Open-access BOLSONARISMO COMO COALIZÃO DISCURSIVA DE EXTREMA-DIREITA

BOLSONARISM AS A FAR-RIGHT DISCURSIVE COALITION

BOLSONARISMO COMO COALICIÓN DISCURSIVA DE EXTREMA DERECHA

Resumo

Este artigo discute a caracterização do bolsonarismo, problematizando sua recorrente definição como uma forma de populismo. Argumentamos que essa abordagem é inadequada, pois o conceito de populismo, ao remeter à noção abstrata de “povo”, se mostra excessivamente amplo e normativo. Utilizando a metodologia da formação conceitual, propomos, alternativamente, compreender a extrema-direita como um conceito espacial e relacional, no qual diferentes tradições ideológicas e discursivas convergem em um campo de disputa política. Partindo dessa perspectiva, definimos o bolsonarismo como uma coalizão discursiva de extrema-direita, que articula quatro vertentes ideológicas principais: neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e autoritarismo militar. Essa coalizão é sustentada por um antagonismo comum – o anticomunismo e, em sua manifestação recente, o antipetismo. Além de contribuir para a análise do bolsonarismo, o artigo busca fornecer uma matriz conceitual que permita comparações mais rigorosas entre as novas extremas-direitas latino-americanas, superando as limitações dos modelos analíticos existentes.

PALAVRAS-CHAVE:
Extrema-direita; Populismo; Bolsonarismo; Ideologia política


Abstract

This article examines the characterization of Bolsonarism, questioning its recurrent definition as a form of populism. We argue that this approach is inadequate, as the concept of populism, by referring to the abstract notion of “the people,” proves to be excessively broad and normative. Using the methodology of conceptual formation, we propose instead to understand the far right as a spatial and relational concept, in which different ideological and discursive traditions converge within a field of political struggle. From this perspective, we define Bolsonarism as a far-right discursive coalition that articulates four main ideological strands: neo-fascism, ultra-liberalism, Christian conservatism, and military authoritarianism. This coalition is held together by a common antagonism – anti-communism and, in its recent manifestation, anti-Petismo. In addition to contributing to the analysis of Bolsonarism, this article aims to provide a conceptual framework that allows for more rigorous comparisons between the new Latin American far-right movements, overcoming the limitations of existing analytical models.

KEYWORDS:
Far right; Populism; Bolsonarism; Political ideology


Resumen

Este artículo discute la caracterización del bolsonarismo, cuestionando su frecuente definición como una forma de populismo. Argumentamos que este enfoque resulta inadecuado, pues el concepto de populismo, al referirse a la noción abstracta de “pueblo”, se revela excesivamente amplio y normativo. Utilizando la metodología de formación conceptual, proponemos, alternativamente, entender la extrema derecha como un concepto espacial y relacional en el cual distintas tradiciones ideológicas y discursivas convergen en un campo de disputa política. Desde esta perspectiva, definimos al bolsonarismo como una coalición discursiva de extrema derecha que articula cuatro vertientes ideológicas principales: el neofascismo, el ultraliberalismo, el conservadurismo cristiano y el autoritarismo militar. Esta coalición se sostiene sobre un antagonismo común: el anticomunismo y, en su manifestación más reciente, el antipetismo. Además de contribuir al análisis del bolsonarismo, el artículo busca ofrecer una matriz conceptual que permita comparaciones más rigurosas entre las nuevas extremas derechas latinoamericanas, superando las limitaciones de los modelos analíticos existentes.

PALABRAS CLAVE:
Extrema derecho; Populismo; Bolsonarismo; Ideología política


Na ciência política brasileira, tornou-se frequente analisar o fenômeno do bolsonarismo a partir do conceito de populismo. A particularização da forma, entretanto, variou. Para Rennó, Avritzer e Carvalho (2021) o bolsonarismo é um populismo de direita, opinião partilhada por Silva e Rodrigues (2021); von Bülow e Abers (2022) pensam tratar-se de uma manifestação do populismo da direita radical; Couto (2023) considera que é um populismo religioso; Mendonça e Caetano (2021) afirmam que o bolsonarismo insere-se na corrente do populismo de extrema-direita que tem prosperado no mundo; e Lynch e Cassimiro (2022) propuseram como chave analítica a ideia de populismo reacionário.

Nesse artigo, argumentamos que o conceito de populismo não é adequado para compreender o discurso e a ideologia bolsonaristas. Por ser amplo e generalizante, ele pouco contribui para captar as especificidades do fenômeno. Sugerimos, em vez disso, uma abordagem centrada no campo político-ideológico ao qual o bolsonarismo pertence: o da extrema-direita, da qual representa uma variante local.

Na literatura internacional sobre as extremas-direitas, muitos estudos enumeram características gerais que definiriam o pertencimento a esse campo, o que levanta o problema de sua diversidade interna. Além disso, no elenco desses atributos acabam assumindo um viés regional, adotando como critérios definidores da extrema-direita algumas características salientes nos casos do Norte global, europeus e estado-unidense, menos conspícuas em grande parte do Sul global, como é o caso da América Latina. Optamos, aqui, por adotar uma definição da extrema-direita como conceito espacial e, portanto, eminentemente relacional, abordando-a como um espaço no qual confluem diferentes famílias ou tradições ideológicas e discursivas.

