Resumo
O feijão guandu (Cajanus cajan) apresenta potencial como alternativa forrageira para o semiárido brasileiro devido à sua rusticidade e ao elevado teor de proteína bruta. No entanto, sua ensilagem enfrenta desafios relacionados à elevada capacidade tampão, que compromete a eficiência fermentativa. Este estudo avaliou o perfil fermentativo e a composição bromatológica da silagem de guandu em diferentes períodos de abertura dos silos. Foram analisados parâmetros fermentativos (pH, nitrogênio amoniacal/N-NH3) e bromatológicos (matéria seca, proteína bruta, fibra em detergente neutro – FDN, fibra em detergente ácido – FDA, hemicelulose, celulose e lignina). Os resultados indicaram estabilidade nos teores de FDN, FDA e celulose ao longo do tempo, com variação significativa para lignina, associada à degradação de frações solúveis e processos oxidativos. O perfil fermentativo revelou pH relativamente elevado e acúmulo de N-NH3, refletindo intensa proteólise e baixa eficiência da fermentação lática. Conclui-se que a silagem de guandu, embora apresente valor proteico relevante, possui limitações fermentativas e nutricionais, especialmente devido ao acúmulo de compostos nitrogenados não proteicos e ao teor de lignina, fatores que reduzem a digestibilidade da fibra. Tais resultados reforçam a necessidade de estratégias de manejo, como o uso de aditivos ou associações com gramíneas, para otimizar o processo fermentativo e ampliar a utilização do guandu como volumoso conservado no semiárido.
Palavras-chave:
Cajanus cajan
; composição bromatológica; fermentação; semiárido; silagem
Abstract
Pigeon pea (Cajanus cajan) shows potential as a forage alternative for the Brazilian semiarid region due to its hardiness and high crude protein content. However, its ensiling process faces challenges related to its high buffering capacity, which compromises fermentative efficiency. This study evaluated the fermentative profile and bromatological composition of pigeon pea silage at different silo opening times. Fermentative parameters (pH, ammoniacal nitrogen/N-NH3) and bromatological components (dry matter, crude protein, neutral detergent fiber – NDF, acid detergent fiber – ADF, hemicellulose, cellulose, and lignin) were analyzed. The results indicated stability in NDF, ADF, and cellulose contents over time, with significant variation in lignin, associated with the degradation of soluble fractions and oxidative processes. The fermentative profile revealed relatively high pH values and accumulation of N-NH3, reflecting intense proteolysis and low efficiency of lactic fermentation. It is concluded that pigeon pea silage, although presenting relevant protein value, shows fermentative and nutritional limitations, especially due to the accumulation of non-protein nitrogen compounds and lignin content, factors that reduce fiber digestibility. These results reinforce the need for management strategies, such as the use of additives or associations with grasses, to optimize the fermentative process and expand the use of pigeon pea as conserved forage in semiarid regions.
Keywords:
Cajanus cajan; bromatological composition; fermentation; semiarid; silage
1. Introdução
A pecuária no semiárido brasileiro enfrenta limitações estruturais relacionadas à produção e oferta de forragem, principalmente pela acentuada irregularidade climática. Durante a estação chuvosa, há disponibilidade elevada de pastagens, mas no período seco a escassez de recursos alimentares compromete severamente o desempenho animal, reduzindo a produtividade leiteira e de corte e elevando os custos de suplementação (1 - 3). Esse cenário reforça a necessidade de adoção de tecnologias de conservação de forragem capazes de assegurar o fornecimento contínuo de volumosos ao longo do ano, entre as quais a ensilagem tem se consolidado como uma das estratégias mais eficientes (4).
