Resumo
Objetivou-se investigar as tendências fenotípicas e os efeitos de fatores ambientais sobre a produção e a composição do leite em rebanhos da Savana Amazônica. Foram analisados registros de controle leiteiro e amostras coletadas entre 2022 e 2024 em três municípios do estado de Roraima (Boa Vista, Cantá e Iracema), incluindo vacas de diferentes padrões raciais, com predominância de mestiças Gir e Girolando. As tendências fenotípicas foram estimadas por regressão linear e os efeitos de localidade e estação do ano (seca e chuvosa) foram avaliados por análise de variância, seguida do teste de Tukey a 5 % de significância. No rebanho experimental, a produção média foi de 2,66 kg de leite/vaca/dia, e os teores médios de gordura, proteína, lactose, sais minerais e extrato seco desengordurado foram de 3,79 %, 3,43 %, 4,80 %, 0,81 % e 9,04 %, respectivamente. A tendência fenotípica indicou discreta redução na produção média diária de leite (-0,0021 kg), enquanto os componentes mantiveram estabilidade fenotípica: gordura (-0,0006 %), proteína (0,0003 %), lactose (0,0004 %) e sais minerais (0,00006 %). Nos rebanhos comerciais, não houve interação significativa entre localidade e estação do ano. Observou-se efeito significativo da região sobre todos os componentes do leite, com destaque para Iracema, que apresentou maiores teores médios de proteína (4,79 %), lactose (5,21 %), sais minerais (0,88 %) e extrato seco desengordurado (9,89 %), enquanto Boa Vista apresentou maior teor de gordura (3,81 %). A estação seca apresentou valores superiores para proteína (4,05 %), lactose (5,04 %), sais minerais (0,85 %) e extrato seco desengordurado (9,54 %) em relação à estação chuvosa. Conclui-se que a produção média do rebanho experimental é baixa sob condições tropicais da Savana Amazônica, porém, com variabilidade fenotípica relevante, e a composição do leite é influenciada pela localização geográfica e pela sazonalidade climática, com maior concentração de sólidos no período seco.
Palavras-chave:
clima tropical; componentes do leite; variabilidade; sazonalidade.
Abstract
This study aimed to investigate phenotypic trends and the effects of environmental factors on milk yield and composition in herds located in the Amazon Savanna. Milk recording data and samples collected between 2022 and 2024 were analyzed from three cities in the state of Roraima, Brazil (Boa Vista, Cantá, and Iracema), including cows of different breed compositions, predominantly Gir and Girolando crossbreds. Phenotypic trends were estimated using linear regression, and the effects of location and season (dry and rainy) were evaluated by analysis of variance followed by Tukey’s test at a 5 % significance level. In the experimental herd, average milk yield was 2.66 kg/ cow/day, and mean contents of fat, protein, lactose, mineral salts, and solids-not-fat were 3.79 %, 3.43 %, 4.80 %, 0.81 %, and 9.04 %, respectively. The phenotypic trend indicated a slight reduction in daily milk yield (-0.0021 kg), whereas milk components remained phenotypically stable: fat (-0.0006 %), protein (0.0003 %), lactose (0.0004 %), and mineral salts (0.00006 %). In commercial herds, no significant interaction was observed between location and season. A significant effect of location was detected for all milk components, with Iracema presenting higher mean contents of protein (4.79 %), lactose (5.21 %), mineral salts (0.88 %), and solids-not-fat (9.89 %), whereas Boa Vista showed the highest fat content (3.81 %). The dry season presented higher values for protein (4.05 %), lactose (5.04 %), mineral salts (0.85 %), and solids-not-fat (9.54 %) compared to the rainy season. It is concluded that average milk yield in the experimental herd remains low under tropical conditions of the Amazon Savanna, although relevant phenotypic variability exists, and milk composition is influenced by geographic location and climatic seasonality, with greater concentration of solids during the dry season.
Keywords:
tropical climate; milk components; variability; seasonality.
1. Introdução
A pecuária leiteira constitui uma das principais atividades agropecuárias e é praticada em todo o território nacional, com notável heterogeneidade nas técnicas de produção, rebanhos e tipos de produtores (1). A produção de leite no estado de Roraima atingiu aproximadamente 21,82 milhões de litros em 2024 (2), evidenciando a relevância desse setor para a economia rural e segurança alimentar. A cadeia produtiva do leite, ao incorporar novas tecnologias e técnicas agropecuárias, busca superar desafios e fortalecer sua posição estratégica no estado, contribuindo para o abastecimento local e a geração de empregos (3).