Avançamos nossa definição alternativa do bolsonarismo, inspirados por estudos sobre think tanks e políticas públicas. Utilizamos o conceito de “coalizões discursivas”, que articula discursos ideológicos diversos. Essa articulação dá unidade às práticas de certos atores, tanto no Estado quanto na sociedade, permitindo-lhes disputar a hegemonia. Nessa chave, entendemos que a coalizão discursiva bolsonarista seria composta por quatro tradições ou vertentes características – neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e autoritarismo militar –, aglutinadas pelo antagonismo a inimigos comuns, delimitados pelo anticomunismo e pelo antipetismo. Por fim, procuraremos assinalar como esse modelo teórico criado para pensar o bolsonarismo em sua dimensão propriamente ideológica também pode ser útil para orientar pesquisas comparadas na América Latina, avançando na direção de uma matriz comparativa das coalizões discursivas das novas extremas-direitas latino-americanas.

O BOLSONARISMO NO LABIRINTO DO POPULISMO

Como notado de saída, se o emprego do conceito de populismo prevalece na bibliografia que procura caracterizar o bolsonarismo, seus usos variam significativamente. O que é sugerido pela diversidade de adjetivos que o acompanham, “religioso”, “de direita”, “de direita radical”, “reacionário”, etc. Em grande medida, tal variabilidade pode ser atribuída ao caráter proverbialmente elusivo, fugidio e essencialmente contestado do conceito, único consenso que parece existir na literatura internacional sobre o tema (Weyland, 2001; Laclau, 2005, p. 3). Assim sendo, cabe perguntar, inicialmente, quais as acepções de populismo empregadas na literatura sobre o bolsonarismo? Revisando algumas das principais contribuições, podemos afirmar que nessa bibliografia prevalecem três abordagens principais: a definição “ideacional” do populismo, sustentada por Mudde e Kaltwasser (2018), a definição do populismo como estilo de liderança, defendida por Pierre Rosanvallon (2021), e a teoria do populismo como prática discursiva, proposta por Ernesto Laclau (2005).

Em sua análise da adesão de parte da opinião pública brasileira ao negacionismo bolsonarista durante a pandemia de Covid-19, Rennó, Avritzer e Carvalho (2021) aderem à perspectiva “ideacional” do populismo – definido como ideologia que opõe “povo” e “elite” –, combinando-a com a caracterização de um estilo de liderança política avesso à mediação institucional da representação. Os autores enfatizam em sua abordagem o equilíbrio entre a “oferta” de populismo pelas elites políticas e a “demanda” por setores da opinião pública, destacando como, na recente crise da democracia brasileira, o enfraquecimento dos gate-keepers1 acabou permitindo que a demanda de grande parte da população por um apelo populista encontrasse correspondência na oferta ideológica do bolsonarismo.

Já Christian Lynch e Paulo Henrique Cassimiro (2022) recorrem à já citada obra de Rosanvallon (2021), destacando o conceito de “representação-encarnação”, pelo qual o líder populista procuraria representar “autenticamente” o “povo”, desembaraçando-se das mediações liberal-democráticas, impostas pelas elites (Lynch; Cassimiro, 2022, p. 16-17). De modo a sublinhar a especificidade ideológica do bolsonarismo, os autores agregam a essa definição o qualificativo de “reacionário”, destacando a reação intelectual e política aos processos de liberalização, democratização e secularização das sociedades modernas (Lynch; Cassimiro, 2022, p. 23-24).

Von Büllow e Abers (2022), por seu turno, definem o bolsonarismo como “populismo da direita radical” (PRR, no acrônimo em inglês), destacando a importância dos atores sociais organizados para a emergência desse fenômeno, em contraposição às interpretações que pensariam o populismo como a relação entre um líder e uma massa de indivíduos desorganizada. A noção de um “populismo da direita radical” ou de uma “direita radical populista” é tributária dos trabalhos de Cas Mudde, que propõe uma distinção no interior do campo que denomina como “ultradireita”, entre uma extrema-direita, que recusaria as regras do jogo democrático em seu conjunto, e uma “direita radical populista”, que aceitaria a regra democrática da maioria, mas recusaria o pluralismo político-cultural que dá conteúdo à democracia liberal (Mudde, 2021, p. 20).

A remissão à concepção de Mudde também aparece no trabalho de Silva e Rodrigues (2022), mas aqui repensada à luz do conceito de populismo enquanto forma ou prática discursiva, postulada por Laclau (2005). A teoria laclausiana do populismo também subjaz, em apropriações diversas, às análises do bolsonarismo de Maetino (2021), Nunes (2022), Silva (2023) e Mendonça (2023), havendo ainda pesquisas recentes que partem dessa matriz teórica para propor comparações entre o caso brasileiro e outras experiências de extrema-direita, na América do Sul e na Europa (Baron, 2023; Campello, 2023).

Dessa maneira, constata-se que a noção de uma “direita radical populista” (Mudde, 2021), na qual o populismo é compreendido em chave ideacional, é a mais comumente empregada nos trabalhos aqui analisados sobre o bolsonarismo, sendo por vezes complementada pela definição do populismo como estilo de liderança contrária à mediação institucional. Como principal alternativa, se apresenta a teoria laclausiana do populismo enquanto modalidade de discurso político. Daí que valha a pena concentrarmo-nos na contraposição entre as definições ideacional e discursiva do conceito, assinalando seus principais problemas.

Para Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser, o populismo é um estilo ideológico que estabelece uma oposição entre dois grupos: de um lado, o “povo”, retratado como puro e honesto; de outro, as “elites”, vistas como corruptas. Esse estilo pode assumir diferentes orientações políticas, manifestando-se tanto em formas inclusivas, associadas à esquerda, quanto em formas excludentes, associadas à direita (Mudde; Kaltwasser, 2018, p. 1669-1670). Ainda que forneça uma conceituação parcimoniosa e delimitada, nos parece que a definição “ideacional” não escapa aos dois problemas principais da literatura acerca do populismo em suas múltiplas variantes: o excesso de vagueza e de normatividade (Kaysel; Chaloub, 2021, p. 146-148).