Dentre as espécies forrageiras adaptadas ao semiárido, o feijão guandu (Cajanus cajan) apresenta destaque pela sua ampla resiliência e múltiplos usos. Trata-se de uma leguminosa arbustiva de ciclo perene, com capacidade de se desenvolver em solos de baixa fertilidade, sob regimes de déficit hídrico prolongado e em condições de elevada temperatura, características que o tornam um recurso estratégico para sistemas de produção animal no semiárido (5). Além da sua importância ecológica, como planta recuperadora de solos degradados e adubo verde, o guandu tem valor zootécnico relevante por apresentar teores de proteína bruta superiores aos das gramíneas tropicais, podendo reduzir a necessidade de insumos proteicos externos, frequentemente onerosos e de difícil acesso na região (6, 7).
Apesar desse potencial, a ensilagem de leguminosas como o guandu apresenta desafios intrínsecos ao processo fermentativo. A elevada concentração de proteínas e minerais confere alta capacidade tampão à massa ensilada, dificultando a rápida redução do pH, condição essencial para a inibição de microrganismos indesejáveis e para a estabilização da forragem (8, 9). Como consequência, a fermentação lática acaba sendo comprometida, favorecendo o desenvolvimento de bactérias clostrídicas, responsáveis pela produção de ácido butírico e de aminas biogênicas, que reduzem a qualidade nutricional e a palatabilidade da silagem (10).
A caracterização fermentativa e bromatológica de silagens é, portanto, etapa fundamental para compreender as limitações do seu processo de conservação e propor estratégias que viabilizem sua adoção em maior escala. A análise de parâmetros como pH, N-NH3 e composição química (matéria seca, proteína bruta e frações fibrosas) permite avaliar não apenas a eficiência da fermentação, mas também a estabilidade e o valor nutricional da forragem conservada (11, 12).
Nesse contexto, o presente trabalho teve como objetivo avaliar o perfil fermentativo e a composição bromatológica da silagem de feijão guandu em diferentes períodos de abertura dos silos, buscando elucidar sua estabilidade, limitações e implicações nutricionais para os sistemas de produção animal do semiárido brasileiro.
2. Material e métodos
2.1 Local de estudo e materiais vegetais
O presente estudo foi realizado na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Caprinos e Ovinos (latitude 3°44'55"S, longitude 40°21'35"W, a 80 m de altitude). A região caracteriza-se por clima semiárido, segundo a classificação de Köppen e Geiger (13) apresentando um período chuvoso entre fevereiro e junho, com precipitação média anual de 621 mm, registrada na área experimental em 2022. O solo é classificado como Háplica Lúvica, apresentando baixa acidez, níveis moderados de matéria orgânica, fósforo e potássio, além de teores elevados de cálcio e magnésio. O fotoperíodo local é considerado neutro, com duração diária variando entre aproximadamente 11h45 no inverno e 12h15 no verão (14).
O preparo do solo incluiu aração a 0–0,40 m de profundidade, seguida por gradagem niveladora para uniformização da área. Posteriormente, aplicou-se herbicida pré-emergente para controle de plantas daninhas. O sulcamento foi realizado com espaçamento de 0,75 m entre linhas. A adubação de base foi efetuada com fertilizante NPK 8-28-16, conforme recomendação de 130 kg de P2O5.ha-1, totalizando 464 kg de fertilizante por hectare.
Para o experimento foi empregada a cultivar BRS Guatã. O delineamento experimental adotado foi realizado em blocos casualizados (DBC), sendo as parcelas constituídas por duas linhas de 3 metros de comprimento, com espaçamento de 0,75 m entre linhas e 0,25 m entre plantas.
2.2 Ensilagem
Para a condução do experimento, foram coletadas 10 plantas por parcela. O material vegetal foi picado em partículas de tamanho reduzido para otimizar a compactação e conservação durante a ensilagem. Utilizaram-se silos experimentais confeccionados em tubos de PVC, com dimensões de 10 cm de diâmetro por 50 cm de altura, fechados hermeticamente nas extremidades. A pesagem da forragem foi realizada em balança digital com capacidade máxima de 40 kg e precisão de 1 g. Em cada silo, foram acondicionados 1.980 g de material verde homogeneizado.
