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Open-access Prática de atividade física entre adolescentes residentes em comunidades quilombolas e não quilombolas da zona rural do sudoeste da Bahia

Physical activity practice among adolescents who live in rural quilombola and non-quilombola communities of southwest Bahia

Resumo

Introdução:  A prática de atividade física (AF) tende a declinar ao longo da vida, especialmente a partir da adolescência. Incentivar a AF durante essa fase pode promover um estilo de vida mais saudável, com vulnerabilidades, agravadas pela discriminação, o que pode afetar negativamente suas perspectivas e comportamentos de saúde.

Objetivo:  Descrever a prática de atividade física e os fatores associados entre adolescentes residentes em comunidades rurais quilombolas e não quilombolas de um município do sudoeste da Bahia.

Método:  A prática de atividade física foi descrita por meio da mediana e amplitude interquartil, e para avaliar sua diferença foram realizados métodos não paramétricos.

Resultados:  45,3% dos não quilombolas e 46,7% dos quilombolas estavam ativos, e os domínios que mais contribuíram foram o lazer e deslocamento. Para os dois estratos, a atividade física foi maior entre os meninos, os que trabalhavam, e que relataram a existência de lugares públicos. Foi maior entre os não quilombolas que frequentavam a escola e que conheciam programas públicos.

Conclusão:  Menos da metade dos adolescentes rurais investigados estavam ativos. Evidenciou-se a importância dos locais e programas públicos de incentivo à prática de atividade física e a necessidade de estratégias de intervenção direcionadas para as meninas. Nesse contexto, a escola apresenta-se como um ambiente que pode incentivar comportamentos saudáveis, como a prática regular de atividade física.

Palavras chave:
adolescente; saúde do adolescente; exercício físico; zona rural; estudos epidemiológicos

Abstract

Background:  Physical activity (PA) tends to decline throughout life, especially from adolescence onwards. Encouraging PA during this phase can promote a healthier lifestyle with long-lasting effects. However, quilombola adolescents face greater vulnerabilities, exacerbated by discrimination, which can negatively impact their health outlook and behaviors.

Objective:  To describe the practice of physical activity and associated factors among adolescents who live in rural quilombola and non-quilombola communities in a municipality in the southwest of Bahia.

Method:  The practice of physical activity was described using the median and interquartile range, and non-parametric methods were used to assess their difference.

Results:  It was found that 45.3% of non-quilombolas and 46.7% of quilombolas were active, and the domains that contributed most were leisure and displacement. For both strata, physical activity was higher among boys, those who worked, and who reported the existence of public venues. It was higher among non-quilombolas who attended school and knew public programs.

Conclusion:  Less than half of the rural adolescents surveyed were active. The importance of public venues and programs to encourage the practice of physical activity and the need for intervention strategies aimed at girls was highlighted. In this context, the school presents itself as an environment that can encourage healthy behaviors, such as regular physical activity.

Keywords:
adolescent; adolescent health; exercise; rural areas; epidemiological studies

INTRODUÇÃO

A prática de atividade física (AF) tende a declinar durante a vida, particularmente a partir da adolescência1, fase de transição entre a infância e a vida adulta. A adolescência corresponde ao período entre 10 e 19 anos de idade2, sendo marcada por intensas mudanças biológicas, cognitivas e emocionais que podem influenciar o estilo de vida com consequências sobre a vida adulta3. Desta forma, o incentivo à prática de atividade física na adolescência pode contribuir para um estilo de vida mais saudável nesse período, além de favorecer sua realização na idade adulta4.

Os benefícios para a saúde e qualidade de vida decorrentes da prática de AF já estão bem documentados na literatura5. Hallal et al.6 destacaram que a prática regular de atividade física na adolescência proporciona benefícios a longo prazo, uma vez que tem papel fundamental na prevenção e no controle do excesso de peso, das doenças crônicas não transmissíveis, da ansiedade e da depressão. Além disso, contribui com benefícios em curto prazo, pois auxilia no tratamento da asma, aumenta a autoestima e melhora a saúde óssea e mental dos adolescentes.