Aqui, cabe enfatizar que definir o populismo como uma ideologia, acaba por abarcar uma ampla gama de casos concretos, muito distintos entre si, quando não politicamente opostos. Afinal, o que identificaria as lideranças ou os ideários de Chávez e Trump, senão seu distanciamento em relação à democracia liberal? Nesse ponto se insinua o outro problema acima aludido, o excesso de normatividade do conceito.

Ao examinarmos a distinção proposta por Mudde (2021), entre uma “direita radical populista” e a “extrema-direita”, fica claro que o critério de distinção é a adesão, ou não, às regras do jogo próprias à democracia liberal, erigindo esta última em um parâmetro, ao mesmo tempo classificatório e normativo. Assim, a direita radical populista e a extrema-direita seriam ambas formas iliberais de política, distinguindo-se por seu grau de distanciamento do regime democrático-representativo.

Nesse tocante, a concepção de Mudde de uma “direita radical populista” se afina com a literatura sobre a “crise da democracia” (Levitsky; Ziblat, 2018), que identifica justamente na emergência do “populismo” a principal ameaça ao jogo democrático (Kaysel; Chaloub, 2021, p. 176-177). Tal leitura subjaz de maneira ainda mais clara à definição do populismo como estilo de liderança que rompe com as mediações institucionais, defendida por Rosanvallon (2021).

A teoria do populismo de Ernesto Laclau se distingue por conceber o conceito em termos expressamente formais, entendendo-o como uma maneira de construção da hegemonia, por meio da articulação de demandas populares heterogêneas, de modo a dividir o social em campos antagônicos (Laclau, 2005, p. 129-153). Tal enquadramento logra, ao mesmo tempo, dar sentido à polissemia inerente ao conceito, e evitar o viés normativo predominante na literatura, concebendo que podem existir tanto formas democráticas como autoritárias de populismo (Mouffe, 2018, p. 37-38).

Em que pese tais vantagens, essa alternativa traz como problema um excessivo formalismo, talvez inescapável, dada sua fundamentação teórico-metodológica pós-estruturalista, que a torna por vezes muito distante da ampla gama de experiências históricas concretas que busca interpretar (Kaysel; Chaloub, 2021, p. 169-170).2 Como argumenta Marco D’Eramo (2013, p. 9), se evita o viés pejorativo típico à maioria das acepções do vocábulo, a concepção discursiva do populismo acaba por tomar a polissemia do conceito por seu valor de face, remetendo-a ao emissor do discurso.

A rigor, ainda que esse problema se evidencie de maneira mais clara na concepção laclausiana, ele acaba sendo uma característica inerente ao populismo enquanto conceito. Detenhamo-nos, por um momento, no elemento que constitui o denominador comum de todas as suas variantes: a noção de povo. Como esclarece Chantal Mouffe (2018, p. 34), o “povo” não é um “referente empírico”, apreensível por meio de categorias sociológicas, mas uma construção político-discursiva, não possuindo existência prévia à sua articulação performativa.

Desse modo, o problema estaria no próprio desenho do conceito, o qual frequentemente é apresentado como uma “categoria universal”. Conceitos desse tipo possuem elevado grau de abstração (Sartori, 1970) ou generalização (Collier; Mahon, 1993), e tendem a acolher sob uma mesma definição um conjunto de fenômenos muito diferentes entre si. O problema do conceito de populismo é que a característica essencial que o define contém outro conceito generalizante: o povo. Essa sobreposição de generalizações implica em uma categoria incapaz de discriminar fenômenos muito diferentes entre si. O acréscimo de uma qualificação secundária – direita radical, reacionário etc. – não resolve o problema, uma vez que ele reside na partícula principal.

Assim sendo, conforme afirmado na introdução, não consideramos o populismo um conceito adequado para flagrar os contornos específicos do bolsonarismo enquanto fenômeno histórico concreto, sendo, portanto, necessário buscar uma alternativa conceitual que nos permita flagrar tais especificidades. Como também ficou dito ali, nos parece mais profícuo abordar as definições do campo político-ideológico mais amplo do qual o movimento bolsonarista faz parte, enquanto expressão particular do caso brasileiro, isto é, a extrema-direita.

EXTREMA DIREITA: UMA CONCEPÇÃO ESPACIAL

Com frequência, a extrema-direita foi definida a partir das características que comporiam seu núcleo ideológico. A literatura sobre o tema, entretanto, divergiu a respeito destas. Algumas interpretações procuraram destacar um único aspecto que definiria essa ideologia, tal como o exclusivismo racial (Husbands, 1981), preconceitos etnoculturais (Giugni et al., 2005), atitudes anti-igualitárias (Cornelis; Van Hiel, 2015) ou a presença de teorias conspirativas (Jamin, 2009). A desvantagem de abordagens desse tipo é sua enorme abrangência. Quando o fenômeno é definido pela presença de um único atributo, a diminuição da dimensão conotativa implica em uma ampliação desmesurada de sua capacidade denotativa (Sartori, 1970). Consequentemente, sob um mesmo conceito são reunidos fenômenos muito diferentes e distantes entre si.

