al. (2020) considerações sobre a ontologia, a epistemologia e a pedagogia das QSC a partir das quais discute a sua natureza contextual. O autor argumenta sobre como os diferentes pressupostos teórico-metodológicos dos pesquisadores influenciam na compreensão que se tem desse construto e nas escolhas pedagógicas que são feitas, de modo que “[...] o corpo de pesquisa que compreende as QSC reflete um tempo, uma espécie de espírito — um Zeitgeist intelectual no qual as QSC podem ser moldadas para ‘se encaixar’ em um contexto educacional específico.” (Bencze et al., 2020, 10, tradução nossa). Considerando o crescimento da área, Dana Zeidler discute como a pesquisa sobre QSC é variada e orientada pelo contexto, com resultados que vão desde a compreensão de conceitos científicos até o engajamento cívico e o ativismo, sendo utilizada para alcançar diversos objetivos educacionais (Bencze et al., 2020).

Vale frisar que, tendo como ponto de partida as considerações de Delizoicov e Auler (2011) acerca do desenvolvimento científico-tecnológico, Sousa (2015) já sinalizava para uma compreensão espaço-temporal das Questões Sociocientíficas. Fundamentados na obra de Milton Santos e em estudos do Pensamento Latino-Americano em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PLACTS) (Dagnino, 2015), Delizoicov e Auler (2011) analisam que a não neutralidade da produção de Ciência-Tecnologia (CT ) possui relação com uma dimensão espaço-temporal, isto é, ligada tanto ao tempo histórico e a intencionalidade do sujeito epistêmico quanto à localidade em que se desenvolve. Assim, Sousa (2015) argumenta que as QSC, ao envolverem dimensões relacionadas com CT e ao constituírem ponto de partida do processo educativo, gênese do conhecimento a ser construído em sala de aula, também possuem uma dimensão espaço-temporal.

Nesse contexto, dada a origem da abordagem de QSC no hemisfério norte e o crescimento das pesquisas brasileiras nessa área, estudos indicam a necessidade de metabolização desse referencial teórico para o contexto educacional brasileiro (Santos et al., 2024; Sousa, 2021). Segundo Santos et al. (2024), em um país latino-americano como o Brasil, localizado na periferia do capitalismo, não é suficiente seguir as tendências educacionais globais sem o devido recorte contextual. Ao considerar o contexto de reforma educacional em voga no Brasil e sua aproximação das agendas neoliberais, os autores argumentam sobre a necessidade de politização das Questões Sociocientíficas, defendendo sua abordagem a partir da nossa realidade concreta e almejando uma educação científica emancipatória.

Zeidler e Sadler (2023) também alertam para o risco de que iniciativas voltadas para a Science, Technology, Engineering and Mathematics (STEM) venham a constituir um cavalo de Tróia para políticas neoliberais, desprovidas de abordagens socioculturais para a educação científica. Para os autores, o movimento SinC serve como um contraponto para tais propostas. Contudo, enfatizamos que as considerações apresentadas por Santos et al. (2024) sugerem uma leitura ainda mais radical, ou seja, uma abordagem ético-crítica, conforme advoga Sousa (2021) com base em Dussel (2007), ao estabelecer relações entre as QSC e as localidades em que ocorrem as ações educacionais.

Nesse sentido, a concepção de espaço geográfico de Milton Santos, já abordada nas análises de Delizoicov e Auler (2011) e de Sousa (2015), será complementada por meio de uma articulação com as considerações de Sousa (2021). Com base nesse autor e em outros da área, busca-se tecer uma síntese teórica com o propósito de contribuir para a construção de um referencial latino-americano sobre QSC, alinhado à necessidade de sua politização.

O espaço geográfico na obra de Milton Santos

Internacionalmente conhecido, o geógrafo brasileiro Milton Santos (1926-2001) dedicou-se à construção de fundamentos para uma teoria do conhecimento da Geografia. Com uma trajetória intelectual marcada por seus percursos espaciais (Machado, 2014), Milton Santos revitalizou seus conceitos frente à multiplicidade de vivências oriundas dos distintos espaços-tempo em que pôde se dedicar, entre outros aspectos, à ontologia do espaço geográfico, sustentando sua obra por categorias analíticas diversas, a exemplo de: paisagem, rugosidade, forma-conteúdo, região e lugar, técnica, ação, objeto, totalidade, entre outras (Campos, 2008).

