Open-access Esperança, espiritualidade e qualidade de vida: um estudo com pacientes renais crônicos em diálise peritoneal*

RESUMO

Objetivo:  Analisar o nível de esperança, espiritualidade e percepção da qualidade de vida de pacientes renais crônicos em diálise peritoneal.

Método:  Estudo transversal analítico realizado em um centro de nefrologia entre janeiro e abril de 2024. Aplicou-se questionário clínico-demográfico, Escala de Esperança de Herth e instrumento Qualidade de vida - Espiritualidade, Religiosidade e Crenças Pessoais. Para análise de correlação entre as escalas, utilizou-se testes de Pearson e Spearman; testes de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis foram empregados para comparação entre grupos.

Resultados:  Participaram 69 indivíduos, com escores médios de esperança e qualidade de vida de 38,78/48 e 17,28/20, respectivamente. Identificou-se correlação significativa entre as escalas (p = 0,01), indicando que maiores escores de esperança associam-se a maior qualidade de vida.

Conclusão:  Apesar das limitações do tratamento, os participantes apresentaram esperança e espiritualidade em níveis satisfatórios, com impacto positivo na qualidade de vida.

DESCRITORES:
Saúde Pública; Indicadores de Qualidade de Vida; Nefrologia; Diálise Renal; Insuficiência Renal Crônica

HIGHLIGHTS

1. Escore médio EEH: 38,78 de 48.

2. Escore médio WHOQOL-SRBP: 17,28 de 20.

3. Correlação entre escalas EEH e WHOQOL-SRPB: (p = 0,01).

4. Maior qualidade de vida está associada a maior esperança.

ABSTRACT

Objective:  Analyze the level of hope, spirituality, and perception of the quality of life of chronic renal patients on peritoneal dialysis.

Method:  Transversal analytical study conducted in a nephrology center between January and April 2024. A clinical-demographic questionnaire, the Herth Scale of Hope and Quality of Life - Spirituality, Religiousness and Personal Beliefs, were applied. For the analysis of correlation between scales, Pearson and Spearman tests were used; for comparisons between groups, Mann-Whitney and Kruskal-Wallis tests were used.

Results:  69 individuals participated, with average scores of 38.78/48 and 17.28/20 for hope and quality of life, respectively. Significant correlation was identified between the scales (p = 0.01), indicating that higher hopeful scores are associated with a higher quality of life.

Conclusion:  Despite treatment limitations, participants demonstrated hope and spirituality at satisfactory levels, with a positive impact on quality of life.

DESCRIPTORS:
Public Health; Indicators of Quality of Life; Nephrology; Renal Dialysis; Renal Insufficiency, Chronic

HIGHLIGHTS

1. Average HHS score: 38.78 of 48.

2. Average score WHOQOL-SRBP: 17.28 out of 20.

3. Correlation between HHS and WHOQOL-SRPB scales: (p = 0.01).

4. Better quality of life is associated with greater hope.

RESUMEN

Objetivo:  Analizar el nivel de esperanza, espiritualidad y percepción de la calidad de vida de pacientes renales crónicos en diálisis peritoneal.

Método:  Estudio transversal analítico realizado en un centro de nefrología entre enero y abril de 2024. Se aplicó un cuestionario clínico-demográfico, la Escala de Esperanza de Herth y el instrumento Calidad de vida: espiritualidad, religiosidad y creencias personales. Para analizar la correlación entre las escalas, se utilizaron las pruebas de Pearson y Spearman; las pruebas de Mann-Whitney y Kruskal-Wallis se emplearon para la comparación entre grupos.

Resultados:  Participaron 69 individuos, con puntuaciones medias de esperanza y calidad de vida de 38,78/48 y 17,28/20, respectivamente. Se identificó una correlación significativa entre las escalas (p = 0,01), lo que indica que las puntuaciones más altas en esperanza se asocian con una mayor calidad de vida.