O estudoHealth Behaviour in School-aged Children (HBSC), realizado em 42 países da Europa e na América do Norte entre os anos de 2013 e 2014, identificou baixos níveis de AF nessas populações. Apenas 25% e 16% dos jovens de 11 e 15 anos de idade, respectivamente, atenderam às recomendações atuais para a atividade física7. No Brasil, a última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) demostrou em seus resultados que apenas 34,4% dos escolares brasileiros do 9º ano do ensino fundamental atingiram os níveis mínimos recomendados de AF pela Organização Mundial de Saúde (OMS), equivalentes a 300 minutos por semana8.

Inúmeros fatores podem determinar os níveis de atividade física, incluindo idade, gênero, nível socioeconômico e contexto familiar9,10,11. Além disso, o ambiente em que se vive é um fator determinante para o estilo de vida: adolescentes rurais podem ter um perfil diferente de prática de AF, pois a zona rural apresenta uma conformação distinta da zona urbana nos aspectos estruturais, sociais e culturais12. Questões como a localização geográfica e as dificuldades de acesso à educação formal e a equipamentos públicos de lazer e saúde são aspectos que contribuem com iniquidades. Além disso, a carência de atividades recreativas que fortaleçam a socialização entre os membros das comunidades rurais pode favorecer o envolvimento em atividades e comportamento de risco para a saúde13.

Dentre os adolescentes rurais, os adolescentes de comunidades remanescentes de quilombo apresentam maiores vulnerabilidades14. Além das questões inerentes à zona rural, os adolescentes quilombolas estão expostos aos efeitos diretos e indiretos da discriminação15, o que pode influenciar de modo negativo as perspectivas e os comportamentos adotados em relação a sua saúde. Consideram-se quilombolas “os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”15.

Embora a literatura científica voltada para a prática de atividade física entre adolescentes seja vasta, observa-se que a maioria dos estudos epidemiológicos se concentra no conhecimento das condições de saúde de adolescentes urbanos no ambiente escolar, existindo uma lacuna em relação aos adolescentes rurais, principalmente entre quilombolas. Desta forma, o presente estudo objetivou descrever a prática de atividade física e os fatores associados entre adolescentes residentes em comunidades rurais quilombolas e não quilombolas de um município do sudoeste da Bahia.

MÉTODOS

Desenho do estudo, população e amostra

Este foi um estudo seccional, de base populacional e abordagem domiciliar, que analisou dados da pesquisa “ADOLESCER: Saúde do Adolescente da Zona Rural e seus condicionantes”, realizada em 2015 com adolescentes de 10 a 19 anos de idade, residentes em 21 comunidades rurais quilombolas, reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares15, e não quilombolas de Vitória da Conquista-BA.

Para a realização da estimativa populacional, foram coletados dados das fichas de Atenção Básica de cadastramento das famílias, preenchidas pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) durante as visitas domiciliares e disponíveis nas Unidades de Saúde. O Programa de ACS abrangia 97,4% da área rural de Vitória da Conquista no período do estudo.

A estratégia amostral considerou a extensão territorial e a população de adolescentes rurais para garantir boa representatividade e a viabilidade da pesquisa. Assim, foram utilizados como princípios: seleção de domicílios proporcionalmente ao número de adolescentes por comunidade e entrevista de apenas um adolescente por domicílio. Para possibilitar a obtenção de estimativas válidas para os adolescentes residentes em comunidades quilombolas e não quilombolas, a amostra foi calculada separadamente para cada estrato.

Ao considerar um universo amostral de 811 adolescentes rurais, sendo 350 residentes em comunidades quilombolas e 461 não quilombolas, foi calculada uma amostra total de 394 adolescentes, 184 residentes em comunidades quilombolas e 210 residentes em comunidades não quilombolas. O tamanho da amostra foi calculado a partir dos seguintes critérios: prevalência de 50%, dada a heterogeneidade dos eventos mensurados; precisão de 5%; nível de confiança de 95%; efeito dedesign igual a 1,0; e acréscimo de 15% para possíveis perdas. Porém, como foi entrevistado apenas um adolescente por domicílio e o número de domicílios era menor para as comunidades quilombolas, 7,1% das perdas foram adicionadas ao estrato quilombola.

