Open-access CRISE DA DEMOCRACIA OU CONTRARREVOLUÇÃO PREVENTIVA? REFLEXÕES A PARTIR DE ARNO MAYER

CRISIS OF DEMOCRACY OR PREVENTIVE COUNTERREVOLUTION? REFLECTIONS BASED ON ARNO MAYER

CRISE DA DEMOCRACIA OU CONTRARREVOLUÇÃO PREVENTIVA? REFLEXÕES A PARTIR DE ARNO MAYER

Resumo

O artigo é um estudo que problematiza um dos principais eixos do debate acadêmico, intelectual e político contemporâneo, a saber, as crises da democracia. Buscamos fornecer subsídios para argumentar que mais do que perturbações da ordem democrática enfrentadas com a “ascensão” da extrema direita, estamos a presenciar elementos constitutivos de uma contrarrevolução preventiva que se configurou após as insurreições na Grécia, o Occupy Wall-Street, as manifestações dos Indignados na Espanha, a Primavera Árabe, Junho de 2013 no Brasil e os levantamentos massivos no Chile em 2019. O ponto de elaboração estrutura duas considerações: em primeiro lugar, reconstruímos conceitualmente a noção de contrarrevolução desenvolvido pelo historiador Arno Mayer no ensaio Dinâmica da contra-revolução na Europa:1870-1956; em segundo lugar, discutiremos, mobilizando ampla bibliografia, os momentos fundantes do nosso quadro de referência histórica, social e política desde a derrocada do Lehmann Brothers nos Estados Unidos em 2008 até o instante atual de tal sorte a delinear os momentos que conformam a contrarrevolução preventiva que nos aflige.

PALAVRAS-CHAVE
Crise; Democracia; Contrarrevolução; 2008; Arno J; Mayer


Abstract

This article is a study that problematizes one of the main axes of contemporary academic, intellectual and political debate, namely, the crises of democracy. We seek to provide support to argue that more than disruptions to the democratic order faced with the “rise” of the extreme right, we are witnessing constitutive elements of a preventive counterrevolution that took shape after the uprisings in Greece, Occupy Wall-Street, the Indignados demonstrations in Spain, the Arab Spring, June 2013 in Brazil and the massive uprisings in Chile in 2019. The point of elaboration structures two considerations: first, we conceptually reconstruct the notion of counterrevolution developed by historian Arno Mayer in the essay Dynamics of Counterrevolution in Europe: 1870-1956; Secondly, we will discuss, using a broad bibliography, the founding moments of our historical, social and political reference framework since the collapse of Lehmann Brothers in the United States in 2008 until the present moment, in order to outline the moments that shape the preventive counterrevolution that afflicts us.

KEYWORDS
Crisis; Democracy; Counterrevolution; 2008; Arno J; Mayer


Resumen

Este artículo es un estudio que problematiza uno de los ejes principales del debate académico, intelectual y político contemporáneo: las crisis de la democracia. Buscamos sustentar la argumentación de que, más que perturbaciones del orden democrático ante el ascenso de la extrema derecha, presenciamos elementos constitutivos de una contrarrevolución preventiva que se configuró tras las insurrecciones en Grecia, el movimiento Occupy Wall Street, las manifestaciones de los Indignados en España, la Primavera Árabe de junio de 2013 en Brasil y los levantamientos masivos en Chile en 2019. El punto de elaboración estructura dos consideraciones: en primer lugar, reconstruimos conceptualmente la noción de contrarrevolución desarrollada por el historiador Arno Mayer en el ensayo Dinámica de la contrarrevolución en Europa: 1870-1956; En segundo lugar, analizaremos, basándonos en una extensa bibliografía, los momentos fundacionales de nuestro marco histórico, social y político, desde el colapso de Lehman Brothers en Estados Unidos en 2008 hasta la actualidad, para delinear los momentos que configuran la contrarrevolución preventiva que nos aqueja.”

PALABRAS CLAVE
Crisis; Democracia; Contrarrevolución; 2008; Arno J; Mayer


INTRODUÇÃO

Desde que a ascensão da extrema-direita se tornou um fato inegável na política mundial, interpretações heterogêneas têm procurado compreender esse fenômeno peculiar do início do século XXI. Sociólogos, historiadores, teóricos sociais, cientistas políticos, filósofos e debatedores públicos em múltiplos espaços veem apresentando considerações empenhadas em desvendar o porquê figuras como Donald Trump, Viktor Órban, Mateo Salvini, Marine Le Pen, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Recep Erdogan, Giorgia Meloni e Alice Weidel e seus respectivos partidos, grupos e movimentos passaram a predominar na política mundial. No âmbito desses estudos sobre o ressurgimento da direita mundial, duas leituras têm influenciado com maior interesse o entendimento.

A primeira sustenta que algumas sociedades contemporâneas atravessam uma crise da democracia (Castells, 2018; Levitsky; Ziblatt, 2018; Przeworski, 2020); a segunda, propõe a avaliação de que as figuras conservadoras intransigentes que estabelecem as coordenadas da política na atualidade expressam o reaparecimento do fascismo, neofascismo. Ambas as avaliações, complementares em certos aspectos, compartilham o diagnóstico de que, na medida em que as democracias liberais-representativas não respondem a contento as demandas dos votantes, sobretudo, após o colapso do sistema econômico nos primeiros anos deste século, resulta que eles expressam o descontentamento com a situação social e política vigente, elegendo políticos que se apresentam como “inovadores” da ordem, neste caso, políticos de direita. As abordagens que partem da crise da democracia e do advento do neofascismo, em linhas gerais, estipulam, invariavelmente, critérios formais nas averiguações que efetuam; pois, observam a relação (ou não) daquelas figuras da extrema direita com o conjunto das instituições que constituem o regime democrático. Estar de acordo com regras do sistema legislativo, atuar a partir de parâmetros configurados pelas cartas constitucionais de seus respectivos países, respeitar o jogo organizativo dos partidos políticos, se enquadrar nos regramentos não escritos da cultura democrática (tolerância, estima pela diversidade, consensos, aceitação do contraditório, diferença de ideias) e construir interações diretas e afetivas com o povo – esses são fenômenos que conformam a posição basilar dos modelos explicativos para a eclosão recente de personagens da direita.