Conclusión:  A pesar de las limitaciones del tratamiento, los participantes mostraron niveles satisfactorios de esperanza y espiritualidad, lo que tuvo un impacto positivo en su calidad de vida.

DESCRIPTORES:
Salud Pública; Indicadores de Calidad de Vida; Nefrología; Diálisis Renal; Insuficiencia Renal Crónica

HIGHLIGHTS

1. Puntuación media EEH: 38,78 de 48.

2. Puntuación media WHOQOL-SRBP: 17,28 de 20.

3. Correlación entre las escalas EEH y WHOQOL-SRPB: (p = 0,01).

4. Una mayor calidad de vida está asociada a una mayor esperanza.

INTRODUÇÃO

A doença renal crônica (DRC) é uma condição de relevância global, com prevalência e incidência crescentes, representando um desafio à saúde pública. Sua etiologia está associada à hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e glomerulonefrites, exigindo estratégias eficazes para prevenção, diagnóstico precoce e manejo adequado1,2.

Nos estágios avançados (taxa de filtração glomerular inferior a 15 mL/min), a perda funcional torna-se significativa, com necessidade de terapia renal substitutiva. Nesse estágio, a hemodiálise (HD) é a abordagem preferencial pela eficácia na remoção de toxinas. Como alternativa, a diálise peritoneal (DP) apresenta-se como opção igualmente eficaz, oferecendo maior autonomia e possibilidade de realização domiciliar3,4.

A DP é um método que envolve a infusão, permanência e drenagem de fluidos e toxinas por meio do cateter de Tenckhoff, inserido na cavidade peritoneal. Trata-se de um procedimento que pode ser realizado no domicílio do paciente5. Existem duas abordagens para o seu início: a DP planejada, que inclui preparo prévio, treinamento e uso do cateter após 15 dias do implante; e a DP não p anejada, iniciada em até 72 horas após o implante, em caráter de urgência, sem HD prévia6,7.

De acordo com o Censo Brasileiro de Diálise de 2024, o número total de pacientes em diálise crônica alcançou 172.585. Houve uma estimativa de crescimento com 52.944 novos casos, refletidos nas taxas de prevalência e incidência de pacientes por milhão de habitantes, que foram de 812 e 249, respectivamente. Entre os prevalentes, 87,3% estavam em HD convencional, enquanto apenas 5,6% realizavam DP8.

Apesar dos benefícios associados à DP, pacientes com DRC submetidos à terapia dialítica enfrentam diversas limitações físicas e emocionais que repercutem negativamente em sua vivacidade e funcionalidade. Essas restrições comprometem a capacidade de manter atividades produtivas e sociais, impactando diretamente a qualidade de vida9.

No entanto, ao se considerar as especificidades de cada modalidade dialítica, observa-se que a DP tem sido associada a melhores indicadores de qualidade de vida, especialmente por proporcionar maior autonomia e flexibilidade no cotidiano. Um estudo comparativo entre pacientes em HD e DP demonstra que os indivíduos em DP apresentam níveis mais elevados de satisfação com o tratamento e maior estímulo da equipe de saúde, possivelmente em razão da menor frequência de contato direto com exposição a situações potencialmente estressantes, comuns nos ambientes de HD10.

Essa percepção positiva está diretamente relacionada ao conceito de qualidade de vida adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que a define como a percepção que o indivíduo faz de sua posição na vida, considerando o contexto cultural, os sistemas de valores nos quais está inserido, bem como seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações11. Nesse sentido, a DP pode favorecer uma vivência mais alinhada às dimensões subjetivas e sociais que compõem essa definição, contribuindo para uma experiência mais satisfatória e significativa do tratamento.

Nesse contexto, torna-se necessário desenvolver estratégias de enfrentamento situacional, dentre as quais se destaca o suporte oferecido pela espiritualidade e religiosidade, que conferem esperança para o melhor manejo da doença12.