O leite é um alimento de elevada complexidade biológica e reconhecido valor nutricional, composto essencialmente por água, gordura, proteína, lactose, vitaminas e sais minerais (4). A proporção desses constituintes influencia diretamente suas propriedades nutricionais, sensoriais e tecnológicas, determinando sua aptidão para o consumo in natura e para o processamento industrial (5). A composição do leite é resultado da interação entre fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e de manejo, podendo variar conforme a raça, a alimentação, o estágio de lactação e as condições climáticas às quais os animais estão expostos (6,7). A seleção de animais com alto mérito genético para teor de proteína, gordura e sólidos totais no leite, associada às melhorias na fertilidade do solo e manejo de pastagens, contribuem para o aumento na produção e qualidade do leite em vacas leiteiras (8). As diferenças genéticas entre grupos raciais refletem diretamente no volume e na qualidade do leite produzido (9,10). Na região Norte do Brasil, as raças zebuínas (Bos taurus indicus) e mestiças são mais exploradas devido à maior rusticidade, resistência a ecto e endoparasitas, e apresentam melhor adaptação ao clima quente e úmido característico da região (11). Animais Bos taurus indicus apresentam boas taxas respiratórias e temperatura inferior aos animais Bos taurus taurus quando expostos às condições de estresse térmico semelhantes (6).
A expansão da pecuária leiteira na savana amazônica é uma tendência crescente, predominando o pastejo extensivo em extensas áreas de campos nativos, com gramíneas de baixo valor nutritivo. Além disso, o clima tropical sazonal no estado de Roraima exerce influência marcante sobre a produção e a composição do leite bovino, uma vez que as variações entre os períodos chuvoso e seco afetam diretamente a disponibilidade e a qualidade das pastagens, principal base alimentar dos rebanhos na região (10). Durante o período seco, a menor oferta de forragem e o declínio no valor nutricional das pastagens podem reduzir o desempenho produtivo das vacas e alterar os teores de sólidos do leite (6). O aumento do teor de sólidos no leite é economicamente rentável pois são essenciais para a produção de uma gama de derivados lácteos (8). Essas flutuações refletem a estreita relação entre as condições ambientais e o metabolismo animal, especialmente em sistemas de produção extensivos dependentes de pastagem (6). Assim, compreender os efeitos do regime climático amazônico é fundamental para o planejamento nutricional, o manejo reprodutivo e a seleção de genótipos mais adaptados, visando à manutenção da produtividade e da qualidade do leite em condições tropicais.
A análise das tendências fenotípicas da produção e dos componentes do leite ao longo do tempo constitui uma ferramenta essencial para compreender o comportamento das populações sob diferentes condições ambientais e de manejo, bem como para identificar padrões temporais da produção leiteira (8,12). Essa abordagem permite detectar mudanças no desempenho produtivo e possíveis respostas adaptativas dos rebanhos. No entanto, ainda são escassos os estudos que integrem o desempenho produtivo e a qualidade do leite bovino em sistemas de produção sob condições tropicais do extremo norte do Brasil. Nesse sentido, objetivou-se investigar as tendências fenotípicas e avaliar os efeitos de fatores ambientais que influenciam a produção de leite e seus componentes em rebanhos bovinos localizados na Savana Amazônica.
2. Material e métodos
2.1 Delineamento geral
O estudo foi estruturado em dois conjuntos analíticos distintos devido às diferenças na disponibilidade de dados produtivos. O Estudo 1 compreendeu a avaliação do rebanho experimental do Departamento de Zootecnia, no qual foi realizado controle leiteiro sistemático, permitindo o acompanhamento regular da produção individual ao longo do tempo. O Estudo 2 avaliou rebanhos leiteiros provenientes de propriedades comerciais localizadas em diferentes municípios do estado de Roraima, onde não houve controle leiteiro sistemático, sendo possível apenas a coleta periódica de amostras para análise da composição do leite.
