Resumo
A Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) é uma condição grave em cães hospitalizados, especialmente quando associada à disfunção orgânica múltipla (MODS), condição que eleva as taxas de mortalidade. Este estudo avaliou 39 cães com triagem de SIRS positivo, com o objetivo de analisar diferentes parâmetros clínicos e laboratoriais como ferramentas prognósticas na triagem inicial. Foram avaliados: hematócrito (≤25 %), contagem de plaquetas (≤200 mil/µL), albumina (≤2,5 g/dL), creatinina (≥1,6 mg/dL), lactato sérico, índice de choque (IC) e as relações neutrófilo-linfócito (RNL) e plaqueta-linfócito (RPL). Os cães foram divididos em três grupos de gravidade: Grupo A (três parâmetros laboratoriais alterados), Grupo B (dois parâmetros alterados) e Grupo C (um parâmetro alterado). A mortalidade foi superior no Grupo A (60 %), seguido do Grupo B (53,8 %) e Grupo C (36,4 %). Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos foram identificadas para hematócrito (p=0,002), plaquetas (p=0,002) e albumina (p=0,014). A análise da curva ROC demonstrou elevada sensibilidade do IC (88,9 %) para predição de óbito. Conclui-se que a avaliação integrada de parâmetros laboratoriais simples e do IC é eficaz na determinação do prognóstico, enquanto a acurácia do lactato admissional isolado e dos índices RNL/RPL pode sofrer influência da natureza estática da coleta e do tamanho amostral.
Palavras-chave:
Prognóstico; Síndrome da resposta inflamatória sistêmica; triagem clínica.
Abstract
Systemic Inflammatory Response Syndrome (SIRS) is a severe condition in hospitalized dogs, particularly when associated with multiple organ dysfunction syndrome (MODS), which is linked to increased mortality. This study included 39 dogs meeting SIRS criteria, aiming to evaluate clinical and laboratory parameters as prognostic tools at admission. The following variables were analyzed: hematocrit (≤25 %), platelet count (≤200,000/µL), albumin (≤2.5 g/dL), creatinine (≥1.6 mg/ dL), serum lactate, shock index (SI), neutrophil-to-lymphocyte ratio (NLR), and platelet-to-lymphocyte ratio (PLR).Dogs were stratified into three groups according to disease severity: Group A (three abnormal laboratory parameters), Group B (two abnormal parameters), and Group C (one abnormal parameter). Mortality was highest in Group A (60 %), followed by Group B (53.8 %) and Group C (36.4 %). Statistically significant differences were observed among groups for hematocrit (p = 0.002), platelet count (p = 0.002), and albumin (p = 0.014).ROC curve analysis demonstrated high sensitivity of the shock index (88.9 %) for predicting mortality. The integrated assessment of simple laboratory parameters and the shock index was useful for risk stratification, whereas the predictive performance of admission lactate and NLR/PLR when evaluated in isolation was limited, possibly influenced by the static nature of measurement and sample size.
Keywords:
Prognosis; systemic inflammatory response syndrome; clinical triage.
1. Introdução
A síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) e a sepse são condições clínicas graves encontradas nos centros de internação veterinários, estando associadas a elevadas taxas de mortalidade, especialmente quando evoluem para a Síndrome da Disfunção Orgânica Múltipla (MODS), envolvendo um ou mais sistemas do organismo (1, 2) .
Estudos em medicina veterinária descrevem taxas de mortalidade variáveis para a SIRS, oscilando entre 20 % e 68 % (3), podendo ultrapassar 70 % quando associada à MODS (4, 5).Esse elevado índice de óbito decorre, majoritariamente, do diagnóstico tardio e da progressão exacerbada da cascata inflamatória e disfunção endotelial (5 ,6).
Desde a publicação do consenso Sepsis-3, em 2016, os escores SOFA (Sequential Organ Failure Assessment) e qSOFA (Quick Sequential Organ Failure Assessment) foram introduzidos como ferramentas de triagem na medicina humana, com o objetivo de identificar precocemente disfunções nos tecidos (7). Esses escores baseiam-se na avaliação integrada de seis sistemas orgânicos: (respiratório, hematológico, hepático, cardiovascular, sistema nervoso central e renal), sendo que escores mais elevados estão relacionados a um pior prognóstico (6, 8).
