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Open-access Dinâmica da identidade organizacional em um quilombo urbano no Sul Global: memória, esquecimento, silêncio

Resumo

Este artigo analisa a dinâmica da identidade organizacional em um quilombo urbano no Sul Global. Indo além das perspectivas hegemônicas, examinamos o quilombo sob uma lente organizacional, incorporando a identidade por meio de uma abordagem narrativa fundamentada na contação de histórias. Isso foi possível graças a um estudo qualitativo baseado nas histórias de vida de mulheres idosas residentes em um quilombo urbano em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Os principais resultados revelam a dinâmica da identidade organizacional em três processos inter-relacionados: memória (construção de identidade), esquecimento (disputas organizacionais) e silêncio (em relação ao futuro organizacional), expondo uma lógica subjacente de violência e racismo. A questão persistente permanece: quem se beneficia de uma cidade moldada pelo apagamento daqueles que estão fora de seus paradigmas de planejamento urbano?

Palavras-chave:
identidade organizacional; memória; quilombo urbano; Sul Global

Abstract

This article analyzes the dynamics of organizational identity in an urban quilombo in the Global South. Moving beyond hegemonic perspectives, we examine the quilombo through an organizational lens, incorporating identity via a narrative approach grounded in storytelling. This was achieved through a qualitative study based on the life histories of older women residing in an urban quilombo in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil. The main findings reveal organizational identity dynamics operating across three interrelated processes: memory (identity construction), forgetting (organizational disputes), and silence (regarding the organizational future), exposing an underlying logic of violence and racism. The enduring question remains: who benefits from a city shaped by the erasure of those who fall outside its urban planning paradigms?

Keywords:
organizational identity; memory; urban quilombo; Global South

Resumen

Este artículo analiza la dinámica de la identidad organizacional en un quilombo urbano del Sur Global. Más allá de las perspectivas hegemónicas, examinamos el quilombo desde una lente organizacional, incorporando la identidad mediante un enfoque narrativo basado en el relato de historias (storytelling). Esto fue posible gracias a un estudio cualitativo basado en las historias de vida de mujeres mayores residentes en un quilombo urbano en Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Los principales resultados revelan la dinámica de la identidad organizacional en tres procesos interrelacionados: la memoria (construcción de la identidad), el olvido (disputas organizacionales) y el silencio (en relación con el futuro organizacional), poniendo de manifiesto una lógica subyacente de violencia y racismo. La pregunta persistente sigue siendo: ¿quién se beneficia de una ciudad moldeada por el borrado de quienes quedan fuera de sus paradigmas de planificación urbana?

Palabras clave:
identidad organizacional; memoria; quilombo urbano; Sur Global

PESQUISAR NO SUL GLOBAL, UM PONTO DE PARTIDA

O objetivo este artigo foi analisar a dinâmica da identidade organizacional em um quilombo urbano no sul global. A expressão “sul global” é um termo complexo, e que carrega grandes tensões e contradições, tal como as regiões que costuma designar. Tem sido criticada pela sua excessiva abrangência ao designar o que não faz parte do “norte global”, ainda que este mesmo norte esteja impregnado do “sul global”, e vice-versa. Em linhas gerais, diz respeito a uma possível “nova cartografia (em vez de simplesmente um termo mais palatável para o ‘terceiro mundo’), [indicando] uma crítica à elite econômica neoliberal e sua gestão do globo de acordo com um paradigma desenvolvimentista”1 (Dawson & Edwards, 2004, p. 1). Este termo marca uma espécie de identidade política subalterna (Ballestrin, 2020), na qual o “Norte”, por se apresentar como rico, organizado, homogêneo, exemplifica, disciplina e prescreve o caminho do necessário desenvolvimento para o pobre, caótico e heterogêneo “sul” (Srinivas, 2018).

Para além das evidências da subalternização e da manutenção da colonialidade, o termo “sul global” traz alguns pontos que interessam à discussão proposta neste artigo. Em primeiro lugar, precisa ser destacada a questão da periferização associada ao termo, em que os “outros” da modernidade colonial (Al-Hardan, 2022) são “os do Sul”. Pelas ausências - de recursos, de infraestrutura, de civilização, enfim - o sul global é unilateralmente responsabilizado pela sua precariedade generalizada, como se ele não ocupasse um lugar no atual sistema de produção capitalista (Canettieri, 2021). A segunda questão é que, apesar da menção geográfica, o termo traz uma perspectiva sem comando central, escala ou forma definida, podendo dele fazer parte grande variedades de instituições, movimentos, atores e discursos (Ballestrin, 2020), implicando, portanto, diferenças e polifonias interessantes para tratar da questão da identidade. Por fim, como “o Norte está no Sul” tanto quanto “o Sul está no Norte” (Trefzer et al., 2014), polarizações binárias não fazem sentido em um contexto de franca complexidade. Diferenças raciais e étnicas, fluxos migratórios, percursos históricos distintos, entre outros fatores, tornam a binariedade analítica sem sentido, ainda que não possam ser ignoradas as tensões das assimetrias presentes.

Pelos pontos brevemente apresentados a respeito do sul global, que incluem a heterogeneidade, o dinamismo, a complexificação em função das diferenças e a simultaneidade da coexistência social, as cidades se apresentam como uma possibilidade potente de análise organizacional para a discussão da identidade. Como se trata de um “ponto de interseção de diferentes escalas locais, nacionais e transnacionais... Um sistema multidimensional de atores articulados pelo cotidiano, hierarquizado pelo poder que detém (ou pode vir a deter), vivendo em tempos e espaços comuns” (Fischer, 1997, p. 75), a cidade é e representa muitas coisas ao mesmo tempo, o que não tem passado despercebido pelo campo da Administração. De um lado há uma perspectiva funcional que procura na cidade possibilidades de gestão, o que tem sido objeto tanto da administração pública quanto de vários campos especializados da administração de empresas, como a logística, por exemplo. De outro, que nos interessa aqui, existe um prisma não instrumental de teorização e análise organizacional, associado à compreensão de que a cidade é o seu povo (Saraiva & Carrieri, 2012).

Assumimos neste texto uma perspectiva organizacional não funcionalista, o que implica entendermos não serem os resultados que definem uma organização. Outras perspectivas são possíveis, portanto, com outros referenciais de identificação e de pertencimento organizacional para além da grande empresa capitalista industrial. Nesse sentido, o trabalho, além de ter um vínculo instrumental para os membros de uma organização, pode incorporar outras características, como, por exemplo, ser um componente do pertencimento organizacional. Por exemplo, se a organização eventualmente mantém relações econômicas não significativas com outras organizações, a subsistência - que se afasta da noção de ocupação remunerada tão comum no management - assume feições identitárias (Silva & Saraiva, 2020). Esta posição permite que se trate de outras possibilidades de organização, de sujeitos e de identidades, como o caso que analisaremos, um quilombo que foi “desidentificado” pelo crescimento da cidade de Belo Horizonte2.

