Resumo
O objetivo deste ensaio é problematizar a abordagem da prática de Theodore Schatzki nos Estudos Organizacionais a partir da maneira como dois conceitos da filosofia de Martin Heidegger, Dasein e Lichtung, são apropriados na interpretação da ontologia dos sites do social. A releitura do vínculo filosófico de Theodore Schatzki com o movimento pós-heideggeriano propicia a apropriação da abordagem ontológica dos sites no estudo do enfrentamento das maiores crises sociais da atualidade. Theodore Schatzki é um importante filósofo social, cujas contribuições encabeçam a chamada “Virada da Prática” (Practice Turn) na passagem para o século 21. Ao longo do trabalho, distinguimos o campo das práticas dos Estudos Baseados em Práticas, e introduzimos noções da fenomenologia heideggeriana e sua importância na compreensão da obra de Theodore Schatzki. Problematizamos a tradução dos conceitos do filósofo para o contexto dos Estudos Organizacionais e destacamos a metodologia de estudo das práticas de Theodore Schatzki a partir de suas potencialidades frente à complexidade das crises sociais em voga na contemporaneidade.
Palavras-chave:
Theodore Schatzki; Site; Situado; Estudos organizacionais; Estudos baseados em práticas
Abstract
This essay problematizes Theodore Schatzki’s approach to practice within organizational studies, based on how Dasein and Lichtung , two concepts from Martin Heidegger’s philosophy, are appropriated in the interpretation of the ontology of social sites. The re-reading of the philosophical link between Schatzki and the post-Heideggerian movement facilitates the appropriation of Schatzki’s ontological approach in addressing today’s major social crises. This prominent social philosopher’s contributions have led the so-called ‘Practice Turn’ at the turn of the 21st century. This essay distinguishes the field of practices from practice-based studies and introduces notions from Heideggerian phenomenology, emphasizing its significance in understanding Theodore Schatzki’s ontology. The study problematizes the translation of the philosopher’s concepts into the context of organizational studies and highlights Schatzki’s practice study methodology based on its potential in the face of the complexity of today’s social crises.
Keywords:
Theodore Schatzki; Site; Situated; Organizational studies; Practice-based studies
Resumen
El objetivo de este ensayo es problematizar el enfoque de la práctica de Theodore Schatzki en los Estudios Organizacionales a partir de la manera en que dos conceptos de la filosofía de Martin Heidegger, Dasein y Lichtung, son apropiados en la interpretación de la ontología de los sitios de lo social. La relectura del vínculo filosófico de Theodore Schatzki con el movimiento post-heideggeriano propicia la apropiación del enfoque ontológico de los sitios en el estudio del enfrentamiento de las mayores crisis sociales de la actualidad. Theodore Schatzki es un importante filósofo social, cuyas contribuciones encabezan el llamado ‘Giro de la Práctica’ (Practice Turn) en el cambio hacia el siglo XXI. A lo largo del trabajo, distinguimos el campo de las prácticas de los Estudios Basados en Prácticas, introducimos nociones de la fenomenología heideggeriana y su importancia en la comprensión de la obra de Theodore Schatzki. Problematizamos la traducción de los conceptos del filósofo al contexto de los Estudios Organizacionales y destacamos la metodología de estudio de las prácticas de Theodore Schatzki a partir de sus potencialidades frente a la complejidad de las crisis sociales en boga en la contemporaneidad.
Palabras clave:
Theodore Schatzki; Site; Situado; Estudios organizacionales; Estudios basados en prácticas
INTRODUÇÃO
O título deste ensaio homenageia outro estudo que também discute os efeitos da tradução sobre uma abordagem. O trabalho de Collins (2017) intitulado “Se perdeu na tradução? Feminismo negro, interseccionalidade e política emancipatória” mostra como as traduções feitas no âmbito dos estudos sobre “interseccionalidade mudaram de forma e propósito conforme foram traduzidas nos diferentes contextos materiais, sociais e intelectuais” (Collins, 2017, p. 6). Compartilhamos a preocupação em estudar esses contextos em que um particular arcabouço teórico é reproduzido. No caso, focamos em como as ideias e abordagens das contribuições de Theodore Schatzki nos Estudos Organizacionais (EOR) se misturam à diversidade de correntes de pensamento que compõem o campo das práticas. Essa mistura é provavelmente efeito, ainda, da rápida difusão dos estudos voltados para a prática nos anos 2000, que ocasionou a perda do poder crítico à medida que conceituações de prática foram sendo apropriadas e moldadas pela ortodoxia característica dos EOR (Gherardi, 2009). Como pretendemos adicionar, essa perda do poder crítico está relacionada também à tradução, que desencadeia, no caso de Theodore Schatzki, uma perda do vínculo filosófico fenomenológico na replicação conceitual e metodológica de sua teoria da prática.
Theodore Schatzki é professor de geografia, filosofia e sociologia. Ele também foi vice-decano sênior na Faculdade de Artes e Ciências, presidente do Departamento de Filosofia e cofundador e codiretor do Comitê de Teoria Social da Universidade, que supervisiona um programa multidisciplinar de ensino e pesquisa em teoria social para estudantes de pós-graduação. Schatzki obteve um diploma em Matemática Aplicada pela Universidade de Harvard (1977) e graus em Filosofia pela Universidade de Oxford (1979) e pela Universidade da Califórnia, em Berkeley (1982, 1986). Sua bibliografia é extensa (Passos & Bulgacov, 2019; Santos & Silveira, 2015). Influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger (1889-1976) e de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), Theodore Schatzki é um dos principais expoentes da Virada da Prática (Practice Turn) nos anos 2000. Schatzki, Knorr-Cetina e Von Savigny (2001) encabeçam a ruptura com os dualismos característicos da filosofia social nos últimos 200 anos, inaugurando um capítulo renovado no estudo da atividade humana a partir de uma ontologia multifacetada baseada, principalmente, na fenomenologia. Schatzki é autor de cinco livros: Social Practices (1996), The Site of the Social (2002), Martin Heidegger: Theorist of Space (2007), The Timespace of Human Activity (2010) e Social Change in a Material World (2019). Ele também coeditou vários volumes, incluindo três sobre teoria da prática: The Practice Turn in Contemporary Theory (2001), The Nexus of Practices (2017) e Questions of Practice in Philosophy and Social Theory (2018).