Prevaleceram, entretanto, abordagens de tipo check list, que enumeraram um conjunto bastante heterogêneo de aspectos que certas manifestações ideológicas deveriam possuir para serem consideradas de extrema direita. De acordo com Falter e Schumann (1988), as dimensões do pensamento de extrema direita europeia seriam “nacionalismo extremo, etnocentrismo, anticomunismo, antiparlamentarismo, antipluralismo, militarismo, pensamento de lei e ordem, exigência de um líder político e/ou executivo forte, antiamericanismo e pessimismo cultural”. Para Fennema (1997, p. 483) essa ideologia estaria constituída por quatro diferentes temas: “nacionalismo étnico, antimaterialismo, antiparlamentarismo e teorias da conspiração”. Jeróme Jamin (2012, p. 44), por sua vez, considerou que as características centrais são o reconhecimento da desigualdade entre as pessoas como uma premissa, o nacionalismo radical e a defesa de meios extremos, inclusive a violência, para alcançar seus objetivos e defender uma comunidade imaginada.

O inventário poderia se estender. Escrevendo há cerca de trinta anos, Cas Mudde identificou 26 diferentes definições, as quais enumeravam 58 características, cinco das quais apareciam em pelo menos metade dos autores: “nacionalismo, racismo, xenofobia, antidemocracia e Estado forte” (Mudde, 1995, p. 206). Os problemas decorrentes de definições desse tipo são significativos. O alargamento da dimensão conotativa do conceito mediante o aumento das características elencadas implica em uma redução de sua capacidade denotativa. Ou seja, quanto mais concreto o conceito, menor sua extensão (Sartori, 1970). Ao contrário das definições baseadas em uma única característica, os conceitos tipo check list correm o risco de ser muito restritos, excluindo fenômenos análogos simplesmente porque não preenchem todas as características.

São evidentes as dificuldades criadas para estudos comparativos por esse tipo de conceitos, principalmente quando os fenômenos estudados têm lugar em contextos políticos, sociais e históricos muito diferentes entre si. Quando submetidas ao teste empírico das realidades na periferia do capitalismo, os problemas dessas definições, criadas para estudar os casos europeus e estado-unidense, tornam-se evidentes.3 Questões chave na ideologia política das extremas direitas na Europa, como o discurso anti-imigrantes, são apenas secundárias, ocasionais ou estão até mesmo ausentes na América Latina. Nesse sentido, Sanahuja e Burian (2020; 2023) têm argumentado de modo convincente que na América do Sul a articulação entre nacionalismo e xenofobia não se manifesta do mesmo modo que na Europa e propõem que a combinação predominante no continente é entre nacionalismo e soberanismo, compreendendo este último como uma recusa aquilo que é “forâneo ou diverso” (Sanahuja; Burian, 2023, p. 18).4

Em vez de listar um conjunto de características, Ignazi insistiu que o ponto de partida deve ser o caráter espacial do conceito: “os partidos de extrema-direita estão localizados na extremidade direita do contínuo espacial” (Ignazi, 2003, p. 31). Conceitos espaciais, como os de direita e esquerda, tendem a produzir definições relacionais. Concebida como uma posição em um espaço unidimensional, a ideologia da extrema direita pode ser definida pela sua relação com outras ideologias antagônicas. Com frequência, definições espaciais e relacionais produzem nos extremos conceitos negativos, do tipo “anti-“, expressando, dessa maneira, sua oposição àquilo que está no extremo oposto. Da extrema direita já foi dito que é anti-igualitarista (Bobbio, 1995), anticomunista (Kaysel, 2023), anti-iluminista (Sternhell, 2006), antifeminista (Goetz; Mayer, 2023), antidemocrática (Mudde, 2000), antiparlamentarista (Fennema, 1997) etc.

Essas negações criam um espaço no qual é possível encontrar a ideologia da extrema direita. Mas, ao contrário dos conceitos que enumeram características a serem verificadas, em um conceito de tipo espacial não é necessário preencher todos os atributos. Em vez de um agregado de predicados essenciais, o conceito espacial de extrema direita aqui proposto é constituído por uma família de semelhanças (Wittgenstein, 2009, § 67). Tais semelhanças formam um conjunto de características, definidas de modo relacional, que, embora não sejam partilhadas por todas as unidades, permitem identificar um padrão (Bevir; Blakely, 2019). Entre as pessoas que pertencem a uma mesma família, as semelhanças não se manifestam todas com a mesma intensidade. Do mesmo modo, nesta família ideológica é possível perceber que os atributos comuns se manifestam com força diferente.

A principal vantagem de construir um conceito identificando famílias de semelhanças é poder aumentar o número de características existentes, tornando-o mais preciso, sem, no entanto, diminuir a abrangência do conceito (Collier; Mahon, 1993). Captando um conjunto de traços comuns analiticamente relevantes é possível distinguir certos fenômenos de outros. O conceito deixa de descrever perfeitamente cada caso, mas é capaz de fornecer uma imagem precisa o suficiente para permitir a distinção entre um conjunto de casos que partilham semelhanças e aqueles que não são capazes de fazê-lo.

A extrema direita é compreendida aqui como uma posição extrema que abriga diferentes discursos políticos unidos por semelhanças de família. É nesse espaço que se situam as correntes que convergem no bolsonarismo. Os elementos comuns que formam essa “família” são mobilizados por seus integrantes por meio de arranjos discursivos distintos. Esses discursos se articulam tanto com outros similares quanto com posições antagônicas, e é nessa dinâmica de aproximação e conflito que suas características adquirem significados específicos, possibilitando aos atores interpretar a realidade política e social. Esses significados, no entanto, não expressam essências fixas ou arranjos naturais: são construções históricas, formuladas em contextos determinados e marcadas por sua natureza contingente e provisória.