Além desta breve introdução, apresentaremos nossas escolhas metodológicas sobre como o estudo foi produzido, o que precede duas seções. Na primeira discorreremos sobre a questão das identidades partindo da discussão empresarial e transcendendo-a para incorporar outras possibilidades organizacionais de análise. Em seguida trataremos da dinâmica da identidade organizacional em um quilombo urbano explorando, do ponto de vista do storytelling, as possibilidades identitários ligadas à memória, ao esquecimento e ao silêncio. Esta seção precede a seção de discussão e considerações finais do estudo.

ESCOLHAS METODOLÓGICAS

Este estudo se situa na confluência entre estudos urbanos e estudos organizacionais, o que só é possível quando a cidade não é tomada como pano de fundo: é um agente ativo que desempenha um papel decisivo no fenômeno e, por isso, escapa a um aspecto meramente ilustrativo ou geográfico. Interessa a este estudo que ela seja compreendida como algo constituído por e para pessoas, de maneira a identificar relações mais profundas, motivo pelo qual uma abordagem qualitativa foi empregada. A profundidade analítica é imprescindível neste caso porque foi eleita para o estudo uma organização alternativa, complexa em vários níveis de aproximação: um quilombo urbano, baseado em relações raciais, vínculos afetivos, e memória.

Como não acreditamos em uma ciência objetiva, levada a cabo de forma asséptica por pesquisadores neutros e interessados apenas em como os fatos se apresentam de forma imediata, assumimos uma posição política de engajamento na luta contra as desigualdades. Com isso queremos dizer que este estudo é crítico na concepção, na teorização, de método, de produção e análise de dados. Não nos bastava, assim, escolher uma organização qualquer, enquadrá-la em lentes predefinidas e apenas acrescentar observações a um constructo organizacional que tratasse a heterogeneidade como exceção. Assumirmos uma posição de ciência engajada nos leva a rejeitar alguns elementos que têm sido intelectual e culturalmente naturalizados, como que a civilização passou a existir quando passou a haver registros escritos, uma visão de hierarquiza os povos do mundo a partir de uma perspectiva grafocêntrica que diz que história se refere apenas ao que pode ser registrado e lido. Para estudar uma organização de matriz africana, é a tradição fonocêntrica que conta e, por isso, contrariando o mainstream, nesse estudo assumimos que memória é história para povos de tradição oral, que contam o seu passado para reverenciar os ancestrais e para criar nexos de sentido entre ontem, hoje e amanhã.

Este trabalho foi construído sob uma ótica pós-estruturalista, adequada quando o que está em jogo é a fluidez, o dinamismo, e a disputa (de discursos, de sentidos, de histórias) fragmentação (de afetos, de vínculos parentais, de posses) no quilombo estudado. Esta perspectiva é adequada para tratar de uma organização que, embora apresente uma espécie de essência na sua denominação original, por ter sido “engolfada” pela urbanidade, foi desidentificada, o que se demonstra tanto no nível organizacional, pelo adjetivo “urbano”, quanto no nível profissional, pois seus membros, que trabalhavam com agricultura de subsistência, passaram a ter trabalhos subalternizados na cidade (Silva & Saraiva, 2020).

Ressalte-se que não tratamos 'comunidade' e 'organização' como sinônimos. O Quilombo Luizes é, antes de tudo, uma comunidade tradicional, constituída por laços territoriais, afetivos, de parentesco e de resistência histórica. Nosso argumento é que essa comunidade também pode ser analisada como organização, não por possuir uma estrutura formal ou hierarquia nos moldes empresariais, mas porque nela identificamos processos organizacionais expressos nas formas recorrentes e minimamente coordenadas de tomar decisões, lidar com conflitos internos e externos, preservar conhecimentos, distribuir recursos escassos como o próprio território e responder coletivamente a ameaças. Tal raciocínio está presente em Saraiva (2023) ao explorar a vida social organizada em um aplicativo de relacionamento e Crawford e Branch (2015), ao ressaltarem os interesses como elemento marcador organizativo em uma comunidade rural. Portanto, ao longo do texto, utilizaremos os termos 'comunidade' ou 'quilombo' para nos referirmos ao grupo em sua totalidade sociocultural, e o termo 'organização' ou 'dinâmica organizacional' para destacar esses aspectos processuais e relacionais que permitem uma leitura a partir dos Estudos Organizacionais.

A pesquisa apresentou diversos desafios ligados à concepção e execução de um estudo histórico orientado pela memória. O primeiro deles foi como tratar o quilombo. Uma organização deste tipo, produzida no e pelo racismo e composta por um grupo vulnerável, tensionou eticamente todo o estudo ao evidenciar, nosso compromisso simultâneo com a ciência, e os impactos sociais da produção de verdades para além dos muros da universidade. Boyer (2015) acredita que grande parte das pesquisas realizadas sobre o tema são de pesquisadores sensíveis à causa quilombola e que, em geral, produzem trabalhos em que tais comunidades são metanarrativas de um grupo minoritário oprimido por grupos externos, uma concepção reducionista ao homogeneizar os quilombos e não tratar dos seus conflitos internos. Todavia, tratar destes conflitos em um contexto de disputa com a cidade à sua volta é uma questão ética delicada. Se apresentada sem cuidado, uma análise crítica e comprometida com a verdade da ciência, como a que fazemos, pode ajudar a enfraquecer a organização em termos sociais e políticos. Por outro lado, se nos restringirmos a uma análise romantizada do quilombo, perdemos a honestidade acadêmica pelo compromisso político com a causa (Furtado & Saraiva, 2024).

