RESUMO
Objetivo: Refletir sobre as contribuições da simulação clínica para a formação de estudantes de Enfermagem no cuidado a mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas.
Método: Trata-se de um estudo reflexivo elaborado a partir de aproximações teóricas, empíricas e evidências disponíveis na United States National Library of Medicine National Institutes of Health, na Scientific Electronic Library Online e na Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde, selecionadas entre junho e agosto de 2025. Procedeu-se à leitura, interpretação e reflexão com base no referencial teórico da Aprendizagem Experiencial de Kolb.
Resultados: Organizou-se a categoria - Treinar para Cuidar: simulação clínica como estratégia de ensino na abordagem a mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas.
Considerações Finais: Ao vivenciar situações complexas por meio da simulação clínica, o estudante reflete sobre os estigmas e desenvolve uma postura empática e acolhedora no atendimento a mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas.
DESCRITORES:
Enfermagem; Educação em Enfermagem; Mulheres; Treinamento por Simulação; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias
HIGHLIGHTS
1. Simulação clínica como estratégia pedagógica na formação em enfermagem.
2. Aprendizagem transformadora, cuidado humanizado e livre de estigmas.
3. Cuidado a mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas.
4. Aprendizagem significativa ocorre com envolvimento ativo do estudante na experiência.
ABSTRACT
Objective: To reflect on the contributions of clinical simulation to the education of nursing students in the care of women with problematic psychoactive substance use.
Method: This is a reflective study developed based on theoretical and empirical approaches and available evidence retrieved from the United States National Library of Medicine National Institutes of Health, the Scientific Electronic Library Online, and the Latin American and Caribbean Health Sciences Literature, selected between June and August 2025. The material was read, interpreted, and reflected upon based on Kolb’s Experiential Learning Theory.
Results: The following category was developed: Training to Care: clinical simulation as a teaching strategy for the care of women with problematic psychoactive substance use.
Final Considerations: By experiencing complex situations through clinical simulation, students reflect on stigma and develop an empathetic and welcoming approach to caring for women with problematic psychoactive substance use.
DESCRIPTORS:
Nursing; Education, Nursing; Women; Simulation Training; Substance-Related Disorders.
HIGHLIGHTS
1. Clinical simulation as a pedagogical strategy in nursing education.
2. Transformative learning and humanized, stigma-free care.
3. Care for women with problematic psychoactive substance use.
4. Meaningful learning occurs through students’ active engagement in the experience.
RESUMEN
Objetivo: Reflexionar sobre las aportaciones de la simulación clínica a la formación de los estudiantes de enfermería en la atención a mujeres con consumo problemático de sustancias psicoactivas.
Método: Se trata de un estudio reflexivo elaborado a partir de enfoques teóricos y empíricos, así como de la evidencia disponible en United States National Library of Medicine National Institutes of Health, en la Scientific Electronic Library Online y en la literatura latinoamericana y caribeña en ciencias de la salud, seleccionada entre junio y agosto de 2025. Se procedió a la lectura, interpretación y reflexión con base en el marco teórico del Aprendizaje Experiencial de Kolb.
Resultados: Se organizó la categoría «Entrenar para cuidar»: simulación clínica como estrategia de enseñanza en el tratamiento de mujeres con consumo problemático de sustancias psicoactivas.
Consideraciones Finales: Al experimentar situaciones complejas a través de la simulación clínica, el estudiante reflexiona sobre los estigmas y desarrolla una actitud empática y acogedora al atender a mujeres con consumo problemático de sustancias psicoactivas.
DESCRIPTORES:
Enfermería; Educación en enfermería; Mujeres; Entrenamiento Simulado; Trastornos Relacionados con Sustancias.
HIGHLIGHTS
1. La simulación clínica como estrategia pedagógica en la formación en enfermería.
2. Aprendizaje transformador, atención humanizada y libre de estigmas.
3. Atención a mujeres con consumo problemático de sustancias psicoactivas.
4. El aprendizaje significativo se produce cuando el estudiante participa activamente en la experiencia.
INTRODUÇÃO
O consumo problemático de substâncias psicoativas por mulheres constitui um fenômeno multifacetado, marcado por condicionantes biológicos, sociais, culturais e de gênero. Mulheres que fazem uso de substâncias psicoativas enfrentam barreiras específicas para acessar os serviços de saúde e, não raramente, vivenciam situações de violência, discriminação e estigmatização social1. Esse quadro evidencia a necessidade de estratégias formativas em saúde que preparem os profissionais, em especial enfermeiros, para oferecer cuidado integral, empático e livre de julgamentos.