A COALIZÃO DISCURSIVA BOLSONARISTA

O bolsonarismo pode, portanto, ser definido como uma coalizão discursiva de extrema-direita, a qual reúne diferentes ideologias políticas que partilham uma família de semelhanças. Coalizões discursivas agregam um conjunto de narrativas, os atores que as promovem e as práticas nas quais essa atividade discursiva está baseada (Hajer, 1995, p. 65; 2005). As narrativas que dão vida a esses discursos não são perfeitamente lógicas e carregam consigo contradições e inconsistências. E os discursos em presença não são completamente compatíveis entre si. Percebe-se, em suas articulações, conflitos e disputas semânticas, alianças e oposições entre as diferentes formações discursivas. O que permite a construção da coalizão, entretanto, é o fato de os diferentes discursos estarem situados no mesmo extremo político, ou seja, partilharem uma família de semelhanças que permite que se reconheçam como “parentes” presentes em um mesmo lugar.

Os atores que promovem essas narrativas, por sua vez, encontram-se em espaços institucionais variados. Estão presentes em diversos partidos políticos, movimentos sociais, igrejas, iniciativas midiáticas e associações civis. Nesses lugares institucionais, os discursos que constituem a coalizão são enunciados sem, entretanto, preencher todo o espaço deles. Não é a presença no interior de uma dessas instituições o que define o discurso, uma vez que diferentes atores presentes em uma mesma instituição podem ser portadores de discursos distintos e até mesmo antagônicos. Partidários e opositores da coalizão podem codividir conflituosamente o mesmo espaço institucional. Pelo contrário, é o discurso o que permite que esses atores se façam presentes nessas instituições, disputando nelas uma hegemonia.5

Por fim, as práticas que servem de base aos discursos são também constituídas por eles em uma relação dialética. Certos discursos são mais afeitos a determinadas práticas e tornam-se mais salientes nelas, atribuindo-lhes um sentido forte capaz, até mesmo, de permitir a construção de uma identidade comum entre os atores. Enquanto outros discursos vizinhos, embora partilhem semelhanças de família, permanecem como residuais e marginalizados nessas mesmas práticas e podem nãos ser relevantes para aquela atribuição de sentido ou para a formação de identidades.

Abordagens análogas à aqui proposta, preocupadas com a identificação da heterogeneidade ideológica constitutiva da extrema-direita, vêm sendo recentemente empregadas em pesquisas sobre as bases ideológicas do bolsonarismo. É o caso, por exemplo, do trabalho de Chaloub (2023) em sua análise dos imaginários políticos do que o autor denomina como ultradireita brasileira.6 Chaloub pensou esse campo ideológico como um espaço de confluência de três diferentes linguagens políticas, a saber: a reacionária, defendida pelo ideólogo Olavo de Carvalho e o ex-chanceler Ernesto Araújo; a ultraliberal, representada pelo ex-Ministro da economia Paulo Guedes e a conservadora-autoritária, sustentada por militares como o general Villas-Boas. Nosso intuito nesse artigo é o de avançar em direção semelhante, tanto no sentido da proposição de ferramentas conceituais úteis à pesquisa da diversidade ideológica do bolsonarismo, como no de especificar melhor quais as vertentes discursivas que confluem em seu espaço ideológico.

Embora a coalizão bolsonarista reúna um conjunto bastante amplo de discursos, é possível identificar quatro vertentes centrais: o neofascismo, o ultraliberalismo, o conservadorismo cristão e o autoritarismo militar. Cada uma dessas correntes se inscreve no campo ideológico da extrema-direita, definido não apenas pela negação das posições antagônicas, mas também pelo reconhecimento de afinidades e diferenças entre si. Esses discursos, contudo, não constituem uma inovação no cenário político brasileiro, não representam uma “nova direita”. Eles antecedem o surgimento do bolsonarismo e foram articulados em diferentes momentos da história brasileira, principalmente, depois de 1945.

A singularidade do bolsonarismo reside justamente em sua capacidade de reunir e coordenar essas diferentes vertentes em uma mesma coalizão discursiva, conferindo-lhes uma direção comum e uma nova centralidade no espaço político. Tensões e conflitos entre esses discursos são frequentes, bem como disputas pela hegemonia no interior da coalizão. A relação de forças entre eles é, portanto, variável, mas é possível afirmar que a hegemonia do autoritarismo militar prevaleceu nela.

O discurso neofascista, antidemocrático, antiliberal e anti-igualitário, é representado por agrupações ou indivíduos que reivindicam o pertencimento, ou cujas ideias possam ser diretamente remetidas, à herança ideológica do fascismo histórico (Traverso, 2021). Nessa direção, cabe destacar a existência de uma miríade de agrupamentos e células extremistas de variada índole, neointegralistas, neonazistas, supremacistas, etc., que se acomodaram sob o guarda-chuva político e simbólico da liderança nacional de Jair Bolsonaro.7 Além disso, poderíamos incluir sob essa categoria a publicística de extrema-direita do falecido intelectual tradicionalista Olavo de Carvalho, bastante influente junto ao próprio círculo familiar do ex-presidente e em áreas-chave do governo, caso da política externa sob a gestão de Ernesto Araújo (2019-2021), acima referido.8

Já o conservadorismo cristão se expressa por meio de vertentes evangélicas e católicas, em uma frente comum de direitas religiosas que esteve presente na própria composição do governo Bolsonaro (Almeida, 2021).9 Esse discurso, no qual o anti-secularismo e o antifeminismo ocupam lugar de destaque, encontrou seu espaço institucional principalmente no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado pela pastora evangélica Damares Alves e no qual a católica conservadora Ângela Gandra ocupava o cargo de secretária-executiva (Bortolin, 2024).