A estratégia de amostragem dos adolescentes não quilombolas foi realizada em dois estágios:
  • seleção aleatória dos domicílios com adolescentes de acordo com a distribuição proporcional dos adolescentes por comunidade;

  • seleção aleatória dos adolescentes em cada domicílio.

Para a amostra quilombola, foi utilizada apenas a seleção aleatória de adolescentes em cada domicílio. Todos os adolescentes tiveram a mesma probabilidade de inclusão no estudo.

Foram excluídos do presente estudo adolescentes e/ou responsáveis impossibilitados de responder ao questionário, por estarem alcoolizados no momento da entrevista ou apresentarem transtornos mentais graves com envolvimento cognitivo.

Instrumento para coleta de dados

Para a coleta de dados, foi construído um questionário semiestruturado dividido em dois blocos, baseado em questionários de inquéritos brasileiros como a PeNSE e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS)16,17. Para a construção e visualização dos questionários, foi utilizado osoftware Questionnaire Development System (QDSTM; NOVA Research Company) versão 2.6.1.

O questionário foi dividido em duas partes:
  • a primeira foi respondida pelos adolescentes ou seus representantes legais e abordou características gerais sobre a residência, renda e escolaridade do chefe de família;

  • já a segunda foi respondida apenas pelos adolescentes (na ausência de seus pais e em um local confortável que garantisse confidencialidade das respostas e minimizasse o viés de informação) e abordou as características dos adolescentes e de seu apoio social, além de questões sobre trabalho, estilo de vida, percepção do estado de saúde e autoimagem corporal, deficiências (intelectual, física, auditiva e visual), uso de drogas ilícitas, acidentes e violência, saúde sexual e reprodutiva, saúde bucal e higiene, e utilização dos serviços de saúde.

A versão final do instrumento foi elaborada após pré-testes e estudo-piloto, tendo sido feitas algumas adaptações para adequá-lo ao contexto da zona rural. O estudo-piloto foi realizado em dezembro de 2014, em uma comunidade rural não participante do estudo principal, com população equivalente a 10% da amostra do estudo principal. Como critérios de exclusão, foram consideradas as situações em que os adolescentes e/ou responsáveis estavam impossibilitados de responder ao questionário, por estarem alcoolizados no momento da coleta dos dados ou por apresentarem transtornos mentais graves com comprometimento cognitivo.

Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu entre os meses de janeiro e maio de 2015. Para garantia da qualidade dos dados, foram feitas novas entrevistas em 5% da amostra, até sete dias após a realização da entrevista. Os entrevistadores, graduandos de cursos da área de saúde, receberam treinamento para a realização das entrevistas e utilizaram computadores portáteis (HPPocket Rx5710).

A equipe de entrevistadores foi composta por 15 alunos de graduação das áreas de enfermagem, farmácia, nutrição, medicina e psicologia, que já haviam participado de projetos de pesquisa na zona rural. Eles receberam um treinamento de 20 horas realizado pela equipe de coordenação e que teve como foco os seguintes aspectos: abordagem dos adolescentes, realização de entrevistas, aspectos éticos, mensuração de medidas antropométricas, manuseio e uso de equipamentos esoftwares, mapeamento de territórios e identificação de domicílios.

As medidas antropométricas foram realizadas de acordo com as Normas Técnicas do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN)18. O peso foi verificado em quilos (kg), com os indivíduos descalços e vestindo roupas leves, em balança portátil da marca Marte (modelo LC 200pp), com capacidade máxima de 200 kg e precisão de 0,05 kg. Para a medida da estatura, verificada em centímetros (cm), foi utilizado estadiômetro portátil da marca CauMaq (modelo est-22), de leitura lateral, com extensão de 2 metros (m) e graduação em milímetros (mm), estando os indivíduos descalços e em posição ereta.

Variáveis

A prática de AF foi estimada em seus quatro domínios (lazer, trabalho, doméstico e deslocamento), cujo cálculo considerou a multiplicação da frequência semanal (dias) pela duração média (minutos) de atividade19. Foi considerada como variável dependente a prática semanal de AF em minutos. A variável foi categorizada como ativo e inativo apenas para a descrição, e foram considerados ativos os adolescentes que somaram 300 minutos ou mais de AF4 por semana.

