Open-access Trabalho identitário desde o Sul Global: por uma agenda de pesquisa pluriversal sobre as identidades

Resumo

Ao longo das últimas duas décadas, o estudo das identidades nas e ao redor das organizações consolidou-se em torno de um vocabulário que inclui o trabalho identitário, a regulação identitária, o jogo identitário e a ameaça identitária. Este artigo argumenta que esse vocabulário, embora útil, não é neutro nem universal. Ele repousa sobre uma epistemologia e uma ontologia do Norte, que tomam como ponto de partida um self individual e delimitado. Recorrendo à noção de colonialidade do ser e às concepções de pessoa oriundas de tradições do Sul, o artigo relê esse vocabulário e propõe uma agenda de pesquisa organizada em torno de três eixos: relacionalidade, colonialidade e pluriversalidade. Cada eixo mostra como uma perspectiva do Sul redefine conceitos centrais do campo e aponta para conceitos que ainda precisam ser desenvolvidos. O artigo apresenta três contribuições: torna visível o caráter situado do vocabulário das identidades; mobiliza autores africanos, latino-americanos e asiáticos como ferramentas analíticas, e não como ilustração; e apresenta uma agenda de pesquisa.

Palavras-chave:
identidade; trabalho identitário; sul global; colonialidade; pluriversalidade

Abstract

Over the past two decades, the study of identities in and around organizations has consolidated around a vocabulary that includes identity work, identity regulation, identity play, and identity threat. This article argues that this vocabulary, while useful, is neither neutral nor universal. It rests on an epistemology and an ontology from the North, which take as their starting point a bounded, individual self. Drawing on the notion of the coloniality of being and on conceptions of the person originating from Southern traditions, the article rereads this vocabulary and proposes a research agenda organized around three axes: relationality, coloniality, and pluriversality. Each axis shows how a perspective from the South redefines central concepts in the field and points to concepts that have yet to be developed. The article makes three contributions: it makes visible the situated character of the vocabulary of identities; it mobilizes African, Latin American, and Asian authors as analytical tools rather than as illustration; and it presents a research agenda.

Keywords:
identity; identity work; global south; coloniality; pluriversality

Resumen

A lo largo de las dos últimas décadas, el estudio de las identidades en las organizaciones y en torno a ellas se ha consolidado alrededor de un vocabulario que incluye el trabajo identitario, la regulación identitaria, el juego identitario y la amenaza identitaria. Este artículo sostiene que dicho vocabulario, aunque útil, no es neutral ni universal. Se asienta sobre una epistemología y una ontología del Norte, que toman como punto de partida un self individual y delimitado. Recurriendo a la noción de colonialidad del ser y a las concepciones de persona provenientes de tradiciones del Sur, el artículo relee ese vocabulario y propone una agenda de investigación organizada en torno a tres ejes: relacionalidad, colonialidad y pluriversalidad. Cada eje muestra cómo una perspectiva del Sur redefine conceptos centrales del campo y señala conceptos que aún están por desarrollarse. El artículo presenta tres contribuciones: hace visible el carácter situado del vocabulario de las identidades; moviliza a autores africanos, latinoamericanos y asiáticos como herramientas analíticas, y no como ilustración; y presenta una agenda de investigación.

Palabras clave:
identidad; trabajo identitario; Sur Global; colonialidad; pluriversalidad

INTRODUÇÃO

As identidades, entendidas como os relatos que as pessoas constroem sobre quem foram, quem são e quem desejam se tornar, ocupam um lugar de destaque nos estudos organizacionais. Em torno delas, o campo desenvolveu um vocabulário próprio, que inclui o trabalho identitário, a regulação identitária, o jogo identitário e a ameaça identitária. Esse vocabulário organiza grande parte da pesquisa recente sobre socialização, liderança, carreiras, resistência e sentido do trabalho (Alvesson et al., 2008; Felix et al., 2024; Ybema et al., 2009). O próprio campo, no entanto, reconhece um limite: Brown (2022) observa que a pesquisa sobre identidades é marcada por miopia, insularidade e etnocentrismo.

Quatro revisões ajudaram a dar forma a esse campo. Brown (2015, 2017, 2022) reuniu vertentes dispersas em uma perspectiva do trabalho identitário, e Ashforth e Schinoff (2016) descreveram o processo pelo qual as pessoas passam a se definir nas organizações. Juntas, essas revisões ajudaram a consolidar um vocabulário comum e uma síntese do estado da arte. É esse vocabulário que o artigo toma como seu objeto.