Ao considerar esta dinâmica da produção do autor, mesmo ao se subsidiar, principalmente, na argumentação contida em A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção (Santos, 2017a), publicada pela primeira vez em 1996, recorremos no presente artigo a outras obras de modo a tecer nossas considerações a respeito das suas contribuições para a abordagem das Questões Sociocientíficas. Para isso, nos itens a seguir discorreremos sobre: (a) a natureza social do espaço geográfico e sua relação com a temporalidade; (b) o espaço enquanto sistemas de objetos e sistemas de ações; (c) a ressignificação dos sistemas de objetos e sistemas de ações no meio técnico-científico-informacional; (d) a visão sistêmica e não dicotômica das dimensões local e global no meio técnico-científico-informacional.

a. A natureza social do espaço e sua relação com a temporalidade

Como parte dos seus estudos, Milton Santos argumentou sobre a importância na Geografia Social da relação entre o espaço e a sociedade, evidenciando que o espaço geográfico, mais do que um território, um teatro das ações humanas, exprime relações sociais (Santos, 2004). Para o autor, “[...] o espaço não pode ser apenas formado pelas coisas, os objetos geográficos, naturais e artificiais, cujo conjunto nos dá a Natureza. O espaço é tudo isso, mais a sociedade: cada fração da natureza abriga uma fração da sociedade atual.” (Santos, 2014b, p. 12).

Milton Santos também apresenta a articulação entre as noções de tempo e espaço, sinalizando que “Para compreender uma qualquer situação, necessitamos de um enfoque espaço-temporal” (Santos, 2004, p. 252). No contexto da análise dos fenômenos geográficos, aprofunda essa compreensão utilizando a categoria “técnica” como elemento unificador. Aqui, salientamos que os conceitos de Técnica e Tecnologia não são sinônimos para o autor, conforme explicita Sousa (2021). Segundo a autora, com base na obra de Milton Santos, podemos compreender as técnicas como os meios instrumentais por meio dos quais o ser humano interage com o mundo e Tecnologia como a ciência das forças produtivas, um campo do conhecimento subordinado a questões econômicas, políticas e ideológicas. Assim, “A tecnologia se transforma em história por intermédio das técnicas e as técnicas são o intermediário entre o grupo humano e a natureza, com o objetivo de modificá-la” (Santos, 2004, p. 137).

Ademais, é necessário explicitar que neste artigo também são analisados textos da obra de Milton Santos nos quais há uma ênfase na discussão da categoria técnica. No entanto, considerando seu imbricamento com a Tecnologia, especialmente no contexto atual, entende-se que as discussões irão aproximá-las ao se pensar na reinterpretação dos escritos do autor para o âmbito da educação científica e tecnológica. Apesar do risco epistemológico da ambiguidade desses conceitos nas ciências sociais, já denunciada por Milton Santos, compreende-se que não haverá prejuízos para a argumentação que se pretende construir.

Para Milton Santos (Santos, 2017a), a técnica é um elemento importante para a explicação da sociedade e dos lugares, mas apenas se for considerado o seu valor relativo em um sistema da realidade1. O autor também entende que a análise do fenômeno técnico transcende a ênfase na presença de objetos sobre o território, envolvendo a forma como as técnicas agem sobre ele o transformam. Por isso, ele argumenta a favor da necessidade de abordar a técnica como base para a explicação geográfica, considerando-a um meio.

Segundo o autor (Santos, 2017a), as noções de técnica e meio são inseparáveis, pois cada objeto é apropriado de modo específico pelo espaço preexistente. Dessa forma, os objetos técnicos devem ser estudados juntamente com seu entorno. Ele salienta, ainda, que a difusão dos objetos técnicos não ocorre de maneira uniforme, inserindo-se de forma desigual na história e no território, ou seja, no tempo e no espaço. Assim, embora o espaço seja formado por objetos, “é o espaço que determina os objetos: o espaço visto como um conjunto de objetos organizados segundo uma lógica e utilizados (acionados) segundo uma lógica” (Santos, 2017a, p. 40).

Santos (2017a, p. 48) também entende que, “através do objeto, a técnica é história no momento da sua criação e no de sua instalação e revela o encontro, em cada lugar, das condições históricas (econômicas, socioculturais, políticas, geográficas), que permitiram a chegada desses objetos e presidiram à sua operação”. Ao argumentar que a técnica possui uma relação com o tempo e o espaço que transcende uma compreensão histórica que percebe o espaço apenas como receptáculo, o autor utiliza essa categoria para evidenciar a unidade entre tempo e espaço. Para ele, “a técnica nos ajuda a historicizar, isto é, a considerar o espaço como fenómeno histórico a geografizar, isto é, a produzir uma geografia como ciência histórica.” (Santos, 2017a, p. 49).

É importante enfatizar que para Milton Santos (2017a) as técnicas possuem tanto uma idade científica, relacionada ao período da sua concepção, quanto uma idade histórica relacionada com o momento em que é incorporada à vida de uma sociedade. Desse modo, a técnica pode ter sua história particular do ponto de vista mundial, nacional ou local, tendo sua idade histórica atribuída pelo lugar. Assim, os lugares redefinem as técnicas e estas modificam também os valores preexistentes, de modo que todos os objetos e ações ganham uma significação relativa em uma espécie de tempo espacial. Portanto, o espaço geográfico é indissociável do tempo e para compreender qualquer situação necessitamos de um enfoque espaço-temporal (Santos, 2004). Destaca-se que, para Milton Santos (Santos, 1996), na Geografia não estamos falando do tempo como sucessão, histórico, mas do tempo enquanto simultaneidade, pois não há espaço em que o uso do tempo seja o mesmo para todos.

