Resumo
Introdução: Experiências de crise vivenciadas pelos jovens universitários podem desencadear sofrimento psíquico, como o Transtorno Mental Comum (TMC).
Objetivo: Avaliar a prevalência do Transtorno Mental Comum (TMC) e de fatores relacionados aos estudantes universitários de cursos de graduação da área da saúde e ao ambiente universitário de uma instituição privada da cidade de Fortaleza, Ceará.
Método: Estudo transversal, com 512 universitários (≥18 anos) de cursos da saúde, desenvolvido em 2017. Aplicaram-se o Self-Report Questionnaire, o Instrumento de Avaliação da Promoção da Saúde na Universidade — IAPSU (Assessment Tool for Health Promotion at the University) e o Questionário Internacional de Atividade Física, seguido da avaliação antropométrica (peso e altura). Utilizou-se a análise bivariada e multivariada, tendo como desfecho a suspeita de TMC, pelo programa SPSS.
Resultados: A prevalência de TMC nos universitários foi de 33,2% (n=170), associada na análise multivariada a sexo feminino (OR ajustado=2,540; p=0,000), primeiro ano de graduação (OR ajustado=1,565; p=0,032), sensação de mal-estar subjetivo na universidade (OR ajustado=2,321; p=0,016), situações de violência na universidade (OR ajustado=2,010; p=0,002) e sedentarismo (OR ajustado=1,968; p=0,001).
Conclusões: O TMC ocorreu em mais de um terço dos universitários dos cursos da área da saúde, sendo relacionado ao sexo feminino, ao sedentarismo e a fatores relacionados ao ambiente universitário, contribuindo para fomentar ações educativas para redução e controle do TMC na universidade.
Palavras-chave:
transtornos mentais; saúde mental; promoção da saúde; estudantes; universidades
Abstract
Background: Crisis experienced by university students can trigger psychological suffering, such as Common Mental Disorder (CMD).
Objective: This study aimed to evaluate the prevalence of Common Mental Disorder (CMD) and factors related to university students of undergraduate courses in the health area and the university environment of a private institution in the city of Fortaleza, Ceará.
Method: This is a cross-sectional study with 512 university students from the health area, performed in 2017. The Self-Report Questionnaire, Assessment Tool for Health Promotion at the University and the International Physical Activity Questionnaire were applied, followed by anthropometric assessment (weight and height). Bivariate and multivariate analyses were used, having the presence of CMD as an outcome, using the Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) program.
Results: The prevalence of CMD among university students was 33.2% (n=170), associated in the multivariate analysis with the female gender (odds ratio — OR=2.540 adjusted; p=0.000), the first year of undergraduate school (OR=1.565 adjusted; p=0.032), feeling of subjective discomfort at the university (OR=2.321 adjusted; p=0.016), situations of violence at the university (OR=2.010 adjusted; p=0.002) and sedentary lifestyle (OR=1.968 adjusted; p=0.001).
Conclusions: CMD occurred in more than one third of undergraduate students from the health area, being related to female gender, physical inactivity and factors related to the university environment, contributing to foster educational actions to reduce and control CMD at the university.
Keywords:
mental disorders; mental health; health promotion; students; universities
INTRODUÇÃO
O aparecimento de agravos e doenças que acometem a mente humana é uma constatação que ocorre desde a infância e em específicas fases da vida, como na juventude e na fase adulta, nos mais diversos países do mundo. Adicionalmente, a chegada à universidade é acompanhada por exigências, responsabilidades, sobrecarga de deveres a serem cumpridos e desencadeamento de riscos à saúde mental1.
Dentre os fatores estressantes presentes na formação acadêmica de nível superior, alguns são mais frequentes e constantes, como afastamento do ambiente familiar, adaptação social, dinâmica dos relacionamentos interpessoais e afetivos, conciliação entre estudo e trabalho, receio quanto ao futuro profissional, entre outros. Essas experiências de crise vivenciadas pelos jovens, quando negligenciadas pela instituição de ensino, podem desencadear sofrimento psíquico tal como o Transtorno Mental Comum (TMC). Desde 1992, tem-se que essa desordem psiquiátrica menor é caracterizada por estados de insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas associadas2.
