O periódico Cadernos EBAPE.BR tornou-se um espaço plural e relevante para debates em administração e gestão no Brasil, juntamente com outros periódicos e publicações. Desde o início dos anos 2000 foram estabelecidas pontes respeitosas e responsáveis com as múltiplas comunidades que constituem o campo da administração e as diversas expressões da vida humana. Com ânimo e senso de responsabilidade redobrados, assumimos a editoria dos Cadernos, conscientes de que a parte mais importante de nosso trabalho consiste em preservar o que foi construído, consolidar o que está emergindo, e abrir espaços e caminhos para que as muitas comunidades que dão vida a esse periódico por meio de diversas formas de participação e colaboração possam se ver refletidas em suas páginas e em outros meios para comunicação e aprendizagem.
Os Cadernos EBAPE.BR resultam do trabalho criativo, imaginativo, disciplinado e responsável de muitas mãos, envolvendo uma crescente e vibrante comunidade de autores, leitores, revisores, aliados, e membros do corpo editorial e do corpo administrativo. Sua memória viva é constituinte de nossas práticas e precisa ser lembrada e recontada nesse momento de transição.
Em um contexto marcado por grandiosos projetos nacionais e internacionais voltados à institucionalização do pensamento único em escala global, o saudoso Marcelo Milano Falcão Vieira (editor entre 2003 e 2009) abraçou a multifacetada área de Estudos Organizacionais (Carrieri & Correia, 2020). Ele mobilizou suas diversas comunidades para estabelecer o rigor e a abertura ao debate como bases que orientam o modo de ser do periódico (Vasconcelos et al., 2018).
Posteriormente, em meio à crise do capitalismo financeiro liderado pelos Estados Unidos da América e pela Europa, cujos efeitos sociopolíticos ainda são sentidos, Ana Lucia Guedes (2010-2012) assumiu, reafirmou e renovou essa identidade fundadora, mas não fundacionalista. Ela manteve a qualidade dos processos e ampliou as bases de sustentação interna e de coesão externa exigidas pelas forças conformativas impostas ao complexo mundo das publicações por grandes conglomerados bilionários e instituições, nacionais e internacionais, de ranking e fomento.
Os anos de gestão de Fernando Tenório (2013-2016) coincidiram com ataques institucionalizados à democracia. Ele manteve a identificação da revista com o pensamento plural e o debate democrático. Ainda, reconfigurou a identidade transformadora dos Cadernos EBAPE.BR por meio da diversificação de comunidades engajadas, com múltiplas tradições de conhecimento crítico e de modos alternativos de conhecer, ser e viver, dentro e ao redor das fronteiras do campo da administração.
Em um contexto marcado pela normalização de restrições à pluralidade acadêmica em escala global, a tradição de engajamento com comunidades diversas foi seguida por Isabella Vasconcelos (2016-2019), que, em sua gestão, reafirmou a cultura de valorização dos diálogos intra e intercomunidades por meio de uma proposta inclusiva de crítica ampliada. Foi então introduzida a figura do coeditor, ocupada por Hélio Arthur Irigaray, para enfrentar os novos desafios de governança em periódicos no Brasil, impulsionados pelo expressivo crescimento do volume e da diversidade de submissões e artigos publicados.
Entre 2020 e 2025, Hélio Arthur expandiu o alcance do periódico, consolidando-o como publicação bilíngue que expressa uma orientação situada de internacionalização, marcada por dinâmicas criativas de conformidade e resistência que reconfiguram o alcance da identidade fundacional de rigor e abertura ao debate. Com o suporte do coeditor Fabrício Stocker (2021-2025), foi efetivada a ampliação substantiva do escopo e da diversidade de temas debatidos em suas páginas.