Existem diferentes análises sobre o trabalho de Theodore Schatzki, como os citados Santos e Silveira (2015) e Passos e Bulgacov (2019). O que diferencia o presente ensaio é o foco sobre a ontologia dos sites do social, desenvolvida pelo filósofo como uma maneira de articular a consciência ao fazer humano Schatzki (Schatzki, 2003, 2005). Nosso objetivo é problematizar a abordagem da prática de Theodore Schatzki nos Estudos Organizacionais a partir da maneira como dois conceitos da filosofia de Martin Heidegger, Dasein e Lichtung, são apropriados no desenvolvimento da noção de sites do social. Nossa hipótese é de que a corrente da qual o filósofo americano faz parte - i.e. fenomenólogos pós-heideggerianos (Schatzki et al., 2001; Schatzki, 2017a) - se perdeu na tradução, fazendo com que a ideia de site ontológico seja tratada de maneira análoga, ou convergente, à situacionalidade da atividade humana estudada nos Estudos Baseados em Práticas (EBP) (Gherardi, 2008). A releitura do vínculo filosófico com o movimento pós-heideggeriano propicia a apropriação da abordagem ontológica de Theodore Schatzki no estudo do enfrentamento das grandes crises da contemporaneidade, tais quais a desigualdade social, a crise econômica e as crises ambientais originadas em um modelo social autodestrutivo.
O ensaio está organizado em três grandes tópicos da seguinte maneira: trazemos primeiro uma visão ampla sobre o campo das práticas, apresentando alguns autores que contribuem para o estudo das práticas nas ciências sociais. Discutimos a prática nos EOR e sua interação com os EBP em vistas de desambiguar a abordagem da prática nos EOR e a prática nos EBP. Em seguida, no segundo tópico principal, exploramos os conceitos que Theodore Schatzki adota de Martin Heidegger para formular sua ontologia social. Apresentamos uma distinção entre diferentes abordagens de prática, focando especificamente nas particularidades que distinguem a abordagem de Theodore Schatzki daquela usual nos EBP. Questionamos a tendência microscópica do campo das práticas e propomos uma maneira de conduzir estudos sobre práticas com base na abordagem ontológica multifacetada proposta em Schatzki (2019). Finalmente, concluímos o trabalho destacando que o enfrentamento das crises sociais dos nossos tempos envolve uma questão de virtude, a partir da qual dialogamos com categorias ontológicas diversas para estudar fenômenos sociais com naturezas diversas.
Prática: percurso até os estudos baseados em prática
O interesse sobre práticas atravessa o trabalho de pensadores com contribuições expressivas na ciência social, como Michel Foucault, Anthony Giddens, Pierre Bourdieu e Harold Garfinkel (Foucault, 1977; Garfinkel, 1967; Peters, 2006). Segundo Schatzki (2019), prática é ação organizada; o que diferencia as abordagens dos diversos pensadores denominados de “teóricos da prática” é a maneira como se dá essa organização. Em Foucault (1977), por exemplo, a prática envolve a maneira como os sujeitos articulam dinâmicas de forças, poder e resistência, que se organizam no discurso. Para o autor (Foucault, 2008), discurso é algo expresso que define as condições de existência do fenômeno social (e.g., a forma de se vestir é uma expressão das dinâmicas de poder/resistência de modos de vida de um sujeito). Em Bourdieu (1984, 1986, 2015); Bourdieu & Passeron (1990) a prática também envolve relações de poder, contudo, o autor trata poder com base nas formas de significação da materialidade em um campo (e.g., a maneira como significamos uma publicação na academia). Diferente da ideia de forças de Foucault, Bourdieu trata poder simbolicamente (Watson, 2016), e a organização da prática envolve o campo e o habitus (Schatzki, 2019). Sendo o campo um tipo de contexto do fenômeno social (como a academia, no exemplo anterior) e o habitus, um conjunto de elementos que significam o fazer neste campo (como as produções acadêmicas significam fazeres no campo acadêmico).
Adjacente às discussões sobre poder, que é pauta recorrente da ciência social, a potência de ação é um fenômeno de profícuo interesse entre teóricos da prática. Nesse domínio, Anthony Giddens, a partir da teoria da estruturação, propõe a conciliação entre a estrutura, que organiza regras, métodos e técnicas de fazer, e a agência social, que pode subverter as teleologias da estrutura (Giddens, 2003; Schatzki, 2016). O sociólogo explica a prática como o proceder hábil do agente na estrutura social. Outro pensador relevante no que se refere ao estudo da potência de ação é Harold Garfinkel, que postulou a etnometodologia (Whittle, 2018). A partir da abordagem etnometodológica, Garfinkel promove uma releitura dos fatos sociais durkheimianos, propondo que “os participantes das situações sociais compartilham métodos [...] constitutivos em relação ao significado e aos objetos sociais que eles produzem conjuntamente” (Rawls, 2018, p. 445).
É interessante pontuar, depois desses exemplos, que mesmo as teorias das práticas como concebemos atualmente estão aportadas em correntes filosóficas com mais de dois séculos, como a fenomenologia ao se considerar a estrutura das experiências conscientes, os fenômenos e suas essências reais (Schatzki, 2017a; Smith, n.d.); o marxismo, a partir do foco na materialidade dos fenômenos sociais; o interacionismo simbólico, do qual incorpora a intersubjetividade; e a filosofia da linguagem wittgensteiniana, fundamentada na produção e reprodução de significados a partir da linguagem (Nicolini et al., 2003). Aliás, de maneira geral, o interesse sobre aquilo que as pessoas fazem não é uma novidade. O épico Ramayana, por exemplo, é uma epopeia hindu com mais de 2,5 mil anos, patrimônio filosófico e cultural da humanidade e uma ode ao dharma (Buck, 2017). O dharma é expressão central da filosofia da prática hindu, direcionada ao proceder em harmonia com o ordenamento da vida em todas as ações cotidianas (Buck, 2017; Hacker & Davis, 2006).
Outros exemplos antigos do interesse pela ação são o livro das mutações chinês (as mutações se referem literalmente ao constante desenrolar da vida) (Cherng, 2015) e o livro dos mortos egípcio (um tratado prático cerimonial para conduzir a alma após a vida) (Matias, 2017), ambos também com mais de 2 mil anos. Pouco mais recente, 350 anos antes da era comum, nos fundamentos da filosofia grega, a noção de movimento (práxis) de Aristóteles é ainda outro exemplo do interesse antigo pela ação e, neste caso, é também um marco para o assunto no ocidente (Reale & Antiseri, 2003; Valle, 2014).
