Open-access Desinformação e Ensino Superior: o papel das fake news na imagem das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes)

Disinformation and higher education: The role of fake news in the image of Federal Institutes of Higher Education (Ifes) in Brazil

Resumo

As notícias falsas têm capacidade de provocar prejuízos a diferentes segmentos da sociedade, em especial, à difamação da imagem de pessoas e organizações. Nos últimos anos, observaram-se diversas manchetes com informações falsas que questionaram a relevância das universidades públicas no Brasil. Diante de tal fato, este estudo buscou compreender em que medida as fake news têm impactado a reputação das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes). Para tal, fez-se uma investigação quantitativa com 307 estudantes do terceiro ano do Ensino Médio. Os resultados apresentaram associação estatisticamente significativa entre acreditar em fake news e a avaliação negativa das universidades públicas. A análise revelou ainda que a intensidade da adesão às notícias falsas indica forte magnitude na escolha de não cursar o Ensino Superior nas Ifes. As conclusões reforçam a importância da aprovação de legislações regulatórias da internet, bem como da inclusão do letramento informacional e midiático nos currículos escolares.

Palavras-chave
fake news ; regulação da internet; avaliação do ensino superior; ensino público; ensino superior

Abstract

Fake news has the capacity to cause harm to different segments of society, particularly by defaming the reputation of individuals and organisations. In recent years, numerous headlines containing false information have questioned the relevance of public universities in Brazil. In light of this, the aim of this study was to understand the extent to which fake news has impacted the reputation of federal higher education institutions. To this end, a quantitative study was conducted with 307 third-year high school students. The results revealed a statistically significant correlation between believing fake news and negatively rating public universities. The analysis also revealed that the extent to which people adhere to fake news is strongly associated with the decision not to pursue higher education at Ifes. These findings emphasise the importance of passing internet regulatory legislation, and incorporating information and media literacy into school curricula.

Keywords
fake news; internet regulation; higher education assessment; public education; higher education

Introdução

O termo fake news se refere à criação deliberada de conteúdos com o objetivo de ludibriar ou fornecer informações enganosas (Allcott; Gentzkow, 2017). Essas notícias visam influenciar as crenças das pessoas, manipulá-las politicamente ou gerar confusão em benefício de interesses escusos (Santaella, 2018). Além disso, podem difamar a imagem de pessoas e marcas, manipular a opinião pública e causar prejuízos à democracia, à cidadania e à saúde pública (Lewandowsky; Ecker; Cook, 2017).

Uma das organizações que têm sido alvo crescente de um conjunto de narrativas falsas e pode desconstruir identidades e tensionar os espaços ocupados (Cristo, 2024) é o campo da ciência e, por conseguinte, das Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes).

Com a ascensão de partidos populistas de direita em escala global, as questões de confiança na ciência têm sido cada vez mais entendidas como político-partidárias, levando parte dos eleitores a se tornarem mais propensos a desconfiar de pesquisadores e universidades (Jönsson, 2020) ou até negá-los, mesmo diante de argumentos devidamente corrigidos ou refutados (Pasternack; Orsci, 2021).

Na Suécia, um dos países com tradicionais níveis de confiança nas instituições estatais, tem-se observado, com a ascensão de um governo conservador, tensões em relação à imagem das universidades públicas e seus desafios nas formas de comunicação com o público em geral (Carlsson; Carbin; Nilsson, 2023).

No Brasil, a partir de 2019, sob um governo formado por ideologias de extrema direita, emergiu a difusão de uma narrativa pública marcada por sucessivos ataques às universidades (Amaral, 2019). A plataforma Aos Fatos, composta por jornalistas para verificação de discurso, acompanhou 350 grupos de WhatsApp e constatou imagens com conteúdos de universitários fazendo protestos sem roupas, o que, na verdade, eram de outros contextos (Veloso, 2019). Naquele ano, os picos dos ataques aconteceram logo após o anúncio dos cortes das verbas federais às universidades federais (Tomás; Tomás; Adreatta, 2020).

Raic, Cardoso e Pereira (2020) citam também as falas do então Ministro da Educação, que atuou de 2019 e 2020, dizendo que as faculdades de química das Ifes estariam produzindo drogas sintéticas, como metanfetamina, em seus laboratórios, já que não havia fiscalização, pois a polícia tinha acesso negado a esses locais. Lievore et al. (2022) apontam ainda que o Ministro da Economia, do período 2019 a 2022, propagou, ao longo do seu mandato, falas que associavam as universidades públicas a espaços de uso de maconha, bebidas e festas.

