Open-access Tempo excessivo de televisão e fatores associados em adultos e idosos da região Sul do Brasil: mudanças após uma década

Excessive television time and associated factors in adults and the elderly in southern Brazil: changes after a decade

Resumo

Introdução:  O tempo despendido em frente à televisão (TV) é um dos componentes do comportamento sedentário mais prevalente no âmbito do lazer.

Objetivo:  Analisar as mudanças na prevalência e nos fatores sociodemográficos associados ao tempo excessivo de TV em adultos e idosos residentes nas capitais da região Sul do Brasil após uma década.

Métodos:  Trata-se de uma análise secundária dos dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2006 e 2016. O tempo excessivo de TV (≥4 horas) e as variáveis sociodemográficas foram obtidas por autorrelato via entrevista telefônica. Regressão logística binária foi conduzida.

Resultados:  Nenhuma mudança significativa foi observada, após uma década, na proporção de tempo de TV entre os adultos e os idosos. Entre os adultos, apenas a menor escolaridade permaneceu associada ao tempo excessivo de TV em ambos os inquéritos. Entre os idosos, o sexo masculino e a baixa escolaridade permaneceram associados ao tempo excessivo de TV, e aqueles residentes em Porto Alegre passaram a ter mais tempo excessivo de tela que seus pares em 2016.

Conclusões:  Embora a prevalência de assistência à TV tenha permanecido estável ao longo de 10 anos, os subgrupos mais afetados foram os brasileiros de baixa escolaridade e os idosos do sexo masculino.

Palavras-chave:
comportamento sedentário; televisão; indicadores demográficos; indicadores sociais

Abstract

Background:  The time spent in front of television (TV) is one of the most prevalent components of sedentary behavior in the leisure context.

Objective:  To analyze changes in prevalence and sociodemographic factors associated with excessive TV time in adults and the elderly in capitals of the southern region of Brazil after a decade. Methods: This is a secondary analysis of Brazil'a Surveillance System of Risk Factors for Chronic Diseases by Telephone Interviews (Vigitel) data, from 2006 and 2016. Excessive TV time (≥4 hours) and sociodemographic variables were obtained by self-report via telephone interview. Binary logistic regression was conducted.

Results:  No significant changes were observed in the proportion of TV time between adults and the elderly after a decade. Among adults, lower education remained associated with excessive TV time in both surveys. Among the elderly, the male gender and low education remained associated with excessive TV time, and those living in Porto Alegre started to have more excessive screen time than their peers in 2016.

Conclusions:  Although the prevalence of TV viewing has remained stable over ten years, the most affected subgroups were low-educated Brazilians and elderly men.

Keywords:
sedentary behavior; television; demographic indicators; social indicators

INTRODUÇÃO

Mesmo com o avanço tecnológico e uma maior disponibilidade de dispositivos de tela para a população, o tempo despendido em frente à televisão (TV) é um dos componentes do comportamento sedentário mais prevalente no âmbito do lazer entre os adultos1 e, principalmente, entre os idosos2. Quando adotado de forma excessiva, esse comportamento pode agravar a saúde, em virtude da postura (por exemplo, posição sentada) e consequente diminuição do dispêndio energético. Além disso, o tempo de TV está relacionado a hábitos alimentares não saudáveis, que aumentam o risco de obesidade3 e de doenças cardiovasculares4, por exemplo.

Pesquisadores que procuraram determinar a relação entre alguns modos de comportamento sedentário, incluindo o tempo assistindo à TV, e as taxas de mortalidade por todas as causas, doenças cardiovasculares e câncer sugerem que o tempo excessivo desses comportamentos é distinto entre adultos e idosos5. Contudo, isso é desconsiderado em grande parte dos estudos dessa temática, que analisam os dois grupos etários em conjunto6. Adultos com menor escolaridade7 e que moram em bairros ou cidades menos desenvolvidas economicamente8 tendem a apresentar maiores chances de tempo excessivo de TV. Entre os idosos, o fato de morar sozinho, de não ter um emprego em tempo integral ou ser aposentado9 e de ser menos favorecido economicamente10 também parece estar associado a esse comportamento. Em relação ao sexo, resultados divergem quanto a um grupo específico de risco para ambas as faixas etárias1.