2.2 Coleta de dados
O primeiro estudo foi conduzido no Campus Cauamé da da Universidade Federal de Roraima (UFRR), localizado no município de Boa Vista, Roraima, Brasil. Os dados foram coletados no período de 22 de setembro de 2022 a 30 de novembro de 2024. Foram utilizados registros produtivos de 38 vacas leiteiras das raças Gir e mestiças pertencentes ao rebanho experimental do Departamento de Zootecnia. Os animais foram mantidos sob sistema de produção semi-intensivo, com acesso a pastagens composta por gramíneas tropicais e suplementação mineral fornecida ad libitum. O número de animais avaliados apresentou variação ao longo do período experimental, em decorrência da sazonalidade produtiva e da dinâmica de entrada e saída de vacas em lactação. A ordem de parto variou de primeira a quinta lactação, não havendo registro individual sistematizado dessa informação nos controles analisados. O controle leiteiro foi realizado manualmente por meio de ordenha com o bezerro ao pé, no período da manhã, utilizando-se balança de precisão para mensuração da produção individual. Os animais foram identificados por meio de brincos e os registros produtivos foram inseridos em planilhas para posterior consolidação dos dados. Para determinação dos componentes do leite, as amostras foram coletadas mensalmente, devidamente identificadas e armazenadas sob condições adequadas até o encaminhamento para análise laboratorial.
O estado de Roraima se caracteriza por apresentar clima tropical úmido, com duas estações bem definidas: chuvosa (abril a agosto) e seca (setembro a março). Foram coletados também dados climáticos de temperatura de bulbo seco (TBS em ºC), temperatura do ponto de orvalho (ºC) e umidade relativa (%), obtidos a partir da plataforma NASA POWER (13) no mesmo período avaliado no rebanho experimental. A partir dessas variáveis, foi calculado o índice de temperatura de globo e umidade (ITGU) para avaliação do estresse térmico em bovinos (14):
em que a temperatura de globo negro (TGN em ºC) pode ser estimada a partir da TBS para o ambiente externo (15) como segue:
O segundo estudo incluiu registros de propriedades leiteiras localizadas nos municípios de Boa Vista (34 vacas), Cantá (67 vacas) e Iracema (61 vacas), no estado de Roraima, Brasil. Foram avaliadas duas propriedades por município, totalizando seis unidades produtivas. O período de coleta de dados variou de janeiro de 2023 a novembro de 2024, com realização de coletas mensais ao longo do período experimental. O número de amostras coletadas variou mensalmente em função da quantidade de vacas em lactação em cada propriedade. O município de Boa Vista está situado na região centro-norte do estado (02°49′ N, 60°40′ W), com altitude média de 90 m, temperatura média anual de 27-28 °C e precipitação anual aproximada de 1.700 mm. O município do Cantá localiza-se a aproximadamente 35 km de Boa Vista (02°36′ N, 60°36′ W), com altitude média de 95 m, temperatura média anual de 27°C e precipitação anual entre 1.800 e 2.000 mm. O município de Iracema encontra-se na região sudeste do estado (02°11′ N, 61°03′ W), com altitude média de 110 m, temperatura média anual é de 27°C e precipitação média anual de 1.400 mm.
As propriedades avaliadas caracterizam-se por sistema de produção semi-intensivo, com uso predominante de pastagens tropicais e suplementação concentrada principalmente durante o período seco, representativas dos sistemas de produção leiteira no estado de Roraima. Observou-se limitações relacionadas ao manejo racional de pastagens e à adequação nutricional dos rebanhos, refletindo o padrão tecnológico predominante na região. Os rebanhos apresentaram composição racial predominantemente mestiça, com maior proporção de animais Girolando e cruzamentos com a raça Gir, padrão genético característico dos sistemas leiteiros do extremo norte do Brasil. O tamanho dos rebanhos variou entre as propriedades, sendo compostos majoritariamente por pequenos e médios produtores. Não foi realizado controle leiteiro sistemático nas propriedades avaliadas, o que impossibilitou a mensuração da produção individual. Entretanto, para contextualização regional, a produção média por vaca no estado de Roraima foi de aproximadamente 2,8 kg/vaca/dia no ano de 2023 (16), refletindo o baixo nível tecnológico predominante na atividade leiteira regional. Em quatro das seis propriedades avaliadas, a ordenha foi realizada de forma manual, com presença de bezerro ao pé. Em uma propriedade localizada no município de Cantá e no município de Iracema, a ordenha foi realizada por sistema mecânico, sem presença de bezerro ao pé.
