RESUMO
Objetivo: Construir e validar um roteiro de ensino baseado em simulação para a formação interprofissional em saúde, voltado ao acolhimento de familiares e à psicoeducação sobre o comportamento suicida infantil.
Método: Estudo metodológico de construção e validação de uma tecnologia educacional. A validação foi realizada em 2022 com oito especialistas, por meio de um formulário autoaplicado. Os dados foram analisados por estatística descritiva e pelo Índice de Validade de Conteúdo.
Resultados: O roteiro inclui objetivos, público-alvo, recursos e etapas de prebriefing, briefing e debriefing. A maioria dos especialistas era mulher, enfermeira e doutora, com expertise em suicídio infantil. Dos itens avaliados, 85% apresentaram Índice de Validade de Conteúdo ≥ 0,70. Os itens relacionados ao objetivo, ao tempo e às ações esperadas foram revisados, resultando na versão validada do roteiro.
Conclusão: O roteiro validado é original e relevante para a formação interprofissional em saúde, contribuindo para o fortalecimento do acolhimento familiar e da prevenção do comportamento suicida infantil.
DESCRITORES:
Prevenção do Suicídio; Criança; Treinamento com Simulação de Alta Fidelidade; Exercício de Simulação; Família
HIGHLIGHTS
1. Apresenta roteiro de simulação validado sobre prevenção do suicídio infantil.
2. Oferece um recurso experiencial de ensino interprofissional em saúde.
3. Enfatiza habilidades para o acolhimento familiar e psicoeducação em saúde mental.
4. Ferramenta original para formação de profissionais e estudantes da saúde.
ABSTRACT
Objective: To construct and validate a simulation-based teaching script for interprofessional health training, focused on supporting families and providing psychoeducation about suicidal behavior in children.
Method: Methodological study on the development and validation of an educational technology. Validation was carried out in 2022 with eight experts, using a self-administered form. Data were analyzed using descriptive statistics and the Content Validity Index.
Results: The script includes objectives, target audience, resources, and pre-briefing, briefing, and debriefing stages. Most of the experts were women, nurses, and PhDs, with expertise in child suicide. Of the items evaluated, 85% presented a Content Validity Index ≥ 0.70. The items related to the objective, time, and expected actions were revised, resulting in the validated version of the script.
Conclusion: The validated script is original and relevant for interprofessional health training, contributing to the strengthening of family support and the prevention of suicidal behavior in children.
DESCRIPTORS:
Suicide Prevention; Child; High Fidelity Simulation Training; Simulation Exercise; Family.
HIGHLIGHTS
1. Presents a validated simulation script on child suicide prevention.
2. Offers an experiential resource for interprofessional health education.
3. Emphasizes skills for family support and psychoeducation in mental health.
4. Original tool for training health professionals and students.
RESUMEN
Objetivo: Construir y validar un guion didáctico basado en simulación para la formación interprofesional en salud, enfocado en el apoyo a las familias y la psicoeducación sobre la conducta suicida en niños.
Método: Estudio metodológico de la construcción y validación de una herramienta educativa. La validación se realizó en 2022 con ocho expertos, utilizando un formulario autoadministrado. Los datos se analizaron mediante estadística descriptiva y el Índice de Validez de Contenido.
Resultados: El guion incluye objetivos, público objetivo, recursos y etapas de preparación, preparación y análisis posterior. La mayoría de los expertos eran mujeres, enfermeras y doctoras, con experiencia en suicidio infantil. Del total de ítems evaluados, el 85% presentó un Índice de Validez de Contenido ≥ 0,70. Se revisaron los ítems relacionados con el objetivo, el tiempo y las acciones esperadas, lo que dio como resultado la versión validada del guion.
Conclusión: El guion validado es original y relevante para la formación interprofesional en salud, contribuyendo al fortalecimiento del apoyo familiar y la prevención de la conducta suicida en niños.
DESCRIPTORES:
Prevención Del Suicidio; Niño; Enseñanza Mediante Simulación de Alta Fidelidad; Ejercicio de Simulación; Familia.