Ademais, pesquisas realizadas em países de alta renda mostram que o tempo excessivo de TV parece se manter estável1 ou tende a aumentar com o passar do tempo11. Entretanto, ainda há pouca informação sobre a análise de mudanças temporais da prevalência do tempo de TV em contextos econômicos e políticos de países de baixa e média renda12. No Brasil, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado pelo Ministério da Saúde, destaca-se ao efetuar o monitoramento dos principais fatores de risco e proteção para as doenças crônicas não transmissíveis em todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal13,14. No entanto, embora análises em nível nacional sejam publicadas anualmente, pouca ênfase tem sido dada a investigações em níveis regionais acerca das tendências do tempo de TV, visto como o principal indicador do tempo de tela.

Nesse sentido, considerando que o Brasil possui diferenças regionais importantes devido a questões sociais, econômicas e culturais, o monitoramento do padrão desse comportamento em regiões específicas se torna relevante, uma vez que há a possibilidade de subsidiar estratégias para intervenções e auxiliar na elaboração de políticas públicas locais, de acordo com as especificidades de adultos e idosos. Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo analisar as mudanças na prevalência e nos fatores sociodemográficos associados ao tempo excessivo de TV em adultos e idosos residentes nas capitais da região Sul do Brasil após uma década.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal repetido realizado a partir de dados secundários do projeto "Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico" (Vigitel), de 2006 e 2016. O sistema Vigitel utiliza amostras probabilísticas da população adulta (≥18 anos de idade) residente nas 26 capitais estaduais brasileiras e no Distrito Federal e que possui em seus domicílios ao menos uma linha telefônica fixa.

O processo de amostragem do Vigitel foi realizado em duas fases. A primeira consiste no sorteio de, no mínimo, 5.000 linhas telefônicas por cidade, considerando a estimativa que exige 2.000 entrevistas e que garante o coeficiente de confiança de 95%, o erro máximo de cerca de três pontos percentuais. A segunda etapa, por sua vez, envolve a seleção de um adulto (≥18 anos) morador do domicílio para responder ao inquérito. Informações adicionais sobre os aspectos metodológicos podem ser consultadas em trabalhos previamente publicados13,14. Para o presente estudo, apenas os entrevistados moradores das capitais da região Sul do Brasil (Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre) foram selecionados.

A construção do questionário utilizado levou em consideração modelos de instrumentos simplificados, empregados por sistemas de monitoramento de fatores de risco para doenças crônicas e experiências a partir de testes de implantação do sistema realizados em algumas cidades brasileiras13,14.

A variável desfecho considerou o tempo diário de TV e foi categorizada em <4 horas e ≥4 horas diárias (tempo excessivo de TV). Os participantes deveriam relatar, em média, quantas horas por dia costumavam assistir à TV, e as opções de resposta eram de múltipla escolha, com variação de uma hora entre as alternativas. As variáveis de exposição foram sexo (masculino e feminino), escolaridade (<12 anos e ≥12 anos) e as capitais da região Sul do Brasil (Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre). Todas as entrevistas foram feitas de uma central telefônica, as ligações, gravadas, e, posteriormente, houve a realização do controle de qualidade dos dados.

A análise de dados considerou a ponderação do Vigitel, que compreende três fatores: o inverso do número de linhas telefônicas no domicílio do entrevistado; o número de adultos no domicílio do entrevistado; e o peso pós-estratificação, respeitando as características de sexo, idade e escolaridade da amostra e da população total das capitais brasileiras. Esse procedimento tem como objetivo igualar a composição sociodemográfica da amostra estudada pelo Vigitel em cada cidade à composição sociodemográfica da população total da cidade. A fim de verificar as mudanças na prevalência do tempo excessivo de TV entre 2006 e 2016 em adultos e idosos, realizou-se a análise descritiva por meio de frequência absoluta (n) e relativa (%), analisando os valores de diferença entre os anos (Δ=prevalência de 2016 – prevalência de 2006), comparando os intervalos de confiança de 95% (IC95%) e considerando mudanças significativas quando os intervalos não se sobrepuseram. Para testar a associação entre o tempo de TV e os indicadores sociodemográficos, realizaram-se regressões logísticas binárias (bruta e ajustada) para ambos os anos investigados, com os resultados expressos em Odds Ratio (OR) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%). O modelo conceitual de análise considerou a entrada simultânea das variáveis (sexo, escolaridade e cidades) e considerou nível de significância para p<0,05. Destaca-se, ainda, que todas as análises foram estratificadas de acordo com o grupo etário, categorizado em adultos (≤59 anos) e idosos (≥60 anos). Os dados foram analisados por meio do software estatístico Stata® Standard Edition, versão 13.0 (StataCorp LP, Estados Unidos).