No Brasil, observa-se um crescimento no consumo de substâncias psicoativas entre as mulheres, acompanhado de consequências como comorbidades psiquiátricas, vulnerabilidade social e fragilização dos vínculos familiares. Um estudo conduzido no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas mostrou que as mulheres em tratamento apresentavam uso concomitante de múltiplas substâncias, sintomas depressivos e histórico de violência doméstica2, achados que ressaltam a importância de a Enfermagem desenvolver habilidades técnicas, competências relacionais e éticas.
As diretrizes internacionais também reforçam essa perspectiva. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o cuidado a gestantes e puérperas com uso problemático de substâncias seja integral, não punitivo e associado a um suporte psicossocial1. A Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA), nos Estados Unidos da América, enfatiza a necessidade de programas de tratamento adaptados às especificidades femininas, considerando questões como o trauma, a maternidade e as desigualdades de gênero3.
No campo da formação em Enfermagem, a simulação clínica tem se consolidado como metodologia que integra teoria e prática em ambiente seguro, permitindo ao estudante vivenciar situações complexas do cuidado. Essa estratégia estimula o desenvolvimento de competências técnicas, cognitivas e afetivas, ao mesmo tempo que favorece a reflexão crítica sobre os valores e posturas profissionais4.
A literatura recente aponta que a simulação clínica é especialmente útil para preparar estudantes no cuidado a pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas, pois possibilita vivenciar, sem riscos, cenários permeados por sofrimento, resistência, recaídas e vulnerabilidades sociais. Nesse contexto, uma pesquisa demonstrou que a simulação com pacientes virtuais contribui para reduzir atitudes estigmatizantes e aprimorar as habilidades comunicacionais de enfermeiros diante de usuários de substâncias5.
De forma semelhante, uma pesquisa desenvolveu uma simulação on-line com paciente padronizado, representando uma gestante usuária de substâncias psicoativas, e observou avanços significativos na empatia e nas habilidades de entrevista motivacional dos estudantes de Enfermagem6. Na mesma direção, um estudo identificou que estudantes de saúde que participaram de uma simulação interdisciplinar com gestante usuária de substâncias apresentaram maior compreensão do cuidado informado pelo trauma e da relevância de evitar revitimização7. Esses achados reforçam o potencial da simulação clínica como recurso pedagógico para a desconstrução de estigmas e a promoção de competências comunicacionais, éticas e humanizadoras necessárias a um cuidado sensível às questões de gênero.
Apesar de seu potencial, a literatura evidencia que a transposição do aprendizado da simulação clínica para a prática real ainda enfrenta obstáculos. Entre eles, estão as diferenças entre o ambiente simulado e os serviços de saúde, o medo de julgamento, a carência de acompanhamento pedagógico e a própria cultura institucional marcada pelo estigma8.
Nessa perspectiva, o debriefing assume um papel central, pois oferece espaço para a análise crítica da conduta, o reconhecimento das emoções e a ressignificação de valores. Essa etapa possibilita ao estudante identificar preconceitos e refletir sobre sua postura em situações de vulnerabilidade e sofrimento4. Para alcançar maior efetividade, os cenários de simulação clínica devem ser planejados com intencionalidade pedagógica, incorporando elementos que reflitam a realidade dessas mulheres, como as redes de apoio fragilizadas, as experiências de violência, a maternidade e os contextos de exclusão. Somente assim será possível formar profissionais aptos a oferecer um cuidado integral, sensível e eticamente comprometido.
Diante desse contexto, espera-se que este estudo contribua para o processo formativo de estudantes de Enfermagem por meio da simulação clínica, promovendo o conhecimento técnico-científico, ético e social para conduzir o acolhimento e a abordagem a essas mulheres.
Este estudo teve como objetivo refletir sobre as contribuições da simulação clínica para a formação de estudantes de Enfermagem no cuidado ao público feminino em consumo problemático de substâncias psicoativas.