Não é o caso de recusar as teorizações concernentes à crise da democracia e ao neofascismo; pode-se, porém, problematizá-las tendo como proposição ler o advento daqueles conservadores inflexíveis em outro registro elucidativo. O objetivo fundamental deste artigo é propor que a presença de Trump, Órban, Salvini, Le Pen, Bolsonaro, Johnson, Erdogan, Meloni e Weidel na política mundial na segunda década do século XXI até os dias correntes pode ser examinada por meio da noção de contrarrevolução preventiva. Antes mesmo do momento ao qual o regime democrático tenha transposto o estatuto de normalidade e adentrado a instância da crise, assim como a aparição dos neofascismos adquiriram delineamento – sugere-se que emergiu no panorama mundial aspectos que caracterizam uma contraofensiva preventiva diante de circunstâncias de acentuada instabilidade política. O núcleo argumentativo do estudo estará assentado nas formulações do historiador norte-americano Arno Mayer, particularmente, no seu trabalho Dinâmica da contra-revoluação na Europa: 1870-1956. O texto tem a seguinte organização: na primeira parte, comento, com brevidade, a intervenção de dois dos principais intelectuais críticos brasileiros (os filósofos Rodrigo Nunes e Vladimir Safatle) sobre o que eles entendem como espírito do tempo que marca nossa época; na segunda, apresento de maneira mais bem delineada meu argumento acerca da contrarrevolução, particularmente, acerca da contrarrevolução preventiva, nesta parte analiso o ensaio que fundamenta o trabalho, a saber, Dinâmica da contra-revolução na Europa: 1870-1956, de Arno Mayer; a seguir, a terceira parte, aprofundo a intervenção de Nunes e Safatle averiguando as insurreições populares que atravessaram o mundo em resposta à ruina da economia capitalista em 2008 e a forma em que atuaram alguns do movimentos mais destacados desse período; na quarta parte articulo a segunda e terceira partes, de modo a desenvolver a afirmação de que mais do que uma crise da democracia, um populismo de direita e surgimento de um neofascismo, estamos presenciando um instante (2015-2016 a 2025) de contrarrevolução preventiva. Termino com breves considerações finais, propondo algumas advertências sobre os estudos da extrema direita hoje.

ERA DAS REVOLUÇÕES

O tempo que nos cerca – é um tempo de “revoluções”. Iniciamos, efetivamente, o século XXI tendo frente aos nossos olhos uma variedade de manifestações que percorreram o mundo em objeção à recessão global de 2008 e a instantânea resolução que os governos construíram para acudir aos que tinham levado àquelas circunstâncias. Em artigo publicado no suplemento Ilustríssima do jornal Folha de São Paulo, diz o filósofo Rodrigo Nunes:

Inspirados por levantes no Oriente Médio, Occupy Wall Street, tomou uma praça no centro financeiro de Nova York há dez anos [hoje são 14 anos] e ajudou a protestos pelo mundo, como [os Indignados na Espanha, as revoltas na Grécia, junho de 2013 no Brasil, a rebelião Mapuche no Chile e o Black Lives Matter]. Embora derrotados em seus objetivos colossais, esses movimentos deixaram como aprendizado ao ativismo da última década as ideias de pluralidade de atuação e de compreensão menos binário da política (2021).

O sentido de todas essas rebeliões, mais do que meros eventos locais, pontuais, aos quais “jovens” descontentes com as convenções em vigor querem dizer o que desejam, é que o presente e o futuro estará marcado por conjunturas semelhantes; pois “as condições que as fizeram existir não desapareceram, tendem a exacerbar-se” (Nunes, 2021) com o atual quadro do regime de acumulação neoliberal (capitalista) – que desde Reagan e Thatcher buscam incessante obsessão recompor as taxas de lucro, ao menos nos níveis dos 30 anos gloriosos.1

A estrutura de sentimentos que vem circundando nossa época é de fúria molecular contra o que outro filósofo, Vladimir Safatle, chamou de “macroestruturas de espoliação da [...] [vida]” (2021). Nosso século, o XXI, teve seu início, e vem tendo sua dinâmica de conflitos, com a manifestação de Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante, que na Tunísia, ao tentar se reportar ao governo de ocasião reivindicando a devolução do carrinho de venda de frutas com o qual trabalhava empunhando a cópia da lei, teve essa rasgada, e em protesto ateou fogo no próprio corpo. Ora, “desde então o mundo verá uma sequência de insurreições durante 10 anos. Occupy, Plaza del Sol, Istambul, Brasil, Gillets Jaunes, Tel-Aviv, Santiago: são apenas alguns lugares por onde [...] [o] processo” (Safatle, 2021) de contrariedade frente a modelos de organização social opressivos adquirem conformação insubmissa. Essas “revoluções moleculares dissipadas” (Safatle, 2021) estavam, estão e estarão presentes no horizonte político de boa parte das sociedades atuais.

Com o mesmo teor analítico pesquisadores críticos internacionais, também interpretam o cenário ao qual se inicia o século XXI. Em outras palavras, não foi apenas a leitura de dois intelectuais de esquerda da periferia do mundo desenvolvido, do Brasil, que compreendeu nosso tempo, como um tempo de rebeliões moleculares. O sociólogo Mike Davis, comparando as revoltas moleculares após 2008 com eventos anteriores, profere as seguintes palavras no artigo La primavera encara el invierno:

em las grandes convulsiones, las analogias vuelan como metralla. Las electrizantes protestos de 2011 – la aún activa primavera árabe, el cálido verano ibérico y heleno, el ocupado otoño em Estaos Unidos – han sido comparadas inevitablemente con los anni mirabiles de 1848, 1905, 1968 y 1989 (Davis, 2012, p. 5).

Assim, as sociedades ocidentais e orientais estariam presenciando estupendas “journées révolutionnaires” com o surgimento de movimentos sociais radicais como “los ocupas, los indignados, los pequenos partidos anticapitalistas en Europa y la nueva izquierda árabe” (Davis, 2012, p. 5).

