Open-access Perfil dos jovens do projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação, no nordeste do Brasil, no período da pandemia de COVID-19

Profile of young people assisted during the COVID-19 pandemic, in the “Virando o Jogo Project – Youth and Overcoming”, in Northeast Brazil

Resumo

Introdução:  O Projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação (PVOJ), realizado em Fortaleza (CE), dá suporte a jovens que não estudam nem trabalham, possibilitando vivências socioeducativas e de qualificação profissional e fomentando o retorno à escola.

Objetivo  Apresentar o perfil de jovens acolhidos durante a pandemia de COVID-19 por psicólogos e assistentes sociais, descrevendo os principais motivos do atendimento.

Método:  Estudo descritivo com dados secundários de 981 jovens registrados na plataforma JotForms. Utilizou-se o modelo bioecológico, associado à Teoria do Big Five, para avaliar o acompanhamento dos jovens atendidos por psicólogos e assistentes sociais em duas edições, num total de 1.926 atendimentos individuais.

Resultados:  A idade média dos jovens esteve entre 18 e 19 anos, a maioria mulheres solteiras (56,4 e 61,2% na 1a e 2a edição, respectivamente) e com autorreferência de cor parda (62,9 e 64,3%). Principais motivos de atendimento psicossocial: ser vítima de abuso ou exploração sexual (2,8 e 1,4%); demandas de saúde mental, como ideação suicida (3,2 e 4,4%) e sentimento de tristeza profunda com sintomas de depressão (8,9 e 7,6%).

Conclusão:  Os jovens selecionados apresentavam graves sinais de baixa autoestima e transtornos emocionais, manifestando condições de vida de elevada vulnerabilidade social. O projeto atinge o público que necessita de suporte psicossocial.

Palavras-chave:
juventude; epidemiologia; avaliação de programa; adolescente; covid-19

Abstract

Introduction:  The project “Virando o Jogo – Juventude e Superação” (PVOJ), located in Fortaleza, Ceará, supports youth who are neither studying nor working, by enabling socioeducational and professional qualification experiences that encourage a return to the school environment.

Objective:  To present the profile of youth admitted during the COVID-19 pandemic by psychologists and social workers, in addition to outlining the main reasons for seeking these services.

Method:  Descriptive study with secondary data from 981 youth registered on the JotForms platform. The Bioecological Model, associated with the Big Five Theory, was used to evaluate the follow-up of youth assisted by psychologists and social workers in both editions, with a total of 1,926 individual consultations.

Results:  Participants’ mean age was 18–19 years, they were mostly single women, with 56.4 and 61.2%, respectively (1st and 2nd editions), and Brown 62.9 and 64.3%. Main reasons for attendance: having suffered or currently being a victim of sexual abuse or exploitation (2.8 and 1.4%), mental health demands such as suicidal ideation (3.2 and 4.4%); feelings of deep sadness, with symptoms of depression (8.9 and 7.6%).

Conclusion:  The youth show serious signs of low self-esteem and emotional disorders, with high levels of social vulnerabilities. The project reaches the public that needs psychosocial support.

Keywords:
youth; epidemiology; program evaluation; adolescent; covid-19

INTRODUÇÃO

A vulnerabilidade socioeconômica de uma vasta parcela da população brasileira tem se agravado na última década1,2 e este fenômeno atinge especialmente os jovens de 15 a 29 anos. A taxa de desemprego nessa faixa etária é mais do que o dobro da média nacional3; 24% desses jovens não estudam nem trabalham formalmente4 e, além de estarem fora do ambiente escolar e do mercado de trabalho, muitos deles estão em cumprimento de medidas socioeducativas5. O custo para a sociedade dos chamados jovens “nem-nem” representava em 2015 algo em torno de R$ 36 bilhões, com contribuição negativa na formação de capital humano e na produtividade6.

As consequências para a sociedade vão além do custo econômico. O Brasil aparece em segundo lugar em número absoluto de homicídios de adolescentes e é o sexto colocado mundial na taxa de homicídios de crianças e adolescentes7. O custo social dessas mortes é elevado, podendo levar à redução da expectativa de vida8. Neste contexto, é possível implementar políticas públicas que incentivem pontos de inflexão, focando no período da adolescência e do início da vida adulta, quando se concentra o fenômeno criminal5. Algumas características comportamentais, como agressividade, comportamento opositor, entre outras, podem ser verificadas ainda na primeira infância. Coadunados à ausência de cuidados e estímulos parentais, esses problemas têm efeito devastador no desenvolvimento neuronal9. Caso não haja uma intervenção precoce, que considere esses sintomas geradores de sofrimento psíquico, esse efeito poderá perdurar ao longo da vida adulta 10.