MÉTODO
Trata-se de um estudo de reflexão teórica, elaborado a partir de um conjunto de dados teóricos, empíricos e evidências selecionadas por conveniência, que ancoraram a compreensão da problemática apresentada, ou seja, a compreensão das estratégias de ensino para subsidiar a formação de estudantes de Enfermagem na abordagem de mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas, partindo-se da seguinte questão: como a simulação clínica pode contribuir para a formação de estudantes de Enfermagem na abordagem do cuidado a mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas?
Considerou-se que, no cotidiano formativo de aprendizado, os estudantes de Enfermagem precisam desenvolver conhecimento teórico, habilidades comunicacionais, atitudes positivas e éticas, para, enquanto futuros profissionais, realizarem ações de Enfermagem no nível subjetivo e de maior concretude clínica, que repercutam em uma abordagem sensível ao gênero e às especificidades das mulheres. A literatura científica que subsidiou a construção deste estudo foi identificada entre junho e agosto de 2025, no contexto de um projeto de desenvolvimento de um cenário de simulação clínica para intervenções biopsicossociais em mulheres usuárias de substâncias psicoativas, em uma universidade pública localizada na região Sudeste do Brasil.
No processo de elaboração do projeto, identificou-se a incipiência de estudos sobre a temática, o que suscitou a necessidade de refletir e problematizar esse campo, reforçando a importância de ampliar as discussões e as práticas pedagógicas nesse contexto. O desenvolvimento deste estudo reflexivo fundamentou-se na busca e na análise de publicações disponíveis nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), selecionadas por conveniência, considerando a pertinência temática, a aderência ao objeto de estudo e o potencial de contribuição para a reflexão proposta, por meio dos descritores: Enfermagem; Treinamento por Simulação; Mulheres; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Educação em Enfermagem, cruzados com o operador booleano AND.
Foram incluídas as publicações disponíveis na íntegra, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem a simulação clínica na formação em Enfermagem, com interface com o cuidado a mulheres em contexto de consumo problemático de substâncias psicoativas. Excluíram-se editoriais, resumos de eventos e publicações sem aderência temática ao objeto reflexivo proposto. Ao final, permaneceram 10 artigos.
Após a seleção, procedeu-se à leitura, com notas analíticas, interpretação e reflexão, dos estudos selecionados com base no referencial teórico de Aprendizagem Experiencial de David Kolb9. Esse referencial oferece subsídios consistentes para compreender o potencial formativo da simulação clínica no ensino de Enfermagem. De acordo com o autor, o processo de aprendizagem ocorre de forma cíclica por meio de quatro etapas interdependentes, quais sejam: a experiência concreta, a observação reflexiva, a conceituação abstrata e a experimentação ativa.
Mesmo com a dispensa de análise do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), declara-se que foram seguidas as boas práticas para produzir o conhecimento apresentado, assegurando postura ética no acesso às fontes de pesquisa e à integridade científica dos achados teóricos, empíricos e das evidências.
DESENVOLVIMENTO
Ponto de partida reflexivo dos autores
A simulação clínica proporciona situações que se assemelham à realidade da prática assistencial, o que permite ao estudante estar imerso em contextos que reproduzem o cotidiano do trabalho profissional, levando-o a experiências significativas, à reflexão sobre suas ações e à construção do conhecimento a partir da prática. Esse recurso pedagógico não reproduz apenas o contexto do cuidado, mas também se apresenta como um espaço de transformação e de construção de novos saberes.
Nesse ensejo, em relação ao cuidado destinado às mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas, essa abordagem favorece a integração entre a teoria, a prática e a reflexão ética, dimensões essenciais para o desenvolvimento de competências técnico-científicas, relacionais e comunicacionais. Como estratégia de ensino, permite que o estudante se depare com situações complexas, marcadas por preconceitos, vulnerabilidades e os desafios emocionais aos quais esse público está exposto, favorecendo o desenvolvimento da empatia, da escuta sensível e do julgamento clínico.
Além de treinar as habilidades técnicas, o método contribui para uma formação crítica e humanizada dos futuros enfermeiros, em alinhamento com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, o referencial de Kolb esclarece que uma aprendizagem significativa decorre do envolvimento ativo do estudante na experiência. Para compreender como essa ferramenta auxilia no processo de aprendizagem sobre a abordagem às mulheres nessa condição, originou-se uma categoria que apresenta as potencialidades e os desafios da simulação clínica no atendimento a essa população.