O panorama convulsivo traçado por Davis a partir de movimentos antissistêmicos é abordado pelo sociólogo mexicano Carlos Antonio Aguirre Rojas, como insurreições populares em perspectiva. Com efeito, a “densidad histórica” das revoltas de 2011 marcam a “singularidade específica que las distingue de otras luchas anteriores” (Rojas, 2012, p. 9). Não podemos sustentar que há um consenso nas ciências sociais acerca do quadro de descontentamento revolucionário que irrompe no mundo depois do crash de 2008; contudo, não podemos deixar de analisar, para entendermos o quadro político e social que se estabelece com ascensão dos governos de direita intransigente, o que afirmam dois teóricos político do populismo de esquerda. Dizem eles, “de 2012 em diante, a invocação do ‘povo’ tornou-se um motivo central para [...] [movimentos de esquerda, [...] [e a] adoção de uma linguagem interclassista do ‘povo’” (Jäger; Borriello, 2023, p. 4) configuravam um momento político completamente diferente do que se havia vivido décadas anteriores. Pode-se dizer, portanto, que a partir de 2008, tivemos a aurora de um novo mundo. Estávamos presenciando: a era das revoluções.

Contudo, dadas essas interpretações de Rodrigo Nunes e Vladimir Safatle – e de seus pares internacionais –, o que ocorreu desde então, até que chegássemos ao cenário ao qual a extrema direita se reorganiza, obtendo protagonismo que, de certa maneira, seria observado impensável no ápice das convulsões dos de baixo? Com o mesmo teor analítico, outros pesquisadores críticos internacionais, também interpretam o cenário ao qual se inicia o século XXI.

A seguir proponho que houve um processo de contrarrevolução preventiva alçando aos Estados, regimes e governos, conservadores intransigentes. Vejamos.

ARNO MAYER: CONTRARREVOLUÇÃO E CONTRARREVOLUÇÃO PREVENTIVA

Para arguir que o palco histórico que surgiu em 2015-2016 caracteriza uma contrarrevolução preventiva, mobilizo o esquema teórico desenvolvido por Arno Mayer no livro já citado, Dinâmica da contra-revolução na Europa: 1870-1956.

Mayer foi um historiador marxista. Por outras palavras; “foi Marx quem formou o estilo dele de pensar mais do que qualquer outro” (Traverso, 2023). A característica peculiar da obra de Mayer, no âmbito alargado do materialismo histórico-dialético, combinava com rigor e imaginação a narrativa das contingências históricas com tendências estruturais estáveis – sem deixar se seduzir pela tentação da longue durée braudeliana. Sem desprezar amplas direções de sentidos – observou nas suas pesquisas a particularidade disruptiva de eventos impelidos por seres humanos em ação. Daí concentrar parte das investigações na dinâmica da revolução e da contrarrevolução: pois, como afirma Traverso, “eventos podem tornar-se sua própria causa imediata” (2023), com reversões internas inesperadas. É o que encontramos em Dinâmica da contra-revolução na Europa: 1870-1956.

A elaboração de Mayer segue um dos tópos da teoria social marxista acerca do problema das contrarrevoluções. Vale lembrar aqui os textos de Marx de 1848 a 1870 e as abordagens conjunturais de Gramsci e Trotsky na luta contra o fascismo. No entanto, o esforço de Mayer, mais do que narrar acontecimentos de contrainsurreição, consiste em propor um esquema teórico, sistema conceitual, que assente a noção de contrarrevolução. Michael Richards (2015), sugere que o objetivo de Arno Mayer era desvendar a “natureza da contrarrevolução” (2015, p. 505), na medida em que “nossa compreensão dos eventos dos séculos XIX e XX permanecem parciais” (2015, p. 505). Mayer teve a presciência de reconhecer essa carência de pesquisas históricas e sociológicas que ao mesmo tempo definisse e expandisse a compreensão do fenômeno da contrarrevolução.

Na elaboração sistemática mayeriana a contrarrevolução é designada como circunstância política que aparece, essencialmente, da revolução. Quando se pensa em revolução ou manifestações semelhantes é necessário pensar e ter no horizonte a contrarrevolução. Diz Mayer: “a contra-revolução acha-se intimamente ligada à revolução. De fato, as duas se relacionam simbioticamente. Aceitar a realidade histórica de uma, equivale a aceitar a realidade histórica da outra” (1977, p. 21). Para os efeitos constitutivos que estamos conformando neste ensaio, a primeira parte de A dinâmica da contra-revolução... não nos convém averiguar. Ela trata, em termos sintéticos, do contexto Europeu ao qual a contradição entre impulso revolucionário popular fazia emergir posições imediatamente contrárias de conservadores, reacionários que mobilizavam contrarrebeliões com a intenção de restabelecer a estabilidade política. (Ainda nessa parte, encontra-se a estilização da história das ideias europeia empreendida por Mayer – Aristóteles, Maquiavel, Bodin, Condorcet, Burke de Maistre, Bonald, Saint-Beuve, Taine e Marx – para refletir sobre a contrarrevolução.) Para nossos fins, interessa o conceito heurístico desenvolvido por Mayer.

Assim, na sequência que desencadeia a revolução, os “descontentamentos e cisões sócio-econômicas [no quadro] intrínseco [específico] da industrialização, urbanização e transformação demográfica sob condições de economia de mercado” (Mayer, 1977, p. 67), a contrarrevolução tem possibilidades de se forjar. Com isto, no vendaval social e subjetivo que envolvem esses momentos, os “reguladores políticos” são consideravelmente debilitados (Mayer, 1977, p. 67). Esses são conceituados por A dinâmica da contra-revolução... – como “os canais competentes de articulação de interesses, instituições políticas [normalizadoras] [...]” (Mayer, 1977, p. 67) e elites convencionais que constroem técnicas de convivência conciliatórias. Desse modo, as estruturas intermediárias de relacionamentos socio-políticos, a mediação política, passam a deixar de compor os arranjos procedimentais de decisão. O desdobramento imediato disso é a polarização que Mayer compreende, também, como o estorvar da negociação e conciliação políticas. Na contrarrevolução, a resposta imediata a palcos insurrecionais populares, rompe-se com as “afinidade e elos” (Mayer, 1977, p. 67) que configuram as intercessões das épocas de normalidade.