Enquanto a reputação de uma universidade está associada às percepções de qualidade, influência e confiabilidade mantidas por diversos atores (Pitan; Muller, 2019), o crescimento das fake news pode gerar descrédito em relação às Ifes. Entre as diversas consequências negativas, destacam-se a adesão de parte da opinião pública ao argumento de redução dos investimentos públicos (Cristo, 2024); a descrença na qualidade do conhecimento científico produzido (Carlsson; Carbin; Nilsson, 2023) e até mesmo a rejeição das Ifes como destino de formação acadêmica.

É nesse contexto que se insere o questionamento que norteia este trabalho: em que medida as fake news propagadas nos últimos anos têm afetado a reputação das instituições públicas de Ensino Superior?

Para tal, o estudo se propõe a mapear a opinião dos discentes do terceiro ano do Ensino Médio, oriundos das escolas públicas, em uma cidade localizada no norte do Estado de Minas Gerais1. O recorte a partir dos estudantes concluintes ocorre uma vez que suas escolhas podem ser afetadas diretamente pelas notícias falsas, já que se situam na porta de entrada das universidades brasileiras.

Compreender, portanto, o perfil dos respondentes e seus preditores de suscetibilidade à desinformação, bem como as intenções de se estudar ou não em uma das Ifes, é uma dimensão relevante para se avaliar os possíveis impactos das fake news na reputação das universidades públicas brasileiras.

Reputação universitária e fake news: associações conceituais

No contexto das Instituições de Ensino Superior, reputação é entendida como as impressões formadas e as avaliações resultantes das interações das partes interessadas com as universidades ao longo do tempo (Alessandri; Yang; Kinsey, 2006; Chen; Esangbedo, 2018).

Van Vught (2008) complementa que a reputação universitária é o reflexo ou resultado de todas as ações internas empreendidas por uma universidade, que se traduzem na imagem projetada por diferentes atores.

Sua imagem e seu valor podem afetar variáveis como financiamento, reconhecimento preferencial, matrículas e registros (Amado; Juarez, 2022), uma vez que influenciam as decisões de futuros alunos e profissionais da educação ao escolherem a universidade na qual ingressarão ou atuarão.

Uma das ações que pode ter impacto na reputação universitária é a disseminação das fake news. Criadas no propósito de captar a atenção para desinformar ou conquistar vantagens sociais, políticas e/ou econômicas (Delmazo; Valente, 2018), são propagadas deliberadamente, principalmente no meio digital, para ampliar o tráfico e o efeito (Braga, 2018).

Wardle e Derakhshan (2017), ao mapearem as formas como são construídas as fake news, destacam o uso de conexão falsa, marcada por manchetes, imagens ou legendas não condizentes com o conteúdo apresentado, assim como a contextualização falsa, cujos conteúdos ou imagens são informações criadas e/ou editadas no intuito de enganar. Ressaltam-se ainda a elaboração do uso equivocado de informações para enquadrar um problema ou indivíduo, ou mesmo a apropriação do nome de uma pessoa ou marca com afirmações falsas.

A partir do seu conceito e formas de estruturação, nota-se que as notícias falsas não são algo inédito (Lívio, 2020). Porém, começaram a ganhar mais visibilidade nos últimos anos em vista da sua capacidade de propagação. Com a notoriedade e o uso globalizado da internet e das redes sociais, as fake news se tornaram mais prevalentes e mais difíceis de serem identificadas e combatidas, devido à facilidade com que as pessoas podem produzir e espalhar conteúdo on-line e à velocidade com que as informações podem ser compartilhadas.

Outra questão que tem contribuído para a propagação das fake news é sua utilização, por meio de softwares concebidos para simular ações humanas repetidas vezes, de maneira padrão, para fins de propaganda política ou manipulação da opinião pública. Delmazo e Valente (2018) ressaltam que se tornaram frequentes os ataques a candidatos durante disputas eleitorais, bem como a instituições.

No cenário das Ifes, o estudo de Blank, Boaventura e Freitas (2021) analisou as fake news publicadas na rede social Facebook e atestadas como falsas pela agência de checagem Lupa. As imagens eram de pessoas nuas em suposto protesto e forjando serem universitários. Os autores verificaram que o objetivo das publicações era criar um imaginário fragmentado pelo qual se passasse a ver as instituições de Ensino Superior com repugnância e descrédito na construção do discurso de demérito voltado às universidades brasileiras.

O trabalho desenvolvido por Tomás, Tomás e Andreatta (2020) investigou 17 fake news relacionadas às universidades, cujos objetivos eram identificar a intencionalidade com a disseminação dos conteúdos falsos. Alguns dos efeitos pretendidos eram associar as universidades federais à bagunça e à ilegalidade, desqualificar as pesquisas realizadas, bem como superestimar gastos referentes ao funcionalismo público.

Torna-se, assim, necessária a busca por soluções a serem adotadas pelos governos, sociedade civil e plataformas de mídias sociais para lidar com a propagação da desinformação. Em uma revisão sistemática da literatura, Melchior e Oliveira (2024) elencaram diversos caminhos, com destaque à promoção da alfabetização digital e mediática dos cidadãos.

