Open-access Tempo de tela, consumo de ultraprocessados e circunferência da cintura em agentes comunitários de saúde de Vitória (ES), Brasil

Association between screen time, ultra-processed food intake and waist circumference in community health agents of Vitória (ES), Brazil

Resumo

Introdução:  Mudanças nos hábitos alimentares e comportamentais da sociedade conduziram a uma estreita relação entre dieta, comportamento sedentário e doenças crônicas não transmissíveis. Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) caracterizam-se como mediadores entre a população e o sistema de saúde, destarte faz importante analisar seu estilo de vida e estado de saúde.

Objetivo  Avaliar a relação entre Tempo de Tela (TT), consumo de Alimentos Ultraprocessados (AUP) e Circunferência de Cintura (CC) em ACS de Vitória/ES, Brasil.

Método:  Trata-se de um estudo transversal com participantes de ambos os sexos, de 25 a 72 anos. As informações foram obtidas por questionários estruturados sobre hábitos alimentares e de vida. O TT (exposição) foi categorizado em <2 horas/dia e ≥2 horas/dia. Os desfechos de interesse — consumo de pelo menos um AUP/dia e a CC — foram aferidos seguindo protocolos específicos. As análises estatísticas foram realizadas no SPSS versão 21.0.

Resultados:  Foi observado, entre os 258 ACS, que o TT ≥2 horas/dia aumenta em 2,4 vezes a chance de consumir AUP (IC95% 1,4–4,2) e de ter a CC inadequada (IC95% 1,20–4,73).

Conclusão:  TT ≥2 horas/dia está associada ao consumo de pelo menos um AUP e com maiores chances de CC inadequada.

Palavras-chave:
tempo de tela; alimentos industrializados; circunferência da cintura; atitude frente aos computadores; comportamento alimentar

Abstract

Background:  Changes in dietetic habits and behavior in society have led to a narrow relationship between diet, sedentary behavior and non-transmissible chronic diseases. Community health agents (CHA) are mediators between the population and the health system, therefore it is important to analyze their lifestyle and health state.

Objective:  To assess the association between screen time (ST) with ultra-processed food intake and waist circumference (WC) of CHA of Vitória/ES, Brazil.

Method:  This is a transversal study with participants of both sexes, aged 25 to 72 years. The information was collected through questionnaires about dietary and life habits. ST (exposition) was categorized as <2 hours/day and ≥2 hours/day. The interest outcomes — intake of at least one ultra-processed foo/day and WC — were measured according to established protocols. Statistical analyses were realized on Statistical Package for the Social Scineces (SPSS) version 21.0.

Results:  It was observed, among the 258 CHA, that spending ≥2 hours/day increases by 2,4 times (confidence interval — 95%CI 1,4–4,2) the chance of ultra-processed food intake and 2,4 times (95%CI 1,20–4,73) that of having inadequate WC.

Conclusion:  ST ≥2 hours/day has been associated with the intake of at least one ultra-processed food and highest chances of having inadequate WC.

Keywords:
screen time; industrialized foods; waist circumference; attitude to computers; feeding behavior

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas o perfil epidemiológico e nutricional tem se alterado, sobretudo, devido às mudanças no estilo de vida e nos padrões de consumo alimentar1. Essas modificações decorreram principalmente dos processos de urbanização e industrialização2, impactando na ocorrência de agravos cardiometabólicos3,4.

A sociedade moderna dispõe de diversos recursos tecnológicos que estimulam de forma intrínseca o sedentarismo, entretanto, o contribuinte mais comum para o comportamento sedentário são as formas de lazer frente às telas5. O Tempo de Tela (TT) refere-se ao tempo despendido em atividades de baixo gasto energético frente a dispositivos de tela, como smartphone, televisão, videogame e computador6,7 .

Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico mostram que 62,7% dos brasileiros passam 3 horas ou mais em TT8. Em vista da elevada prevalência de comportamento sedentário entre os brasileiros8 e sua associação com a obesidade2 e hábitos alimentares inadequados9, torna-se imprescindível que as políticas públicas e os serviços de saúde estejam alinhados e organizados para reverter esse panorama.

Nesse sentido, o tempo despendido em frente às telas permite que os indivíduos estejam expostos ao marketing persuasivo de alimentos convenientes, hiperpalatáveis e sem valor nutricional agregado, como os ultraprocessados10,11. Sendo assim, há evidências de que o comportamento sedentário, geralmente avaliado como tempo de tela, associa-se a pior qualidade da dieta em crianças e adultos12.

Ademais, o atual padrão de consumo alimentar dos brasileiros é marcado pelo baixo consumo de alimentos in natura e minimamente processados e alto consumo de industrializados prontos para o consumo (processados ou ultraprocessados)13. Os Alimentos Ultraprocessados (AUP) sofrem diversas etapas e técnicas de processamento e incluem substâncias utilizadas exclusivamente em indústrias — e, ainda, possuem quantidades expressivas de sódio, açúcares e gorduras saturadas11,14.

Reforça-se que tais modificações no estilo de vida contribuem para o crescimento vertiginoso da prevalência de obesidade15, sendo que a Circunferência da Cintura (CC) é considerada um melhor preditor do risco cardiometabólico, indicado pela Obesidade Abdominal (OA), que é definida como o excesso de depósitos de gordura na região abdominal e associa-se com desfechos negativos na saúde16.

No Sistema Único de Saúde (SUS) o processo de cuidado à população exige uma prática ampliada, com a inserção de novos saberes no âmbito da saúde coletiva. Nessa perspectiva, o Agente Comunitário de Saúde (ACS) é um ator importante nas trocas entre os saberes populares e científicos, ocupando a posição de mediador entre a comunidade e o serviço de saúde17. Esse profissional está na linha de frente da Atenção Primária à Saúde, realizando ações de promoção da saúde e prevenção de doenças e agravos.

Até o momento existem poucas investigações sobre as condições de saúde dos ACS no Brasil, sendo que a maioria das pesquisas utiliza dados autorrelatados18-20. Recente trabalho publicado com ACS de Vitória/ES evidenciou, por meio de medidas objetivas, que se trata de um grupo de profissionais adoecidos, com alta prevalência de doenças crônicas, sedentarismo e uso de ansiolíticos/antidepressivos21. Ademais, foi observado elevado percentual de OA (50,4%) e maior média de TT entre os mais jovens21. No entanto, não foi investigada a relação entre comportamento sedentário, hábitos alimentares e dados antropométricos. Diante do exposto e das lacunas identificadas na literatura, este estudo teve como objetivo avaliar a relação entre TT com o consumo de AUP e CC em ACS do município de Vitória (ES), Brasil.

MÉTODOS

Desenho e população do estudo

Trata-se de um estudo transversal utilizando os dados de um estudo maior de intervenção que objetivou avaliar o impacto da capacitação de ACS em educação alimentar, cuja metodologia detalhada foi apresentada por Molina et al.22. O presente estudo utilizou dados da linha de base coletados entre os meses de outubro/2018 a março/2019.

A pesquisa foi desenvolvida em 23 Unidades de Saúde da Família e 2 Unidades Básicas de Saúde do município de Vitória (ES). Dados do Portal da Transparência da Prefeitura demonstram que em setembro de 2018 havia 375 ACS atuando na atenção primária do município.

Critérios de inclusão e exclusão

Foram elegíveis para participar do estudo todos os 375 ACS vinculados ao serviço do município de Vitória (ES), não existindo critérios adicionais, dos quais 263 aceitaram participar da pesquisa. Após o aceite de participação no estudo, os ACS assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Foram excluídos 5 participantes (1,9%) que não apresentavam dados das variáveis de exposição (TT) e/ou desfecho (AUP e CC), totalizando uma amostra final de 258 (68,8%) participantes, sendo considerada representativa da população de ACS de Vitória (ES).