Entretanto, a aplicação dessas ferramentas na medicina veterinária apresenta limitações significativas. A escassez de estudos que validem o uso do SOFA e qSOFA em pequenos animais compromete sua confiabilidade em pacientes veterinários. Além disso, restrições estruturais frequentes na prática clínica veterinária, como a dificuldade de obtenção da relação PaO2/FiO2 para avaliação da função respiratória, limitam a aplicabilidade desses instrumentos na rotina hospitalar veterinária (9-11).
Diante das limitações estruturais para a aplicação de escores complexos na rotina veterinária, o presente estudo objetivou avaliar a disfunção sistêmica em cães críticos através da integração de parâmetros clínicos e laboratoriais acessíveis. Diferente de análises isoladas, buscou-se a avaliação conjunta de múltiplos sistemas como ferramentas de triagem prognóstica(4, 12).
2. Material e métodos
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais, sob protocolo 027/2023, garantindo a adequação ética e o bem-estar dos animais envolvidos.
Foram incluídos 39 cães (18 machos e 21 fêmeas), de diferentes raças e idades (entre três meses e 18 anos), atendidos sob regime de internação veterinária. Os cães foram incluídos com base na presença dos critérios clínicos e hematológicos da Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS), apresentados na Tabela 1, sendo classificados como portadores de SIRS quando apresentaram dois ou mais parâmetros alterados, conforme as diretrizes do consenso Sepsis-3 e as recomendações de Harvey (13), Rabelo (9) e Cortellini et al.(10).
Os dados clínicos foram obtidos a partir das fichas médicas dos pacientes fornecidas pelo veterinário clínico responsável. As doenças de base foram categorizadas em infecciosas, reprodutivas, traumáticas, imunomediadas e neoplasias. Foram mensurados os níveis de lactato (>1 mmol/L) e aplicado o escore de Glasgow(≤17).
Para a estratificação da gravidade, os animais foram distribuídos em três grupos (A, B e C) com base no somatório de alterações nos seguintes parâmetros: creatinina (≥1,6 mg/dL), albumina (≤2,5 g/dL), plaquetas (≤200 mil/µL) e hematócrito (≤25 %) (9, 14).
-
Grupo A (alta gravidade): 15 cães apresentando três parâmetros laboratoriais alterados.
-
Grupo B (gravidade moderada): 13 cães com dois parâmetros laboratoriais alterados.
-
Grupo C (baixa gravidade): 11 cães com apenas um parâmetro laboratorial alterado.
2.1 Análise laboratorial
As amostras de sangue total venoso periférico foram coletadas da veia jugular ou cefálica, em tubos contendo EDTA K₁ (0,5 mL) e em tubos sem anticoagulante para análise bioquímica (1 mL), seguindo protocolos de antissepsia com álcool a 70 %. Todas as amostras foram refrigeradas e analisadas em até duas horas após a coleta. A partir do sangue total, confeccionaram-se extensões sanguíneas em lâminas de vidro, coradas pelo método de May-Grünwald/Giemsa (New Prov®).
A contagem de eritrócitos, hemoglobina, leucócitos totais e plaquetas foi realizada em analisador automatizado (BC-2200 Vet, Mindray®), e os índices hematimétricos (VCM, HCM e CHCM) foram calculados conforme descrito por Weiss & Wardrop (14).
O hematócrito foi confirmado pela técnica de microhematócrito, com centrifugação a 11.000 rpm por 5 minutos (Fanem®, modelo Excelsa Flex 3400) e leitura em cartão específico. A proteína plasmática total foi mensurada com refratômetro manual (Kasvi®).
Nas lâmina coradas, realizou-se à contagem diferencial de leucócitos, avaliação morfológica de neutrófilos, análise qualitativa de eritrócitos e contagem plaquetária estimada, segundo Stockham & Scott (15), utilizando objetiva de imersão (100x) em microscópio óptico (Olympus BX41®).