Ademais, o TMC é um conceito aplicado a pessoas que apresentam diferentes sintomas de depressão e ansiedade, que não se adequam aos preceitos de diagnóstico psiquiátrico. Os sintomas psicossomáticos do TMC não aparecem de forma isolada, necessitando de uma atenção holística devido à sua complexidade. Esse transtorno pode causar diversos prejuízos físicos e psicológicos e, apesar de ser menos grave que os transtornos mentais psiquiátricos, merece atenção por sua elevada prevalência mundial3.
Segundo pesquisa multicêntrica com universitários de 19 faculdades em oito países de cinco continentes, aproximadamente um terço deles apresenta pelo menos um transtorno de ansiedade, de humor ou transtorno decorrente do uso de substância4. Durante o período acadêmico, o universitário fica mais propenso a desenvolver sintomas de depressão, ansiedade e estresse como também para o consumo/abuso de drogas. Tal comportamento nocivo pode ser motivado tanto pelo desejo de diminuir os sintomas citados anteriormente como para socialização5. Estudantes da área da saúde tendem a apresentar TMC com mais probabilidade do que os de outros cursos, devido ao início dos estágios obrigatórios e por ter que lidar, de forma frequente, com a perda e o sofrimento humano6.
A promoção da saúde desses jovens pode ser desenvolvida por programas universitários para estabelecimento de conscientização sobre raeckers e habilidades em saúde e comportamentos saudáveis ao longo da vida. Assim, a universidade pode ser um espaço propício para a promoção de um ambiente em prol da saúde de toda a comunidade acadêmica, por meio do planejamento de ações que incentivem a adoção e a manutenção de hábitos saudáveis, principalmente relativos à saúde mental7. Cada vez mais as universidades vêm fomentando estratégias voltadas ao enfrentamento das taxas crescentes de transtornos mentais, tanto por atividades físicas quanto rastreamento de fatores prejudiciais à saúde mental3.
Este estudo objetivou avaliar a prevalência do Transtorno Mental Comum (TMC) e de fatores relacionados aos estudantes universitários de cursos de graduação da área da saúde e ao ambiente universitário de uma instituição privada da cidade de Fortaleza (Ceará).
MÉTODOS
Desenho e local do estudo
Estudo quantitativo, do tipo transversal e analítico, oriundo de um projeto guarda-chuva intitulado "Promoção de Saúde na população jovem: qual o papel da Universidade?". A coleta dos dados ocorreu entre os meses de abril a novembro de 2017.
Este estudo foi realizado em uma universidade privada e filantrópica, na cidade de Fortaleza (Ceará, Brasil). Fortaleza é a quinta capital mais populosa do país, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) com 0,754 e possui 161.199 estudantes matriculados no ensino superior8.
População de estudo
Participaram do estudo 512 universitários, com idades entre 18 e 59 anos, independente do sexo e regularmente matriculados em cursos da área da saúde. Os critérios de inclusão adotados foram ser aluno ingressante e concludente no ano de 2017 de um dos nove cursos da área de saúde. Os critérios de exclusão foram deficientes visuais, devido a não adaptação dos instrumentos de coleta para a leitura em Braille; deficientes físicos; e gestantes, devido às particularidades nas medidas antropométricas não previstas no projeto guarda-chuva. Ademais, foram retirados 32 participantes devido à ausência dos dados antropométricos.
O quantitativo de participantes para o projeto guarda-chuva foi estimado por cálculo amostral considerando uma população finita de universitários (n=161.199) matriculados em Fortaleza no ano de 2015 (8), prevalência de 53,8% de excesso de peso na população jovem brasileira9, intervalo de confiança de 95%, erro máximo de 5%, taxa de não resposta de 20%. O quantitativo mínimo era de 458 universitários, entretanto, devido à necessidade de uma distribuição equitativa entre cursos e semestres, houve um aumento no número de participantes.
O recrutamento aconteceu inicialmente por levantamento das disciplinas dos semestres desejados (primeiro e último ano). Em seguida, nos intervalos das aulas, os universitários eram convidados diretamente a participar e direcionados aos locais específicos para a coleta dos dados.
Aspectos éticos
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade de Fortaleza, com parecer nº 1.795.390. Todos os universitários receberam orientações quanto aos objetivos, riscos e benefícios do estudo e consentiram sua participação por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Procedimentos e instrumentos de coleta
Foram utilizados três instrumentos de coleta de dados: o Self-Report Questionnaire (SRQ-20), o Instrumento de Avaliação da Promoção da Saúde na Universidade — IAPSU (Assessment Tool for Health Promotion at the University) e o Questionário Internacional de Atividade Física (International Physical Activity Questionnaire — IPAQ), seguido da avaliação antropométrica (peso corporal e altura).
