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Open-access Estratégias de enfrentamento diante das violências contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais

Coping strategies for violence against lesbians, gays, bisexuals, travestis and transexuals

Resumo

Introdução:  O artigo investiga as estratégias de enfrentamento adotadas por pessoas LGBT+ diante das violências motivadas pelo preconceito contra corpos dissidentes da cis-heteronormatividade. Essas violências vão além da agressão física, incluindo exclusão social e simbólica. A pesquisa fundamenta-se nos conceitos de performatividade de Judith Butler para compreender as respostas dessa comunidade a esse contexto hostil.

Objetivo:  Descrever e analisar as estratégias de enfrentamento desenvolvidas por membros da comunidade LGBT+ diante de diferentes formas de violência.

Método:  Trata-se de uma pesquisa qualitativa exploratória, baseada em entrevistas semiestruturadas com nove participantes recrutados pela técnica de amostragem Bola de Neve. As narrativas foram analisadas a partir da Análise do Discurso Crítica e do software KitConc 4.0, além de embasamento teórico na Teoria Social do Discurso e nos conceitos de Judith Butler sobre performatividade.

Resultados:  Os principais mecanismos de enfrentamento identificados foram amizade, família, religião e movimentos sociais. A amizade foi a estratégia mais recorrente, enquanto a família apareceu com contradições. A religião foi mencionada como refúgio em alguns casos. Algumas pessoas anularam sua identidade para evitar violência, e outras não apresentaram estratégias de enfrentamento.

Conclusões:  O estudo evidencia que redes de apoio são essenciais para a resistência LGBT+, mas a ausência de políticas públicas limita as possibilidades de enfrentamento, levando à invisibilização e ao isolamento.

Palavras-chave:
violência; identidade de gênero; minorias sexuais; saúde pública

Abstract

Background:  This article investigates the coping strategies adopted by LGBT+ individuals in response to violence motivated by prejudice against bodies that dissent from cis-heteronormativity. Such violence extends beyond physical aggression, including social and symbolic exclusion. The research is based on Judith Butler's concepts of performativity to understand how this community responds to a hostile context.

Objective:  To describe and analyze the coping strategies developed by LGBT+ individuals in response to different forms of violence.

Method:  This is an exploratory qualitative study based on semi-structured interviews with nine participants recruited through the Snowball Sampling technique. The narratives were analyzed using Critical Discourse Analysis and the KitConc 4.0 software, along with theoretical support from Social Discourse Theory and Judith Butler's concepts of performativity.

Results:  The main coping mechanisms identified were friendship, family, religion, and social movements. Friendship was the most common strategy, while family appeared with contradictions. Religion was mentioned as a refuge in some cases. Some individuals annulled their identities to avoid violence, while others did not present any coping strategies.

Conclusions:  The study highlights that support networks are essential for LGBT+ resistance. However, the lack of public policies limits coping possibilities, leading to invisibilization and isolation.

Keywords:
violence; gender identity; sexual minorities; public health

INTRODUÇÃO

As violências contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, entre outras identidades (LGBT+) impactam de diferentes formas o cotidiano dessa comunidade. Defini-las envolve não apenas as ações que objetivam o extermínio do corpo físico, mas também sua exclusão enquanto corpo simbólico e coletivo do tecido social. Cenas violentas que variam do isolamento social involuntário até o assassinato são fáceis de encontrar nos veículos midiáticos e atravessam as subjetividades daquelas pessoas que não contemplam o atual modelo cis-heteronormativo. Tal conjuntura não acontece sem a interação dos corpos-alvo, que constituem reações para lidar com esse cenário violento. São, portanto, estratégias de enfrentamento: formas intencionais (ações, pensamento e comportamentos) com que as pessoas administram determinado elemento estressor do ambiente ou estado interno1. Na verdade, o termo estratégia de enfrentamento é polissêmico, sendo definido também como meios de adaptação de certo organismo em referência às condições ambientais, como adaptação a condições drásticas de vida ou ainda como técnicas para resolver problemas2-4. Será proposto, neste artigo, analisar as estratégias de enfrentamento — como atos e práticas iterados e citados —, que, junto com as normas regulatórias, constituem os sujeitos LGBT+. Inspira-se no conceito de performatividade de Butler5-7 para estudar as estratégias de modo menos individualizante, e mais próximos de práticas discursivas e corporais estabelecidas por atores na cena enunciativa de violências.