O argumento central é que esse vocabulário é menos universal do que parece. Ele pressupõe um tipo particular de sujeito: um indivíduo delimitado, dono de uma vida interior, que reflete sobre o self e trabalha sobre a sua identidade. Trata-se da concepção moderna de pessoa formulada no Norte (Taylor, 1989), e a base empírica das revisões provém, em sua maior parte, da América do Norte, Europa e Austrália (Wickert et al., 2024). O vocabulário do campo está, portanto, situado em uma epistemologia e uma ontologia particulares, ainda que se apresente como uma descrição geral de quem as pessoas são.

O Sul Global oferece um ponto de partida para reexaminar esse pressuposto. O termo não designa uma região no mapa, mas uma posição política e epistêmica que contesta a dominação do Norte na produção de conhecimento (Connell, 2007; Santos & Meneses, 2019; Srinivas, 2023). Um conjunto crescente de trabalhos pede que os estudos organizacionais contextualizem e decolonizem seus conceitos (Banerjee, 2022; Bruton et al., 2022; Filatotchev et al., 2022; Muzio, 2022). Entre as formas de dominação que o pensamento decolonial descreve, a colonialidade do ser diz respeito à subjetividade e ao reconhecimento da pessoa (Maldonado-Torres, 2007), o que a torna diretamente relevante para a teoria das identidades.

O objetivo do artigo é duplo: mostrar que o vocabulário das identidades é situado e construir, a partir do Sul, uma agenda que o redefina. O artigo oferece três contribuições. Primeiro, torna visível o caráter situado desse vocabulário, distinguindo o que nele é geral daquilo que reflete uma concepção particular de pessoa. Segundo, mobiliza autores africanos, latino-americanos e asiáticos como ferramentas analíticas, e não como ilustrações de contextos exóticos. Terceiro, propõe uma agenda de pesquisa, organizando-a em torno de três eixos que redefinem os conceitos centrais do campo e apontam para conceitos ainda por criar.

Quanto à abordagem, este é um artigo conceitual, não uma revisão sistemática. Seu procedimento é o da problematização (Alvesson & Sandberg, 2011): em vez de mapear toda a literatura em busca de lacunas, ele examina os pressupostos de um corpo teórico consolidado e os confronta com um ponto de vista externo. O corpus reúne as quatro revisões, a literatura sobre o Sul Global e o pensamento decolonial, além de um conjunto disperso de estudos que já examinaram identidades em contextos do Sul. Os conceitos do Sul empregados a seguir foram escolhidos por sua relevância para os pressupostos em exame, e não para representar todas as tradições do Sul.

O VOCABULÁRIO DO CAMPO

O conceito de trabalho identitário vem de Snow e Anderson (1987), que o definiram como o conjunto de atividades por meio das quais as pessoas criam, apresentam e sustentam identidades pessoais. Os estudos organizacionais construíram, então, um vocabulário mais amplo em torno dele. O trabalho identitário refere-se ao esforço contínuo por meio do qual as pessoas formam, reparam e revisam seu senso de quem são no trabalho (Sveningsson & Alvesson, 2003; Watson, 2008). A regulação identitária descreve o modo como as organizações tentam moldar o self de seus membros (Alvesson & Willmott, 2002). O jogo identitário nomeia a experimentação de identidades possíveis, sobretudo durante transições de carreira (Ibarra & Petriglieri, 2010). E a ameaça identitária diz respeito ao modo como as pessoas reagem quando seu senso de si é posto em risco (Petriglieri, 2011).

Quatro revisões foram centrais para sistematizar e democratizar esse vocabulário. Brown (2022) caracteriza a perspectiva do trabalho identitário por meio de cinco pressupostos: os selves são reflexivos e ativamente trabalhados; as identidades são múltiplas e raramente coerentes; são construídas no interior de relações de poder; não são bem descritas como positivas ou autênticas; e fazem parte dos processos de organizar. Brown (2017) distingue cinco abordagens (a discursiva, a dramatúrgica, a simbólica, a sociocognitiva e a psicodinâmica), e Brown (2015) identifica debates em torno de escolha, estabilidade, coerência, positividade e autenticidade. Ashforth e Schinoff (2016), por sua vez, em registro mais psicológico, descrevem como o indivíduo, diante de pistas da organização, interpreta quem deve se tornar, orienta-se para um self desejado, constrói narrativas e busca validação social.