Treinar para Cuidar: simulação clínica como estratégia de ensino na abordagem às mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas
A formação de enfermeiros para o cuidado destinado às mulheres em uso de substâncias psicoativas exige uma pedagogia que vá além da transmissão de conteúdos técnicos, contemplando também os aspectos éticos, comunicacionais e afetivos. As metodologias tradicionais, centradas na memorização e na observação passiva, mostram-se insuficientes diante de situações que demandam empatia, escuta qualificada e ausência de julgamentos. Nesse contexto, a simulação clínica surge como uma estratégia que possibilita o aprendizado vivencial e a reflexão crítica sobre a prática profissional4.
Segundo o modelo de aprendizagem experiencial de Kolb9, o saber é construído a partir da vivência prática, que é posteriormente analisada, conceituada e testada ativamente. Esse processo ocorre de forma cíclica, integrando a experiência concreta, a observação reflexiva, a conceituação abstrata e a experimentação ativa, etapas que fundamentam a compreensão do potencial pedagógico da simulação clínica no ensino da Enfermagem.
No campo da Enfermagem, essa metodologia é frequentemente utilizada em simulações clínicas que recriam cenários reais de assistência. Tais experiências permitem que os alunos relacionem a teoria à prática em um ambiente controlado, estimulando as competências técnicas, cognitivas e afetivas. Dessa forma, a simulação contribui para um aprendizado profundo, para o desenvolvimento do raciocínio crítico e da autonomia profissional, elementos fundamentais na formação do Enfermeiro9.
Ao reproduzir de forma realista o ambiente de cuidado, a simulação clínica permite que o estudante vivencie emoções, dilemas e os desafios da prática. Para o cuidado destinado às mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas, essa experiência é especialmente relevante, pois mobiliza as crenças pessoais, os preconceitos e os dilemas éticos. O cenário simulado configura-se, assim, como um espaço de autoconhecimento, no qual o futuro enfermeiro pode errar, refletir e ressignificar suas atitudes8. Nesse seguimento, o cenário representa a etapa da experiência concreta proposta por Kolb, permitindo ao estudante o contato direto com situações complexas que mobilizam competências técnicas, emocionais e éticas.
Alguns estudos recentes indicam que experiências simuladas com pacientes virtuais ampliam as habilidades relacionais e reduzem atitudes estigmatizantes entre os enfermeiros, resultado do caráter imersivo da simulação, que aproxima os estudantes de narrativas complexas e humanizadas5. No ambiente educacional, esse recurso auxilia no reconhecimento do impacto do estigma sobre a qualidade do cuidado. Em outro estudo, estudantes de Enfermagem que participaram de uma simulação on-line com paciente padronizada, representando uma gestante usuária de substâncias psicoativas, demonstraram avanços em empatia e no uso da entrevista motivacional, reforçando o potencial das metodologias ativas em favorecer a comunicação terapêutica
As simulações interprofissionais também ampliam o aprendizado, ao destacar a importância da atuação em equipe e do cuidado colaborativo. A participação de equipes multiprofissionais em um cenário com uma gestante usuária de substâncias psicoativas evidenciou a relevância do cuidado informado pelo trauma e da comunicação não violenta7.
Outro aspecto central é o debriefing, considerado o núcleo reflexivo da simulação. Na perspectiva de Kolb, esse momento materializa as etapas de observação reflexiva e de conceituação abstrata, nas quais o estudante analisa as decisões, reconhece as emoções e reelabora os significados, transformando a vivência prática em aprendizagem duradoura. Para o ensino do cuidado destinado às mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas, esse momento favorece o enfrentamento de preconceitos e de sentimento de impotência, convertendo o fazer em compreender4.
Apesar de seus benefícios, a transposição da experiência simulada para a prática real ainda constitui um desafio. Muitos estudantes relataram dificuldades em manter uma postura empática diante de pacientes reais, sobretudo em ambientes de trabalho marcados pela naturalização do estigma. Isso reforça a necessidade de alinhar as metodologias educativas à cultura institucional dos serviços, incentivando as práticas de escuta ativa e de acolhimento5. Essa dificuldade revela fragilidades na etapa de experimentação ativa descrita por Kolb, uma vez que a consolidação da aprendizagem está condicionada à aplicação crítica dos conhecimentos elaborados ao longo do ciclo experiencial no contexto real do cuidado.