O SRQ-20 identifica os sintomas psicossomáticos para o rastreamento de Transtorno Mental Comum (TMC), é autoaplicável, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde e validado no Brasil10. Possui vinte questões com resposta sim (1) e não (0), em quatro grupos de sintomas referidos nos últimos trinta dias. A pontuação final foi obtida pela soma das respostas, sendo o ponto de corte ideal os valores de 7/8, com sensibilidade de 86,3% e especificidade de 89,3%. Neste estudo, o ponto de corte adotado para suspeita de TMC foi de 8, independente do sexo e fundamentado em outros estudos no Brasil11,12. Assim, utilizou-se classificação dicotômica de suspeita de TMC: sim (≥8 pontos) e não (<8 pontos).
O IAPSU é um instrumento, autoaplicável e validado no Brasil, que possui 41 itens dispostos em características demográficas e socioeconômicas e cinco domínios: 1. atividade física; 2. alimentação; 3. fatores ambientais; 4. fatores psicossociais e consumo de álcool e drogas; e 5. práticas integrativas e complementares13. Foram adicionadas duas perguntas neste instrumento: curso de graduação e semestre. Deste instrumento foram utilizadas as variáveis demográficas e socioeconômicas (sexo, idade, raça autorreferida, religião, escolaridade paterna e materna e trabalho remunerado), domínio 3 — fatores ambientais e o domínio 4 — fatores psicossociais ("participação em atividades promovidas pela universidade e extracurriculares", "sensação de mal-estar subjetivo na universidade", "relação entre os alunos na universidade", "relação entre alunos e professores na universidade" e "existência de situações de violência física, psicológica, de gênero e sexual na universidade").
Para análise dos dados coletados por este instrumento foram criadas categorias: faixa etária (<25 anos e ≥25 anos), raça autorreferida (branca e não branca), religião (católica, não católica e sem religião), escolaridade paterna e materna (≤8 e >8 anos de estudo). Do domínio 3, foram criadas duas categorias: satisfação com o ambiente físico da universidade ("sim" para, no mínimo, uma alternativa marcada ou "não") e sensação de segurança na universidade ("seguro" para as alternativas razoavelmente seguro, seguro e muito seguro e "não seguro" para nada seguro e pouco seguro). Do domínio 4, foram criadas cinco categorias: atividades promovidas pela universidade e extracurriculares ("sim" para participação em, no mínimo, uma ou "não"); sensação de mal-estar subjetivo na universidade, tratamento entre os alunos e tratamento entre aluno e professor na universidade ("mal" para as alternativas muito mal, mal e regular e "bem" para as alternativas bem e muito bem) e existência de situações de violência na universidade ("sim" para existência, no mínimo, de um tipo ou "não").
O IPAQ versão curta é um questionário autoaplicável que avalia o nível de atividade física por meio de oito perguntas, que estimam o tempo gasto semanalmente e a intensidade da prática de atividade física em diversos momentos: trabalho, transporte, atividades domésticas e lazer. O IPAQ classifica o nível de atividade física em sedentário (≥10 min/semana de alguma atividade física), insuficientemente ativo (<150 minutos/semana de atividade física de qualquer intensidade), ativo (≥150 minutos/semana de atividade física moderada ou caminhada) e muito ativo (≥150 minutos/semana de atividade física vigorosa)14. No presente estudo, na variável prática de atividade física dos universitários adotou-se classificação dicotômica: sedentário (sedentário e insuficientemente ativo) e não sedentário (ativo e muito ativo).
Na avaliação antropométrica, para mensuração do peso corporal utilizou-se balança portátil digital Plenna® (capacidade de 150kg e sensibilidade de 100g) e solicitouse que o participante permanecesse em postura ereta, sem adereços e descalço. Aferiu-se a altura pelo estadiômetro vertical portátil Sanny® (capacidade de 2,11 metros e sensibilidade de 0,5 centímetros). Para isso, o participante ficou na postura ereta e descalço, posicionado no plano de Frankfurt15. O Índice de Massa Corporal (IMC) foi calculado por meio da divisão do peso (em quilogramas) pela altura (em metros) ao quadrado16. Nessa pesquisa, o IMC foi classificado em: 1. sem excesso de peso para IMC≤24,9kg/m2 e 2. com excesso de peso para IMC≥25,0kg/m2.