HIGHLIGHTS
1. Presenta un guion de simulación validado sobre la prevención del suicidio infantil.
2. Ofrece un recurso experiencial para la educación interprofesional en salud.
3. Enfatiza las habilidades para el apoyo familiar y la psicoeducación en salud mental.
4. Herramienta original para la capacitación de profesionales y estudiantes de la salud.
INTRODUÇÃO
O Comportamento Suicida Infantil (CSI) é um fenômeno multifatorial e complexo, com especificidades e fatores de risco que se associam ao processo de desenvolvimento das crianças. A vivência de relações familiares conflituosas, a vulnerabilidade social, as experiências adversas na infância, as perdas, o histórico familiar de transtornos mentais e de suicídio, bem como o diagnóstico de transtornos mentais e/ou a vivência de violências autoprovocadas, estão entre os fatores associados ao Suicídio Infantil (SI)1-3.
Alguns estudos indicam que o uso excessivo de mídias sociais, as vivências escolares desafiadoras (bullying), as dificuldades na resolução de conflitos, as mudanças comportamentais, o acesso facilitado a meios letais e as inseguranças alimentares e financeiras também se associam a agravos à saúde mental na infância4-6. Além disso, os resultados de uma metanálise que analisou crianças de seis a 12 anos indicaram que 7,5% apresentaram ideação suicida antes de completarem 13 anos, 2,2% chegaram a elaborar um plano e 1,4% manifestaram comportamentos autolesivos7. No contexto brasileiro, as taxas de mortalidade nos últimos anos apontaram para um aumento nas mortes por suicídio entre crianças e adolescentes menores de 14 anos, reforçando a importância da prevenção do comportamento suicida também na infância8.
Os adultos responsáveis pelas crianças, especialmente os familiares e profissionais de saúde, exercem papel central nos cuidados, na promoção da saúde mental e na prevenção de agravos nesse público. São comumente esses adultos que fortalecem vínculos afetivos saudáveis, oferecem apoio e proteção, além de contribuírem para o desenvolvimento de competências socioemocionais nos mais jovens5. Paralelamente, os profissionais de saúde desempenham o cuidado às crianças em diversos níveis de atenção à saúde, com destaque para o contexto da Atenção Primária à Saúde (APS)9.
Apesar do relevante trabalho realizado por profissionais de saúde junto às crianças, evidenciam-se lacunas nos processos de formação, baixa afinidade com o cuidado e fragilidade para a atuação com esse público. Esses fatores contribuem para o afastamento de diferentes categorias profissionais da compreensão do fenômeno do CSI e da realização das ações necessárias diante dessas necessidades10-11. Além disso, persiste a dificuldade no reconhecimento de processos de sofrimento emocional e comportamentos nocivos em crianças.
Dentre as estratégias para o enfrentamento dessa realidade, o investimento na formação e na capacitação de profissionais e futuros profissionais da saúde mostra-se como um caminho promissor para a promoção de cuidados mais resolutivos e humanizados no campo da saúde mental10-11. A literatura científica aponta a necessidade de aprimoramento do letramento sobre a prevenção do SI, tanto entre os profissionais de saúde quanto entre os familiares1,10.
Nesse sentido, evidencia-se a importância de avançar em saberes e práticas que potencializam o cuidado frente a esse fenômeno, abrangendo a identificação precoce, o acolhimento, o acompanhamento e as ações de prevenção. Além disso, destaca-se a necessidade de promover a psicoeducação e o apoio aos familiares, reconhecendo-os como agentes de cuidado e proteção no cotidiano das crianças12-13.
O uso de estratégias ativas de ensino-aprendizagem que promovem o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes voltadas à prevenção do suicídio tem sido amplamente recomendado e aplicado em diferentes contextos. Entre essas estratégias, destaca-se o Ensino Baseado em Simulação (EBS), que fortalece a formação profissional de maneira realista, responsável, segura e ética14.
O EBS articula teoria e prática, favorecendo o desenvolvimento de habilidades técnicas, socioemocionais, comunicacionais, de raciocínio clínico e de tomada de decisão, com efeitos positivos observados na satisfação e na autoconfiança dos participantes, no engajamento nas atividades e na redução da ansiedade15. Junto a isso, a validação de recursos educativos em saúde por especialistas, como os roteiros elaborados para o EBS, constitui uma etapa fundamental na avaliação de materiais, com o objetivo de certificar sua confiabilidade, relevância e adequação ao público-alvo para o qual foram desenvolvidos16.