Ao abdicar da mediação e da conciliação, Dinâmica da contra-revolução... considera um dos fatores que definem a contrarrevolução: “o ataque às instituições políticas livres” (Mayer, 1977, p. 72). Enquanto que os grupos dominantes convencionais estimam o modernismo institucional – política partidária, check and balances, livre expressão, judiciário independente, cartas constitucionais – os agentes daquela têm injunções destrutivas para com ela. Contudo, a ofensiva é ambígua. Pois, o agravo efetivo ao sistema de autoridade usual é, invariavelmente, parco. (A tentação de posições analíticas liberais e liberais-conservadoras da escola do totalitarismo de estabelecer equivalências entre revolução e contrarrevolução, revolucionários comunistas e líderes contrainsurrecionais neste ponto do esquema conceitual de Mayer fica comprometida.) É que:

fala-se, de maneira violenta [...], em reformas, soluções [rápidas] e subsídios em favor de [certas] camadas [sociais] [...] em crise[;] [...] taxação confiscadora de lucros excessivos, regulamentação das grandes indústrias [e restrição] do comércio e da agricultura. [Entretanto], são [imperativos] bastante modestos, principalmente se comparada às dos revolucionários e reformistas avançados, [os socialsitas autênticos] (Mayer, 1977, p. 72).

Os falsos revolucionários, na leitura de Eugen Weber (1972) da teorização de Mayer, são reconhecidos pelos capitalistas – esses “não são insensíveis a este [profundo e decisivo] contraste” (Mayer, 1977, p. 72). Em conjunturas de instabilidade social e política real, os instantes em que a ordem está, concretamente, ameaçada pelas forças transformadoras do povo e dos partidos radicais de esquerda, veem o “projeto contra-revolucionário” (Mayer, 1977, p. 72) como solução inevitável – “o menor dos males” (Mayer, 1977, p. 72) – quando defrontam-se com condições de “insegurança crônica” (Mayer, 1977, p. 72) da perspectiva socio-econômica e socio-política. Com efeito, Arno Mayer sustenta que os contrarevolucionários “pregam a ordem, hierarquia, autoridade, disciplina, obediência, tradição, lealdade, coragem, sacrifício e nacionalismo” (1977, p. 73).

Esse quadro expressa algo de fundamental importância no conceito heurístico mayeriano, qual seja? O fato de que há cooperação utilitária entre vários setores das elites dominantes e a contrarrevolução. Na medida em que o temor das incertezas dos fantasmas da revolução afeta o registro social de setores das classes dominantes, a tendência a mobilizarem os instrumentos da contraofensiva se tornam realidade. Militares, igreja, altos funcionários públicos, imprensa e classe burguesa, “pretendem que os chefes contra-revolucionários funcionem como auxiliares prestimosos, não importa o grau de suas pretensões” (Mayer, 1977, p. 76). Conquanto Mayer diferencie a contrarrevolução das predisposições conservadoras, tradicionais e reacionárias, ele aponta que “afim de assegurar que os revolucionários” (1977, p. 77), o povo em fúria, os partidos e os movimentos socialistas sejam contidos, contenção essa que tem de ser efetuada o mais rápido possível, os grupos e posições da ordem corrente, por conveniência, e em alguns casos por cumplicidade, colaboram “com os [...] contra-revolucionários” (Mayer, 1977, p. 77). Ao confluírem com a contrarrevolução os atores principais do establishment conservador não só aceitam a violência física contra as pessoas dispostas a combaterem a exploração e a opressão econômica e social; diante da pretensão de insubmissos, rebeldes de todos os matizes e insurretos reais que se alçam em contraposição às instituições políticas vigentes, legitimam o terror de “fanáticos cruéis” (Mayer, 1977, p. 81) contra “as forças populares” (Mayer, 1977, p. 80). Vale dizer; “[a] combinação de passividade, indiferença, proteção, [...] [e guarida] junto ao governo [e as elites] se revela melhor, talvez, na relativa imunidade[, aceitação e aprovação] que o terrorismo contra-revolucionário” (Mayer, 1977, p. 81) adquire daqueles.

Em síntese, o esquema heurístico que Arno Mayer erige para teorizar sobre a contrarrevolução apresenta cinco eixos: 1) abandono da mediação política; 2) recusa dos arranjos socioinstitucionais de conciliação; 3) oposição cínica contra as instituições padrões (legislativo, judiciário, constituição, partidos); 4) cooperação pragmática com setores das elites dominantes; 5) e o recurso à violência física, o terror impiedoso, empregado aos intensos descontentamentos dos trabalhadores em geral. Com essa definição ampla e abrangente de contrainsurreição, Dinâmica da contrarevolução..., propícia as bases categoriais sistemáticas para a compreensão de acontecimentos, efetivamente, convulsivos; eventos revolucionários, nas palavras de Hinsley comentando o trabalho de Mayer, “eras de revoluções comunistas, [...] de crises políticas [concretas]” (1972, p. 1440), exigem que historiadores, sociólogos e filósofos políticos se esforcem no delineamento da resposta a essas, às contrarrevoluções.

Na sequência do ensaio, o historiador germano-americano, propõe tornar a conceituação da contrarrevolução mais variada. Ele assevera que:

devido à grande diversidade de condições locais onde eclode, o fenômeno da contra-revolução apresenta diversas facetas. Seria conveniente, portanto, estabelecer uma diferença entre as sete variedades de contra-revolução [que eventualmente possam existir]: preventiva, posterior, complementar, dissimulada antecipadora, de sanção externa, e de imposição interna (Mayer, 1977, p. 91).

Para os objetivos de argumentação deste artigo, como expresso acima, interessa analisarmos o fenômeno da contrarrevolução preventiva.