Esse vocabulário é coerente e produtivo. Ele repousa, contudo, sobre uma base particular. A pesquisa que o sustenta foi realizada, em sua maior parte, em organizações do Norte Global, e trata sobretudo de profissionais e empregados de empresas formais (Wickert et al., 2024). Mais importante, o vocabulário pressupõe uma ideia específica de pessoa. Nas quatro revisões, a unidade de análise é o indivíduo, dono de uma vida interior, que reflete sobre o self e trabalha sobre a sua identidade. Essa ideia corresponde à concepção moderna de pessoa no pensamento ocidental (Taylor, 1989) e não é compartilhada por outras tradições. Assim, mesmo quando o campo abandona a linguagem da autenticidade, como faz Brown (2022), ele mantém o indivíduo como ponto de partida. É esse pressuposto individualista, e não apenas os conceitos dele derivados, que uma leitura com base no Sul põe em questão.

O Sul não está ausente da pesquisa organizacional. Um conjunto de trabalhos, ligado aos estudos críticos e pós-coloniais em gestão, já examinou identidades em contextos de dominação. Prasad (2003) reuniu análises pós-coloniais das organizações; Frenkel e Shenhav (2006) mostraram como o pensamento pós-colonial reposiciona categorias centrais do campo; Ibarra-Colado (2006) descreveu a colonialidade que marca os estudos organizacionais na América Latina; Boussebaa e Brown (2017) analisaram a regulação identitária ligada à imposição do inglês; e Jimenez-Luque (2021) estudou a identidade como recurso de resistência em um grupo subalterno. Esse trabalho, no entanto, permanece disperso e em grande medida ausente das revisões que consolidaram o campo. O artigo o toma como ponto de partida.

UMA LENTE A PARTIR DO SUL GLOBAL

O Sul Global é tratado aqui como uma categoria política e epistêmica. Santos e Meneses (2019) situam-no no âmbito das epistemologias do Sul, os conhecimentos produzidos nas lutas contra a dominação colonial, que a ciência ocidental tende a desqualificar. Connell (2007) mostra que a teoria social tende a ser produzida nos centros metropolitanos e apenas aplicada às periferias, tratadas como fonte de dados. Srinivas (2023) observa que, nos estudos organizacionais, o Sul Global nomeia ao mesmo tempo uma exclusão e a possibilidade de formular questões a partir dela.

Essa discussão conecta-se ao pensamento decolonial latino-americano, que analisa a colonialidade como uma estrutura que persiste após o fim da administração colonial. Quijano (2000) descreve a colonialidade do poder, a classificação da população do mundo pela ideia de raça; Mignolo (2020) examina a colonialidade do saber, a imposição da epistemologia ocidental como padrão único; e Maldonado-Torres (2007) formula a colonialidade do ser, os efeitos da dominação sobre a experiência e sobre a própria condição de ser pessoa. Fanon (2008) já havia descrito como o sujeito colonizado tem sua humanidade posta em dúvida e depende do reconhecimento do outro. É essa dimensão, a do ser e a do reconhecimento, que estrutura a leitura proposta a seguir.

A esse diagnóstico, o pensamento decolonial acrescenta uma afirmação ontológica. Escobar (2018) usa o termo pluriverso para nomear a coexistência de muitos mundos e muitas concepções do que existe, contra a pretensão de um mundo único. Boa parte dessa discussão repousa sobre ontologias relacionais, nas quais a pessoa não é uma entidade separada, mas se constitui em relação aos outros. Os recursos que o artigo mobiliza vêm de tradições distintas: o ubuntu, da África; a conscientização, do Brasil; o buen vivir, dos Andes; e a crítica asiática da colonialidade. Eles não formam uma única voz do Sul. Lee (2023), aliás, adverte que idealizar o Sul e tratá-lo como um bloco homogêneo reproduz o próprio erro que se busca corrigir, enquanto Spivak (1999) lembra que falar pelos grupos subalternos pode silenciá-los. Por isso, o contraste entre Norte e Sul é utilizado estrategicamente, não como uma oposição entre dois blocos fechados (Hamann et al., 2020).