As amostras de sangue total coletadas em tubo sem anticoagulante, foram centrifugadas a 4.000 rpm por 5 minutos, em centrífuga de bancada (Hoffmann®, modelo HCL-4), para obtenção do soro. As análises bioquímicas foram realizadas em analisador automático (Mindray®, modelo BS200), utilizando kits comerciais da marca Bioclin®. O lactato sérico e a creatinina foram determinados por método cinético, enquanto a a albumina foi mensurada pelo método monoreagente com bromocresol verde. Todos os procedimentos seguiram as instruções dos kits comerciais.
Além dos índices derivados, foram considerados para análise os valores absolutos de leucócitos totais, neutrófilos segmentados e linfócitos, os quais foram utilizados para comparação entre os grupos e avaliação da associação com os desfechos clínicos.
Para o cálculo da relação neutrófilos segmentados/linfócitos (RNL), seguiu-se o método descrito por Jager et al. (12), dividindo-se o número absoluto de neutrófilos segmentados pelo número absoluto de linfócitos circulantes. Já para o cálculo da relação plaquetas/linfócitos (RPL), a contagem absoluta de plaquetas foi dividida pela contagem absoluta de linfócitos no sangue periférico(16, 17).
2.2 Análise clínica
O índice de choque foi determinado utilizando-se a razão dos valores da frequência cardíaca (bpm) e da pressão arterial sistólica (mmHg) (IC=FC/PAS), no dia 0, previamente antes da coleta de sangue venoso, conforme descrito por Balhara et al. (17). A frequência cardíaca foi avaliada por meio da auscultação cardíaca com estetoscópio, enquanto a pressão arterial sistólica foi medida em equipamento Doppler e esfigmomanômetro veterinário adequado para peso e espécie.
2.3 Análise estatística
Foram calculadas médias, medianas, desvios padrão, mínimo e máximo. Comparações entre grupos A, B e C, bem como entre G1 e G2, foram realizadas utilizando ANOVA de um fator para variáveis paramétricas e teste de Kruskal-Wallis para variáveis não paramétricas. O nível de significância adotado foi p<0,05. Já a taxa de mortalidade foi calculada pela frequência relativa de óbitos no período observado.
Para avaliar a acurácia diagnóstica e o potencial prognóstico dos marcadores hemodinâmicos (lactato sérico e índice de choque) em relação ao desfecho (óbito ou sobrevivência), foi utilizada a análise da Curva ROC (Receiver Operating Characteristic). A performance global dos testes foi determinada pela Área Sob a Curva (AUC). Os pontos de corte (cut-offs) otimizados para a presente amostra foram identificados através do Índice de Youden, estabelecendo-se os valores de sensibilidade e especificidade correspondentes, essas análises foram realizadas no software Jamovi (versão 2.3).
3. Resultados e discussão
Quando comparado os três grupos do estudo, verificou-se que a taxa de mortalidade foi de 60 % no Grupo A (animais com os três parâmetros laboratoriais alterados), 53,8 % no Grupo B (animais com dois parâmetros alterados) e 36,4 % no Grupo C (animais com apenas um parâmetro alterado), demonstrando assim, um aumento progressivo da mortalidade conforme a gravidade clínica. Esse comportamento é compatível com o descrito na literatura, na qual pacientes com SIRS e disfunção orgânica apresentam maiores taxas de óbito à medida que múltiplos sistemas são comprometidos (2, 3).
Observou-se uma maior incidência de causas infecciosas e reprodutivas (piometra) em todos os grupos, correspondendo a 66,66 % da amostra total. Essa distribuição reforça o papel dos focos infecciosos como principais desencadeadores da SIRS na clínica de pequenos animais.
O Grupo A, que apresentou maior taxa de mortalidade (60 %) e maior média de idade (6,73 anos), concentrou uma maior incidência de hemoparasitoses severas, piometras e traumas extensos (lacerações com miiase), sugerindo, que possivelmente a disfunção orgânica (MODS) já se encontrava estabelecida no momento da triagem inicial. Embora a média de idade tenha se mantido constante entre os grupos (variando de 5,0 a 6,7 anos), a amostra apresentou extremos etários significativos, refletindo a natureza variada da SIRS na clínica de pequenos animais, sendo reconhecida como uma possível consequência comum a múltiplas afecções com diferentes mecanismos fisiopatológicos e prognósticos (11, 18). Nesse contexto, o prognóstico não depende exclusivamente da resposta frente a cascata inflamatória, mas das características individuais do paciente.