A compactação da forragem foi realizada manualmente, utilizando soquete de madeira, visando eliminar ao máximo o ar entre as partículas. Após o enchimento, os silos foram imediatamente vedados com tampas plásticas para garantir condições anaeróbicas e armazenados em ambiente protegido da luz solar direta e da chuva.
O experimento foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado (DIC), com sete tratamentos, correspondentes aos tempos de abertura de 3, 7, 14, 21, 28, 60 e 90 dias, e quatro repetições por tratamento.
2.3 Abertura dos Silos
A abertura dos silos ocorreu de forma escalonada para o experimento das diferentes épocas de abertura, iniciando no 3° dia pós-ensilagem até o 90° dia. No momento da abertura, descartou-se uma camada superficial de aproximadamente 10 cm para garantir a representatividade da amostra. O restante do material foi homogeneizado. Após a homogeneização, procedeu-se à pesagem da matéria verde, e foram coletadas três amostras para análise laboratorial: 10 g para determinação do pH, 800 g para análises bromatológicas e 500 g para quantificação do nitrogênio amoniacal.
2.4 Análises laboratoriais
As análises foram realizadas no Laboratório de Bromatologia e Nutrição Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos. O pH foi determinado conforme metodologia de Detmann et al. (15), e o nitrogênio amoniacal segundo protocolos (16, 17). Os teores de matéria seca (MS), matéria orgânica (MO) e proteína bruta (PB) seguiram os procedimentos descritos por Silva e Queiroz (18). As frações de fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA), hemicelulose e lignina foram avaliadas conforme Van Soest et al. (19).
2.5 Análise estatística
As médias dos tratamentos foram submetidas ao teste de normalidade Shapiro-Wilk, adotando-se nível de significância de 5 %. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software The R Project.
3. Resultados e discussão
A avaliação do pH da silagem de guandu revelou variação estatisticamente significativa (p < 0,01) ao longo dos diferentes períodos de abertura, evidenciando alterações significativas na qualidade da fermentação, em função do tempo de armazenamento. Nos três primeiros dias após a abertura, observou-se um pH de 6,73 (Figura 1), sugerindo que o processo fermentativo ainda não havia atingido estabilidade. Do 7° ao 28° dia, ocorreu uma redução gradual no pH com valores ainda elevados, variando entre 6,51 e 6,19. Essa estabilidade relativa pode ser atribuída à presença de compostos tamponantes, resultado da elevada concentração de proteínas e minerais presente no guandu.
Aos 60 dias, o pH reduziu para 6,04, alcançando o menor valor (5,71) aos 90 dias, o que indica uma tendência à estabilização do processo fermentativo. No entanto, o valor final de pH de 5,71 é considerado inadequado para silagens bem conservadas, refletindo uma fermentação lática ineficiente em todos os tratamentos avaliados. Esse cenário favorece o desenvolvimento de microrganismos indesejáveis, como os do gênero Clostridium, cuja atividade está associada à produção de ácido butírico. Tal fermentação indesejável compromete a estabilidade da silagem e resulta em perdas significativas de valor nutricional (9, 20).
Os resultados apresentados no gráfico demonstram uma redução progressiva nos valores de pH das silagens ao longo do tempo após a abertura, variando de 6,73 a 5,71, com média geral de 6,25. Esses valores permanecem acima dos limites considerados ideais, indicando a proliferação de microrganismos indesejáveis e, consequentemente, comprometendo a qualidade da silagem (6). Esse comportamento é comum em silagens compostas exclusivamente por leguminosas, nas quais a fermentação é predominantemente conduzida por microrganismos indesejáveis, como bactérias do gênero Clostridium. Essas bactérias anaeróbicas produzem metabólitos prejudiciais, como ácido butírico e aminas biogênicas, que reduzem o valor nutricional e a palatabilidade da silagem (9, 20).