As variáveis independentes foram estabelecidas a partir de uma revisão da literatura para análise da prática de AF e fatores associados:
  • Variáveis sociodemográficas e econômicas: sexo (masculino, feminino); idade (≤12 anos, 13 a 15 anos, ≥16 anos); raça/cor (não negra — branca, amarela e indígena; negra — parda e preta); escolaridade em anos de estudo (até 5 anos, 6 a 9 anos, 10 ou mais anos); nível econômico (B/C; D/E), calculado de acordo os critérios da Associação Brasileira de Pesquisas e Mercados (ABEP)20; frequentar a escola (não, sim);

  • Variáveis do contexto familiar e social: composição familiar (mora com os pais, mora apenas com o pai ou com a mãe, não mora com os pais); e sentir-se sozinho (nunca/raramente; às vezes; na maioria das vezes/sempre);

  • Variáveis do estilo de vida e condições de saúde: autoimagem corporal (muito magro(a)/magro(a), normal, gordo(a)/muito gordo(a)); tempo de tela estacionário, definido pelo tempo diário em frente à televisão superior a 2 horas21; e o excesso de peso, determinado pela ocorrência do sobrepeso ou obesidade e categorizado como: sim (>escore z+) e não (≤escore z+1)22;

  • Variáveis relacionadas às condições ambientais e políticas: existência de lugar público (não, sim), obtida a partir da pergunta: “Perto do seu domicílio, existe algum lugar público (praça, parque, rua fechada, praia) para fazer caminhada, realizar exercício ou praticar esporte?”; conhecimento de programas públicos para a prática de AF (não, sim), obtida a partir da pergunta: “Você conhece algum programa público no seu município de estímulo à prática de atividade física?”.

As análises descritivas das variáveis independentes e das relacionadas à prática de AF (prática de atividade física, prática de exercício físico nos últimos 3 meses, tipo de exercício físico, existência de lugar público para a prática de atividade física, conhecimento de programas públicos, participação em programa público e motivo da não participação) foram realizadas segundo o local de residência (quilombola e não quilombola) por medidas de frequências simples, e as diferenças entre os dois estratos foram comparadas através do χ2 de Pearson ou teste exato de Fisher.

A atividade física praticada pelos adolescentes foi descrita segundo cada domínio, por meio de um gráfico do tipoBoxplot.

A variável contínua da prática de AF foi descrita segundo cada variável explicativa por meio da mediana e da amplitude interquartil. Para avaliação da diferença da prática de AF, segundo as variáveis selecionadas, foram realizados métodos não paramétricos: testes de Mann-Whitney-Wilcoxon para variáveis com duas categorias e Kruskal Wallis para aquelas com mais de duas categorias; foi considerado o nível de significância menor do que 5%. Como as atividades nos domínios lazer e deslocamento foram as que mais contribuíram para a prática de AF semanal dos adolescentes, essa mesma análise foi realizada para esses domínios e consideramos apenas as variáveis que apresentaram p<0,05 na análise inicial para a prática de AF. O programaStata, versão 15.0 (Stata Corporation, College Station, USA) foi utilizado para a análise dos dados.

O projeto ADOLESCER foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal da Bahia,Campus Anísio Teixeira, sob parecer n.º 639.966. Os adolescentes com 18 anos ou mais de idade assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para os adolescentes menores de 18 anos, o TCLE foi assinado pelos seus responsáveis legais e um Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) foi assinado pelo próprio adolescente.

RESULTADOS

Participaram do estudo 390 adolescentes residentes em áreas rurais, sendo 167 residentes em comunidades quilombolas e 223 não quilombolas, com perdas de 15,2% e 7,9%, respectivamente. As perdas variaram com o sexo, com maior prevalência no sexo masculino para adolescentes não quilombolas (p=0,038). Porém, a estimativa do desfecho em estudo, com e sem o fator de calibração para essa variável, não apresentou diferença significativa. Portanto, a variável sexo foi considerada nas análises realizadas. Os principais motivos das perdas foram: domicílio fechado após a terceira visita (29,5%), adolescente não encontrado após a terceira visita (24,6%) e recusa (23%).