O segundo desafio foi de ordem metodológica, tendo sido o nosso caminho uma pesquisa histórica, adequada por se tratar de uma organização que, em si, remete à ancestralidade. Já que toda história um dia foi palavra (Thompson, 1992), e com a tradição fonocêntrica, com a qual lidamos ao tratar de organizações de matriz africana, nosso caminho não poderia ser outro que não o da história oral. Foi por meio dela que acessamos as memórias de duas pessoas do quilombo e pudemos analisar a dinâmica da identidade de uma organização localizada em uma cidade do sul global. Alinhado às concepções da École des Annales (Burke, 1991), este estudo se assenta sobre a possibilidade histórica de construção discursiva de memórias de membros do Quilombo Luizes3. A história oral foi associada à história de vida, uma vez que a invocação de memórias foi feita a partir de inúmeros encontros com as entrevistadas, sem um roteiro definido de entrevista, embora quatro aspectos tenham servido de pontos de partida: infância, trabalho, comunidade e sociedade. Quando aconteceram, as interrupções com perguntas foram mínimas, somente em casos de expressões, locais ou informações desconhecidas ou que pareciam importantes. Como não nos baseamos em um roteiro, os relatos não foram limitados a qualquer esquema pré-estabelecido, tendo sido conduzidos pela memória das entrevistadas, não se localizando necessariamente no passado, e tampouco associados a uma linha cronológica. Os encontros nos quais as memórias foram relatadas resultaram em quase 22 horas de material gravado e depois transcrito na íntegra.

Bosi (2016) nos forneceu elementos para a sustentação metodológica da escolha das entrevistadas. O repertório acumulado pela experiência, em especial em uma organização pautada pela ancestralidade e pelo respeito aos mais velhos, habilita as entrevistadas para o compartilhamento de informações sobre o passado ressignificadas à luz de processos vivenciados no presente. Essas senhoras, cujos nomes fictícios são Francisca e Zilda Luizes, são referências políticas e culturais e que se autodenominam matriarcas, nasceram na comunidade, e por isso apresentam relatos entrelaçados a esse local. O acesso a elas só foi possível após uma longa negociação com outros quilombolas, o que aconteceu não apenas pelo estado de alerta que as pessoas da comunidade vivem em função de possíveis invasores e que representam uma ameaça direta, mas em especial pelo desgaste na relação com acadêmicos que realizaram pesquisas sem qualquer tipo de retorno para os entrevistados. Isso nos motivou a pensar na integração entre ensino, pesquisa e extensão como uma forma responsável de fazer ciência, tendo sido definidas atividades de intervenção no quilombo, como oficinas tratando de saúde bucal, geração de renda, finanças pessoais e elaboração de projetos culturais voltados para a comunidade. A pesquisa foi conduzida paralela à extensão e resultou na oferta de uma disciplina no bacharelado em administração da universidade, ocasião em que pudemos ensinar aos estudantes o que aprendemos no processo.

O material coletado foi tratado por meio da Análise Crítica do Discurso (ACD), que assume a heterogeneidade social, o que demanda um “modelo de influências multicausais entre diferentes grupos de pessoas” (Wodak, 2001, p. 63). Sendo o discurso permeado por poder e dominação, interessa à ACD a zona de possibilidades localizada entre os interesses de pesquisa e o compromisso político entendidos como ciência crítica. Já que a proposta de Wodak (2001) é uma abordagem histórico-discursiva, é impossível trabalhar os dados sem referências históricas. Uma observação metodológica final deve ser apresentada. Como o volume de dados foi expressivo, produzido em meio a um longo fluxo de memórias e associações por parte das entrevistadas, e como temos limitações de espaço, foi impossível apresentar trechos dos longos depoimentos sem mutilar a lógica de história de vida produzida pelas anciãs. Por conta disso, optamos por não apresentar os trechos das entrevistas, preferindo trazer a memória na narrativa (Linde, 2015), uma opção de recuperar a memória por meio do storytelling (Langer, 2016), o que só é possível com uma análise densa e extremamente aderente às entrevistas, como poderá ser visto mais adiante.

Ainda no campo da trilha metodológica, é válido destacar os desafios analíticos envolvidos na identificação de processos organizacionais em uma comunidade tradicional. Analisar o Quilombo Luizes sob a ótica organizacional exigiu um deslocamento analítico específico. Não se tratava de buscar análogos de funções empresariais (estratégia, marketing, finanças), mas de rastrear, nas narrativas das anciãs, indícios de processos organizacionais latentes. Assim, investigamos: (a) formas de coordenação e decisão (como a comunidade historicamente decidiu sobre a permuta de terras com a mineradora? Como lida hoje com invasões e aluguéis? Há instâncias coletivas?); (b) economia moral e recursos (a agricultura de subsistência, as indenizações, os aluguéis; como esses fluxos materiais afetam a coesão e os conflitos internos?); (c) aprendizagem e memória coletiva (como as histórias de luta e violência são transmitidas às novas gerações e como isso influencia a disposição para agir?); (d) conflitos e divergências (a venda de terras por alguns membros, o aluguel para não-quilombolas, a heterogeneidade crescente - como esses elementos tensionam o "nós" organizacional?). Memória, esquecimento e silêncio, como veremos, não são apenas temas identitários: são os próprios mecanismos pelos quais essa organização preserva ou erosiona sua capacidade de ação coletiva.

IDENTIDADES PARA ALÉM DA GRANDE EMPRESA CAPITALISTA INDUSTRIAL

A partir da década de 1930, quando o fordismo começou a dar os primeiros sinais de desgaste, ao mesmo tempo em que ascendiam os estudos da psicologia aplicados ao ambiente de trabalho, muitos foram os caminhos pelos quais se procurou entender (e otimizar) as pessoas no ambiente profissional. Uma dessas vias, a identidade, se valeu de reflexões ontológicas sobre quem somos, uma questão tratada deste o Século V na Grécia, tendo recebido muitas contribuições da Psicologia e da Sociologia em momentos posteriores, até adentrar no campo da Administração como identidade organizacional e, posteriormente, receber alcunhas mais específicas, como identidade profissional ou identidade do trabalho. De elemento representacional a respeito de quem se é a uma representação de si, mas ao mesmo tempo em relação ao outro, passou a apresentar tensões devido a caracterizar uma ordem empresarial, privada, uma vez que se presta a leituras interessadas - e instrumentalizadas - de processos identitários (Moran, 2014).

Os momentos iniciais de discussão da identidade nas organizações são tributários de uma forma hegemônica de compreensão da organização como sinônimo de empresa e, mais do que isso, de grande empresa capitalista industrial. Não surpreende então que as primeiras concepções de identidade fossem comprometidas com a busca de categorizações, estruturas e padrões que deveriam ser compreendidos para fazer do conhecimento da identidade mais uma ferramenta de desempenho no contexto empresarial (Albert & Whetten, 1985). Parte disso se deve a uma concepção - equivocada, mas não inteiramente superada - do início do Século XX de que as pessoas correspondem, de forma plena, aos papéis formais que lhes cabem nas organizações, e que seus cargos e funções são suficientes para sua plena adesão racional e harmônica aos objetivos da organização. Não haveria conflitos relevantes entre objetivos individuais e organizacionais porque trabalhadores e empregados possuiriam os mesmos objetivos: a prosperidade do negócio. Esta ideia, contida nos escritos de Taylor (1999) [1908] e Fayol (1989) [1910], ignora não apenas as possibilidades de racionalidade para além da perspectiva econômica, mas, em especial que os conflitos não são disfunções, mas elementos constitutivos das pessoas, organizações e sociedades.