Coleta de dados

A coleta de dados foi realizada na Clínica de Investigação Cardiovascular, vinculada ao Hospital Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), onde foram realizados os exames clínicos e a aplicação de questionário por equipe previamente treinada.

Avaliação sociodemográfica, autopercepção do estado de saúde e atividade física

Os dados foram obtidos por meio de entrevista presencial com aplicação de questionário estruturado. Foram utilizados os critérios de pontos estabelecidos pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa23, que levam em consideração os bens de consumo, o grau de instrução do chefe de família e acesso a serviços públicos para determinação da classe socioeconômica, descrita em nosso estudo como A/B e C/D/E.

A idade foi utilizada como variável contínua. A variável raça/cor foi referida pelo participante e categorizada em "Brancos", "Pretos" ou "Pardos, amarelos e indígenas". O estado civil foi categorizado em "Casado" (incluindo indivíduos em união estável) e "Solteiro, separado e viúvo". A escolaridade foi categorizada de acordo com os anos de estudo em "fundamental e médio" e "superior". A autopercepção de saúde foi categorizada em "Muito bom e Bom" e "Regular, ruim e muito ruim".

As informações sobre a Atividade Física (AF) foram coletadas por meio do International Physical Activity Questionnaire (IPAQ) versão longa, validado no Brasil24, nos domínios de AF de Lazer no Tempo Livre (AFTL) e AF de deslocamento24. O gasto energético foi calculado considerando os minutos/semana para cada intensidade de AF estimada em Metabolic Equivalente Task (METs), utilizando o compêndio de Ainsworth et al.25. As AF vigorosas variaram de 5,5 a 8 METs e as moderadas, de 3,3 a 4 METs24.

Avaliação do tempo de tela

O TT foi mensurado por meio de perguntas do IPAQ24 sobre o uso de dispositivos de tela (smartphone, televisão, computador e videogame) nos momentos de trabalho/estudo e no tempo livre: "Quando está trabalhando/estudando, em média, quanto tempo por dia o(a) Sr.(a) permanece sentado(a) em frente a uma tela nos dias úteis da semana?"; "E nos finais de semana?"; "Pensando no seu tempo livre, em média, quanto tempo por dia o(a) Sr.(a) permanece sentado(a) em frente a uma tela nos dias úteis da semana?"; "E nos finais de semana?".

TT no trabalho/estudo foi calculado multiplicando a quantidade relatada em minutos/dia por cinco (referente aos dias úteis); e por dois (quando dias de fim de semana). Posteriormente foi realizada a soma dessas multiplicações e a conversão para horas. O mesmo cálculo foi realizado para obtenção do TT no lazer em horas/dia. Já o TT total foi calculado pela soma dos TT no trabalho/estudo e no lazer/tempo livre. As variáveis de TT (trabalho/estudo; no lazer/tempo livre; total) foram divididas por sete para obtenção do TT em horas/dia. Para as análises foram utilizadas as variáveis contínuas ou categorizadas, com o ponto de corte (<2 horas/dia e ≥2 horas/dia) proposto por Stamatakis et al.26. Todas as variáveis descritas para o TT são consideradas a exposição de interesse deste estudo.

Avaliação do consumo de Alimentos Ultraprocessados

A avaliação do consumo de AUP foi realizada por meio de Questionário de Frequência Alimentar (QFA) qualitativo com 24 itens alimentares e 8 opções de respostas (de "nunca/ quase nunca" a "3 ou mais vezes ao dia"), formulado para o estudo e baseado no QFA do ELSA-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto)27. Para determinação dos AUP foi utilizada a classificação NOVA28, a qual categoriza os alimentos de acordo com a extensão e o propósito de seu processamento industrial. Nessa classificação os alimentos são divididos em quatro grupos distintos: alimentos in natura ou minimamente processados; ingredientes culinários processados; alimentos processados; e ultraprocessados.