As experiências de insurreições e rebeliões fracassadas, a expectativa por reformas estruturais gerais articuladas a um “processo de instabilidade governamental prolongado” (Mayer, 1977, p. 91) são itens que configuram a contrarrevolução preventiva. Envolvidos pela ameaça popular, insatisfeitos com o grau de eficiência dos governos (partidos, burocracias, personalidades públicas, juízes) e demonstrando temperamento instáveis em circunstâncias de incerteza, conservadores, liberais-conservadores, reacionários e tradicionalistas – “adota[m] [...] ações preventivas” (Mayer, 1977, p. 93). Os espectros do povo insatisfeitos com os arranjos econômicos e sociais que a partir de determinado ponto entendem, subjetivamente, como insuportáveis, rondam o palco da política e estabelecem para os grupos dominantes “uma vigilância de ferro” (Mayer, 1977, p. 94). É neste quadro de referências históricas que colaboram, antecipadamente, com a contraofensiva: “a contra-revolução preventiva [age ao se defrontar com] um perigo [...] pretensamente iminente” (Mayer, 1977, p. 97). Se a contrarrevolução (ampla e geral) na prática reverte o furação dos de baixo, pois o uso dos dispositivos de repressão e violência física transformam-se em rotina, já que o líderes, grupos e movimentos contrainsurgentes passam a compor o sistema de governo e pontos estratégicos do regime, a preventiva tem por objetivo conduzir “os contra-revolucionários [ao núcleo das instituições políticas] [...] sem jamais [os] entregarem o comando supremo e real” (Mayer, 1977, p. 93) de maneira imediata. (As contradições históricas, nem sempre permitem que se realize o que se cogita.) Assim, ao franquear os portões governamentais à contrarrevolução, uma associação com vistas a ter um fim próximo, as classes econômica, política e culturalmente privilegiadas, desejam a restauração e revitalização (Mayer, 1977) da ordem, sentida essa, supostamente, em vias de ruptura – em busca de resoluções rápidas, ansiosos que estão pela normalidade da vida (dos negócios, do luxo etc), apressam, previnem-se com anterioridade, pela contrarrevolução, transfigurando-a em preventiva. Pode-se sustentar, que o que estamos enfrentando com Trump, Órban, Le Pen, Bolsonaro, Wiedel, Meloni e outros/as mais são modalidades que conformam a noção de contrarrevolução preventiva. Qual ou quais os elementos históricos, políticos e culturais (materiais) que se articulam com meu argumento apoiado pelo Dinâmica da contra-revolução...?

CENÁRIOS MUNDIAIS DE REBELDIA

Na primeira parte expus a compreensão de dois filósofos contemporâneos críticos concernente à “nossa” época de levantes populares (Rodrigo Nunes) e de revoluções moleculares (Vladimir Safatle). Na sequência apresentei análise do ensaio heurístico de Arno Mayer tratando da contrarrevolução e um dos seus matizes. E é a partir de uma dessas variações desenvolvidas pelo historiador que sustento a afirmação ao qual o surgimento e reorganização da extrema direita mais do que a crise da democracia, o populismo de direita e o neofascismo – é, de fato, a conformação de uma contrarrevolução preventiva. A materialidade teórica do esquema interpretativo que proponho, tem de ser apreciada tendo a crise do sistema capitalista de 2008, as rebeliões pelo mundo (Primavera Árabe, Indignados na Espanha, Junho de 2013, insurreição na Grécia e Occupy Wall Street, Revolta Mapuche no Chile) e a ascensão das novas sociais-democracias no horizonte de entendimento.

Antes das rebeliões populares atravessarem o mundo, “o Lehman Brothers entrou com pedido de recuperação judicial em 15 de setembro de 2008, uma segunda-feira, e teve sua falência decretada” (UOL-Notícias, 10/10/2021); um dos maiores bancos de investimento que as sociedades ocidentais já conheceram, de acordo a notícias da imprensa especializada, possuía “uma dívida de US$ 613 bilhões; [a instituição], fundada em 1847, [na ocasião] empregava cerca de 25 mil pessoas no mundo todo” (UOL-Notícias, 10/10/2021). A queda do sistema econômico em 2008 resultava de uma profunda mudança no regime de acumulação do capital. A estrutura da economia internacional transformava os padrões de lucratividade, que outrora provinham com maior importância dos setores industriais. A financeirização do capitalismo, uma das faces do neoliberalismo, se tornava o eixo central do lucro. As debilidades de arranjos econômicos voltados para a valorização do capital que não estejam assentados em formas concretas é tema de debate desde os anos 1990. Assim, as fragilidades do sistema bancário e financeiro (as bolhas das ações, dos títulos, do setor imobiliário), do crédito e do crédito para o consumo das famílias (des)organizavam o capitalismo (Brenner, 2004).

Vê-se aí a conformação do núcleo da crise das hipotecas subprime que derrubou a economia mundial. Uma das mais detalhadas exposições acerca das bolhas imobiliárias no âmbito das abordagens econômicas críticas encontra-se no artigo de Robin Blackburn, Las crisis de las hipotecas subprime, na NLR nº 50 de maio/junho de 2008. Blackburn descreveu com precisão crítica o porquê da crise de 2007-2008 no cerne do capitalismo internacional. Com a financeirização da economia impulsionada por Clinton e Bush, houve um fenômeno de opacidade do sistema bancário norte-americano (Blackburn, 2008) (e europeu). Isto era “consequência da desregulação que permitiu a muitas instituições financeiras assumir funções bancárias” (Blackburn, 2008, p. 58). O quadro se completa por um lado, com a anuência dos profissionais das finanças (Blackburn, 2008, p. 58), os executivos treinados nas melhores escolas de finanças e de negócios; por outro lado, Alan Greespan, um dos mais longevos presidentes do FED, o banco central americano, era um “animador do sistema de serviços financeiros” (Blackburn, 2008, p. 58, p. 72) como modalidade de acumulação do capital. Dessa forma, um sistema econômico financeirizado, que tornou sua dinâmica de funcionamento oculta, que incentivou a expansão de derivativos hipotecários sem alicerce material sólido e exalçado pelo mago das finanças ruiu em 2007-2008. Conquanto as “vítimas mais diretas da crise tenham sido mulheres jovens, afroamericanos e outras minorias [que tiveram que enfrentar] [...] recessão, redução dos salários e contração do mercado de trabalho” (Blackburn 2008, p. 87), a recuperação não teve neles a consideração precípua; ao contrário, foram os bancos de investimentos que receberam uma engenharia político-financeira por parte dos Estados e dos governos pouco vista na história recente – a tomarmos as cifras disponibilizadas pelos Bancos Centrais.