Lançaremos mão também das contribuições de Butler8 para definir violência com base no ethos coletivo, anacrônico, fundado no pressuposto da unidade. A violência é, portanto, a forma com que esse ethos se mantém, impondo-se no presente, buscando suprimir contradições e conflitos que, de fato, existem nele9,10. Essa unidade que ele busca provocar — já que não responde mais às variações culturais e sociais — é, de certa forma, exigir a sustentação de uma identidade que seja imutável e infinita, assim como aplicar a regra do outro a si próprio. Pessoas LGBT+, dessa forma, são alvos ethoicos, já que experienciam atos violentos, que são entendidos ou reconhecidos como tal, portanto, não naturais. A reconhecibilidade de determinada experiência como violenta depende de quem recebe o dano ou ameaça11, além de ser atravessada pelos sistemas simbólicos que buscam legitimar formas de assujeitamento. Tal reconhecimento da violência — assim como sua própria conceituação — é facilitada pelos esforços de ignorá-la e invisibilizá-la empreendidos por determinados grupos, resultando na sua hegemonia.

Em referência à relação entre estratégias de enfrentamento e identidade de gênero/orientação sexual, pesquisas mostram que pessoas pertencentes a minorias desencadeiam mais estratégias porque estão sob maior pressão e estresse social12-14. A maioria dos trabalhos publicados de revisão da literatura encontrada sobre estratégias de enfrentamento e comunidade LGBT+ usa as lentes comportamentais para entender o objeto de estudo. A inovação deste artigo está em, de fato, buscar outras perspectivas sobre a questão, a fim de contribuir com os conhecimentos sobre a comunidade LGBT+ e basear as intervenções de modo a garantir os direitos humanos a essa população. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é descrever e analisar as estratégias de enfrentamento desenvolvidas contra violências por integrantes da comunidade LGBT+.

PERCURSO METODOLÓGICO

Pesquisa qualitativa, exploratória e descritivo-interpretativa15,16. Foram realizadas entrevistas guiadas por um roteiro semiestruturado e, para chegar até as pessoas participantes, foi utilizada a técnica de amostragem não-probabilística Bola de Neve: utilizou-se uma cadeia de referências, que se inicia com informantes-chave, aos quais são solicitadas indicações de pessoas com características desejadas17. A escolha da técnica para esta pesquisa se deu pelo fato de focarmos em um tema sensível, atravessado de sofrimentos. Portanto, foi necessário um tratamento mais reservado para a formação do grupo participante, por meio de uma rede de apoio que já atuava na proteção da vida LGBT+. Ademais, a Bola de Neve é especialmente adequada para abordar grupos cujo conjunto universo é difícil de mensurar ou quando o acesso a ele é dificultado pela temática, pelas características ou qualquer outro elemento17.

Para esta pesquisa, primeiramente, apresentamos a proposta de investigação, já devidamente aprovada em seus aspectos éticos, para movimentos sociais e estudantis, organizações não governamentais e coordenações de projetos de extensão universitária, todos ligados à garantia de direitos LGBT+ e atuantes na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Após sanarmos as dúvidas que apareceram, solicitamos apoio no sentido de indicar pessoas com 18 anos ou mais que se considerassem transexual, travesti, lésbica, bissexual, gay ou qualquer outra denominação que não fosse cis-heterossexual e que tivessem sofrido alguma violência por conta de discriminações heteronormativas. Recebemos as primeiras indicações, às quais apresentamos a pesquisa, convidamos a participar e, caso aceitassem, após a entrevista, pedíamos novas indicações, de modo a construir a rede de participantes da pesquisa.

Encerramos a etapa de entrevista após nove participantes. Buscamos, à medida que as indicações aconteciam, entrevistar pessoas que tivessem diferentes marcadores sociais, com o objetivo de apreender vivências de distintos percursos biográficos. Mesmo não sendo um critério e nem mesmo uma preferência, todas as pessoas possuíam algum vínculo com o ensino superior no momento da participação na pesquisa. Além disso, o grupo foi definindo-se ao passo que nos aproximávamos ao máximo do objeto pesquisado, sem, com isso, pretender saturá-lo18.