A cultural turn ampliou esta perspectiva, incorporando elementos simbólicos na discussão, e fazendo com que aspectos antes não discutidos, como a cultura da organização e a identidade - nos níveis da organização, da profissão e do trabalho - emergissem como explicações para fenômenos da época, como a ascensão industrial japonesa e o respectivo enfraquecimento da indústria estadunidense. No que tange à identidade, ela passou a ser associada à diversidade. Autores como Nkomo e Cox (1996) argumentam que estas definições oscilaram entre duas categorias: “a) as restritas, com ênfase na raça, etnia e gênero; e b) as amplas, que incluem aspectos como história, formação educacional, estilo de vida, origem demográfica” (Saraiva et al., 1999, p. 17). Neste momento já se considerava que as organizações eram compostas por pessoas diferentes, com identidades distintas, e esta associação à diversidade era uma espécie de reconhecimento das diferenças. Todavia, o reconhecimento identitário no contexto de uma organização empresarial, de uma categoria profissional, ou do trabalho não escapava da submissão à lógica da empresa, não se tratando de aspectos plenamente voltados às identidades e suas singularidades (Côté, 1996). Esta questão é tanto mais evidente quanto mais funcionalista for a discussão e quanto mais ela se aproxima do espectro empresarial.

Quando consideramos perspectivas além do quadro corporativo (Carrieri et al., 2010), encontramos possibilidades mais amplas para abordar a questão da identidade, partindo da premissa de que estamos lidando com identidades na organização e não da organização, a fim de evitar reificações, conforme discutido por Kopaneva e Cheney (2019) e Rodgers et al. (2015). Trata-se de identidades no plural porque, dentro de epistemologias não positivistas, como o pós-estruturalismo que sustenta este artigo —, a identidade é inerentemente fragmentada, fluida e moldada por influências múltiplas e simultâneas. Assim, ela é concebida como plural, relacional e singular, em constante fluxo, escapando, portanto, a estruturas essencialistas enraizadas em certezas e regularidades fixas (Holmer-Nadesan, 1996). Dado que as organizações não empresariais podem basear-se em formas alternativas de associação, práticas ou elementos estruturais, torna-se plausível considerar que as bases para a identificação individual operam em um registro diferente - e que a narrativa pode servir como um quadro suficientemente rico e abrangente (Brown & Humphreys, 2002) para dar conta da complexidade desse fenômeno organizacional. Esse caminho só é possível se a organização for abordada sob um ângulo diferente, no qual a esfera social seja mais importante do que a esfera econômica. São os grupos, e as maneiras como se organizam de acordo com suas necessidades, que definem a estrutura organizacional. Consideramos o conceito de vida social organizada mais adequado para o estudo: “A vida social organizada refere-se à forma como diferentes grupos sociais colocam em prática a organização de suas múltiplas formas de existência na sociedade” (Saraiva, 2020, p. 13).

O autor prossegue afirmando que, mesmo que encontremos formas de existência “sem propósitos definidos, sem recursos específicos, sem atribuições precisas, sem pessoas sendo lideradas e sem monitoramento, elas ainda contêm concepções tácitas de organização e práticas organizacionais em ação em meio às dinâmicas sociais” (Saraiva, 2020, p. 14). Como os quilombos urbanos descendem de uma resistência concreta que não foi prevista pela sociedade que escravizou homens e mulheres sequestrados da África, os modelos ocidentais hegemônicos prescrevem estruturas inadequadas nesses contextos (Rosa, 2025; Schmitt et al., 2002). Para estudar um quilombo urbano, assim como outras organizações de origem africana, é preciso considerar outra lógica e, portanto, empregar outro conceito de organização e inseri-lo em outra dinâmica de pesquisa.

A DINÂMICA DA IDENTIDADE ORGANIZACIONAL EM UM QUILOMBO URBANO

Como mencionado, os quilombos não podem ser definidos da mesma forma que outras organizações, pois surgiram de uma circunstância excepcional: a resistência. Durante o período colonial, eles representavam a resistência dos ex-escravos à situação em que se encontravam após terem sido sequestrados. Embora exercessem atividades econômicas, em sua maioria ligadas à subsistência, “foi no final do século XIX que o quilombo assumiu o significado de um instrumento ideológico contra as formas de opressão” (Nascimento, 2006 [1978], p. 122). Isso permitiu que o termo adquirisse, ao longo do tempo, um significado ideológico, com muitas possibilidades de atualização, incluindo esta, que abordará esse fenômeno do ponto de vista teórico:

O quilombo, como categoria histórica, tem um significado relevante, situado no tempo, e é atualmente objeto de reinterpretação jurídica quando utilizado para legitimar reivindicações de território ancestral pelos chamados remanescentes de quilombos. O termo foi revivido na década de 1980 como resultado de mobilizações de grupos rurais, do movimento negro e de entidades que apoiavam as lutas do movimento jurídico pelas terras de antiga ocupação. No cerne da questão estão as questões das chamadas terras negras ou terras quilombolas, associadas a um forte senso de pertencimento à história de um grupo identificado com o território (Acevedo & Castro, 1998, p. 9).

O processo de rápida urbanização na América Latina desde a década de 1960 pode explicar, em parte, por que a questão rural destacada no conceito perdeu força. Os quilombos, que eram rurais, foram cercados por uma cidade que os transformou em “periferias”, um processo de apagamento da historicidade transmitida pela história oral, reduzindo-a a um apêndice menos importante da “verdadeira” história, escrita (pelos brancos). A questão da identidade surge, assim, como uma discussão central para a compreensão da dinâmica dessa organização.

Pollak (1989), no seminal artigo “Memória, esquecimento, silêncio” pavimenta o caminho para esta seção, que examina a identidade de uma organização dita alternativa em diálogo com a teoria e os dados produzidos em campo. No primeiro movimento da dinâmica da identidade de uma organização, a memória é central para a constituição da identidade organizacional, uma vez que assenta em um contínuo que busca alguma forma de coerência como elemento fundador que alude a uma referência comum (Zundel, Holt & Popp, 2016). As entrevistadas remetem o Quilombo Luizes originalmente a dois casais portugueses e sete famílias de pessoas escravizadas que fundaram uma fazenda, dirigida por Anna Apolinário Lopes, ex-escravizada e que casara com um dos portugueses, Manoel Luiz, em uma área que hoje está localizada em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte. Com a abolição da escravatura, os ex-escravizados passaram a dividir um terreno na mesma região, originando o Quilombo das Piteiras.