Os adolescentes quilombolas e não quilombolas diferiram significativamente em relação à raça/cor, ao nível econômico e em relação ao trabalho na época do estudo (Tabela 1).

Tabela 1
Características da população de adolescentes rurais não quilombolas (n=223) e quilombolas (n=167). Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

Em relação à prática de AF, 101 (45,3%) dos adolescentes não quilombolas e 78 (46,7%) dos quilombolas praticavam 300 minutos ou mais de atividade física durante a semana, porém essas diferenças não foram significativas entre os estratos. Os adolescentes quilombolas e não quilombolas diferiram significativamente em relação ao conhecimento de programas públicos para a prática de exercícios físicos (Tabela 2).

Tabela 2
Características da população de adolescentes rurais não quilombolas (223) e quilombolas (167), segundo variáveis relacionadas à prática de atividade física. Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

Os domínios que mais contribuíram para a prática de AF foram os domínios lazer e deslocamento, tanto para os adolescentes não quilombolas quanto para os quilombolas (Figura 1).

Figura 1
BoxPlot com os diferentes domínios da prática de atividade física (n=390) entre adolescentes não quilombolas e quilombolas. Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

A prática de AF entre os adolescentes não quilombolas mostrou-se associada ao sexo masculino (mediana=355 minutos; p<0,001), ao trabalho (mediana=318 minutos; p-valor=0,003), à frequentar a escola (mediana=265 minutos; p=0,021), à existência de lugar público para a prática de AF (mediana=320 minutos; p=0,018) e ao conhecimento de programa público para a prática de AF (mediana=450 minutos; p<0,001). Para os quilombolas, a prática de AF foi significativamente maior entre os adolescentes do sexo masculino (mediana=465 minutos; p<0,001), entre os que trabalhavam (mediana=408 minutos; p<0,001) e entre aqueles que relataram a existência de programas públicos para a prática de AF (mediana=318 minutos; p<0,004) (Tabela 3).

Tabela 3
Prática de atividade física entre adolescentes quilombolas e não quilombolas, segundo variáveis estudadas, de uma zona rural do sudoeste da Bahia (n=390). Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

A prática de AF no lazer entre os adolescentes não quilombolas mostrou-se associada ao sexo masculino (mediana=240 minutos; p<0,001), à frequentar a escola (mediana=129 minutos; p<0,001), à existência de lugar público para a prática de AF (mediana=120 minutos; p=0,018) e ao conhecimento de programa público para a prática de AF (mediana=240 minutos; p<0,001). Para os quilombolas, a prática de AF no lazer foi significativamente maior entre os adolescentes do sexo masculino (mediana=180 minutos; p<0,001), os que trabalhavam (mediana=120 minutos; p=0,001) e aqueles que relataram a existência de lugares públicos para a prática de AF (mediana=180 minutos; p<0,001) (Tabela 4).

Tabela 4
Prática de atividade física no lazer entre adolescentes quilombolas e não quilombolas de uma zona rural do sudoeste da Bahia (n=390), segundo sexo, trabalho atual, frequentar a escola, existência de programa público e conhecimento de programa público. Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

A prática de AF no deslocamento entre os adolescentes não quilombolas mostrou-se associada somente ao conhecimento de programa público para a prática de AF (mediana=100 minutos; p=0,010). Para os quilombolas, a prática de AF no deslocamento foi significativamente maior entre os adolescentes do sexo masculino (mediana=130 minutos; p=0,014) (Tabela 5).

Tabela 5
Prática de atividade física no deslocamento entre adolescentes quilombolas e não quilombolas de uma zona rural do sudoeste da Bahia (n=390), segundo sexo, trabalho atual, frequentar a escola, existência de programa público e conhecimento de programa público. Pesquisa Adolescer, Bahia, 2015.

DISCUSSÃO

Os adolescentes rurais do presente estudo apresentaram maiores frequências da prática de AF quando comparados a adolescentes urbanos e rurais do Brasil8,12,23. Para os dois estratos, quilombola e não quilombola, a prática de AF foi significativamente maior entre os meninos, entre os que trabalhavam, e entre aqueles que relataram existir lugares públicos para a prática de AF perto do seu domicílio. Essa prática foi maior também entre os adolescentes não quilombolas que frequentavam a escola e que relataram conhecer programas públicos de incentivo à prática de AF. Ademais, atividades no domínio lazer e deslocamento foram as que mais contribuíram para que os adolescentes praticassem atividade física nessas comunidades rurais.