É, entretanto, a partir da virada para o século 21, com a chamada Virada da Prática (Schatzki et al., 2001), que o campo adquire contornos próprios, atravessando disciplinas, tais quais a própria filosofia (Schatzki, 2019), a sociologia (Jonas & Littig, 2016), a psicologia (Turner, 2018) e a educação (Edwards-Groves et al., 2018). Além de sua transdisciplinaridade, as teorias das práticas cobrem temas variados como organizações (Corradi et al., 2010; Gherardi, 2009), ensino (Kemmis, 2021), energia (Shove, 2017), cultura (Reckwitz, 2007), gênero (Poggio, 2006; Standfield, 2020) e vários outros (Schatzki, 2018).
As contribuições de pensadores como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Anthony Giddens e Harold Garfinkel, destacadas anteriormente, também se fazem presentes na Administração, e quando combinadas com teorias da atividade, numa abordagem que trata a ação a partir de dinâmicas de causa e efeito (Licoppe, 2008), o interesse pelas práticas institucionaliza o campo denominado EBP (Corradi et al., 2010; Nicolini et al., 2003; Santos & Silveira, 2015). Os EBP abrangem interesses que combinam desde abordagens convergentes ao funcionalismo hegemônico da Administração, como a estratégia baseada em práticas sociais (Jarzabkowski & Spee, 2009; Tureta & Lima, 2011), até entendimentos políticos da sociologia organizacional, como a postura do pesquisador no organizar (Silva, 2020), e gênero e sexualidade nas práticas do corpo nas organizações (Gomes & Fantinel, 2022).
Nos EBP, encontramos novamente variadas formas de conceituar a prática e explicar sua organização. Trata-se de um campo que valoriza o saber (knowing) e o aprender (learning) como elementos articulados pelo fazer (doing). Para Gherardi (2019), por exemplo, a prática é uma realização espaço-temporal alcançada por praticantes que sabem o que estão fazendo. A organização da prática para a autora envolve as comunidades de práticas (community of practice), a partir das quais os praticantes aprendem a fazer (learning) e compartilham saberes (knowing) de um fazer que possui sentido e tempo próprio (Gherardi, 2012). Com o objetivo de analisar para onde os EBP se encaminham, Corradi et al. (2010) elencam sete vertentes de EBP, alinhadas a duas perspectivas, ilustradas na Quadro 1.
Note como existe certo entendimento comum de que a prática é um tipo de “atividade situada”. E a diferença no entendimento de situacionalidade é fundamental para distinguir a prática nos EBP da prática em Theodore Schatzki.
Gherardi (2008; 2019) - autora fundamental para uma genealogia dos EBP (Pagani, 2021) - mostra como diferentes abordagens filosóficas contribuíram na produção de um paradigma sobre o conceito de algo in situ. Em sua postura, Gherardi (2019) entende que “situado” diz respeito ao “contexto” no qual elementos como o saber e o aprender interagem com o fazer (Gherardi, 2000, 2008). Segundo Gherardi (2008, 2019), a noção de “contexto” e de “situação” nos EBP foi fortemente impulsionada por três edições especiais que visavam discutir os estudos baseados em práticas. A primeira foi a edição especial de 1994 da revista Sociologie du Travail, editada por Anni Borzeix, que uniu as perspectivas das escolas norte-americana, inglesa e francesa, além de prever os avanços que levaram à criação dos EBP (Borzeix, 1994). Depois, outras duas outras edições especiais em 2000 e 2002 (Gherardi, 2000; Heath & Button, 2002) com trabalhos que promovem um encontro de tradições distintas como a etnometodologia (ethnomethodology), cognição distribuída (distributed cognition), teoria da atividade (activity theory), estudos sobre o local de trabalho (workplace studies), teoria ator-rede (Actor-Network Theory) e teoria da aprendizagem situada (situated learning theory) (Gherardi, 2000, 2008, 2019; Heath & Button, 2002).
Acontece que se, por exemplo, nos apropriarmos das leituras de Silvia Gherardi sobre a origem dos EBP, a “situação” não envolve o questionamento sobre a ontologia da prática, mas a maneira como o fazer se institucionaliza (Gherardi, 2019). A autora inclusive não utiliza site como Theodore Schatzki, mas situated, pois seu interesse não está em “o que é”, mas em “como aconteceu” uma prática. Já em Theodore Schatzki há, de maneira clara, uma postura ontológica que questiona o que é o site; e desde Schatzki (1996) a noção de “contexto” do filósofo se vincula à fenomenologia heideggeriana e diz respeito à situação (site) clareira (Lichtung) onde estamos - e não aos elementos do fazer (Gherardi, 2000, 2008, 2019). Theodore Schatzki é um pensador pós-heideggeriano, ou, dito de maneira diferente, o pensamento de Theodore Schatzki é orientado pela questão do ser proposta por Martin Heidegger.
O site do social: de Martin Heidegger aos EBP
Martin Heidegger é um pensador cuja relevância envolve a reabertura da questão do ser deslocada pela filosofia de Platão, a partir dos sofistas, e desde então centralizada na discussão da subjetividade (Quintilhano & Santos, 2018; Reale & Antiseri, 2006; Silva, 2020). O pressuposto fenomenológico de Heidegger (1927) descarta a denominação moderna (a ideia de sujeito) em prol do Dasein, por defender que o ser que somos não pode ser compreendido de outra forma, senão existindo; ou seja, o ser que somos não tem uma natureza ou essência separada da sua situacionalidade, como ocorre no pensamento moderno. O ser que somos está direcionado e condicionado ao existir (Schatzki, 2007).
Em Heidegger (1927), ser-aí (Dasein) acontece (é largada) em uma clareira (Lichtung) que precede qualquer determinante da existência. Dasein significa literalmente existência, mas é interpretado como um neologismo do autor para fazer alusão ao ser que somos, ao ser humano que, por exemplo, a filosofia de Descartes (cf. Bitencourt, 2017) denomina de sujeito. Das é um advérbio de lugar e sein pode ser traduzido como ser, daí uma tradução de Dasein como ser-aí. Nesse conceito, Heidegger (1927), entre outras coisas (Schatzki, 2007, 2017a), aprofunda uma ideia compartilhada entre fenomenólogos, a intencionalidade pura, na qual a experiência consciente de existir, o pensar, não tem uma essência (subjetiva/platônica) em si, mas na sua relação com o objeto sobre/em/de que se pensa (Coelho, 2002). Heidegger, por essa via, busca romper com o dualismo moderno entre sujeito e objeto (Smith, n.d.; Smith, 2018).