Diante desse contexto, o estudo teve como objetivo de construir e validar um roteiro de ensino baseado em simulação para a formação interprofissional em saúde, voltado ao acolhimento de familiares e à psicoeducação sobre o comportamento suicida infantil.
MÉTODO
Trata-se de um estudo metodológico de construção e validação de um roteiro para o EBS, descrito a partir do Methodological Study Reporting Checklist (MISTIC). O roteiro foi desenvolvido em 2022, com base em um template validado em estudos prévios e em recomendações internacionais sobre simulação clínica14,17-19.
A abordagem sobre o CSI foi fundamentada em artigos científicos, diretrizes e manuais disponíveis na literatura, além de ser enriquecida pela expertise das autoras na temática1-4. O cenário proposto na simulação possibilita aos participantes o desenvolvimento de habilidades, atitudes e comportamentos referentes ao acolhimento de familiares e à psicoeducação sobre o comportamento suicida infantil.
O roteiro foi submetido à validação de conteúdo por especialistas entre junho e setembro de 2022. A seleção dos especialistas foi realizada por meio da ferramenta de busca de currículos da Plataforma Lattes, base de dados brasileira de currículos acadêmicos, com foco na busca por profissionais com expertise nas temáticas do CSI e/ou EBS.
Foram convidados 36 especialistas por meio de carta-convite encaminhada por e-mail institucional, dos quais oito aceitaram participar e compuseram a amostra final do estudo. Trata-se de uma amostra não probabilística, do tipo intencional, composta por especialistas selecionados a partir de critérios de formação acadêmica (mestres e doutores) e experiência profissional na área de interesse (CSI e/ou EBS). Esse tipo de amostragem é utilizado em estudos nacionais de validação, nos quais a participação de especialistas com experiência comprovada contribui para a avaliação da pertinência, clareza e relevância dos materiais desenvolvidos18-19.
O formulário encaminhado aos especialistas continha o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para leitura. Em caso de concordância com o TCLE, os especialistas foram direcionados para responder a um questionário de caracterização (gênero, idade, localização geográfica, profissão, nível de pós-graduação, área de expertise e tempo de experiência) e à avaliação do roteiro, a partir de respostas indicadas como: adequado, regular ou inadequado, além de espaço destinado a sugestões.
Os dados coletados foram processados no software Microsoft Excel e analisados no programa R, versão 4.1.2. Foram realizadas análises descritivas e o cálculo do Índice de Validade de Conteúdo (IVC)16. O cálculo foi conduzido a partir da soma dos itens adequados e regulares. O critério de aceitação dos itens foi IVC = 0,70 (70,0%). O estudo seguiu as recomendações da Resolução nº 466 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS), está em consonância com a Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024, e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição de origem, sob o parecer nº 4.692.421.
RESULTADOS
O roteiro foi validado por oito especialistas, sendo seis (75,0%) do sexo feminino, com idade média de 40,7 anos (DP = 6,7; mínimo = 33 anos; máximo = 51 anos) e residentes da Região Sudeste (75,0%) do Brasil. Em relação à formação, quatro (50,0%) eram enfermeiros, três (37,5%) psicólogos e um (12,5%) biomédico, dos quais seis (75,0%) tinham titulação de doutorado. Cinco (62,5%) profissionais afirmaram possuir expertise na área de CSI e três (37,5%) na área de EBS, com uma média de atuação de 13,3 anos (DP = 7,5; mínimo = 5 anos; máximo = 28 anos).
Na análise do IVC, o objetivo (0,63), tempo de duração (0,63) e o segundo item das ações esperadas obtiveram resultados inferiores ao valor de corte. Além disso, os itens “instruções para o encenador” (EBS = 0,33; CSI = 1,00) e “ação esperada” 2 (EBS = 1,00; CSI = 0,40) apresentaram discrepâncias nas avaliações em relação à expertise dos especialistas (Tabela 1).
Índice de Validade de Conteúdo do roteiro de ensino baseado em simulação sobre o acolhimento da família e à psicoeducação sobre o suicídio infantil por especialistas (n=8). Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022
Com base nas sugestões, foram realizadas modificações para promover maior clareza e facilitar a compreensão dos seguintes itens: redação do objetivo geral, ajuste do item dois das ações esperadas e atualização do tempo de duração de cada etapa, com alteração da simulação de 20 para 25 minutos e do debriefing de 40 para 50 minutos. Após as correções, foi obtida a versão validada do roteiro: “A assistência inicial para o acolhimento à família e psicoeducação sobre a prevenção do suicídio infantil”, que pode ser acessada por meio do QR Code disponibilizado a seguir (Figura 1).