Enquanto a alfabetização informacional é a habilidade gerencial do uso de tecnologias da informação e comunicação para discernir a confiança (Share; Mamikonyan; Lopez, 2023), a alfabetização mediática se centra na análise da avaliação crítica à informação que se encontra on-line, fomentando decisões fundamentadas (Hobbs et al., 2022).

Um dos exemplos do uso da alfabetização trata da metodologia definida por Currency, Relevance, Authority, Accuracy, Purpose (CRAAP). A orientação consiste em avaliar notícias com princípios fundados na revisão do tempo em que a notícia chega à internet; na identificação da importância da informação; na checagem das fontes que geraram o conteúdo; na avaliação da condição de confiança e na análise da intenção da finalidade do documento (Musgrove et al., 2018).

Tal abordagem pode ser complementada com a revisão da reputação do endereço eletrônico de onde a informação vem, das fontes usadas para o desenvolvimento da notícia e da autoria da matéria, assim como com uma rápida revisão da gramática e da ortografia usadas ao longo do texto (Ruiz-Gonzalez; Machin-Mastromatteo; Tarango, 2024).

Ressalta-se ainda a técnica de suporte de leitura lateral, que consiste em interpretar informações além da página da web em que elas são apresentadas. Orienta-se a investigação em outras páginas e, de maneira simultânea, a avaliação e o confronto dos conteúdos para mensurar a veracidade e a confiabilidade da informação (Brodsky et al., 2021).

Não menos importante é o trabalho de regulação das redes sociais no combate às notícias falsas. As plataformas WhatsApp, Telegram, X, Facebook e Instagram são apontadas pela literatura especializada como os principais canais de compartilhamento de notícias falsas. Dentre elas, o caráter de redes fechadas facilita a radicalização dos laços de identidade entre os membros (Pasternack; Orsci, 2021) e favorece a forma como as informações falsas circulam nas sombras e com discrição (Raquel et al., 2022).

Por outro lado, o uso de tecnologias de controle pelas próprias plataformas pode ser útil ao monitoramento e à contenção da desinformação. O WhatsApp, por exemplo, representa um caso emblemático de solução técnica, com atualizações que restringiram a velocidade e o volume de compartilhamento de mensagens na plataforma.

Entretanto, essas medidas ainda se mostram limitadas, uma vez que parte das empresas demonstra maior interesse em manter seus lucros em vez de construir um ambiente comunicativo seguro e desfavorável à desinformação.

Prova disso é a lentidão em se avançar na aprovação de projetos de lei no Brasil que visam regulamentar as informações na internet, evidenciando a complexidade de se construir soluções legais eficazes para coibir a produção e a circulação de notícias falsas (Mendonça et al., 2023).

Metodologia

A pesquisa em questão se caracterizou por um survey, entendido como o estudo que visa colher dados sobre as características ou opiniões de um grupo-alvo que se deseja conhecer, por meio da utilização de um questionário no qual o pesquisado não é identificado (Fonseca, 2022). O universo da pesquisa de opinião foi composto por todos os 503 alunos matriculados2 no terceiro ano do Ensino Médio das escolas públicas de uma cidade do interior do estado de Minas Gerais. Os dados foram levantados junto às secretarias das quatro instituições públicas que oferecem o ensino na cidade. A amostra válida foi constituída por aqueles que estavam presentes no dia da coleta de dados e aceitaram participar da pesquisa, totalizando 307 respondentes.

Na execução do survey utilizou-se um questionário impresso que contemplou três seções: perfil dos respondentes, mensuração da reputação das Ifes e capacidade de identificação da veracidade de notícias sobre as universidades públicas3. Na primeira seção, as perguntas foram utilizadas para estabelecer possíveis associações entre as características do perfil e crenças e/ ou propagações de fake news. Na segunda seção, as questões do documento foram elaboradas contendo 22 perguntas com afirmações de atributos relacionados à reputação das Ifes. O modelo foi inspirado no construto formativo sintetizado em vários indicadores pelo Rep Trak Index, do Reputation Institute, e validado para o contexto universitário por Angliss (2022).

Os respondentes identificaram o grau de coincidência de cada atributo com sua percepção sobre as instituições analisadas, em uma escala de 1 a 5. A metodologia utilizada foi a de Likert, que usa uma escala de pontos na qual cada um deles recebe um rótulo específico.

Na terceira seção do questionário, foram apresentadas manchetes4 no intuito de compreender a capacidade de identificação entre notícias verdadeiras e falsas relacionadas às Ifes do Brasil. Dessas, recorreram-se às publicações sobre universidades públicas que circularam no país, com a checagem realizada pela agência Lupa. Os dados obtidos por meio do questionário foram incluídos em uma base de dados e analisados por meio do software R (R Core Team, 2023), com verificações descritivas e testes não paramétricos, considerando um nível de significância de 5%.