Por se tratar de uma entrevista por telefone, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi substituído por consentimento verbal no momento da ligação telefônica com os participantes. O projeto Vigitel foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para Seres Humanos, do Ministério da Saúde.

RESULTADOS

Em 2006, das 8.840 linhas telefônicas elegíveis nas três cidades investigadas, verificou-se uma perda de 31,8%, totalizando 6.031 participantes no estudo. Em 2016, ainda nas mesmas cidades, identificou-se 8.572 linhas elegíveis, com perda de 30,8% e, consequentemente, 5.932 entrevistas concluídas.

Em relação à distribuição dos participantes de acordo com o grupo etário nas capitais da região Sul do Brasil, verificou-se, em 2006, que 84,4% (IC95% 83,3–85,5) eram adultos e 15,6% (IC95% 14,5–16,7) idosos. Em 2016, 79,7% (IC95% 78,5–80,8) eram adultos e 20,3% (IC95% 19,2–21,5) idosos. Informações sobre as características sociodemográficas da amostra segundo o grupo etário e o ano de coleta podem ser observadas na Tabela 1.

Tabela 1
Características sociodemográficas de adultos e idosos da região Sul do Brasil em 2006 e 2016.

Ao analisar as horas despendidas em frente à TV, observou-se, para os adultos, que 12,7% (IC95% 11,5–14,0) assistiam a quatro horas ou mais de TV por dia em 2006 e 11,5% (IC95% 9,9–13,3) em 2016. Para os idosos, 22,4% (IC95% 19,4–25,7) manifestaram esse comportamento excessivo em 2006 e 19,1% (IC95% 17,3–21,1) após uma década. Quanto à distribuição entre o comportamento sedentário em excesso, de acordo com variáveis sociodemográficas, verificou-se que, embora os valores referentes às proporções tenham se mantido estáveis ao longo dos anos, houve quedas mais expressivas para os adultos que moravam em Florianópolis e para os idosos do sexo masculino e de Curitiba, identificadas pelo Δ da Tabela 2.

Tabela 2
Distribuição entre o tempo excessivo de TV (≥4 horas) de acordo com variáveis sociodemográficas, em 2006 e 2016, em adultos e idosos.

Nos adultos, em 2006, verificou-se que os homens (OR=1,53; IC95% 1,20–1,96) e os menos escolarizados (OR=3,31; IC95% 2,53–4,34) tiveram mais chance de assistir a quatro horas ou mais de TV em comparação aos seus pares. Adultos que moravam em Florianópolis (OR=1,52; IC95% 1,18–1,96) e em Porto Alegre (OR=1,42; IC95% 1,10–1,84) apresentaram maior chance para esse comportamento do que os de Curitiba. Após dez anos, identificou-se que apenas a escolaridade manteve-se associada ao desfecho investigado (OR=2,34; IC95% 1,65–3,33), conforme indicado na Tabela 3.

Tabela 3
Associação entre o tempo excessivo de TV (≥4 horas) e variáveis sociodemográficas, em 2006 e 2016, em adultos.

Para os idosos (Tabela 4), constatou-se, em 2006, que os homens (OR=1,76; IC95% 1,16–2,68) e os menos escolarizados (OR=1,96; IC95% 1,21–3,19) apresentaram mais chance de assistir à TV em excesso do que as mulheres e os mais escolarizados, respectivamente. Em 2016, homens (OR=1,41; IC95% 1,06–1,87), idosos com menos anos de estudo (OR=1,84; IC95% 1,38–2,44) e moradores de Porto Alegre (OR=1,45; IC95% 1,10–1,92) também tiveram mais chance para o comportamento em questão.

Tabela 4
Associação entre o tempo excessivo de TV (≥4 horas) e as variáveis sociodemográficas, em 2006 e 2016, em idosos.

