Resumo
Este trabalho é resultado de um exercício teórico que promove um intercâmbio conceitual e filosófico entre a concepção de organização, presente nos estudos organizacionais, e o perspectivismo ameríndio, que tem origem na antropologia. Nosso objetivo é apontar uma possibilidade de repensar o conceito de organização. Assim, utilizamo-nos da tradução filosófica do pensamento ameríndio, proposto por Viveiros de Castro, como substrato para esse exercício. Como resultado, apontamos 3 principais possibilidades: realizar uma distinção entre o que é organização e a potência de organizar, permitindo direcionar nossos estudos mais para modos organizativos do que para objetos organizados; entender o conceito de organização como uma multiplicidade potencial e real, como um substrato rizomático; buscar em nossos estudos estabelecer relações de análise baseados na diferença.
Palavras-chave:
Estudos organizacionais; Perspectivismo ameríndio; Giro ontológico; Ontologia relacional
Abstract
This work results from a theoretical exercise that promotes a conceptual and philosophical exchange between the concept of organization, in organization studies, and Amerindian perspectivism, in anthropology. We aim to propose a new way of rethinking the very concept of organization. For this exercise in rethinking, we draw on a philosophical translation of Amerindian thought proposed by Viveiros de Castro as a substrate. We highlight three main possibilities: to distinguish between what organization is and the potential to organize, directing studies towards organizational modes rather than towards organized objects; to understand the concept of organization as both potential and actual multiplicity, as a rhizomatic substrate; and outlining the potential o for establishing relations of analysis based on differences rather than commonalities.
Keywords:
Organization studies; Amerindian perspectivism; Ontological turn; Indigenous people; Relational ontology
Resumen
Este trabajo es el resultado de un ejercicio teórico que promueve un intercambio conceptual y filosófico entre el concepto de organización, presente en los estudios organizacionales, y el perspectivismo amerindio, que tiene sus orígenes en la antropología. Nuestro objetivo es señalar una posibilidad para repensar el concepto de organización. Utilizamos como sustrato para este ejercicio la traducción filosófica del pensamiento amerindio propuesta por Viveiros de Castro. Como resultado, apuntamos tres posibilidades principales: hacer una distinción entre lo que es la organización y la potencia de organizar, lo que nos permite orientar nuestros estudios más hacia los modos organizativos que hacia los objetos organizados; entender el concepto de organización como una multiplicidad potencial y actual, como un sustrato rizomático; buscar en nuestros estudios establecer relaciones de análisis basadas en la diferencia.
Palabras clave:
Estudios organizacionales; Perspectivismo amerindio; Giro ontológico; Pueblos indígenas; Ontología relacional
INTRODUÇÃO
O campo dos estudos organizacionais é um espaço inquieto de reflexões críticas acerca do desenvolvimento, da finalidade e da gestão das organizações. No contexto dessas reflexões, principalmente aquelas conduzidas por pesquisadores do Sul global, emergem propostas de novas abordagens e perspectivas que visam desvelar o caráter dominador e euro-anglo-saxão das formas de pensar o organizar e a organização (Abdalla & Faria, 2017; Carrieri et al., 2014; Ibarra-Colado, 2006; Misoczky et al., 2008; Sá, 2020). Alguns exemplos na atual literatura apontam explorações de alternativas e pluralidades metodológicas e epistêmicas (Sá, 2020), com o reconhecimento de outros modelos de gestão, tomados, especificamente, como parte da realidade brasileira (Carrieri et al., 2014).
Essas visões resistem e competem por reconhecimento, reafirmando que, além do modelo hegemônico, há outras formas passíveis de informar o pensamento organizacional e orientar outros modos de gestão nas organizações. Interpretações alternativas, outros pensamentos e conhecimentos a respeito do organizar são fundamentais para ampliar as reflexões no campo dos estudos organizacionais (Alcadipani & Rosa, 2011; Alcadipani et al., 2012; Ibarra-Colado, 2008, 2012; Rosa & Alves, 2011; Wanderley & Bauer, 2020).
Ao pensar alternativas, as abordagens mais promissoras são as que questionam o pensamento organizacional hegemônico em seus pressupostos ontológicos e epistemológicos (Ibarra-Colado, 2006; Rosa & Alcadipani, 2011). Esse tipo de questionamento reconhece e denuncia a colonialidade das camadas mais profundas e basais do pensamento importado de correntes euro-norte-americanas (Ibarra-Colado, 2006). Um desses artefatos são os conceitos estruturantes do pensamento sobre organizações, como o próprio conceito de organização. Na forma como é usado, ele se caracteriza como um artefato técnico-racional que facilita a comparação de diferentes realidades por meio das variáveis estruturais (Ibarra-Colado, 2006; Rosa & Alcadipani, 2013), apresentando, portanto, a incapacidade de reconhecer realidades que escapem à ontologia técnica e racionalista que informa o conceito e a própria estrutura organizacional (Abdalla & Faria, 2017; Ibarra-Colado, 2006).
A formação de um pensamento organizacional supostamente neutro e genérico ganha relevância no contexto do neoliberalismo, que sustenta a incorporação dos modelos vindos do Norte global, ajudando na naturalização da racionalidade técnica do mercado (Alcadipani & Rosa, 2011; Ibarra-Colado, 2006). Dessa maneira, a organização se apresenta como artefato onto-epistêmico imerso em ambiguidade, não implicando um significado específico e referindo-se a quase tudo que consegue ser abraçado ou cooptado pela lógica hegemônica vigente. Essa homogeneidade carrega uma premissa de neutralidade e um caráter técnico não problematizado, sistematicamente imposto a qualquer realidade (Ibarra-Colado, 2006).