UMA AGENDA DE PESQUISA: RESSIGNIFICANDO O VOCABULÁRIO DAS IDENTIDADES A PARTIR DO SUL

Esta é a parte central deste artigo. A agenda organiza-se em torno de três eixos, e cada um deles é um princípio do Sul que redefine um conjunto de conceitos do campo. O primeiro, a relacionalidade, ressignifica a ideia de pessoa e de trabalho identitário. O segundo, a colonialidade, ressignifica a regulação, a autenticidade, a ameaça e o jogo identitário. O terceiro, a pluriversalidade, ressignifica a própria teoria da identidade e abre espaço para novos conceitos. A Tabela 1 resume o argumento; o texto que se segue desenvolve cada linha. Vale repetir que o contraste entre Norte e Sul é heurístico: serve para tornar visível o que é situado, e não para opor duas essências.

Tabela 1
Ressignificando o vocabulário das identidades a partir do Sul

RELACIONALIDADE: A PESSOA ANTES DO INDIVÍDUO

O primeiro eixo redefine a identidade e o trabalho identitário. A perspectiva do trabalho identitário toma o indivíduo como sua unidade e pressupõe que o indivíduo já é uma pessoa que reflete sobre o self. Várias tradições invertem essa ordem. No ubuntu, presente em contextos africanos, uma pessoa torna-se pessoa por meio de outras pessoas (Ramose, 1999). Menkiti (1984) leva a ideia adiante: a pessoalidade não é um ponto de partida, mas algo adquirido ao longo de uma vida, em graus, por meio da incorporação a uma comunidade. Nkomo (2011) mostra como essas concepções africanas de pessoa e de liderança foram apagadas ou estereotipadas nos estudos organizacionais. No buen vivir andino, o sujeito é igualmente definido em relação à comunidade e à terra que a sustenta (Gudynas, 2011; Peredo, 2019).

Duas consequências decorrem disso para o vocabulário do campo. A primeira afeta a noção de trabalho identitário. Se a pessoa é feita em relação, o trabalho identitário deixa de ser um empreendimento do indivíduo sobre o self e torna-se um processo coletivo, no qual a comunidade concede e retira a condição de ser pessoa. Na leitura de Freire (1970), tornar-se sujeito é igualmente um processo coletivo, de consciência crítica compartilhada, e não um ato solitário. Brown (2015) menciona a categoria de pessoa de Mauss (1985), mas não desenvolve a ideia. A segunda consequência afeta o tempo. Ashforth e Schinoff (2016) descrevem a construção da identidade como um percurso do indivíduo, no presente, rumo a um self desejado no futuro. Nas concepções relacionais, a identidade inclui também os ancestrais e as gerações futuras, e o tempo não se organiza em torno do projeto de uma única pessoa. Estudos de organizações indígenas mostram como o parentesco e os laços com a terra estruturam o senso de si de um modo que afrouxa a distinção entre identidade individual e coletiva (Cutcher & Dale, 2023; Salmon et al., 2023).

Um exemplo ajuda a ver o que está em jogo. Cutcher e Dale (2023) estudam uma organização indígena na qual as relações de parentesco definem quem pertence e quem responde por quem. Elas mostram o atrito que surge quando essa lógica encontra a cultura de auditoria, que exige indivíduos identificáveis e responsabilizáveis um a um. Aquilo que a perspectiva do trabalho identitário leria como a identidade de cada membro aparece, ali, como uma posição em uma teia de obrigações. Descrever isso com o vocabulário atual força uma tradução do coletivo para o individual, e é precisamente essa tradução que se perde.

É necessário, portanto, um conceito próprio, e ele pode ser especificado. Chamaríamos de trabalho de pessoalidade (personhood work) o processo pelo qual uma comunidade constitui, sustenta e, por vezes, retira a condição de ser pessoa de seus membros. A definição tem quatro elementos. Seu agente é o coletivo, não o indivíduo: a comunidade realiza o trabalho, e o membro o sofre. Seu objeto é a pessoalidade, um status que admite graus, e não a identidade, uma autodescrição. Sua temporalidade é mais longa do que uma biografia, porque a comunidade que confere a pessoalidade inclui os mortos e os que ainda não nasceram. E seu critério é externo: a pessoalidade mede-se pelo cumprimento de obrigações para com os outros, e não pela coerência interior que a literatura do trabalho identitário toma como marca de um self assentado. O conceito não é coberto por seus vizinhos mais próximos. A identificação relacional (Sluss & Ashforth, 2007) descreve como um indivíduo define o self por meio de relações de papel, mas o indivíduo permanece a unidade e o autor. A identidade coletiva descreve a identidade de um grupo, não a produção de pessoas por um grupo. O trabalho de pessoalidade nomeia esse segundo processo, para o qual o campo atualmente não tem termo. Empiricamente, ele se torna visível em momentos identificáveis: cerimônias de nomeação, iniciações, casamentos, funerais e, na outra ponta, sanções, ostracismo e expulsão, nos quais uma comunidade ajusta formalmente a condição de alguém como pessoa.