Nesse sentido, o Projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação (PVOJ) foi estruturado, em 2019, no Ceará, para dar suporte a jovens de 15 a 19 anos, utilizando 7 eixos principais:
  • Formação cidadã;

  • Qualificação profissional;

  • Ação comunitária;

  • Esporte, cultura e meio ambiente;

  • Empreendedorismo social e gestão de projetos;

  • Trabalho social com as famílias; e

  • Autoconhecimento.

O projeto oferta vivências de cunho socioeducativo e de qualificação profissional, na perspectiva de fomentar o retorno dos jovens ao ambiente escolar e a inserção no mercado de trabalho. Visando ampliar fatores de proteção e cuidado, uma intervenção no âmbito do PVOJ atua diretamente com o suporte de psicólogos, assistentes sociais (mediadores), famílias e jovens participantes do projeto, incluindo aqueles em cumprimento de medidas socioeducativas7.

O projeto acolhe mil jovens em cada edição, embora cerca de 30% o abandonem antes de completar a formação. São realizadas atividades de escuta e seguimento dos jovens, utilizando metodologias ativas e visitas domiciliares, buscando ampliar as competências familiares positivas e agregadoras. Equipes multidisciplinares implementam ações comunitárias e registram em uma plataforma todos os atendimentos realizados, oferecendo suporte psicoemocional.

O objetivo deste estudo é apresentar o perfil dos jovens acolhidos no projeto durante o período da pandemia de COVID-19 por mediadores do PVOJ, descrevendo os principais motivos do atendimento.

MÉTODOS

População estudada

A intervenção realizada pelos mediadores, junto aos jovens participantes do PVOJ e seus familiares, ocorre em Fortaleza, capital do estado do Ceará. Fortaleza é a 5a cidade mais populosa do Brasil, com aproximadamente 2,7 milhões de habitantes em 2020 e uma população totalmente urbana em uma extensão territorial de 314 km2. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,754, e o PIB per capita é de R$ 25.254,4411.

O PVOJ foi aprovado pelo gabinete da vice-governadoria do Governo do Estado do Ceará e pela Secretaria de Proteção Social (SPS) e iniciou suas atividades em novembro de 2019. Os bairros atendidos pelo edital do projeto foram selecionados com base no Relatório Cada Vida Importa, do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência (CCPHA), em 2017. Fortaleza foi dividida em 6 áreas, e a 1a turma integrante do projeto foi formada por jovens das áreas 1, 2, 5 e 6. A 2a edição, que acolheu jovens das áreas 1, 2, 4, 5 e 6, começou a formação em maio de 2021.

Cada edital lançado pelo governo do estado para compor as turmas do projeto previa a seleção de mil jovens, que preencheram um formulário com informações ligadas à situação escolar, mercado de trabalho, nome dos pais, entre outras. Os jovens selecionados recebem uma bolsa progressiva no decorrer de cada etapa: na fase da formação cidadã, o valor pago é de R$ 200; na etapa da qualificação profissional, R$ 250; e na fase do empreendedorismo, R$ 300. Os jovens participantes recebem, adicionalmente, o Vale Gás, entre outros benefícios.

Intervenção

O Projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação implementou um modelo de intervenção com escuta atenta dos jovens e acompanhamento daqueles que possuem alta vulnerabilidade socioeconômica. Compreende-se que o contexto social da família, em especial da criança e do adolescente, está imbricado por nuances complexas que demandam o desenvolvimento de pesquisas de intervenções12,13. O pressuposto é que, de posse dessas informações e de aprendizados vivenciados no campo de intervenção, seja possível compreender a complexidade do contexto das famílias para planejar e formular estratégias de intervenção que promovam o desenvolvimento integral infantojuvenil14.

As recentes pesquisas sobre atributos socioemocionais revelam que competências como persistência, responsabilidade e cooperação podem impactar a performance de crianças e adolescentes no espaço escolar e em outros aspectos sociais, como crime, mercado de trabalho e saúde15 -17. As competências socioemocionais possibilitam que pessoas sejam capazes de transformar intenções em ações, além de incentivar a adoção de hábitos de vida saudáveis e a mudança de comportamentos de risco18.