Reconhecendo o potencial estruturante do conceito (Deleuze & Guattari, 1991) como artefato não apenas de conhecimento (epistêmico), mas também de produção da realidade (ontologógico), propomos que um caminho possível do exercício decolonial é o da reconceitualização. Assim, nosso trabalho se constrói como um ensaio que tem como objetivo (re)pensar o conceito de organização, assumindo outra filosofia como substrato desse exercício. Atentos a pluralidade de perspectivas que escapem às margens da colonidade, escolhemos como a outra filosofia de nossa reconceitualização o pensamento conhecido como perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 2015). Decidimos nos engajar nessa filosofia reconhecendo seu potencial transformador (antropofágico) e sua raiz decolonial como um radical desestabilizante das estruturas bases do pensamento moderno (Wanderley & Bauer, 2020), um pensamento que reconfigura os dualismos eurocêntricos e iluministas: natureza e cultura, eu e outro, humano e não humano.
O potencial uso da filosofia do perspectivismo ameríndio, como meio fértil para um exercício de decolonização do pensamento em estudos organizacionais, foi apresentado por Wanderley e Bauer (2020), que apontam caminhos possíveis para esse engamento interdisciplinar, fornecendo, principalmente, conceitos metodológicos, como o de deslocamento reflexivo e o de equivocidade intencional. Além disso, os autores falam de uma abertura à multiplicidade de saberes organizacionais e do potencial de deslocamento ontológico do perspectivismo ameríndio, porém despendem mais esforços sobre a temática da colonidade epistêmica e da reflexividade metodológica.
Com o intuito de estender a análise ontológica e as provocações já apresentadas, nosso trabalho tem o objetivo de (re)pensar o conceito de organização, assumindo o perspectivismo ameríndio como a base desse exercício de experimentação de outro pensamento. Assim, embarcamos na sugestão de aproximá-lo dos estudos organizacionais, propondo um exercício filosófico de experimentação de pensamento (Viveiros de Castro, 1996, 2015; Wanderley & Bauer, 2020).
Para isso, não discutiremos a orientação da organização em termos ideológicos; vamos deslocar a ontologia que sustenta a construção e a reprodução do pensamento organizacional. Assim, procuramos nos distanciar de uma postura ontológica totalizante e nos aproximar de atuais correntes de pensamento que assumem uma multiplicidade de natureza, um multinaturalismo (Viveiros de Castro, 1996, 2015). Reconhecemos que os estudos organizacionais na América Latina precisam lutar por espaços na produção do conhecimento, assumindo os desafios e as possibilidades dessa produção, de modo a inspirar outras práticas e ações organizacionais (Abdalla & Faria, 2017; Alcadipani & Rosa, 2011; Ibarra-Colado, 2008, 2012; Rosa & Alves, 2011).
Este estudo também tem a intenção de evidenciar a crítica nacional (Alcadipani & Rosa, 2011; Paula et al., 2010) e relacional. Valemo-nos da filosofia presente e traduzida no perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 1996, 2015) como forma de posicionar um pensamento que abre espaço a particularidades e pluralidades, fundamentadas numa ontologia relacional em que as diferenças não são apagadas pelas similaridades, mas na qual a própria diferença é a condição de relação entre termos e entes (Deleuze & Guattari, 1991; Viveiros de Castro, 1996; Wanderley & Bauer, 2020).
Dessa maneira, evidenciamos a contribuição do pensamento de povos originários para os estudos organizacionais. Levar a sério essa potência de pensamento, como aponta Viveiros de Castro (2015), nos permite (re)pensar nossas próprias construções acerca das organizações como uma multiplicidade de natureza. Tratamos especificamente de uma filosofia traduzida, de práticas e princípios de pensamento, compartilhados entre muitos povos indígenas de terras baixas da América, referidos como ameríndios para Viveiros de Castro (1996, 2015). Reconhecemos que o pensamento ameríndio foi sistematicamente silenciado e encoberto pelo projeto colonial (Banerjee & Arjaliès, 2021; Dussel, 1993). Diante disso, defendemos a necessidade de ampliar e (re)avaliar nossas próprias percepções a respeito do fenômeno organizacional com base no diálogo de visões de mundo não determinadas pela técnica e pela economia, em que a pluralidade de manifestações do “organizar” sejam preocupações pulsantes.
Compreender que as heranças da colonialidade ainda estão presentes no cotidiano latino-americano é entender as consequências do “encobrimento” das Américas para a história contada que silenciam, em grande parte, os saberes desse continente (Dussel, 1993; Escobar, 1988, 2018). Nessa medida, o continente americano pode ser visto como manifestação de criação da colonialidade anglo-saxã, expandindo suas fronteiras e seu projeto desenvolvimentista pelos países percebidos como subalternos (Castro-Gómez, 2005; Escobar, 1988; Quijano, 2000, 2007), um projeto colonial de desenvolvimento construído e afirmado à custa da aniquilação de miríades de povos, culturas e formas de vida no planeta, o que perpetua uma ideia de superioridade antropocêntrica em nome de benefícios econômicos (Esteva, 2010; Viveiros de Castro, 2015). Compartilhamos a compreensão de que esse “descobrimento” inaugura uma visão europeia de organização do continente com externalidades positivas para os próprios dominantes (Dussel, 1993).
Desse modo, o processo colonizador encobriu crenças, valores, rituais e visões de mundo dos povos originários, impedindo-os de desenvolver seus modos de vida e contribuindo para a formação de uma dita civilização desconectada de suas origens, reprodutores de uma cosmovisão imposta e travestida de naturalidade técnica. Essa mera reprodução de modelos tem sido questionada e refletida em diversos campos da ciência (Quijano, 2000; Mignolo, 2008). Portanto, cabe (re)pensar os estudos organizacionais na América Latina e seu papel como campo que promove o desvelamento das dominações não só de cunho econômico, político e social, mas também epistemológico, como exercício de conhecimento; ontológico, como definições sobre realidades; e cosmológico, como princípios ligados à criação de mundos possíveis.
No intuito de ampliar nosso entendimento a respeito das organizações e do organizar sob uma óptica de pluralidades do mundo, no sentido ontológico (Escobar, 1988; Viveiros de Castro, 2015), buscamos inspirações em fontes da antropologia. Em especial, exploramos a aproximação da produção de Viveiros de Castro com os estudos organizacionais (Wanderley & Bauer, 2020), considerando como suas reflexões acerca do perspectivismo ameríndio podem auxiliar-nos a (re)pensar o conceito de organização.