As aplicações dos instrumentos de coleta e a avaliação antropométrica ocorreram em locais reservados para padronização da coleta e em obediência aos aspectos éticos. A equipe de coleta era composta por pesquisadores e alunos de iniciação científica previamente treinados, para minimizar os erros de coleta. Os alunos de iniciação científica da própria universidade não puderam compor a amostra da pesquisa.
Análise dos dados
Utilizou-se a estatística descritiva e inferencial pelo programa SPSS Statistics (versão 23.0), sendo as variáveis descritas por meio da frequência relativa (%) e absoluta (n). Na análise bivariada, verificou-se a associação entre a variável desfecho (Transtorno Mental Comum) e as de interesse (sociodemográficas, acadêmicas, fatores relacionados ao ambiente universitário, atividade física e IMC) pela análise das medidas de associação odds ratio (OR) bruto e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), obtidas pelo teste χ2.
Posteriormente, realizou-se a análise de regressão multivariada, por meio da regressão logística, para a construção do modelo final, utilizando o método stepwise backward com a inclusão das variáveis que apresentaram significância de até <0,20 na análise bivariada. Estimou-se o OR ajustado e seus respectivos intervalos de confiança (IC), com nível de significância de 5%.
RESULTADOS
A prevalência de TMC nos universitários do estudo foi de 33,2%, com maior proporção dos sintomas psicossomáticos "sentir-se nervoso, tenso ou preocupado" (65,0%) no grupo humor depressivo/ansioso; "dorme mal" (41,2%) no grupo sintomas somáticos; "dificuldade para tomar decisões" (51,4%) no grupo decréscimo de energia vital; e "perdido o interesse pelas coisas" (20,1%) no grupo pensamentos depressivos (Tabela 1).
Distribuição dos grupos de sintomas de acordo com o Self Reporting Questionnaire (SRQ-20) para rastreamento de Transtorno Mental Comum (TMC) em universitários de cursos da área da saúde. Fortaleza, Ceará, 2017
Sobre o perfil, houve maior proporção de universitários na faixa etária de <25 anos (76,8%), sexo feminino (69,7%), solteiros (90,4%), raça branca (51,0%), católicos (64,8%) e sem trabalho remunerado (83,8%). Na análise bivariada, verificou-se maior prevalência de TMC associada ao sexo feminino (OR=2,550; p=0,000) e ao curso de graduação (p=0,004), destacadamente nos cursos de Medicina (OR=5,333; p=0,000), Fonoaudiologia (OR=4,480; p=0,001) e Psicologia (OR=3,171; p=0,009), sensação de mal-estar subjetivo na universidade (OR=3,250; p=0,000), mal tratamento entre os alunos na universidade (OR=1,885; p=0,007), existência de situações de violência na universidade (OR=2,020; p=0,000) e ao sedentarismo (OR=2,045; p=0,000), conforme consta nas Tabelas 2 e 3.
Análise bivariada da prevalência do Transtorno Mental Comum (TMC) com as variáveis sociodemográficas, acadêmicas, prática de atividade física e excesso de peso dos universitários. Fortaleza, Ceará, 2017
Análise bivariada da prevalência do Transtorno Mental Comum (TMC) com os fatores relacionados ao ambiente universitário. Fortaleza, Ceará, 2017
Na análise multivariada, verificou-se que a prevalência de TMC era mais que o dobro no sexo feminino (OR=2,540; p=0,000) e naqueles com sensação de mal-estar subjetivo na universidade (OR=2,321; p=0,016); dobrava na existência de situações de violência na universidade (OR=2,010; p=0,002) e no sedentarismo (OR=1,968; p=0,001); e 1,5 vezes maior no primeiro ano de graduação (OR=1,565; p=0,032), conforme Tabela 4.
