Open-access Avaliação da completude do preenchimento da caderneta da gestante

RESUMO

Objetivo:   Avaliar a qualidade dos registros na Caderneta da Gestante em Boa Vista-Roraima, com ênfase na legibilidade e completude das informações do pré-natal.

Método:   Estudo descritivo transversal, de abordagem quantitativa e avaliativa, realizado em um hospital materno-infantil, no município de Boa Vista, Roraima, entre novembro e dezembro de 2024. Foram avaliadas 71 Cadernetas da Gestante pelos parâmetros de legibilidade e completude. Os dados foram digitados e analisados no Microsoft Excel, com dupla conferência para correção de inconsistências, e a completude geral de cada caderneta foi obtida pela média aritmética simples das proporções de preenchimento das seções, aplicando-se ponderação proporcional ao número de variáveis quando necessário.

Resultados:   Todas as cadernetas apresentaram registros legíveis. Quanto à completude, 7,04% foram classificadas como de preenchimento muito ruim, 81,06% como ruim e 11,26% como regular, não havendo nenhuma considerada boa ou excelente. A seção Exames Complementares de Rotina obteve os melhores resultados, enquanto Atividades Complementares apresentou os piores índices.

Conclusão:   A maioria dos registros mostrou-se insatisfatória, revelando baixa valorização da Caderneta da Gestante e sugerindo descumprimento das orientações de preenchimento.

DESCRITORES:
Programas de Imunização; Registros de Saúde Pessoal; Gravidez; Cuidado Pré-Natal; Avaliação em Saúde

HIGHLIGHTS

1. Nenhuma caderneta foi classificada com registro bom ou excelente.

2. Significativa fragilidade na utilização da caderneta no pré-natal.

3. 100% das cadernetas foram consideradas com registros legíveis.

4. Seção de Exames Complementares de Rotina apresentou os melhores resultados.

ABSTRACT

Objective:   To evaluate the quality of the Records in the Pregnant Woman’s Booklet in Boa Vista- Roraima, with an emphasis on the legibility and completeness of prenatal information.

Method:   Cross-sectional descriptive study, with a quantitative and evaluative approach, conducted in a maternal and child hospital in the municipality of Boa Vista, Roraima, between November and December 2024. 71 Pregnant Woman’s Booklets were evaluated based on legibility and completeness parameters. The data were entered and analyzed in Microsoft Excel, with double-checking for correction of inconsistencies, and the overall completeness of each booklet was obtained by the simple arithmetic mean of the filling proportions of the sections, applying proportional weighting to the number of variables when necessary.

Results:   All booklets had legible records. Regarding completeness, 7.04% were classified as very poor filling, 81.06% as poor, and 11.26% as fair, with none considered good or excellent. The Routine Complementary Exams section achieved the best results, while Complementary Activities showed the worst rates.

Conclusion:   Most records were found to be unsatisfactory, revealing low appreciation for the Pregnant Woman’s Booklet and suggesting non-compliance with filling guidelines.

DESCRIPTORS:
Immunization Programs; Health Records, Personal; Pregnancy; Prenatal Care; Health Evaluation

HIGHLIGHTS

1. No booklet was classified with a good or excellent record.

2. Significant fragility in the use of the booklet during prenatal care.

3. 100% of the booklets were considered to have legible records.

4. The Routine Complementary Exams section showed the best results.

RESUMEN

Objetivo:   Evaluar la calidad de los Registros en la Libreta de la Gestante en Boa Vista-Roraima, con énfasis en la legibilidad y completitud de la información del prenatal.

Método:   Estudio descriptivo transversal, de enfoque cuantitativo y evaluativo, realizado en un hospital materno-infantil, en el municipio de Boa Vista, Roraima, entre noviembre y diciembre de 2024. Se evaluaron 71 Libretas de la Gestante por los parámetros de legibilidad y completitud. Los datos fueron digitados y analizados en Microsoft Excel, con doble verificación para corrección de inconsistencias, y la completitud general de cada libreta fue obtenida por la media aritmética simple de las proporciones de llenado de las secciones, aplicando ponderación proporcional al número de variables cuando fue necesario.