Note-se aqui a presença de fundamentos teóricos a respeito da relação dialética estabelecida entre as técnicas e os lugares. O autor sinaliza que as técnicas influenciam e são influenciadas pelos lugares, possuindo uma dimensão espaço-temporal. Embora Delizoicov e Auler (2011) não tenham aprofundado a categoria “técnica”, com base na natureza social do espaço apresentada por Milton Santos os autores destacam suas contribuições para examinar a relação da não neutralidade da Ciência-Tecnologia com o espaço-tempo no qual ela se desenvolve. A compreensão apresentada por Milton Santos acerca da difusão e apropriação dos objetos técnicos, e também analisada por Delizoicov e Auler (2011), pode ser utilizada como base para uma melhor compreensão da natureza epistêmica das QSC, conforme será argumentado.

b. O espaço enquanto sistemas de objetos e sistemas de ações

Segundo Santos (1996, 2017a), o espaço é o conjunto indissociável de sistemas de objetos, naturais ou fabricados, e sistemas de ações, deliberadas ou não, que se articulam dialeticamente. Considerando a compreensão de objetos enquanto artefatos resultantes da criação humana e a compreensão de coisa como produto de uma elaboração natural, para o entendimento da noção de sistemas de objetos, é importante considerar que, para Milton Santos, cada vez mais os objetos tomam o lugar das coisas, pois “no princípio, tudo eram coisas, quanto hoje tudo tende a ser objeto, já que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também, a ser objetos” (Santos, 2017a, p. 65).

Santos (2017a) também enfatiza que os objetos não se restringem ao seu local de criação, de modo que tendem a se reproduzir e difundir, sendo esse processo condicionado por questões sociais e técnicas. Neste sentido, aborda a noção de sistemas de objetos, por compreender que os objetos não existem em si mesmos, estando imersos em um sistema, de modo que aos geógrafos interessa “[...] seu uso combinado pelos grupos humanos que os criaram ou que os herdaram das gerações anteriores.” (Santos, 2017a, p. 73). Para ele, há o interesse do geógrafo pelos objetos, seu modo de fabricação e sua função, enquanto um testemunho da ação. Dessa forma, sobre a relação dos sistemas de objetos e sistemas de ações, Milton Santos nos fala:

Objetos não agem, mas, sobretudo no período histórico atual, podem nascer predestinados a um cer to tipo de ações, a cuja plena eficácia se tornam indispensáveis. São as ações que, em última análise, definem os objetos, dandolhes um sentido. Mas hoje, os objetos “valorizam” diferentemente as ações em virtude de seu conteúdo técnico. Assim, considerar as ações separadamente ou os objetos separadamente não dá conta da sua realidade histórica. Uma geografia social deve encarar, de modo uno, isto é, não-separado, objetos e ações “agindo” em concerto (Santos, 2017a, p. 86).

Ao compreender o espaço enquanto resultado da inseparabilidade entre sistemas de objetos e sistemas de ações, Santos (2017a) sinaliza para a necessidade de conceitos híbridos, a exemplo da noção de forma-conteúdo. Para o autor, “A ideia de forma-conteúdo une o processo e o resultado, a função e a forma, o passado e o futuro, o objeto e o sujeito, o natural e o social. Essa ideia também supõe o tratamento analítico do espaço como um conjunto inseparável de sistemas de objetos e sistemas de ações.” (Santos, 2017a, p. 103).

Para ilustrar essa compreensão, Sousa (2021) explora os conceitos de paisagem e espaço em Santos (2017a) e sintetiza que por paisagem podemos compreender o conjunto de formas, enquanto por espaço temos essas formas mais a vida que as anima. A paisagem possui, então, relação com a configuração territorial, a distribuição das formas-objetos, enquanto o espaço resulta da intrusão da sociedade nessas formas-objetos, de tal maneira que as formas que compõem a paisagem adquirem uma função em resposta às necessidades da sociedade, constituindo formas-conteúdo (Sousa, 2021).

Dessa forma, para Santos (2017a, p. 109):

O espaço é a síntese, sempre provisória, entre o conteúdo social e as formas espaciais. [...] Quando a sociedade age sobre o espaço, ela não o faz sobre os objetos como realidade física, mas como realidade social, formas-conteúdo. Isto é, objetos sociais já valorizados aos quais ela (a sociedade) busca oferecer ou impor um novo valor.

A noção de formas-conteúdo é explorada por Sousa (2021), argumentando que podemos assim compreender os produtos do desenvolvimento científico-tecnológico e, consequentemente, as Questões Sociocientíficas, conforme será retomado mais adiante.

c. A ressignificação dos sistemas de objetos e sistemas de ações no meio técnico-científico-informacional

Santos (1996, 2014a) considera que, no final do século XX, a Ciência e a Tecnologia passaram a constituir um dado fundamental da vida humana, de modo que dificilmente seria possível compreender a lógica espacial sem considerá-las. Assim, o meio2 de vida do ser humano nesse período não poderia mais ser compreendido como natural ou técnico, mas como técnico-científico-informacional, o qual inclui obrigatoriamente Ciência, Tecnologia e Informação.