Utilizamos essa construção teórica e filosófica não a propondo como modelo ideal ou solução para as problemáticas aqui levantadas. Debruçamo-nos sobre esse pensamento o reconhecendo como exemplo de projeto intelectual que defende uma pluralidade e uma relacionalidade ontológicas. Além disso, entendemos que ele compreende uma forma de pensamento que reposiciona a importância e a contribuição dos povos originários da América Latina na discussão filosófica hegemônica de maneira mais ampla e, para os estudos organizacionais, mais particular. Viveiros de Castro (1996, 2015), ao fazer uma tradução pós-estruturalista da antropologia, destaca que o pensamento dos povos indígenas da América sempre foi usado como pano de fundo filosófico para as correntes europeias.
Em seu trabalho, o autor estabelece relações de aliança com pensadores europeus como Deleuze e Guattari (1995), engajando-os numa construção que não limita suas produções bibliográficas a produções decoloniais e locais, trazendo à tona a América Latina, sobretudo os povos originários do Brasil, para a construção da filosofia pós-estruturalista (Viveiros de Castro, 2015).
Engajados nessa crítica e reconhecendo o potencial do conceito de organização como a potência do organizar, buscamos (re)pensar essa conceitualização nos utilizando da tradução filosófica do pensamento ameríndio. Para isso, evidenciamos como as práticas e as visões de mundo desses povos podem fazer parte da construção de nossas próprias reflexões como pesquisadores comprometidos com a desnaturalização dos poderes dominantes.
Para cumprir seu objetivo, portanto, este ensaio está estruturado em 4 seções. A primeira é esta introdução, que desenvolve a problematização do nosso objetivo. A segunda se empenha em revelar e questionar o caráter técnico ontologicamente atribuído à organização, ensaiando a necessidade de repensá-la com base na construção e na experimentação de outros estilos de pensamento fundamentados numa pluralidade ontológica. A terceira apresenta e discute o perspectivismo ameríndio no âmbito conceitual e reflexivo, expondo-o como filosofia que pode ser utilizada para (re)pensar a organização. A quarta expõe o exercício da experimentação, que busca provocar a entrada no pensamento pela experiência real, a fim de repensar o conceito de organização. Por fim, trazemos nossas considerações acerca da proposta refletida ao longo do trabalho.
A ONTOLOGIA TÉCNICA DO PENSAMENTO DOMINANTE SOBRE A ORGANIZAÇÃO
O que hoje é classificado como organização é uma expressão da ontologia técnica aplicada à vida social, econômica e administrativa. O sentido que atribuímos a essa realidade se alinha àquele dado por Ellul (1964), compreendendo a totalidade dos meios racionalmente alcançados que têm máxima eficiência, em determinado estágio de desenvolvimento, em qualquer área da atividade humana. Trata-se de uma ontologia que reduz a realidade à sua expressão racional e cuja principal característica é a eliminação de todas as atividades não técnicas, ou sua transformação em atividade técnica.
O caráter técnico da realidade organizacional, usado de maneira dominante nos estudos organizacionais, é um conceito importado do Norte global e resulta numa forma de dominação e submissão que nos deixa como única opção a tradução racional da realidade organizacional e a incansável busca por eficiência. A homogeneização imposta pelo conceito dificulta o uso do termo “organização” para representar realidades que escapam à razão técnica. Realidades sociais aceitas como organizações são aquelas que compartilham uma dinâmica técnica, racional e objetiva, reproduzindo uma realidade específica. Desse modo, as diferenças e as possibilidades entre meios de organizar são apagadas com o emprego do conceito. Como destacam Rosa e Alcadipani (2013, p. 200), o termo “organização” é, muitas vezes, pensado como neutro, dando um caráter técnico a qualquer realidade organizacional, enquanto as diferenças substanciais entre igrejas, exércitos, fábricas, governos, corporações e partidos políticos são eliminados sob esse conceito.
Em sua acepção técnica, os fins supremos da análise organizacional são os próprios fins da razão, que toma a si mesma como meio e fim, tornando-se juiz de si mesma e eliminando qualquer instância de experiência exterior ou superior à própria razão (Deleuze, 2017).
No intuito de abrir linhas de fuga para novos caminhos de análise e interpretação organizacional, Rosa e Alcadipani (2013) apontam para a possibilidade da hibridização dos estudos críticos na área dos estudos organizacionais no Brasil. Segundo eles, de um lado, temos a linha do critical management studies (CMS), com uma postura política de caráter reformista e uma nítida vinculação com as epistemologias do Norte; de outro, temos na tradição nacional uma abordagem predominantemente marxista, de postura política de cunho revolucionário e uma vinculação com as epistemologias do sul (Rosa & Alcadipani, 2013). Com uma proposta para enfrentar as questões resultantes desse binarismo, apontam como um caminho possível a possibilidade de habitar um hibridismo.
A ideia de transgredir as fronteiras e ocupar um lugar do meio, assim evitando os binarismos e deslizando entre os essencialismos, define o tipo de postura que buscamos assumir neste ensaio e em nossa experimentação. Concordamos com a explanação de Ibarra-Colado (2006), que busca, entre essas vertentes, formulações e conhecimentos outros para o campo dos estudos organizacionais. Nessa busca, procuramos habitar o espaço do hibridismo e de um perspectivismo, fazendo dialogar conceitos críticos do Norte e do Sul, reconhecendo que, muitas vezes, eles são coproduzidos e que a própria influência das realidades do Sul são utilizadas como versão negativa do iluminismo nortista.
Nessa reflexão, assumimos a organização como contingente - algo que poderia ser ou estar diferente - e propomos pensar suas outras possibilidades. Essa possibilidade latente de ser/estar outra coisa é o que apontamos como potencialidade (Deleuze & Guattari, 1995). A fim de explorar essa potencialidade, propomos uma aproximação teórica entre o campo dos estudos organizacionais e o perspectivismo ameríndio, traduzido na antropologia por Viveiros de Castro (2015). Para (re)pensar o conceito de organização, buscamos imaginar e experimentar o substrato filosófico do pensamento ameríndio, de modo a alterar nosso próprio pensamento. Engajamo-nos em outro contexto, de pensamento, que se distancia da lógica técnica que coloniza as dimensões epistêmicas e ontológicas no campo de estudos organizacionais.