Análise multivariada da prevalência do Transtorno Mental Comum (TMC) com os fatores relacionados. Fortaleza, Ceará, 2017
DISCUSSÃO
O TMC entre os universitários da área da saúde vem sendo investigado devido à sua associação com a percepção negativa do ambiente universitário e aos potenciais agentes estressores, como a prática clínica e a aproximação com o sofrimento do outro6,17. Em virtude disso, as universidades dos mais diversos continentes estão enfrentando taxas crescentes de transtornos mentais, e, em alguns casos, a demanda por serviços no campus excede em muito os raeckers disponíveis4. Neste estudo, avaliou-se a prevalência de TMC em universitários, abrangendo nove cursos da área da saúde, diferentes semestres, sua relação com os fatores acadêmicos e com o ambiente universitário.
A elevada prevalência de TMC (33,2%) encontrada nos universitários participantes do presente estudo é condizente com os valores aproximados de outras pesquisas. Um estudo brasileiro, realizado com universitários dos cursos de Enfermagem, Fisioterapia, Psicologia e Educação Física, identificou um percentual de TMC de 29%18. Outro estudo brasileiro com estudantes de Odontologia (n=230) revelou que 45% deles tinham sintomas de TMC19. Já um estudo transversal, realizado com alunos brasileiros do curso de Medicina, mostrou que a prevalência de TMC no último ano aumentou em 3.5 vezes em relação ao primeiro ano20. Em uma revisão integrativa com 37 artigos (publicados entre 2006-2016), a prevalência de TMC variou de 18%, como na Hungria, e 49%, como na Etiópia, até 63% na Arábia Saudita entre os universitários da saúde de 17 diferentes países6.
No presente estudo realizou-se uma análise dos grupos de sintomas psicossomáticos do TMC mostrando maior proporção da categoria "sentir-se nervoso, tenso ou preocupado" (65%) na escala depressão/ansiedade. Nos demais grupos de sintomas, destacou-se "dormir mal" (41%), "dificuldade para tomar decisões" (51%) e "perdido o interesse pelas coisas" (20%). Esses achados assemelham-se a outros encontrados em estudo com mulheres brasileiras (19-55 anos) que apresentou maior proporção do sintoma "sentir-se nervoso, tenso ou preocupado" (75%) na escala depressão/ansiedade21. Outro estudo brasileiro, ao investigar uma população do sexo masculino (20-50 anos), encontrou menor proporção (25%) nessa mesma categoria22. Apesar desses estudos não abordarem o contexto universitário e apresentarem pontos de cortes diferentes ao adotado no presente estudo, esses achados, de forma conjunta, apontam para a necessidade de compreender uma maior exposição das mulheres ao TMC, bem como fomentam o desenvolvimento de programas de prevenção e promoção da saúde específicos. No entanto, ressalta-se, ainda, que as diferenças sociodemográficas e culturais também devem ser analisadas por constituírem possíveis fatores de risco para o TMC23.
Em uma revisão integrativa foram identificados fatores de risco decorrentes das condições relativas à vida acadêmica (curso de graduação e percepção negativa do ambiente universitário) e à saúde (comportamentos prejudiciais e problemas de saúde). Assim, violência no ambiente educacional, preocupação com a segurança pessoal, bullying e discriminação social entre universitários são aspectos influenciadores de sofrimento e de efeitos negativos na saúde desses indivíduos. Em contrapartida, o apoio social e dos genitores, habilidades comunicacionais, engajamento social, estratégias de coping, extroversão, resiliência, entre outras condições psicológicas são considerados fatores de proteção6.
No presente estudo, a prevalência de TMC observada estava associada com sexo feminino, sedentarismo e fatores relacionados ao ambiente universitário, como primeiro ano de graduação, sensação de mal-estar subjetivo e existência de situações de violência na universidade.
O sexo feminino, segundo estudo realizado com universitários africanos, é mais suscetível ao desenvolvimento de TMC, sendo três vezes maior nessa população24. Para os autores, as estudantes do sexo feminino com dificuldades financeiras e relações conflituosas com familiares/amigos tinham o pior estado de saúde mental, sugerindo uma avaliação mais aprofundada do papel dos determinantes sociais, ambientais e biológicos da saúde mental nesta população23. Estudo com universitários brasileiros também apontou maior frequência de TMC no sexo feminino25.
Em relação ao sedentarismo, em nosso estudo houve relação entre TMC e prática de atividade física dos universitários, sendo esse transtorno duas vezes mais frequente (OR=1,964) em estudantes sedentários. Achado similar foi descrito em estudo brasileiro, que identificou prevalência de TMC três vezes superior em universitários da área da saúde classificados como inativos26. Concordando com nossos achados, estudo realizado com universitárias sauditas revelou que níveis elevados de atividade física foram associados à melhora da saúde mental27.