O teor de nitrogênio amoniacal (N-NH3) variou significativamente (p < 0,01) em função do tempo de abertura, sendo ajustado por modelo quadrático, com coeficiente de determinação (R2 = 0,8632), indicando que 86,32 % da variação nos teores de N-NH3 ao longo do tempo foi explicada pelo modelo (Figura 2). Esse parâmetro é um importante indicativo da qualidade fermentativa da silagem, pois está diretamente relacionado à degradação proteica durante o processo de ensilagem (21).
Variação do nitrogênio amoniacal (N-NH3) na silagem de feijão guandu em diferentes períodos de abertura.
Observou-se que os valores de N-NH3 aumentaram progressivamente com o tempo de abertura do silo, partindo de 0,063 % aos 3 dias até atingir 0,210 % aos 60 dias, seguido de uma leve redução para 0,170 % aos 90 dias. Essa elevação sugere uma intensificação da proteólise, provavelmente causada por microrganismos proteolíticos ou uma inadequada estabilização aeróbia após a abertura do silo (10, 22). A silagem aberta com apenas 3 dias apresentou o menor teor de NH3, o que reflete uma menor degradação das proteínas e, portanto, melhor conservação inicial (22). Por outro lado, os teores mais elevados nos períodos entre 21 e 60 dias sugerem que o prolongamento do tempo de exposição após abertura promove a deterioração da fração proteica, o que compromete a qualidade do alimento, podendo levar à menor eficiência de utilização do nitrogênio pelos animais (8, 23).
Além disso, o pico observado aos 60 dias (0,210 %) indica o ponto de maior instabilidade na silagem, sendo potencialmente crítico para o desempenho animal, especialmente em dietas com maior exigência proteica (24). A leve queda observada aos 90 dias (0,170 %) pode ser explicada por um possível esgotamento do substrato proteico ou adaptação da microbiota a esse novo ambiente, mas ainda assim representa valor elevado frente ao período inicial (25, 26).
A análise bromatológica da silagem de guandu (Figura 3), revelou variações significativas em alguns parâmetros nutricionais, enquanto outros permaneceram estáveis ao longo do tempo. As variações nos teores de matéria seca (MS), matéria mineral (MM), matéria orgânica (MO), extrato etéreo (EE), proteína bruta (PB), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA), hemicelulose (HEM), celulose (CEL) e lignina (LIG) ao longo dos diferentes períodos de abertura, foram descritas por equações polinomiais de quarto grau. Os ajustes apresentaram elevados coeficientes de determinação para a maioria dos parâmetros, indicando bom desempenho dos modelos na representação das tendências observadas.
Caracterização químico-bromatológica da silagem de feijão guandu (Cajanus cajan) em diferentes períodos de abertura. MS: matéria seca; MM: matéria mineral; MO: matéria orgânica; EE: extrato etéreo; PB: proteína bruta; FDN: fibra em detergente neutro; FDA: fibra em detergente ácido; HEM: hemicelulose; CEL: celulose; LIG: lignina. As linhas pontilhadas representam os ajustes por modelos polinomiais de quarto grau.
Os teores de matéria seca (MS) apresentaram variação significativa entre os períodos de abertura (p < 0,01), com valores oscilando entre 25,66 % (28 dias) e 29,11 % (7 dias). O maior teor foi registrado aos 7 dias após a ensilagem (29,11 %), seguido pelos períodos de 90 dias (29,00 %) e 14 dias (28,19 %). Esses resultados indicam que tanto as aberturas precoces quanto as mais tardias podem favorecer a conservação da MS, possivelmente em decorrência de uma acidificação rápida nos estágios iniciais (7 e 14 dias) e da estabilização do processo fermentativo nas fases seguintes (10, 27).