Por exemplo, doenças infecciosas agudas, como a parvovirose, observadas principalmente em pacientes jovens, estão associadas a evolução rápida e elevada mortalidade devido à desidratação grave, sepse secundária e translocação bacteriana (7, 19, 20). Em contraste, nos casos de neoplasias e metástases, a SIRS está associada devido a um estado de inflamação crônica unida à progressão da doença, frequentemente com caráter irreversível (20, 21).
A diferença etiológica e etária constitui uma limitação importante deste estudo, uma vez que o prognóstico pode variar significativamente conforme a doença de base e aos fatores intrínsecos de cada cão. Pacientes geriátricos com SIRS secundária a trauma, por exemplo, apresentam menor capacidade de resposta frente ao estresse sistêmico, enquanto pacientes jovens com doenças infecciosas agudas podem evoluir rapidamente em função da virulência do agente etiológico, apesar de maior reserva funcional (11, 20).
Nesse cenário, os marcadores prognósticos avaliados, como lactato, albumina e índice de choque, devem ser interpretados como indicadores da gravidade sistêmica no momento da avaliação, refletindo o estado de perfusão e a intensidade da resposta inflamatória. No entanto, seu valor prognóstico deve ser contextualizado considerando a doença base e as condições individuais de cada paciente. Em condições potencialmente reversíveis, como traumas e infecções agudas, esses parâmetros são úteis na orientação da ressuscitação volêmica e monitoramento clínico (11). Por outro lado, em processos crônicos ou irreversíveis, como neoplasias avançadas, podem refletir a progressão do quadro, independentemente das intervenções terapêuticas (20).
A distribuição das etiologias e o perfil etário dos pacientes de acordo com os grupos de gravidade encontram-se detalhados na Tabela 2.
No presente estudo, a maioria dos cães avaliados apresentaram níveis séricos de lactato acima de 3 mmol/L, destacando assim a hiperlactatemia como um marcador de perfusão inadequada, bem como seu papel como biomarcador na triagem da SIRS (6, 22, 23). O Grupo A, com valores médios de lactato (4,25 mmol/L), apresentou uma maior taxa de mortalidade, sugerindo associação entre hiperlactatemia persistente e pior desfecho clínico, conforme descrito previamente em cães críticos (22, 23).
Em relação ao Índice de Choque (IC), observou-se que, embora as diferenças entre os grupos tenham sido discretas, todos apresentaram valores médios superiores a 1, compatíveis com comprometimento hemodinâmico. Estudos em cães críticos revelaram que valores elevados de IC estão associados a maior mortalidade, refletindo disfunção circulatória e perfusão inadequada (17, 24). Além disso, os achados do presente estudo estão em concordância com Berger et al.(24), ao afirmar que a associação entre IC elevado e hiperlactatemia potencializa o risco de óbito, uma vez que, ao se avaliar o desfecho clínico (óbito versus alta) no atual estudo, o IC apresentou diferença estatisticamente significativa (p = 0,038), reforçando sua utilização como marcador precoce de disfunção circulatória e prognóstico adverso, especialmente quando valores próximos ou superiores a 2 são observados em pacientes graves, em concordância com achados prévios(17, 24).
No entanto, quando avaliados de forma isolada, ambos os parâmetros apresentaram capacidade de avaliação limitada na identificação da mortalidade. A análise por curva ROC revelou uma área sob a curva (AUC) de 0,646 para o Índice de Choque e de 0,467 para o lactato sérico. No ponto de corte de 1,12, o IC demonstrou elevada sensibilidade (88,9 %), porém com baixa especificidade (44,4 %). Para o lactato, o ponto de corte de 2,2 mmol/L apresentou sensibilidade de 77,8 % e especificidade de 33,3 %. É importante ressaltar que os valores de lactato obtidos neste estudo representam uma avaliação estática no momento da admissão (dia 0). O monitoramento dinâmico permite avaliar a resposta terapêutica e a restauração da perfusão tecidual. O gráfico da curva ROC está ilustrado na Figura 1.