Essas especificações disciplinam a agenda de pesquisa. Uma primeira linha estudaria organizações nas quais os momentos há pouco listados são eventos organizacionais: associações indígenas na Amazônia, organizações quilombolas no Brasil, sociedades funerárias e stokvels na África do Sul, comunidades campesinas nos Andes, e organizações comunitárias aborígenes na Austrália e coletivos Māori em Aotearoa/Nova Zelândia (Banerjee & Tedmanson, 2010; Henry & Pene, 2001). A questão não é quais identidades os membros possuem, mas como o coletivo confere e retira a condição de pessoa, e o que acontece quando isso colide com dispositivos individualizantes como auditorias, contratos individuais e avaliações de desempenho, estendendo o atrito que Cutcher e Dale (2023) descrevem.

Evidências de que a unidade é, de fato, o coletivo incluiriam quem tem o direito de falar sobre o self de um membro, se os relatos sobre quem sou são dados em termos de parentesco, e se anciãos ou assembleias detêm o direito de decidir sobre questões que a literatura do Norte trata como privadas. Uma segunda linha investigaria diretamente os ancestrais e as gerações futuras: a sucessão em empreendimentos comunitários e familiares nos quais os mortos permanecem membros, consultados por meio de ritual ou invocados nas decisões. O método narrativo, aqui, precisa mudar sua pergunta. Ashforth e Schinoff (2016) perguntam, em suma, quem você quer se tornar; o correlato relacional pergunta a quem você responde, e ao longo de que período de tempo. Comparar os horizontes temporais dessas narrativas com os da literatura do Norte mostraria se a temporalidade da identidade é uma variável, e não uma constante. Uma terceira linha compararia o ubuntu e o buen vivir em três dimensões específicas: o que confere a pessoalidade (a incorporação à comunidade humana, no relato de Menkiti, ante a reciprocidade com a comunidade e a terra, no caso andino), o que a retira e que lugar ocupa o não humano. O propósito da comparação é impedir que o Sul se torne uma concepção única. Nas três linhas, o problema metodológico é que o instrumento padrão, a entrevista individual, pressupõe justamente a unidade em questão. Estudar um self cuja unidade é o coletivo exige formas coletivas de dados, como assembleias, conselhos e círculos, e as metodologias de base comunitária que estudiosos indígenas desenvolveram (Smith, 2012), incluindo a autoria compartilhada sobre o relato produzido.

COLONIALIDADE: PODER, LÍNGUA E RECONHECIMENTO

O segundo eixo redefine a regulação identitária, a autenticidade juntamente com a ameaça, e o jogo identitário. Comecemos pela regulação. Na literatura, ela é o esforço da organização para moldar o self de seus membros (Alvesson & Willmott, 2002). Lida por meio da colonialidade, a regulação começa antes e fora da organização, em hierarquias de raça, origem e língua. Poster (2007) mostra como atendentes de call center na Índia são levados a assumir nomes e sotaques americanos, em um controle que opera sobre a identidade nacional. Boussebaa e Brown (2017) descrevem como a imposição do inglês disciplina o self dos trabalhadores no Sul. Seyama-Mokhaneli e Belang (2024) mostram como programas de coaching de liderança regulam a identidade segundo padrões que tomam a branquitude como norma. No caso de Poster, os atendentes aprendem a falar sobre o clima e o esporte de cidades que nunca visitaram. A organização regula essas identidades, mas o faz executando uma hierarquia mais antiga, na qual o cliente no Norte decide qual voz é aceitável.