A espiritualidade é percebida como a busca pela compreensão do sentido da vida e sua conexão com o sagrado, podendo ou não resultar em práticas religiosas. Enquanto a prática religiosa refere-se ao nível de crença e prática de uma religião, que pode ser organizacional (participação em atividades religiosas institucionais) ou não organizacional (sem vínculo institucional), manifestando-se nas práticas individuais, como oração, meditação, leitura de textos religiosos, ou até mesmo na expressão da fé em atividades cotidianas12.

Pode-se inferir que a espiritualidade e a religiosidade promovem esperança, traduzida no contexto da saúde como um processo contínuo e essencial para fomentar ações favoráveis, enfrentar crises, preservar a qualidade de vida, planejar metas saudáveis e favorecer a melhora da saúde13. Na prática clínica, observa-se que no atendimento de pacientes renais há uma discrepância significativa entre as necessidades espirituais desses indivíduos e as técnicas oferecidas, representando um desafio12.

Adicionalmente, uma maior adaptação à DP pode resultar em benefícios econômicos, dado que esta modalidade apresenta menor custo em comparação à HD e uma melhor adesão tende a ampliar a oferta de vagas e redução das listas de espera em HD, desde que acompanhada por políticas públicas que incentivem o tratamento domiciliar e garantam suporte técnico adequado14.

A partir das reflexões apresentadas, este estudo teve como objetivo analisar o nível de esperança, espiritualidade e percepção da qualidade de vida de pacientes renais crônicos em diálise peritoneal. Para tanto, partiu-se da seguinte questão norteadora: Em que medida a esperança e a espiritualidade impactam a qualidade de vida de pacientes com DRC em DP?

MÉTODO

Trata-se de um estudo transversal analítico com abordagem quantitativa, realizado em um centro de nefrologia de um hospital do Distrito Federal, no período de janeiro a abril de 2024.

Os critérios de inclusão foram: indivíduos com DRC, de ambos os sexos, com idade superior a 18 anos e submetidos ao tratamento de DP há mais de três meses. Foram excluídos os portadores de injúria renal aguda (IRA), aqueles com limitação na capacidade de compreensão e comunicação, incapacidade física para comparecer ao local da pesquisa e os que recusaram participar do estudo.

Os sujeitos do estudo foram selecionados a partir do universo de 96 indivíduos inseridos no programa de DP no período da coleta. Do total de indivíduos, foram excluídos: quatro devido à limitação na capacidade de compreensão e comunicação, três óbitos, duas internações em outro local, uma transferência para HD, uma transferência para outro programa, 11 ausências às consultas mensais e cinco que se recusaram a participar do estudo. Assim, foram excluídos 27 pacientes, restando 69 indivíduos que compuseram a amostra final da pesquisa.

Foram aplicados um questionário clínico-demográfico, a Escala de Esperança de Herth (EEH) e o instrumento Quality of Life - Spirituality, Religion and Personal Beliefs (WHOQOL-SRPB).

O questionário clínico-demográfico abrangeu questões referentes ao perfil, à religiosidade, espiritualidade e à terapia. Com questões de múltipla escolha e questões do tipo Likert com variação de 1 a 5 (nada, muito pouco, mais ou menos, bastante ou extremamente).

A EEH é um instrumento psicométrico de autorrelato do tipo Likert com escores que variam de 1 a 4 (discordo completamente, discordo, concordo, concordo completamente), desenvolvido para mensurar a esperança em indivíduos, especialmente com doenças crônicas. Com 12 itens, seu escore total varia de 12 a 48, sendo proporcional ao nível de esperança4,15.

O WHOQOL-SRPB é um módulo adicional do instrumento WHOQOL, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para avaliar a qualidade de vida no domínio da espiritualidade, da religiosidade e das crenças pessoais. Integrado ao WHOQOL-100 como domínio 6, é composto por 32 itens distribuídos em oito facetas: conexão espiritual, sentido da vida, admiração, totalidade e integração, força interior, paz interior, esperança/otimismo e fé. Cada faceta é pontuada de forma independente, com escores variando de 4 a 20, em que valores mais altos indicam melhor percepção de qualidade de vida na respectiva dimensão. O Domínio 6 é calculado pela média do resultado das facetas multiplicadas por quatro16,17.