Para Santos (2017a), no meio técnico-científico-informacional, a interação entre Ciência e Técnica é tão profunda que alguns autores empregam o termo tecnociência. Nele, os objetos técnicos tendem a ser técnicos e informacionais, pois “[...] graças à extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização, eles já surgem como informação; e, na verdade, a energia principal de seu funcionamento é também a informação” (Santos, 2017a, p. p. 238). Sendo assim, “[...] a ciência e a tecnologia, junto com a informação, estão na própria base da produção, da utilização e do funcionamento do espaço e tendem a constituir o seu substrato.” (Santos, 2017a, p. 238). Para o autor,

Vivemos, hoje, cercados de objetos técnicos, cuja produção tem como base intelectual a pesquisa e não a descoberta ocasional, a ciência e não a experiência. Antes da produção material, há a produção científica. Na verdade, tratam-se [sic] de objetos científico-técnicos e, igualmente, informacionais.

O objeto é científico graças à natureza de sua concepção, é técnico por sua estrutura interna, é científico-técnico porque sua produção e funcionamento não separam técnica e ciência. E é, também, informacional porque, de um lado, é chamado a produzir um trabalho preciso — que é uma informação — e, de outro lado, funciona a partir de informações. [...] (Santos, 2017a, p. 215, grifo nosso).

Nesse sentido, o autor compreende que, com o desenvolvimento científico-tecnológico acelerado, frequentemente nos tornamos ignorantes, pois esses objetos são criados para atender a finalidades específicas, estão carregados de um discurso e pressupõem determinadas ações (Santos, 1996), evidenciando a sua não neutralidade. Apesar disso, o autor destaca que a difusão dos objetos científico-técnicos não é homogênea, pois, “[...] esse meio técnico, científico e informacional está presente em toda a parte, mas suas dimensões variam de acordo com continentes, países, regiões: superfícies contínuas, zonas mais ou menos vastas, simples pontos” (Santos, 1996, p. 25). Em outras palavras, ao mesmo tempo em que esses objetos influenciam todo o território, essa influência ocorre de maneira específica em cada lugar.

De acordo com o autor, essa propagação desigual refere-se tanto à disseminação de determinada técnica nas diferentes sociedades, quanto à presença, num mesmo território, de elementos técnicos provenientes de épocas diversas, para ele: “A difusão em bola de neve, como a teoria frequentemente faz supor, indica seja uma igualdade de condições tanto entre lugares como entre pessoas que a realidade está muito longe de confirmar [...]. De fato, as famosas ondas de difusão não existem.” (Santos, 2004, p. 251).

Adicionalmente, Santos (2017a, 2017b) enfatiza o papel do fator político nesse processo que, muitas vezes, ocasiona a hegemonia de determinada sociedade sobre outra. A difusão do conhecimento científico-tecnológico depende, portanto, de múltiplos fatores: sociais, políticos, econômicos e culturais. Milton Santos (1996) adverte que não podemos nos esquecer de que vivemos num mundo hierarquizado, de tal forma que:

Ao surgir uma nova família de técnicas, as outras não desaparecem. Continuam existindo, mas o novo conjunto de instrumentos passa a ser usado pelos novos atores hegemônicos, enquanto os não hegemônicos continuam utilizando conjuntos menos atuais e menos poderosos. Quando um determinado ator não tem as condições para mobilizar as técnicas consideradas mais avançadas, torna-se, por isso mesmo, um ator de menor importância no período atual (Santos, 2017b, p. 25).

Por conseguinte, uma vez que os objetos são cada vez mais carregados de um discurso e pressupõem determinadas ações, essas ações são cada vez mais precisas, mas também cada vez mais cegas, obedientes a um projeto alheio (Santos, 2017a). Dessa forma, a compreensão do espaço é ressignificada: “Os espaços assim requalificados atendem sobretudo a interesses dos atores hegemônicos da economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente às correntes de globalização.” (Santos, 1996, p. 24), consequentemente: “[...] o espaço se redefine como um conjunto indissociável no qual os sistemas de objetos são cada vez mais artificiais e os sistemas de ações são, cada vez mais, tendentes a fins estranhos ao lugar” (Santos, 1996, p. 49).

Na obra de Milton Santos, a relação entre objetos e ações é mediada pelo conceito de intencionalidade, pois a ação se conjuga à intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da ciência e da técnica (Santos, 2017a). Com isso, o sistema técnico atual atua como um dos elementos que balizam uma globalização perversa (Santos, 2017b). Contudo, Milton Santos argumenta que essas mesmas bases técnicas podem servir a outros objetivos, se ancoradas em outros fundamentos sociais e políticos. Para ele: “Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação.” (Santos, 2017b, p. 174). Assim, o autor também nos fala sobre a importância da formação de cidadãos conscientes, capazes de atuar no presente e construir o futuro, tendo como ponto de partida o contexto em que vivemos, como o mundo é, como ele se define e funciona, reconhecendo o papel desempenhado pelos lugares e pessoas no conjunto da sociedade (Santos, 1996). Para Milton Santos, compreender todo esse processo é fundamental para transformá-lo, o que envolve, evidentemente, o desenvolvimento de uma visão sistêmica.