QR Code de acesso ao roteiro validado para o ensino baseado em simulação referente ao acolhimento da família e à psicoeducação sobre a prevenção do suicídio infantil. Ribeirão Preto, SP, Brasil, 2022 Fonte: As autoras (2022)
DISCUSSÃO
O CSI constitui um fenômeno com implicações ainda pouco exploradas na formação de profissionais de saúde, especialmente no contexto brasileiro. A prevenção do comportamento suicida na infância tem sido discutida à luz de abordagens comunitárias e sociais de cuidado. Assim, torna-se fundamental o envolvimento da família, da comunidade e dos serviços de saúde, uma vez que os profissionais de saúde são procurados por familiares em busca de compreensão e de auxílio diante das vivências desafiadoras do CSI12,20.
No roteiro desenvolvido, a avó de Bernardo foi definida como a referência no cuidado da criança, sendo essa escolha fundamentada no caso simulado, que aborda o histórico de suicídio da mãe da criança. Um estudo brasileiro sobre a assistência em casos de ideação suicida infantil evidencia que, nos relatos de atendimentos a crianças, predominam as menções à presença da figura feminina11. Nesse contexto, o papel da avó foi desempenhado por uma encenadora, sendo esta uma participante do EBS que deve passar por um rigoroso preparo prévio, com base nas instruções do roteiro21.
Nesse sentido, as ações esperadas estabelecem-se como objetivos que devem ser realizados pelos participantes durante a assistência, os quais ficam disponibilizados apenas para o acompanhamento dos facilitadores, que deverão avaliar o seu alcance e os possíveis pontos de atenção relacionados à interação dos participantes com a encenadora14,21. A partir da realização dessas ações, os participantes desenvolvem habilidades procedimentais e atitudinais sobre o cuidado frente ao CSI. Portanto, para que isso se concretize, é indispensável que os participantes disponham de formação prévia, subsídios e recursos suficientes para a abordagem e cuidado a serem realizados11.
Durante a simulação, os participantes que assumem o papel de profissional de saúde devem adotar postura acolhedora e empática, interagindo com a avó de Bernardo para compreender o contexto e as individualidades do caso, identificar sofrimento emocional, fatores de risco e de proteção, comportamentos, histórico, fragilidades e aspectos relacionados ao luto por suicídio infantil22-23. Ademais, podem promover a psicoeducação, reforçando interesses, atividades e necessidades específicas da criança, enquanto a encenadora fornece pistas adicionais que enriquecem o cuidado14,21-23.
Além disso, estudos destacam que a conexão familiar e escolar, o suporte emocional percebido, a autoestima, o desenvolvimento de estratégias saudáveis de enfrentamento, a prática de atividades físicas, as relações entre colegas, o sentimento de pertencimento e a qualidade da comunicação atuam como fatores protetivos frente à SI23-24. Para que esses fatores se efetivem, é fundamental que os familiares tenham suas preocupações validadas, participem de diálogos cuidadosos sobre o tema, sem atitudes moralistas, e recebam acolhimento emocional, letramento e acesso aos cuidados de saúde.
Entre as ações esperadas, destaca-se a atenção ao esclarecimento de dúvidas e à desmistificação de crenças sobre o CSI, sustentada pelo reconhecimento do triplo tabu relacionado à morte, ao suicídio e ao suicídio infantil. Socialmente, persiste o mito de que crianças não apresentam comportamento suicida; contudo, registros indicam que, embora a expressão do desejo de morrer seja distinta, ele de fato ocorre nesse grupo10.
As queixas e necessidades identificadas refletem achados da literatura sobre o CSI, que pode se manifestar por sinais como expressão do desejo de morrer, irritabilidade, queda no desempenho escolar, isolamento social e dificuldade de compreender sentimentos, observados em Bernardo. O roteiro também evidencia fatores de risco relevantes, incluindo a morte de um ente querido por suicídio, o luto por suicídio, o sentimento de culpa, as crenças de que crianças não tentam suicídio, as fragilidades no sentimento de pertença e na esperança, as dificuldades de expressão emocional, os conflitos familiares e situações que evidenciam a criança em perigo, como precipitações de altura10,23.