Curvas ROC do índice de choque (IC) e do lactato sérico na predição de mortalidade em cães com SIRS.
Ao analisar os grupos pelo número de parâmetros laboratoriais alterados, observou-se diferença estatisticamente significativa entre os grupos A, B e C para os valores de hematócrito (p = 0,002), contagem de plaquetas (p = 0,002) e albumina sérica (p = 0,014), indicando maior comprometimento hematológico e inflamatório nos animais classificados como de maior gravidade. Esses achados reforçam o caráter multissistêmico da SIRS e da MODS em cães críticos (10, 19, 20). Foi realizada uma análise pós-hoc para o hematócrito, a qual demonstrou diferença significativa entre os Grupos A e C tanto para hematócrito quanto para albumina. Entre os Grupos B e C, apenas o hematócrito apresentou diferença significativa, não sendo observada diferença entre os Grupos A e B. Do ponto de vista clínica, o hematócrito apresenta maior capacidade discriminatória entre pacientes de baixa gravidade e aqueles com disfunção sistêmica estabelecida, mas menor sensibilidade para diferenciar graus mais avançados de comprometimento clínico. Os valores de hematócrito, plaquetas e albumina estão demonstrados nas Figuras 2,3 e 4, respectivamente.
A redução dos valores de hematócrito observada nos grupos de maior gravidade pode estar relacionada a mecanismos como hemodiluição, anemia da inflamação, consumo periférico e alterações da eritropoiese, processos já descritos em pacientes críticos e sépticos (14,15, 25, 26).
Da mesma forma, a trombocitopenia observada nos animais mais graves pode refletir consumo plaquetário e disfunção endotelial. Cães pertencentes ao Grupo C (menor gravidade), que apresentaram valores de plaquetas dentro da faixa de referência, evoluíram de forma clínica favorável, corroborando a relevância desse parâmetro durante a triagem, uma vez que a trombocitopenia está relacionada a pior prognóstico em cães com sepse (1, 13, 27, 28).
A hipoalbuminemia, por sua vez, tem sido descrita como um importante marcador de gravidade e mortalidade em pacientes hospitalizados, atuando como uma proteína de fase aguda negativa (9, 29). Sua redução no cenário da SIRS reflete não apenas a intensidade da resposta inflamatória sistêmica e o aumento da permeabilidade vascular, mas também o redirecionamento da síntese proteica hepática em resposta às citocinas pró-inflamatórias (como IL-1 e IL-6), resultando em pior prognóstico (9,29, 30,31). A análise da albumina sérica demostrou que cães com concentrações superiores a 2,5 g/dL (Grupo C) tiveram menor mortalidade, enquanto os Grupos A e B, com hipoalbuminemia, apresentaram maiores taxas de óbito. Esses achados reforçam a importância da avaliação integrada de parâmetros laboratoriais simples e amplamente disponíveis como ferramentas auxiliares na estratificação de risco e no prognóstico de cães com SIRS e MOD(8, 10).
Apesar de não ter sido observada diferença estatisticamente significativa nos níveis séricos de creatinina entre os grupos, a análise descritiva demonstrou uma tendência de aumento progressivo desse parâmetro conforme a gravidade clínica, com maiores médias observadas no Grupo A. Essa ausência de significância estatística pode estar relacionada ao tamanho amostral reduzido, à capacidade compensatória renal nas fases iniciais da síndrome além das limitações da creatina como marcador de função renal, cuja elevação ocorre apenas após redução significativa da taxa de filtração glomerular, podendo permanecer dentro dos valores de referência nas fases iniciais da disfunção. Além disso, mecanismos compensatórios renais podem mascarar alterações precoces, especialmente em pacientes críticos (6, 29).
Nesse contexto, estudos recentes sugerem que biomarcadores urinários apresentam maior sensibilidade na detecção precoce de lesão renal aguda em cães, podendo identificar alterações antes do aumento da creatinina sérica (29).Esses achados indicam que a creatinina, embora amplamente utilizada, possui limitações como marcador isolado na identificação precoce de disfunção renal em pacientes com SIRS.