Há de se considerar duas coisas, porém: (1) O pensamento heideggeriano apropriado na construção da noção dos sites de Theodore Schatzki implica que seres humanos não estão diretamente no mundo; nós estamos no mencionado estado chamado de Lichtung. Em Heidegger (1927), Lichtung é onde a existência humana (ser-no-mundo) acontece. Heidegger (1927) utiliza diversos neologismos como ser-aí (Dasein), clareira (Lichtung) e espacialidade (Räumlichkeit) e produz argumentos particulares de sua obra para falar sobre o ser que nós somos, o lugar que habitamos, as coisas que fazemos etc. No caso, Lichtung é um neologismo sobre um tipo de “consciência” alternativo às implicações teóricas e dualistas da noção de consciência desenvolvida desde René Descartes (Bitencourt, 2017) - Schatzki (2002, 2003, 2005, 2007, 2010, 2019) faz um movimento análogo ao de Martin Heidegger para afastar-se de uma abordagem usual de contexto quando afirma o site como um tipo especial de “contexto”. Em Heidegger, a consciência, Lichtung, não será mediada pela razão moderna, o pensar, mas pela intencionalidade pura, na qual, como foi dito antes, a experiência consciente de existir é dada imediatamente com o objeto sobre/em/de que se pensa (Coelho, 2002; Schatzki, 2003, 2007, 2017a).
Segundo Dreyfus (1995):
Heidegger nos disse desde o começo que Dasein é ser-no-mundo [...] Mas seres humanos nunca estão diretamente no mundo; nós sempre estamos no mundo por estarmos em algumas circunstâncias específicas [e.g., em um tipo de estado mental, ou como Schatzki (2019) afirma, um tipo de contexto] [...] Heidegger chama esta situação de Lichtung. A palavra Lichtung significa literalmente uma clareira na floresta. Nós podemos capturar algum sentido de clareira denominando Dasein um campo de revelação. Para Heidegger isto sugere um espaço aberto em que se pode encontrar coisas. Licht também significa luz. As coisas se mostram à luz do nosso entendimento de ser. Assim, Heidegger relaciona a revelação do Dasein à tradição da equivalência entre inteligibilidade e iluminação que se estende desde Platão até o Iluminismo. Heidegger nos lembra que Dasein não é um sujeito relacionado a um objeto, nem adianta dizer, como Martin Buber diz, que Dasein é “entre” sujeito e objeto, uma vez que isto ainda assume que existem entidades entre o que o Dasein deve ser. Ao contrário, Dasein, como ser-no-mundo, é sempre já fora de si mesmo, formado por práticas compartilhadas, e absorto em lidar ativamente (p. 163, tradução nossa).
Heidegger (1927) relaciona o Lichtung ao estado de iluminação moderno, à consciência racional, ao mesmo tempo que se diferencia dramaticamente dela a partir da intencionalidade pura - é o que Schatzki chama de “mente objetiva” (Schatzki, 2002, 2003, 2005, 2006a). Note que Dreyfus (1995) se afasta de localizar o ser de um modo que não seja o próprio ser-aí (Dasein) pelo motivo já explicado anteriormente: o ser não pode ser compreendido de outra forma, senão aí. Em Schatzki (2003, 2005), nas teorias sociais, a ideia de clareira (Lichtung) é trazida como o campo de inteligibilidade, ou de sentido possível do social. Esse “lugar”, a clareira, o campo de inteligibilidade, é o conceito que fundamenta a noção de site. O autor justifica sua escolha pelo termo “site” pela sua conotação que envolve onde algo acontece, sendo esse lugar a situacionalidade do nosso entendimento de ser (Schatzki, 2005).
(2) Logo, a intencionalidade pura - conceito fenomenológico que propõe que o pensar humano é imediatamente, diretamente direcionado para o existir aí (Schatzki, 2017a) - explica o posicionamento de Schatzki (2003) em relação às aproximações de sua abordagem ontológica com o individualismo. Para o autor, essa aproximação ocorre, pois estamos falando do pensar não como algo abstrato, mas, novamente, como uma mente objetiva (diretamente direcionada) (Schatzki, 2003), na qual esse pensar não pode se separar do objeto foco de sua intenção.
De maneira resumida, segundo Schatzki (2019), o site é onde o social acontece. O autor descreve duas conotações de “onde”: (1) o lugar específico no espaço e no tempo (e.g., a Universidade Federal do Espírito Santo durante a pandemia de covid-19); e (2) o “contexto amplo” (e.g., a educação). Apesar de, a partir daí, utilizarmos a tradução livre de site para “contexto”, “relação” ou “espaço” (Passos & Bulgacov, 2019; Santos & Silveira, 2015) - para citar alguns - em referência às ontologias dos sites, é preciso cautela. Mesmo Schatzki (2005) utiliza “contexto” como uma maneira de explicar as conotações de “onde” para o site e não como um sinônimo. E mesmo “onde” (where) Schatzki (2019) argumenta ser uma aproximação rarefeita, pois Schatzki (2003, 2020) não defende uma visão cartesiana de espaço e tempo, ou seja, o site não é um lugar na rua, nem na história, mas na “consciência” espaço-temporal da atividade humana (Schatzki, 2010). Por isso, entendemos que a cautela do filósofo ao explicar as conotações de site tem como um de seus propósitos a manutenção do vínculo com a filosofia heideggeriana, já que para o ser que somos existir temos a condição de situacionalidade da existência (Heidegger, 1927; Schatzki, 2005). Mais que isso, a manutenção do vínculo heideggeriano implica a manutenção da questão orientadora do pensamento fenomenológico de Heidegger: o que é (ser)?
Atividade situada e o microdirecionamento das abordagens da prática
Acreditamos que a retomada da questão do ser, desta vez em Theodore Schatzki, possa permitir um suspiro diferente sobre a abordagem das práticas nos EOR. Especialmente se considerarmos que a prática se encontra bem estabelecida e, como demonstrado pelo estado da arte de Pagani (2021) e nas preocupações de Gherardi (2009) e Nicolini (2009), trata-se de uma abordagem com tendência em reduzir-se em uma metodologia de descrição de atividades de gestão. É também uma abordagem que deveria romper com a proposição de categorias ontológicas primárias em prol do estudo de fenômenos sociais “macro” (Schatzki, 2019). Vale mencionar que nossa intenção não é invalidar e nem mesmo desconsiderar a diversidade de leituras feitas sobre a obra de Theodore Schatzki, nem sobre os EBP. Estamos cientes do caráter pedante com o qual tratamos a abordagem do filósofo norte-americano nos EOR, mas também nos reconhecemos como mais uma possível alternativa. Em vias de realizar a ambição de um avanço da abordagem da prática frente a uma abordagem “macro” das práticas, propomos, na presente leitura, a desambiguação da prática em relação aos EBP e a apropriação da questão do ser sobre a situacionalidade da prática. Para fazê-lo, partimos de uma das possíveis explicações para o microdirecionamento da abordagem.
