Resumo
A presente pesquisa visa compreender como se evidenciam as racionalidades substantiva e instrumental nos estágios de constituição das startups (pré-incubação e incubação). A partir do chamamento de Guerreiro Ramos para a realização de pesquisas empíricas evidenciando formas alternativas de racionalidades, verificou-se a relevância da utilização do modelo de Serva (1997) e Serva et al. (2015) no campo científico. Percebeu-se uma lacuna de investigação emstartups, por ocasião da ascensão dos novos modelos de negócios. Os estudos anteriores, em geral, não consideraram fases distintas da vida das organizações e, por isso, utilizou-se o método de Robert Stake (2011) para estudo de casos múltiplos. Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se a entrevista com roteiro semiestruturado. A análise de dados foi realizada mediante análise de conteúdo de Bardin (1977). As principais manifestações da racionalidade substantiva se deram na categoria autorrealização, na pré-incubação através da evidência do propósito, e na incubação através do desejo de autorrealização, amadurecimento e autopercepção. Na categoria entendimento e consenso, no pré-incubação foi evidenciada através da horizontalidade ágil e na incubação, através do senso de equipe. Também na categoria emancipação e autonomia, no pré-incubação se evidenciou no horário flexível, enquanto na incubação se evidenciou na flexibilidade de horário e local de trabalho. A contribuição do trabalho se dá na ampliação do campo empírico da racionalidade substantiva e instrumental em organizações voltadas para o mercado em estágios distintos.
Palavras-chave:
Racionalidade instrumental; Racionalidade substantiva; Startups
Abstract
This study aims to understand how substantive and instrumental rationalities emerge during the constitution stages of startups (pre-incubation and incubation). Inspired by Guerreiro Ramos’ call for empirical research that highlights alternative forms of rationality, the work underscores the relevance of Serva’s model (1997; Serva et al., 2015) in the scientific field. The study identifies a research gap regarding startups amidst the rise of new business models. Previous studies often overlooked distinct phases in organizational life cycles. Consequently, Robert Stake’s (2011) method was employed for multiple case studies, using semi-structured interviews as the main data collection tool. Data analysis was conducted using Bardin’s (1977) content analysis. The manifestations of substantive rationality were predominantly observed in the category of self-realization, evidenced through purpose during pre-incubation and through maturation and self-perception during incubation. In the understanding and consensus category, findings included agile horizontality in pre-incubation and team consensus during incubation. Finally, in the emancipation and autonomy category, flexible schedules were observed in pre-incubation, extending to flexible work hours and locations during incubation. This study contributes to expanding the empirical field of substantive and instrumental rationalities in market-oriented organizations across different stages.
Keywords:
Instrumental rationality; Substantive rationality; Startups
Resumen
Este estudio tiene como objetivo comprender cómo se evidencian las racionalidades sustantivas e instrumentales durante las etapas de constitución de las startups (preincubación e incubación). Inspirado en la convocación de Guerreiro Ramos para realizar investigaciones empíricas que pongan de manifiesto formas alternativas de racionalidad, el trabajo destaca la relevancia del modelo de Serva (1997; Serva et al., 2015) en el campo científico. Se identificó una brecha en las investigaciones sobre startups en medio del auge de nuevos modelos de negocios. En general, los estudios anteriores no consideraron las fases distintas de la vida organizacional, por ello, se utilizó el método de Robert Stake (2011) para estudios de casos múltiples, empleando entrevistas semiestructuradas como principal herramienta de recolección de datos. El análisis de datos se llevó a cabo mediante el análisis de contenido de Bardin (1977). Las manifestaciones de la racionalidad sustantiva se observaron principalmente en la categoría de autorrealización, evidenciadas a través del propósito en la preincubación y mediante la maduración y autopercepción en la incubación. En la categoría de entendimiento y consenso, en la preincubación, se evidenció a través de la horizontalidad ágil, y en la incubación, a través del sentido de equipo. Finalmente, en la categoría de emancipación y autonomía, en la preincubación, se evidenció en el horario flexible, mientras que en la incubación se evidenció en la flexibilidad de horario y lugar de trabajo. Este estudio contribuye a expandir el campo empírico de las racionalidades sustantivas e instrumentales en organizaciones orientadas al mercado en diferentes etapas.
Palabras clave:
Racionalidad instrumental; Racionalidad substantiva; Startups
INTRODUÇÃO
A teoria das organizações solidifica-se a partir da observação de seu objeto de pesquisa no contexto de produção, estrutura, decisões, sistemas, contingência, ecossistemas, redes, instituições, recursos e capacidades. Por outro lado, oportuniza refletir sobre o sentido e os motivos das ações nas organizações, abrindo espaço para a reflexão sobre valores emancipatórios e autônomos dos indivíduos (Serva et al., 2015). Nessa lógica, como bem pontua Serva (2023), estudos com abordagem crítica baseada nos pragmatismos filosófico e sociológico contribuem para os estudos organizacionais ao privilegiar a ação coletiva, a busca pela justiça e a transformação social, assim, constituindo-se numa abordagem reflexiva e crítica e tornando-se relevante e inovadora.
Nessa perspectiva, esta pesquisa tem como objetivo investigar a evidenciação das racionalidades instrumental e substantiva em startups. A problematização atende ao chamado por pesquisas sobre racionalidade substantiva iniciada por Serva (1997) e Serva et al. (2015), quando se fez um balanço dos estudos da racionalidade no campo das organizações brasileiras. Portanto, o presente estudo justifica-se teoricamente uma vez que dá sequência aos estudos das racionalidades presentes nos ambientes organizacionais, iniciados e seguidos (Ramos, 1989; Serva, 1997; Serva et al., 2015). Tais estudos revelam, empiricamente, a presença dessas racionalidades (substantiva/instrumental) numa abordagem crítica (Serva, 2023).
Assim, as startups foram escolhidas como campo empírico desta pesquisa por apresentarem-se como crescentes agentes econômicos na atividade de base tecnológica. Presentes também em parques científicos e tecnológicos, como incubação ou aceleração, elas ocupam relevantes espaços da discussão acadêmica, empresarial e midiática. Os achados da pesquisa, com busca nas bases de dados internacionais,1 não indicaram estudos específicos sobre racionalidade substantiva em startups.
Embora a supremacia de estudos científicos no que se refere ao contexto do trabalho em startups seja eminentemente de caráter funcionalista, entende-se como pertinente abrir espaço para o contraditório. Dessa forma, pode ser possível lançar novos olhares a respeito da perspectiva do sentido do trabalho nos novos modelos de organizações emergentes.
Se, por um lado, a racionalidade substantiva oferece condições para reflexão sobre escolhas alternativas de trabalho e carreira, por outro, se percebe o crescente apelo pelo protagonismo empreendedor através da adoção da instituição denominada startup. Surgiu, portanto, a necessidade de investigar empiricamente se as startups poderiam evidenciar indícios de emancipação, autorrealização e/ou tensionamento entre elas e a racionalidade instrumental.