O ultraliberalismo, por seu turno, carrega as tintas no anti-intervencionismo econômico e no anti-igualitarismo. Seu principal porta-voz ideológico na coalizão bolsonarista foi o ministro Paulo Guedes. Reúne, também, diferentes gerações de think-tanks, como o Instituto Liberal, o Instituto Mises Brasil ou o Ordem Livre, e de movimentos da direita liberal, como o Movimento Brasil Livre (MBL), nos primeiros meses da coalizão. Essas instituições e movimentos tiveram papel de destaque na formação de um contra-público de direita na esfera pública do país na última década (Rocha, 2020).

Por fim, aquilo que Chaloub (2023) denominou de linguagem do “conservadorismo autoritário”, preferimos definir aqui como autoritarismo militar, o qual expressa uma ideologia antidemocrática e anti-igualitarista, historicamente dominante na caserna no último século. Tal matriz ideológica também pode ser caracterizada, como propôs o historiador Manuel Domingos Neto (2019), recorrendo-se ao conceito de “patriotismo castrense”, isto é, a identificação entre os interesses corporativos dos militares e a nação, que deve ser tutelada e moldada à imagem e semelhança das forças armadas e de seus valores. No entanto, preferimos não adotar aqui essa definição, pois os significantes da “pátria” e da “nação”, conspícuos no imaginário bolsonarista, possuem ao menos duas fontes distintas, ainda que muitas vezes apareçam mescladas, o já citado neofascismo e o autoritarismo militar.10

É importante enfatizar que essa última foi a matriz ideológica de formação do próprio Jair Bolsonaro enquanto oficial do Exército, cuja carreira parlamentar esteve voltada durante suas primeiras duas décadas para questões relativas ao corporativismo castrense. Contudo, como analisou Maira Goulart da Silva (2023), ao longo de sua última década como deputado, Bolsonaro alterou seu discurso político, potencializando diferentes “cadeias de equivalências” que lhe permitiram apelar a setores muito além de sua base eleitoral original, como a bancada evangélica ou a ruralista, passando de uma “lógica da diferença” para outra “da equivalência” em sentido laclausiano.

Mas, afinal, qual seria o elemento aglutinador que articularia essas vertentes discursivas condensadas no bolsonarismo? Aqui, faz-se necessário retomar o problema dos discursos de tipo “anti”, examinado na seção anterior, pois é certo que, se essas diferentes vertentes – neofascismo, conservadorismo cristão, ultraliberalismo e autoritarismo militar – possuem algo em comum, este é o anticomunismo. Contemporaneamente, o anticomunismo brasileiro se traduz no antipetismo, atualizando uma longeva tradição discursiva das direitas brasileiras, que assim ganha fôlego em um novo contexto histórico (Motta, 2019).

Analisando o significado que o anticomunismo possuiria na formação discursiva bolsonarista, Daniel de Mendonça (2023, p. 325) afirmou que, o significante “comunismo” assumiria o significado de antagonismo ou negação a todos os momentos articulados pela cadeia de equivalências do bolsonarismo: religião e família cristã; liberdade e patriotismo/nacionalismo. Assim, o bolsonarismo se afirmaria como defensor da “família cristã” contra o “comunismo ateu”, da liberdade individual contra o “totalitarismo comunista” e, no limite, da identidade e das cores nacionais ameaçadas, por meio do conhecido bordão “nossa bandeira jamais será vermelha” (Mendonça, 2023, p. 325).

A construção da coalizão discursiva bolsonarista é um processo que antecede a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, acompanhando o desenrolar da crise política brasileira entre 2013-2018, constituindo-se em elemento chave para criar as condições de possibilidade de sua ascensão ao lhe permitir articular um discurso político de âmbito nacional em torno do antipetismo e do anticomunismo. Se a coalizão discursiva antecede a emergência de seu líder, não seria descabido imaginar que ela também poderia sobreviver a ele. Sinais disso emergem no cenário político brasileiro atual, em que o ex-presidente, apesar de inelegível, segue sendo uma figura política chave, mas não consegue mais evitar as disputas pela direção da extrema-direita.

Seria importante corroborar a hipótese aqui apresentada sobre a coalizão discursiva bolsonarista, identificando a presença de seus elementos ideológicos constitutivos e seus nexos nos discursos, não apenas do próprio Bolsonaro, mas também de seus apoiadores. No entanto, trata-se, evidentemente, de tarefa de grandes proporções, que requer um esforço coletivo de pesquisa, trabalhando com fontes primárias diversas, para o qual o presente artigo pretendeu ser tão somente um ponto de partida teórico-metodológico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do presente artigo, procuramos lidar com o problema da caracterização da ideologia do bolsonarismo. Para tanto, engajamo-nos em um diálogo crítico com a bibliografia que aborda esse fenômeno como uma modalidade de “populismo”, adjetivado como “de direita”, “de extrema-direita” ou “reacionário”, fornecendo argumentos contrários. Propusemos, alternativamente, compreender a extrema-direita como um conceito espacial, que se definiria por ocupar a posição extrema no contínuo esquerda-direita, entendido como um conjunto relacional, em que os polos ideológicos se definem pela oposição recíproca.