DISCUSSÃO

Embora a prevalência do tempo excessivo de TV tenha se mantido estável de 2006 para 2016, é notável que os idosos apresentaram quase o dobro da prevalência desse comportamento em comparação aos adultos. Após dez anos, o tempo excessivo de TV permaneceu alto entre os adultos e os idosos com baixa escolaridade bem como com os homens idosos. Além disso, os adultos apresentavam diferenças na prevalência de tempo excessivo de TV entre os sexos e em suas cidades em 2006, mas isso não ocorreu em 2016. Já para os idosos, Porto Alegre apresentou maior risco de tempo de TV em 2016 quando comparado com Curitiba, fato não ocorrido em 2006.

A estabilidade dos valores de prevalência do tempo excessivo de TV — analisados pela diferença das proporções de 2016 e 2006 — assemelha-se com o cenário de outros países, tais como Austrália e Finlândia, que possuem uma renda elevada1,6, bem como das regiões Norte15 e Nordeste12 do Brasil, que possuem características de renda mais baixa. Destaca-se, ainda, que o fato de a prevalência não diferir ao longo de dez anos pode representar um dado preocupante. Primeiro porque novos componentes de tela, como o uso de computadores, tablets e celulares, estão sendo inseridos na rotina das pessoas e, segundo, porque a "estabilidade" no tempo de TV reflete a força desse hábito e sua contribuição iminente para o aumento no tempo de tela total de populações adultas e idosas6.

Como ponto adicional, percebeu-se que os idosos do presente estudo apresentaram maiores prevalências desse comportamento quando comparados aos adultos. Revisão sistemática16 identificou um aumento no tempo de TV entre o período de 1981 a 2014 em países como Reino Unido, Canadá, Estados Unidos e Austrália. Esse resultado pode ser explicado em função de os idosos apresentarem um tempo livre ampliado em consequência da aposentadoria9, além de possuírem a saúde mais debilitada, o que, muitas vezes, dificulta a realização de atividades de caráter ativo17. Nesse sentido, destaca-se a necessidade de políticas públicas que se concentrem na redução desse comportamento na população idosa por meio da oferta de oportunidade de atividades comunitárias que foquem o caráter social e proporcionem um estilo de vida saudável a esse grupo populacional.

Nesse estudo, adultos do sexo masculino apresentaram maior chance de assistir à TV por quatro horas ou mais em 2006, mas esse comportamento não se manteve em 2016. Culturalmente, percebe-se que as mulheres despendiam mais tempo com as atividades domésticas, realizando tarefas como cuidados e educação dos filhos, realização de compras e organização da casa18. Além disso, percebe-se que houve um aumento na inserção da mulher no mercado de trabalho, tornando o cotidiano de homens e mulheres similar19. Dessa forma, é possível que o perfil de atividades desenvolvidas por homens tenha se modificado ao longo do tempo, uma vez que este deixa o papel de coadjuvante nas tarefas domésticas e passa a contribuir mais efetivamente nesse contexto, deixando de assistir à TV como antigamente, por exemplo.

Quando analisados os resultados para os idosos, aqueles do sexo masculino tiveram maior chance de assistir à TV em ambos os inquéritos. A literatura mostra que as idosas tendem a se engajar mais com os cuidados domésticos, a participar de atividades que ampliam os relacionamentos interpessoais e a se envolver com tarefas de caráter manual, como pintura, costura, bordado e jardinagem, potencializando suas capacidades psicomotoras e de aprendizagem20. No caso dos homens com essa faixa etária, o fato de uma parcela deles apresentar mais dificuldade de adaptação em relação à saída do mercado de trabalho, ligado, ainda, à percepção de barreiras para o envolvimento em atividades extradomésticas9, pode fazer com que eles passem mais tempo em frente à TV. Outra questão pode estar relacionada à viuvez, em que os homens, diante da rotina desestruturada e dos sentimentos negativos provocados pela perda de suas companheiras21, sentem-se desmotivados e resistentes à participação em outras atividades.

Observou-se que adultos e idosos com menos anos de estudo apresentaram maior risco de tempo excessivo de TV em ambos os anos, corroborando com estudos prévios conduzidos na região Norte do Brasil15, nas capitais brasileiras22 e internacionalmente7. Esses achados podem estar atrelados ao fato de que os menos escolarizados apresentam menos conhecimentos sobre os riscos que o tempo excessivo de TV pode provocar à saúde23, bem como sobre os benefícios advindos da prática regular de atividade física, que pode substituir o tempo de TV24. Ainda, no Brasil, percebe-se que quanto mais anos de estudo, maior a renda e, consequentemente, maiores as oportunidades de atividades culturais, acesso a clubes e utilização de outros dispositivos eletrônicos25.