Conforme explicado genealogicamente por Gherardi (2008, 2019), várias conceituações de prática falam sobre um tipo de atividade situada, e nossa hipótese é que a maneira como isso é significado pode ser um dos fatores que justificam esse microdirecionamento dos EBP nos EOR. Segundo Schatzki (2017a, 2018), depois de Bourdieu as teorias das práticas têm se concentrado principalmente em uma perspectiva “micro” e, por isso, recebem críticas como um conjunto de abordagens incapaz de lidar com fenômenos em larga escala. Embora Schatzki (2017a, 2018) deixe em aberto a razão pela qual as teorias das práticas apresentam uma tendência direcionada para uma perspectiva “micro” localizada, o autor discorda que isso seja uma característica da abordagem das práticas. Até porque, para ele (Schatzki, 2019), “situado” está relacionado ao site do social e há bastante clareza quanto à expansividade da abordagem. É uma significação distinta da noção de “situação” presente nos EBP, que se propõe como microdirecionada. O filósofo inclusive provoca, dizendo que o “infinito é o site das localizações espaciais” (Schatzki, 2019, p. 26, tradução nossa). Além disso, naquele mesmo artigo em que ele propõe a investigação de um fenômeno social a partir da sua ontologia, Schatzki (2005) também aproxima sua ontologia dos sites:
com aquelas microabordagens que não negam a existência ou eficácia de formações e estruturas “macro” (ou “meso”), insistindo apenas que a existência e eficácia de tais fenômenos sejam compreendidas como e por meio de conjuntos de práticas inter-relacionadas. Não é necessário reificar nenhum nível macro de instituições e estruturas além dos conjuntos inter-relacionados (p. 479, tradução nossa).
Note que, para Schatzki (2005), fenômenos sociais em larga escala não precisam ser reificados, são simplesmente conjuntos de práticas e arranjos materiais. Ademais, o autor vem fazendo análises “macro” de conjuntos de práticas e arranjos materiais desde os anos 2000, sendo sua mais recente empreitada o livro Social Change in a Material World. Nessa obra, Schatzki (2019) reafirma o conjunto (bundle) como um dos elementos mais importantes de sua teoria e, a partir dele, o norte-americano analisa toda uma cadeia de produção de uísque. Além disso, Schatzki (2019) defende o entendimento da prática como algo social, considerando ser social como uma das características que une o campo das práticas. Os vários exemplos que Schatzki (2019) apresenta ao longo do livro, e das suas obras - e.g., Schatzki (2001, 2003, 2005, 2006a, 2006b, 2010, 2012, 2016), entre outras -, nos permitem refletir que o fato de eu estar sozinho em casa cozinhando, por exemplo, não implica a prática de cozinhar como algo que (1) parte de mim sozinho e microlocalizado; ou que (2) sou a única pessoa cozinhando no mundo; e, ainda (3) que não existem implicações sociais da minha atividade, dadas pelos materiais utilizados e pelas pessoas envolvidas com esses materiais, como o gás de cozinha, a eletricidade, os ingredientes etc. (Schatzki, 2017b).
Se Schatzki (2005, 2006a, 2017a, 2017b, 2019) afirma e reafirma as potencialidades da prática no estudo de fenômenos em larga escala, o microdirecionamento dos estudos que se apropriam da abordagem das práticas pode ser fruto de uma questão de corte e hábito específica do campo dos EBP. Ademais, se assumimos que as diferentes maneiras de significar situacionalidade reforçam o nó desse hábito, podemos propor uma metodologia de estudo da prática, não pela descrição de como a prática funciona situacionalmente (Gherardi, 2019; Nicolini, 2009), mas pela busca da compreensão dos sites sociais no espaço-tempo (timespace) da atividade humana (Schatzki, 2010, 2019, 2020). Tal proposta metodológica atravessa a discussão em torno da problematização da tradução, objetivada neste ensaio. Note, por exemplo, como a tradução de site para “contexto”, “relação”, ou “espaço” nos EBP é um dos fatores que reforça que a natureza/essência do social em Theodore Schatzki são contextos, relações, espaços (ou contextual, relacional, espacial) quando a multiplicidade de sentidos para “contexto”, “relação” ou “espaço” já envolve algo acontecendo - neste caso, o próprio contexto, a própria relação, ou o próprio espaço. Além disso, esses conceitos se confundem com as contribuições que os EBP tiveram de outras correntes de pensamento, que não a pós-heideggeriana. Em Theodore Schatzki, e noutros pós-heideggerianos, o contexto, se existir, se insere nesse lugar (Lichtung/site) onde acontece o social. O site (Lichtung), por definição, é anterior ao que quer que aconteça nele (Dreyfus, 1995; Heidegger, 1927; Schatzki, 2003).
De toda sorte, o resgate das aproximações entre Martin Heidegger e Theodore Schatzki não tem a intenção de meramente propor uma outra palavra para traduzir “site”, mas de resgatar o vínculo filosófico heideggeriano na ontologia dos sites nos EOR. Para isso, é necessário questionar que contextos, relações ou espaços não determinam a natureza/essência primária do social, mas são categorias ontológicas desse lugar (Schatzki, 2016, 2019). Conforme o próprio Schatzki (2019) resume, a natureza/essência do social é onde o social acontece, para uma definição aproximada e rarefeita de “onde”, que diz respeito ao espaço-tempo da experiência consciente (Schatzki, 2010, 2020), para um entendimento não objetivo sobre espaço e tempo (Schatzki, 2017a).
A partir disso, poderemos conduzir um estudo sobre práticas nos EOR, fundamentado na ontologia dos sites do social de Theodore Schatzki, sem necessariamente dependermos das características específicas dos EBP, como o microdirecionamento e a descritividade etnometodológica das atividades. O valor disso, quando consideramos a obra de Theodore Schatzki, principalmente a partir de sua ontologia multifacetada (Schatzki, 2016, 2019), é a possibilidade de conduzir estudos sobre práticas nos EOR que problematizam “macrocrises” sociais da contemporaneidade. Diferentemente da apropriação que se vê nos EBP, em que o interesse envolve estudar como uma atividade acontece (Bispo, 2015; Gherardi, 2019; Pagani, 2021; Rezende & Faustino, 2023), Theodore Schatzki, se fosse questionado sobre a “microdimensão” de uma atividade, provavelmente responderia que toda prática é organizada por entendimentos, regras e teleoafetividades (Schatzki, 2005, 2019). E se o interlocutor insistisse, o filósofo indicaria a apropriação de alguma etnometodologia, mas sem se deixar levar por tal (Schatzki, 2019).