Resultados:   Todas las libretas presentaron registros legibles. En cuanto a la completitud, 7,04% fueron clasificadas como de llenado muy malo, 81,06% como malo y 11,26% como regular, no habiendo ninguna considerada buena o excelente. La sección Exámenes Complementarios de Rutina obtuvo los mejores resultados, mientras que Actividades Complementarias presentó los peores índices.

Conclusión:   La mayoría de los registros resultaron insatisfactorios, revelando baja valoración de la Libreta de la Gestante y sugiriendo incumplimiento de las orientaciones de llenado.

DESCRIPTORES:
Programas de Inmunización; Registros de Salud Personal; Embarazo; Atención Prenatal; Evaluación en Salud

HIGHLIGHTS

1. Ninguna libreta fue clasificada con registro bueno o excelente.

2. Significativa fragilidad en la utilización de la libreta en el prenatal.

3. 100% de las libretas fueron consideradas con registros legibles.

4. La sección de Exámenes Complementarios de Rutina presentó los mejores resultados.

INTRODUÇÃO

A assistência pré-natal compreende um conjunto de ações direcionadas ao cuidado da mulher durante a gestação e o puerpério, bem como à proteção da saúde fetal. Seu propósito é identificar precocemente fatores de risco, prevenir intercorrências e contribuir para a redução da morbimortalidade materna e infantil1. Para assegurar o acompanhamento contínuo e integrado entre os diferentes níveis de atenção, a Caderneta da Gestante constitui um instrumento fundamental1.

Criada no Brasil em 1988, inicialmente sob a denominação de Cartão da Gestante, essa ferramenta foi concebida para garantir o fluxo de informações entre os profissionais do pré-natal e os responsáveis pela assistência ao parto2. Desde então, consolidou-se como recurso estratégico na rede pública, fortalecendo a comunicação entre a atenção primária e os serviços hospitalares, sobretudo em situações de urgência obstétrica3.

Além de favorecer a integração do cuidado, a caderneta oferece à gestante acesso às informações sobre sua saúde e aos procedimentos realizados4. Quando devidamente preenchida, possibilita o acompanhamento de parâmetros clínicos - como peso, pressão arterial, altura uterina e exames laboratoriais - auxilia no monitoramento da evolução da gestação, orienta a definição de condutas para o parto e o pós-parto e alimenta sistemas de informação, como o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC), essenciais para pesquisas epidemiológicas e para a formulação de políticas públicas4.

A qualidade do registro nesse instrumento depende tanto da legibilidade quanto da completude, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde3. Registros incompletos ou lacunares podem comprometer a continuidade do cuidado e indicar falhas na valorização da caderneta ou no cumprimento das diretrizes oficiais3,5. Embora sua distribuição seja ampla, estudos evidenciam que, mesmo com elevada cobertura, o preenchimento ainda apresenta deficiências, muitas vezes incompleto ou de difícil interpretação3,5

A literatura aponta que a escassez de informações nesse documento repercute negativamente nos desfechos gestacionais e na qualidade da assistência prestada6. Torna-se, portanto, imprescindível que os profissionais de saúde façam uso adequado da caderneta, registrando dados consistentes que permitam acompanhar com fidedignidade a condição materna e oferecer cuidado resolutivo3. Dessa forma, todos os profissionais envolvidos no processo assistencial têm acesso às informações necessárias, o que facilita a comunicação e a coordenação do atendimento5.

Apesar da ampla distribuição, ainda persistem desafios relacionados à qualidade e à completude do preenchimento3,6,. Mesmo com mais de 90% de cobertura entre gestantes no Brasil, os registros permanecem, em sua maioria, incompletos ou ilegíveis3.

Assim, um pré-natal de qualidade depende não apenas da realização das consultas, mas também da documentação adequada das condutas e exames solicitados6. A caderneta, em conjunto com o prontuário clínico, constitui ferramenta essencial para o planejamento da assistência, assegurando a continuidade do cuidado em todas as etapas da gestação 2,5,7.

Localizado na região Norte do Brasil, o estado de Roraima faz fronteira com a Guiana e a Venezuela, configurando-se como importante rota migratória. O aumento da demanda por atendimentos no SUS, especialmente em saúde materno-infantil, tem gerado desafios à gestão e à qualidade da assistência. Nesse contexto, a Caderneta da Gestante destaca-se como instrumento essencial para garantir a continuidade do cuidado e a efetividade do acompanhamento pré-natal.