Entre os grupos alimentares avaliados, 14 se configuram como AUP, a saber: "pratos prontos ou semiprontos"; "biscoitos salgados e salgadinhos tipo chips"; "embutidos"; "molhos industrializados"; "pizza, hamburgueres e salgados"; "refrigerantes"; "suco industrializado"; "suco em pó"; "balas/doces e chocolates"; "caldos"; "Aji-no-moto/Sazón/shoyu"; "tempero completo sem alho"; "condimento Grill-Fondor"; e "amaciante de carne".

Para realização das análises, os itens alimentares foram alocados em grupos devido às suas similaridades em termos de composição nutricional: guloseimas/doces ("balas/doces e chocolates"); bebidas açucaradas ("refrigerantes", "suco industrializado" e "suco em pó"); ultraprocessados/salgados ("pratos prontos ou semiprontos", "biscoitos salgados e salgadinhos tipo chips", "embutidos" e "pizza, hamburgueres e salgados"); e condimentos/molhos ("molhos industrializados", "caldos", "Aji-no-moto/Sazón/shoyu", "tempero completo sem alho", "condimento Grill-Fondor" e "amaciante de carne"). Para a presente análise foi considerado o consumo diário ("3 ou mais vezes ao dia", "2 vezes ao dia" e "1 vez ao dia") de pelo menos um desses grupos de AUP como uma das variáveis desfecho deste estudo.

Avaliação antropométrica

Os participantes foram submetidos a exames antropométricos em jejum, com bexiga vazia e utilizando uniformes padronizados. Para mensuração do peso foi utilizada balança digital com precisão de 100 g e capacidade máxima para 150 kg.

A altura foi mensurada com auxílio de um estadiômetro com escala de 0,1 cm. O Índice de Massa Corporal (IMC) foi calculado dividindo-se o peso (kg) pela altura (m) elevada à segunda potência. Foi utilizada a variável contínua e categorizada em "baixo peso/eutrófico" (IMC ≤24,9 kg/m2), "sobrepeso" (IMC 25–29,9 kg/m2) e "obesidade" (IMC ≥30 kg/m2), de acordo com os pontos de corte da Organização Mundial da Saúde29.

A CC foi aferida com o auxílio de uma fita métrica inextensível, colocada horizontalmente no ponto médio entre a borda inferior da última costela e a crista ilíaca, com o indivíduo em pé com abdômen relaxado, com a parte da vestimenta superior erguida e os braços cruzados na frente do peito. Quando não foi possível seguir esse protocolo, realizou-se a medida na cicatriz umbilical30. Foram adotados os pontos de corte propostos pela OMS (2008) a fim de categorizar a variável CC em "adequada" (<80 cm para mulheres e <94 cm para homens) e "inadequada" (≥80 cm para mulheres e ≥94 cm para homens)31. A CC foi considerada, com o consumo de AUP, uma variável desfecho do presente estudo.

Análise dos dados

As análises dos dados foram realizadas utilizando o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 21.0. Para testar a normalidade das variáveis contínuas foi utilizado o teste de Kolmogorov-Smirnov. Foi aplicado o teste t de Student ou Mann-Whitney, conforme a distribuição da variável, para comparação de médias entre os grupos. Para as variáveis categóricas utilizou-se o teste ꓓ2 ou Exato de Fisher. A prevalência e o intervalo de confiança (95%) do consumo diário de AUP foram calculados de acordo com o TT. Modelos de regressão logística binária multivariada foram usados para estimar os parâmetros de associação entre o TT (total, trabalho/estudo e lazer/tempo livre) e as variáveis desfecho (consumo de AUP e CC), após ajuste para variáveis potencialmente confundidoras (odds ratio [OR] e intervalo de confiança de 95% [IC95%]), que foram aquelas com diferença estatística nas análises bivariadas. Sendo assim, foi apresentado o modelo 1 (bruto); o modelo 2 incluiu as variáveis sexo, idade e escolaridade; e o modelo 3 incluiu as variáveis do modelo 2, além de autopercepção de saúde, AF (METs) e IMC (apenas para análise entre TT e AUP). A significância estatística foi estabelecida em p<0,05.