A proposta do filósofo é a apropriação da questão do ser heideggeriana sobre o fenômeno social, uma vez que “em qualquer escala e com qualquer aparato conceitual que assuntos sociais são estudados, os fenômenos sociais são, ontologicamente, aspectos ou redes de arranjos de conjuntos de práticas” (Schatzki, 2005, p. 477, tradução nossa). Com essa afirmação, Schatzki (2005) sintetiza três tarefas para estudar a prática com base na ontologia dos sites do social, quais sejam: (1) identificar as ações que compõem uma atividade; (2) identificar os conjuntos de práticas e arranjos materiais dos quais essas ações fazem parte; e (3) identificar outras redes de conjuntos de práticas e arranjos materiais junto aos quais um fenômeno social específico está relacionado.
Theodore Schatzki não nega o estudo das coisas “como elas acontecem” - situacionalmente, tal qual nos EBP -, mas sua abordagem, além de se distanciar da etnometodologia, é também diferente das denominadas “ontologia processual” e/ou “ontologia relacional” (Braidotti, 2006; Slife, 2004). Schatzki (2005) está interessado em implicações bem mais pervasivas da condição existencial e fenomenológica da atividade humana. Na sua obra completa mais recente, Schatzki (2019) retoma a discussão sobre processos e apresenta uma análise comparativa entre diferentes maneiras de abordar eventos, processos e relações na filosofia social. Distinguindo-se dessas abordagens, o autor apresenta a sua versão, na qual eventos e processos são ocorrências temporais em contínuos espaciais; e relações são um componente ontológico dos fenômenos, mas não um categórico primário. Segundo Schatzki (2019), eventos dizem respeito a algo acontecendo, cuja a duração no tempo varia. Processo, para humanos, é o prazo da consciência. A diferença entre um e o outro é que processos têm, necessariamente, duração, mudança e podem ser individualizados por seus resultados. Eventos podem ocorrer instantaneamente e sem mudanças. Por esses meios, Schatzki (2019) descarta uma ontologia processual mais radical em vistas da manutenção de uma abordagem ontológica multifacetada, na qual o site, como lugar onde o social acontece, aparece permeado de categóricos ontológicos processuais e substanciais (Schatzki, 2010, 2019).
O site é um lugar não cartesiano, mas fenomenológico (espaço-temporal), onde distintas categorias ontológicas - contexto, ou relação, ou processo, ou substância, ou qualquer outra categoria ontológica e, mais certamente, várias delas juntas - se realizam à luz do nosso entendimento de ser (Schatzki, 2016, 2019). Novamente, essas categorias ontológicas, quaisquer que sejam, não devem ser entendidas como fundamento ontológico primário do fenômeno social. A principal implicação desse entendimento para o estudo a partir da abordagem da prática é o questionamento de ser dessas categorias ontológicas, quaisquer que sejam, em face umas das outras. Se, por exemplo, uma relação não é o fundamento ontológico primário de um fenômeno social, então podemos submetê-la à metodologia schatzkiana (Schatzki, 2005, 2006a) para estudar o que é a relação e quais as suas implicações sobre nosso entendimento de ser em face de outras categorias ontológicas que compartilham um fenômeno social (Schatzki, 2019).
Como conduzir um estudo sobre práticas nos Estudos Organizacionais?
Além de distinguir a prática nos EOR dela apropriada para o estudo da gestão nos EBP, para conduzir um estudo sobre práticas nos EOR utilizando Theodore Schatzki é preciso distinguir também “organização” nos EOR da “organização” nas obras do filósofo norte-americano. Sabemos que, nos EOR, “organizado” e “organização” têm conotações específicas. Se partirmos de um paradigma realista, podemos definir a organização de modo positivo como uma estrutura palpável, tangível e relativamente estável. De maneira distinta, um pensamento interpretativista pode conceituar a organização como fruto dos processos intersubjetivos de significação dos objetos (Morgan et al., 1983). Das contribuições da Teoria Crítica, entendemos que a organização também é objeto palpável, mas a sua estabilidade é aparente em meio a disputas históricas (Grangeiro et al., 2020).
É possível expandir o quadro paradigmático da análise organizacional (Cooper, 1990; Cooper & Burrell, 2015; Hassard & Wolfram Cox, 2013), aliás, vários estudos servem de inspiração para falarmos sobre a produção de mapas paradigmáticos da teoria organizacional (Burrell & Morgan, 1979; Caldas, 2005; Hassard, 2012; Morgan et al., 1983; Morgan, 2012). Contudo, passado o boom dos paradigmas, essas discussões enfrentam um movimento de conformação e queda a partir de uma suposta impossibilidade/desinteresse em demarcar paradigmaticamente a produção no campo. Assumiu-se a existência de uma espécie de “sopa paradigmática” a partir da apropriação das contribuições da filosofia da linguagem wittgensteiniana nos Estudos Organizacionais e das problematizações sobre a natureza essencialista das esquematizações endereçada pelas abordagens pós-modernistas (Hassard, 2012; Hassard & Wolfram Cox, 2013). O problema dessa postura, além do obscurecimento paradigmático (Hassard & Wolfram Cox, 2013), é o obscurecimento das discussões ontológicas, como se paradigma e ontologia fossem equivalentes.
Acontece que o obscurecimento ontológico é diferente. Se em relação às discussões paradigmáticas se assume uma “sopa” que inviabiliza um posicionamento satisfatório (Hassard & Wolfram Cox, 2013), no que se refere ao posicionamento ontológico somos levados a uma escolha sem problematizar o próprio valor de se escolher. Czarniawska (2014) e Gherardi (2019), referências marcantes no campo, compartilham uma abordagem filosófica em comum, na qual afastam-se de questionar a natureza dos fenômenos sociais em prol de problematizar a maneira como eles ocorrem. Gherardi (2019) inclusive enfatiza que o importante é questionar como e não o quê. A autora nos diz que a questão ontológica nos aproxima de essencialismos, por isso ela defende uma ontoepistemologia.