As experimentações possíveis baseadas no perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 2015) nos direciona para outras concepções sobre o existir no mundo e a própria potência de mundos, contribuindo para repensar as organizações além dos conhecimentos hegemônicos (Wanderley & Bauer, 2020). Esse exercício de experimentação, como aqui chamamos, é a proposta que a própria teoria sobre o perspectivismo ameríndio nos deixa quanto a uma tradução de pensamento. Experimentação, nesse caso, significa nos utilizarmos de conceitos encontrados no pensamento nativo (na filosofia ameríndia) para refletir sobre nosso próprio mundo, especificamente numa aproximação com o campo das organizações.
Essa reflexão tem como fundamento a presunção de que os saberes e a visão de mundo dos povos originários são importantes na construção desse repensar. Dessa maneira, a seção seguinte se preocupa em apresentar o perspectivismo ameríndio, trazendo reflexões sobre seu entendimento como filosofia.
PERSPECTIVISMO AMERÍNDIO: CONCEITOS E REFLEXÕES
Apoiando-nos na sugestão de Wanderley e Bauer (2020) de aproximar o perspectivismo ameríndio dos estudos organizacionais, propomos que essa aliança de pensamento seja plural e radical. Reconhecemos o potencial transformacional desse pensamento como filosofia. Nesta seção, construímos uma apresentação da construção teórica do perspectivismo ameríndio, destacando as questões que consideramos importantes para aberturas de possibilidades e a aproximação entre os campos limitadas ao objetivo deste ensaio.
O perspectivismo ameríndio pode ser considerado uma síntese conceitual da matriz filosófica dos povos ameríndios da Amazônia, baseada em estudos etnográficos resultado do trabalho realizado por Eduardo Viveiros de Castro (1996) e Tânia Stolze Lima (1996), que descrevem a multiplicidade de naturezas e as relações entre os seres que compõem esse mundo. Neste texto, baseamo-nos especialmente em Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural (Viveiros de Castro, 2015), aproximando o conceito do perspectivismo ameríndio do campo do estudo das organizações. Começaremos explicitando do que trata o trabalho do autor, apontando características, fontes de inspiração, base teórica e indicações.
Metafísicas canibais (MC), em seu cruzamento com a antropologia estrutural, a filosofia da diferença e a etnografia ameríndia, enfatiza que se devem levar a sério as concepções ameríndias experienciadas etnograficamente. Trata-se menos de um livro sobre como os ameríndios pensam e filosofam do que um livro sobre como o pensamento ameríndio, respeitado na antropologia, pode mudar nossa filosofia. Com esse intuito, é com base na construção nomeada de “perspectivismo ameríndio” que propomos um caminho possível para um exercício de experimentação (Viveiros de Castro, 2015), que se utiliza da expressão “levar a sério o nativo”, destacando que a tratativa dos conceitos ameríndios, como pensamento, rompe, inclusive, com a indagação colonial que muitos antropólogos/cientistas fazem a si: seria essa perspectiva um tipo de pensamento? De acordo com o antropólogo, sim, apesar da suposição que fazemos com base em nosso próprio entendimento de mundo, de que os indígenas talvez estejam mais perto daquilo que consideramos natureza humana e que nós, nossos filósofos e grandes pensadores nos distanciamos dela por conta de um tipo de interpretação técnica e objetiva da vida: a cultura.
Para refletirmos sobre o perspectivismo ameríndio, sem nenhuma pretensão e presunção de que podemos pensar como os ameríndios, mas num exercício de pensar com eles, precisamos nos lembrar de alguns pressupostos fundamentais de nossa própria epistemologia e ontologia.
Um aspecto importante a ser destacado é que, na lógica dominante ocidental, a condição de humano é compartilhada apenas com um tipo específico de ser, um ideal de antropos branco-europeu-masculino que, em decaimento de grau, conforme vai se afastando do ideal, compartilha sua humanidade com todos os seres que podem ser denominados hoje homo sapiens. Num mundo povoado por uma multiplicidade de entidades, esses humanos são os únicos seres dotados de um estatuto duplo: são animais, mas também humanos (Viveiros de Castro, 1996, 2015).
O humano, nesse caso, compartilha um mesmo contínuo material biológico que, objetivamente, atravessa o universo, dimensão da vida que assumimos como extremamente extensa, complexa, e da qual talvez nunca tenhamos completo conhecimento. Em contrapartida, a humanidade pressupõe uma descontinuidade qualitativa. Para ser um humano, é preciso ter um atributo especial ao qual chamávamos de alma, mas que hoje nos denota uma qualidade suplementar vinda da cultura, da política, da linguagem e do simbólico: a razão. Resumidamente, podemos afirmar que os humanos compartilham com a realidade o fato de estarem na natureza, mas não compartilham com nenhuma outra parte da realidade o fato de estarem também na cultura (Viveiros de Castro, 2015).
Para os ameríndios, essa interpretação é inversa. O substrato universal das entidades que povoam o mundo - humanos, animais e plantas - é humanoide/antropomorfo, ou seja, o perspectivismo ameríndio supõe uma unidade de espírito/cultura e uma pluralidade de corpos/natureza, e não o contrário. Assim, a cultura ou o sujeito seria a forma do universal, enquanto a natureza ou o objeto seria a forma do particular (Viveiros de Castro, 1996). No mundo ameríndio nem tudo é gente (humano), mas tudo tem o potencial de vir a ser. Esse mundo está sempre aberto a um devir outro, ao contrário do mundo ocidental, encerrado e legislado pela razão e pelo conhecimento (Deleuze, 2017; Viveiros de Castro, 2015). O último autor estabelece uma comparação, afirmando que nós, ocidentais modernos, assumimos a ideia de uma animalidade biológica e natural nos homens, enquanto os ameríndios assumem a humanidade dos animais. Em suma, o que os mitos ameríndios contam é como esta capacidade (humanidade) passa para seu estado latente ou é perdida de alguma forma, dependendo da roupa (espécie) que reveste o ser. Os animais de hoje têm uma dimensão invisível humana, e os mitos são histórias de especiação e diferenciação desse contínuo primordial, que é do tipo humano. Assim, Viveiros de Castro (2015, 1996) afirma que os indígenas são antropomorfistas.