Em termos processuais, fez-se uma análise descritiva em formatos percentuais de cada conjunto de dados das seções do questionário. Depois da análise descritiva, procedeu-se ao cruzamento dos dados das seções do questionário para verificar se havia associações significativas do ponto de vista estatístico.

Nesta etapa, buscou-se compreender a associação estatística entre as variáveis sociodemográficas e a crença em fake news. Para isso, foram utilizados o teste do qui-quadrado e o teste exato de Fisher, apropriados para os casos em que as variáveis dependentes e independentes são qualitativas.

Para esta pesquisa, foram considerados os modelos: (H0): não há associação entre cada variável sociodemográfica e crença em fake news; (H1): há associação entre cada variável sociodemográfica e a crença em fake news. O objetivo da aplicação do teste qui-quadrado foi determinar se a associação entre as variáveis sociodemográficas e a crença em notícias falsas sobre as instituições públicas de ensino superior era estatisticamente significativa. Para tanto, os participantes da pesquisa foram divididos em três grupos: aqueles que caíram em pelo menos uma fake news, aqueles que caíram em pelo menos três e aqueles que caíram em todas. Esse agrupamento foi elaborado metodologicamente para compreender se haveria uma associação entre esses grupos e a intensidade com que caíram em fake news.

Também foi calculado o V de Cramér que, segundo Gravetter e Wallnau (2013), é utilizado como uma medida de tamanho do efeito para o teste qui-quadrado de independência, usado quando duas variáveis são nominais, medindo o grau de associação entre dois campos categóricos. Para interpretar a força de associação obtida pelo V de Cramér, foi utilizada neste estudo a de Cohen (1988), que condiciona a interpretação aos graus de liberdade (g.l) do teste de qui-quadrado de independência correspondente. Para averiguar a associação local das categorias significativas, foi necessário utilizar o teste de resíduo ajustado. Após a aplicação dos testes, analisaram-se estatisticamente a associação entre os dados sobre a percepção da reputação das instituições públicas de ensino superior e a propensão em acreditar em fake news. Para tanto, recorreu-se ao teste U de Mann-Whitney, indicado quando se têm dados cuja variável dependente é categórica ordinal e a variável independente é composta por dois grupos independentes. Esse foi o caso do estudo em que a seção sobre reputação às respostas foi obtida pela escala Likert de 5 pontos.

A referência utilizada para medir o tamanho do efeito para o teste de Mann-Whitney foi a de Cohen (1988), cuja equação é R=ZN, em que Z é a estatística do teste de Mann Whitney e N = número total de casos. Os critérios estabelecidos por esse autor são que um valor igual a 0,1 corresponde a um efeito pequeno, 0,3 é um efeito médio e 0,5 ou maior corresponde a um efeito grande.

Resultados e discussão

Perfis dos respondentes, reputação e propensão a 'cair' em fake news

Ao traçar os perfis dos estudantes que responderam ao questionário, foram constatadas algumas singularidades em relação às tendências no Brasil. A primeira foi o quesito gênero. Apesar de a maioria se identificar como feminino (39,1%) ou masculino (38,1%), pelo menos 1/5 se assumiu como não binário (22,8%). Um estudo coordenado por Spizzirri et al. (2021) mensurou que as pessoas identificadas como transgêneras e não binárias representam pelo menos 2% da população brasileira. Apesar de esta pesquisa não ter estabelecido um recorte por faixas etárias, os dados mostram uma diferença significativa em relação ao estudo mencionado.

Outra particularidade foi o recorte racial. Registrou-se que 63,2% dos respondentes se autodeclararam negros, percentual acima da média brasileira (55,5%), mas que reflete parcialmente a realidade do município (70,4%), majoritariamente composto por pretos e pardos (IBGE, 2022).

Constatou-se também que o universo dos respondentes que se assumem religiosos (94,1%) foi bem superior às pesquisas mais recentes sobre o tema. Segundo o DataFolha, 86% da população brasileira segue ao menos uma religião e, entre os jovens, o número cai para 75% (Carrança, 2022).

No que refere à filiação ideológica política dos respondentes, identificou-se que a maioria adere a uma posição política mais voltada à esquerda (48,5%) do que à direita (26,1%). Ainda que não se tenham encontrado pesquisas recentes relacionadas exclusivamente à posição política dos jovens, a investigação conduzida pelo Data Senado mostra uma tendência inversa. Enquanto 29% da população se assume de direita, apenas 15% se consideram filiados às ideias de esquerda (Brasil, 2024).