Os dados foram tabulados em planilha do Microsoft Excel e analisados no programa Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 23.0. Para a análise de correlação, foram utilizados os testes de Pearson e Spearman, de acordo com a distribuição das variáveis.

Ademais, para a comparação das variáveis independentes entre os grupos, foram utilizados o teste t de Student, e o teste de Mann-Whitney, além do teste de Kruskal-Wallis. O teste qui-quadrado foi utilizado para as variáveis categorizadas, e para a significância estatística foi considerado o va or de p <0,05.

Esta pesquisa foi aprovada pelo parecer consubstanciado do Comitê de Ética em Pesquisa pelo parecer nº 6.424.369.

RESULTADOS

A amostra foi composta por 69 (100%) participantes, sexo feminino 37 (53,60%), média de idade de 56 anos; sendo 30 (43,47%) maiores de 60 anos, casados 31 (44,93%) e possuía filhos 55 (79,71%), que, em sua maioria, residiam com eles. Quanto à autodeclaração racial, 41 (59,40%) identificaram-se como pardos. O catolicismo foi a religião mais mencionada, representando 38 (55%) da amostra.

No perfil socioeconômico, 33 (47,82%) eram aposentados, 21 (30,43%) possuíam ensino fundamental, 32 (46,37%) tinham renda de até um salário-mínimo e 26 (37,68%) recebiam algum auxílio governamental. Entre as comorbidades, a hipertensão arterial sistêmica foi a mais prevalente, presente em 60 (86,96%) indivíduos, seguida por diabetes mellitus 29 (42,03%), e ansiedade em 20 (28,99%). A ausência de prática de atividade física foi uma condição comum relatada 50 (72,46%).

Em relação à religiosidade, 29 (42, 03%) participantes afirmaram frequentar igreja ou templo religioso pelo menos uma vez por semana, 27 (39,10%) consideraram-se bastante religiosos e 18 (26,10%) extremamente religiosos. No que se refere às crenças espirituais, 27 (39,13%) as classificaram como bastante importantes, enquanto 29 (42, 03%) as consideraram extremamente importantes.

O tempo de tratamento variou de 3 a 192 meses, com média de 38 meses, destes, 37 (53,62%) estavam em diálise há menos de 24 meses. Observou-se que 32 (46,38%) encontravam-se inscritos na lista de espera para transplante. Quanto ao início da terapia, 13 (18,84%) ingressaram de forma não planejada e 56 (81,16%) realizaram planejamento prévio.

As medidas descritivas e o teste de Mann-Whitney indicaram ausência de diferença significativa entre os escores dos grupos (planejados e não planejados). No entanto, houve tendência à significância nas variáveis integridade (p = 0,056) e fé (p = 0,070) (Tabela 1).

Tabela 1.
Medidas descritivas dos escores (Domínios WHOQOL e EEH) com planejados e não planejados. Brasília, DF, Brasil, 2024

Quanto à EEH, apenas um participante obteve escore 26; 18 apresentaram valores entre 31 e 39; e 50 ficaram entre 40 e 48, dos quatro atingiram o escore máximo. A média total foi de 38,78, indicando níveis elevados de esperança entre os participantes (Tabela 2).

Tabela 2.
Estatística descritiva dos escores da EEH por itens e total. Brasília, DF, Brasil, 2024

Sobre as expectativas futuras, 62 (89,85%) demonstraram otimismo perante a vida, 56 (81,15%) tinham planos a curto e longo prazo; 65 (94,20%) afirmaram ter fé que oferece conforto; 45 (65,21%) valorizavam cada dia; e, 47 (68,11%) não se sentiam sozinhos. Apenas sete (10,14%) relataram não estar otimistas quanto à vida e, dentre esses, três (42,86%) referiram se sentir muito sozinhos.