Chamaríamos isso de regulação identitária colonial (colonial identity regulation), e três marcas a distinguem da regulação que Alvesson e Willmott (2002) descrevem. Primeiro, o referente da norma está fora da organização: o padrão que se impõe pertence a um cliente, a um mercado ou a um modelo profissional situado no Norte, e a organização o transmite em vez de o criar. Segundo, ela opera por meio de marcadores anteriores ao emprego, como raça, sotaque, nome e nacionalidade, e não por meio de categorias de pertencimento que a organização cria. Terceiro, ela acompanha o trabalhador de um empregador a outro, porque se prende a uma posição em uma hierarquia colonial, e não a um cargo. Essas marcas produzem um teste empírico: a regulação que muda quando o trabalhador troca de empresa é organizacional; a regulação que persiste de uma empresa a outra, e que se mapeia sobre raça e língua, é colonial.

A autenticidade e a ameaça identitária também mudam. No Norte, a autenticidade refere-se a um self verdadeiro, e a ameaça é o risco a esse self coerente (Petriglieri, 2011). A partir do Sul, a questão torna-se de reconhecimento. Marques et al. (2026) mostram como grupos indígenas precisam negociar sua autenticidade contra estereótipos impostos de fora, que definem o que conta como verdadeiramente indígena. Aqui a ameaça não vem de uma incoerência interior, mas do desreconhecimento: a recusa, pela ordem colonial, em admitir certas pessoas como plenamente pessoas (Fanon, 2008; Maldonado-Torres, 2007). Chamaríamos isso de ameaça de desreconhecimento (misrecognition threat), que difere do conceito de Petriglieri (2011) em três pontos. O alvo não é a coerência ou o valor de uma dada identidade, mas a condição da pessoa como sujeito pleno. A fonte não é um evento discreto, como uma rejeição ou um fracasso, mas uma ordem duradoura que precede qualquer encontro particular. E as respostas diferem: onde as ameaças à coerência convidam às táticas individuais de enfrentamento que Petriglieri cataloga, o desreconhecimento convida a fazer-se passar por outro, à mímica, à contestação coletiva ou ao recolhimento em espaços de contrarreconhecimento. Essa última diferença é testável: as respostas ao desreconhecimento deveriam ser mais frequentemente coletivas do que as respostas às ameaças à coerência, porque a lesão é compartilhada por uma categoria de pessoas, e não sofrida por uma só.

O jogo identitário é o terceiro conceito ressignificado. No Norte, ele descreve a experimentação de identidades possíveis, um exercício em geral disponível a sujeitos com recursos e segurança (Ibarra & Petriglieri, 2010). Sob dominação, esse jogo assume outra forma. Fazer-se passar por outro, imitar o colonizador, habitar uma identidade dupla; tudo isso deixa de ser experimentação livre e torna-se uma tática de sobrevivência e, por vezes, de resistência. O conceito de mímica capta esse jogo ambíguo, no qual imitar a norma pode tanto conformar quanto subverter (Bhabha, 1994). Jimenez-Luque (2021) descreve como um grupo subalterno usa sua própria identidade como recurso para desafiar a ordem dominante.

As linhas de pesquisa deste eixo decorrem das definições. A primeira usaria o teste empírico acima nas cadeias globais de valor: comparar, na mesma empresa, equipes que atendem clientes do Norte com equipes que atendem clientes domésticos ou do Sul, mantendo o empregador constante, de modo que o que varia é o referente colonial. Os materiais da regulação (currículos de treinamento de sotaque, guias de estilo de clientes, políticas de nomes e formulários de controle de qualidade) são documentos e podem ser coletados; call centers na Índia e nas Filipinas, equipes de software offshore na América Latina que atendem clientes norte-americanos e empresas globais de serviços profissionais (Boussebaa & Brown, 2017) são campos empíricos interessantes para essa linha de pesquisa. A segunda trataria a mímica como uma variável, e não como um tema, perguntando sob quais condições a imitação da norma do Norte conforma e sob quais ela subverte. Condições candidatas são o público (o cliente no Norte ante pares no Sul), o que está em jogo no fracasso, a presença de respaldo coletivo e o grau de exagero, já que a paródia começa onde termina a imitação fiel (Bhabha, 1994). Acompanhar longitudinalmente os trabalhadores à medida que dominam a norma mostraria se o próprio domínio abre espaço para a ironia. Por fim, a terceira estudaria as disputas em torno da autenticidade nas quais os critérios são estabelecidos por outros: a certificação estatal da indigeneidade, os selos de comércio justo e artesanais, o turismo étnico e os programas de empreendedorismo que exigem dos candidatos a prova de que são autenticamente indígenas (Marques et al., 2026). Os critérios de certificação, os processos de candidatura e os recursos fornecem um rastro documental no qual a ameaça de desreconhecimento pode ser observada operando por meio de instrumentos burocráticos, em vez de inferida de relatos retrospectivos.