Nesse contexto, Sousa (2021) argumenta que o contexto em que vivemos, do qual nos fala Milton Santos, pode ser compreendido como a realidade imediata, mas não só, pois são os lugares que revelam o mundo. Santos (2017a) chama a atenção para o fato de que mudanças numa sociedade local refletem um movimento global de forças mais gerais, destacando que “[...] O lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial que se anuncia e a especificidade histórica do particular” (Carlos, 1997, p. 303). Tal discussão constitui fundamento para compreender a relação entre o lugar e o mundo, o local e o global na educação científica e tecnológica.

d. A visão sistêmica e não dicotômica das dimensões local e global no meio técnico-científico-informacional

De acordo com Milton Santos (2017a), a história do meio geográfico pode ser dividida em três fases: o meio natural; o meio técnico; e o meio técnico-científico-informacional. Durante a etapa que corresponde ao meio natural, os seres humanos utilizavam os recursos fornecidos pela natureza de maneira simbiótica, de modo que as transformações das coisas naturais já eram técnicas, mas os sistemas técnicos não possuíam uma existência autônoma e havia uma harmonia socioespacial que respeitava a natureza herdada na construção de uma nova natureza. No meio técnico, os países passam a se distinguir pela extensão e densidade da substituição do “natural” pelo “artificial” e os instrumentos utilizados não são mais prolongamentos do corpo, mas do território (Santos, 2017a). Com o aumento da internacionalização da divisão do trabalho,

[...] as motivações de uso dos sistemas técnicos são crescentemente estranhas às lógicas locais e, mesmo, nacionais; e a importância da troca na sobrevivência do grupo também cresce. Como o êxito, nesse processo de comércio, depende, em grande parte, da presença de sistemas técnicos eficazes, estes acabam por ser cada vez mais presentes. A razão do comércio, e não a razão da natureza, é que preside à sua instalação (Santos, 2017a, p. 237).

No meio técnico-científico-informacional, que começa praticamente após a segunda guerra mundial, afirmando-se nos anos 1970, Ciência, Tecnologia e Informação desempenham um papel preponderante na dinâmica espacial, o qual vai ocorrer sob a lógica do mercado, que se tornará, graças a ela, mas não só, internacional (Santos, 2017a). Nesse período, a lógica global se impõe a todos os territórios e a cada território como um todo, de tal forma que tende a ser universal (Santos, 2017a). Embora não haja uma difusão heterogênea, como já mencionamos, os objetos científico-técnicos possuem uma difusão mais generalizada e rápida do que anteriormente e sua presença, mesmo pontual, marca a totalidade do espaço, envolve mais gente e coloniza mais áreas. Assim: “O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização” (Santos, 2017a, p. 239).

Embora o autor compreenda que a globalização não se deva apenas pela existência desse novo sistema técnico, entende que ele é fundamental nesse processo dado o seu uso político. Para Milton Santos (2017a), o conhecimento tornou-se um recurso essencial para o êxito no mercado, para além dos recursos naturais de uma determinada região. Conhecimentos sobre o clima, por exemplo, obtidos por meio de radares meteorológicos podem permitir maior sucesso no desenvolvimento de operações na agricultura e na indústria. Assim, “[...] os territórios nacionais se transformam num espaço nacional da economia internacional e os sistemas de engenharia mais modernos, criados em cada país, são mais bem utilizados por firmas transnacionais que pela própria sociedade nacional” (Santos, 2017a, p. 244, grifo do autor).

Santos (Santos, 2017a) usa as ideias de Amílcar Herrera (Herrera, 1977, p. 159 apud Santos, 2017a, p. 118), expoente do PLACTS, para apresentar a indiferença ao meio como uma das características das técnicas atuais.

[...] a tecnologia aparece como um elemento exógeno para uma grande parte da humanidade. Em sua versão contemporânea, a tecnologia se pôs ao serviço de uma produção à escala planetária, onde nem os limites dos Estados, nem os dos recursos, nem os dos direitos humanos são levados em conta. Nada é levado em conta, exceto a busca desenfreada do lucro, onde quer que se encontrem os elementos capazes de permiti-lo. (Santos, 2017a, p. 118).

Assim, os objetos possuem uma intencionalidade cada vez maior — que vai desde a sua concepção, até a sua criação e produção —, subordinada aos atores hegemônicos. E quanto às ações, são deliberadas por outros e possuem base científica, razão pela qual frequentemente não se discute a sua validade.

Segundo Milton Santos (Santos, 2017a, p. 163), “agora, os atores hegemônicos, armados com uma informação adequada, servem-se de todas as redes e se utilizam de todos os territórios. [...]” Com isso, o autor discute a noção de espaço reticulado. Analisando as redes, tanto em sua dimensão material quanto social, argumenta que elas são cada vez mais globais (redes produtivas, de comércio, de transporte, de informação) e incompreensíveis sob uma perspectiva apenas das suas manifestações locais ou regionais, embora essas também sejam indispensáveis para a sua compreensão em escala mundial.