Por fim, detectou-se um perfil de respondentes que dão preferência às fontes de notícias nas redes sociais (61,2%) em relação à TV (10,1%), muito acima da média nacional. No Brasil, segundo Chavez (2024), a TV ainda é o principal meio de informação para 63,7% da população em geral e para 49,3% dos jovens entre 18 e 24 anos.

Quadro 1
Perfil sociodemográfico dos estudantes

Ao mensurar a reputação das Instituições Federais de Ensino Superior, a maioria dos respondentes estabeleceu uma identificação e uma imagem das universidades públicas brasileiras de maneira positiva. Salienta-se para as afirmações relacionadas à simpatia, admiração, confiança, qualidade no ensino, serviços, pesquisa, inovação e formação obtiveram índices iguais ou superiores a 70% de aprovação5 entre os respondentes (figura 1).

Figura 1
Reputação das Ifes

Já os quesitos de menor estima à reputação das Ifes estavam vinculados à empregabilidade (capacidade de formar para ingressar no mercado); à reação às mudanças externas (adaptar rapidamente e seguir padrões procedimentais); às opiniões de pessoas próximas (indicação de amigos e familiares) e aos aspectos éticos (tratar os bens públicos como privados) (figura 1).

Enquanto as duas primeiras dimensões assumem um papel mais contingencial às ações das Ifes, quase metade dos estudantes (48%) concordaram com a sentença que aludia a possíveis transgressões (tratam os bens públicos como se fossem privados ou particulares) nos ambientes das Ifes (figura 1).

Os dados são preocupantes, pois parecem corroborar o objetivo que marcou grande parte das fake news que circularam nas redes sociais no país. Ou seja, a propagação de desinformações com a intenção de vincular a imagem das Ifes como espaços de infrações (pessoas nuas, uso de bebidas alcoólicas, produção de drogas) (Blank; Boaventura; Freitas, 2021; Tomás; Tomás; Andreatta, 2020).

Essa possível agremiação parece ganhar força quando se considera a confiabilidade das notícias segundo os respondentes. Constatou-se que a maioria considerou verdadeiras as manchetes que associavam as universidades federais à bagunça e à ilegalidade (quadro 2).

Quadro 2
Percentuais de concordância sobre fake news das Instituições Públicas de Ensino Superior

Os resultados também indicam que 86% dos estudantes caíram em pelo menos uma fake news, demonstrando uma significativa limitação deles em identificar elementos de desinformação sobre as Ifes. Esses resultados dialogam com os achados de investigações anteriores sobre a dificuldade do brasileiro em reconhecer desinformações. Em 2020, em plena pandemia de coronavírus, uma pesquisa conduzida pela Avaaz detectou que 73% dos brasileiros acreditaram em notícias falsas sobre o vírus (Congresso em Foco, 2020).

Já o recente estudo conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, 2024) com 21 países, apontou que a população brasileira ficou em último lugar na capacidade de julgar corretamente notícias falsas e verdadeiras, reforçando a necessidade de ações para lidar com as múltiplas dimensões do problema no país.

Preditores de suscetibilidade à desinformação

Ao investigar as relações entre as dimensões sociodemográficas e a crença em notícias falsas, a pesquisa constatou associações estatisticamente significativas (p ≤ 0,05) relacionadas ao gênero, à renda familiar, à ideologia política e à origem da conclusão do Ensino Fundamental. Enquanto essas variáveis estavam associadas a todos os grupos de adesão às notícias falsas (ao menos uma, ao menos três e todas), a cor/raça, o tipo de religião e as fontes de notícias foram preditores nos grupos que caíram em três ou mais fake news, conforme se observa no quadro 3.

Quadro 3
Cruzamento das dimensões sociodemográficas e variáveis de fake news

Os achados coadunam com as investigações da literatura que apontam para a ideologia política (Pasternack; Orsci, 2021; Segurado; Chicarino; Conceição, 2022), a renda (Gomes; Penna; Arroio, 2020), o gênero (Roozenbeek et al., 2020) e as fontes de notícias (Allcott; Gentzkow, 2017) como fatores significativos de suscetibilidade à desinformação em geral.

Para compreender qual ou quais subcategorias (caselas) contribuíram para a associação, calculou-se o resíduo ajustado com base nas frequências observadas e esperadas, entre os que apresentaram associações estatisticamente significativas, em pelo menos uma das variáveis analisadas, conforme quadro 4.

Quadro 4
Resíduo ajustado do cruzamento de dimensões sociodemográficas e fake news

Por intermédio dos resíduos ajustados que, em módulo, eram superiores a 1,96 para α = 5%, constataram-se dicotomias interessantes nas variáveis que indicaram significâncias estatísticas. No quesito gênero, enquanto o sexo masculino apresentou associação positiva (3,3) nos grupos que caíram em todas as fake news, o sexo feminino não indicou associações em nenhuma das variáveis. Esses achados divergem das pesquisas de Roozenbeek et al. (2020), cujo sexo feminino era uma preditora de suscetibilidade à desinformação.