Os estudos desenvolvidos por colaboradores da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ressaltam que, para alcançar resultados positivos durante sua vida, crianças e jovens precisam reunir um repertório de competências cognitivas e socioemocionais. Para isso, a família e a escola se apresentam como elementos potentes de promoção dessas competências, além de estimularem experiências significativas de aprendizagem19.

Uma intervenção junto às famílias pode quebrar ciclos de desvantagens intergeracionais20. Os programas de intervenção junto aos jovens também criam potencial para fortalecimento e desenvolvimento de competências a longo prazo em uma diversidade de resultados sociais18.

A intervenção do PVOJ associa a implementação de ações comunitárias e individuais aos jovens em situações mais críticas de autorreconhecimento, baixa autoestima e desmotivação para a vida. Entre a primeira e a segunda edição das intervenções do PVOJ, houve uma reorganização de fluxos de atendimento. Essa reordenação precisa ser explicitada para que se compreenda a diferença nos dados que refletem essa reorientação lógica do programa.

Inicialmente, cada gerente de área definia prioritariamente, com base em suas vivências de campo, quais jovens deveriam ser atendidos pela equipe de mediação. O gerente é responsável pelas atividades administrativas do campo, como organização das inscrições, admissão e desligamento dos jovens no programa. Essas atividades são realizadas em conjunto com os articuladores, jovens e/ou lideranças comunitárias, que auxiliam no processo administrativo, e técnicos do PVOJ.

Esse desenho da intervenção gerou “pontos cegos” no projeto, porque superestimou a potencialidade de detecção das vulnerabilidades dos jovens por profissionais já sobrecarregados em tarefas administrativas. Além disso, quando não havia novos casos detectados, a equipe de mediação aguardava uma demanda espontânea (23,4% da origem dos atendimentos), gerando trabalho ocioso nas equipes dos mediadores. Embora houvesse uma espécie de plantão psicossocial, havia demandas não detectadas por falta de um dispositivo que propiciasse uma escuta qualificada dos jovens.

Para corrigir esses problemas, uma nova configuração de fluxo foi testada (teste de viabilidade). A partir da segunda edição, todos os jovens do projeto passaram a ser atendidos pelas equipes de mediação com base na lógica de acolhimento diferenciado em um sistema de plantão similar a uma triagem. Apesar de ser um momento de organização e classificação de gravidade das demandas, a gestão dos casos de cada mediador no projeto passa pelo acolhimento — que é, também, um dispositivo de recepção21 com potencial de escuta, formação de vínculos, resolução de demandas, para a realização do encaminhamento para a rede de serviços públicos.

Assim, compreende-se que, a partir da segunda edição, não mais se trabalhou com uma amostragem selecionada pela equipe de gerentes e articuladores, mas contou-se com o dispositivo de recepção/acolhimento, que organizou a priorização dos casos graves e gravíssimos daqueles jovens que precisavam de maior apoio ao longo do projeto.

Desenho do estudo

Trata-se de um estudo descritivo e exploratório, com análise das variáveis coletadas em uma base de dados secundários, dos jovens que são acolhidos pelo PVOJ. Os dados foram coletados em duas fases de seguimento dos participantes, acompanhados ao longo das duas edições. A 1a edição envolveu uma equipe de 18 mediadores, sendo iniciada em novembro de 2019 e concluída em setembro de 2021 (tempo mais estendido em decorrência da pandemia de COVID-19). Foram realizados atendimentos individuais para 232 jovens, totalizando 495 acolhimentos, sendo 74 feitos por psicólogos (PSI) e 421 por assistentes sociais (AS). Além dos atendimentos individuais, a equipe de PSI realizou 299 acolhimentos psicológicos de 127 jovens, sendo 87,5% de forma online, devido às restrições da pandemia. A 2a edição, realizada de maio de 2021 a fevereiro de 2022, englobou o perfil de 749 jovens, num total de 1.431 atendimentos psicossociais.

Para o registro das informações coletadas pela equipe foi construído um formulário eletrônico, via Plataforma JotForms, contendo variáveis das características sociodemográficas (por exemplo: idade, sexo, escolaridade etc.), bem como o registro dos principais motivos que levaram este público a procurar por atendimento.