Enquanto cada uma dessas gestões exitosas e memoráveis respondeu a contextos específicos marcados por desafios crescentes, entendemos que o maior legado é a construção de uma identidade (auto)transformadora engajada com e impulsionada por múltiplas comunidades. Por meio dessa identidade transformadora e transformável que perpassa cada ciclo, o periódico tornou-se um espaço comunitário consistente para o desenvolvimento, a publicização e o amadurecimento de ideias. A consolidação de uma cultura que valoriza o rigor e a abertura ao debate, bem como o dissenso, tem ajudado a mitigar os impactos de um ecossistema acadêmico que se expande de forma hegemônica por meio da sistemática exclusão e cooptação de ideias novas, interessantes ou insurgentes. Esse status quo reiteradamente marginaliza autores, pensamentos e tradições arbitrariamente classificados como dissonantes ou retrógrados.
Essa trajetória de desenvolvimento de comunidades e amadurecimento de ideias deixou marcas decorrentes de múltiplos contextos e processos de desenvolvimento do periódico. Aprendemos que esse quadro de consolidação e êxitos não é uma garantia para o futuro. Desde os primeiros momentos da vida formal dos Cadernos, o mundo dos periódicos foi significativamente manipulado por corporações bilionárias e instituições privilegiadas do capitalismo colonial, racial e patriarcal (Grosfoguel, 2005). Periódicos acadêmicos tornaram-se constituintes de projetos conservadores que tentam regular a academia em escala global, criando forças que, majoritariamente, visam impedir que a vida acadêmica humana seja governada por suas múltiplas comunidades (Costa & Goulart, 2018; Guedes, 2018).
O imperativo de publicar trabalhos acadêmicos a qualquer custo normalizou uma cultura predatória de hipercompetição desumanizante moldada por forças de darwinismo social. Essas forças bloqueiam a imaginação, asfixiam possibilidades, distorcem alternativas e marginalizam modos de conhecer, viver e ser coletivos que resistem e desafiam dinâmicas longevas de instituição objetiva e internalização subjetiva de que haveria uma forma verdadeira de ser humano no mundo e uma cultura como ápice civilizacional (Wynter, 2003). Esse imperativo foi objetivamente institucionalizado pela mensagem anglicizante “publish or perish” e internalizado por nossas instituições como o modo normal da vida acadêmica humana (Abdallah, 2025). Esta expressão de superioridade organiza a lógica do trabalho científico na academia de administração, com intensidade crescente desde os anos 2000, ainda que adaptada às dinâmicas de poder nacionais.
Por sua vez, aprendemos a desejar e a imaginar, em condições de (im)possibilidade, a reativação coletiva de possibilidades interditadas e interrompidas, mas não derrotadas. Com Paulo Freire, aprendemos o verbo esperançar. Dissensos criativos e múltiplas expressões da vida humana continuam existindo, e comunidades acadêmicas continuam aprendendo a promover transformações substantivas em condições de (im)possibilidade por meio de disciplinas, pedagogias e periódicos (Abdalla & Faria, 2017).
O compromisso com esse imaginário de possibilidades cocriadas, em vez de certezas instituídas, esteve presente nos primeiros momentos de constituição dos Cadernos, ainda que sempre sob cerco das forças e instituições da colonialidade epistêmica. Lidando com condições de possibilidade cada vez mais restritivas para a concretização daqueles desejos e possibilidades, Cadernos EBAPE.BR tornou-se um periódico exitoso por ter sido impulsionado simultaneamente pelos corpos editorial e administrativo, e pelas múltiplas comunidades que, desde o princípio, dão vida ao periódico. Merecem especial destaque o suporte ilimitado proporcionado pela FGV e o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Scientific Electronic Library Online (SciELO), instituições que ocupam posição central para o desenvolvimento do sistema nacional de periódicos acadêmicos.
O número de artigos recebidos e publicados cresceu; o alcance geográfico e o impacto avançaram; a comunidade de autores e revisores se expandiu, assim como a diversidade de temas e grupos que nos premiam com a submissão de ideias arrojadas ao debate público. Merece destaque o trabalho competente e multidisciplinar desenvolvido por Fabiana Braga Leal, que se despede dos Cadernos por motivos pessoais, após uma contribuição marcante e de longa duração.