Temos, então, a construção de um mundo em que tudo é potencialmente humano e, portanto, os seres humanos não têm nada de especial. Em contraponto, a lógica ocidental dominante propõe que nada, exceto nós, é humano, por isso estamos no centro desse Universo, sendo responsáveis pela interpretação dele sob nossa prisão comunicativa, pois somos dotados de uma condição limitada de comunicação com a realidade e com outros seres, uma vez que não permitimos que eles compartilhem conosco a humanidade, por não carregarem o diferenciador mitológico: a razão (Viveiros de Castro, 2015).
Assim, o que ocorre no nosso mundo é que temos a validação da interpretação de um universo composto de objetos. Ou seja, no mundo ocidental, ser sujeito é um caso especial de objeto (Freud, 1997, 1972). Desse modo, o objeto é o único termo possível de relação de conhecimento realmente adequada, isto é, só se conhecem objetos, e a forma do outro - daquilo que se conhece - é o objeto, por isso falamos de objetividade. Nesse estilo de pensamento, a subjetividade é algo que escapa ao conhecimento, tanto que, quando tentamos conhecê-la, temos de objetivá-la com base em metodologias. Amplia-se o conhecimento humano a partir do momento que se é capaz de objetivar a maior parte das coisas (Viveiros de Castro, 2015, 1996). Já no pensamento indígena, no caso do perspectivismo ameríndio, o que se considera objeto para os ocidentais é sujeito potencialmente humano. Nesse caso, o conhecimento ideal é aquele capaz de determinar num objeto sua parte subjetiva - a questão não é mais “o que”, e sim o “quem” das coisas.
Após essa reflexão, pensamos que uma possibilidade é o exercício de experimentação dos conceitos de organizar e de organização baseados no perspectivismo ameríndio. De acordo com Viveiros de Castro, esse exercício se resume a uma ficção controlada pela experiência: “A ficção seria antropológica, mas sua antropologia não é fictícia” (Viveiros de Castro, 2015, p. 152). Ficção significa tomar as ideias como conceitos e extrair delas um solo pré-conceitual, aceitá-las como potencialmente capazes de um uso filosófico.
De modo a complementar nossa argumentação, é necessário falarmos também sobre os aspectos da filosofia de Deleuze e Guattari (1995), que sustentam a construção e a reflexão feita por Viveiros de Castro (1996, 2004, 2015). Como destaca o próprio autor, parece incrível que a filosofia de Deleuze e Guattari se encaixe tão bem no contexto ameríndio. O autor aponta sua escolha teórica afirmando que “a filosofia de Deleuze e Guattari não emite um som oco quando repercute as ideias indígenas” (Viveiros de Castro, 2015, p. 66). O exercício realizado na construção do perspectivismo ameríndio é ler os filósofos à luz do pensamento indígena, de modo a tornar possível atualizar nosso próprio pensar.
Reconhecendo que o perspectivismo se sustenta nas ideias da filosofia Deleuze-Guattariana, é relevante destacar alguns conceitos que estão presentes em ambas as filosofias. Vamos apresentar as concepções de rizoma, multiplicidade e diferença, introduzindo também uma explicação quanto ao plano virtual, onde estão contidas as potencialidades, e ao plano real, que diz respeito à manifestação de potencialidades (Deleuze & Guattari, 1995). Essas ideias não se dão separadamente; elas compõem uma ideia filosófica, por isso as apresentaremos num emaranhado, em construção explicativa.
A proposta de rizoma, que se refere à filosofia de multiplicidade de Deleuze e Guattari (1995) na obra Mil platôs, é indispensável para pensar com Viveiros de Castro (2015, 2004, 1996) e sua tradução do pensamento ameríndio. Na biologia, o rizoma corresponde a um caule que cresce horizontalmente e se conecta com vários sistemas de raízes, os quais, por sua vez, se conectam com caules e brotos, que nascem da conexão de um rizoma com outros. O rizoma sempre se conecta com várias raízes e executa as funções de reprodução e perenização.
A compreensão de rizoma é um exemplo de sistema descentralizado que existe em instâncias reais (manifestação) e virtuais (potencialidades). Deleuze e Guattari consideram que o todo está em constante devir, isto é, em constante fluxo de ser que se atualiza. Dois aspectos são importantes para compreender o sentido de rizoma. O primeiro, ao contrário da filosofia do ser, os autores consideram uma filosofia do devir, oposta a uma filosofia do ser. Ou seja, mais do que o rizoma, todo o ser existente está em constante mudança. Diferentemente de assumir que as coisas têm uma essência em si, uma filosofia do devir, da imanência, assume-se que tudo está em constante mudança. O segundo aspecto é que, ao considerar o rizoma uma ideia, assumimos a existência de multiplicidades em todo o lugar, assim como o próprio rizoma, que não corresponde a um único objeto, e sim a um múltiplo cheio de complexidades (Deleuze & Guattari, 1995).
Rizoma é, portanto, um conceito que tem em si mesmo uma multiplicidade. Quando falamos de potencialidade, por exemplo, estamos nos referindo a essa condição de abertura para o devir (Deleuze & Guattari, 1995). A potencialidade não está desconectada da “coisa em si”; é uma condição da própria coisa. Por exemplo, quando falamos que todo ser tem potencial de ser gente (humano) no mundo ameríndio, estamos guardando o potencial de esse ser vir a se manifestar humano, assumindo que a condição de humanidade já é latente e imanente, ou seja, interna e externa ao mesmo tempo (Viveiros de Castro, 2015). Desse modo, é a essa potência transformacional que nos referimos quando falamos de potencialidade presente em certo plano virtual (Deleuze & Guattari, 1995).