Sobre as variáveis relacionadas ao ambiente universitário, o TMC foi mais frequente nos universitários do primeiro ano de graduação, fato relevante se levarmos em consideração as mudanças que ocorrem na vida pessoal/social (mudança de cidade, morar sozinho) e acadêmica (novos métodos de estudo, extensa grade curricular) simultaneamente6. Estudo realizado na Arábia Saudita com universitários do curso de Medicina também revelou maior chance entre os que pertenciam ao primeiro ano do curso28. Em contrapartida, estudo realizado com universitários húngaros mostrou que pertencer aos últimos anos é um fator de risco para TMC29. O concludente pode apresentar sintomas de adoecimento psíquico devido à pressão psicológica que sofre com a chegada da formatura, à incerteza do futuro profissional, ao primeiro emprego, às responsabilidades que terá de assumir e ao sentimento de não se sentir totalmente preparado para essa nova fase30.
No presente estudo, o TMC foi duas vezes mais frequente nos universitários que tinham sensação de mal-estar subjetivo na universidade. Outro estudo com universitários da saúde no Nordeste brasileiro evidenciou que expectativas ruins em relação ao futuro, insatisfação com o curso escolhido e sentir-se emocionalmente tenso estavam associados ao TMC31. Esses achados ratificam que a sensação de mal-estar pode ser desencadeada por um conjunto de fatores, como escolha da carreira, competências ao exercício profissional, competitividade e privação do convívio familiar. Em relação ao ambiente acadêmico, as estratégias de ensino utilizadas no curso e os métodos de avaliação são também gatilhos de estresse emocional para os alunos, impactando negativamente na sua saúde física, psicológica, cognitiva e na aprendizagem25.
Em nosso estudo, o TMC foi duas vezes mais frequente naqueles que relataram existência de violência no ambiente universitário. Após levantamento nas bases de dados, não foi encontrado estudo que realizou análise similar a este, no entanto, sabe-se que situações de violência no contexto sociocultural das universidades demandam atenção por serem preditores para sofrimento psíquico e piores índices de saúde nessa população6.
Diante do exposto, as universidades devem se assumir como espaços educacionais favoráveis à promoção da saúde dos sujeitos que a constituem, na perspectiva de proporcionar saúde e bem-estar de acadêmicos, docentes, funcionários e da comunidade, com potencial para transcender a formação integral dos alunos, beneficiando-os e tornando-os multiplicadores desses saberes na sociedade32,33.
Limitações do estudo
Admitem-se algumas limitações no presente estudo. Primeiro, questionários autoaplicáveis estão suscetíveis a viés de memória e de informação socialmente aceitável. Em seguida, o delineamento transversal do estudo não permite estabelecer relação causal entre as variáveis analisadas, consequentemente, a prevalência de TMC encontrada pode não ser exclusiva no ambiente universitário. Por fim, como o presente estudo foi realizado em apenas uma instituição de ensino, isso pode limitar a validade externa dos achados. Todavia, tal limitação possivelmente foi compensada pelo recrutamento por chamamento público e pela heterogeneidade étnica e socioeconômica da amostra. Apesar dessas limitações, os achados tornam-se encorajadores para futuras pesquisas que explorem a temática, principalmente em estudos longitudinais que tenham como objetivo avaliar a saúde mental dos universitários do início ao fim da graduação.
CONCLUSÕES/CONSIDERAÇÕES
O TMC ocorreu em mais de um terço dos universitários dos cursos da área da saúde, sendo relacionado ao sexo feminino, ao sedentarismo e a fatores relacionados ao ambiente universitário. Portanto, as universidades devem ser corresponsáveis com a promoção da saúde daqueles que a constituem, na perspectiva de ser um espaço potente para proporcionar a saúde de forma integral de toda a população acadêmica, de tal modo a possibilitar que essa população seja beneficiada e, simultaneamente, possa ser multiplicadora desses saberes na sociedade.
Ademais, este estudo pode contribuir para fomentar ações preventivas e educativas para redução e controle do TMC na universidade; além de despertar para a necessidade de políticas públicas e práticas de promoção da saúde no ambiente universitário, direcionadas para morbidades desencadeadoras de sofrimento psíquico nos futuros profissionais de saúde.
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