A adoção dessa concepção espacial-relacional da extrema-direita leva a concebê-la como uma “família de semelhanças”, que se define por um conjunto de características similares, mas que não são compartilhadas necessariamente por todos os seus integrantes. Essa abordagem da extrema-direita nos conduziu a definir o bolsonarismo como uma coalizão discursiva, conceito que identifica a convergência de diferentes formações ideológicas, aglutinando atores políticos e sociais heterogêneos em torno de uma disputa hegemônica em um determinado campo de relações de força.

Embora o bolsonarismo tenha conseguido agregar uma ampla gama de manifestações ideológicas e discursivas, ele não abrange toda a complexidade do campo da extrema-direita brasileira. Correntes neonazistas e supremacistas de orientação aceleracionista, como aquelas vinculadas a organizações clandestinas, entre elas os Hammerskins e a Divisão Misantrôpica, compartilham alguns traços com o bolsonarismo, mas nunca se alinharam a ele. O mesmo se aplica a grupos neofascistas inspirados na Quarta Teoria Política de Alexander Dugin, como a Nova Resistência. Para esses setores, a violência tem um papel central, sendo concebida como uma força regeneradora, capaz de provocar o colapso da ordem existente e instaurar um novo sistema político. Por essa razão, veem o bolsonarismo como um movimento conservador demais e excessivamente vinculado ao liberalismo, incapaz de promover a ruptura radical que defendem.

Além desses segmentos, há também correntes ultraliberais e conservadoras posicionadas à direita do espectro político que mantêm uma relação ambígua com o bolsonarismo. Embora compartilhem pautas como o anticomunismo, a defesa irrestrita do mercado e a oposição à igualdade social, não se identificam plenamente com o projeto liderado por Jair Bolsonaro. É o caso do Movimento Brasil Livre, da associação Livres e do movimento Vem pra Rua, que, após um apoio inicial, gradualmente se distanciaram do governo. Para esses grupos, o bolsonarismo é pouco liberal e/ou conservador.

Diante desse quadro, é possível afirmar que o bolsonarismo constitui uma expressão significativa da extrema-direita no Brasil, mas não a representa em sua totalidade. Esse campo também é formado por correntes ideológicas, com projetos, linguagens e objetivos próprios. Embora compartilhem referências comuns, divergem quanto às estratégias de ação e ao tipo de transformação política que almejam. As disputas entre essas forças não são periféricas, mas estruturam a dinâmica interna da extrema-direita, definindo alianças, confrontos e reconfigurações permanentes. Compreender o bolsonarismo, portanto, exige situá-lo nesse universo fragmentado e em constante disputa.

Uma das razões que motivou nosso engajamento com o tema foi a necessidade de pensar um modelo analítico que permitisse a comparação entre diferentes casos nacionais. Na última década o fenômeno da ascensão das extremas-direitas em escala mundial começou a ser objeto de estudos comparativos. Estes permitiram identificar semelhanças e diferenças entre diferentes partidos e movimentos nacionais. Predominaram, nesse campo, os estudos sobre as extremas-direitas europeias (Bustikova, 2020; Caiani; Parenti, 2016; Hainsworth, 2008; Ignazi, 2003; Mammone; Godin; Jenkins, 2012). Os estudos comparados que incluem a América Latina são mais recentes, embora ainda muito escassos (Bohoslavsky, 2023; Bringel et al., 2020; Pinheiro-Machado; Vargas-Maia, 2023; Sanahuja; Stefanoni, 2023).

As bases conceituais para essas comparações em nosso continente são ainda frágeis. Não é difícil perceber em algumas das coletâneas organizadas uma heterogeneidade conceitual muito grande, que faz com que um mesmo fenômeno seja denominado como extrema-direita ou populismo de direita no mesmo livro, e às vezes no mesmo capítulo (Bringel et al., 2020). Quando a mesma coisa recebe diferentes nomes a comparação torna-se mais difícil.

A dificuldade nasce do próprio objeto. Governos como o de Jair Bolsonaro no Brasil e Javier Milei na Argentina parecem ser ideologicamente inconsistentes e mesmo ecléticos. Ora assemelham-se ao neofascismo, ora ao ultraliberalismo, ora ao autoritarismo da tradição militar, ora ao conservadorismo cristão. O mesmo poderia ser dito de movimentos e partidos políticos como os “republicanos”, encabeçados pelo chileno José Antonio Kast; ou ainda a ala mais radical do movimento cívico cruceño na Bolívia, sob a liderança do ex-governador de Santa Cruz de La Sierra, Luís Fernando Camacho. Não são fenômenos ideológicos e políticos estáveis e não possuem uma “doutrina” ou uma filosofia própria.

Confrontadas com essa inconsistência e ecletismo, não foram poucas as tentativas de interpretação que se aferraram às ideologias já conhecidas, destacando uma ou outra como o aspecto principal. O objeto, entretanto, continuou a mover-se, criando dificuldades para interpretações muito restritas. O modelo de coalizão discursiva de extrema-direita que criamos para compreender o bolsonarismo pode ser uma ferramenta mais produtiva para interpretar esses fenômenos políticos.

A ênfase em uma “família de semelhanças”, em vez de ideologias sistemáticas, abre caminho para a comparação entre fenômenos que, embora compartilhem características, apresentam diferenças significativas. Uma coalizão nacional pode reunir as mesmas tradições ideológicas e discursivas de um país vizinho, mas articulá-las de maneira distinta, resultando em um movimento singular. Alternativamente, pode combinar outras tradições e, ainda assim, produzir um fenômeno com traços semelhantes. Assim, compreender uma manifestação específica permite, por meio da comparação, ampliar a análise e obter uma visão mais precisa dos demais casos.