Em 1930, a mineradora Morro Velho ofereceu à comunidade a troca da área ocupada por eles, rica em minério de ferro, por outras terras adquiridas pela empresa e que não continham minério. A comunidade, que possui o registro da permuta realizada com a empresa, vendeu parte das novas terras e o recurso foi utilizado para adquirir novas propriedades. Além dessa negociação, obteve recursos para aquisições por meio de compensações por trabalho e herança recebidas, como as propriedades de Manoel Luiz. As três filhas de Anna, Maria Luiza, Aurora e Eulália uniram-se aos três filhos de Nicolau Nunes Moreira e Felicíssima Angélica de Jesus, Vitalino, Francisco e Quirino. Maria Luiza e Vitalino são considerados os fundadores da comunidade no bairro Grajaú, tendo recebido uma parte da Fazenda Calafate com 6.050m2, área adquirida do pai de Vitalino. A comunidade possui registros de sua fixação no Bairro Grajaú desde 1865, precedência fundação de Belo Horizonte, em 1897.

Na fazenda, a comunidade em formação desenvolveu um modo de vida muito próximo do estabelecido em Piteiras, inclusive com o plantio das pitas4 irrigadas com águas do córrego piteiras, um afluente do Rio Arrudas, localizado na zona oeste de Belo Horizonte. Havia uma mina de água que também abastecia a comunidade. Além da pita, a comunidade produzia alimentos, usados em parte para a própria alimentação e outra destinada à comercialização na região. O crescimento urbano alcançou o bairro Grajaú entre as décadas de 1930 e 1940, com o asfaltamento e transporte público, na época era feito por bondes. Na década de 1970, o córrego Piteiras foi drenado, dando lugar à Avenida Silva Lobo, um dos resultados do movimento sanitarista que promoveu diversas mudanças em Belo Horizonte, visando adequar a cidade ao seu crescimento vertiginoso. A criação da avenida colocou fim ao relativo isolamento espacial da comunidade na área urbana, e deu início a um intenso processo de diversificação, complexificação e verticalização da infraestrutura da região. O avanço urbano significou um processo de desidentificação para estes quilombolas. Sendo a existência da comunidade anterior à formação do bairro Grajaú, as famílias que ali viviam acompanharam drásticas e rápidas mudanças, principalmente após 1970. À medida que o bairro se desenvolvia, a comunidade encolhia em termos de área ocupada. E o encolhimento não era apenas espacial: historicamente agrícola, o grupo se via cada vez mais cercado por um ambiente urbano, que exercia pressões variadas sobre o modo de viver do quilombo. O modo de vida rural da comunidade estava, portanto, ameaçado.

A região em que a comunidade se localiza aos poucos atraiu pessoas de elevado poder aquisitivo, visível pelos empreendimentos imobiliários de luxo no local. A canalização do córrego e a construção da Avenida Silva Lobo implicaram a construção de ruas para garantir a mobilidade do crescente número de moradores, o que resultou na desapropriação de parte do território da comunidade. Para a comunidade, o valor pago pelas desapropriações foi muito aquém do considerado justo, e um processo foi aberto para apurar as condições da indenização. Após a década de 1980, o crescimento acelerado de Belo Horizonte provocou a especulação imobiliária, dando início a conflitos territoriais na região. O território original da comunidade sofreu drástica redução em função de diversas invasões o que, de acordo com os moradores, incluiu grandes empresas e até a prefeitura do município, razão pela qual existem precatórios de milhares de reais devidos à comunidade (Belo Horizonte, 2009).

A urbanização crescente constituiu uma condição complexa para a comunidade por dois grandes motivos. O primeiro deles foi o contraste entre o rural e urbano, com a visível submissão do primeiro ao segundo. De agricultores relativamente isolados e protegidos pelas suas tradições e modo de vida, os membros da comunidade se viram cercados por uma cidade que os insulava e os submetia. Não havia meios de manter as atividades rurais anteriores inclusive por conta da redução da área do quilombo e por questões de infraestrutura urbana, como a canalização do córrego, que acabou com a principal fonte de irrigação para o plantio. Isso significou encarar que, na cidade, os trabalhos e as identidades disponíveis para elesa eles reproduziam a subalternidade que outrora experimentaram enquanto pessoas escravizadas.

Pelo fato de se tratar de uma área valorizada economicamente, o outro motivo foi que o Quilombo Luizes passou a ser pressionado por pessoas e empresas interessadas naquele espaço. Várias áreas do território foram vendidas para garantir alguma forma mais imediata de renda, mesmo que isso implicasse comercialização do chão a que pertenciam e que lhes identificava como grupo. Em muitos casos, as condições da venda foram associadas a eventos violentos, como ameaças e uso de documentos falsos ou registrados em cartório sem grandes embaraços. Outra forma de perda do território foram as invasões. As entrevistadas relataram diversos episódios em que pessoas estranhas destruíram imóveis no local e construíram novas estruturas. Até 2004, a comunidade costumava acionar a polícia e contava com alguns profissionais como advogados para a abertura de processos. As formas de invasão do território foram as mais diversas, de processos de compra irregular, registros imobiliários inexplicados e repentinos, até violência física e simbólica, com o assassinato de uma pessoa, além do racismo sofrido pela comunidade.

A comunidade contou com representantes que, ao longo de sua história, lutaram pela proteção da de seu patrimônio material e cultural. Além de Anna Apolinária, outra mulher de destaque foi Cordelina Eugênia Nunes, filha do casal fundador, conhecida como Nina. Ela foi inventariante da comunidade, isto é, administrava os bens coletivos. Além disso, representava-a junto a instituições como a Prefeitura de Belo Horizonte, empresas e órgãos judiciais, entre os quais o Ministério Público e a Defensoria Pública, em todas as esferas. Segundo relatos, Nina foi encontrada morta em casa três dias após o óbito. A casa não teria sinais de arrombamento e a vítima apresentava diversos sinais de agressão. As circunstâncias do episódio nunca foram solucionadas. Após a morte de Nina, algumas pessoas, portando promissórias assinadas por ela, procuram a comunidade reivindicando partes do território.