Diante do exposto, o problema de pesquisa que conduz este estudo é: Como se evidenciam as racionalidades (substantiva/instrumental) nos estágios de pré-incubação e incubação de startups?
Racionalidade instrumental, substantiva e startups
A racionalidade substantiva oportuniza no agente uma conexão reflexiva com os valores, princípios e propósitos interiorizados no indivíduo. Para Weber (1999), o ser humano é o responsável pelo estabelecimento do sentido de sua ação social e suas consequências. Já a racionalidade instrumental não oferece condições para a reflexão adequada da ponderação valorativa necessária ao agir do mundo moderno. Através da racionalidade substantiva, o indivíduo deixa de viver compartimentado em nichos de decisões e, racionalmente, consegue exercer um julgamento ético de todas as dimensões da vida que repercutem no seu agir ou deixar de agir. Assim, a racionalidade substantiva substituiria o papel da religião para o homem pós-moderno, em sua conduta social, econômica, interpessoal e organizacional, por exemplo (Kalberg, 1980).
Ao utilizar a racionalidade substantiva, os indivíduos assumem a direção de suas vidas no sentido da autorrealização e do autodesenvolvimento. Isso favorece o engajamento dos indivíduos no processo de desenvolvimento organizacional e social (Lima et al., 2015). É necessário esclarecer que não existem racionalidades isoladas no mundo concreto, ou seja, sempre existirão sistemas sociais mistos. O que parece existir é a interconexão entre as racionalidades instrumental e substantiva (Salm & Menegasso, 2015). Está muito claro até aqui como ocorre essa interconexão nas organizações produtivas, mais especificamente nos novos modelos de negócios. Entretanto, salienta-se que a racionalidade substantiva, uma vez que privilegia critérios éticos, morais e políticos nas práticas organizacionais, coadunam com a análise pragmatista baseada nos princípios do pragmatismo filosófico e sociológico apresentada (Serva, 2023).
Um estudo com três empresas de Salvador, Bahia, foi testado empiricamente e apresentou uma escala de intensidade de racionalidade substantiva. O estudo, em adição à temática, complementa a abordagem da teoria da ação comunicativa de Habermas e busca demonstrar a concretização prática da racionalidade instrumental e substantiva (Serva, 1997). Como principais resultados, apresenta o modelo de análise da evidência da racionalidade substantiva e instrumental em organizações (inclusive produtivas), detalhado na sequência.
A partir dos estudos de racionalidades em startups, encontraram-se tangenciamentos à temática: tomada de decisão associada à racionalidade (Gong, 2015; Ilonen et al., 2018); representações cognitivas (Baumann et al., 2019); racionalidade e desenvolvimento sustentável (Kallio et al., 2007); ambiente institucional dos novos modelos de negócios (Gstraunthaler, 2010); decisão no planejamento e desenvolvimento (Lin et al., 2011); cocriação (Ferguson et al., 2016); socialização em incubadoras (Nijssen & Borgh, 2017); ecossistemas privados (David-West et al., 2018); racionalidade tecnocrática (Perng et al., 2018); paixão versus precarização (Styhre & Norbäck, 2019); voz emancipatória (Gülenç & Aritürk, 2016); mulheres em startups (Kuschel et al., 2017); teoria da identidade (Gruber & MacMillan, 2017); persona do bilionário (Maia, 2019); linguagem (Roundy & Asllani, 2019); racionalidade limitada (Cohen et al., 2018); racionalidade comportamental (Chu et al., 2022); racionalidade cognitiva (Berglund, 2015; Chatfield, 2009; Datta et al., 2020; Ferguson et al., 2016; Lowe & Ziedonis, 2006); racionalidade geral (Pollio, 2020; Ramesh, 2019); racionalidade instrumental (English-Lueck & Avery, 2017; Gruber & MacMillan, 2017); racionalidade tecnocrática (Perng et al., 2018); racionalidade substantiva associada ao desenvolvimento sustentável (Bolis et al., 2021; Kallio et al., 2007); estudo da rotina em startups (Mariano & Casey, 2016); e, por fim, empreendedorismo effectuation (Wiltbank & Sarasvathy, 2010).
O resultado da busca dos artigos nacionais está agrupado conforme o tipo de organizações nas quais os estudos tiveram seu foco. Em Organizações não Governamentais (ONGs), encontraram-se estudos sobre o conceito de isonomia da gestão de uma ONG (Souza & Lins, 2009); no terceiro setor, heterogeneidade de racionalidades (Barros & Santos, 2010); presença da racionalidade substantiva em ONGs geridas por mulheres (Figueredo & Dellagnelo, 2011); no Instituto Çarakura, complementaridade das racionalidades no processo motivacional (Sabioni et al., 2018).
Percebeu-se também o interesse da pesquisa sobre a racionalidade substantiva em propriedades rurais: caracterização da propriedade Ecocitrus como organização substantiva de intensidade elevada (Severo & Pedrozo, 2012); código florestal brasileiro a partir da análise do discurso, com ausência da racionalidade substantiva (Camargo & Rodrigues, 2018); relações afetivas e práticas produtivas baseadas em tradições assumem papel significativo nos modos de organizar e associam-se ao caráter substantivo das relações sociais (Boehs & Seifert, 2020); agroflorestal com a prática alternativa na busca de segurança alimentar, geração de renda e conservação dos agroecossistemas (Henzel et al., 2021); unidade familiar camponesa que constrói relações econômicas de trocas com cultivo de quintais produtivos (Ramos & Silva, 2022); predominância de processos de gestão com viés de racionalidade substantiva caracterizando traços de práticas emancipatórias do ser humano na esfera produtiva em ecovilas (Tres & Souza, 2022); e racionalidades no processo de decisão dos produtores de alfafa (Barros et al., 2022).
Associações, grupos, cooperativas, comunidades, igrejas e rede de ioga também foram organizações em que a racionalidade substantiva foi investigada: estudo numa associação de materiais recicláveis constatou a influência da racionalidade substantiva na constituição da cadeia produtiva (Silva et al., 2009); influência da racionalidade substantiva no surgimento de valores emancipatórios, autonomia, entendimento ético e autorrealização na incubação de cooperativas populares (Cançado et al., 2011; Matarazzo & Boeira, 2016); racionalidade instrumental presente nas estratégias de sobrevivência, e substantiva nos valores éticos e estéticos de um grupo de teatro (Souza & Carrieri, 2014); estudo e debate de diferentes racionalidades em cooperativas (Zwick & Pereira, 2013); tensões da vida humana associada nas comunidades tradicionais de Faxinais, no Paraná (Silva et al., 2015); fatores motivadores da racionalidade substantiva numa rede de cooperação tecnológica (Mineiro et al., 2019); tensão das racionalidades instrumental e substantiva na Associação Amigos da Cultura (Delgado, 2018); complementaridade entre a racionalidade substantiva e ação comunicativa numa igreja evangélica (Cavalcanti & Cavalcante, 2020).