Compactuados, as elites econômica e política nos Estados Unidos, na Europa do norte e do sul, da Asia e da América intervieram para evitar o colapso da ordem do capital. Podemos sugerir, portanto, que a recuperação de instituições financeiras que eram responsáveis pela crise teve a partir de governos, bancos centrais e planos econômicos bilhões de dólares em auxílios diretos e indiretos (Watkins, 2010). Desse modo, como afirma Susan Watkins, “o relato oficial sustenta que uma inimaginável crise devastadora para [...] [o] sistema foi evitada pela decisiva intervenção dos Tesouros e [dos Bancos Centrais pelo mundo]” (Watkins, 2010, p. 8). Na avaliação do economista Frederico Mazzucchelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, as estruturas de sentimentos das classes populares foram, grandemente, afetadas com as medidas empreendidas pelos governos na recuperação do sistema financeiro internacional (Mazzucchelli, 2008). Pois, de acordo com ele “as contradições da [...] crise [sucedeu] a níveis sem precedentes de desigualdade [...] ameaçando o futuro [de toda uma] geração [e a própria] sobrevivência da humanidade” (Foster, 2017). Caracterizando a situação no site socialista International Viewpoint,Toussaint (2012), comenta que as sedições populares levaram às ruas e às praças públicas um conjunto de formas inovadoras de protestos políticos; com a Primavera Árabe, os Indignados, o Occupy Wall Street e o Levante Grego expressavam simultaneamente, o desejo de mudança e modalidades distintivas de ação política imaginativas. E em muitas delas, como afirma o cientista político Jean Tible (2022), se conformavam políticas imaginativas selvagens, definitivamente, contrarias à ordem econômica e social vigente.

Com efeito, “a força vulcânica da população nas ruas” (Colussi, 2019, p. 6) foi variada. As reivindicações em Tahir tinham na exigência do pão sua palavra de ordem; ela havia sido o móbil da Primavera Árabe – trazendo à lembrança o Outubro russo (Davis, 2012). As causas subjacentes para o descontentamento estavam associadas às vicissitudes econômicas após 2008, pois nesse período, o “preço de artigos básicos [de consumo alimentar] dispararam 25%” (Davis, 2012, p. 13); na medida em que os árabes dispendem 60% de seu orçamento familiar com farináceos, açúcares e óleos vegetais, o aumento exorbitante desses itens de primeira necessidade elevou a taxa de pobreza por um lado, e ocasionou um conjunto de revoltas por diversas sociedades árabes por outro. No epicentro da crise de 2008, os Estados Unidos, insatisfeitos e decepcionados com a postura de Barack Obama, que havia prometido durante as primárias do Partido Democrata e na companha presidencial contra o republicano John McCain um governo para os americanos – “Não existe uma América liberal e uma América conservadora, existe os Estados Unidos da América. Não existe uma América negra e uma América branca, nem uma América latina e uma América asiática, existe os Estados Unidos da América” (The Washington Post, December, 7, 2011) –, mas que na ocasião da queda do Lehmann Brothers substituiu a América para americanos pela América para os 1%: estudantes, sindicalistas e movimentos negros desencadearam “sucessivos protestos” (Watkins, 2016, p. 10) a partir de 2010. Ondas gigantescas de solidariedades rebeldes cortavam a América exigindo outro modelo de sociedade: uma que a vontade dos 99% não fosse obstruída e reprimida pelos ditos e não ditos dos que tinham sido os responsáveis por um presente e um futuro sombrios. Na Grécia e na Espanha, o intolerável capitalismo neoliberal que desde os anos 1980-1990 vem causando fome e desesperança, com a ruptura econômica mundial desencadeada em fins de 2008 transformava as perspectivas de vida das populações trabalhadoras inaceitáveis (Rojas, 2012, p. 8 e 9). Para gregos e espanhóis, nas palavras do prestigiado jornalista do The Guardian, Robert Fisk, “os bancos [são] os ditadores do Ocidente” (Fisk apudRojas, 2012, p. 10). Deste modo, o assalto das ruas em Atenas e as sublevações do 15M em Barcelona demonstravam não só espírito de resistência – apresentavam ao mundo uma energia na capacidade de organização dos de baixo que “lembravam” os dias mais gloriosos dos grandes acontecimentos de massa no século XX. Depois de muito tempo o campo político de esquerda (radical) pode presenciar “assembleias [de rua e de] bairro, no lugar de trabalho [...] [e] ações diretas contra” (Watkins, 2016, p. 11) líderes mundiais e governos, bancos e fundos de investimentos, executivos e gigantes do comércio. Qual foi a sequência dessas insurreições? Por que elas não conseguiram, e aqui sem tergiversar com as palavras, derrubar a ordem econômica, social e política vigente e conquistar o poder do Estado instaurando uma nova era para a humanidade, que a muito atravessa processos de sofrimento físico, material e psíquico? E por fim, como esse processo se reverteu em contrarrevolução preventiva na fase posterior?

DINÂMICA DA CONTRARREVOLUÇÃO (PREVENTIVA) HOJE

Não é o objetivo deste artigo tratar em detalhe as resultantes dos levantes e das revoluções moleculares que marcaram a primeira década do século XXI; para isto teria que adentrar na especificidade dos agrupamentos que se constituíram na esteira das sedições nos Estados Unidos, Grécia, Espanha, Inglaterra, França, Brasil, Chile e mundo Árabe. O quadro que expus há pouco, tem o caráter muito mais sinóptico-sintético do que analítico-descritivo. Com isto, tendo em vista a estrutura que configura minha problematização, é suficiente seguir o já citado trabalho de Susan Watkins, Novas oposições, e a constatação feita por ela, a saber: as revoluções que responderam a 2008, porquanto foram entrando no estágio de estabilização, combinado com a ingerência decisionista das instituições estatais na recuperação do sistema financeiro, convergiram no que a teórica da New Left Review chamou de novas sociais-democracias (Watkins, 2016). Vale dizer; a ausência de um conjunto de ideias radicais coerentes (marxista, teoria crítica autêntica, pós-estruturalista-desconstrucionista, socialistas abrangente, bourdieuseana e populista de esquerda), as debilidades e moderação nas demandas, um cosmopolitismo “liberal” ingênuo e formas de organização burocrática que “Lênin teria desprezado” (Watkins, 2016, p. 16) absolutamente, transfiguraram o élan insubmisso das trincheiras em planos eleitorais. Syriza, Podemos, Bernie Sanders, Jeremy Corbyn, a Frente de Esquerda Francesa, o Die Linke e Beppe Grillo (M5E), se converteram em simples instrumentos eleitorais – “nasceram radicais”, diz Susan Watkins, “porém reconfiguraram seus projetos em um cálculo para o espaço eleitoral disponível” (2016, p. 34). Aquilo que o teórico político Jean Tible, professor do departamento de ciência política da USP, que já nos referimos acima, nomeou com tirocínio de “a política selvagem – Revolta. Revolução. Rebelião. Insurreição. Insurgência. Levante [...] Barricada. Greve. [...] Manifestação” (2022, p. 18 e 19) se metamorfoseou em política sistêmica, em política para o sistema. Contudo, as contradições após a falência do Lehmann Brothers e congêneres da economia liberal financeirizada ainda permaneceram.