Noutra direção, Schatzki (2019) defende a essência da realidade, mas problematiza a questão do ser. Acontece que a essência da realidade em Schatzki (2019) é multifacetada. A proposta de sites, como clareiras ontológicas, não nega essências da realidade, mas também não as define como primárias Schatzki (2010, 2019). Há um tipo especial de virtude interessante de ser acessado nessa clareira ontológica. O filósofo nos diz desde o começo que a prática é ação organizada, mais que isso, ele diz que a prática tem três organizações, quais sejam: entendimentos, regras e teleoafetividades. Vários estudos problematizam, explicam, destrincham e enriquecem esses elementos organizadores das práticas de Theodore Schatzki, por isso não vamos saturar esse aspecto aqui. A quem interessar, o próprio Theodore Schatzki (2010, 2019) mergulha em suas produções para expandi-las e trazer contribuições e esclarecimentos1. Nosso propósito sobre as organizações da prática é que não se discute as implicações da linguagem filosófica do autor quando ele anuncia, por exemplo, que as “ações são componentes de uma prática pela virtude de expressarem elementos da organização da prática” (Schatzki, 2019, p. 66, tradução nossa). E é valiosa a recorrência com que o filósofo articula a expressão “por virtude” (do inglês by virtue) e “organização das práticas” (do inglês practice organizations) em seus escritos.
Em Schatzki (2005, 2006a), a organização que conhecemos nos EOR é um tipo de fenômeno social, como diversos outros, acessível a partir dos conjuntos de práticas e arranjos materiais (Schatzki, 2005, 2006a, 2019), mas a organização das práticas é outra coisa. Em Schatzki (2002, 2010, 2017a, 2017b, 2019), a organização das práticas é uma virtude do fenômeno social. Não se trata aqui de definir o caráter organizativo como um categórico ontológico, mas como um atributo, uma virtude. Em meio a um enorme conjunto de diferenças, o social permanece cogente no espaço-tempo de entendimentos, regras e teleoafetividades das nossas práticas. Nesse aspecto, o pensamento ontológico de Theodore Schatzki se aproxima de outras abordagens sobre o real, como Deleuze e Guattari (1992, 2010), que propõem uma metafísica substancial imanente e defendem a existência, em sentido fenomenológico, como algo dependente da produção de sentido sobre uma superfície caotizante por natureza.
Colocado nas palavras de Schatzki (2019):
A teoria social, acredito, é mais flexível e mais adequada à, frequentemente aludida, bagunça da vida social quando abraça a - parafraseando Heidegger (1978 [tradução para o inglês de “Ser e Tempo”, de 1927, referenciado neste ensaio]) - equiprimazia das categorias [...] O mundo social é genericamente composto, pelo menos, por substâncias, estruturas, relações, eventos e processos, e nenhuma dessas categorias tem prioridade sobre as outras no sentido de que o que as outras designam são atributos, propriedades, produtos ou modos de existência das supostas entidades primárias (ou de outra forma ganham seu ser em referência a estas) (p. 13, tradução nossa).
A coesão do fenômeno social de Theodore Schatzki é mantida por variadas ações que compartilham uma virtude: organização (Schatzki, 2024). O estudo dessa virtude nos permite dialogar distintas categorias ontológicas e pode ser alcançado pela mesma questão compartilhada por diversos estudiosos organizacionais: Como se organizam as práticas? (Souza et al., 2024). Exceto que, ao fazer tal questionamento a partir da abordagem ontológica multifacetada de Theodore Schatzki, o objetivo não é a descrição “micro/interna/zoom in” da atividade, mas uma visão geral que permita estudar a maneira como diferentes categóricos ontológicos (relações, processos, substâncias, estruturas etc.) se organizam no espaço-tempo de dado fenômeno social. Para uma significação de organizar como um tipo de virtude ontológica componente da realidade social que mantém essa realidade cogente (Schatzki, 2024).
Inclusive, Schatzki (2006a) complementa sua metodologia de estudo sobre o que é um fenômeno social acontecendo - um departamento na universidade, naquele caso - com reflexões sobre a dimensão temporal das atividades humanas. Para o filósofo, espaço-tempo é um fenômeno da atividade humana baseado na característica teleológica da vida humana (Schatzki, 2010, 2019, 2020). Isso implica dizer que tempo não é entendido a partir da ideia de sucessão de eventos, instantes ou qualquer sucessão de coisas; e que espaço não é um lugar geográfico, como uma sala em um prédio no centro da cidade. Tempo e espaço existem na experiência de ser no mundo (Heidegger, 1927). Schatzki (2010, 2020) explica que passado, presente e futuro não são entendidos sequencialmente, mas como aquilo que se experiencia a partir da atividade, revelando assim um fenômeno que acontece. E o filósofo americano inclusive utiliza essa sua mesma metodologia - identificação das ações, dos conjuntos de práticas e arranjos materiais e das relações entre conjuntos de práticas e arranjos materiais, somada à análise espaço-temporal do fenômeno (Quadro 2) - ao analisar uma destilaria para discutir o site das mudanças sociais, ou seja, onde as mudanças sociais acontecem (Schatzki, 2019).
Conforme o Quadro 2, a condução de um estudo sobre práticas a partir da abordagem fenomenológica de Theodore Schatzki não implica a descrição processual das atividades, mas um mapeamento delas em vistas da produção de um arranjo causal do conjunto (bundle) de práticas em dado fenômeno social. Ressaltamos que, ao falarmos sobre causalidade, não estamos nos referindo somente aos efeitos de cadeias de ações, mas da maneira como se produz o espaço-tempo da atividade humana. Conforme explicado, o espaço-tempo é formativo em relação a causas e efeitos, pois diz respeito à maneira como as motivações e a tensão normativa das ações expressam a teleologia das práticas. Ao compreender um fenômeno social por meio dessa abordagem podemos problematizar sua dimensão formativa e questionar o que, ontologicamente, subjaz o nexo de práticas de um fenômeno. É por isso que Schatzki (2005, p. 477, tradução nossa) propõe o estudo das práticas de maneira que privilegie “visões gerais de fenômenos sociais e seus funcionamentos, por sua vez expressos na forma de referências, não aos detalhes dos conjuntos de práticas-arranjos, mas às formações inteiras e suas relações”. Desse modo, uma abordagem da prática a partir de Theodore Schatzki volta-se para os sentidos (teleologia), emoções, temporalidade (motivações, continuidade, efeitos) e para a materialidade que organizam os sites da atividade humana.