Consequentemente, falamos também de uma manifestação, que é quando o devir se realiza, a potência de ser outra coisa de fato se manifesta e aparece no plano real. No perspectivismo ameríndio, por exemplo, são os casos em que, por meio de condições relacionais específicas, como situações de caça ou rituais de cura, algum animal passa a devir humano ou algum humano passa a devir animal (Deleuze & Guattari, 1995; Viveiros de Castro, 2015).
Assim, a construção nomeada de perspectivismo ameríndio que fala sobre uma virtualidade humanoide manifestada em múltiplas especiações é resultado da tradução da cosmologia ameríndia com base nos conceitos da filosofia de Deleuze e Guattari (Viveiros de Castro, 1996, 2004, 2015). Falamos de cosmologia nos referindo ao entendimento desses povos sobre a criação dos cosmos e da realidade. Quando trazemos conceitos como o de potencialidade, virtualidade rizomática, manifestação e especiação, estamos dando um passo nessa (des)construção lógica. Viveiros de Castro (2015) traduziu o pensamento ameríndio a partir de Deleuze e Guattari, e buscamos traduzir o conceito de organização a partir do perspectivismo ameríndio.
Os principais conceitos que trabalharemos são: potencialidade, que diz respeito ao grau de afinidade entre relação e a possibilidade de manifestação de determinada relação ou determinado estado; virtualidade rizomática, assim traduzido por nós e que diz respeito ao substrato humanoide que transpassa a cosmologia ameríndia; e manifestação/especiação, que se refere a uma condição específica de humanidade numa espécie ou numa corporalidade.
EXPERIMENTAÇÃO: A ENTRADA NO PENSAMENTO PELA EXPERIÊNCIA DO REAL
O exercício que fazemos é o incentivo de um processo de experimentação e de pensamento. Concordando com Parker et al. (2007), podemos afirmar que essas representações fictícias, imaginando um mundo construído sobre “princípios melhores”, põe em causa a ordem atual e podem ser vistas como experimentos mentais em formas alternativas de organização da sociedade (Parker et al., 2007). Nesse caso, também concordamos com Viveiros de Castro, que aponta que “toda experiência de outro pensamento é uma experiência sobre o nosso próprio” (Viveiros de Castro, 2015, p. 96). O antropólogo também nos deixa indicações, em seu próprio trabalho, de que o objetivo de um alter pensamento é iluminar nosso próprio pensamento a partir do experimentar as possibilidades do pensamento outro.
Nossa questão está para além das escolhas de metodologias ou das afinidades de discursos políticos reformistas ou revolucionários. Nossa proposta, como discurso que habita o meio e pretende existir no equívoco, é com a definição do conceito de “organização”, produzido com base em meio técnico e instrumental, motivo pelo qual carrega consequências limitantes e coloniais, como discutido nas seções anteriores. É em oposição a essa lógica técnica que sustenta o conceito que pretendemos somar nossos esforços. Fazemos isso com o intuito de apontar possibilidades, em especial para a área dos estudos de organizações alternativas, propondo a possibilidade de um alter pensamento que não é apenas repaginação de uma lógica que permanece inalterada, e sim uma lógica outra.
Nosso principal lugar, como autores, não é escolher entre as correntes ideológicas centristas do CMS ou as escolhas metodológicas marxistas dos trabalhos nacionais, tampouco assumir uma preferência identitária decolonial. Encontramo-nos num entrelugar, assim como muitos pensamentos que questionam universalismos e relativismos. Dessa maneira, nosso lugar não se localiza à margem nem no rio, e sim no rizoma. Como afirmam Deleuze e Guattari (1995, s/p),
[...] um rizoma não começa nem conclui; ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, interser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo “ser”, mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e... e... e...” Há, nessa conjunção, força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Entre as coisas, não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra e reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio.
O primeiro aspecto importante a ser destacado sobre essa experiência é o fato de não termos a intenção nem o propósito de instaurar uma lógica conclusiva, mesmo que a academia muitas vezes nos exija essa postura. Não seremos conclusivos, pois estaríamos traindo nosso próprio experimento e perpetuando a lógica técnica de construção de conceitos, bem como a lógica arborescente e não rizomática, como consideram Deleuze e Guattari (1995).
O segundo aspecto é que esse exercício de experimentação tem como objetivo a proposta de uma abertura e também não é completo. Ele não será acabado, assim como um rizoma. Nossa intenção é possibilitar novas experiências a partir de um mesmo substrato, compartilhado, fragmentado ou outro. A própria experiência de repensar conceitos não pode ser acabada, uma vez que os conceitos sempre comportam uma multiplicidade em si, embora nem sempre prevejam uma multiplicidade conceitual (Deleuze & Guattari, 1991).
Ao nos engajarmos nessa experiência, é importante reconhecer que, sob o viés do perspectivismo ameríndio, todos os seres são potenciais humanos. A humanidade se apresenta em multiplicidade, pois o modo como essa condição se manifesta depende da contingência da especiação. Contudo, por compartilharem extensivamente uma humanidade diferente, os seres se relacionam com o meio e estabelecem relações sociais entre si. No perspectivismo ameríndio, toda relação é social (Viveiros de Castro, 2002b). As relações, entretanto, se dão a partir da semelhança numa mesma espécie e entre espécies distintas.
Nesse caso, as relações social e organizativa - esta diz respeito ao ato de se organizar nesse espectro contingente por conta da especiação - se manifestam de 2 principais modos: pela semelhança e pela diferença. Com o perspectivismo ameríndio, podemos assumir que o organizar é uma característica compartilhada no substrato comum humanoide e, portanto, faz parte do plano da virtualidade, enquanto a relação que resulta desse organizar se manifesta pelas contingências possíveis entre cada roupa-espécie. Portanto, a organização em si se manifesta num contexto de contingência ontológico, que restringe e possibilita ao mesmo tempo, traduzido no plano metafísico do real, e não mais na potencialidade do virtual.