As entrevistas foram analisadas sob a perspectiva da Análise do Discurso Crítica (ADC), de vertente britânica, desenvolvida e proposta por Norman Fairclough. Essa teoria está inserida em um conjunto de ideias cunhadas como Teoria Social do Discurso (TSD), cuja tese inicial é de que há relações dialéticas entre a vida social e os discursos, ou seja, discursos constroem e constituem relações sociais e não apenas as refletem19; discursos são constituídos e constituintes da vida social. Alicerçada na postura crítico-realista, a TSD busca oferecer suporte científico para pesquisas sobre o funcionamento dos discursos na instauração, manutenção e/ou superação de problemas socialmente construídos20.

A TSD baseia-se na concepção tridimensional do discurso, conforme Figura 1, com a proposta de contextualização dos discursos, sempre situados temporal, circunstancial e espacialmente.

Figura 1
Concepção tridimensional do discurso19.

Para auxiliar na análise, foi utilizado o software brasileiro Kitconc versão 4.0. Esse programa proporciona a exploração do corpus textual de modo a fornecer a frequência das palavras que mais se repetem, sua predominância no texto, com quais outras palavras determinados termos se ligam e onde mais aparecem21.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz, sob o no CAAE 63857317.6.0000.5091 e parecer de aprovação no 1.925.485, sendo representante de parte dos resultados da dissertação de mestrado do primeiro autor.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 1 apresenta as características das pessoas participantes desta pesquisa, além de aspectos relevantes para a compreensão das entrevistas aqui analisadas. Devido ao foco priorizado neste artigo, buscamos aprofundar a análise nas estratégias de enfrentamento desenvolvidas perante as violências várias que os entrevistados vivenciaram. Outras produções oriundas do mesmo projeto de pesquisa se dedicaram às análises das violências e de outros fatores que atravessam a problemática22-25.

Tabela 1
Perfil das pessoas entrevistadas segundo idade, gênero, orientação sexual, raça/cor/etnia, escolaridade e local de residência.

Diante disso, trataremos, primeiramente, dos excertos que relatam as estratégias de enfrentamento que possuem elementos em comum:

"eu tenho um amigo também que me ajudou, ele que me segurou as barras, as rédeas" (P6)

"meu amigo, sempre ajudo, ele vem, desabafa comigo, desabafa com os amigos" (P9)

"Quando você tem amigos aí você consegue desabafar (…) se você tem amigos, você consegue até sobreviver, se você não tem, você não sobrevive não" (P2)

"se sua família não te apoia, você tem outras pessoas que te apoiam" (P7)

Aqui as/os participantes se referem a modos de lidar com as violências perpetradas no ambiente familiar, como, por exemplo, agressões verbais de mães em decorrência da homofobia ou ainda por parentes que menosprezam certos movimentos corporais, indicando-os como "próprios" do "sexo oposto". Tais trechos apresentam a estratégia de enfrentamento mais recorrente relatada pelas(os) participantes: a amizade. Estabelecida em processo relacional (ter), essa estratégia implica em um identificado (amigo) que realiza processos materiais (ajudar, segurar, apoiar) ou verbais (desabafar, reclamar), e não há interseccionalidades que a modifiquem, mas sim homogeneidade dentro do conjunto de entrevistas, uma vez que diferentes performatividades constituem-na como principal forma de enfrentamento às violências.

P6 e P2 metaforizam a amizade como algo que "segura as rédeas", ou seja, algo que está fora de controle e a pessoa amiga aparece para controlar a situação ou ainda como condição para sobreviver. Neste último, é possível questionar se sobreviver não está no sentido literal, visto que o Brasil é o país que mais assassina pessoas LGBT+ no mundo26.

Amiga(o), portanto, para as pessoas participantes da pesquisa, é alguém que, solidário à situação de violência, intervém na performatividade do outro e na cena violenta em que está se relacionando. Essa estratégia também foi uma das principais nos estudos de Albuquerque et al.27, Vieira28, Toomey et al.29 e Eliason et al.30, para os quais a amizade aparece como central, se contrapondo à família tradicionalista, heteronormatizada, célula menor da sociedade, aquela que nos designa pela linguagem, geralmente a primeira instância a excluir e violentar pessoas LGBT+. É circulado dentro da comunidade que amigos são a família que escolhemos — isso reflete sua importância para o enfrentamento às violências. Em compensação, os mesmos estudos salientam que amigos também podem ser agentes das violências contra LGBT+31,32, chegando a 39,8% o número de participantes que afirmaram já ter sofrido alguma forma de violência psicológica por pessoas identificadas como amigos27.