O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que Boa Vista registrou um aumento populacional superior a 14% nos últimos anos. Nesse contexto, a Atenção Básica vem se consolidando como o principal ponto de acesso à saúde no município. A rede municipal é organizada em oito macroáreas de saúde, abrangendo todo o território urbano, e conta com 149 equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF) distribuídas em 38 Unidades Básicas de Saúde (UBS), responsáveis pela resolução de cerca de 80% dos casos diretamente no âmbito da atenção primária.

Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo avaliar a qualidade dos registros na Caderneta da Gestante no município de Boa Vista-RR, com ênfase na legibilidade e na completude das informações referentes ao acompanhamento prénatal.

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de abordagem quantitativa e avaliativa, realizado no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazaré (HMINSN), localizado em Boa Vista, Roraima, entre novembro e dezembro de 2024.

O HMINSN é referência estadual em atenção materno-infantil, prestando assistência obstétrica e neonatal. Segundo a Secretaria de Saúde de Roraima (SESAU/ RR), a unidade realiza, em média, entre 9 e 10 mil partos por ano. Por estar situado em uma região de fronteira com a Venezuela e a Guiana, marcada pela presença de povos originários e elevado fluxo migratório, o hospital atende uma população diversificada de gestantes, consolidando-se como principal centro de referência obstétrica do estado.

A amostra foi não probabilística, por conveniência, composta por 71 mulheres que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: gestantes a partir da 30a semana ou puérperas, maiores de 18 anos, não pertencentes a grupos vulneráveis, com capacidade de comunicação, que tivessem realizado ao menos três consultas de pré-natal em Boa Vista-RR e apresentassem a Caderneta da Gestante no momento da coleta.

As participantes elegíveis foram informadas sobre os objetivos e procedimentos do estudo e convidadas a participar. As que aceitaram participar do estudo, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e entregaram a caderneta para avaliação. Cada participante foi abordada uma única vez, e o nome foi registrado em um checklist para evitar duplicidades. A equipe de coleta foi composta por duas acadêmicas do curso de Odontologia, previamente capacitadas por meio de treinamento teóricoprático ministrado pela pesquisadora responsável.

A coleta utilizou um instrumento estruturado em formato de checklist, com base no modelo vigente da Caderneta da Gestante padronizado pelo Ministério da Saúde8. Cada campo foi classificado como “sim” (preenchimento completo), “não” (ausente) ou “parcial” (incompleto). O registro foi considerado completo quando todos os campos obrigatórios estavam preenchidos de forma legível, sem rasuras ou abreviações; parcial, quando apresentava campos incompletos, ilegíveis ou ambíguos; e não preenchido, quando a informação estava ausente.

A análise baseou-se no referencial da qualidade da informação em saúde, conforme descrito na literatura9,10, que define completude como a proporção de campos devidamente preenchidos, sem valores nulos ou ignorados. Foram avaliadas sete seções da caderneta: Identificação; Classificação de Risco Gestacional; Gráficos de Acompanhamento e Suplementação Vitamínica; Procedimentos Gineco-Obstétricos; Exames Complementares; Imunização e Atividades Complementares.

Os dados foram digitados e analisados no Microsoft Excel, com dupla conferência para correção de inconsistências. A completude geral de cada caderneta foi obtida pela média aritmética simples das proporções de preenchimento das seções, aplicandose ponderação proporcional ao número de variáveis quando necessário. O grau de completude foi classificado conforme literatura10 em: excelente (<5% de incompletude), bom (5–10%), regular (10–20%), ruim (20–50%) e muito ruim (>50%).

Os resultados foram expressos em frequências absolutas e relativas, organizados por seção e por categoria de qualidade, o que permitiu identificar padrões gerais de completude. Realizou-se apenas uma descrição geral dos percentuais de preenchimento. Na tabela, a coluna “Sim” indica os itens devidamente registrados, enquanto a coluna “Não” corresponde aos campos ausentes ou não preenchidos.

O estudo atendeu aos preceitos éticos da Resoluções nº 466/2012, nº 510/2016 e nº 580/2018 do Conselho Nacional de Saúde, sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Faculdade Cathedral, parecer nº 7.064.588.