Desse modo, o organizar se estabeleceria como característica compartilhada, como potência compartilhada virtualmente aberta ao devir. Esse entendimento da potência de manifestação está profundamente ancorado na cosmologia do mundo ameríndio, na visão sobre a criação do cosmos e da realidade, que assume todo ser como potencialmente humano e, portanto, capaz de se comunicar com outros seres e compartilhar também modos organizativos com eles. Conseguimos antever pelo menos 2 implicações que derivam desse experimento de pensamento: organizar pertence ao plano metafísico virtual, enquanto a organização se apresenta no plano metafísico do real.
Assumimos, então, o organizar (verbo) como uma potência que está presente no plano virtual e cuja manifestação seria a organização (substantivo) no plano do real. A organização, nesse caso, teria em si, como conceito, uma multiplicidade, pois a organização não é em essência, mas é somente quando em relação às diversas contingências que a coproduzem. Chegamos a essa experiência de pensamento a partir de uma comparação com a noção de humanidade no perspectivismo, que se manifesta de acordo e em relação contingente com cada espécie. Nesse caso, pensamos que a organização como substantivo e manifestação real também se apresenta em multiplicidade em relação às contingências que delimitam sua manifestação em natureza (Deleuze & Guattari, 1995; Viveiros de Castro, 2015).
Se, todavia, pensamos a categoria da organização manifestada em multiplicidade e em formato de um substrato rizomático, assim como a humanidade se manifesta no perspectivismo ameríndio, mais importante do que o estado da manifestação em si são as decisões e as condições que incidem sobre o início e o fim do que vai vir a ser delimitado como organização. Como um rizoma não começa nem termina, qualquer recorte que busque delimitar uma organização está sujeito a uma escolha a respeito de seus meios e fins, assim como a própria organização. E, para nós, pensar o recorte organizacional a partir dessa filosofia nos permite reconhecer que organização é ou pode ser outra coisa do que é hoje (Deleuze & Guattari, 2015).
Tomando um conceito como potência em multiplicidade, a característica comum entre uma organização e outra é a possibilidade de organizar-se, e não as questões relacionadas com o objetivo comum, a estrutura, a produção ou outros aspectos técnicos estabelecidos racionalmente. Pensar a organização sob essa perspectiva nos possibilita abrir o conceito de organizar/organização para uma multiplicidade de potencialidades e manifestações. Como apresentamos antes, essa vem sendo uma demanda recorrente no campo dos estudos organizacionais, sobretudo nas abordagens críticas do campo.
Pensar alternativas ao modelo racional técnico e hegemônico de organização exige um desprendimento da relação com o conceito arbóreo de organização. Trabalhar com as mesmas categorias, analisar contextos com contingências diversas e apresentar o que existe de diferença nessas organizações reduz nossas pesquisas em descrever e analisar o objeto (a organização), em vez de abrir nossa reflexão sobre outras possibilidades de manifestação do organizar.
O campo de estudos de organizações pode assumir a diferença como fator de relação, e não de semelhança. O perspectivismo ameríndio, como proposta de filosofia e de pensamento, é um exemplo de construção de mundo, relações e comunicações baseado em relações de diferença e de uma alteridade radical, uma alter antropologia que faz possível a construção e a relação entre naturezas múltiplas. É o caso de todo ser conter o potencial de manifestar agenciamento humano que estrutura e pluraliza as relações no mundo ameríndio. Deve-se reconhecer a humanidade potencial do outro para habitar esse mundo (Viveiros de Castro, 2015).
Desse modo, temos a possibilidade de experimentar e repensar conceitos, a fim de situá-los contingencialmente em perspectivas outras, com a intenção de minimizar falsificações e colonizações ontológicas e epistêmicas. Ao nos lançarmos no exercício de repensar o conceito de organização a partir do perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 2002a, 2015, 1996), apontamos 3 principais possibilidades: realizar uma distinção entre o que é organização e a potência de organizar, possibilitando direcionar nossos estudos mais para modos organizativos do que para objetos organizados; entender o conceito de organização como uma multiplicidade potencial e real, um substrato rizomático, e assumir a organização em suas variações com base na diferença, e não apenas em diferentes variações de um conceito que tem um imaginário cristalizado; buscar em nossos estudos estabelecer relações de análise baseadas em diferença e nos utilizarmos do exemplo de construção do mundo ameríndio para isso.
Assumir que a atenção dos estudos organizacionais deve estar voltada à potência do organizar, e não à organização, nos permite desenvolver estudos não apenas sobre a manifestação de instituições ou de objetos já organizados que compartilhem características comuns. Essa virtualização da potência do organizar, assim como aprendemos com a questão da humanidade no perspectivismo ameríndio, nos possibilita outra forma de pensar as relações entre o que pode se organizar e o que está organizado.
Nosso campo de estudos se amplia para afinidades potenciais e abrange também grupos, relações e seres, que estão além daquilo que se manifesta como o que consideramos “organização” atualmente. Nossa proposta caminha para que a transmutação do nosso campo não seja a que estuda apenas coisas organizadas, mas também as possibilidades de as coisas se organizarem, com base na análise de potencialidades, afinidades, virtualidades e manifestações. Uma organização é o recorte dado a ela, que é coproduzida em relação com seu meio.
Num exercício comparativo, de um lado, temos a construção técnica do conceito de organização, que é uma qualidade específica atribuída a um tipo de relação ou a alguns tipos de relação que atendem a determinados pressupostos básicos, como pessoas reunidas para determinado propósito. Nessa mesma realidade, existem outras diversas manifestações de relação que não são classificadas como parte da organização ou não classificadas como objetos estudos organizacionais.