As amostras de leite foram coletadas individualmente durante a ordenha completa no período da manhã por meio de um recipiente plástico transparente, com capacidade entre 5 e 10 mL, e encaminhadas sob refrigeração ao Laboratório de Análises de Leite do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Roraima para processamento. Não foi utilizado conservante nas amostras. Por meio do equipamento eletrônico Master Mini, foram determinadas as seguintes variáveis: teor de gordura (%), teor de proteína (%), teor de lactose (%), teor de sais minerais (%) e teor de extrato seco desengordurado (%).
A pesquisa foi conduzida em conformidade com as normas do Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal (CONCEA) e aprovada pela Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da Universidade Federal de Roraima, conforme número do protocolo 009/2025.
2.3 Análise estatística
Inicialmente, procedeu-se a análise exploratória dos dados, identificando e removendo potenciais outliers. Os dados foram submetidos à estatística descritiva (média, desvio padrão, coeficiente de variação, valores mínimo e máximo), com o objetivo de caracterizar o desempenho médio dos rebanhos e identificar a variabilidade dentro da população estudada.
As tendências fenotípicas da produção de leite e de seus componentes no rebanho leiteiro experimental do Departamento de Zootecnia foram avaliadas por meio de regressão linear simples (nível de significância de 5 %), considerando o ano do controle leiteiro como variável independente, segundo o modelo:
Yi = β0 + β1(Ano) + εi em que: Yi é o valor observado da característica (produção ou componente do leite); β0 é o intercepto; β1 é o coeficiente de regressão linear (tendência fenotípica); e εi é o erro aleatório, assumido como (0,σ2).
Para comparação dos efeitos de localidade e estação do ano sobre os componentes do leite em diferentes rebanhos, foram realizadas análises de variância (ANOVA) considerando dois fatores com interação, conforme o seguinte modelo estatístico adotado:
Yijk = μ + Mi + Ej + (M × E)ij + εijk em que: Yijk é o valor observado da variável resposta; μ é a média geral; Mi é o efeito fixo do i-ésimo localidade (i = Boa Vista, Cantá, Iracema); Ej é o efeito fixo da j-ésima estação do ano (j = seca, chuvosa); (M × E)ij é a interação entre localidade e estação; e εijk é o erro aleatório, assumido como (0,σ2).
Quando observadas diferenças significativas entre níveis de um fator (p < 0,05), aplicouse o teste de Tukey a 5 % de probabilidade para comparações múltiplas entre médias. Todas as análises foram conduzidas no software R (17).
3. Resultados e discussão
3.1 Estudo 1- Rebanho experimental
3.1.1 Estatística descritiva
A Tabela 1 apresenta os resultados da estatística descritiva para a produção e os principais componentes do leite de vacas leiteiras pertencentes ao rebanho experimental do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Roraima.
Estatística descritiva da produção e composição do leite do rebanho experimental na Savana Amazônica.
A produção média de leite observada foi de 2,66 kg por dia, com coeficiente de variação de 39,85 % (Tabela 1), indicando alta variabilidade entre os animais. Essa amplitude de variação reflete diferenças individuais de potencial genético, composição racial, estágio de lactação e manejo nutricional (6). Em relação ao histórico produtivo do estado, observa-se um incremento ligeiro na produção de leite, uma vez que há cerca de uma década a média diária era de apenas 0,94 litro por vaca (3). Contudo, o nível produtivo observado no estado de Roraima ainda está muito baixo quando comparado a rebanhos especializados de raças Bos taurus taurus ou mestiças manejadas em sistemas intensivos (18). Melhorias gradativas em manejo, alimentação e seleção genética dos rebanhos regionais se fazem necessárias para aumentar a produtividade. A amplitude observada revela que parte das vacas apresenta desempenho superior, sugerindo variabilidade fenotípica que poderia ser explorada em programas de melhoramento. A realização do controle leiteiro sistemático como atividade de rotina e a identificação de matrizes de maior mérito genético para composição de um núcleo de seleção local constituem estratégias fundamentais para melhorar a produtividade (19).