As preocupações podem se intensificar em casos que envolvem famílias enlutadas por suicídio. Assim, o acolhimento deve iniciar-se com a avó, por meio de escuta empática, sem julgamentos ou estigmas relacionados à morte por suicídio, de forma a favorecer a construção de novas perspectivas de cuidado pelo profissional de saúde. A vivência do comportamento suicida e do suicídio de familiares, principalmente dos pais ou responsáveis, pode configurar-se como um fator de risco significativo para crianças e adolescentes enlutados25-26.
Achados de um estudo norte-americano apontaram associações entre a vivência de tentativas de suicídio parental e a identificação de transtornos mentais em crianças e adolescentes entre os oito e os 16 anos, ressaltando a potencial existência de processos de sofrimento nesse grupo26. Além disso, a ausência de uma abordagem e de comunicação explícita entre os familiares frente ao suicídio de um ente querido pode potencializar processos de sofrimento, dificuldades na elaboração do luto e sentimentos comumente presentes na vivência dos enlutados, como culpa, vergonha, isolamento e estigma25.
Nesses contextos, destaca-se o papel da posvenção do suicídio, que engloba o cuidado e a assistência a pessoas ou grupos enlutados25-26. Em crianças, recomenda-se a psicoeducação individual e coletiva, com abordagens seguras, acolhedoras e adaptadas à faixa etária, a participação de adultos de confiança na orientação e no acolhimento do luto, estratégias de promoção da saúde mental no território familiar e o uso de recursos lúdicos, como livros e jogos, para favorecer a interação e o cuidado26-27.
Outro aspecto importante nas abordagens sobre o CSI diz respeito ao uso constante e, por vezes, abusivo de ambientes virtuais pelas crianças, especialmente de redes sociais, jogos e outros aplicativos. Isso se mostra relevante mesmo em contextos que exigem a supervisão dos responsáveis e a aplicação de regras de idade mínima para o acesso28. Além disso, observa-se um aumento do número de crianças e adolescentes que buscam conteúdos relacionados à autolesão e ao suicídio nas redes sociais29.
No que se refere ao EBS, a estratégia favorece a reflexão sobre a importância do preparo emocional do adulto, da construção de um ambiente protetivo e com potencial para contribuir para o cuidado da criança. Para que o ensino simulado seja mais efetivo, é fundamental valorizar os critérios de operacionalização da simulação, incluindo a oferta de recomendações, orientações e o preparo tanto dos participantes quanto dos facilitadores da atividade14. Todavia, é importante frisar que esse processo de ensino-aprendizagem, com o uso desse roteiro, torna-se efetivo quando há o preparo prévio suficiente da encenadora e dos facilitadores21.
Os materiais de estudo prévio e as propostas de ensino que antecedem a simulação contribuem para o preparo dos participantes, promovendo um ambiente de aprendizagem mais eficaz e seguro14. Estudos metodológicos que descrevem a construção e a validação de roteiros simulados sobre a prevenção do suicídio indicam que os especialistas avaliam positivamente a disponibilização desses materiais para os participantes17-18.
O contexto de cuidado proposto no EBS considerou o potencial da APS para estabelecer vínculos, identificar necessidades, acolher e intervir precocemente em situações relacionadas ao comportamento suicida. Embora o roteiro não envolva interação direta com a criança, o último objetivo das ações esperadas reforça o papel dos participantes em auxiliar o familiar na busca por redes de apoio, valorizando a continuidade do cuidado. A compreensão dos dispositivos que integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS), assim como o fortalecimento da abordagem interprofissional, pode favorecer os encaminhamentos adequados e a continuidade do cuidado da criança11,30.
Além disso, a composição do EBS permite que o processo de ensino-aprendizagem seja fortalecido após a simulação por meio do debriefing, que deve envolver participantes, facilitadores, observadores e a encenadora14,17. O debriefing constitui um momento destinado ao aprofundamento de discussões e reflexões sobre o CSI, sendo fundamental para que os participantes construam sua prática clínico-assistencial sem reforçar mitos, crenças ou comportamentos potencialmente prejudiciais relacionados ao tema. Para tanto, é essencial que esse processo seja conduzido por facilitadores com domínio das temáticas abordadas, incluindo o desenvolvimento do EBS14,17.