Nos termos da composição heurística de Arno Mayer, havia ainda instabilidade, indecisão e incerteza perpassando o ânimo das elites dominantes.2 Um novo soerguimento da esquerda e das manifestações dos anos 2010, 2011, 2012 e 2013, reeducado na cultura de rua, e eventualmente, se defrontando com planos econômico-políticos que impunham procedimentos estruturais austeros e opressivos para a massa de trabalhadores/ras não poderiam serem ocultados. O temor era uma constante nos governos, na classe política e nas elites dominantes. Uma das determinantes para isso era a própria maneira ao qual as organizações internacionais se reposicionaram após 2008; houve “uma convergência do establishment” (Watkins, 2010, p. 13) acerca da necessidade de reformulação das instituições decisórias. Com novas medidas de austeridade, decorrentes dos gastos dos Bancos Centrais na restauração financeira do neoliberalismo, o desenho político requeria maior “liberdade” no exercício de suas atividades principais. Por outras palavras, na sequência dos fatos “a arquitetura do sistema do euro, [por exemplo], foi planejada para se tornar imune às pressões [...] [populares]” (Watkins, 2014, p. 14). A Troika – BC Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional –; os discursos de Geithner, presidente do Federal Reserve de Nova Iorque; a agressividade do governo francês de Sarkozy obrigando a Grécia e a Itália a se afastarem das ruas e se comprometerem com resgate dos bancos em dificuldades; as condições específicas impostas para a Irlanda pela City de Londres; e um conjunto de sociais-democracias pelo mundo — (o PT no Brasil sendo um exemplo irrefutável daquela conjuntura escolhendo o ex-executivo do Banco Bradesco, o economista Joaquim Levy, para Ministro da Fazenda) que consentiam em vencer eleições, mas que no momento seguinte se encastelavam nas alcovas dos Estados, na “política do segredo” (Bobbio, 2016) – desvelaram o quanto, paradoxalmente, o descontentamento dos afligidos pelo colapso de 2008 não seria aplacado. Seria, isto sim, e ainda que já sem estarem impulsionadas pela paixão das ruas, frutificado novamente. Na realidade, a frustração com a ordem neoliberal demonstrada pelas massas populares ainda vigorava no Ocidente e no Oriente (Anderson, 2017); a aversão ao livre mercado compunha as diversas modalidades de decepção e apreensão da crise, e no mesmo movimento aos mecanismos responsivos a ela (Nunes, 2022).

Os pesquisadores Manuel Funke e Christoph Trebesch, do Kiel Institute for the World Economy, no estudo Financial crises and populista right, são precisos ao dizerem que:

as consequências da crise financeira de 2008 podem, portanto, serem caracterizadas por uma “ascensão da direita” em várias dimensões. Partidos inexistentes ou em grande parte desconhecidos antes de 2008 foram impulsionados para o mainstream político. Isso também se aplica a um subconjunto de países, como Alemanha, Finlândia e Grã-Bretanha, que foram amplamente imunes à política populista por décadas. Além disso, nos países onde o populismo de direita já era forte desde o início, a parcela de votos das forças populistas aumentou ainda mais (2017, p. 8).

O trumpismo e símiles, em face do quadro descrito pelos pesquisadores, são, assim, um caso distintivo de contrarrevolução preventiva. Nos Estados Unidos formados pelo legado da raça, em que a cultura econômica sempre foi considerada um espaço privado impenetrável (Hofstadter, 1948), mesmo que essa cultura custasse níveis extremos de desigualdade e pobreza, “a crise financeira de 2008 radicalizaria [...] [tais] dimensões da economia [americana]” (Popovic, 2021, p. 4). Além disso, os perdedores da globalização assistiram com angústia, aos conchavos tramados pelos bancos de Wall Street e as elites tecnocráticas não eleitas.

Agora não era mais o esplendor de jovens e trabalhadores auspiciosos com bandeiras e cartazes, acompanhados por inéditas organizações de esquerda (mesmo que débeis...), ecoando cânticos por outras formas de vida que apareceriam enquanto alternativa: o represado retornava agora (Streeck, 2017) com figuras que o campo político e econômico dominante, prevalecente, preferiam à ameaça da insurreição, que poderia advir, circunstancial e eventualmente, na medida mesma em que, nos termos de Arno Mayer, a “instabilidade [...] prolongada, [...] a urgência [econômica] da situação e a gravidade das alternativas das políticas [...] [que ameaçam a existência sistêmica]” (1977, pp. 91 e 92) estariam rondando a ordem em vigência como um fantasma incontido. O editorial do jornal O Estado de São Paulo, em 30 de novembro de 2018, tinha significado contraditório-imanente, de que a escolha difícil revelava que para a elite econômica e política brasileira “nunca foi uma escolha difícil” (Santana, 2022); sabia-se o que seria o governo contrainsurrecional de Jair Bolsonaro (e sua família), pois eles “nunca foram um candidato normal ou pertencente ao campo democrático” (Santana, 2022). Caos com método (Nobre, 2019) era preferível a um ambiente instável que pós-2013 e a insatisfação com a austeridade empobrecedora do Ponte para o Futuro (o Teto de Gastos que retira direitos sociais dos cidadãos conquistados com luta e sofrimento) da presidência de Michel Temer poderia fazer desencadear novas rebeliões.