O teor de gordura apresentou média de 3,79 %, com alta variabilidade (38,35 %) entre as vacas (Tabela 1), o que pode ser esperado em rebanhos leiteiros criados em climas tropicais e reflete a influência de fatores fisiológicos e nutricionais. Vacas em final de lactação tendem a apresentar maiores teores de gordura devido à concentração dos sólidos do leite. As variações no teor de gordura são resultado de estratégias de reprodução e alimentação (8). Comparada ao teor de proteína e lactose, a gordura do leite é um componente altamente variável, influenciada por fatores nutricionais e não nutricionais. A gordura do leite se origina de duas fontes primárias: ácidos graxos sintetizados na glândula mamária, usando como precursores o acetato e betahidroxibutirato, e os ácidos graxos pré-formados do sangue derivados da dieta e mobilização corporal (20). Foram observadas 52 amostras (22,81 %) a partir de 20 vacas (52,63 %) ao longo do período avaliado com registros individuais do teor médio de gordura no leite cru abaixo do padrão mínimo de qualidade (3,0 %) exigido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) (21), o que pode estar relacionado à baixa qualidade da forragem (22). Essa variação reforça o papel do estágio fisiológico da lactação e da heterogeneidade nutricional entre os lotes do rebanho como fatores determinantes para a composição do leite. A alta variabilidade tanto na produção do leite quanto no teor de gordura pode refletir desafios de padronização nutricional e manejo sob condições tropicais, e indica potencial para seleção genética e ajuste de estratégias alimentares, visto que há vacas com desempenho superior sob as mesmas condições ambientais.
Ademais, a maior variação para o teor de gordura é esperada devido à própria metodologia analítica empregada, uma vez que essa fração é determinada de forma direta pelo equipamento Master Mini que opera por tecnologia baseada em ultrassom, refletindo com maior sensibilidade as variações biológicas e de manejo presentes nas amostras. Os demais componentes do leite são estimados a partir de equações de calibrações internas do equipamento, baseadas em modelos matemáticos que utilizam a gordura e outros parâmetros físico-químicos como referência.
O teor médio de proteína (3,43 %) apresentou baixa variação (4,44 %), sugerindo maior estabilidade fisiológica desse componente (Tabela 1) no leite bovino. Resultados superiores foram observados por Silva et al. (23), que relataram teor médio de proteína de 3,90 % em vacas mestiças em regiões de clima tropical úmido. O teor médio de lactose foi de 4,80 % e coeficiente de variação de 5,19 % (Tabela 1), o que confirma sua menor sensibilidade a variações alimentares. Ambos os teores de proteína e lactose se encontram dentro do padrão preconizado pelo MAPA (21). Em bovinos, a lactose é o principal carboidrato do leite e é responsável pelo equilíbrio osmótico entre o sangue e o lúmen alveolar na glândula mamária (24). Embora o teor de lactose tenha sido considerado pouco informativo por décadas devido à sua baixa variabilidade, pesquisas recentes demonstraram uma certa variação dentro e entre lactações em bovinos (25). Além disso, após a aplicação de tecnologias de filtração do soro, a lactose em pó tornou-se um ingrediente alimentar com demanda e valor de mercado (24).
Os teores médios de sais minerais (0,81 %) e extrato seco desengordurado (9,04 %) se mostraram dentro da faixa esperada para leite bovino (Tabela 1), com coeficientes de variação inferiores a 6 %, o que indica boa uniformidade dos resultados e conformidade com padrões de qualidade. Embora os minerais representem apenas uma pequena fração dos nutrientes do leite, eles desempenham inúmeras funções no organismo, incluindo a formação de componentes estruturais e funções bioquímicas, e podem ocorrer em diferentes formas, como sais e íons inorgânicos ou componentes de moléculas orgânicas, como proteínas (7). Além de seu papel nutricional, os minerais também são importantes para a qualidade tecnológica do leite, o cálcio e o fósforo são cruciais para a estabilidade das micelas de caseína no processo de fabricação de queijo (26).
3.1.2 Tendências fenotípicas
A Figura 1 mostra a tendência fenotípica da produção de leite das vacas em lactação no rebanho experimental da Savana Amazônica, indicando redução gradual média diária de 0,0021 kg. Essa tendência negativa parece estar associada principalmente às condições ambientais registradas no período avaliado (Figura 2). A partir de setembro de 2022, observou-se maior oscilação dos indicadores climáticos, caracterizada por aumento da carga térmica, elevação da temperatura média e redução da umidade relativa do ar. Esses fatores contribuem para o aumento do índice de temperatura e umidade global (ITGU), condição frequentemente associado ao estresse térmico em bovinos leiteiros. O estresse térmico compromete o conforto dos animais e reduz a ingestão de matéria seca, afetando a eficiência metabólica e a persistência da lactação, o que pode resultar em redução progressiva da produção de leite.