Os resultados revelaram que a frequência da prática de AF – 300 minutos ou mais durante a semana8 — entre os adolescentes foi maior do que a de escolares do 9º ano do ensino fundamental do estado da Bahia (30%) e de todo Brasil (34,4%). Um estudo transversal de base escolar, realizado com indivíduos de 10 a 17 anos de idade matriculados em escolas públicas de Uruguaiana-RS, demonstrou em seus resultados maiores frequências de atividade física (≥300 minutos por semana) entre os adolescentes rurais (42,33%) quando comparados aos urbanos (30,9%)23. Regis et al.12 demostrou também que os adolescentes residentes em áreas rurais matriculados em escolas públicas de Pernambuco apresentaram maiores níveis de AF (37,3%) quando comparados com os residentes em áreas urbanas (34,5%). Adolescentes que praticaram no mínimo 60 minutos de AF por pelo menos 5 dias na semana foram classificados como ativos. Além disso, tiveram maior preferência pelo lazer ativo, como andar de bicicleta ou a pé, e estavam menos expostos aos comportamentos sedentários.

Diversos estudos que abordam a prática de AF entre adolescentes apontam resultados semelhantes aos nossos, em que os meninos são mais ativos do que as meninas8,23,24. Segundo a PeNSE, adolescentes brasileiros do sexo masculino foram fisicamente mais ativos (28,3%) do que as meninas (13,5%)8. Por ser a atividade física um comportamento complexo, influenciado por diversos fatores, é importante diferenciar os motivos que levam indivíduos de ambos os sexos a escolher por um estilo de vida mais ativo.

Essa maior prática de AF entre os meninos pode estar relacionada com fatores biológicos e socioculturais que influenciam a participação dos meninos em atividades físicas desportivas e com intensidade vigorosa. Já a participação das meninas nas atividades de lazer com menor intensidade pode estar relacionada ao intuito de não provocar alterações na composição corporal e, consequentemente, evitar impactos em sua feminilidade9. Satija et al.25 reforçam essa ideia ao descreverem que, desde a infância, os meninos e as meninas são tratados de forma distinta pela sociedade, tendo os meninos uma maior permissão para explorar o ambiente físico ao seu redor.

Nas áreas rurais, o estilo de vida mais ativo pode estar relacionado à inserção no mercado de trabalho, que é realizado, muitas vezes, pela força física, além das atividades no ambiente doméstico, comuns entre as mulheres das áreas rurais12. Entretanto, para o presente estudo, os domínios que mais contribuíram para a prática de AF semanal foram os domínios lazer e deslocamento, tanto para adolescentes quilombolas quanto para não quilombolas, e os níveis mais elevados de AF entre esses domínios permaneceram entre o sexo masculino.

Maiores distâncias entre as residências rurais, o trabalho e a escola, somadas à dificuldade de transportes públicos, podem favorecer o maior deslocamento a pé ou de bicicleta e, desta forma, contribuir para o aumento da AF semanal desses adolescentes. Além disso, o menor acesso às tecnologias, como computador,videogame e celular, pode contribuir para a escolha de atividades mais ativas em um momento de lazer individual e entre amigos12, como o futebol, que foi a modalidade de atividade mais reportada pelos adolescentes.

Apesar do domínio trabalho ter contribuído pouco com a prática de AF semanal dos adolescentes, o fato de o adolescente trabalhar aumentou o nível de atividade física semanal, tanto para os quilombolas quanto para os não quilombolas. Para os quilombolas que trabalhavam, especificamente, os níveis semanais de atividades no domínio lazer foram maiores quando comparados aos quilombolas que não trabalhavam. O aumento do poder aquisitivo entre aqueles que trabalham pode favorecer a uma maior participação desses adolescentes em atividades físicas variadas de lazer26.