RESULTADOS

Constatou-se que 100% das cadernetas analisadas apresentaram registros legíveis. Na seção de Identificação, a completude variou de 2,81% (muito ruim), referente ao número do Sistema de Acompanhamento do Programa de Humanização no PréNatal e Nascimento da Gestante (Sisprenatal), a 98,59% (excelente), correspondente ao campo “nome”. Observou-se predominância de itens com registros classificados como ruins ou muito ruins (Tabela 1).

Tabela 1
Completude dos registros de identificação nas Cadernetas da Gestante. Boa Vista, RR, Brasil, 2024

Na seção de Classificação de Risco Gestacional, a seção destinada ao registro de variáveis associadas à classificação de risco gestacional, observaram-se proporções expressivas de incompletude, com instrução (50,70%), tipo de gravidez (66,19%) e gravidez planejada (54,92%) classificadas como de desempenho ruim. O campo referente à classificação de risco apresentou o menor preenchimento (45,07%), configurando-se como muito ruim, enquanto informações biométricas e históricas - como peso anterior (88,73%) e número de gestações (87,32%) - obtiveram melhor desempenho (Tabela 2).

Tabela 2
Completude dos registros de classificação de risco gestacional nas cadernetas da gestante. Boa Vista, RR, Brasil, 2024

Os registros da seção de Procedimentos Gineco-Obstétricos apresentaram, em sua maioria, completude classificada entre boa e excelente, com variação de 83,09% a 95,77%. O campo “peso” apresentou o melhor desempenho (95,77%), seguido por idade gestacional, pressão arterial, batimentos e movimentos fetais (92,95%), todos classificados como bons. Já os campos referentes à queixa, ao índice de massa corporal e ao edema apresentaram os menores percentuais de preenchimento (83,09%), sendo classificados como regulares (Tabela 3).

Tabela 3
Completude dos registros dos procedimentos gineco-obstétricos nas cadernetas da gestante. Boa Vista, RR, Brasil, 2024

Na seção de Exames Complementares de Rotina, observou-se predominância de registros classificados como bons e excelentes, evidenciando alto nível de completude. Os melhores resultados foram observados nos exames de HIV/anti-HIV e hepatite B (95,77%), seguidos de glicemia em jejum e sífilis/VDRL (94,36%), todos com classificação excelente. Os exames de tipagem sanguínea, toxoplasmose, hemoglobina/hematócrito, urina tipo I e ultrassonografia apresentaram completude boa, variando entre 90,14% e 92,95%. O exame de urocultura apresentou o menor percentual (77,46%) e foi classificado como regular (Tabela 4).

Tabela 4
Completude dos registros dos exames complementares de rotina nas cadernetas da gestante. Boa Vista, RR, Brasil, 2024

Já a seção de Atividades Complementares apresentou desempenho oposto: todos os itens foram classificados como muito ruins, o que representa a pior avaliação entre as seções (Tabela 5).

Tabela 5
Completude dos registros de atividades complementares nas cadernetas da gestante. Boa Vista, RR, Brasil, 2024

Na análise da completude geral das cadernetas, verificou-se que 7,04% foram classificadas como de registro muito ruim, 81,06% como ruim e 11,26% como regular. Ressalta-se que nenhuma caderneta alcançou todos os registros como classificação boa ou excelente.

DISCUSSÃO

Neste estudo, verificou-se que todas as cadernetas analisadas apresentavam registros legíveis, porém incompletos. A incompletude também foi observada em outras pesquisas. Um estudo realizado no município de São Luís (MA)3 com 105 cadernetas de gestantes identificou que 72,4% dos registros apresentavam baixa completude. Em outra investigação, conduzida com 72 cartões e cadernetas da gestante, apenas nove documentos apresentaram preenchimento adequado em pelo menos metade das variáveis, reforçando o uso insuficiente desse instrumento de acompanhamento11.

Em análise nacional sobre a qualidade do preenchimento do cartão da gestante padronizado pelo Ministério da Saúde, utilizando critérios qualitativos e quantitativos, constatou-se que, de forma geral, o Brasil e suas macrorregiões apresentaram completude considerada “ruim”, exceto a região Sul12. Os resultados nacionais indicaram melhor preenchimento nos antecedentes obstétricos, regular nos antecedentes pessoais e ruim nos campos relacionados à gestação atual. No presente estudo, os achados mostraram um padrão semelhante, com regularidade apenas parcial nos antecedentes e nos registros da gestação em curso.