Vale destacar que o roteiro proposto não trabalha, necessariamente, com a presença de um caso concreto de ideação ou risco de suicídio em crianças. Para identificar as situações de risco, é fundamental realizar uma avaliação em saúde diretamente com a criança, conduzida por profissionais qualificados, evitando abordagens reducionistas baseadas apenas em relatos de familiares ou cuidadores, que, embora relevantes, não substituem a escuta direta da criança.
A perspectiva de cuidado ampliado em saúde mental infantojuvenil requer a centralização da criança no processo de atenção, reconhecendo-a como sujeito de direitos e participante ativo no cuidado. Isso implica a articulação intersetorial com outros atores e contextos - como escola, serviços de assistência social, comunidade e sistema de saúde - que possam atuar como agentes de proteção, promoção da saúde e fortalecimento das redes de apoio. Compreender e atuar sobre o comportamento suicida continua sendo um desafio para profissionais de saúde, familiares e redes de apoio, sendo essencial que a atenção seja sistematizada e fundamentada em evidências científicas2,9,11,23,29-30.
Nesse sentido, o roteiro contempla ações iniciais a serem desenvolvidas no âmbito da APS, promovendo avanços no cuidado de forma segura e estruturada, o que contribui para uma prática clínica-assistencial mais preparada na abordagem do comportamento suicida infantil. Além disso, trata-se de um material replicável, cuja divulgação pode favorecer processos formativos em saúde e educação, sob uma perspectiva interprofissional que valoriza o acolhimento inicial, a psicoeducação e a prevenção coletiva do suicídio, reconhecendo que essa prevenção deve ocorrer de forma integrada e não apenas individual.
O estudo não está isento de limitações. A abordagem restringe-se à vivência de um familiar da criança, sem contemplar as experiências de crianças, os marcadores sociais da desigualdade e a interseccionalidade presentes nas demandas de saúde mental no Brasil. Na etapa de validação, a seleção dos especialistas ocorreu exclusivamente por meio digital, o que pode ter favorecido a participação de profissionais vinculados à academia e a menor abrangência de outras regiões do país. Além disso, o roteiro não foi avaliado junto ao público-alvo, apontando para a necessidade de futuras investigações que contemplem essa etapa. Percebe-se, ainda, a importância de estudos futuros que possam ampliar a discussão sobre o suicídio infantil, especialmente a partir de características contextuais brasileiras e da escuta das crianças para a compreensão do fenômeno.
CONCLUSÃO
O estudo alcançou seu objetivo ao construir e validar um roteiro de ensino baseado em simulação, voltado à formação interprofissional em saúde, com foco no acolhimento de familiares e na psicoeducação sobre o comportamento suicida infantil. A validação por especialistas evidenciou, de modo geral, adequada validade de conteúdo, com elevados índices de concordância na maioria dos itens avaliados. Itens específicos, como o objetivo, o tempo de duração e uma das ações esperadas, apresentaram valores inferiores ao ponto de corte, bem como discrepâncias entre os avaliadores com diferentes expertises, o que subsidiou ajustes no material.
As revisões realizadas contemplaram aprimoramentos na clareza da redação, nas ações esperadas e na organização temporal das etapas, resultando na versão final validada do roteiro, com maior consistência e compreensibilidade. O material mostra-se original e potencialmente relevante para a formação em saúde, com foco no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes no acolhimento familiar e na prevenção do comportamento suicida infantil.
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FINANCIAMENTO
Este estudo foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
Silva AC, Pedrollo LFS, Cunha IM, Paterna MIA, Bertoncin RA, Vedana KGG. Acolhimento à família e psicoeducação sobre o suicídio infantil: validação de um roteiro de simulação. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e101879pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.101879pt
Disponibilidade de dados:
Os autores declaram que os dados estão disponíveis em repositório online (https://sites.usp.br/inspiracao/wp-content/uploads/sites/1533/2026/04/Roteiro-Avaliacao-Cogitare.pdf).
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Editor associado:
Dr. Josielson Costa da Silva