Considerações éticas

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da UFES (CAAE: 88008418.6.0000.5060; parecer: 2.669.734) após autorizações obtidas na Secretaria Municipal de Saúde de Vitória e na Secretaria de Estado de Saúde do Espírito Santo. Essa investigação também está registrada na Organização Mundial de Saúde sob o UTN — U1111-1232-4086 e submetida ao Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos sob o número REQ:RBR-4z26bv.

RESULTADOS

A amostra final foi composta de 258 ACS com idade média de 45,9±9,1 anos, majoritariamente do sexo feminino (94,2%), e pertencentes à classe "C" (59,3%). Entre os indivíduos, 75,6% apresentaram CC inadequada, e 51,% referiram o consumo de pelo menos um AUP por dia. Cerca de 73% referiram TT no trabalho/estudo <2 horas diárias e 53,1%, TT <de 2 horas no lazer/tempo livre. Considerando o TT total, a maioria da amostra referiu permanecer ≥2 horas diárias em frente às telas (74,8%), sendo que esses apresentaram menores médias de idade (p=0,044) e menor gasto de AF em METs (p=0,017) (dados não apresentados em tabelas).

Na Tabela 1 são apresentados as características sociodemográficas, autopercepção do estado de saúde e hábitos de vida segundo consumo de AUP e CC. Observou-se que a idade se associou significativamente tanto com o consumo de AUP quanto à CC (p=0,013 e p=0,004, respectivamente); diferentemente de sexo (p=0,003), grau de escolaridade (p=0,002), autopercepção do estado de saúde (p<0,001), IMC (p<0,001) e AF (p=0,005) — que apresentaram significância estatística apenas com a variável de CC. O consumo diário de pelo menos um AUP e a CC inadequada associaram-se ao TT no lazer/tempo livre (p=0,02 e p=0,013, respectivamente). Observa-se que 63,2% dos que não faziam consumo de pelo menos um AUP/dia gastavam menos de 2h em TT, enquanto 56,4% dos que consumiam passavam mais de 2h em tela. Ainda, 66,7% dos indivíduos que possuíam CC adequada gastavam <2h em TT; e 51,3% dos indivíduos que possuíam a CC inadequada passavam ≥2h em TT.

Tabela 1
Características sociodemográficas, autopercepção de saúde e hábitos de vida, de acordo com tempo de tela, circunferência da cintura e consumo de alimentos ultraprocessados em Agentes Comunitários de Saúde – Estudo Capacitação de agentes comunitários em educação alimentar, Vitória (ES), 2019.

Na Tabela 2 são apresentadas as médias de TT em seus diferentes domínios, de acordo com a classificação da CC e o consumo diário de pelo menos um AUP. Maiores médias de TT total e no lazer/tempo livre foram observadas entre os indivíduos que relataram consumo diário de pelo menos um AUP.

Tabela 2
Tempo de tela segundo classificação da circunferência da cintura e consumo de alimentos ultraprocessados em Agentes Comunitários de Saúde – Estudo Capacitação de agentes comunitários em educação alimentar. Vitória (ES), 2019.

Os indivíduos que relataram ≥2h diárias de TT no lazer/tempo livre apresentaram 2,11 (IC95% 1,05–4,23) vezes mais chance de ter CC inadequada quando comparados à categoria de referência, após ajuste por variáveis potencialmente confundidoras (Tabela 3).