O ENFRENTAMENTO DA CRISE É UMA QUESTÃO DE VIRTUDE - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pedimos licença ao leitor, pois não há uma conclusão retomando as principais ideias deste ensaio. Enquanto o campo das práticas que se forma desde meados de 1800 entra em embate com o racionalismo moderno na busca de uma abordagem não platônica (Bourdieu & Passeron, 1990; Dreyfus, 1995; Foucault, 1977; Heidegger, 1927; Nietzsche, 2017; Schatzki, 2019) - entre outros -, o campo das práticas nos EOR se preocupa em distanciar-se do excesso prescritivo e técnico do fazer em face da não ortodoxia da ação (Corradi, et al., 2010; Czarniawska, 2014; Duarte & Alcadipani, 2016; Gherardi, 2000, 2012; Thiollent, 2014) - entre outros. Quer dizer, uma das coisas que separa a Filosofia da Prática e a Administração na Prática é que a segunda submete a primeira a uma forma de crítica interna, que questiona a razão do fazer em prol de uma “nova” razão de fazer. É em cima disso que problematizamos a tradução neste ensaio. Não se trata de uma implicância com termos utilizados aqui ou ali, mas de uma provocação sobre a maneira como traduzimos conteúdos filosóficos nos Estudos Organizacionais. Afinal, estamos trazendo a filosofia para os Estudos Organizacionais ou estamos levando os Estudos Organizacionais à filosofia? Sem responder esse questionamento diretamente, refletimos que todos nós, pesquisadores do campo dos Estudos Organizacionais, já sofremos algum tipo de resistência para abordar certos conteúdos epistemológicos em nossos estudos. Somos forçados a adaptações dos nossos trabalhos às demandas hegemônicas da nossa disciplina, e esse movimento de acomodação pode ser um dos principais responsáveis pelas perdas na tradução. Se utilizarmos o que foi abordado sobre o campo das práticas neste ensaio como exemplo, trazer a filosofia para a Administração tem sido um movimento de confinamento de abordagens, inclusive discordantes, a dinâmicas gerencialistas - vide os EBP. O que propomos ao problematizar a tradução filosófica segue o segundo caminho, de levar a Administração à filosofia para construirmos contribuições outras para o campo, principalmente no que diz respeito às demandas urgentes da contemporaneidade que anseiam por ruptura com o modelo gerencialista. Então, no lugar de retomar a discussão do ensaio, entendemos a conclusão como espaço onde a discussão se converge e, neste caso, a convergência é a problematização das crises sociais atuais em face do resgate da filosofia das práticas nos EOR.
As pessoas estão tristes, cansadas, estressadas, ansiosas, depressivas, angustiadas, usando mais drogas. A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization [WHO], 2022) estima que 970 milhões de pessoas apresentam algum tipo de transtorno psicoemocional; 31% dessas apresentam ansiedade e 28,9% apresentam quadro depressivo. Já os demais 40,1% estão distribuídos em idiopatia, déficit de atenção, bipolaridade, autismo, esquizofrenia, desordem alimentar e desordem de comportamento (WHO, 2022). Só os casos de depressão e ansiedade aumentaram aproximadamente 30% entre 2019 e 2020, durante a pandemia de covid-19. Considerando as limitações metodológicas da WHO, sabemos que esses números são subnotificados. Aproximadamente 35% do total de mulheres no mundo sofrem violência sexual (Okabayashi et al., 2020). Há de se mencionar ainda a escalada do autoritarismo (Lesgart, 2020) e os alarmes vermelhos dos limites planetários, que definem a saúde do planeta Terra e sua capacidade de regeneração (Rockström et al., 2023). Há, ainda, vários índices, igualmente desesperadores, ignorados neste parágrafo, mas não porque não nos importamos, mas porque estatísticas de racismo, machismo, homofobia, xenofobia e outras formas de discriminação e desumanização são subnotificadas ao redor de todo o planeta. Práticas insustentáveis continuam dominantes (Scheurenbrand et al., 2024).
Apesar da complexidade e variedade de fatores que implicam esses dados, um conjunto expressivo de pensadores entende que essas crises se ramificam a partir do antropoceno (Rockström et al., 2023; Zalasiewicz et al., 2017). Ou seja, as crises enfrentadas pela humanidade na contemporaneidade são desenvolvimentos do nosso próprio modelo social. Inclusive, Rockström et al. (2023), como Schatzki (2019) e Scheurenbrand et al. (2024), compreendem que o enfrentamento de uma crise multifacetada requer uma frente de trabalhos igualmente multifacetada. Para nós, pensadores sociais, isso implica a necessidade de reconhecer o estudo do fenômeno social adotando abordagens capazes de conversar com diferentes categorias ontológicas ao invés de uma primazia ontológica que não se faz suficiente frente à complexidade do problema (Schatzki, 2016; 2019). É uma questão de organização, porém, não como em um fenômeno organizativo, mas como virtude dialógica de distintos categóricos ontológicos que buscam explicar o fenômeno social.
Depois de analisar a obra de Theodore Schatzki, comparando a maneira como ele utiliza a noção de virtude atrelada às organizações da prática, concluímos que uma maneira de conceituar virtude envolve a maneira como distintos posicionamentos ontológicos se expressam nas organizações das práticas, formando um nexo social (Schatzki, 2016, 2019) que atravessa contexto, eventos, processos, relações, discursos, hábitos, estruturas, substâncias etc. Entendemos que, ao questionarmos a crise enfrentada pela sociedade contemporânea, é fundamental a compreensão de que uma resposta baseada em uma lente singular teria de negligenciar a complexidade da própria sociedade, se não o próprio sentido para o termo crise. Com a guerra, a desigualdade social e as mudanças climáticas na disputa, fica difícil defender algo como o mal maior. E talvez seja exatamente isso que precisamos internalizar: não há como eleger um mal maior! O que nós podemos efetivamente fazer é a apropriação de uma ontologia multifacetada, como a de Theodore Schatzki, para o estudo de uma crise ontologicamente multifacetada.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES)para suporte ao Programa de Capacitação de Recursos Humanos na Pós-Graduação - Doutorado (PROCAP 2021 - Doutorado), do qual Bruno Ricardo Peixoto de Rezende é beneficiário.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo
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PARECERISTAS
Ítalo Henrique de Freitas Ramos da Silva (Universidade Federal de Pernambuco, Caruaru / PE - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4489-1389
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PARECERISTAS
Um dos revisores não autorizou a divulgação de sua identidade.
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/94673
Editado por
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EDITOR-CHEFE
Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
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EDITOR-ADJUNTO
Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo



Fonte: Elaborado pelos autores com base em
Fonte: Elaborado pelos autores.