Quanto à escala WHOQOL-SRPB, os resultados variaram de 8,5 a 20, com média de 17,28. Os escores médios foram elevados, indicando que os participantes mantêm uma forte conexão com a espiritualidade e acreditam que essas dimensões impactam positivamente suas vidas. O escore total conclui essa percepção, com a predominância das somatórias próximas ao máximo (Tabela 3).

Tabela 3.
Estatística descritiva dos escores do instrumento WHOQOL-SRPB por itens e no total. Brasília, DF, Brasil, 2024

Não houve significância estatística entre os escores da EEH e do WHOQOL-SRP e o perfil, expressando que sexo, faixa etária, estado civil, religião e tempo de terapia não influenciaram significativamente as pontuações. Em relação ao WHOQOL-SRBP, o teste de Mann-Whitney mostrou tendência à significância (p = 0,080) nos escores por sexo no domínio conexão.

Nos escores por faixa etária, pelo teste de Kruskal-Wallis, foi identificado que os participantes com idade entre 60-69 anos apresentaram escores mais altos tanto na EEH quanto no WHOQOL-SRPB, em comparação com os de 20-29 anos.

Na análise de correlação de Spearman entre as escalas aplicadas, observou-se uma associação moderada positiva e estatisticamente significativa entre os escores da EEH e do WHOQOL-SRPB, indicando que níveis mais elevados de esperança estão relacionados a melhor percepção de qualidade de vida espiritual (Tabela 4).

Tabela 4
Correlação entre EEH e o WHOQOL-SRPB. Brasília, DF, Brasil, 2024

Entre os quatro participantes que obtiveram o escore máximo na EEH (48 pontos), três apresentaram 20 pontos e um registrou 19,625 pontos na escala WHOQOL-SRPB. Esses valores indicam que esses indivíduos com níveis máximos de esperança também alcançaram escores elevados na avaliação da qualidade de vida relacionada à espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais. Esse padrão sugere que, nesse grupo específico, a esperança elevada está acompanhada por percepções positivas sobre aspectos subjetivos da qualidade de vida.

A Figura 1 apresenta a correlação positiva entre as escalas, evidenciando que, à medida que os escores de qualidade de vida aumentam, os níveis de esperança também tendem a ser maiores. A maioria dos participantes apresentou escores elevados em WHOQOL-SRPB, concentrando-se entre 16 e 20, com níveis de esperança correspondentes altos entre 40 e 50. No entanto, observa-se maior dispersão nos escores de esperança para participantes com valores mais baixos de qualidade de vida, sugerindo maior variabilidade da esperança nesses casos.

Figura 1.
Dispersão da correlação entre EEH e WHOQOL. Brasília, DF, Brasil, 2024

DISCUSSÃO

Na análise sociodemográfica, observou-se predominância feminina, alinhada a análise recente, contrastando com dados internacionais e com o Censo Brasileiro de Diálise de 2024, que apontam maioria masculina entre os pacientes dialíticos8,18,19. Essa discrepância pode refletir variações conforme o recorte populacional e características da amostra. Fatores como maior busca feminina por cuidados preventivos, o papel cultural de cuidadora e maior engajamento com o autocuidado podem influenciar a indicação da diálise peritoneal19.

A convivência com o cônjuge e a presença de filhos configuram uma rede de apoio essencial para a eficácia da diálise peritoneal. Essa modalidade exige adaptação conjunta entre paciente e familiares, o que promove o bem-estar dos pacientes, sendo observado que muitos não se sentem sozinhos. A família participa ativamente do tratamento, oferecendo suporte afetivo e financeiro, além de auxiliar na adesão terapêutica, especialmente nos casos em que assume diretamente o manejo da diálise20.

Quanto às comorbidades, HAS e DM foram as mais prevalentes, em concordância com os dados epidemiológicos do Censo Brasileiro de Diálise de 2024 em que a HAS (29%) e DM (29%) constituíram mais de metade das doenças de base para a doença renal8.