Não obstante, nesta pesquisa, encontrou-se uma relevante associação negativa nos grupos definidos como não binários (-3,6; -5,5; -3,6) em todas as variáveis de intensidade. Ainda que não se tenham elementos para compreender o que leva esse grupo a maior capacidade de identificar desinformações, uma suposição, e que exige futuras investigações, é a posição de minorias políticas, marcadas por riscos e ameaças. Talvez, a necessidade de se manterem “informados” às questões da época emerge como um possível instrumento de empoderamento.

Outra dicotomia foi encontrada na origem do Ensino Fundamental e a renda. Observou-se que os estudantes de escolas particulares (3,3; 5,8; 6,3) e maiores rendas, em especial nos grupos que caíram em todas as fake news, (7,1; 3,4) apresentaram associações positivas, enquanto aqueles oriundos de escolas públicas (-3,3; -5,8; -6,3) e menores rendas (-3,4; -4,0) apresentaram associações negativas. Os achados divergem da pesquisa de Gomes, Penna e Arroio (2020), que indicavam que o aumento da renda diminui significativamente a suscetibilidade à desinformação. Ressalta-se, contudo, que, neste estudo, o nível de escolaridade formal era o mesmo, podendo indicar que a desigualdade da renda se manifesta em maior intensidade, se acompanhada da educação formal. Ao mesmo tempo, a renda, em um Brasil polarizado politicamente, pode ter associação com a ideologia política.

Essa suspeita se fortalece ao observar que as maiores associações positivas e negativas ocorreram nos grupos de ideologias de direita (3,8; 8,0; 8,5) e esquerda (-5,0; -8,5; -7,1), respectivamente. Esse ponto coaduna com a investigação de Segurado, Chicarino e Conceição (2022) ao indicar que os respondentes de ideologias conservadoras são mais propensos às fake news do que os progressistas. Allcot e Gentzkow (2017) sustentam que a maior suscetibilidade, no entanto, pode estar relacionada à diferença no volume de circulação de notícias falsas, uma vez que os grupos de direita estão mais propensos à desinformação.

Em relação ao tema, observou-se que aqueles que utilizavam as redes sociais como principal fonte de informação tinham maior capacidade de discernir desinformações (-2,3; -2,3), principalmente em relação aos grupos que utilizaram outras fontes de informação e caíram em três ou mais fake news. Uma hipótese é que o uso regular das redes sociais pode favorecer o conhecimento do processamento e a apresentação de notícias que impactam a habilidade de distinguir formatos de notícias reais (Vegetti; Mancosu, 2020).

Por fim, os resultados indicaram dicotomias nos preditores de raça e religião. Constatou-se que os estudantes autodeclarados pretos (-5,4; -4,8) e católicos (-4,6 e -2,8) apresentavam elevada capacidade de identificar notícias falsas em relação aos de escolas privadas (brancos (3,2 e 4,0) e evangélicos (5,1 e 4,9), entre os grupos que caíram em três ou mais fake news. Uma das conjecturas pode estar relacionada à maior aproximação dos evangélicos e brancos em relação aos católicos e pretos com as ideologias políticas conservadoras. Conforme consta nos dados do Data Senado, a maioria dos grupos de ideologia de direita são brancos (32%) e evangélicos (35%) em relação aos pretos/pardos e indígenas (26%) e católicos (28%) (Brasil, 2024). Nessa relação, enquanto o movimento político bolsonarista captou parte substancial desses grupos, também foi o vetor de maior propagação de fake news. Logo, a consequente confiança em suas lideranças pode ter influenciado nas adesões às fake news relacionadas às Ifes.

Reputação e interesse em estudar nas Ifes à luz das fake news

Para averiguar se a prerrogativa de incorrer em fake news impactaria a reputação das instituições públicas de Ensino Superior, foi realizado o teste de Mann-Whitney, que revelou diferença estatisticamente significativa na avaliação mediana entre os respondentes que acreditaram e os que não acreditaram em fake news, nos três grupos estudados, conforme o quadro 5.

Quadro 5
Crenças em fake news e reputação de instituições públicas de Ensino Superior

Os dados mostram que o grupo de respondentes que não incorreu em qualquer fake news avaliou as instituições de ensino com alto prestígio (mediana = 5), a maior nota na escala de reputação. Por outro lado, os grupos que foram enganados por ao menos uma fake news apresentaram uma avaliação de reputação com mediana de 4; esses números, entretanto, reduziram substancialmente para os que incorreram em três ou mais fake news (mediana = 2). Os resultados permitem inferir que, quanto maior a adesão às fake news relacionadas às Ifes, menor a avaliação positiva da reputação das respectivas instituições públicas de Ensino Superior entre os estudantes.