Tabela 3
Associação entre tempo de tela e circunferência da cintura em Agentes Comunitários de Saúde – Estudo Capacitação de agentes comunitários em educação alimentar. Vitória (ES), 2019.

Na Figura 1 são apresentados prevalências e IC95% do consumo diário de cada grupo de AUP isoladamente e no total, de acordo com o TT em seus diferentes domínios. Os indivíduos nas categorias TT total e TT no lazer ≥2h diárias apresentaram prevalências de consumo de AUP maiores do que aqueles com TT <2 horas diárias em todos os grupos de alimentos analisados, com destaque para o consumo de bebidas açucaradas, o qual foi mais frequente, ultrapassando 85% entre os indivíduos com o TT total mais elevado. Para o TT no trabalho/estudo, não foi encontrada diferença significativa.

Figura 1
Prevalências e intervalos de 95% de confiança (IC95%) do consumo diário de cada grupo de AUP, de acordo com o tempo de tela total, no lazer e nos momentos de trabalho/estudo (<2 horas; ≥2 horas) entre Agentes Comunitários de Saúde – Estudo CACEA, Vitória (ES).

Por fim, foi observado, na Tabela 4, que os indivíduos com TT no lazer/tempo livre ≥ 2h diárias apresentaram maiores chances de consumo de pelo menos um AUP (OR 2,2 [IC95% 1,3–3,7]) e de bebidas açucaradas (OR 3,8 [IC95% 1,5–9,6]). O TT no trabalho/estudo ≥2h por dia também se associou ao consumo de bebidas açucaradas (OR 3,2 [IC95% 1,4–7,4]).

Tabela 4
Associação entre tempo de tela e consumo diário de alimentos ultraprocessados entre Agentes Comunitários de Saúde – Estudo Capacitação de agentes comunitários em educação alimentar. Vitória (ES), 2019.

DISCUSSÃO

Entre os ACS do município de Vitória/ES, aqueles com TT lazer/tempo livre ≥2h por dia apresentaram maiores chances de consumo diário de pelo menos um AUP e CC inadequada. Cerca de 75,6% dos ACS apresentaram CC inadequada, indicando alta prevalência de obesidade abdominal entre esses trabalhadores. Esse dado é semelhante ao de outros estudos realizados com agentes do Sul19 e do Nordeste32.

No presente estudo observou-se consumo frequente de AUP, o que também foi evidenciado em um estudo com 163 ACS (25 a 62 anos) de João Pessoa (PB)33. Tal resultado retrata o cenário atual de consumo alimentar brasileiro, haja vista que as Pesquisas de Orçamentos Familiares (POF) de 2002–2003, 2008–2009 e 2017–2018 indicaram um crescimento expressivo no consumo de AUP entre os anos avaliados; em contrapartida, alimentos in natura ou minimamente processados vêm perdendo espaço nos domicílios brasileiros34.

Observou-se associação entre TT ≥2h/dia no lazer/tempo livre e no trabalho/estudo com o consumo de bebidas açucaradas, dados compatíveis ao estudo de Epifanio et al., que analisou uma população de adultos brasileiros35. De acordo com dados da POF 2017–2018, houve uma redução na frequência de consumo de refrigerantes em relação ao inquérito de 2008–2009, entretanto, o consumo ainda é considerado elevado34 e associa-se ao excesso de peso e outras comorbidades36.

Apenas o TT no lazer/tempo livre esteve associado ao consumo de AUP, o que pode ser justificado pelo fato de que no trabalho/estudo os indivíduos geralmente estão engajados em atividades que requerem mais atenção, como leituras e pesquisas online, preparação de relatórios e materiais didáticos, o que pode não favorecer o consumo concomitante de AUP37. Em contrapartida, o TT total, que engloba os dois domínios observados, também esteve associado ao consumo de AUP, uma vez que o TT total considera o TT no lazer/tempo livre — e esses momentos geralmente são associados a ocasiões de descontração e tédio, que tornam propício o ambiente para consumo desses alimentos que oferecem praticidade e, normalmente, são bem palatáveis. Esses alimentos, além de possuir baixo valor nutricional, também prejudicam os mecanismos de regulação da saciedade, que estão associados a comportamentos obesogênicos36.