Ou seja, a organização é, ao mesmo tempo, um conceito que homogeneíza e segrega. Ela homogeneíza diferentes tipos de manifestações relacionais, que são consideradas organizações - empresas, partidos políticos e escolas - porque, ao serem classificadas como tal, passam a pertencer ao grupo de coisas que podem ser comparadas pela sua semelhança. Mas, ao mesmo tempo, segrega e distancia, uma vez que separa o que é organização de outras manifestações de relação que não são manifestadas nas características exigidas para merecerem a classificação de “organização” e serem estudadas. O conceito que o campo aceita como organização permite diferentes tipos de organização; são diferentes tipos de uma mesma coisa, mas uma coisa de um tipo só.
De outro lado, temos a proposta feita nesse exercício de experimentação filosófica e de transformação de conceitos, se pensamos que o perspectivismo ameríndio (Viveiros de Castro, 1996, 2002a, 2015) se manifestando como organização é uma potencialidade para todas as coisas que se relacionam. Ou seja, tudo tem o potencial de se organizar de alguma forma, mesmo que não da mesma forma. Assim, a manifestação de uma organização na realidade, a especiação, que envolve determinado tipo de relação, nomeada organização, é a contingência específica de um potencial compartilhado de se organizar.
Assumimos que o organizar, que pertence à virtualidade rizomática e se constitui como uma potencialidade, pode se manifestar ou não. No caso de manifestação no plano real, temos algo organizado que pode ser chamado de organização. Quando estruturamos nosso pensamento nesse sentido, tudo o que está organizado ou manifestado como organização é um tipo específico de organização, uma vez que a passagem do plano virtual para o real assume contingências. Nesse caso, ao contrário do exemplo anterior, passamos a ter organizações de diferentes tipos, de modo que o que relaciona uma organização com a outra não são suas semelhanças, e sim as diferenças de suas manifestações, haja vista que a virtualidade é a mesma, isto é, a potência de organizar-se, mas a maneira como isso se apresenta é diferente.
Este giro, de fixar o que é verbo (organizar) e variar o que é objetivo (organização), nos abre diversas possibilidades de abordagem, permitindo-nos olhar além do que está organizado e possibilitando um ponto de vista diferente do que está organizado. Se toda organização é a manifestação específica de uma potência organizativa, podemos reduzir nossos universalismos e respeitar manifestações que tenham tantas diferenças em suas contingências que a relação entre uma organização e outra seja a ausência de semelhança.
A organização como manifestação da potência do organizar, assim como a humanidade no contexto do perspectivismo ameríndio, é um devir. Considerar a organização um devir significa assumir sua constante mudança. Uma organização está manifestada em determinada forma; ela não é de determinada forma (Deleuze & Guattari, 1995; Viveiros de Castro, 2015).
DISCUSSÕES, IMPLICAÇÕES E INDICAÇÕES FUTURAS
Com as reflexões aqui realizadas, compreendemos que o perspectivismo ameríndio, tomado como filosofia, tem grande potencial para gerar novas experimentações e críticas ao campo dos estudos organizacionais. Notamos também que outra perspectiva a respeito do conceito de organização, uma proposta de abertura para potencialidade, virtualidade e manifestação, pode ser uma linha de fuga possível à construção técnica dominante hoje em dia, sendo uma alternativa que procura contribuir para a construção de respostas tanto de reconceitualização quanto de decolonização do pensamento organizacional atual.
A relação a partir da diferença e a diferença entre o potencial de organizar e a organização podem permitir que novos recortes e novas definições de organizações sejam considerados no campo de estudos. Esse é um modo de fortalecer áreas que tenham por objetivo buscar linhas de fuga dentro da lógica técnica e arborescente do que vem sendo considerado organização.
Nosso trabalho contribui para a multiplicação e a flexibilização do pensamento sobre o organizar. Politicamente, desmontar parte das rígidas estruturas que sustentam a construção de um conceito colonial é capaz de, na prática, abrir possibilidade para estudos e explorações empíricas que se encontravam esmagadas, muitas vezes encobertas por categorizações instrumentais. O que chamamos hoje de organização não condiz com o modo de vida, com economias de afetos e com corpos de miríades de povos que povoam o planeta, como centenas de povos originários no Brasil. Propomos que essa abertura de multiplicidade conceitual contribua para engajamentos em pesquisa e principalmente ações, com alternativas e potencialidades de organizar que acabam sendo colonizadas por nossas rígidas conceitualizações atuais.
Além disso, essa abertura ontológica nos abre espaço para pensar e coproduzir alternativas organizacionais que incluam multiplicidade de espécies sendo reconhecidas no seu potencial de humanidade, uma demanda presente nas pautas de povos indígenas sobre o direito a florestas, água, animais e outras entidades sagradas que, normalmente, são tratadas como recursos no pensamento gerencial atual.
Não podemos deixar de incluir na seção final deste trabalho que, além do perspectivismo como filosofia, as vozes de pensadores indígenas devem ser ouvidas para construir realidade pluriversas e, como propõe Viveiros de Castro (2015), levadas a sério. Davi Kopenawa e Ailton Krenak são exemplos de filósofos indígenas que têm muito a nos ensinar e inspirar. Trata-se de 2 pensadores que nos trazem as demandas urgentes sobre povos e seres da floresta, invocando os povos da cidade para mobilizações de pensamento e de ação.
O perspectivismo ameríndio tem o potencial de iluminar nosso pensamento, e, a partir disso, somos capazes de experimentá-lo de outras formas que não só a apresentada neste trabalho. A aproximação com essa cosmologia, que foge à ontologia tecnicista dominante, nos proporciona reflexões que fortalecem alternativas à estrutura hegemônica.
Nossa esperança é uma mudança de relação com o conhecimento produzido, em que a compreensão de nossas construções de saberes possam ser conscientes de seu impacto no todo, visando agregar mais possibilidades de olhar para os mesmos elementos, os quais não devem se categorizar, por outras lentes. Esse exercício de experimentação pode nos colocar num giro ontológico, sabendo das limitações de nosso próprio pensamento colonizado como autores dessa produção. Dessa maneira, não temos a pretensão de trazer soluções e universalizar ideias, e sim de multinaturalizar as possibilidades de potência do organizar e de convidar mais pessoas para essa experiência.
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PARECERISTAS
RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
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