Os dados foram exportados para Excel e, depois, analisados no software livre PSPP (Projeto Gnu). Foram aplicadas técnicas de estatística descritiva, com a utilização de medidas de tendência central, como média, mediana e moda; e medidas de dispersão em torno da média, como desvio-padrão.

RESULTADOS

Foram analisados os dados de 981 jovens que receberam a intervenção realizada por PSI e AS, sob a coordenação de um grupo de assessores — doutores em Psicologia, Assistência Social, Ciências Sociais, Antropologia, Enfermagem e Saúde Coletiva. Na 1a edição, foram acompanhados 232 jovens, num total de 495 atendimentos individuais. Já a 2a edição envolveu 749 jovens, com 1.431 atendimentos.

Na Tabela 1 são apresentados os principais resultados do perfil sociodemográfico dos jovens, das duas primeiras edições do PVOJ. Observa-se que a média de idade da 1a edição é mais elevada (0,7 anos) quando comparada com a turma 2. Em ambas as edições, a faixa etária dos jovens foi de 18 a 19 anos (54,3 e 51,3%). O percentual de jovens entre 15 e 17 anos na 1a edição, que foi de 21,9%, aumentou sua participação em 15,8 pontos percentuais (p. p.) na 2a edição, passando a 37,7% do total de jovens atendidos.

Tabela 1
Perfil dos jovens atendidos individualmente – 1a e 2a turmas (2019 a 2021).

As participantes do sexo feminino foram maioria nos atendimentos individuais em ambas as edições, com aumento na 2a edição (56,4 e 61,2%, respectivamente). O perfil da cor ou raça indica que entre 62,9 e 64,3% dos jovens nas duas edições se declararam pardos. Embora o nível de escolaridade das duas turmas se concentre no ensino médio completo, com 31,9 e 44,8%, respectivamente, é possível observar que o perfil geral migrou de jovens “menos escolarizados” para “mais escolarizados” na 2a edição. Com ensino fundamental (completo ou incompleto), na 1a turma havia 38,7% e na 2a, 18,2%. Há, portanto, um deslocamento do perfil escolar dos jovens atendidos, do ensino fundamental para o ensino médio.

Em relação às áreas onde os jovens recebem atendimento, observa-se a expansão do projeto na 2a edição com o acréscimo da área 4, agregando mais 5 bairros de Fortaleza. De forma geral, as áreas 2 e 6 possuem os maiores percentuais de jovens atendidos na turma 1, com 34,9% e 31%, respectivamente (Figura 1).

Figura 1
Evolução dos bairros atendidos pelo Projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação e total de jovens atendidos – 1a e 2a turmas (2019 a 2021).

Com relação à frequência de atendimentos individuais, percebe-se que os jovens foram registrados com apenas um atendimento em 53,9% (turma 1) e 57,3% (turma 2), sem haver o registro de acompanhamento posterior ou retorno do jovem para o mediador. Aqueles que receberam 4 ou mais atendimentos representam aproximadamente 16% do total na turma 1 e 13% na 2a (Tabela 1 ).

Com relação à classificação de vulnerabilidade, os casos são analisados individualmente e de acordo com a estratificação do risco: moderado, grave ou gravíssimo. Essa classificação pode variar durante o seguimento do jovem, dependendo da situação diagnosticada pelo mediador na primeira escuta realizada (acolhimento). Na 1a turma, 54,7% dos atendimentos foram considerados casos moderados. Casos graves corresponderam a 32,2% do total de atendimentos, e 13,1% foram identificados como gravíssimos. Na 2a edição, os casos leves e moderados somaram 61,8% dos atendimentos classificados, em detrimento dos casos graves, que reduziram 11,2 pontos percentuais se comparados aos da turma 1. Entretanto, 17,2% dos casos foram classificados como gravíssimos, o que significa 4,1 p. p. a mais em relação à 1a edição (Tabela 1).