Tendência fenotípica da produção de leite (kg) de vacas em lactação no rebanho experimental da Savana Amazônica.
Variação temporal do ITGU (índice de temperatura de globo e umidade) (a), da temperatura (b) e da umidade relativa (c) na Savana Amazônica.
Além das condições térmicas adversas, o período compreendido entre outubro de 2023 e abril de 2024 foi marcado por um evento climático extremo na região Norte do Brasil, caracterizado por uma seca prolongada considerada uma das mais severas dos últimos anos. A escassez de precipitação resultou na redução significativa da disponibilidade de água e no comprometimento da produção de forragem nas pastagens. Como consequência, os animais enfrentaram um período prolongado de déficit nutricional, acompanhado de perda de peso e redução do escore de condição corporal, o que contribuiu para a queda na produção de leite observada no rebanho. Com o retorno das chuvas após a estiagem severa, registraram-se ainda infestações intensas de pragas nas áreas de pastagem, especialmente lagartas e percevejos fitófagos, que consumiram grande parte da vegetação disponível. Espécies como a lagarta-do-cartucho-do-milho e o curuquerê-dos-capinzais foram reportadas destruindo extensas áreas de pasto na região. Esse cenário agravou a escassez de alimento e prolongou o período de recuperação nutricional dos animais, prolongando o impacto negativo sobre o desempenho produtivo do rebanho.
O estresse térmico continua sendo um fator limitante para o desenvolvimento da pecuária leiteira global, pois está associado a menor ingestão de matéria seca e alterações metabólicas que afetam a persistência de lactação (27). De acordo com Tao et al. (27), o controle do calor, como o sombreamento e o resfriamento evaporativo é atualmente a abordagem mais eficaz para minimizar o impacto negativo do estresse térmico e deve ser implementado como prioridade durante o verão. Além disso, o avanço da idade das vacas está relacionado ao declínio da persistência da lactação, uma vez que animais mais velhos apresentam maior regressão das células alveolares mamárias, resultando em menor produção de leite ao longo do tempo (28). Assim, a variabilidade na produção de leite existente entre as vacas pode refletir diferenças de mérito genético, estágio de lactação e resposta às condições ambientais, especialmente associada as condições climáticas, reforçando a importância do controle leiteiro individualizado e da identificação de matrizes superiores para fins de seleção.
A tendência fenotípica do teor de gordura do leite é apresentada na Figura 2a, indicando uma redução média diária de 0,0006 % entre setembro de 2022 e novembro de 2024. Esse comportamento sugere que a magnitude do efeito temporal foi discreta, não indicando alteração fenotípica expressiva no teor de gordura do leite ao longo do período analisado. A dispersão dos dados evidencia variabilidade entre os registros individuais, o que pode estar associado a diferenças no estágio de lactação, condição corporal, manejo nutricional e variações ambientais às quais os animais estiveram expostos. Em sistemas de produção com programas estruturados de melhoramento genético, seria esperado que incrementos na produção de leite pudessem resultar em efeito de diluição dos sólidos do leite ou, alternativamente, em aumento do teor de gordura com manutenção da produção. Entretanto, no rebanho avaliado não há histórico de seleção genética direcionada para produção ou composição do leite, sendo composto predominantemente por animais mestiços mantidos sob baixo nível tecnológico. Dessa forma, as variações observadas parecem estar mais relacionadas a fatores ambientais e nutricionais do que a mudanças genéticas na população.