Apesar das violências atravessarem o dispositivo família, ela aparece com bastante frequência, conforme os excertos a seguir:

"eu tive apoio da família, eu tive apoio da instituição que estudo (…) então eu to dentro mesmo de uma bolha" (P5)

"eu busquei apoio muito na minha família, apesar de elas não terem aceitado de primeira vez, falado que era mentira (…), mas depois perceberam que era verdade, que eu não tava inventando, elas foram meu porto seguro" (P6)

"eu buscava apoio no meu avô. Meu avô é espírita então eu converso muito, muito, muito, muito com ele (…) procuro abrigo só no meu avô mesmo, que é o único que ainda consegue me compreender" (P4)

Ainda que os excertos mais acima apresentados tratem de violências no âmbito familiar, aqui as/os participantes evidenciam que a família também pode ser protetora, ao invés de perpetradora de violências. Na literatura, é raro encontrar produções que demonstrem a família como porto seguro, parafraseando P6, já que a família geralmente é a primeira instituição violenta33-35. Longaray e Ribeiro36 discutem o ambiente familiar como o primeiro espaço de socialização e educação de sujeitos LGBT+ e, portanto, o lugar dos primeiros desafios de reconhecimento de performatividades não hegemônicas. No entanto, ainda é possível perceber atos contra-hegemônicos desse status da família cis-heteronormativa, como P4 traz ao falar de seu avô, e em conversas posteriores a avó também é indicada, sendo ele e ela as únicas pessoas que a participante cita, e ao fazer isso, intensifica processos material (conversar) e mental (compreender) com a utilização do "muito" repetidamente e os operadores argumentativos "só" e "único". Não obstante, esse interdiscurso atravessado pelas práticas discursivas cristãs tende a controlar os corpos37, imputando a eles a responsabilidade pela divisão sexual, geratrizes dos "papéis naturais" de cada sexo6,38. Entranto, se for um corpo que não é adequado à matriz fixa de inteligibilidade cristã, torna-se abjeto, vivendo uma vida que não merece ser vivida.

A abjeção dos corpos ocorre dentro de um processo discursivo, no contexto social em que operam relações sociais e poderes com possibilidades de construir significados de acordo com seus interesses. (…). E é disso que se trata a abjeção, a sinalização de comportamentos e identidades que estão fora do esquema binário em que os sexos/gêneros estão inseridos38 (p. 338).

Para sobreviver, portanto, as pessoas LGBT+ constroem relações com amigas(os) e família, na perspectiva da precariedade: devido a condições assimétricas sociais, os grupos veem-se interdependentes39,40. Outros dois participantes da pesquisa, P5 e P6, não apontam familiares específicos que auxiliaram no enfrentamento à violência. P6 afirma que, em função de uma situação de abuso sexual, opera um processo material (buscar), não atingindo a meta de imediato (apoio) e reforça (mas) que em um momento posterior, outro processo, agora mental (acreditar), se confluiu no enfrentamento à situação. Baía et al.41 apontam que o crédito na criança que é vítima de abusos não acontece de forma plena no momento em que ela relata o ocorrido. São feitos questionamentos, como identificação do agressor, verificação do ato e a confirmação por testemunhas ou por profissionais de saúde, para que a família acredite na vítima. Se, de um lado, é importante averiguar todas as informações possíveis sobre abusos sexuais, com o objetivo de identificar corretamente a pessoa agressora e tomar as devidas providências, por outro, a criança vitimada fica sem apoio social, familiar e/ou institucional até a confirmação do fato, podendo abrir uma janela temporal para mais situações abusivas. Assim, a estratégia de enfrentamento baseada na busca de algum auxílio constitui o sujeito, no sentido de que, a partir do ocorrido, ela poderá ser interpelada pelo discurso culpabilizador, que deslegitima sua fala em detrimento da cena, até que outros atores, ao se relacionarem, provoquem novas práticas.

Continuando com as entrevistas, P5 descreve a família como uma bolha, na qual também está inserida a universidade em que estuda. Essa fala é destoante em relação à literatura sobre violência contra pessoa trans, já que são relatados suportes pontuais às pessoas travestis e transexuais, como apoio clínico no processo de transexualização, apoio familiar, apoio institucional. Todavia, não costuma existir concomitantemente a ponto de ser metaforizado como uma "bolha"42. A interseccionalidade presente na performatividade de P5 pode auxiliar na compreensão dessa figura de linguagem — mesmo sendo homem trans, ele é branco, morador de uma cidade de grande porte, universitário, com vínculo empregatício e renda fixa. Isso conforma suas vivências de modo a diminuir sua vulnerabilização. A metáfora da bolha itera a performatividade do corpo que é limitado, que tem a existência dentro de um limite.