Foram encontrados, ainda, estudos de racionalidade substantiva em outros diversos tipos de organizações e objetos de estudo: empresas (Serva, 1997); identidade profissional (Lima et al., 2004); gestão de pessoas na ótica substantiva como promotora de potencialidades humanas (Loch & Correia, 2004); fundamentos da gestão social na crítica a Robert Owen (Souza & Oliveira, 2006); instituição psiquiátrica (Vizeu, 2006); economia solidária (Dias & Souza, 2014; Medeiros & Souza, 2011; Soares et al., 2020); instituição oncológica (Silva & Fernandes, 2011); concepções instrumentais e substantivas da mídia sobre as Olimpíadas 2016 (Silva et al., 2011); governança corporativa (Jacometti, 2012); profissionalização de empresa familiar de grande porte (Muzzio, 2012); gestão de pessoas (Muzzio, 2014); demissões (Margoto et al., 2014); clima organizacional (Lima et al., 2015); teoria dos custos de transação (Gouveia & Conti, 2015); formação do gestor social (Salm & Menegasso, 2015); instituição de ensino superior (Alves & Adamoglu, 2019); ciência social e o homem parentético (Santos et al., 2019); práticas administrativas no nível tático (Silva & Lins, 2019); licitações públicas (Cardoso & Mueller, 2020); peritos contábeis (Santos & Hein, 2020); narrativas contábeis em relatórios corporativos (Cruz et al., 2022); e logística (Massi & Araújo, 2021). Constata-se uma lacuna de pesquisa em startups caracterizadas como novos modelos de negócios. Além disso, as pesquisas encontradas, em geral, desconsideraram fases distintas da existência das organizações. Dito isso, o modelo mais aceito para a investigação das racionalidades substantiva e instrumental é o de Serva (1997), conforme apresentado no Quadro 1.
Startup
Diante dos desafios disruptivos de inovação, grandes empresas buscaram alternativas para aproximar-se das comunidades de startups, investindo em incubadoras e/ou aceleradoras internas e externas para conseguir inovar com mais agilidade. Começaram, então, a utilizar espaços externos em parques tecnológicos e privados para desvincular-se e obterem liberdade para criar produtos e serviços, aproveitando o conhecimento acumulado anteriormente (David-West et al., 2018).
Pode-se compreender o processo de inovação em dois níveis: um a partir da interação contínua entre pesquisa, tecnologia e desenvolvimento de aplicações, e validação e utilização prática; e o outro como a colaboração em nível territorial, impulsionada por políticas de desenvolvimento urbano e regional (Husar & Ondrejicka, 2019). Assim, as startups podem ser abrigadas em centros tecnológicos de inovação, nos quais são incubadas e/ou aceleradas.
Uma startup é “uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza” (Ries, 2012). Nesse mesmo sentido, Blank e Dorf (2012) a conceituam como uma “organização temporária em busca de um modelo de negócio escalável, recorrente e lucrativo”. Por ser uma organização temporária, seu tempo de existência já se limita e a condiciona a uma situação intermediária de vida.
Em relação ao tempo de duração do período para criar uma startup que possa ser escalável e sucedida, não há consenso e varia muito. Blank e Dorf (2012), porém, acreditam que é necessário entre 6 e 30 meses. A primeira fase de muitas startups é a busca de auxílio para a estruturação da ideia; nesse sentido, as incubadoras tornam-se uma fonte de auxílio. Mais frequentes a partir do final dos anos 1990, as incubadoras adotam uma finalidade inicial de cuidado de uma ideia frágil, em analogia aos cuidados biológicos prestados a plantas e seres vivos que precisam de atenção especializada, frequente e extremamente cuidadosa (Maia, 2019).
As aceleradoras, mais frequentes que as incubadoras, também podem se organizar em redes e otimizar o fluxo de informações que são intercambiadas, inclusive internacionalmente, e potencializar as startups (Cohen et al., 2018; Kuschel et al., 2017; Nijssen & Borgh, 2017; Sarmento et al., 2016). Para acelerar o investimento, nessa fase da startup o investidor - o “anjo” na cultura startup - é uma das formas de acesso a recursos. Geralmente os investidores são formalmente organizados e investem em etapas (rounds). Novos investimentos, majoritariamente, são atrelados a metas tangíveis (Blank & Dorf, 2012; Maia, 2019).
Consideram-se melhores empreendedores aqueles que não hesitam na realização das mudanças ao constatarem que as hipóteses estão equivocadas (Blank & Dorf, 2012; Bouncken et al., 2018). Para entender as fases da criação de uma startup, é necessário compreender que não se trata de uma versão menor de uma grande empresa; ela é uma startup.
Em relação aos estudos científicos encontrados sobre racionalidades em startups, a maioria trata da perspectiva funcionalista, tais como alguns exemplos: viés cognitivo do excesso de otimismo (Lowe & Ziedonis, 2006); história das incubadoras (Gstraunthaler, 2010); racionalidade limitada em aceleradoras (Cohen et al., 2018) e origem conceitual das startups a partir da Resource-Based View (David-West et al., 2018). No entanto, foram encontrados também estudos numa perspectiva crítica, tais como: crítica à tecnologia conforme Hidegger (Gülenç & Aritürk, 2016); financiamento para mulheres empreendedoras de startups (Kuschel et al., 2017); crítica antropológica da cultura startup (English-Lueck & Avery, 2017); e crítica da disseminação da precariedade do trabalho em hackathons (Perng et al., 2018).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A ontologia diz respeito à compreensão de como as coisas são, embasando a delimitação da pesquisa e auxiliando tanto a escolha epistemológica como a escolha do método adequado. Para a ontologia idealista (subjetivista), um objeto só adquire existência a partir do momento em que é percebido pelo observador. A realidade social é, portanto, produto da interação negociada e compartilha os significados entre os indivíduos. No que se refere aos paradigmas de pesquisa, o presente estudo se estabelece como interpretacionista (Saccol, 2007).
Quanto ao procedimento técnico, optou-se pelo estudo de casos, segundo Stake (2007, 2011). Estas são as categorias de análise de acordo com a necessidade de responder ao problema da presente pesquisa: a) Racionalidade substantiva (autorrealização, entendimento/consenso, emancipação/autonomia); b) Racionalidade instrumental (fins, maximização de recursos, êxito/resultados). Ambas são consideradas na pré e na incubação de fato, pois são as categorias nas quais se encontram evidências nos resultados, tendo como parâmetro o modelo de (Serva, 1997).