Por fim, a análise (Tabela 1) aponta os principais motivos referidos e diagnosticados pelo mediador. No início do seguimento da turma 1, os atendimentos eram presenciais, mas com o decreto governamental de distanciamento físico, decorrente da pandemia de COVID-19, passaram a ser remotos. Na primeira edição, o perfil de demandas foi representado, principalmente, por problemas relacionados à evasão e reinserção escolar (9,1%), e na 2a representou 3,8%. Em 8,9% dos atendimentos registrados na 1a edição, os jovens apresentaram uma tristeza profunda ou suspeita de depressão. Na 2a turma, esse mesmo motivo foi apontado em 7,6% dos atendimentos. Mas a característica de evasão escolar perde força para “conflitos e a fragilidade dos vínculos familiares” (7,8%) e questões ligadas à vulnerabilidade socioeconômica (6%). Na 1a edição, tais demandas foram apontadas em 3,8 e 1% dos atendimentos, respectivamente.

Para aprofundar a percepção sobre o perfil dos jovens atendidos na intervenção, foi realizada uma análise sobre duas subamostras dos dados:
  • Comparativo entre jovens com um atendimento em relação àqueles com quatro ou mais atendimentos;

  • Perfil dos jovens com classificação de vulnerabilidade grave ou gravíssima.

A Tabela 2 aponta algumas características analisadas na subseção anterior, fazendo um comparativo entre os indivíduos atendidos uma única vez e aqueles com quatro ou mais atendimentos.

Tabela 2
Perfil dos jovens por frequência de atendimentos individuais – 1a e 2a turmas (2019 a 2021).

Entre os jovens na área 1, na turma 1, o percentual de atendimento unitário foi quase um terço do percentual de jovens com múltiplos atendimentos, indicando que os jovens são acompanhados pelos mediadores ao longo do tempo com maior frequência. Fenômeno contrário ocorre com os jovens da área 6, uma vez que 16,2% receberam múltiplos atendimentos, enquanto 36,8% tiveram apenas 1. Entretanto, para essa mesma área, na turma 2, houve um percentual maior de múltiplos atendimentos (27,7%) do que de atendimentos unitários (14,9%).

A análise de frequência dos atendimentos individuais, quando se observa a classificação de vulnerabilidade dos jovens, apontou para uma concentração elevada de casos leves e/ou moderados, sendo 70,9 e 75,1% nas turmas 1 e 2, respectivamente. Observa-se que os jovens em situação mais grave de vulnerabilidade recebem mais atendimentos e que isso ocorre em ambas as edições do projeto. Os dois motivos principais de atendimento na turma 1, em ambas as subamostras, são “evasão ou reinserção escolar” e “tristeza profunda/suspeita de depressão”. Entretanto, o “risco de evasão do projeto” está entre os principais motivos nos atendimentos unitários, enquanto a população de jovens que recebe múltiplos atendimentos tem maior frequência de “sofrimento de abuso” (9,1%).

Na turma 2, as principais demandas entre os atendimentos múltiplos e unitários são diferentes. No atendimento unitário, destacaram-se a “vulnerabilidade socioeconômica” (13,5%), o “risco de evasão do projeto” (11,5%) e “conflito, violência ou restrição de circulação no território” (9,6%). O perfil de demanda nos atendimentos múltiplos muda para “tristeza profunda/suspeita de depressão” (14,5%), “conflitos e fragilidade dos vínculos familiares” (19,6%), além de “ideação suicida” (8,1%).

Na análise de heterogeneidade de perfil, buscou-se avaliar uma subamostra dos jovens cujos atendimentos foram classificados como graves ou gravíssimos (Tabela 3). Na turma 1, 62 jovens foram, em algum momento, classificados como estando em situação grave, e 16 como vulnerabilidade gravíssima. Ocorreram, ao todo, 201 atendimentos, sendo 143 graves e 58 gravíssimos. Na turma 2 havia 100 jovens identificados em situação grave e 78 como gravíssimos. O total de registros de atendimentos foi 233, sendo 128 graves e 105 gravíssimos.

Tabela 3
Perfil dos jovens em situação grave e gravíssima de vulnerabilidade – 1 ª e 2ª turmas (2019 a 2021).

A Tabela 3 apresenta o perfil para essa subamostra. O painel A indica que não há diferença na média de idade dos jovens atendidos nas turmas 1 e 2, ou seja, o jovem com idade de 18 anos tem maior tendência para o estado de vulnerabilidade em casos graves e gravíssimos. Observando a faixa etária, no painel B, a distribuição de jovens concentra-se entre 18 e 19 anos. Entretanto, a 1a edição possuiu um percentual maior de indivíduos na faixa de 20 anos ou mais (23,6%), se comparada à mesma faixa na turma 2 (11,1%).