O campo com melhor desempenho foi o registro do nome da gestante, classificado como excelente. Entretanto, o item “como gosta de ser chamada” apresentou preenchimento muito baixo, também identificado por outros autores na literatura3. Ressalta-se que esse aspecto é essencial para a construção do vínculo entre equipe de saúde e gestante, favorecendo adesão e efetividade do acompanhamento pré-natal13.

Na seção sobre Classificação de Risco Gestacional, observou-se baixo nível de preenchimento das informações sobre risco. Esse dado é de extrema importância, pois permite identificar precocemente gestações com maior probabilidade de complicações, garantindo assistência adequada à mulher e ao feto14,15. A baixa adesão ao registro pode estar relacionada à recomendação do Ministério da Saúde, segundo a qual a classificação definitiva do risco deve ser feita somente após o parto e o puerpério, visto que pode sofrer alterações ao longo da gestação1.

Estima-se que cerca de 10% das gestações apresentem critérios de alto risco, com maior probabilidade de desfechos graves, inclusive óbitos maternos e fetais1. Nesse contexto, o preenchimento correto do campo referente ao risco é fundamental para orientar o cuidado, melhorar o direcionamento da assistência e favorecer a comunicação entre os diferentes níveis de atenção16.

A seção destinada aos Exames Complementares de Rotina foi a que obteve os melhores resultados. Tais exames são recomendados desde a primeira consulta e devem ser repetidos em momentos específicos da gestação1. Em outro estudo, entretanto, verificou-se que o registro dos exames laboratoriais variava de “regular”, como glicemia, sorologia para sífilis e exame de urina, a “ruim”, como sorologia para HIV3. Esses exames são fundamentais para rastrear e prevenir agravos frequentes na gestação, como anemias, infecções sexualmente transmissíveis e alterações metabólicas, com impacto direto na saúde materna e fetal1.

Já a seção de Atividades Complementares apresentou os piores resultados, com incompletude superior a 50%. O campo referente às ações educativas foi o menos preenchido. Resultado semelhante foi identificado em São Luís (MA), onde todos os registros dessa seção foram classificados como “muito ruins”³. As atividades educativas são diretrizes fundamentais do pré-natal, estimulam a autonomia e o protagonismo da gestante e favorecem decisões informadas16. A ausência de registros pode refletir desde a não utilização da caderneta para esse fim até a própria não realização das atividades, além da baixa valorização por parte das gestantes ou do insuficiente incentivo da equipe de saúde³.

O campo destinado à consulta odontológica foi classificado como “muito ruim”, com apenas 29,77% dos registros preenchidos. Situação semelhante foi observada por outros autores na literatura7,17 que apontaram falhas recorrentes nesse item, revelando um distanciamento entre o preconizado e a prática. O Ministério da Saúde recomenda ao menos uma consulta odontológica durante a gestação, além de ações educativas em grupo sobre saúde bucal, alimentação, amamentação e prevenção de doenças orais transmissíveis15. A ausência desses registros compromete a vigilância de agravos bucais relevantes, como gengivites e periodontites, que podem estar relacionados a complicações como parto prematuro, pré-eclâmpsia e baixo peso ao nascer18,19.

Autores destacam ainda a dúvida sobre se a falha está na ausência de assistência efetiva ou apenas no registro incompleto, uma vez que alguns procedimentos podem ser realizados, mas não documentados3. O correto preenchimento da Caderneta da Gestante é condição essencial para assegurar a qualidade do pré-natal12.

A baixa completude observada nos registros da Caderneta da Gestante pode estar relacionada a fatores estruturais e organizacionais que influenciam o processo de trabalho das equipes de saúde. Entre eles, destacam-se ausência de protocolos claros20, liderança e gestão deficientes20, falta de capacitação continuada da equipe quanto ao uso do instrumento como ferramenta de vigilância e comunicação clínica21, infraestrutura inadequada21, e barreiras sistêmicas21.