Conservadores, reacionários, liberais-conservadores, tradicionalistas e ultra-liberais, portanto, buscam na contrarrevolução preventiva (Mayer, 1977, p. 92, 95, 97), temendo “o reavivamento de qualquer movimento popular” (Mayer, 1977, p. 97), o apoio fundamental para evitar com que sua sociedade passe por um rompimento definitivo. Políticos contrarrevolucionários como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orban, Mateo Salvini, Marine Le Pen, Alice Weidel, Boris Johson e Georgia Meloni que desprezam as normas legais, militarizam a vida social, agridem o judiciário, recusam a pluralidade e desrespeitam o legislativo, tudo isso com desfaçatez de classe (pois “fazem parte” do establishment mais alargado), respondem com graça e desenvoltura ao chamado para agirem preventivamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do artigo propus alternativa para interpretar o surgimento da extrema direita mundial. Tratei de argumentar que estamos diante de uma contrarrevolução preventiva – nos termos estabelecidos no ensaio heurístico Dinâmica da contra-revolução na Europa:1870-1956. Ou seja, a ancoragem teórica para sustentar que mais do que uma crise da democracia, um populismo de direita e um neofascismo (todas essas formulações tendendo a associar, substantivamente, esses fenômenos à irracionalidade dos populares que apreendida pelo carisma e traço emotivo de políticos iliberais), estamos vivenciando um processo prolongado de contrainsurreição antecipada, procedeu do historiador Arno Mayer. Quais as implicações do argumento?

Um dos desdobramentos expressados na noção de contrarrevolução preventiva mayeriana é completar o léxico de leituras disponíveis nas ciências sociais, na história, na filosofia e na teoria política sobre o fenômeno de surgimento da extrema direita a partir de 2015-2016. Não se trata de substituir, ou abandonar entendimentos que se apoiam nas concepções de crise da democracia, populismo de direita e neofascismo; o que se intuiu nesta proposta, estudo, foi abordar o conservadorismo intransigente tendo como fundamento implícito a compreensão de que aqueles políticos mencionados e seus respectivos grupos e movimentos, respondiam e respondem a uma era de insurgência – a uma era ao qual a insatisfação generalizada e difusa do conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras com modalidades de vida excessivamente exploratórias e opressivas pelos plano de austeridade impostos pelas elites econômicas e políticas mundiais pode irromper.

Com efeito, a construção que ofertei no ensaio não coaduna com, grosso modo, modelos que, tendencialmente, formulam seus esquemas de investigação em conceitos da cultura liberal abrangente (Frank, 2018). A filosofia política do liberalismo predominante, ainda que nas pesquisas acadêmicas e nos debates intelectual e político (Frank, 2018), oculta a materialidade histórica que circundava as contingências sociais e econômicas pelo qual homens como Donald Trump, Boris Johnson e Viktor Orban orientavam sua atuação no palco da política mundial. Para averiguações que partem da crise da democracia, do populismo de direita e do neofascismo, a centelha da revolução que singrou as sociedades ocidentais e orientais desafiando com denodo e ousadia, acalentando a esperança de milhares de pessoas pelo mundo, a hegemonia neoliberal que foi colocada em dúvida, efetivamente, com o colapso do sistema financeiro em 2008, não é, em geral, uma variável consistente de explicação. Meu argumento ao longo do texto, implica, assim espero, foi para ponderar esse estilo de teorização.

Arno Mayer e seu a Dinâmica da contra-revolução na Europa: 1870-1956 alertam para o fato inegável de que a política, sobretudo neste início de século XXI, pode não ser apenas constituída por líderes que vilipendiam (com cinismo, pois muitos fazem parte delas de a muito) as instituições das democracias liberais e o “povo insensato carente de afeto”. As análises científicas e o pensamento crítico, por conseguinte, têm de estar atentos, também, aos levantes e revoluções moleculares – tais como as que verificamos na Primavera Árabe; nas revoltas na Grécia; no Occupy Wall Street; no Junho de 2013; nos Indignados espanhóis; nos Mapuches no Chile e no M5S italiano. As classes dominantes, sempre com mentalidade, “índole” e temor preventivo estão, cotidianamente, de sobreaviso. Por fim, uma sociedade justa e democrática, portanto, dependerá o quanto pesquisadores/ras levarão as sugestões mayerianas a sério no próximo período.

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  • 1
    Sobre esse debate econômico-político ver Brenner (2006 [2004]) e Brenner e Riley (2022).
  • 2
    Neste ponto convém a seguinte consideração. É certo que o corpo da literatura crítica, abordagens críticas, sobre o aparecimento, ou mesmo da reorganização, da extrema-direita oferta um conjunto de teorizações bastante significativo para a compreensão e entendimento do atual momento histórico que estamos atravessando. As linhas investigativas do progressismo – de Wendy Brown sobre os processos de subjetivação normativa dos comportamentos que ao mesmo tempo forjam personalidades conservadoras ressentidas e iliberais e desfaz as instituições democráticas (Brown, 2019; 2021), bem como as duas racionalidades que convergem, a neoliberal e neoconservadora, para produzir o cenário de sociedades de gestão e desdemocratizadas (Brown, 2006); de Wolfgang Streeck cuja a preocupação é com fim do capitalismo democrático propiciado pelo Welfare-State o que provoca perturbações estruturais na democracia com a insatisfação dos cidadãos outrora não participantes do jogo político-eleitoral (Streeck, 2012, 2017); e de Nancy Fraser de que a vantagem social e política da direita contemporânea se deve ao que ela nomeou de neoliberalismo progressista, estratégias de ação nas quais há compatibilização entre as demandas multiculturais por reconhecimento e a gerência neoliberal da economia voltado para as individualidades e grupo específicos (Fraser, 2020) – são sugestivas e imprescindíveis para teoria social e política contemporânea no esforço de apresentar diagnósticos e respostas ao que podemos chamar de right’s moment. Contudo, e bem entendidas as coisas já que se trata de autoras e autor de concepções teoricamente diferentes, as dinâmicas da gênese de nosso tempo histórico de crises e instabilidades não são analisadas a contento, de modo que, a posição política da direita surge, por vezes, como meramente uma solução para a irresponsividade de várias instituições sociais e políticas. É como se não houvesse, desde a debacle de 2008, sujeitos e/ou agentes políticos – trabalhadores, desempregados, estudantes, mulheres oprimidas, imigrantes – que dissessem: não queremos mais essas formas de vida, e que teriam que ser contidas, de uma maneira ou de outra, ante e sob o risco de irem às ruas novamente, com a esperança renovada e que poderia circunstancialmente ser mais radical. A contrarrevolução preventiva era e tem sido um expediente político à disposição dos grupos dominantes de sempre.
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  • Editor Chefe:
    Renato Francisquini Teixeira

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    01 Jun 2025
  • Aceito
    24 Nov 2025
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