Outro limite identificado é a escassez de cenários específicos voltados ao público feminino.
A maior parte das simulações aborda o uso de substâncias psicoativas de forma genérica, sem considerar as particularidades de gênero, como a gestação, a maternidade, a violência e a sobrecarga emocional1. Contudo, as simulações centradas na mulher em uso de substâncias psicoativas, podem formar profissionais mais conscientes das desigualdades de gênero e das múltiplas vulnerabilidades presentes nessa realidade, exigindo um olhar ampliado que integre as dimensões biológicas, psicológicas e sociais.
Alguns autores ressaltaram, ainda, que as simulações mediadas por vídeos ou plataformas digitais ampliam o alcance do ensino, permitindo ao estudante revisar interações, analisar desempenhos e identificar pontos de melhoria, especialmente em temas sensíveis, como o uso de substâncias psicoativas e o estigma. No Brasil, tais estratégias também podem contribuir para a educação permanente em saúde, fortalecendo a integração entre o ensino e o serviço no SUS10-11.
A construção de cenários realistas deve contemplar não apenas o conteúdo técnico, mas também os aspectos simbólicos e emocionais da relação de cuidado. Reproduzir as preocupações das mulheres em uso de substâncias psicoativas aproxima a simulação da realidade e torna a experiência formativa mais significativa.
Refletir sobre a simulação clínica, portanto, é refletir sobre o papel da Enfermagem. Ao vivenciar situações de estigma, violência ou negligência, o estudante é desafiado a reconhecer suas próprias limitações e valores, tornando-se um sujeito ético em sua prática. A simulação deixa de ser apenas técnica para se consolidar como um instrumento de humanização do ensino4.
Assim, a intencionalidade pedagógica deve orientar a construção de cenários, promovendo não apenas as habilidades técnicas, mas também as competências críticas e éticas. O desafio está em transformar o aprendizado técnico em compromisso social, fazendo da simulação clínica um espaço de formação cidadã, especialmente no cuidado destinado às mulheres em situações de exclusão e de vulnerabilidade.
Em síntese, a literatura evidencia a simulação clínica como uma estratégia eficaz para a formação ética e humanizada no cuidado de pessoas com transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Contudo, destaca-se a necessidade de elaborar cenários voltados às especificidades femininas, incorporar o gênero como categoria analítica e estreitar a relação entre a simulação e a prática nos serviços de saúde. Essa transição representa um dos principais desafios para a formação em Enfermagem na contemporaneidade.
Sob a ótica da Aprendizagem Experiencial, esse desafio consiste em assegurar que o ciclo formativo se complete, convertendo a experiência simulada em prática clínica crítica, reflexiva e socialmente comprometida.
Entre as limitações deste estudo, destaca-se que, mesmo abrangendo várias bases de dados, pode haver perda de estudos não indexados ou publicados em outros idiomas. Observou-se a baixa disponibilidade de estudos que apresentam o uso da simulação clínica no manejo de mulheres em consumo problemático de substâncias psicoativas, o que pode ter impedido reflexões sobre outras percepções sobre a temática.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A simulação clínica, enquanto estratégia pedagógica na formação em Enfermagem, favorece o desenvolvimento de competências técnicas e relacionais no cuidado às mulheres em uso de substâncias psicoativas. Ao vivenciar situações complexas, o estudante é levado a refletir sobre estigmas e a adotar uma postura empática e acolhedora. Seu impacto, porém, depende da qualidade do debriefing e da intencionalidade pedagógica, que devem promover uma aprendizagem transformadora e contribuir para um cuidado humanizado e livre de estigmas.
Esta reflexão evidencia a necessidade de se desenvolverem cenários que contemplem as singularidades femininas e as múltiplas vulnerabilidades que atravessam o consumo problemático de substâncias psicoativas, a fim de fortalecer a formação crítica e sensível às questões de gênero. Nesse sentido, este estudo contribui para ampliar as reflexões sobre o potencial da simulação clínica como estratégia capaz de qualificar o ensino em Enfermagem e fomentar práticas assistenciais eticamente comprometidas e socialmente responsivas.