Quanto ao racismo, moradores do entorno descrevem o Quilombo Luizes como “um bairro dentro de outro”, uma vez que a comunidade é constituída por um grande número de pessoas negras, diferentes dos moradores da região são pessoas, na sua maioria, brancas e economicamente favorecidas (Belo Horizonte, 2009). Os quilombolas, que moram na região antes mesmo de a cidade ser fundada, são reclassificados, em termos simbólicos, como uma espécie de “resíduo” que precisa ser excluído para que o bairro fique mais homogêneo, uma releitura do higienismo urbano. Trata-se não apenas de segregação espacial, mas de racismo, o que é grave, mas de alguma forma possível porque os moradores do bairro Grajaú, possuem autoria, autoridade e autorização para enunciar aquilo que passa a ser tomado por verdade pelas demais pessoas, instituindo o real a partir dos seus discursos, nos termos de Foucault (1996). Na mesma medida, os quilombolas são desqualificados por serem quem são, e por isso desautorizados a falar de algo além das suas próprias vidas. Este processo contrapõe dois mundos e os hierarquiza. De um lado, brancos, detentores de alta renda, pessoas com corpos “normais” e desejados, e letrados, isto é, inseridos em um grafocentrismo no qual qualquer documento forjado, mas devidamente registrado, tem validade. De outro, negros, pobres, com corpos abjetos (Butler, 1993), indesejados, que têm as histórias orais de suas vidas aviltadas pelos que não estavam ali antes de a cidade ser cidade.

Essa narrativa de origem não é mero pano de fundo identitário. Do ponto de vista organizacional, ela opera como um mecanismo de coordenação simbólica: ao evocar a ancestralidade, as matriarcas alinham expectativas, justificam reivindicações territoriais e mobilizam resistência. A memória compartilhada funciona como um repositório institucional que orienta decisões presentes, por exemplo, recusar certas ofertas de compra de terras) e mantém a coesão mínima necessária para ação coletiva, mesmo diante da dispersão espacial e econômica.

O segundo movimento da dinâmica da identidade desta organização está vinculado ao esquecimento. E que não haja enganos quanto à suposta delicadeza de esquecer. Neste contexto de embates, o esquecimento se trata de algo violento: é uma forma de apagamento, porque só o que permanece na memória sobrevive. Morre aquilo que faz parte das políticas de esquecimento (Foroughi & Al-Amoudi, 2020), o que, de forma deliberada ou acidental, não é importante o suficiente para ser lembrado. Esta perspectiva põe em competição fatos do passado e faz dele uma espécie de corrida pelo direito à lembrança. O que no passado vence, e tem direito a ser lembrado, assim, permanece. Os fatos violentos que as entrevistadas relatam são tanto físicos quanto simbólicos. Mesmo considerando o peso de assassinatos e do fracionamento do território a partir de escrituras de posse registradas de forma arbitrária em cartório, a violência simbólica do esquecimento nos parece o fenômeno mais grave por eles enfrentado.

Um exemplo se refere aos ataques ao Quilombo Luizes, com o propósito de desqualificá-lo enquanto comunidade quilombola. Após a promulgação do decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamenta os procedimentos para identificação, delimitação e titulação das terras quilombolas, houve mudanças importantes. A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Palmares, em 25 de novembro de 2004 (Ministério Público Federal, 2015), e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) deu início à regularização do território da comunidade. Como parte do processo, o Núcleo de Estudos de Populações Tradicionais e Quilombolas da Universidade Federal de Minas Gerais (NUQ/UFMG), contratado pelo INCRA, elaborou um relatório contendo informações com características históricas, econômicas, ambientais e socioculturais do Luizes, além de delimitar a área do território. Este estudo, denominado Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), foi concluído em 2008, e publicado em 2009.

A possibilidade de regularização da comunidade foi marcada por intensos conflitos. O primeiro ponto é que a comunidade defende que a área definida pelo relatório é menor do que a real. Foram excluídas partes do território que continham edificações consideradas de alto padrão comercial. De fato, de acordo com informações do Ministério Público Federal, o INCRA publicou o RTID com área divergente (Ministério Público Federal, 2015). Essa situação motivou a Defensoria Pública da União a processar organizações como a Prefeitura de Belo Horizonte e o Centro Universitário Newton Paiva, além de empresas do ramo imobiliário.

Em setembro de 2017, o INCRA publicou aprovou o relatório técnico elaborado. Porém, a superintendência regional da entidade reduziu o território ocupado, excluindo 10 imóveis. O processo de titularização prevê a desafetação do território e, com isso, as pessoas que se encontram residentes e alheias ao quilombo são indenizadas pela União. A redução do território seria fruto de decisão do INCRA, levando em conta os altos custos associados às desapropriações (Universidade Federal de Minas Gerais, 2017). Em meio a esse contexto de disputas, um fator positivo para a comunidade é que o apoio da sociedade tem sido crescente. Um número cada vez maior de pessoas e grupos têm procurado a comunidade tanto para conhecê-la, quanto para fortalecer a luta política que ela representa. Da área original da fazenda, de cerca de 18 mil m², onde moravam mais de duas mil pessoas, hoje restaram cerca de um terço, com aproximadamente 159 residentes. O território da comunidade se divide em um núcleo habitacional, com mais de 70 residentes, e diversas unidades em áreas adjacentes.

Se os membros da organização esquecem que são remanescentes de uma comunidade quilombola, ela pode ser denominada - de forma interessada - de favela, cortiço, gueto ou outros termos que representam, em termos urbanísticos, “variações informais” do planejamento urbano, isto é, territórios que fogem ao planejado e que, precisam, por conta disso, de urbanização. Na verdade, é de higienismo que falamos, uma perspectiva que visa “limpar” a cidade do que é indesejado, perspectiva em vigor desde a Paris de Haussmann. A urbanização aqui atua como uma espécie de panaceia, não apenas com uma pretensão homogeneizadora, mas com uma perspectiva mais ou menos explícita de disciplinar a própria vida na cidade (Sarayed-Din & Saraiva, 2024). Nenhuma parte da urbe, assim, deve ser feia, desordenada, suja, pobre etc., atributos esses destinados à cidade informal, aquela que precisa ser contida pelos instrumentos formais do urbanismo. Tais ferramentas se apoiam na técnica e pouco assumem que o tecnicismo fecha os olhos para o racismo na cidade (Saraiva & Furtado, 2024).