Ainda que os adolescentes das comunidades rurais estudadas tenham apresentado maiores níveis de AF no domínio lazer, é importante salientar que, especialmente nas localidades quilombolas, os espaços de lazer e de prática de AF são escassos27. Assim, era esperada que a maior prática de atividade física fosse significativamente maior entre os adolescentes que relataram a existência de lugares públicos para a prática. Ressalta-se, entretanto, que mais da metade dos adolescentes quilombolas e não quilombolas informou que não existiam lugares públicos perto do seu domicílio, como praças e parques, para a prática de AF.

Outra variável que aumentou os níveis de AF entre os adolescentes não quilombolas foi o fato desses indivíduos conhecerem programas públicos voltados para a prática de AF. O conhecimento aumentou os níveis de atividade tanto no domínio lazer quanto no domínio deslocamento, demostrando que o conhecimento favorece a prática semanal de atividade entre esses indivíduos. Apesar do grande investimento público no incentivo à pratica de atividades físicas, a cobertura ainda é pequena28, pois quase 70% dos adolescentes não quilombolas e 73,2% dos quilombolas não participavam de programas públicos voltados para a prática de AF. A falta de interesse, falta de tempo e distância foram os principais motivos relatados.

O ambiente escolar torna-se fundamental para a aproximação do adolescente com práticas de saúde mais saudáveis, incluindo a prática regular de AF. O Brasil investiu em políticas públicas de promoção da AF para adolescentes residentes em áreas de vulnerabilidade social. O Programa Saúde na Escola (PSE) integra equipes de saúde da Atenção Básica com as equipes de educação com o objetivo de prevenir, promover e avaliar as condições de saúde dos escolares matriculados em escolas públicas. Outro programa existente é o Programa Segundo Tempo (PST), que tem por finalidade expandir o acesso à prática e à cultura do esporte de forma a promover o desenvolvimento integral de adolescentes como fator de formação da cidadania e melhoria da qualidade de vida29,30. Os adolescentes rurais não quilombolas que frequentavam a escola apresentaram significativamente maiores níveis de AF quando comparados com aqueles que não frequentavam, ressaltando a importância do ambiente escolar para o aumento da AF.

Nesse contexto, é necessária, sobretudo entre os quilombolas, a potencialização dessas políticas públicas de âmbito escolar, como ampliação das aulas de educação física com devido acompanhamento profissional e melhora dos espaços escolares para a prática de esportes. Entre os adolescentes estudados, 44,4% e 50,3% dos não quilombolas e quilombolas, respectivamente, reportaram não participar das aulas de educação física. Desta forma, essas mudanças devem ser acompanhadas de uma reformulação da disciplina de educação física com o objetivo de aumentar a participação dos alunos, sua motivação e o prazer pela disciplina ofertada, além do incentivo à prática de atividade física fora do ambiente escolar.

Algumas limitações do estudo devem ser consideradas: por se tratar de um estudo seccional, não é possível inferir a natureza temporal de algumas associações observadas. Diferenças nos instrumentos e pontos de corte para classificação da prática de atividade física podem dificultar a comparação entre os estudos nacionais e internacionais. Além disso, o uso de questões autorreferidas para avaliar a prática de AF pode subestimar ou superestimar a duração e intensidade das atividades. Entretanto, o presente estudo utilizou ponto de corte recomendado pela OMS de 300 minutos ou mais de atividade física durante a semana4.

Os achados do presente estudo apontam a importância para que estratégias de intervenção sejam direcionadas, especificamente, para as meninas, com o objetivo de englobar essa parcela da população que não está vivenciando de forma adequada os benefícios a curto e longo prazo da prática regular de AF. Nessa perspectiva, a escola apresenta-se como um ambiente que incentiva a adoção de comportamentos saudáveis, como a prática de atividade física através das aulas de educação física, que devem ser acolhedoras e incentivar a participação de todos, além de estimular a realização de exercícios fora do ambiente escolar.

AGRADECIMENTOS

Às famílias rurais, entrevistadores, Agentes Comunitários de Saúde e demais profissionais das equipes da Estratégia de Saúde da Família que participaram da construção desse estudo.

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  • Fonte de financiamento:
    Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    05 Nov 2020
  • Aceito
    06 Nov 2021
  • Corrigido
    14 Out 2024
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