Apesar da mundialização da economia, do planeta, por meio de um sistema técnico que se impõe a todos os lugares mesmo que em diferentes níveis, Milton Santos salienta que,

Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. (Santos, 2017b, p. 18-19).

Milton Santos (Santos, 2014a, 2017a) faz uso do conceito de totalidade para analisar as relações assim estabelecidas entre a aldeia global e os distintos locais que a compõem, de modo a aprofundar a sua compreensão a respeito das diferenças locais que vão se estabelecendo. Com isso, argumenta que os lugares não são inertes, mas possuem uma natureza social, de forma que quanto mais a globalização se aprofunda e se impõe, também mais o lugar torna-se único (Santos, 1996). Para o autor,

O território tanto quanto o lugar são esquizofrênicos, porque de um lado acolhem os vetores da globalização, que neles se instalam para impor sua nova ordem, e, de outro lado, neles se produz uma contraordem, porque há uma produção acelerada de pobres, excluídos, marginalizados.

[...]

Globais, os lugares ganham um quinhão (maior ou menor) da ‘racionalidade’ do ‘mundo’. Mas esta se propaga de modo heterogêneo, isto é, deixando coexistirem outras racionalidades, isto é, contrarracionalidades, a que, equivocadamente e do ponto de vista da racionalidade dominante, se chamam ‘irracionalidades’. (Santos, 2017b, p. 114-115).

Tais aspectos são fundamentais para se pensar uma educação científica e tecnológica emancipatória, preocupada com a compreensão e transformação da realidade.

Implicações para a educação científica e tecnológica: um olhar sobre as Questões Sociocientíficas

Com base nas considerações apresentadas na seção anterior, a seguir serão discutidas algumas implicações da concepção de espaço geográfico de Milton Santos para a educação científica e tecnológica brasileira e, em particular, para a abordagem das QSC.

a. Não neutralidade da Ciência-Tecnologia e as Questões Sociocientíficas como formas-conteúdo

A análise geográfica sob a perspectiva espaço-temporal proposta por Milton Santos tem sido utilizada como fundamento para aprofundar a compreensão de não neutralidade da Ciência-Tecnologia na Educação em Ciências. No estudo de Delizoicov e Auler (2011), os autores utilizam aspectos da ontologia do espaço geográfico apresentada por Milton Santos para examinar a relação da não neutralidade da CT com o espaço-tempo no qual ela se desenvolve, argumentando que ela está relacionada tanto com o processo de produção da Ciência-Tecnologia em determinado lugar e momento histórico, quanto com sua apropriação em outro lugar e momento histórico posterior. Além disso, salientam que uma compreensão espaço-temporal de não neutralidade da CT perpassa considerar a intencionalidade do sujeito epistêmico presente na formulação dos problemas que originam o conhecimento e no processo de busca por respostas, o que é incorporado ao produto científico-tecnológico.

Transpondo esse debate para a abordagem de Questões Sociocientíficas, Sousa (2021) argumenta que a compreensão apresentada por Milton Santos acerca da difusão e apropriação dos objetos técnicos, e utilizada por Delizoicov e Auler (2011), indicam que uma questão/situação de cunho sociocientífico, para ser mais bem compreendida, analisada, requer que sejam reveladas as marcas nela impregnadas pelo espaço-tempo. Sousa (2021) também aprofunda a natureza epistêmica das QSC ao compreendê-las enquanto formas-conteúdo. Com isso, questiona compreensões generalistas, segundo as quais o acesso aos resultados do desenvolvimento científico-tecnológico ou mesmo a consciência acerca da sua existência, é universal no mundo globalizado. Como exemplo, Sousa (2021) menciona a recente experiência educacional durante a pandemia da COVID-19, na qual o desenvolvimento de atividades educacionais remotas evidenciou o abismo digital existente entre diferentes grupos sociais da população mundial, mesmo entre grupos e regiões de países como os Estados Unidos.

A compreensão das QSC enquanto formas-conteúdo sugerida, envolve a sua leitura desde uma perspectiva sistêmica, o que sugere a importância de se considerar a realidade concreta da comunidade local e escolar na qual se pretende realizar atividades educativas nessa perspectiva. Essa interpretação das QSC também perpassa considerar a relação entre o local e o global no meio técnico-científico-informacional, aspecto tratado a seguir.

b. A importância de uma análise sistêmica das QSC: uma visão não dicotômica do local e do global

Para Santos (2017a), a técnica constitui um elemento importante para a explicação da sociedade e dos lugares, mas apenas se considerado o seu valor relativo, em um sistema da realidade. Estabelecendo uma analogia com as QSC dada a sua natureza, podemos inferir que para compreendê-las em profundidade é importante que sejam analisadas sob uma perspectiva sistêmica, tanto do ponto de vista micro como macrossocial.