Os empreendedores das startups investigadas são 14 incubados nas respectivas incubadoras de duas universidades comunitárias no sul do Brasil, em dois estados distintos da federação. Majoritariamente homens, com idade entre 18 e 46 anos de idade, todos brancos, com escolaridade entre ensino médio e doutorado. Preferiu-se não nominar as incubadoras e os respondentes com o objetivo de proteger suas identidades. O procedimento de acesso aos empreendedores ocorreu por parte dos responsáveis pelas incubadoras. O pesquisador entrou em contato com esses profissionais, que sondaram os empreendedores incubados a respeito da disponibilidade em participar da pesquisa a partir da concessão de uma entrevista semiestruturada.
Com o consentimento, realizaram-se os agendamentos e a coleta dos dados. Em contato com os primeiros entrevistados, constatou-se que, embora fossem os responsáveis pela startup, vários estavam trabalhando em diferentes lugares físicos, em distintas cidades. Então, por iniciativa de vários entrevistados, agendaram-se entrevistas remotas, via Google Meet. No início da coleta dos dados, ainda havia a ocorrência de vários casos de contágio de gripe por ocasião da pandemia da covid-19, optando-se, portanto, por manter esse formato de entrevista.
Mediante o consentimento dos indivíduos entrevistados, gravaram-se as entrevistas com o dispositivo digital Google Meet e, posteriormente, os dados foram armazenados em dois HDs (hard discs) externos e nuvem do Google Drive. Como a entrevista ocorreu a partir de roteiro semiestruturado, trata-se apenas de questões como ponto de partida para o diálogo, por exemplo: a) [...] me conte um pouco da sua trajetória até tornar-se empreendedor de startup...; b) [...] quais motivos levaram a empreender em startup?; c) [...] qual era a expectativa em relação a ser incubado e/ou acelerado?; d) [...] como foi o início do processo?; e) [...] e hoje em qual estágio se encontra? O que mudou?; além de demais perguntas que surgiram eventualmente em busca de evidências do significado atribuído ao trabalho em startup.
A partir das respostas, buscou-se maior entendimento dos significados evidenciados. Então, os diálogos (387 minutos) foram transcritos em arquivos do Microsoft Word (151 páginas), analisados e categorizados. Na sequência, discutiram-se os resultados, o que constitui o capítulo seguinte.
Para interpretação e análise de conteúdo, adotou-se o disposto no capítulo 3 do livro Análise de entrevistas de inquérito: a relação com os objetos,Bardin (1977, p. 65). O material de análise consiste na transcrição em documentos de edição de texto, a partir das entrevistas obtidas com imagens e áudios que estão armazenadas. Assim que se transcreveram, as entrevistas foram adicionadas à tabela de categorias que foi dividida em pré-incubação e incubação.
Apresentação e discussão dos resultados
Autorrealização versus fins
Pré-incubação
Na fase de pré-incubação, ficaram evidenciados os aspectos da racionalidade instrumental de forma explícita na necessidade de obter o retorno financeiro para atingimento da finalidade da startup. Contudo, nota-se uma busca de conciliação dos aspectos relativos da racionalidade substantiva de necessidade de autorrealização.
A racionalidade instrumental evidenciou-se principalmente no fato de os recursos serem escassos, como denotam estes depoimentos: “Então era bem puxado nessa época também. Trabalhava até tarde da noite e acordava cedo” (Entrevistado A); “A gente não é ONG, então tem que visar dinheiro, e simplesmente para uma empresa funcionar, conseguir contratar gente e agregar, precisa de dinheiro [...] eu fiquei quatro anos só colocando dinheiro sem rentar um centavo” (Entrevistado B); “No início muita grana, porque era muito fácil para nós fazer um site [...] em uma produção em massa, era muita grana” (Entrevistado C).
Quanto à racionalidade substantiva, na fase de pré-incubação evidenciou-se o desejo de viver um propósito, que muitas vezes liga-se a maior autonomia e liberdade, o que não era vivenciado nas experiências profissionais anteriores. Os depoimentos a seguir apresentam algumas das evidências encontradas: “Nosso foco desde o início era fazer algo que estivesse mudando a vida do produtor” (Entrevistado B); “Decidi sair do emprego que eu estava para iniciar um negócio no propósito de entrega, de trabalho mesmo. Senti que o que eu fazia não era relevante” (Entrevistado E); “Sempre vi coisas nas outras empresas que me desagradava muito, eu não tinha controle [...]. Aqui a gente tem essa autonomia (Entrevistado G); “É a autorrealização. Claro que a parte financeira é muito importante também, mas era mais questão de autorrealização” (Entrevistado K).
Incubação
Na fase de incubação, evidencia-se mais a racionalidade substantiva no que se refere ao desejo de autorrealização; porém, não é evidenciado se o retorno financeiro (racionalidade substantiva) está sendo satisfatório ou compensador (para todos os respondentes). Percebem-se narrativas que tentam conciliar as racionalidades substantiva e instrumental, ou seja, a autorrealização e o retorno financeiro.
A conciliação entre as racionalidades substantiva e instrumental evidenciou-se em narrativas como estas: “Agora eu acredito que o ganhar dinheiro está muito ligado com autorrealização. Então no nosso negócio a autorrealização vai ser atingida se ganharmos dinheiro” (Entrevistado K); “É uma segurança financeira, porque tinha meses que eu trabalhava mais com fotografias e outro, trabalhava menos. Mas é mais por realização mesmo” (Entrevistado N).
Dentro desta categoria de autorrealização versus fins, alguns depoimentos demonstram uma autopercepção de amadurecimento na fase de incubação, ainda nessa tentativa de conciliação entre as racionalidades substantiva e instrumental: “A gente tem um conhecimento muito maior do que representa essa realização; tivemos um amadurecimento profissional, um progresso financeiro e tudo mais” (Entrevistado D); “Se a gente pegar o antes e o depois, amadurecemos muito, aprendemos muito. E seguimos com o mesmo sangue nos olhos lá do começo (Entrevistado E); “Olha, a gente tá deixando de ser os guris da TI; temos que nos comportar e portar agora como empresários e entender que esse novo posicionamento diz muito sobre a empresa no mercado” (Entrevistado F).
Percebe-se que a racionalidade instrumental se evidenciou de forma explícita na fase de pré-incubação; na fase de incubação, a racionalidade substantiva evidencia-se de forma a conciliar os interesses da racionalidade substantiva. Na fase de incubação, percebeu-se a evidência dentro da categoria de autorrealização versus fins, além da evidência de falas de conciliação entre a racionalidade substantiva e instrumental - a autopercepção de amadurecimento -, reforçando a evidência de conciliação entre as racionalidades.
Entendimento e consenso versus maximização de recursos
Pré-incubação
A categoria de análise “entendimento e consenso versus maximização de recursos”, assim como as demais categorias na pré-incubação, é marcada pelas evidências da racionalidade instrumental, pela necessidade de viabilizar o projeto pessoal e profissional. Entretanto, são abundantes as evidências da tentativa de conciliação entre as racionalidades substantiva e instrumental. Essa categoria também apresenta evidências importantes em relação à criação da equipe que fará parte da startup.