A relação observada entre TT e o consumo de AUP reforça a hipótese de que a propaganda e o marketing de alimentos industrializados podem influenciar nos hábitos alimentares38. As indústrias alimentícias investem fortemente em propagandas de fast-food e de AUP, despertando um maior interesse dos consumidores por esse tipo de alimento de fácil manejo, permitindo o consumo em qualquer ambiente, e hiperpalatável35,38 .

Indivíduos com TT no lazer/tempo livre ≥2h apresentaram maiores chances de CC inadequada. Tal associação pode ter sido influenciada pelo crescimento do número de dispositivos móveis5, haja vista que o uso do celular pode atrapalhar a atividade física no lazer e promover comportamentos sedentários entre os usuários de alta frequência5. Outros estudos prospectivos realizados com adultos americanos identificaram outras associações, por exemplo, entre o maior tempo assistindo televisão e o aumento da CC39,40 .

Algumas limitações referentes a este estudo devem ser citadas, dentre elas o viés de memória dos participantes durante a aplicação dos questionários e a impossibilidade da avaliação de causalidade, devido ao delineamento do estudo. Além disso, não foi possível avaliar a quantidade de consumo dos AUP, apenas sua frequência. Cita-se, também, que por se tratar de uma amostra de ACS voluntários da região de Vitória (ES) não é possível extrapolar os resultados encontrados para ACS de outras localidades. No entanto, a adesão ao estudo foi de 70%, sendo considerada uma amostra representativa da população de ACS de Vitória (ES). Apesar de uma das variáveis de interesse do estudo ter sido aferida, o consumo de AUP e o TT foram autorreferidos, o que pode levar à subestimação ou superestimação dos dados. A fim de minimizar tais limitações, foi utilizado questionário validado aplicado por pesquisadores previamente treinados. Ademais, são escassos estudos com esse grupo de profissionais específicos.

O trabalho na Atenção Primária à Saúde é complexo, e o desempenho do ACS, no contexto do cuidado, é fundamental, uma vez que ele estabelece uma relação direta entre a equipe e a comunidade. Dessa forma, é importante destacar que a assistência prestada por estes profissionais à comunidade pode ser influenciada pela sua qualidade de vida41. Por conta disso, é importante que haja intervenções para melhorar o conhecimento sobre seu próprio estado de saúde e minimizar os comportamentos que possam representar riscos à saúde. Assim, além dos benefícios ao próprio indivíduo, essas intervenções ainda propiciam a disseminação do aconselhamento preventivo à população42.

Foi identificado que o maior tempo frente às telas aumenta a chance de consumo de AUP, principalmente de bebidas açucaradas. Além disso, o TT foi associado à CC inadequada. Desse modo, é interessante que se definam diretrizes sobre o TT para adultos, visto que é cada vez mais comum o acesso aos dispositivos de tela.

Os achados do presente artigo podem contribuir para o planejamento de ações voltadas para a avaliação do estado de saúde desses profissionais da atenção primária. Além disso, fornecem dados que podem auxiliar no planejamento de estratégias de prevenção e políticas públicas eficazes — que, consequentemente, impactam na atuação da equipe de Saúde da Família.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

Como citar:

Oss LD, Mendes FD, Aprelini CMO, Martins HX, Siqueira JH, Molina MC. Tempo de tela, consumo de ultraprocessados e circunferência da cintura em agentes comunitários de saúde de Vitória (ES), Brasil. Cad Saúde Colet. 2025;33(3):e33030219. https://doi.org/10.1590/1414-462X202533030219

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Abr 2021
  • Aceito
    16 Dez 2022
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