No terceiro dia, o teor de MS foi de 26,91 %, o que reflete um estágio ainda inicial da fermentação, caracterizado por intensa atividade de microrganismos aeróbios, a qual pode ter contribuído para a redução da umidade. Em contrapartida, aos 21 e 28 dias, observaram-se os menores teores de MS (26,23 % e 25,66 %, respectivamente), possivelmente associados à intensificação de fermentações secundárias, com maior produção de efluente e eventual proliferação de microrganismos indesejáveis. Segundo Borreani et al. (8), descrevem esse fenômeno como prejudicial à qualidade da silagem, associando-o à perda de nutrientes e ao comprometimento da estabilidade do material ensilado.
Aos 60 dias, verificou-se uma leve recuperação no teor de MS (26,45 %), indicando o início da estabilização fermentativa da massa ensilada. Esse comportamento está em consenso com os resultados de Muck et al. (28), os quais demonstraram que, após uma fase inicial de intensa atividade microbiana, ocorre a produção de ácidos orgânicos que inibem a multiplicação de microrganismos indesejáveis, promovendo a estabilidade da silagem. O retorno aos valores elevados de MS aos 90 dias pode estar relacionado à evaporação gradual da umidade, especialmente em silos com vedação não totalmente eficiente.
Os teores de matéria mineral (MM) e matéria orgânica (MO) não apresentaram variações estatisticamente significativas entre os diferentes tempos de abertura, com valores médios oscilando entre 6,61 % (7 dias) e 7,55 % (3 dias) para MM, e entre 92,45 % (3 dias) e 93,40 % (7 dias) para MO. Esses resultados são consistentes com os achados na literatura (29, 30), os quais destacam a estabilidade desses parâmetros como indicativa de um processo fermentativo eficiente. De maneira similar, o teor de extrato etéreo (EE), fração representativa do conteúdo lipídico, variou de 1,81 % (14 dias) a 2,92 % (21 dias), também sem diferenças significativas entre os tratamentos, o que sugere uma preservação eficaz dos constituintes energéticos da forragem, conforme relatado pelos mesmos autores.
A fração de proteína bruta (PB) apresentou variação estatisticamente significativa (p < 0,05) ao longo dos períodos de abertura, com teores variando de 11,51 % (90 dias) a 14,54 % (28 dias). Nos primeiros 3 dias após a ensilagem, observou-se o menor teor de PB (11,58 %), o que pode ser atribuído à intensa atividade proteolítica promovida por enzimas endógenas da planta, resultando na degradação de proteínas verdadeiras em peptídeos, aminoácidos e, subsequentemente, em amônia. Esse comportamento inicial foi descrito por Alves (11), que destaca a ação de proteases vegetais nas fases iniciais da fermentação como fator determinante na redução da fração proteica utilizável.
A partir do 7° ao 28° dia, verificou-se um aumento gradativo nos teores de PB, atingindo o valor máximo de 14,54 % aos 28 dias. Esse acréscimo pode refletir uma concentração relativa de proteína em decorrência da perda de frações solúveis da matéria seca, como açúcares e ácidos orgânicos, elevando proporcionalmente o teor de PB na matéria seca remanescente. Resultados semelhantes foram reportados por Coelho e Araújo (31), que observaram aumento aparente no teor de PB durante o processo de fermentação, associado à concentração de nutrientes provocada por perdas fermentativas.
Nos períodos mais prolongados de fermentação (60 e 90 dias), os teores de PB apresentaram discreta redução, com o menor valor registrado aos 90 dias (11,51 %). Essa queda pode estar relacionada à conversão da proteína em compostos nitrogenados voláteis, como a amônia, que são menos aproveitáveis pelos ruminantes, indicando perdas no valor nutritivo da silagem. Conforme observado por Zambom et al. (32), que destacam a importância da atividade proteolítica microbiana e da formação de compostos nitrogenados não proteicos durante a fermentação prolongada.