Ao analisar a categoria de entendimento e consenso versus maximização de recursos na fase da pré-incubação, três evidências chamaram atenção a ponto de serem analisadas em separado: horizontalidade ágil, trabalho parcial e divergência de remuneração.
No que se refere à primeira, percebeu-se que, na pré-incubação, por ser o momento da configuração da equipe que trabalhará na ideia da startup, as combinações são importantíssimas. Houve o entendimento de alguns entrevistados que fortalecem essa ideia: “Trabalhamos meio que na escala horizontal, e quando trabalhamos assim, usamos muito a abordagem ágil” (Entrevistado B).
Quando a gente começou, uma das coisas incentivadas na pré-incubação é fazer um memorando de entendimentos [...]. Então a gente acertou as expectativas e ficou assim determinado, que tudo que for sobre desenvolvimento em si, programação, é com ele e o resto é comigo (Entrevistado K).
A gente nunca espichou nisso daí [...] se a minha concordância for menor que as dos outros dois, ou se a concordância de algum dos outros dois for menor que a minha, agente baliza, o que der maior concordância é o que seguimos (Entrevistado F).
A fase de pré-incubação também se mostrou uma etapa em que alguns integrantes das startups manifestaram trabalho parcial em outras atividades (até que o retorno financeiro tenha condições de viabilizar uma participação integral no projeto): “Na questão com o Fulano ali, no começo o Beltrano não era um sócio efetivo, trabalhava mais como consultor” (Entrevistado A); “Eu trabalho mais ativamente, e meu sócio trabalha numa empresa que o Banco Tal comprou” (Entrevistado K).
Nessa fase, além da combinação em relação às tarefas que serão assumidas, é comum a combinação em relação à remuneração (ou participação societária). As falas apresentam a evidência de desentendimento por parte da pretensão salarial de um desenvolvedor: “Se hoje 30 mil é bastante, então imagina naquela época...” (Entrevistado A); “[...] só que dois tinha o pensamento de trabalhar para ganhar dinheiro e um não [...] as relações se desgastaram e encerramos” (Entrevistado B).
Incubação
Na fase de incubação, prepondera a racionalidade substantiva mediante o amadurecimento da busca de entendimento e consenso. Todavia, são evidenciadas tentativas de conciliação com a necessidade de maximização dos resultados (racionalidade instrumental) em que a racionalidade substantiva parece ser soberana à instrumental.
Equipe
No que se refere à evidência da racionalidade substantiva na forma do entendimento e consenso, percebe-se que, geralmente, são três pessoas que tomam as decisões relevantes da startup: “Como a equipe é pequena, conseguimos ter um contato muito próximo, então, quando chega alguma demanda, algum trabalho, todo mundo, os três que estão mais integrais, todos têm acesso ao processo” (Entrevistado N). Contudo, a decisão em três revela a possibilidade de dois contra um: “Conversamos bem quando temos que resolver alguma coisa e apresenta para o Fulano; ele sempre vai outra. Eu e o Beltrano somos a favor, e ele sempre é contrário” (Entrevistado J).
Suas habilidades e competências parecem interagir de forma a se complementarem para o desempenho das tarefas: “Eu acho que foi uma coisa boa no sentido de eles estarem juntos, porque pensamos muito igual, mas temos nossas diferenças” (Entrevistado A). Evidencia-se também a autopercepção de maturidade na fase da incubação: “Acho que é a mesma questão; estamos mais maduros, temos um entrosamento maior hoje por estar alguns anos trabalhando juntos” (Entrevistado E).
Outro aspecto que se destaca é o entendimento e consenso através do trabalho de equipe em relação ao formato do trabalho, ou seja, na maioria das startups a equipe não trabalha o tempo todo no mesmo espaço físico, conforme evidenciado anteriormente quando analisada a categoria de emancipação/autonomia.
Também se encontrou evidência da autopercepção da necessidade de melhoria do trabalho em equipe. Algumas das startups, embora trabalhem bem no aspecto de equipe, apresentam uma pessoa que se envolve mais e, de certa forma, assume mais responsabilidades: “Quem toma mais conta da empresa sou eu. Estou mais na frente da administração e da capitação de negócios. Até fizemos uma reunião com eles hoje e eles estão dispostos, dizem que vão ajudar mais” (Entrevistado L).
Metas
No que tange à evidência da racionalidade instrumental quanto à maximização dos resultados, identificaram-se depoimentos que sustentam a tentativa de conciliação entre o entendimento e consenso versus a maximização dos resultados através do relacionamento com as metas da startup na fase da incubação: “Temos reuniões semanais, as RPS, com discussões mais estratégicas. Mas acho que hoje estamos num momento muito mais de metas, resultados, enfim...” (Entrevistado H). Já o Entrevistado M evidencia um relacionamento diferente com as metas: “Não fixamos metas assim... Até porque é muito desgastante colocar uma meta e ficar focando. Então sempre tentamos pegar o melhor resultado e melhorar cada vez mais”.
Emancipação e autonomia versus rentabilidade
Pré-incubação
No período de pré-incubação, ao analisar a categoria emancipação e autonomia versus rentabilidade, percebeu-se a evidência da racionalidade instrumental (rentabilidade) de forma mais explícita, parecendo estar associada à necessidade da validação da ideia para que a startup possa ter um futuro. Por exemplo: “Nós queríamos primeiro poder fazer algo tranquilo, porque senão fica mais próximo do (in)sucesso do que do sucesso. Encontramos o sucesso no caminho, mas quando você já sai com uma tal estabilidade, fica fácil crescer” (Entrevistado F).
A racionalidade instrumental (rentabilidade) também ficou evidenciada junto à racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) em depoimentos que procuram justificar a conciliação entre as duas racionalidades. É o caso do Entrevistado B: “Precisamos faturar para conseguirmos retribuir para a sociedade [...] assim a gente pode contratar, ter melhor equipe, criar mais produtos, sempre pensar em inovação”.
A racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) evidenciou-se, principalmente, pelo desejo dos empreendedores trabalharem em um ambiente com maior flexibilidade de horário e com estrutura mais horizontalizada: “[...] quando eu abri meu primeiro CNPJ, no caso [...]. Saí da empresa que estava trabalhando para ganhar menos, justamente porque queria ter essa liberdade, essa autonomia como tenho agora. Sempre foi autonomia mesmo, principalmente autonomia, flexibilidade de horário, ter o seu negócio” (Entrevistado G); “Dependia muito de aprovação e de convencer pessoas que muitas vezes tem uma identidade muito conservadora; é um pouco mais complicado” (Entrevistado K).
Evidenciou-se tensionamento entre a racionalidade substantiva e instrumental no que se refere ao desejo de ser empreendedor em relação ao ônus da necessidade de investimento de tempo indeterminado na fase de pré-incubação. Isso se deve à estrutura pequena e à necessidade da realização de várias tarefas administrativas.