As discussões de Milton Santos sobre a relação entre as dimensões local e global no meio técnico-científico-informacional suscitam questionamentos a respeito da abordagem em sala de aula de questões/situações marcadas por outros espaços-tempo, desvinculadas das condições materiais da comunidade escolar e local. Elas revelam uma compreensão de espaço reticulado na qual “[...] Cada lugar, não importa onde se encontre, revela o mundo (no que ele é, mas também naquilo que ele não é), já que todos os lugares são suscetíveis de intercomunicação” (Santos, 1997, p. 20). Por outro lado, também indicam que os lugares são globalmente ativos e que processam essa sinergia de acordo com especificidades espaço-temporais, de modo que “Hoje, certamente mais importante que a consciência do lugar é a consciência do mundo, obtida através do lugar.” (Santos, 2014a, p. 161).

Nesse sentido, Sousa (2021) argumenta sobre a relevância da relação dialética entre o local e o global apresentada por Milton Santos para uma abordagem ampla das Questões Sociocientíficas, isto é, que não enfatize a sua universalidade em detrimento das suas manifestações locais, desconsiderando, por exemplo, as contrarracionalidades de que nos fala Milton Santos. Nesse contexto, a autora compreende que “[...] são as manifestações locais das questões/situações sociocientíficas e suas relações com a universalidade que devam constituir o ponto de partida para a sua abordagem, o que envolve, inclusive, considerações críticas sobre a hegemonia de uma CT globalizada” (Sousa, 2021, p. 110). Sob este prisma, algumas das Questões Sociocientíficas indicadas pela literatura podem ser abordadas considerando a interrelação entre diferentes níveis (local, regional, nacional, global), incorporando ao processo educativo a apropriação específica dos objetos científico-técnicos pelo lugar, o que também envolve considerar a percepção dos sujeitos envolvidos no processo educativo a seu respeito.

Sousa (2021) também argumenta que conceber a abordagem de QSC sob a perspectiva da relação dialética entre as suas manifestações locais e a universalidade, requer tanto uma compreensão da noção de espaço reticulado de Milton Santos quanto a ressignificação do lugar no mundo globalizado. Nesse sentido, cabe salientar as contribuições de Carlos (2007, p. 27), segundo a qual,

O lugar é a base da reprodução da vida e pode ser analisado pela tríade habitante-identidade-lugar. A cidade, por exemplo, produz-se e revela-se no plano da vida e do indivíduo. Este plano é aquele do local. As relações que os indivíduos mantêm com os espaços habitados se exprimem todos os dias nos modos do uso, nas condições mais banais, no secundário, no acidental. É o espaço passível de ser sentido, pensado, apropriado e vivido através do corpo.

Assim, ao nos referirmos às manifestações locais de QSC globais é no lugar que encontramos traduzida a relação parte/todo, sua materialidade. Lugar, passível de ser sentido, pensado, apropriado e vivido através da corporeidade dos sujeitos (Carlos, 2007).

Apesar das discussões sobre como o lugar geográfico e a cultura influenciam na discussão de QSC e sobre como Questões Sociocientíficas Baseadas no Local favorecem o engajamento dos estudantes com o mundo em que residem e sobre como irão transformálo (Herman; Newton; Zeidler, 2021; Zeidler; Herman; Sadler, 2019), a visão sistêmica aqui apresentada propõe uma ressignificação do local, possibilitando aprofundar a sinergia da dinâmica social contemporânea. Com isso, almejamos ampliar a compreensão epistêmica das QSC e as possibilidades da sua discussão em sala de aula.

c. Referencial latino-americano em QSC e a construção de contrarracionalidades

Entre as aproximações do pensamento de Milton Santos com as discussões do PLACTS encontra-se a compreensão de que a Ciência-Tecnologia incorpora valores e interesses presentes no ambiente em que é produzida, e o questionamento não apenas das consequências sociais do desenvolvimento científico-tecnológico, mas também da política científico-tecnológica adotada, vinculada aos interesses do mercado (Sousa, 2021). As considerações de Milton Santos sobre a necessidade de redirecionamento das bases técnicas que fundamentam a globalização também se aproximam da argumentação sobre a necessidade da metabolização da CT produzida em outros espaços-tempo colocada pelo PLACTS (Auler; Delizoicov, 2015; Sousa, 2021).

Há indicativos de que a discussão sobre os valores internalizados em produtos científico-tecnológicos não tem sido muito explorada por estudos voltados para a educação científica e tecnológica no Brasil. Rosa e Auler (2016), por exemplo, identificaram um silenciamento desse aspecto em trabalhos que discutem práticas educativas em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). Especificamente, os autores sinalizam para o silenciamento da relação não linear entre CT e bem-estar social, assim como sobre o fato de que essa relação não decorre apenas do bom ou mau uso de CT, mas do fato de que o produto científico-tecnológico incorpora valores/interesses dos atores que o conceberam.