Dessa maneira, ao adotar o conceito de coalizão discursiva e a noção de família de semelhanças, oferecemos um modelo analítico capaz de lidar com a heterogeneidade ideológica e a fluidez discursiva que caracterizam as extremas-direitas contemporâneas na América Latina. Esse modelo permite não apenas compreender o bolsonarismo em sua especificidade nacional, mas também estabelecer comparações mais rigorosas entre fenômenos análogos em diferentes contextos. Em um momento em que as extremas-direitas ganham força em várias partes do mundo, uma abordagem que reconheça tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses movimentos é fundamental para avançar na análise de suas dinâmicas políticas e discursivas. Com isso, esperamos contribuir para o desenvolvimento de um campo de estudos que, embora ainda em consolidação na América Latina, se mostra cada vez mais necessário para compreender as transformações do cenário político contemporâneo.

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  • 1
    A expressão pode ser genericamente traduzida como “guardiões institucionais”, referindo-se aos atores que protegeriam as mediações institucionais, próprias à uma democracia liberal, contra o assédio de potenciais investidas autoritárias. Esse uso do conceito é explicitamente remetido no artigo ao livro de Steve Levitsky e David Ziblat (2018), sobre as crises da democracia liberal no mundo contemporâneo, tema ao qual voltaremos mais adiante.
  • 2
    Não haveria espaço, nos limites deste artigo, para abordar a fundamentação epistemológica da obra de Laclau, baseada em uma reconstrução do conceito gramsciano de hegemonia em termos pós-estruturalistas, em especial em diálogo com a psicanálise lacaniana. Para o trabalho seminal do chamado “pós-marxismo” ver Laclau; Mouffe (2001).
  • 3
    Problemas similares aparecem nos estudos sobre os fascismos (ver Bianchi; Melo, 2023)
  • 4
    Segundo os autores, a combinação entre nacionalismo e “soberanismo”, por eles denominada como “neopatriótica”, permitiria pensar as novas extremas-direitas, tanto na Europa, como na América Latina. Se, no primeiro caso, os “neopatriotas” se voltariam contra a imigração, no segundo seu alvo principal seriam grupos subalternos racializados autóctones, como os povos indígenas. Assim, tanto no Norte como no Sul globais, as direitas neopatrióticas, expressão da crise da globalização neoliberal, se voltariam contra a diversidade interna às suas comunidades nacionais, (cf. Sanahuja; Burian, 2023).
  • 5
    Para um bom exemplo de uma pesquisa recente que mobilizou o conceito de coalizões discursivas para pensar o papel de uma determinada instituição, no caso, uma rede de think-tanks, na disputa de hegemonia em um circuito transnacional, consulte-se Giménez (2024), que analisou a Fundación Internacional para la Libertad (FIL), encabeçada pelo escritor peruano Mario Vargas-Llosa, a qual articulou diferentes atores políticos, intelectuais e empresariais, latino-americanos, espanhóis e estado-unidenses em apoio às políticas de livre-mercado e em oposição aos governos da chamada “maré rosa” da América Latina no início do presente século.
  • 6
    Em que pese o emprego da expressão “ultradireita”, o sentido que lhe dá Chaloub (2023) não é o mesmo daquele atribuído por Mudde (2021), acima examinado, estando mais próximo da noção de extrema-direita aqui empregada.
  • 7
    Vale lembrar que o próprio ex-Presidente adotou o lema “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, muito próximo do lema integralista da década de 1930, “Deus, Pátria e Família”. Para a presença de agrupações explicitamente neointegralistas no arco abarcado pelo movimento bolsonarista, ver Gonçalves; Caldeira Neto (2020).
  • 8
    O enquadramento de Carvalho como neofascista é controverso. Para Benjamin Teitelbaum (2020), suas referências intelectuais, como René Guenon e Julius Evola não seriam propriamente fascistas, ainda que tenham chegado a manter relações com o fascismo italiano ou o nazismo alemão nos anos 1930, sendo mais adequadamente classificadas como tradicionalistas. Já para o historiador Roger Griffin (2000), analisando o caso da nouvelle droite francesa de Alain de Benoist, essas mesmas fontes ideológicas poderiam ser incluídas sob a rubrica de um “fascismo metapolítico”, sobretudo por sua ênfase na noção de um “renascimento cultural”. Ver também Bianchi (2024) e Vasconcelos (2024).
  • 9
    Em seu mapeamento dos clusters da direita religiosa que compunham o executivo federal durante a administração de Bolsonaro (2019-2022), Almeida (2021) identifica a presença de direitas religiosas não-cristãs, como a presença de judeus, por exemplo. Contudo, preferimos aqui adotar a denominação de “conservadorismo cristão”, uma vez que o cristianismo, não apenas foi predominante na configuração do governo, mas segue sendo um elemento ideológico central no discurso bolsonarista.
  • 10
    É verdade que esse monopólio da bandeira e dos símbolos nacionais, com destaque para a camisa da seleção de futebol, por parte da direita antecede e condiciona a emergência do bolsonarismo. Com efeito, Alonso e Misch (2017) identificam o que denominam como “repertório patriótico” como um dos repertórios de mobilização já presentes desde as manifestações populares de 2013, passando a predominar claramente nos protestos pelo impeachment entre 2015-2016. Contudo, não é menos verdadeiro que a liderança de Bolsonaro conferiu uma coesão e uma organicidade a esse campo político que até então não possuía, convertendo-o potencialmente em uma força eleitoral alternativa à direita tradicional.
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  • Editor Chefe:
    Renato Francisquini Teixeira

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2025
  • Aceito
    03 Jul 2025
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