-
COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
de Melo Filho P, Nóbrega MPSS. Simulação clínica na educação em enfermagem para abordagem de mulheres no abuso de substâncias psicoativas. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e101838pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.101838pt
Disponibilidade de dados:
Os autores declaram que os dados estão disponíveis de forma completa no corpo do artigo.
REFERÊNCIAS
-
1 Sánchez Antelo V, Straw CI, Jeifetz VJ, Saavedra JV, Nóbrega MPSS. Twenty-four years of research on women’s drug use in Latin America: a scoping review (2000-2024). Subst Use Addict J [Internet]. 2025 [cited 2025 Jun 15];47(1):1-14. Available from: http://dx.doi.org/10.1177/29767342251347368
» http://dx.doi.org/10.1177/29767342251347368 -
2 Santos JAT, Perruci LG, Pegoraro NPJ, Scherer ZAP, de Souza J, dos Santos MA, et al. Use of psychoactive substances in women in outpatient treatment. Rev Bras Enferm [Internet]. 2019 [cited 2025 Jun 15];72(Suppl 3):178-83. Available from: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0399
» http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0399 -
3 Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA). Substance Abuse Treatment: Addressing the Specific Needs of Women - Treatment Improvement Protocol Series (TIP 51) [Internet]. Rockville, MD: U.S. Department of Health and Human Services. 2009 [cited 2025 Jun 10]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK83252/
» https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK83252/ - 4 Jeffries PR. The NLN Jeffries simulation theory. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2015. 72 p.
-
5 Rouleau G, Gagnon MP, Côté J, Richard L, Chicoine G, Pelletier J. Virtual patient simulation to improve nurses’ interpersonal skills and reduce the stigmatization of people who use substances. BMC Nursing [Internet]. 2022 [cited 2025 Jun 10];21:1. Available from: https://doi.org/10.1186/s12912-021-00740-x
» https://doi.org/10.1186/s12912-021-00740-x -
6 Wands L, Pfeiffer KM, Pelkmans J. Demonstration of caring and motivational interviewing in online simulation: a cross-sectional observational study. Nurse Educ Pract [Internet]. 2022 [cited 2025 Jun 30];63:103370. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.nepr.2022.103370
» http://dx.doi.org/10.1016/j.nepr.2022.103370 -
7 Olson DN, Brandt A, Greywitt S, Gibson KS. A multidisciplinary standardized patient simulation for using trauma-informed care for pregnant patients. MedEdPORTAL. [Internet]. 2024 [cited 2025 Jun 5];26;20:11474. Available from: http://dx.doi.org/10.15766/mep_2374-8265.11474
» http://dx.doi.org/10.15766/mep_2374-8265.11474 -
8 Schachman KA, Martini K, Kaufman S, Mitchell ML, Covyeou JA, Galbraith A, et al. Health professions students’ perspectives of a stigma-reducing simulation including simulated patients with lived experience of addiction and recovery. Clin Simul Nurs [Internet]. 2024 [cited 2025 Jun 1];94:101588. Available from:http://dx.doi.org/10.1016/j.ecns.2024.101588
» http://dx.doi.org/10.1016/j.ecns.2024.101588 - 9 Kolb DA. Experiential learning: experience as the source of learning and development. 2th. Englewood Cliffs: Pearson FT Press, 2014. 416p.
-
10 Fuehrlein B, Hochschild A, Goldman M, Amsalem D, Chilton J, Martin A. Learning about and destigmatizing substance use disorders: a video-based educational module using simulated patients. Acad Psychiatry. [Internet]. 2022 [cited 2025 Jun 15];46(3):342-6. Available from: http://dx.doi.org/10.1007/s40596-021-01559-z
» http://dx.doi.org/10.1007/s40596-021-01559-z -
11 Massouh A, Alayan N, Shatila M, Wehbeh S. Assessing REFlective simulation-based e-training on motivational interviewing among multidisciplinary healthcare practitioners [RESeT-MI]: a mixed methods pilot study. BMC Med Educ [Internet]. 2024 [cited 2025 Jun 11];24:711. Available from: http://dx.doi.org/10.1186/s12909-024-05711-9
» http://dx.doi.org/10.1186/s12909-024-05711-9
Editado por
-
Editor associado:
Dra. Mariana Torreglosa Ruiz