Outra estratégia de enfrentamento muito recorrente nas entrevistas foi a não estratégia: quando a ausência de apoio social e a dificuldade de lidar isoladamente com as violências constitui também uma forma de enfrentar a violência. Assim a imutabilidade da situação é resultado da não estratégia, de acordo com os excertos a seguir:

"a gente fica com muito medo de fazer denúncia ou algo do tipo porque a gente sabe que não vai acontecer nada com a pessoa" (P5)

"não teve nada, porque até então ninguém teve coragem de denunciar e então ficou por isso mesmo" (P6)

"eu não tinha ninguém pra recorrer, sabe? Eu não conhecia muita gente LGBT (…) eu tive que enfrentar tudo sozinha, assim tive depressão durante um período" (P9)

"você não busca apoio em lugar nenhum porque não tem esse lugar (…) raramente você vai ter esse lugar em casa (…) na maioria das vezes você tá sozinho" (P2)

Esses trechos abordam os casos de violências físicas e verbais em espaços públicos, como bares, escola e local de trabalho. Mello et al.43 apontam que segurança pública é a segunda demanda mais presente no Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos de LGBT. Atualmente, as polícias civis de alguns estados brasileiros, como Minas Gerais e São Paulo, ampliaram o escopo das já existentes delegacias especiais de crimes contra a mulher, à pessoa idosa e com deficiência para atender vítimas de crimes com motivação religiosa, racial ou identitária44,45. Mesmo com tais conquistas, as vivências da comunidade LGBT+, em especial as das pessoas trans, ainda estão permeadas pela percepção de "que nada vai acontecer com a pessoa" ou que a segurança de quem denuncia não pode ser garantida pelas autoridades responsáveis. Os excertos de P5 e P6 exemplificam as considerações de Silva e colaboradoras46, que explicam os poucos registros em boletins de ocorrência sobre atos criminosos infringidos à população trans pelo receio de mais violências, assim como o consequente silêncio, reforçando a invisibilidade.

Já P9 e P2 exprimem a não estratégia pela ausência generalizada de apoio. "Não ter ninguém" e "Não ter lugar" são dois processos relacionais marcantes nos excertos, em que o portador nega qualquer atributo em relação ao apoio em situações de violência contra pessoas LGBT+. Essa solidão é explorada por algumas pesquisas47,48, e pode levar a questionamentos existenciais: se não importa onde estou ou quem sou, para que vivo? O suicídio viria, então, como uma alternativa a essa existência cheia de nada, como uma forma de implementar novas formas de (não) ser49.

A existência de espaços saudáveis, que possibilitem o encontro entre pessoas LGBT+ e valorizem suas experiências e demandas28, visa justamente propiciar a quem não tem lugar ou não tem ninguém a ressignificação de sua existência. Ao existir, sujeitos LGBT+ resistem. E a resistência, mesmo que isolada, carrega a luta de um grupo vulnerabilizado. Seguindo a mesma linha da negação como estratégia de enfrentamento, algumas pessoas entrevistadas relataram o não ser perante as violências cotidianas.

"você se percebe gay, aí depois você se anula, você não aceita porque tem as questões religiosas (…) eu era um desses gays [afeminados] na infância, é porque você vai se retraindo, eu fui me retraindo porque eu percebia que não podia ser assim, porque se eu fosse assim, eu ia sofrer muito mais abusos do que eu já sofria (…) tenho vários amigos que se retraíram fisicamente, ficando mais masculinos, tentando ficar mais masculinos, pra sofrer menos opressões" (P2)