Além disso, o período avaliado foi marcado por um episódio climático extremo na região conforme descrito anteriormente, caracterizado por uma estiagem prolongada seguida por surtos intensos de pragas nas pastagens com o retorno das chuvas. Esse cenário resultou em escassez de forragem e em um período prolongado de balanço energético negativo para os animais, o que pode explicar a tendência de redução simultânea tanto na produção de leite quanto no teor de gordura observada no rebanho experimental. De modo geral, seria esperado maior flutuação no teor de gordura do leite em função das variações sazonais típicas dos sistemas tropicais, especialmente devido às mudanças na qualidade e disponibilidade de forragem entre os períodos seco e chuvoso, fatores que influenciam diretamente o balanço energético das vacas e a síntese de gordura na glândula mamária (29, 30). Entre os principais fatores que afetam o teor de gordura do leite destacam-se a composição da dieta, particularmente a concentração de fibra e a proporção entre volumoso e concentrado (31). Dietas com maior teor de fibra tendem a aumentar a produção de ácidos graxos voláteis no rúmen, principalmente acetato e butirato, que atuam como precursores importantes para a síntese de gordura no leite (32). Portanto, diferentemente do que seria esperado em contextos de progresso genético, nos quais alterações na produção frequentemente resultam em efeitos de diluição ou incremento de componentes do leite, os resultados observados neste estudo indicam que as variações no teor de gordura refletem predominantemente efeitos ambientais temporários sobre o desempenho fenotípico dos animais. Esses achados reforçam a importância de considerar eventos climáticos extremos e limitações nutricionais na interpretação de tendências produtivas em sistemas pecuários tropicais, especialmente em rebanhos mantidos sob condições extensivas e com baixo nível de intensificação tecnológica.
Comportamento estável similar foi observado para a tendência fenotípica do teor de proteína (0,0003 %), lactose (0,0004 %), sais minerais (0,00006 %) e extrato seco desengordurado (0,0007 %), com oscilações muito discretas e sem alteração significativa no padrão médio (Figura 3b-e). Isso sugere que, apesar das flutuações no volume produzido, os componentes do leite apresentaram relativa estabilidade fenotípica, o que é desejável para a indústria de laticínios, que depende de padrões consistentes desses parâmetros para garantir eficiência nos processos de beneficiamento. O monitoramento contínuo desses parâmetros permite a adoção de estratégias de manejo nutricional, ambiental e genético mais eficazes, contribuindo para a sustentabilidade e rentabilidade da atividade leiteira na região da Savana Amazônica.
Tendência fenotípica dos teores (%) de gordura (a), proteína (b), lactose (c), sais minerais (d) e extrato seco desengordurado (e) do leite de vacas em lactação no rebanho experimental da Savana Amazônica.
Em vacas leiteiras adaptadas a sistemas tropicais, é comum que o volume de leite varie com o ambiente e a dieta, mas a composição química se mantenha mais constante, conforme reportado por Olawale et al. (33), onde menores variações nos componentes do leite foram observadas para as características proteína, lactose e sólidos não gordurosos. O teor de proteína, por exemplo, apresentou leve tendência positiva, sugerindo adequado suprimento de aminoácidos e equilíbrio energético das vacas. A proteína do leite tende a ser mais sensível à nutrição proteica e ao balanço energético do animal do que à temperatura ambiental, o que pode explicar sua estabilidade no rebanho estudado (34). Da mesma forma, o teor de lactose que é o principal regulador do volume de leite produzido, manteve-se constante, o que sugere que não houve alterações marcantes na osmolaridade do leite, nem comprometimento metabólico relevante ao longo do tempo (24). Os sais minerais e o extrato seco desengordurado também apresentaram variações sutis, com tendências praticamente nulas. Esses resultados sugerem constância na composição iônica e na fração sólida não gordurosa, demonstrando que não houve diluição significativa da fração sólida. Isso é um indicativo de ausência de adulteração e manutenção da integridade físico-química do leite, conforme preconizado pelo MAPA (21).
3.2 Estudo 2: Rebanho comercial
3.2.1 Efeito da Localização e da Estação do ano
As estatísticas descritivas e os resultados da análise de variância para os componentes do leite bovino avaliados nos diferentes municípios e estações do ano do estado de Roraima estão apresentados na Tabela 2. Não foi observada interação significativa entre os fatores localidade e estação do ano para as variáveis analisadas (p > 0,05). Observa-se que houve efeito significativo da localidade (p < 0,001) sobre o teor de gordura (%), enquanto a estação do ano não influenciou significativamente essa variável (p = 0,99). O teor médio de gordura foi mais elevado em vacas leiteiras criadas em Boa Vista (3,81 %), seguido por Iracema (3,18 %) e Cantá (2,70 %).
Estatísticas descritivas e resultados da análise de variância (ANOVA) para os componentes do leite bovino no estado de Roraima.