Percebe-se que grande evidência da racionalidade substantiva se encontra na associação da expectativa da flexibilidade de horário com emancipação e autonomia. Entretanto, o desejo de assumir um papel de empreendedor e de dono do próprio negócio, nesta fase, não parece revelar preocupação com o consumo de horas de trabalho a mais, sendo justificado por um sucesso futuro.
Incubação
No período da incubação, os depoimentos dos entrevistados evidenciaram de forma ainda mais explícita a racionalidade substantiva (emancipação/autonomia), relacionando-a com a flexibilidade que o formato de trabalho oferece. Também se evidenciaram tentativas de conciliação entre as racionalidades substantiva e instrumental (rentabilidade).
Flexibilidade
Os aspectos da racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) relacionadas com a flexibilidade do trabalho ficaram ainda mais evidentes na incubação. É interessante observar depoimentos que apresentam algumas das evidências, a exemplo do Entrevistado M: “A gente é uma região que esse trabalho remoto, esse trabalho mais livre não é tão popular. Mas agora também está mudando bastante coisa, e como é uma inovação o pessoal quer trazer mais para cá”.
Além da novidade do formato de trabalho, ressalta-se a atratividade pela flexibilidade do horário: “Trabalhar em uma startup é a questão da flexibilidade de horário, e isso facilita muito. Não digo que tenho uma qualidade de vida excelente, mas meu fluxo de trabalho é mais leve” (Entrevistado I). Ele ainda argumenta como melhorou a configuração do horário do trabalho: “Agora se quiser acordar às seis da manhã e trabalhar na startup, se precisar trabalhar até duas da manhã, eu trabalho. Porque é aquele sentimento de estar trabalhando por algo seu, que você faz parte” (Entrevistado I). E essa questão da flexibilidade do horário também é apreciada no depoimento do Entrevistado N: “O que mais pesa hoje para nós é a questão do horário. A gente não consegue hoje trabalhar com horário definido ou até cinco ou seis horas, o horário comercial”.
Ainda sobre a percepção da flexibilidade do horário, surgiu nos depoimentos mais um fator associado: o local de trabalho. Percebeu-se que em várias startups as pessoas não trabalham no mesmo local. Com essa possibilidade, principalmente quem trabalha com o desenvolvimento de softwares, além de receber os salários mais atrativos (muitas vezes superiores aos dos empreendedores), também pode trabalhar nos mais diversos lugares de seu interesse: “Como a gente tem parte da equipe que também trabalha em home office que nem mora aqui em Santa Catarina, a questão de horário é o que eu mais fujo da gestão normal” (Entrevistado P).
A principal forma de evidência da racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) se deu, portanto, através da percepção de flexibilidade do trabalho. Nos depoimentos constata-se, como benefício, a possibilidade de poder trabalhar por um período maior, devido ao fato de que essa dedicação reverte para o incremento do negócio próprio, diferentemente da condição de empregado.
Conciliação entre as racionalidades
A evidência das racionalidades substantivas (emancipação/autonomia) versus racionalidade instrumental (rentabilidade) também se destacou em alguns depoimentos que manifestam (ou tentam manifestar) a conciliação entre essas racionalidades. Após argumentar que tinha consciência da necessidade do tempo de investimento para poder colher o resultado, o Entrevistado B diz: “Mas nós empreendedores não podemos ficar só pensando nessa rentabilidade, porque a gente sabe que estamos investindo e trabalhando para num futuro a gente gerar nosso recurso financeiro”. O depoimento parece estabelecer uma conexão entre o comprometimento e a dedicação para que no futuro a emancipação e a autonomia financeira decorra dessa rentabilidade. Ele acrescenta: “Mas estamos alinhados com nosso propósito, tem algo que queremos criar. Se não conseguir fazer dar certo? Tudo bem. É um aprendizado; vai focar, trabalhar, criar produto, enfim, de algum jeito vai se readaptar”.
Outra evidência que segue na tentativa de conciliar o esforço e a dedicação de forma emancipada e autônoma na startup verifica-se neste depoimento: “No início nós não tínhamos como pagar muito o nosso pessoal, o nosso time, né? Mas eles apostaram no projeto. Então eles sabiam que conforme a empresa fosse crescendo, eles iam crescer juntos” (Entrevistado B). Todavia, ao mesmo tempo que isso indica uma tentativa de conciliação, abre espaço para uma possível contradição: hoje a startup é rentável? Não foi possível colher essa evidência junto ao entrevistado. Apenas um entrevistado afirma, categoricamente, o aumento significativo de rentabilidade. Destaca-se, porém, que os empreendedores há mais tempo no mundo das startups estão mais dispostos aos altos e baixos da rentabilidade.
O Entrevistado C diz que quando trabalhou em outra startup de aplicativo móvel obtinha uma remuneração superior a R$ 20 mil reais mensais e que a rentabilidade é muito abaixo disso na atual startup; porém, está fazendo a migração para uma terceira startup, que apresenta potencialidade de faturamento significativo. Seu depoimento revela que o ambiente das startups, embora incerto, se revela como possibilidades de oportunidades, contrastando com a expectativa de carreira tradicional pautada na estabilidade e previsibilidade dos acontecimentos. Parece mais um caso de conciliação entre as racionalidades substantivas (emancipação/autonomia) e racionalidade instrumental (rentabilidade), em que o resultado obtido através das startups representa a emancipação e a autonomia em relação aos trabalhos e carreiras formais tradicionais.
Rentabilidade
Em relação à evidência da racionalidade instrumental (rentabilidade), apenas um depoimento foi mais contundente e estritamente relativo a essa racionalidade, não apresentando intenção de conciliação com a racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) agora na fase de incubação. Coincidentemente, foi o empreendedor de startup que explicitou categoricamente que o empreendimento apresenta excelente rentabilidade:
A etapa atual está muito promissora, muito promissora. A empresa já tem condição de investir nela mesma, que foi o que ela já fez, e a partir de agora a rentabilidade da própria empresa vai ser bem grande. E nós estamos pesquisando, reiniciando um processo de estruturação de recursos humanos, ou seja, nós precisamos de pessoas, e isso até então era feito pelos sócios mesmo (Entrevistado F).
A categoria de análise emancipação/autonomia versus rentabilidade, na fase da incubação, foi evidenciada (diferentemente da fase da pré-incubação) de forma mais explícita através da racionalidade substantiva (emancipação/autonomia). Essa evidência, contudo, ocorreu na percepção da flexibilidade em que a forma de trabalho e a disposição de horários, principalmente, se estabelecem. O Quadro 2 apresenta a síntese dos resultados obtidos.
Discussão dos resultados
A racionalidade substantiva parece ser a propulsora pela busca do estabelecimento do novo modelo de negócio na fase da pré-incubação, entretanto, a racionalidade instrumental se ocupa de evidenciar a preocupação com a origem dos recursos e o dimensionamento do tempo extra de trabalho, uma vez que muitos entrevistados exerciam atividades profissionais e/ou trabalhavam em outras empresas.