Na turma 2 foi possível identificar que houve um percentual maior de mulheres em situação de vulnerabilidade grave ou gravíssima (66,3%), mesmo quando comparada à média de participação de meninas na 2a edição (61,2%).

O perfil sociodemográfico de raça/cor mostrou que, para a turma 1, houve um menor percentual de brancos (2,7%) e um maior percentual de pretos (37,8%), tomando-se a distribuição média, que foi de 5,1% e 30,6%, respectivamente. Isso indica que, entre os casos graves e gravíssimos, a proporção de pretos está acima da média.

O padrão de escolaridade dos jovens com vulnerabilidade grave e gravíssima é bastante diferente da média das amostras para ambas as edições. Jovens com ensino fundamental incompleto estão representados acima da média, com percentuais de 50 e 38,3% para as turmas 1 e 2, respectivamente. Além disso, o percentual de jovens com ensino médio completo é sub-representado para ambas as edições, quando se refere a casos graves e gravíssimos.

Em relação à área geográfica, na turma 1, a área 2 apresentou uma maior concentração de jovens em situação mais vulnerável (44,9%), estando acima de sua média de participação (34,9%). Por outro lado, ainda em relação à turma 1, a área 6 teve menor concentração de jovens com problemas graves e gravíssimos (20,5%), indicando redução de 10,5 p. p. da média. A análise da 2a edição indica que a área 2 permaneceu com a proporção de jovens em maior risco (25,8%).

O perfil de frequência de atendimentos dos jovens é diferente para essa subamostra de casos graves e gravíssimos. Como se espera, o percentual de jovens com apenas um atendimento esteve abaixo da média da amostra em ambas as edições, enquanto a proporção com três atendimentos estava acima da média. Um total de 14,1% dos jovens em situação de maior vulnerabilidade recebeu 3 atendimentos na turma 1, representando aumento de 4,6 p. p. em relação à média. Na turma 2, a proporção de jovens com três atendimentos foi de 18,5%. Apesar dessas indicações positivas no sentido de um maior acompanhamento do projeto para casos mais graves, os resultados corroboram a análise de heterogeneidade de perfil anterior, que mostra um percentual considerável de casos graves e gravíssimos recebendo apenas um atendimento direto da equipe, mas referenciados para a rede pública de assistência.

DISCUSSÃO

O público acolhido pela intervenção do PVOJ tem entre 18 e 19 anos e é formado em sua maioria por mulheres pardas. Entre as turmas da 1a e 2a edições, há uma mudança no perfil de escolaridade: saindo de um grupo bastante heterogêneo, em que aproximadamente um terço possuía ensino fundamental incompleto e os demais concluíram o ensino médio, migrando para jovens que passaram pelo ensino médio, na 2aedição.

As demandas de atendimentos individuais apontaram problemas relacionados a transtornos emocionais22-24 e evasão escolar22-24. O sistema educacional brasileiro apresenta problemas crônicos de baixo desempenho escolar e elevadas taxas de evasão — que podem estar refletidos na baixa produtividade do trabalhador. A evasão pode ser reconhecida como o desfecho de um processo multifacetado vinculado a questões individuais, parentais, dos próprios colegas de sala e institucionais25-30.

Na segunda edição, verificaram-se outras trajetórias de demandas, como conflitos e fragilidade dos vínculos familiares e a vulnerabilidade socioeconômica. São recorrentes, também, relatos de tristeza profunda e suspeita de depressão. A literatura mostra que a pandemia levou adolescentes estudantes a vivenciarem transtornos emocionais31,32. As medidas de distanciamento físico foram associadas aos problemas de saúde mental, podendo, inclusive, favorecer comportamentos agressivos33, exacerbação de um transtorno prévio34 ou pensamentos suicidas35.

Embora a frequência de atendimentos individuais tenha uma correlação com a classificação de vulnerabilidade dos jovens, verificou-se que, mesmo com a definição de casos graves e gravíssimos, houve reduzido número de seguimentos sistemáticos pelas equipes nessas duas edições. Entretanto, 18,6% desse baixo seguimento advém da evasão do projeto por parte dos jovens. Além disso, todos os casos são referidos ao sistema de atenção à saúde e assistência social para seguimento sistemático na rede. Estudos apontam que há necessidade de suporte multidisciplinar, rede de apoio dos serviços e atenção à saúde mental de jovens36 -38 quando estes apresentam risco eminente de transtornos do comportamento39. Psicólogos, assistentes sociais, professores e pais têm um importante papel para mitigar os efeitos psicossociais da pandemia sobre adolescentes40.