P2 fala de uma situação recorrente à comunidade LGBT+: primeiramente você percebe ser, depois não pode ser. A percepção pelos sujeitos de suas identidades sexuais e de gênero, quando não compatíveis com a norma cis-heterossexual (ou quando são avisados disso), é seguida pelo entendimento de que isso é motivo para ataques físicos, verbais e psicológicos. A estratégia então adotada para (sobre)viver é não (poder) ser. A prática discursiva, por conseguinte, restringe a performance a algo hegemônico e constitui o ser LGBT+. A paródia do masculino, feita pela repetição de atos moldados segundo um ideário de homem que não existe, é iteração da pessoa gay em relação a um contexto percebido como assujeitador. Sua identidade, portanto, vai constituindo-se por corporeidades hegemônicas, ao mesmo tempo que se naturaliza como um eu, pretensamente autônomo e essencial. Assim, internaliza-se o ethos violento para expressá-lo por efeitos de verdade por meio do corpo50,51. Estratégia semelhante é adotada pela P8 quando é alvo de discriminação em situações que estava com sua companheira:

"tinha que abaixar a cabeça e ir embora" (P8)

Adotando um processo material ligado a um relacional (ter que abaixar), ainda de maneira deôntica, como se algo a obrigasse, P8 explica a estratégia: abaixar e ir, produzindo um corpo subjugado e oprimido. Seja pela falta de apoio social para agir de maneira mais empoderada ou ainda para extinguir as violências, o abaixar a cabeça e ir embora é uma forma individualizante (mas que se itera em várias vivências e práticas sociais) desse fenômeno, que naturaliza as violências cotidianas, pois o que resta é aceitar e seguir em frente.

Voltando-se para P8, que é negra e mulher cis, Carvalho et al.52 nos auxiliam na análise, ao problematizar as violências contra mulheres como a cisão entre os âmbitos público e privado. Como a mulher é definida — principalmente pela norma que itera performances do patriarcado — enquanto corpo reprodutor dos costumes e sujeitos, seu privado (sexualidade) é destacado no público, no qual homens cis apontam, ofendem e agridem, se percebem que algo, que inadequadamente chamam de "função feminina", não está sendo conformado em uma mulher. A justificativa é manter a "ordem natural da vida", anulando qualquer individualidade em nome do coletivo nitidamente cristão. Assim, percebe-se que essa estratégia de "ir embora" é uma forma de resgatar algo do privado, mantendo-o em si, em vez de combater diretamente o agressor, o que, necessariamente, exporia (ainda mais) sua condição performática.

As vivências trans em relação às violências são destoantes das outras performances, como é exemplificado pelo relato a seguir:

"durante muito tempo, no começo da transição principalmente, eu parei de sair de casa muito quando não era necessário" (P5)

Esse excerto relata a estratégia construída pelo participante trans para lidar com a discriminação em relação a seu corpo transitório, que levou à limitação do viver. Percebe-se que a ação de sair ocorria quando foi interrompida por um agente não explícito que se justifica pelo "começo da transição". No entanto, parece que não foi a transição em si que impedia P5 de sair, mas sim os atos violentos contra pessoas trans naturalizados na população brasileira53. Esse corpo-limite, limitado em si e pelo outro, é constituído pelo processo de transição, interpelado por um turbilhão de práticas discursivas, e que age de forma a enfrentar novas situações com essa outra corporeidade. A estratégia de isolamento foi, para P5, a repetição de atos (durante muito tempo) que restringiu suas relações sociais, buscando evitar constituir-se do outro, pois o percebia como prejudicial para si. No entanto, ao agir dessa forma, já se constituía pelo outro, uma vez que este o impedia de agir livremente.

Espaços coletivos, como religião, movimentos sociais e outros, são apresentados também como agentes possibilitadores de enfrentamento. P1 exemplifica isso com a religião:

"na época não tinha muito acesso, muita informação sobre essas questões, então meu apoio naquele momento foi minha religião (…) minha fuga para esse momento foi mesmo na religião" (P1)

Na fala de P1, que se refere a violências rotineiras em relação ao seu modo de conviver em espaços coletivos, ele age como portador, nega os atributos "acesso" e "informação" mediante um processo relacional (ter), concluindo que a religião foi seu apoio ou fuga. Não é comum encontrar afirmações que ligam positivamente a religião com questões LGBT+, apesar de ela poder proporcionar ressignificação em relação às violências54, como, por exemplo, grupos de estudos espíritas, as religiões de matizes africanas e algumas iniciativas contra-hegemônicas na Igreja Católica.