Para Ramos (1989), a racionalidade substantiva é um atributo natural ao ser humano, que reside na psique. E os estudos de Serva (1997) e Serva et al. (2015) concluem que a condução das decisões dos indivíduos buscaria autorrealização e emancipação em harmonia com a satisfação social, ou seja, preservando o direito dos demais indivíduos de fazer o mesmo. Percebeu-se, dessa forma, que a busca de sentido de autorrealização de jovens se manifestou e se intensificou à medida que foram encontrando em seus sócios os mesmos desejos de emancipação através de suas ações empreendedoras e a partir das possibilidades das startups.
Na fase de incubação, entretanto, parece haver uma melhor evidência de tentativa de conciliação entre as racionalidades. Uma vez que os primeiros resultados financeiros vão sustentando a nova forma de trabalho, as atividades profissionais anteriores vão sendo deixadas e vai-se migrando integralmente para o novo projeto. A maioria dos empreendedores não afirma que o novo negócio apresenta uma adaptação satisfatória com a proposta de valor da startup com as necessidades dos clientes ou do usuário, o que seria considerada a finalidade da startup.
Lima et al. (2004) conseguiram identificar que, sem desconsiderar a capacidade colonizadora da racionalidade instrumental na imposição de rotinas e fragmentação do conhecimento, são inegáveis os espaços conquistados pela racionalidade substantiva no processo de construção de identidades profissionais autorrealizadas que levam o sujeito a repensar sua ideologia no trabalho. Nesse sentido, percebe-se que os empreendedores das startups entrevistados também evidenciam um inegável espaço de racionalidade substantiva em relação a sua identidade profissional.
O paradoxo da tomada de decisão emancipatória em busca da autorrealização em organizações torna-se ambiente propício para a observação das tensões existentes entre as racionalidades substantiva e instrumental. Se, por um lado, a racionalidade substantiva é uma racionalidade política libertária (Fernandes & Ponchirolli, 2011), por outro, o homem se depara com as necessidades de escolhas e decisões que influenciam no mundo em geral (Ramos, 1989). Essa busca por liberdade teve influência nas decisões dos empreendedores de startup entrevistados.
Margoto et al. (2014) obtiveram resultados que lançaram um olhar sobre a história de vida de cinco sujeitos, os quais buscaram espontaneamente o desligamento de seus empregos para iniciarem um novo tipo de vida, apontando uma significativa presença nas decisões tomadas pelos indivíduos e aproximando-os do modelo do homem parentético proposto por (Ramos, 1989). Na presente pesquisa, também foi possível encontrar indivíduos que se depararam com a decisão de mudar de vida, se desligando de empregos e atividades anteriores em busca de fazer algo alinhado com seu sentido pessoal e profissional.
Constatou-se uma discordância entre o que apresenta a literatura startup e o que se estabelece como sua finalidade (racionalidade instrumental). Na literatura estudada, o conceito de startup é uma organização transitória criada para ambientes altamente instáveis e incertos com o objetivo de escalável e repetível (Ries, 2012). Mas os achados demonstram que a maioria dos empreendedores se percebe mais como um inquilino na incubadora esperando que o novo negócio dê retorno financeiro para continuar crescendo, contratando mais gente, permitindo a continuidade de uma forma de trabalho livre. Parece ser a expectativa do crescimento convencional de uma empresa tradicional, diferentemente da exponencial potência de uma startup relatada na literatura, que pode ser vendida, fundida e da qual se pode retirar o retorno financeiro e partir para o próximo modelo de negócio.
A impressão é de que tanto envolvimento, tanta dedicação e superação acabam por despertar uma espécie de sentimento de identidade e pertencimento. Essa tentativa de conciliação entre o tensionamento da racionalidade substantiva (autorrealização) manifestada pela satisfação com a sensação de liberdade e a racionalidade instrumental (fins) de que a empresa cresça, porém não demasiadamente, diverge da finalidade para qual os novos modelos de negócios foram criados, segundo a literatura.
Os tensionamentos entre a racionalidade substantiva (entendimento e consenso) versus a racionalidade instrumental (maximização de recursos) evidenciaram-se na análise desta categoria, na pré-incubação, principalmente no que se refere ao fato de os membros terem que conciliar suas atividades no novo negócio com suas atividades profissionais em outros empregos ou planejar-se financeiramente para a empreitada. Essa fase parece ter sido marcada pelo tensionamento entre a expectativa de poder trabalhar integralmente num ambiente mais horizontal e próprio e a necessidade financeira para a manutenção das despesas básicas - fase que demandou de muita combinação, conversa e horas extenuantes de trabalho.
Revelou-se o encontro com a realidade, por exemplo, de profissionais da área de tecnologia que poderiam vir a obter rendimentos inferiores ao optar pelo papel de empreendedor de um novo negócio, uma vez que o salário em empresas convencionais para estes profissionais aumenta continuamente. Somadas as facilidades da modalidade do home office, os desenvolvedores da área de tecnologia da informação podem trabalhar tranquilamente de qualquer lugar. Porém, o empreendedor responsável pelo novo negócio precisa se fazer presente no local de trabalho, arcando principalmente com a carga administrativa e burocrática a quem quer empreender.
Nesse sentido, os resultados encontrados estão de acordo com Serva et al. (2015), que atribuem aos gestores a habilidade de lidar com a tensão causada entre a presença da racionalidade substantiva e da racionalidade instrumental na gestão, observando a dinâmica específica exigida em cada organização. Nesse caso, as startups, possuindo um sistema menos rígido de hierarquia e trabalho mais horizontalizado, se apresentam como espaços para a racionalidade substantiva, ao passo que entendem o contexto da racionalidade instrumental.
Na fase de incubação, evidenciou-se o tensionamento entre a racionalidade substantiva (entendimento e consenso) versus a racionalidade instrumental (maximização dos recursos) na necessidade do estabelecimento da equipe propriamente. Nessa fase, o contato com os clientes e/ou usuários se intensifica, assim como os contatos com os investidores. O trabalho deixa de ter a dimensão de expectativa e se torna realidade. É necessário validar a ideia para que a startup se sustente. As tarefas vão sendo distribuídas de acordo com as características, habilidades e competências de cada um, mas nem sempre as incumbências são totalmente agradáveis ao seu responsável devido ao pequeno porte da equipe - por exemplo, são necessárias reuniões presenciais para aquelas startups que trabalham no formato híbrido (a quase totalidade) com o intuito de realizar os alinhamentos e as avaliações necessários. Conforme Cavalcanti e Cavalcante (2020), a tensão entre a ação coletiva e a gestão tende a ser minimizada em decorrência do elevado nível de racionalidade substantiva no processo decisório, o que aproxima os sujeitos por afinidade ideológica e enfatiza ações orientadas ao entendimento (embora seu estudo tenha sido realizado em uma congregação religiosa e não seja conveniente generalizar suas conclusões para outros estudos). É importante frisar que os jovens empreendedores de startups são de certa forma evangelistas dos novos modelos de negócios, os quais possuem afinidades ideológicas muito semelhantes. Isso os faz comungar de crenças que acabam reforçando a racionalidade substantiva, assim como se percebeu neste estudo, no que refere à forma mais horizontal e interativa de trabalho.