Ainda quanto ao esquecimento, algumas palavras precisam ser ditas a respeito da heterogeneidade crescente do Quilombo Luizes. Como Belo Horizonte cercou a organização por todos os lados, uma forma a que muitos dos quilombolas recorreram foi alugar suas casas para pessoas que nada tem a ver com a comunidade, pessoas que são apenas locatários de imóveis. Diminui, assim, o senso de pertencimento ao grupo, os laços identitários, e, consequentemente, a mobilização para as muitas lutas que os membros desta organização travam. Quando o esquecimento se dá em razão da necessidade de sobrevivência material, a identidade vira um problema (Appiah, 2018; Cohn, 2018), e esquecê-la talvez seja a forma considerada mais viável de existir por muitos, como se esquecendo quem se é de onde se vem, a vida se torne mais fácil de ser vivida e, os problemas e as lutas, menores (Ybema, 2014). O problema do esquecimento é que há sempre um preço alto a pagar, pois o passado continua sendo disputado a todo momento por quem pode alguma forma acessá-lo e produzi-lo a partir de intenções do presente, conforme discutem Casey e Olivera (2011) e de Holan e Phillips (2004).

O esquecimento, aqui, não é apenas perda identitária, mas um processo organizacional de desmobilização. Quando membros alugam casas a não-quilombolas ou vendem terras, eles não estão apenas agindo individualmente: estão, ainda que involuntariamente, enfraquecendo a base material e simbólica que permite a tomada de decisão coletiva, a partilha de riscos e a memória comum. Configura-se um trade-off organizacional: a sobrevivência econômica imediata de alguns membros acelera a erosão da organização como entidade capaz de agir politicamente.

O terceiro movimento da dinâmica da identidade desta organização se refere ao silêncio. E sobre isso deve ser dito que o silêncio não enuncia qualquer coisa que seja; mas ele significa. Em especial pela não manifestação de uma posição a respeito de algo, e isso tem relevância para entendermos do que estamos efetivamente tratando (Orlandi, 2007). O apoio institucional esperado após o reconhecimento da comunidade Luizes pela Fundação Palmares tem sido tímido e dúbio. Isso porque o governo, por meio dos diversos órgãos e entidades, tem atuado de forma ambígua e omissa. Mesmo diante das frequentes invasões, denunciadas por comissões especiais tanto da Câmara de Vereadores de Belo Horizonte quanto da Ordem dos Advogados do Brasil/MG, a Prefeitura não possui nenhum projeto que vise desencorajar ou inibir essas ações. A própria PBH foi processada pela Defensoria Pública por não pagar os precatórios devidos pela abertura de vias públicas na comunidade (Belo Horizonte, 2009).

Atualmente, é possível acreditar que a Prefeitura de Belo Horizonte conte com pessoas mais bem preparadas e munidas de conhecimento para lidar com a comunidade, até porque diversas ações municipais foram realizadas para promover os Luizes e as outras duas comunidades quilombolas da cidade, como a construção do relatório do Patrimônio Imaterial da cidade. Porém, as fragmentações do território fizeram com que a comunidade ficasse dividida em uma unidade maior e diversos outros lotes desconectados. Há uma política diferenciada para tributação para as comunidades quilombolas, mas, no caso dos Luizes, ela se aplica apenas à unidade principal. Antes, a residência de uma das anciãs estava localizada no interior da comunidade e hoje ela reside a cerca de dois quilômetros da unidade principal. Como a diferenciação de tributos ocorre somente para a unidade principal, ela e outras pessoas na mesma situação são submetidas à mesma tributação aplicada ao restante do bairro, sendo que a renda dessas pessoas não é compatível com a dos moradores do entorno. A omissão da Prefeitura ocorre por meio da negação de direitos, sendo uma das formas a simetria no trato da população, ignorando a condição de vulnerabilidade dos membros desta organização.

Outro ponto é que construir imóveis de alto padrão no espaço que pertence ao quilombo parece constituir um bom negócio. Após invadir uma área da comunidade que esteja compreendida no Relatório Técnico de Identificação e Delimitação, a desafetação é feita mediante indenização pelas edificações feitas pelos invasores, por meio de recurso público. Sendo esse escasso e considerando os vários e valiosos empreendimentos feitos de forma ilegal na área da comunidade, tanto se justifica a não realização da desafetação, considerada excessivamente onerosa para os cofres públicos, quanto também se deixa revela uma das possíveis motivações aos invasores, já que, na pior das hipóteses, terão o valor investido devolvido pelo Estado. A lógica institucional para desafetação não pune os invasores e prejudica a comunidade, razão pela qual elas acreditam que o justo seria os invasores arcarem com o ônus da invasão, já que eles próprios impuseram dano ao uso do território da comunidade. Legalmente, a comunidade pode acionar a justiça para ser indenizada pelas invasões, mas isso não as tem impedido. O fato é que se trata de processos muito longos, como o caso de Cambury (Claudino, 2013), em que os proponentes não terão acesso à decisão final, por terem expectativa de vida menor do que o tempo necessário para a tramitação dos processos.

O silêncio deliberado ou acidental que se verifica sobre os desdobramentos do processo de reconhecimento da comunidade como remanescente de quilombos revela, ao fim e ao cabo, uma estranha posição por parte de diversos agentes, principalmente públicos, que parecem agir em ritmo mais lento ou com menos força do que poderiam, talvez em função de já haver o reconhecimento do status quilombola. Esta sensação das entrevistadas de morosidade, de certa forma associada a algum nível de omissão, leva a que as elas praticamente silenciem sobre o futuro, o que é sintomático. Talvez estejamos diante de um horizonte de pouca esperança de que as coisas mudem e que os quilombolas sejam respeitados de forma efetiva como cidadãos e reconhecidos no seu direito a ter direitos, em particular sobre a terra que ocupam antes de a cidade de Belo Horizonte existir.

A ausência de narrativas de esperança ou de planos coletivos explícitos revela um processo organizacional de paralisia estratégica e pode ser sintetizado na ideia de silêncio sobre o futuro. Em organizações formais, a inação diante de ameaças recorrentes seria atribuída a falhas de liderança ou planejamento. Aqui, o silêncio é um sintoma de que os custos de coordenação superaram a capacidade de resposta do grupo, diante de um ambiente institucional hostil. Algumas dessas manifestações são o Estado que reconhece, mas não protege e mercado imobiliário que age de forma predatória. A organização ainda existe, mas sua agência está drasticamente reduzida, operando mais na resistência passiva em permanecer no território do que na ação propositiva, com retomada de áreas perdidas e pressão política mais efetiva.

DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo este artigo foi analisar a dinâmica da identidade organizacional em um quilombo urbano no sul global. Recuperando alguns elementos do início deste texto, o sul global parece ser incivilizado o suficiente para abrigar uma heterogeneidade inaceitável para o norte global, razão pela qual este exerce um papel pedagógico, propondo-se a ensinar e, mais do que isso, prescrever como devem ser as cidades do sul global para darem certo. Ora, primeiro é preciso reconhecer que riqueza e miséria global são coproduzidos mutuamente no sistema de produção capitalista, e que no mercado de cidades, é um grande negócio a existência de assimetrias para as quais se pode inventar e vender soluções urbanas (Simone, 2020). Reconhecer que as condições de heterogeneidade e pobreza não são ilegítimas e não precisam de prescrição de quem nada sabe do Sul parece ser um caminho de um urbanismo de encruzilhada (Sarayed-Din, 2024), em que os cruzamentos são tão ricos quanto pode ser a existência das diferenças no sul global (Simone, 2012).

A fuga e o isolamento do Quilombo Luizes possibilitaram condições de igualdade para pessoas que fugiram da objetificação da escravidão. Além do senso de coletividade, estar em comunidade ao lado dos seus permitiu a produção de uma identidade organizacional, que se afasta bastante da visão hegemônica de organização. Elementos centrais das narrativas - ruralidade, laços consanguíneos, afetos, resistência, e o trabalho de subsistência - marcam um storytelling em torno da busca de uma forma de existência minimamente digna, que lhes foi negada a partir do momento em que foram sequestrados, exilados e escravizados em outro continente. A expansão da cidade de Belo Horizonte reproduziu a violência do apagamento físico e simbólico (Saraiva & Silva, 2024) já experimentado em outros momentos da sua história, como na construção, que em tese foi feita sobre um vazio geográfico, quando evidências recentes confirmam que havia uma população negra residente no Curral Del Rey (Pereira, 2019; Queiroz, 2015; Salgueiro, 2020).

Os três movimentos da dinâmica da identidade do Quilombo Luizes - memória, esquecimento e silêncio, nos termos de Pollak (1989) - revelam processos que reverberam diretamente sobre questões identitárias nesta organização. Primeiro é preciso destacar a desidentificação do contexto. Um quilombo originalmente rural, tal como os registrados da história quilombola, viu-se desidentificado por uma cidade que foi fundada depois, mas que se expandiu a tal ponto que cercou a comunidade por todos os lados, inviabilizando seu modo de vida rural. Segundo, associado à desidentificação de contexto, ocorreu uma desidentificação profissional, já que o trabalho, que era de subsistência em um cenário rural, se viu alterado para a paisagem da urbe. O isolamento, que garantia condições de igualdade, se viu atingido em cheio: não mais isolados, os quilombolas se viram obrigados a trabalhar nos moldes urbanos, nos quais lhes cabiam posições precarizadas e subalternizadas, reforçando a inferiorização social que é herança da escravização.

Com a integração forçada à cidade que passou a cercar o quilombo, produziu-se uma guerra em diversas frentes de batalha, em especial no sentido de descaraterização identitária da comunidade como quilombola. Se os seus membros, por força da necessidade econômica e das pressões pelo enfraquecimento da luta, de alguma forma sucumbem vendendo áreas ou alugando suas casas, desaprendem, esquecendo um pouco de quem são, de onde vieram e por que estão ali, o que é bastante problemático em termos organizacionais (Klammer & Gueldenberg, 2019). Isso permite movimentos de ressignificação da comunidade, perigosos na medida em que permitem que o quilombo seja desidentificado e reidentificado como favela ou gueto, o que vai ao encontro de possibilidades de higienismo urbano, processo que dá as mãos à especulação imobiliária.

Em suma, memória, esquecimento e silêncio não são apenas dimensões da identidade de um grupo social. Neste artigo, demonstramos que eles operam como processos organizacionais que constituem, mantêm ou erosionam a capacidade de ação coletiva do Quilombo Luizes. A memória atua como mecanismo de coordenação simbólica e repositório de conhecimento; o esquecimento, como processo de desmobilização e erosão da base material da organização; o silêncio, como paralisia estratégica induzida por um ambiente hostil. Esses processos não substituem nem imitam as funções gerenciais da empresa capitalista; eles são modos específicos de 'organizar' em contextos de vulnerabilidade, oralidade e luta territorial. A contribuição deste artigo para os Estudos Organizacionais é, portanto, dupla: (a) empírica, ao analisar uma organização até aqui marginal na literatura (quilombo urbano no sul global); e (b) teórico-metodológica, ao propor que a dinâmica identitária que articula memória, esquecimento, silêncio, pode ser lida como processo organizacional, desde que se abandone o funcionalismo e se adote uma perspectiva narrativa e crítica. A questão que não cala é: a quem interessa uma cidade produzida apagando as pessoas que não se encaixam no planejamento urbano?

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    » https://doi.org/10.1080/17449359.2015.1124042
  • 1
    Tradução livre.
  • 2
    Neste texto, tomamos o quilombo como uma organização alternativa à grande empresa capitalista industrial, que tem sido usado equivocadamente como expressão universal do conceito de organização. Dada a complexidade deste tipo de organização, que também é social, ora ela será referida como comunidade, e seus componentes ora serão denominados como membros, ora como quilombolas, seu vínculo identitário, sem que isso implique alteração no sentido organizacional que interessa a este texto.
  • 3
    O nome da comunidade possui conexão com o nome do ex-escravagista Manoel Luiz, pois todos os filhos do casal receberam Luiz ou Luiza como segundo nome.
  • 4
    Árvore cultivada pela comunidade para usos diversos conforme Sidônio (1998).
  • 14
    [Versão traduzida]
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no artigo.
  • USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    Nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi utilizada.
  • FINANCIAMENTO
    Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro, que foi essencial para a realização desta pesquisa.
  • PARECERISTAS
    Eloy Eros Silva Nogueira, Universidade Positivo, Curitiba, PR, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5234-496X; Ana Carolina Júlio, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, ES, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4684-9811
  • RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
    O relatório de revisão por pares está disponível em https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/97420

Editado por

  • EDITOR-CHEFE
    Hélio Arthur Reis Irigaray, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
  • EDITOR ASSOCIADO
    Fabricio Stocker, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
  • EDITORES CONVIDADOS
    Bruno Felix, Fucape Business School, Vitória, ES, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6183-009X; Sophie Hennekam, Audencia Business School, Nantes, França. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8974-9653; Ana Carolina Júlio, Fucape Business School, Vitória, ES, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4684-9811

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    21 Abr 2025
  • Aceito
    11 Mar 2026
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