Neste estudo, a predominância da cor parda diverge de pesquisas anteriores, que apontaram prevalência da cor branca2,9. Observou-se também ampla variação no nível de escolaridade, com predomínio do ensino fundamental, caracterizando um perfil de menor instrução formal. Evidências indicam que raça/cor e escolaridade atuam como fatores protetivos para a DRC, sendo menor a probabilidade de diagnóstico entre indivíduos autodeclarados brancos ou pardos com ensino médio ou superior completo2.

Verificou-se diversidade ocupacional entre os participantes, predominando vínculos informais entre os que trabalhavam, enquanto quase metade estava aposentada. Embora a DRC e o tratamento dialítico não inviabilizem o trabalho, impõem limitações que justificam tais vínculos e o perfil socioeconômico mais vulnerável observado21.

Essa realidade ocupacional está diretamente relacionada ao contexto financeiro desses indivíduos. Cerca de metade recebia até um salário-mínimo, evidenciando o impacto funcional da DRC. Em estudo comparativo, 82,8% dos indivíduos apresentaram renda equivalente a um salário-mínimo21.

O tempo médio de 38 meses de tratamento observado neste estudo foi consideravelmente superior à média reportada por outro estudo brasileiro, que foi de 16,68 meses22. Em relação à sobrevida, dados da literatura indicam estabilidade, com 59% dos pacientes ainda vivos após 96 meses de acompanhamento1. No contexto internacional, verificou-se que 48% dos pacientes permaneciam em DP após cinco anos, sugerindo que fatores como a modalidade predominante de terapia, o perfil clínico dos pacientes e a estrutura assistencial disponível influenciam diretamente o tempo de permanência em terapia renal substitutiva23.

Dados recentes do Censo Brasileiro de Diálise de 2024 reforçam que estratégias voltadas à prevenção de complicações como anemia, hiperfosfatemia e doenças cardiovasculares são fundamentais para ampliar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida desses pacientes8,23.

Mais da metade dos participantes declarou professar a religião católica, corroborando estudo anterior, no qual 60% eram católicos e a fé foi considerada fator importante no enfrentamento da DRC24. A espiritualidade e a religiosidade são dimensões relevantes para o fortalecimento emocional, auxiliando no enfrentamento das dificuldades diárias. A esperança, adicionalmente, contribui para manter a motivação e a perspectiva de um futuro melhor. Assim, profissionais de saúde devem considerar essas dimensões no cuidado integral ao paciente renal crônico.21.

A diferença entre os grupos planejados e não planejados justifica-se pela recente implementação da modalidade não planejada no hospital, ainda com baixa adesão no DF. A diálise de urgência vem sendo difundida mundialmente, considerada alternativa viável e segura, contribuindo para ampliar a prevalência da DP entre pacientes com DRC25,26,27.

Essa distinção pode impactar tanto a adesão ao tratamento quanto aspectos emocionais e espirituais. Houve tendência à significância nos domínios de integridade e fé, indicando maior equilíbrio emocional e espiritual entre os que iniciaram a terapia de forma planejada. Esses achados sugerem que o planejamento prévio favorece o ajuste clínico e o fortalecimento emocional diante dos desafios da doença.

Nesse contexto, a fé mostrou-se essencial no enfrentamento, promovendo força, conforto e bem-estar. Fé e espiritualidade foram identificadas como alicerces na busca de sentido existencial e de estratégias de resiliência, evidenciando a relevância da dimensão espiritual no cuidado à pessoa com DRC24.

Esse fortalecimento interno parece influenciar diretamente a forma como os pacientes percebem sua condição de saúde, visto que muitos não se consideraram doentes, demonstrando bem-estar e otimismo. Estudos indicam que uma autopercepção positiva favorece a evolução clínica e pode impactar diretamente a mortalidade2.