Tenório (2000) destaca o objetivo de Habermas em desenvolver uma teoria que permita uma práxis social voltada para o conhecimento reflexivo e uma práxis política que questione as estruturas sociais, políticas e econômicas existentes; ou seja, uma teoria que proteja de dogmatismos e que busque à emancipação do sujeito. Assim, às startups há o desafio e dificuldade de possibilidade de emancipação social, em especial, quando são reféns da economia de mercado. Apesar disso, podem apresentar-se como uma alternativa organizacional às estruturas organizacionais inflexíveis, hierárquicas e tradicionais.
O tensionamento entre a racionalidade substantiva (emancipação/autonomia) versus rentabilidade se evidenciou de formas semelhantes tanto na pré-incubação quanto na incubação. E o entendimento dos entrevistados no que se refere à emancipação e autonomia está mais relacionada à flexibilidade do horário e do local de trabalho. Paradoxalmente ao ponto em que a maioria dos empreendedores se sentem mais autônomos para trabalhar quando e onde lhes convêm, a maioria não evidencia que o negócio esteja apresentando rentabilidade. Todavia, a participação em editais e captação de recursos junto a investidores é frequente na busca de conseguir o aumento do número de clientes e/ou usuários.
Serva e Andion (2020), ao investigar o sistema de certificação da Rede Ecovida de Agroecologia, se deparam com a categoria denominada autonomia social. Embora no presente estudo a autonomia tenha sido investigada no contexto individual, reforça-se a relevância da investigação da autonomia no contexto organizacional. Além disso, é possível sugerir novos estudos em startups a partir dessa perspectiva.
Até mesmo organizações tipicamente substantivas como as ecovilas estudadas por Tres e Souza (2022) encontram conflitos, impasses e contradições em seu agir administrativo, sobretudo as organizações como as startups que já nascem com a vocação de atender à economia de mercado. O que se percebe, porém, é que mesmo tão distintas das ecovilas, por exemplo, existe nas startups latente espaço para a racionalidade substantiva.
Serva et al. (2015), ao revisarem os trabalhos de campo em que pesquisaram a evidência das racionalidades substantiva e instrumental em organizações do terceiro setor, constataram que nelas também havia a evidência da racionalidade instrumental. Dessa forma, ao buscar evidências das racionalidades em startups - as quais são criadas especificamente para atender a expectativa da economia de mercado -, também se encontra a evidência abundante da racionalidade substantiva. As racionalidades substantiva e instrumental, portanto, se manifestam tanto em organizações com finalidades sociais como em organizações de mercado.
Embora Serva et al. (2015) e Faria et al. (2021) tenham feito referência às organizações em apenas um estágio de desenvolvimento, agora sabe-se que há evidências de tensionamentos entre as racionalidades em startups em fases distintas de sua existência. Ademais, a racionalidade substantiva, uma vez que privilegia critérios éticos, morais e políticos nas práticas organizacionais, coaduna com a análise pragmatista baseada nos princípios do pragmatismo filosófico e sociológico apresentada (Serva, 2023). Assim, pode influenciar as práticas organizacionais em contextos diversos, contribuindo, significativamente, para a compreensão e transformação das práticas organizacionais no contexto brasileiro, inclusive em startups.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa encontrou evidências de racionalidades substantiva e instrumental nas startups investigadas. Constatou-se que esse novo modelo de organizações (transitórias) também apresenta ocorrência de falas que denotam reflexões associadas aos elementos de racionalidade substantiva e instrumental revelados por Guerreiro Ramos e, posteriormente, por Serva (Serva, 1997, 2023; Serva et al., 2015).
De forma geral, de todas as evidências, a mais saliente foi o desejo dos empreendedores de startup por flexibilidade na forma do trabalho (sem hierarquia) e liberdade de horário de trabalho. Os empreendedores, em sua maioria, não revelam se financeiramente está valendo a pena trabalhar mais, embora depositem uma expectativa de que futuramente será recompensador. Ao mesmo tempo, manifestam que estão muito mais confortáveis nesse atual formato de trabalho.
Tal constatação apresenta possibilidade de estudos futuros com este grupo de empreendedores para entender como eles compreenderão os desdobramentos de suas atividades em relação às categorias de análise aqui estudadas e evidenciadas, principalmente se o novo modelo de negócio continua evidenciando aspectos das racionalidades substantiva e instrumental, inclusive através de seus tensionamentos. Outro aspecto para investigar futuramente é em relação à real interação dos empreendedores de startups com o conhecimento gerado nas respectivas instituições de ensino superior. A princípio, parece que a incubação funciona mais propriamente como uma locação de salas na maioria dos casos.
Em relação às limitações deste estudo, acredita-se que são necessários alguns apontamentos. Num primeiro momento, se pretendia realizar a pesquisa em apenas um parque científico e tecnológico em função de que as startups haviam passado por um processo de incubação. Em virtude de o período de coleta de dados coincidir com a troca da respectiva reitoria, o prazo para o ingresso de novas startups atrasou, o que colocaria em risco o prazo de finalização da pesquisa. Foi necessário, então, recorrer a outras incubadoras, nas quais nem todos os empreendimentos haviam passado pela fase de pré-incubação. Assim, de todas as startups estudadas, um número limitado realmente passou pelos estágios de pré-incubação e incubação. Outra limitação é o fato de que a maioria das evidências foram coletadas a partir de entrevistas no formato remoto, que foi a preferência da maioria dos entrevistados. Nas presenciais, percebeu-se que o espaço é, em geral, pequeno e impróprio para conversas particulares, ou seja, o que se diz é ouvido por todos. O fato de as informações colhidas dos entrevistados sobre a pré-incubação ter ocorrido no tempo presente (com ele incubado) foi mais uma limitação do estudo; desse modo, o entrevistado teve que recorrer à memória para responder aos questionamentos.
AGRADECIMENTOS
Agradecimento à Universidade do Estado de Santa Catarina e Universidade de Passo Fundo pela permissão de investigação junto às startups incubadas em seus parques científicos tecnológicos na respectiva época em que a pesquisa foi realizada. Aos empreendedores de startups pela disponibilidade e abertura no fornecimento das informações. Agradecimento aos membros da banca examinadora da tese que originou o presente artigo.
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DISPONIBILIDADE DE DADOSO
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EDITOR-CHEFE
Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
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PARECERISTAS
Laís Silveira Santos (Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis / SC - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4737-5470
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PARECERISTAS
Um dos revisores não autorizou a divulgação de sua identidade.
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/97059
Editado por
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Fonte:
Fonte: Dados da pesquisa.