As variações no teor de gordura podem refletir, principalmente, diferenças no manejo alimentar e nas condições ambientais locais. Apesar de não ter sido observado efeito significativo da estação do ano (p = 0,99), Ruiz-Ortega et al. (31) relataram maior teor de gordura na estação chuvosa do que na estação seca em vacas criadas também em ambiente tropical. De modo geral, os resultados sugerem que o teor de gordura no leite reflete mais as particularidades regionais do que o regime pluviométrico, destacando a importância de ajustes de manejo e suplementação específicos para cada localidade. Essa heterogeneidade local reforça a necessidade de assistência técnica voltada à padronização nutricional, especialmente em áreas de menor desenvolvimento produtivo.
Para os demais componentes do leite, foi observado efeito significativo (p < 0,001), tanto da localidade quanto da estação do ano. Entre as localidades, observou-se que o maior teor médio de proteína foi registrado em vacas leiteiras criadas em Iracema (4,79 %), seguido de Boa Vista (3,43 %) e Cantá (3,40 %). Em relação à estação do ano, foram observados maiores teores médios de componentes do leite durante o período seco em comparação ao período chuvoso. Esse comportamento pode estar associado à redução do volume de leite produzido nos meses secos, o que resulta em concentração dos sólidos totais no leite. Além disso, na estação seca, pode ter ocorrido maior uso de alimentação suplementar com concentrados e volumosos conservados (feno e silagem), que contribuem para o aumento da eficiência metabólica e da síntese proteica. Efeitos da estação seca e chuvosa na composição do leite nos trópicos podem ocorrer devido ao tipo de alimentação; leite de baixa qualidade requer ações corretivas focadas no atendimento das demandas nutricionais do rebanho leiteiro, levando em consideração que em condições tropicais há maior variabilidade na disponibilidade de forragem e que o aspecto nutricional é um componente chave para a melhoria da produção (27).
O teor de lactose também apresentou variação entre as localidades, sendo mais elevado em rebanhos leiteiros de Iracema (5,21 %), seguida por Boa Vista (4,80 %) e Cantá (4,75 %). Quando analisada por estação do ano, o teor de lactose foi ligeiramente superior na estação seca (5,04 %) em comparação à estação chuvosa (4,95 %). No caso do teor de sais minerais, verificouse maior concentração também em vacas em lactação de Iracema (0,88 %), seguida de Boa Vista (0,80 %) e Cantá (0,79 %). Similarmente, observou-se maior teor de sais minerais durante a estação seca (0,85 %) em comparação à estação chuvosa (0,83 %). O teor de extrato seco desengordurado apresentou o mesmo padrão observado para os demais constituintes, sendo mais elevado em rebanhos de Iracema (9,89 %), quando comparado a Boa Vista (9,03 %) e Cantá (8,96 %). Em relação às estações do ano, observou-se que o teor de extrato seco desengordurado do leite foi ligeiramente superior durante o período seco (9,54 %) em comparação ao período chuvoso (9,34 %). A continuidade de programas de controle leiteiro, associada à valorização da qualidade do leite, representa um caminho promissor para o fortalecimento sustentável da cadeia produtiva do leite no estado de Roraima. Os resultados reforçam a importância da padronização e qualidade nutricional, além da seleção genética de animais mais adaptados e produtivos, de modo a consolidar sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e compatíveis com as condições edafoclimáticas locais.
4. Conclusão
O rebanho experimental caracteriza-se por baixa produtividade média nas condições tropicais da Savana Amazônica, contudo, apresenta ampla variabilidade fenotípica, indicando potencial para avanços por meio de melhorias no manejo e seleção. A composição do leite é influenciada pela localização geográfica e pela sazonalidade climática, sem interação significativa entre esses fatores. A região de Iracema apresentou maior concentração de sólidos, evidenciando maior potencial para aproveitamento industrial, enquanto Boa Vista se destacou pelo maior teor de gordura. A estação seca demonstrou influência sobre a qualidade do leite. Esses achados evidenciam a importância da adoção de manejo nutricional adequado, da implementação do controle leiteiro sistemático e da seleção genética direcionada às condições climáticas regionais, como estratégias fundamentais para promover melhorias consistentes na produtividade e na qualidade do leite na Savana Amazônica.
Declaração de uso de IA generativa
Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de Inteligência Artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.
Agradecimentos
Ao Departamento de Zootecnia, ao Centro de Ciências Agrárias, à Universidade Federal de Roraima.
Declaração de disponibilidade de dados
Os dados serão fornecidos mediante solicitação ao autor correspondente.
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Rondineli P. Barbero