De forma complementar ao suporte multidisciplinar, a permanência do jovem na escola é uma ferramenta importante para reduzir o comportamento disruptivo. A educação reduz a criminalidade41, e a escola precisa atrair o interesse dos jovens, para que estes permaneçam e concluam os estudos. O apoio da escola e a realização de uma revisão curricular, com intenção de atrair os jovens para a escola e/ou reduzir a evasão, são ferramentas importantes para mitigar a disrupção41,42. Algumas políticas públicas de reforma curricular indicam efeitos positivos sobre os resultados educacionais, como aumento da frequência escolar, melhor desempenho e maior interesse dos estudantes42-44 .

Verificou-se uma presença maior de jovens do sexo feminino apresentando casos graves e gravíssimos. As demandas principais dessas meninas englobam o fato de serem vítimas de abuso ou exploração sexual e demandas de saúde mental, como ideação suicida e sentimento de tristeza profunda com suspeita de depressão40. O confinamento das famílias gerou mais relatos de casos de violência doméstica e maior negligência e risco de abuso infantil e juvenil, especialmente para as meninas32,45. Na China, os relatos de violência doméstica aumentaram 3 vezes. No Brasil, por sua vez, estima-se um aumento de casos de 50%45.

Identificam-se três limitações principais ao estudo de análise dos dados desta intervenção. Primeiro, os jovens não são acompanhados após o encerramento das atividades propostas pelo projeto Virando o Jogo, uma vez que o prazo de acompanhamento psicossocial é curto (a partir da 2a edição, 8 meses). Portanto, não se sabe o quão eficaz é esse tipo de intervenção temporária, nem se a situação percebida de extrema vulnerabilidade promoveu impacto a longo prazo. Segunda, apenas uma amostra dos mil jovens selecionados na primeira edição do projeto foi atendida pela intervenção, não havendo como garantir que aqueles que passaram pela intervenção eram, efetivamente, os mais vulneráveis. Por fim, a terceira é que há um número de informações que não foram registradas em detalhes, especialmente nessas duas primeiras edições, não havendo registro sistemático dos atendimentos subsequentes nos serviços de referência aos quais os jovens foram encaminhados — ou a conexão entre os registros. Embora essas limitações enfraqueçam uma análise comparativa mais aprofundada, os problemas identificados servem para o planejamento e treinamento dos profissionais envolvidos, melhorando o registro dos dados em edições posteriores e a consequente tomada de decisão. Para ser escalonado, o projeto deve passar por estes ajustes de viabilidade.

A intervenção de escuta atenta promovida pelo PVOJ mostra que a intervenção está atingindo um público de jovens que apresenta maior risco e vulnerabilidade. A demanda por acompanhamento foi significativamente maior na segunda turma, o que demonstra o crescimento da confiança da comunidade e o reconhecimento dos serviços ligados à escuta e seguimento dos jovens, que possuem baixa autoestima, conflitos familiares e abandono escolar.

A intervenção realizada por psicólogos e assistentes sociais vem mostrando grande potencial para a redução dos níveis de tensão evidenciados pelos jovens. Esse tipo de mediação pode promover um processo de melhoria da sua autoestima, reduzir os níveis elevados de transtornos mentais e favorecer o retorno à escola daqueles que a abandonaram.

Há necessidade da realização de estudos de seguimento desses jovens para avaliar a efetividade e o impacto que esse tipo de intervenção relacional e acompanhamento familiar promove. No entanto, é nítido o efeito promissor da inserção de equipes de profissionais do campo das ciências sociais e humanas para promover um suporte socioemocional a esses jovens, que vivem em situação de grande vulnerabilidade social e emocional.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:

Os conjuntos de dados gerados e/ou analisados durante o estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

Como citar:

Benevides AA, Gonçalves DN, Gonzalez RH, Alcântara J, Mesquita PFBA, Rolim RB, et al. Perfil dos jovens do projeto Virando o Jogo – Juventude e Superação, no nordeste do Brasil, no período da pandemia de COVID-19. Cad. Saúde Colet., 2026;34(1):e34010208. https://doi.org/10.1590/1414-462X202634010208

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Jun 2022
  • Aceito
    19 Jan 2023
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