Ao analisar as possíveis influências de uma avaliação positiva e/ou negativa das Ifes na escolha dessas instituições para cursar a graduação, fez-se o teste exato de Fisher, sendo também calculado V de Cramér e os resíduos ajustados. Os resultados permitem afirmar que houve uma associação estatisticamente significativa entre a avaliação da reputação e a intenção de cursar ensino superior nas Ifes, uma vez que o teste exato de Fisher apresentou um p-valor inferior ao nível de significância 0,05 adotado. Ademais, a associação entre essas variáveis foi considerada forte, V de Cramér = 0,447, mediante classificação de Cohen (1988), conforme consta no quadro 6.

Quadro 6
Pretensão em cursar o Ensino Superior e reputação das instituições públicas de Ensino Superior

Para investigar dentro da variável pretensão em cursar o Ensino Superior em qual tipo de instituição de ensino, qual subcategoria era responsável pela significância da associação com a variável avaliação da reputação das instituições públicas de ensino superior, os resíduos ajustados mostraram que as subcategorias intenção de estudar em instituição pública e em instituição particular apresentam valores de resíduo ajustados maiores que 1,96.

Pode-se afirmar que os respondentes que pretendem cursar o Ensino Superior em uma instituição pública avaliam positivamente (nota 5, concordo totalmente) as instituições públicas de Ensino Superior (resíduo ajustado = 10,8) e atribuem menos avaliações ruins a elas (resíduo ajustado = -11,5). O inverso é observado na categoria dos respondentes que manifestaram interesse em cursar o Ensino Superior em uma instituição privada. Estes, por sua vez, avaliam mais frequentemente as instituições públicas de forma negativa (nota 2, discordo parcialmente; resíduo ajustado = 12) e, com menor frequência, atribuem nota máxima às instituições (resíduo ajustado = -10,6).

Portanto, o aumento da suscetibilidade à desinformação afeta negativamente a conformidade relatada dos estudantes com a reputação das Ifes, bem como a disposição deles para escolher onde cursar o Ensino Superior. Por conseguinte, isso dialoga com as teorias relacionadas à reputação universitária, já que podem servir como parâmetro de dimensionamento da qualidade dos serviços educacionais, influenciando as decisões dos atores envolvidos (Amado; Juarez, 2022).

Enquanto desdobramentos, os resultados da pesquisa reforçam a relevância de mecanismos para lidar com as fake news, em especial com os estudantes. Os recentes estudos conduzidos por Ku et al. (2023), com 101 discentes entre 11 e 14 anos de Hong Kong, indicaram que a formação em literacia jornalística melhorou significativamente o conhecimento dos participantes sobre os meios de comunicação e reduziu a vulnerabilidade a notícias falsas.

No cenário brasileiro, Moreira et al. (2024), adotaram um sistema de literacia a partir de um jogo (Trail Game), no qual os jogadores deveriam atravessar o tabuleiro distinguindo corretamente as notícias verdadeiras das falsas. Ao desenvolver o estudo com 43 estudantes do Ensino Médio, os resultados quantitativos e qualitativos apontaram para a eficácia da ferramenta como instrumento de treinamento à detecção de fake news.

A relevância da adesão aos mecanismos de literacia ao contexto formativo dos estudantes da educação básica pode ser incorporada desde cedo aos currículos escolares, como uma ferramenta para contribuir com o aumento da análise crítica das informações recebidas (Mendonça et al., 2023) e para o desenvolvimento da valorização do pensamento científico (Sagan, 1996).

Por fim, é importante ressaltar que, mesmo que os resultados desta pesquisa não apontem para uma associação positiva entre o maior consumo de redes sociais e a predisposição à desinformação, o espaço virtual não se mostrou isento, uma vez que as notícias falsas vinculadas às Ifes tiveram sua origem e se propagaram no ambiente virtual. Isso reforça a relevância de fomentar o debate público em prol da aprovação de legislações que contribuam para a regulamentação da internet.

Considerações finais

No intuito de compreender em que medida as fake news têm impactado a reputação das Instituições Federais de Ensino Superior, esta pesquisa, de natureza quantitativa, traçou o perfil dos estudantes respondentes do terceiro ano do Ensino Médio de escolas públicas, associando-o aos fatores preditivos à identificação de notícias falsas e, consequentemente, à imagem das Ifes e a escolha do destino para cursar o Ensino Superior.

Os achados da pesquisa revelaram que, embora a maioria dos respondentes, em média, avalie positivamente a reputação das Ifes, também reproduzem concepções negativas sobre essas instituições, como espaços marcados por infrações e descaso com os bens públicos. Ao estabelecer a associação entre reputação e notícias falsas, observou-se que quase metade dos estudantes (48%) concordaram, ao menos parcialmente, com desinformações relacionadas à reputação das Ifes que circularam no país nos últimos anos.