A avaliação dos parâmetros fibrosos, demonstraram estabilidade na maioria dos componentes, com exceção da lignina, que apresentou variação estatisticamente significativa (p < 0,05). A fibra em detergente neutro (FDN), que representa a fração da parede celular composta por celulose, hemicelulose e lignina, manteve-se estável ao longo dos diferentes tempos de abertura, com valores variando entre 72,95 % (28 dias) 78,21 % (90 dias). Essa constância sugere que o processo fermentativo da silagem não comprometeu a integridade das fibras estruturais, o que é benéfico para a manutenção da efetividade física da dieta e da motilidade ruminal dos ruminantes. Borreani et al. (8) destacam que a estabilidade da FDN durante o armazenamento da silagem é crucial para preservar a saúde ruminal e otimizar a eficiência alimentar, reforçando que o controle adequado das condições anaeróbias evita a degradação prematura dessa fração.
De forma semelhante, a fibra em detergente ácido (FDA), que inclui principalmente celulose e lignina, também não apresentou diferenças significativas (p > 0,05), variando entre 62,34 % (28 dias) e 66,92 % (7 dias). A hemicelulose, calculada pela diferença entre FDN e FDA, variou de 10,56 % (14 dias) a 11,63 % (90 dias) entre os tratamentos, sem apresentar diferenças significativas. Considerando que essa fração é estruturalmente menos complexa e mais suscetível à degradação microbiana, sua estabilidade pode indicar uma adequada preservação anaeróbia e controle do pH logo após a ensilagem, inibindo a ação de microrganismos celulolíticos e hemicelulolíticos indesejáveis (8, 33).
A fração de celulose variou de 37,00 % a 40,68 %, sem diferenças significativas (p > 0,05). A lignina foi o único componente da fração fibrosa que apresentou diferença estatisticamente significativa entre os tratamentos (p < 0,05), com valores oscilando entre 19,54 % (3 dias) e 21,83 % (60 dias). O aumento observado ao longo do tempo pode estar relacionado à concentração relativa da lignina, resultante da degradação de frações mais solúveis ou facilmente fermentescíveis, como a hemicelulose, ou ainda da menor compactação de silos com tempo de armazenamento prolongado, favorecendo a oxidação de compostos fenólicos (33 - 35).
Esse aumento na lignificação pode impactar negativamente a digestibilidade da silagem, visto que a lignina atua como uma barreira física e química à ação microbiana sobre a celulose e a hemicelulose. Cao et al. (36) demonstraram que a presença elevada de lignina reduz significativamente a degradabilidade da fibra em silagens tropicais, sendo necessária a adoção de estratégias biológicas (como o uso de fungos ligninolíticos) para melhorar esse parâmetro.
4. Conclusão
A silagem de feijão guandu apresentou potencial para contribuir com a alimentação animal no semiárido, principalmente pelo seu teor de proteína bruta. Contudo, o perfil fermentativo observado, caracterizado por pH elevado, acúmulo de N-NH3 e instabilidade proteica, evidencia limitações na conservação do volumoso. A estabilidade relativa da fração fibrosa, contraposta ao aumento da lignina, reforça os impactos negativos sobre a digestibilidade. Assim, o uso exclusivo da silagem de guandu deve ser avaliado com cautela, sendo recomendada a adoção de práticas como a utilização de aditivos ou o consórcio com gramíneas, de modo a melhorar a eficiência fermentativa e garantir maior valor nutricional ao volumoso conservado.
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Declaração de uso de IA generativa
Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de Inteligência Artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.
Declaração de disponibilidade de dados
Os dados gerados e analisados durante o presente estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.
Agradecimentos
O presente estudo foi financiado pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP). O autor Sousa, V. A foi beneficiário de bolsa FUNCAP (Processo n° BMD-0008-10103.01.01/26). O autor Vasconcelos, F. J. O foi beneficiário de bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n° 181935/2023-6).
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Editor:
Rondineli P. Barbero