Segundo Sousa (2021), esse contexto coloca a necessidade de metabolização dessa CT moldada para a construção e manutenção da globalização perversa (Santos, 2017b), processo que a autora considera fundamental tanto para a construção de um outro modelo de sociedade quanto para o desenvolvimento de uma alfabetização científico-tecnológica numa perspectiva ampliada (Auler; Delizoicov, 2001). Assim, dada a origem da abordagem das Questões Sociocientíficas no hemisfério norte, Sousa (2021) argumenta sobre a necessidade de metabolização desse referencial para o contexto brasileiro. Para isso, apresenta a importância de um olhar ético-crítico (Dussel, 2007) e espaço-temporal das QSC, fornecendo encaminhamentos para a sua abordagem com base na concepção de educação de Paulo Freire — especialmente com o emprego da investigação temática (Freire, 2014; Silva, 2004, 2007) —, na Ética da Libertação na idade da globalização e exclusão (Dussel 2007) e na concepção de espaço geográfico de Milton Santos.

O trabalho de Santos et al. (2024), já mencionado aqui, também advoga em prol de uma abordagem de Questões Sociocientíficas emancipatória, que considere a conformação do estado brasileiro e as nossas condições concretas enquanto um país situado na periferia do capitalismo. Ao defender a politização das QSC, os autores se alinham às discussões de Milton Santos ao analisarem a incursão das ideias neoliberais na educação brasileira e a necessidade de referenciais críticos e ético-críticos para fundamentar a educação científica e tecnológica. Ainda que a análise realizada por Santos et al. (2024) apresente algum grau de sintonia com o alerta de Zeidler e Sadler (2023) para o risco das iniciativas educacionais voltadas para STEM constituírem um “cavalo de Tróia” para políticas neoliberais, a abordagem apresentada por Santos et al. (2024) propõe a politização das QSC almejando a radicalização, a libertação e o engajamento em projetos críticos e revolucionários. Com isso, os autores destacam:

[...] a importância do contexto não apenas para fins de engajamento, seja do ponto de vista cognitivo ou de ativismo, mas como base para uma educação científica e tecnológica voltada para o desvelamento e superação de problemas vinculados às contradições sociais vivenciadas pelos sujeitos e que engendram diferentes condições materiais de vida (Santos et al., 2024, p. 99, tradução nossa).

Santos et al. (2024) compreendem que a abordagem de QSC nas salas de aula brasileiras necessita envolver uma compreensão profunda da realidade nacional e uma clareza sobre sua agenda política e de educação científica, se voltada para a manutenção da opressão ou sua superação, se hegemônica ou emancipatória. Em sintonia com tais discussões, as considerações aqui apresentadas corroboram com a pertinência da construção de um referencial latino-americano ético-crítico sobre QSC, que as compreenda como situações-problema relacionadas com as negatividades vivenciadas pelos sujeitos no meio técnico-científico-informacional.

Considerações finais

Discussões a respeito da noção de espaço reticulado de Milton Santos, no contexto do meio técnico-científico-informacional, sinalizam para a importância de uma compreensão relacional e não dicotômica das dimensões local e global na educação científica e tecnológica e, em particular, na abordagem de Questões Sociocientíficas. A partir da argumentação apresentada, propõe-se um processo educativo pautado em uma perspectiva éticocrítica, emancipatória, que tenha como ponto de partida as negatividades vivenciadas pelos sujeitos almejando a sua transformação. Mais do que uma compreensão holística da Ciência-Tecnologia, assume-se o compromisso político-ideológico de contribuir com a construção de “uma outra globalização” (Santos, 2017a).

A implementação desta perspectiva é, de fato, um desafio que exige, além de vontade política para a sua efetivação, um processo de formação permanente de docentes (Delizoicov; Delizoicov; Silva, 2020) da educação básica como também e, principalmente, de docentes do ensino superior, em especial, os que atuam em cursos de licenciatura. Não obstante, já há evidências de que, mesmo embrionariamente, o desafio está sendo enfrentado, conforme sugere, por exemplo, a pesquisa de Sousa (2021) na qual são apresentados alguns encaminhamentos teórico-metodológicos para uma abordagem espaço-temporal e ético-crítica das QSC. Além disso, também são trazidas discussões de Santos et al. (2024), que sinalizam para perspectivas críticas e emancipatórias para a abordagem de QSC gestadas no Brasil em diálogo com diversos estudos mundiais. Com o presente trabalho, espera-se contribuir com a construção de um referencial latino-americano sobre QSC e fomentar o desenvolvimento de propostas nessa perspectiva.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) — Brasil — código de financiamento 001.

  • Declaração de disponibilidade de dados
    Os dados da pesquisa estão incluídos no próprio texto do manuscrito..
  • 1
    A expressão “sistema da realidade” é fundamental para a compreensão de mundo de Milton Santos e faz referência à sua compreensão dialética do espaço geográfico, o qual constitui o conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, conforme será explicitado ao longo da sessão.
  • 1
    Em seus últimos textos, Milton Santos utiliza preferencialmente a palavra meio em vez de espaço.

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Editado por

  • Editor: Roberto Nardi 0000-0002-5018-3621

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Mar 2025
  • Aceito
    19 Jun 2025
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