PLURIVERSALIDADE: CONHECIMENTO SITUADO E NOVOS CONCEITOS

O terceiro eixo redefine a própria teoria da identidade. Se o vocabulário do campo é situado, então nenhuma de suas categorias é a última palavra, e outras podem ser necessárias. Reconhecer a pluralidade de concepções de pessoa é aceitar que faltam conceitos. Faltam, por exemplo, categorias para a identidade constituída no desreconhecimento, para a identidade coletiva e ancestral, e para a experiência de quem se move entre mundos com diferentes concepções do self. Lee (2023) descreve sua própria trajetória por cinco lugares, do norte da Europa ao sudeste asiático e ao Cazaquistão, e mostra como a identidade de quem se move entre mundos não cabe nas categorias fixas que tanto o Norte quanto certa crítica decolonial oferecem.

Para essa última experiência, também, pode-se propor um conceito. Chamaríamos de tradução identitária (identity translation) o trabalho de carregar um self através de concepções de pessoa que não se correspondem umas às outras. Ela difere do hibridismo da teoria pós-colonial porque seu objeto não é uma identidade mista, mas o trabalho contínuo de conversão, feito por pessoas que precisam ser uma pessoa relacional em um mundo e um indivíduo delimitado em outro, muitas vezes durante o mesmo dia de trabalho. O pensamento fronteiriço há muito descreve essa posição (Anzaldúa, 1987; Mignolo, 2000); o que falta é sua tradução em um conceito que a literatura das identidades possa utilizar. Trabalhadores migrantes que retornam a obrigações comunitárias em casa enquanto são auditados como indivíduos no exterior, e gestores indígenas que transitam entre a assembleia e a sala de reuniões, são seus sujeitos naturais.

O eixo também especifica como novos conceitos devem ser construídos e julgados. O procedimento importa tanto quanto o resultado. Um caminho é partir de termos em línguas do Sul que não têm equivalente em inglês (o próprio ubuntu sendo a prova de que tais termos carregam teoria) e mantê-los sem tradução enquanto seu sentido é construído a partir de casos, em vez de introduzi-los como ilustrações locais de construtos do Norte. Outro é a autoria compartilhada: se os conceitos são construídos de acordo com as autocompreensões das comunidades, as comunidades são coautoras do conceito, e não informantes dele (Smith, 2012). O julgamento deve mudar em conformidade. Um conceito do Sul deveria ser avaliado por saber se aqueles que ele descreve se reconhecem nele e por quais novas questões ele torna visíveis, e não por quão bem converge com os construtos do Norte (Barros & Alcadipani, 2023).

Duas linhas de pesquisa se seguem. A primeira documentaria, em organizações do Sul, experiências identitárias que hoje só podem ser descritas por analogia com conceitos do Norte, seguindo o procedimento acima, a fim de propor conceitos próprios. A segunda examinaria a tradução que o próprio campo impõe: comparar os manuscritos que autores do Sul submetem com as versões que os periódicos do Norte publicam e entrevistar esses autores sobre o que cortaram mostraria concretamente o que se perde quando questões do Sul são reescritas no vocabulário dominante (Barros & Alcadipani, 2023; Ibarra-Colado, 2006). Este eixo, assim, ressignifica a questão de quem produz teoria: desenvolver conceitos a partir do Sul não é apenas estudar novos contextos, mas admitir outros lugares de teorização (Alcadipani et al., 2012).

Reunindo os eixos, o campo pode precisar de ao menos quatro conceitos que ainda não possui. O trabalho de pessoalidade, para o processo pelo qual um coletivo confere, sustenta e retira a condição de ser pessoa. A regulação identitária colonial, para o controle sobre o self cuja norma se origina fora da organização e trafega por raça, língua e nacionalidade. A ameaça de desreconhecimento, para a experiência de ter a própria condição de pessoa plena, e não a coerência do próprio self, posta em dúvida. E a tradução identitária, para o trabalho de mover um self entre concepções incomensuráveis de pessoa. Nenhum deles substitui os conceitos existentes. Cada um cobre um fenômeno que o vocabulário atual descreve apenas por tradução, e com perda. Desenvolvê-los é uma tarefa tanto empírica quanto teórica e depende de estudos realizados a partir do Sul, com as pessoas do Sul, e não apenas sobre elas.