Práticas discursivas religiosas que desqualificam as diversidades humanas, construídas com base em interpretações conservadoras de livros-base, principalmente a Bíblia no contexto brasileiro, são visíveis em espaços midiáticos, políticos e sanitários, inculcados no cotidiano social como algo da ordem do dever ser55. As tentativas de portarias e leis que autorizem a prática clínica de reversão sexual, que retrocedem em direitos (já exíguos) conquistados e que reproduzem a hegemonia sob a égide da "Escola sem Partido" são alguns exemplos que advêm da instituição religiosa e procura limitar, senão exterminar, a comunidade LGBT+. As igrejas inclusivas aparecem como alternativa à exclusão das pessoas não-cis-heterossexuais da vida em comunidade religiosa. O modo de incluir é diverso: algumas ofertam um espaço valorizador das diversidades sexuais, de militância, atuando além dos muros dos prédios sagrados, já outras aceitam desde que vivam uma vida monogâmica, adotando discursos moralizantes com vistas ao relacionamento paródico ao heterossexual idealizado55. Ao ser compreendida como um espaço que se vai quando se está em perigo — por isso P1 relaciona religião a fuga —, a religião tem potencial de promover o desenvolvimento identitário de pessoas LGBT+, propiciando o conforto emocional requerido inicialmente e podendo, paulatinamente, atuar sobre as condições violentas. Araújo56 reitera que essa posição política deve ser contínua, a fim de provocar reflexões nesse lugar de dissidência, e vigiar para que a transgressão da norma eclesial exista pela produção de outras normas não enviesadas pela heteronormatividade cis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo tratou das estratégias de enfrentamento, enquanto performatividades de corpos LGBT+, ante as violências motivadas por preconceitos contra pessoas não cis-heteronormativas. Os resultados e a discussão construída mostraram o enfrentamento em uma perspectiva mais individual, ainda que não fosse a intenção no momento das entrevistas. A apresentação de certa distância das redes institucionais de combate às violências parece ser uma tônica nas vivências das pessoas que participaram desta pesquisa. Por outro lado, há a formação de uma rede mais informal de apoio, constituída principalmente por amigas/os, de tal modo que é compreensível como uma forma de viver uma vida boa em uma vida ruim, parafraseando Butler. Para essa autora, que acompanha o pensamento de Theodor Adorno, vivemos em um mundo marcado pelas desigualdades, pelas explorações e por diversas formas de apagamentos dos sujeitos — a vida ruim — ao passo que ainda lutamos, resistimos pela existência, pelas possibilidades de ser-estar-fazer, neste mesmo mundo, o que poderia ser chamada de vida boa, viável57.

Família aparece também, ainda que atravessada por suas contradições, assim como a religião e os movimentos sociais. Tal forma de se constituir perante as violências pode resultar até mesmo na aniquilação desse sujeito, ou ainda na sua ação visando paródias de modelos hegemônicos, como acontece com homens gays e bissexuais que vão se construindo desafeminados para encaixe em um molde de ilusões ideais. Esse corpo modificado e constrangido a todo tempo é um corpo-limite, limitado em sua forma, em sua performance, em sua identidade. Como não é possível sair de todas as práticas discursivas, pois somos justamente por estar nelas, busca-se por espaços saudáveis, como igrejas afirmativas e movimentos sociais que promovam outras práticas, convergentes com identidades LGBT+, ou mesmo, por meio do diálogo, os sujeitos criam a cena afirmativa da diversidade. Sendo assim, tais estratégias de enfrentamento transcendem a qualquer sistema fechado de estímulo-resposta para serem compreendidas como atos performativos, que auxiliam na constituição da pessoa LGBT+ ao mesmo tempo que são praticadas por ela.

As limitações desta pesquisa são: a ausência de narrativas transfemininas autobiográficas, apenas alcançadas por relatos de outros participantes; e a cadeia de contatos ter sido constituída apenas por pessoas que conseguiram acessar o Ensino Superior, espaço privilegiado de conhecimentos outros.

A (r)existência LGBT+ materializa-se principalmente no corpo que, ainda que alvo ethoico, não permanece imobilizado: acessórios, manifestações, diálogos e outras ferramentas sociais são utilizadas para transformar a vida em algo vivível. Por vezes, o abaixar a cabeça faz-se necessário para, em outro momento, erguê-la e enfrentar as violências que insistem em convencer que ser LGBT+ é ser menos. Seremos mais.

  • Trabalho desenvolvido no âmbito do Mestrado do primeiro autor no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Fundação Oswaldo Cruz, Instituto René Rachou – Belo Horizonte (MG), Brasil.
  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Nov 2018
  • Aceito
    04 Set 2022
  • Corrigido
    08 Abr 2025
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