Esses dados se tornam ainda mais preocupantes ao se constatar que 86% dos respondentes acreditaram em pelo menos uma fake news relacionada às universidades, evidenciando a necessidade de se investir em alfabetização digital, aliada à regulamentação das redes sociais — principais vetores de disseminação dessas informações.

A pesquisa também mostrou que os preditores de suscetibilidade à desinformação estavam associados à ideologia política, renda, gênero e fontes de informação, em todos os grupos de adesão às notícias falsas. Além disso, cor/raça e tipo de religião apareceram como fatores relevantes entre os estudantes que acreditaram em três ou mais fake news.

Nesse sentido, os achados da pesquisa apresentaram singularidades e contribuições relevantes à literatura. O perfil mais suscetível às desinformações foi composto por estudantes do sexo masculino, oriundos de escolas particulares no Ensino Fundamental, com maior renda, brancos, evangélicos e com ideologia à direita. Por outro lado, estudantes não binários, oriundos de escolas públicas no Ensino Fundamental, com menor renda, autodeclarados pretos, católicos e de ideologia de esquerda demonstraram maior capacidade de identificar notícias falsas. Essa dicotomia reflete, em parte, o cenário de polarização política no país, reproduzindo as disputas ideológicas em torno da universidade pública no Brasil.

Os dados da pesquisa indicaram ainda uma associação estatisticamente significativa entre a avaliação da reputação e a intenção de escolha do tipo de instituição de Ensino Superior. Assim, conclui-se que o aumento da suscetibilidade à desinformação afeta negativamente a percepção dos estudantes sobre a reputação das Ifes, bem como sua disposição para escolher essas instituições como destino de formação.

Com os resultados, é possível perceber o quanto as próprias instituições (foco da pesquisa) e os meios de comunicação devem aumentar seu protagonismo de investigação e enfrentamento dessa realidade ameaçadora. Ao longo da pesquisa bibliográfica realizada, não se encontrou qualquer fake news sobre faculdades particulares, fato que endossa a hipótese de que a onda de fake news disseminada integra um projeto de desconstrução das instituições públicas de Ensino Superior. Isso impõe um convite à organização de estratégias de comunicação e ações em favor da educação pública e das instituições públicas de Ensino Superior.

Não obstante suas contribuições, este trabalho também apresentou limitações em seu desenvolvimento, tais como: a pesquisa ser realizada em apenas uma cidade. Assim, investigar esse fenômeno em outras regiões do Brasil poderia proporcionar achados que permitam comparações mais amplas. Outra limitação se deu por não ter havido a realização da pesquisa nas escolas particulares da cidade, devido à indisponibilidade de colaboração, não permitindo haver um parâmetro comparativo entre os grupos de estudantes.

Considerando a natureza do assunto tratado, cuja análise não se dissipou ao término da pesquisa, torna-se necessária a realização de demais estudos, inclusive qualitativos, que possam dar continuidade à investigação, compreendendo questões como, por exemplo, a particularidade do grupo de pessoas não binárias, pretas e de baixa renda e sua maior capacidade em identificar notícias falsas, além de entender quais os outros possíveis motivos que possam levar a algumas pessoas a não pleitear o estudo em instituições públicas de Ensino Superior.

1

Por questões de confidenciabilidade, optou-se por suprimir o nome da cidade. Sem embargo, sua escolha ocorreu por ter Ifes, o que, em tese, permite a opinião da reputação e da possível escolha em se cursar o Ensino Superior em instituições públicas, mais próxima do cotidiano dos estudantes. Além disso, a atuação dos pesquisadores na região foi um elemento de recorte metodológico, em vista da acessibilidade à coleta de dados.

2

A cidade tem quatro escolas públicas e duas particulares que oferecem o terceiro ano do Ensino Médio. No entanto, as instituições particulares não autorizaram a realização desta pesquisa.

3

O questionário se constituiu de 42 questões, sendo onze relacionadas ao mapeamento do perfil dos respondentes, 22 relacionadas à Reputação e nove sobre manchetes de notícias que circularam na mídia.

4

No questionário, foram apresentadas quatro manchetes com informações verdadeiras e cinco com teor falso. Para este trabalho, analisamos a capacidade de discernir as informações falsas.

5

Das 22 questões relacionadas à reputação, quatro cumpriam um papel antípoda. Logo, a discordância com a afirmativa representava a aprovação da imagem das Ifes.

Declaração de disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no corpo do manuscrito.

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Autora correspondente

dcalbino@ufsj.edu.br

Editor:

Roberto Nardi

Conflito de interesses

As autoras e o autor não têm quaisquer conflitos de interesses a declarar.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Fev 2025
  • Aceito
    14 Abr 2025
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