Quanto aos efeitos referentes às três cidades do Sul do Brasil, constatou-se, no presente estudo, que adultos moradores de Florianópolis e de Porto Alegre em 2006 apresentaram maior chance de assistir a 4 horas ou mais de TV, em relação àqueles que moravam em Curitiba. Entretanto, não houve diferença entre as cidades em 2016. Essa mudança pode ter ocorrido em virtude da implementação de políticas públicas que fomentam a prática de atividade física, como a Política Nacional de Promoção de Saúde (PNPS), que inclui a Academia da Saúde26 e outros programas locais27. Nesse sentido, os adultos passaram a ter mais oportunidades ativas em suas cidades e, como consequência, podem ter substituído o tempo despendido em frente à TV por outros comportamentos mais saudáveis.

Para os idosos, as cidades de residência não apresentaram diferenças significativas para o tempo excessivo de TV em 2006. No entanto, após uma década, indivíduos que residiam em Porto Alegre tiveram maior chance de possuir tempo excessivo de TV em relação àqueles que moravam em Curitiba. A percepção de segurança pode ser considerada um importante componente para compreensão da maior permanência dos idosos em casa realizando atividades domésticas, como assistir à TV, em Porto Alegre. Segundo dados do Atlas da Violência28, as taxas de homicídios variaram de -8,1% no Paraná, 27,4% em Santa Catarina e 58,0% no Rio Grande do Sul no período de 2006 a 2016. Possivelmente, a criminalidade da região aumenta o medo dessa população de sair de casa. Ainda, a forma como idosos reagem ao sentimento de insegurança pode exercer maior influência em seu cotidiano29, visto que a maioria não necessita se deslocar para o trabalho, permanecendo mais tempo em casa. Em contraponto, uma boa percepção de segurança possibilitaria maior conforto para realizarem atividade física em ambiente externo em sua proximidade.

A partir do exposto, cabe salientar que este estudo apresentou alguns pontos fortes, como o tamanho amostral relacionado aos indivíduos que residem nas capitais da região Sul do Brasil; o fato de as análises terem sido estratificadas de acordo com o grupo etário e considerarem também o espaço temporal de dez anos. No entanto, por se tratar de um inquérito telefônico, as medidas relacionadas ao hábito de assistir à TV foram autorrelatadas. Embora muito utilizadas em outros estudos, há possibilidade de superestimação ou subestimação do tempo referido com o autorrelato. Ademais, questões metodológicas relacionadas, por exemplo, aos instrumentos utilizados e aos pontos de corte estabelecidos para o tempo excessivo de TV30 devem ser ponderadas, uma vez que restringem a comparabilidade com a literatura. Entretanto, ainda que não exista um consenso na literatura no que diz respeito ao melhor ponto de corte para o comportamento sedentário geral ou seus indicadores, revisões sistemáticas confirmam risco para morbimortalidade a partir de análises que utilizaram ≥4 horas por dia como parâmetro31,32. Por fim, o cálculo amostral não foi conduzido de modo estratificado para adultos e idosos, logo, os resultados encontrados podem não ser capazes de representar os grupos investigados.

Embora tenha-se observado estabilidade nas prevalências do tempo excessivo de TV entre 2006 e 2016, os idosos passam quase duas vezes mais tempo em frente à TV em comparação aos adultos. Ainda, as relações se manifestaram de maneira diferente em adultos e idosos (seja na extensão, direção ou força da relação) ao longo de dez anos, cujas mudanças mais relevantes foram observadas para o sexo, nos idosos, e para a escolaridade, em ambos os grupos etários. Assim, o acompanhamento do tempo excessivo de TV é de notável relevância para a compreensão das mudanças temporais desse comportamento na população e para o planejamento e a execução de estratégias que visem à redução desse tipo de hábito, considerando a necessidade de abordagens diferenciadas para adultos e idosos e suas particularidades sociodemográficas associadas ao comportamento sedentário.

  • Fonte de financiamento:
    Ministério da Saúde [grant number 86].

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Abr 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    04 Jun 2020
  • Aceito
    04 Set 2022
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