Essas lacunas repercutem negativamente na continuidade da assistência e na efetividade da vigilância em saúde, pois registros incompletos dificultam o acompanhamento longitudinal da gestante, a identificação precoce de riscos e o planejamento de ações preventivas. Estratégias de melhoria devem incluir a educação permanente das equipes, o monitoramento sistemático da qualidade dos registros, a integração entre os sistemas de informação e o fortalecimento da coordenação do cuidado no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

De forma geral, verificou-se que 7,04% das cadernetas analisadas foram classificadas como de registro muito ruim, 81,06% ruim e 11,26% regular. Nenhuma foi considerada boa ou excelente, achado que se assemelha ao relatado por outros autores na literatura3. Os achados indicam fragilidades na completude dos registros da Caderneta da Gestante, refletindo a necessidade de fortalecer o processo de registro e acompanhamento do pré-natal.

Para a prática profissional, evidencia-se a importância do preenchimento adequado da Caderneta da Gestante como ferramenta de comunicação e de continuidade do cuidado1. No âmbito da gestão, recomenda-se investir em capacitação permanente21, padronização dos registros e monitoramento da qualidade das informações20, de modo a aprimorar a vigilância em saúde e a coordenação do cuidado às gestantes no município de Boa Vista. O fortalecimento do uso qualificado da caderneta representa, portanto, um caminho estratégico para consolidar práticas mais integrais, seguras e resolutivas na atenção materno-infantil.

A saúde pública em Roraima enfrenta desafios decorrentes de sua diversidade sociocultural e de sua posição geográfica de fronteira, marcada pela presença de povos originários e de fluxos migratórios da Venezuela e da Guiana. Essa realidade impõe demandas específicas aos serviços de saúde, reforçando a necessidade de pesquisas voltadas às populações indígenas, que considerem suas particularidades culturais e necessidades assistenciais. Tais estudos são essenciais para subsidiar estratégias de cuidado integral, equânime e culturalmente sensíveis às gestantes e às suas comunidades.

Nesse contexto, os resultados também apontam implicações relevantes para o ensino e a pesquisa em saúde, reforçando a necessidade de alinhar a formação profissional às demandas da prática assistencial. Recomenda-se a inclusão de conteúdos sobre o preenchimento adequado da Caderneta da Gestante, o uso das informações em saúde e a comunicação multiprofissional nos currículos e programas de educação permanente. Além disso, a realização de estudos multicêntricos e qualitativos que explorem os fatores associados à baixa completude e avaliem o impacto de intervenções educativas e tecnológicas na melhoria da qualidade dos registros e na efetividade da assistência materno-infantil.

CONCLUSÃO

Observou-se um elevado número de campos incompletos, especialmente nas seções de antecedentes pessoais, gestação atual, classificação de risco gestacional e atividades complementares, com destaque negativo para os campos “como gosta de ser chamada” e “consulta odontológica”.

Apesar de algumas seções, como a de exames complementares, apresentarem melhor desempenho, nenhuma caderneta alcançou classificação “boa” ou “excelente”. O cenário de subutilização da Caderneta da Gestante compromete a vigilância de agravos e a continuidade da atenção nos diferentes níveis do SUS. Diante disso, ressaltase a importância da implementação de estratégias de auditoria e da capacitação periódica das equipes de saúde, voltadas à sensibilização e à qualificação dos registros, fundamentais para assegurar um cuidado pré-natal mais humanizado, resolutivo e integral.

Além disso, os resultados deste estudo podem subsidiar ações de gestão e políticas públicas direcionadas à qualificação do pré-natal no município de Boa Vista-RR, ao evidenciar a necessidade de fortalecer a capacitação contínua das equipes, adotar rotinas de monitoramento da qualidade dos registros e padronizar os protocolos de preenchimento da Caderneta da Gestante. Tais medidas podem apoiar a tomada de decisão gerencial, otimizar os fluxos assistenciais e consolidar o papel da Atenção Primária à Saúde como coordenadora do cuidado, contribuindo para o aprimoramento da qualidade das informações e da efetividade da assistência materno-infantil.

  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Gomes CSB, Bueno AC, Alves VH, Neves GASS, dos Santos ACF. Avaliação da completude do preenchimento da caderneta da gestante. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year,month and day”];31:e100664pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.100664pt

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Editado por

  • Editor associado:
    Dr. Gilberto Tadeu Reis da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Jul 2025
  • Aceito
    06 Nov 2025
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