Pretendemos que a revista continue inspirando e gerando contribuições que permitam compreender, transformar e explicar as múltiplas sociedades que constituem a vida social, a partir do seu entrecruzamento com os objetos que caem sob o escrutínio dos estudos da administração. Intencionamos manter engajamento com debates estabelecidos e com possibilidades emergentes e insurgentes no campo, incluindo discussões sobre um suposto universal da administração e seus limites, bem como os limites do conhecimento autocêntrico, monocultural e fechado impulsionado pelos binarismos nós-eles, superior-inferior e do paroquialismo que, muitas vezes, apenas não quer saber do que o outro tem a dizer. Nas páginas da revista, há espaços para a empresa privada, a organização pública, a organização social, os movimentos sociais, e outras expressões administradas e organizadas da vida humana (Serva, 2017). Mais importante, há espaços para as pessoas que produzem essas realidades e os conhecimentos correspondentes que estabelecem e compartilham em suas práticas cotidianas.
Desejamos fortalecer os debates sobre o ensino em gestão e administração, bem como as condições do campo acadêmico no qual esses saberes se dispersam e se reproduzem (Barros & Carrieri, 2013). Diversos periódicos têm abraçado esse campo como relevante para pesquisas e para o fortalecimento de uma comunidade engajada de acadêmicos e não acadêmicos. No Brasil, esse campo está atualmente sub-representado; dito isso, pretendemos convidar múltiplas comunidades de ensino para mais conversas sobre esses temas na revista.
Objetivamos aprender a compreender, com mais profundidade, as demandas da comunidade e de seus subgrupos que a revista pretende abarcar - e sobre os quais pretende se sustentar. Numa dimensão mais prática, promoveremos a coformação de autores, revisores e editores por meio de interlocução contínua, que permita reforçar vetores de identidade e um ethos do que se espera de debates científicos relevantes e humanizados. A revista deve continuar sendo um espaço de reconhecimento criativo das ciências humanas e sociais e do desenvolvimento das múltiplas expressões da vida humana, não apenas um lugar onde um artigo é publicado como mercadoria ou bem de consumo.
Ainda, pretendemos aprimorar nossos processos, envolvendo editores associados, um corpo editorial, autores e revisores para a construção desse lugar imaginário, mas real. Contamos com uma equipe interna engajada com o complexo mundo das publicações e as demandas de nossas comunidades, com destaque para o trabalho diligente e criativo de Jackelyne de Oliveira da Silva e Bruno Eduardo Andrade de Carvalho. Nesse espaço, investigadores podem encontrar interlocutores para suas ideias com respeito e rigor comunitários. Múltiplas comunidades podem desenvolver o conhecimento sobre os múltiplos objetos da administração e da gestão, das organizações, e das práticas de construção e disseminação desse conhecimento.
Além dos desafios que já foram enfrentados com sucesso por editores anteriores, enfrentaremos outros, incluindo as transformações de elevado impacto nas dinâmicas de publicação e, talvez, na lógica de autoria. Estes sofrerão o impacto da emergência de novas e contestadas tecnologias que se integram cada vez mais aos processos de pesquisa, sendo submetidos a reflexões críticas e criativas acerca de seus impactos ontológicos, epistêmicos, gnosiológicos, materiais e políticos.
Esperamos continuar contando com a confiança e a colaboração de todos, e em particular das múltiplas comunidades que vêm dando vida aos Cadernos EBAPE.BR ao longo de mais de duas décadas.
REFERÊNCIAS
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Serva, M. (2017). Epistemologia da administração no Brasil: o estado da arte. Cadernos EBAPE.BR, 15(4), 740-750. https://doi.org/10.1590/1679-395173209
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Vasconcelos, I. F. F. G., Irigaray, H. A. R., & Leal, F. B. (2018). A trajetória e a evolução da editoria científica em administração no Brasil: a proposta democrática do Cadernos EBAPE.BR. Cadernos EBAPE.BR, 16(spe), 494-499. https://doi.org/10.1590/1679-395177451
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