Nesta perspectiva, os resultados da EEH apontam que, apesar das adversidades, a maioria dos participantes apresentou escores elevados, demonstrando que a esperança é um sentimento predominante, alinhando-se a outro estudo que obteve dados compatíveis ao utilizar a mesma escala9.

Os resultados positivos do WHOQOL-SRPB, indicam que espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais exercem influência favorável sobre a qualidade de vida dos pacientes. Estudos semelhantes reforçam essa evidência em pacientes em HD. Enquanto aqueles em DP apresentaram qualidade de vida superior, com melhor desempenho físico e emocional em comparação aos de HD21,28.

Não houve significância estatística entre as variáveis sexo, idade, estado civil, religião e tempo de terapia e os escores das escalas, indicando que tais fatores não influenciaram os resultados. Observou-se, contudo, tendência à significância no domínio de conexão entre os sexos, com maior envolvimento entre mulheres. Esse achado sugere que o sexo feminino tende a demonstrar maior abertura para práticas religiosas e espiritualizadas, refletindo maior conexão espiritual29.

Este estudo observa que os indivíduos com maior idade demonstram níveis superiores de esperança e qualidade de vida espiritual, possivelmente relacionados à resiliência, valorização do presente e internalização de dimensões espirituais. Embora outros trabalhos apontem o perfil clínico e a vulnerabilidade como influenciadores da esperança, a experiência de vida se destaca como fator positivo7.

Verificou-se correlação entre a EEH e WHOQOL-SRPB, evidenciando que níveis elevados de esperança impactam positivamente na qualidade de vida. A esperança revela-se como um recurso humano fundamental na adaptação a adversidades, sendo importante fomentar estratégias que estimulem o enfrentamento e o bem-estar30. Apesar da escassez de pesquisas sobre espiritualidade e esperança em pacientes em DP, evidências em HD revelaram resultados positivos entre WHOQOL-SRPB e EEH, corroborando os achados deste estudo21.

Por fim, destacam-se como limitações do estudo o curto intervalo entre as consultas, epidemia de dengue no período, mudança de local da unidade e perdas de seguimento (transferências, internações, óbitos), que impactaram na coleta de dados.

CONCLUSÃO

O presente estudo evidenciou que pacientes renais crônicos em diálise peritoneal apresentam níveis elevados de esperança e espiritualidade, os quais se associam positivamente à percepção de qualidade de vida. Os escores obtidos nas escalas EEH e WHOQOL-SRPB indicam que, apesar das limitações impostas pela doença e pelo tratamento dialítico, os participantes mantêm recursos internos significativos para o enfrentamento da condição clínica. A correlação estatisticamente significativa entre esperança e qualidade de vida reforça o papel da dimensão espiritual como fator protetivo e promotor de bem-estar.

A espiritualidade, expressa por meio da fé, do sentido de vida e da força interior, contribuiu para o equilíbrio emocional e para a resiliência diante dos desafios impostos pela terapia renal substitutiva. A esperança, por sua vez, revelou-se um elemento central na construção de perspectivas positivas, favorecendo a adesão ao tratamento e a preservação da qualidade de vida. Tais achados reforçam a importância de incorporar abordagens que valorizem a dimensão espiritual no cuidado integral ao paciente renal, promovendo estratégias terapêuticas mais humanizadas e eficazes.

AGRADECIMENTOS

A pesquisa foi realizada com o apoio da Escola Superior em Ciências da Saúde (ESCS), por meio do Projeto de Iniciação Científica (PIC) - Edital n° 10, de 11 de maio de 2023.

  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Lemos KC, Borges MS, Araújo CV, de Moraes SEM, Braz LS. Esperança, espiritualidade e qualidade de vida: um estudo com pacientes renais crônicos em diálise peritoneal. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day“];31:e100533pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.100533pt

Disponibilidade de dados:

Os autores declaram que os dados estão disponíveis de forma completa no corpo do artigo.

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Editado por

  • Editor associado:
    Dra. Luciana de Alcantara Nogueira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Jul 2025
  • Aceito
    10 Nov 2025
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