REFLEXIVIDADE E ÉTICA NA PESQUISA

A agenda proposta também muda a posição do pesquisador. A perspectiva do trabalho identitário reconhece que as identidades são construídas no interior de relações de poder, mas lida menos com as relações de poder que atravessam a própria pesquisa. Estudar identidades no Sul a partir de instituições do Norte traz o risco de usar esses contextos meramente como fonte de dados, sem retorno para as pessoas estudadas (Bothello & Bonfim, 2023), e o risco de representar de forma equivocada comunidades marginalizadas (Chowdhury, 2023).

Reduzir esses riscos exige algumas escolhas. Vale tornar explícita a posição por meio da qual o pesquisador observa, incluindo sua formação e as categorias que utiliza, o que ajuda a separar o que pertence aos participantes do que pertence ao pesquisador. Vale estabelecer formas de colaboração e coautoria com pesquisadores e atores do Sul. E vale adotar uma reflexividade que examine até mesmo a branquitude e os pressupostos de quem realiza a pesquisa (Allen & Girei, 2024). Ao mesmo tempo, é preciso evitar idealizar o Sul, pois tratar suas tradições como puras ou superiores é outra maneira de não as levar a sério (Lee, 2023).

CONCLUSÃO

Este artigo examinou o vocabulário com que os estudos organizacionais e de gestão descrevem as identidades e argumentou que ele não é neutro nem universal. As quatro revisões que consolidaram o campo oferecem perspectivas e conceitos valiosos, mas que repousam sobre uma epistemologia e uma ontologia do Norte, cujo ponto de partida é o indivíduo delimitado, dono de uma vida interior que trabalha sobre o self.

Recorrendo à colonialidade do ser e a concepções de pessoa oriundas do Sul, o artigo releu esse vocabulário por meio de três eixos. A relacionalidade ressignifica a identidade e o trabalho identitário, deslocando a unidade do indivíduo para a comunidade que faz as pessoas. A colonialidade ressignifica a regulação, a autenticidade, a ameaça e o jogo identitário, mostrando que são, antes de tudo, questões de poder, língua e reconhecimento. A pluriversalidade, por fim, ressignifica a própria teoria da identidade e abre espaço para conceitos que ainda faltam.

A impressão que o artigo busca deixar é fácil de enunciar. Conceitos como trabalho identitário, regulação identitária, jogo identitário e ameaça identitária não descrevem a pessoa em geral, mas uma pessoa particular: a do Norte. Perspectivas do Sul, como o ubuntu, a conscientização, o buen vivir e a crítica decolonial, não oferecem apenas novos contextos de aplicação: elas redefinem esses conceitos e sugerem que outros ainda precisam ser criados. Reconhecer isso não enfraquece o campo. Torna-o capaz de descrever mais pessoas.

Referências bibliográficas

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    Trata-se de ensaio teórico, que não gerou nem analisou dados empíricos. Não há, portanto, conjuntos de dados associados a este artigo a serem disponibilizados. Todas as fontes utilizadas são obras publicadas, integralmente identificadas nas referências.
  • USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    Os autores declaram que ferramentas de inteligência artificial generativa foram utilizadas exclusivamente como apoio à tradução do manuscrito do português para o inglês. Todo o conteúdo intelectual, incluindo o problema de pesquisa, o argumento, o quadro teórico, a análise e as conclusões, foi concebido e redigido pelos autores. O texto traduzido foi integralmente revisado, editado e validado pelos autores, que assumem plena responsabilidade por sua precisão, seu conteúdo e sua forma final. A inteligência artificial não foi utilizada na concepção do estudo, na revisão da literatura, na produção do argumento nem na geração de referências.

Editado por

  • EDITOR-CHEFE
    Hélio Arthur Reis Irigaray, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
  • EDITOR ASSOCIADO
    Fabricio Stocker, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127

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Trata-se de ensaio teórico, que não gerou nem analisou dados empíricos. Não há, portanto, conjuntos de dados associados a este artigo a serem disponibilizados. Todas as fontes utilizadas são obras publicadas, integralmente identificadas nas referências.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Jun 2026
  • Aceito
    27 Jul 2026
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