Os achados deste estudo indicam que albumina, plaquetas e hematócrito podem atuar como marcadores prognósticos úteis em cães com SIRS, refletindo a extensão da disfunção orgânica (MODS). A Tabela 3 traz uma análise descritiva dos valores de hematócrito, plaquetas, albumina e creatinina.
Análise dos valores de hematócrito (%), plaquetas (mil/µL), albumina (g/dL) e creatinina (mg/ dL) em cães dos grupos A (três parâmetros alterados), B (dois parâmetros alterados) e C (um parâmetro alterado). Letras distintas na mesma linha indicam diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p < 0,05).
A análise dos valores médios de leucócitos, neutrófilos e linfócitos totais, assim como os índices RPL ( Relação Plaqueta Linfócito) e RNL (Relação Neutrófilo Linfócito), entre os diferentes grupos e desfechos clínicos (alta ou óbito) não revelou diferenças estatisticamente significativas. É provável que a ausência de significância reflita um baixo poder estatístico da amostra (erro tipo II). Além disso, deve-se considerar que muitos pacientes críticos são encaminhados após manejos prévios como o uso de corticosteroides e a fluidoterapia, podendo assim mascarar a resposta leucocitária e plaquetária inicial, interferindo diretamente no cálculo desses índices na triagem(16, 33).
Apesar dessas limitações, a avaliação dos índices RNL e RPL representa uma abordagem promissora na medicina intensiva veterinária, onde os estudos ainda são escassos (16, 34). Concorda-se com Macfarlane et al. (34). ao afirmar que a mensuração do RNL pode ser mais útil do que a contagem isolada de células, por integrar a resposta inflamatória sistêmica. No entanto, sua aplicabilidade prognóstica em populações heterogêneas com SIRS ainda carece de validação em estudos com maior tamanho amostral. Na Tabela 4 está apresentada a análise descritiva dos parâmetros laboratoriais avaliados (lactato, IC, RPL e RNL) nos três grupos.
Análise descritiva dos valores de Lactato (mol/L), IC, RPL e RNL nos cães dos grupos: A (três parâmetros alterados),B (dois parâmetros alterados) e C (um parâmetro alterado).
A literatura destaca a complexidade da disfunção orgânica em pequenos animais e a necessidade de mecanismos de triagem de diagnósticos integrativos, como revisado por Cortellini et al. (10). Assim, a avaliação combinada de múltiplos parâmetros clínicos e laboratoriais, associada a indicadores como lactato >3 mmol/L e índice de choque >1,0, mostrou-se mais eficiente para estimar o risco de óbito do que a análise isolada de variáveis individuais.
4. Conclusão
A avaliação integrada de parâmetros laboratoriais simples (hematócrito, contagem de plaquetas e albumina sérica), associada ao monitoramento do lactato sérico e do índice de choque (IC), demonstrou utilidade na triagem e na predição do desfecho clínico de cães com SIRS. A identificação de um maior número de parâmetros alterados, especialmente quando associada a valores elevados de lactato e IC, esteve relacionada a maior risco de mortalidade. Por outro lado, nesta casuística, as relações RNL e RPL não se mostraram preditores isolados de óbito. A utilização conjunta desses marcadores hemodinâmicos e laboratoriais configura uma ferramenta acessível para a estratificação precoce de risco em pacientes críticos.
Declaração de uso de IA generativa
Os autores não utilizaram ferramentas ou tecnologias de Inteligência Artificial generativa na criação ou edição de qualquer parte deste manuscrito.
Declaração de disponibilidade de dados
O conjunto completo de dados que suporta os resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.
Referências bibliográficas
- 1 Stanzani G, Otto C. Shock. In: Tobias KM, Johnston SA, editors. Veterinary surgery: small animal. St. Louis: Elsevier; 2012. p. 73-93.
-
2 Bentley AM, Otto CM, Shofer FS. Comparison of dogs with septic peritonitis: 1988-1993 versus 1999-2003. J Vet Emerg Crit Care. 2007;17(4):391-398. doi: https://doi.org/10.1111/j.1476-4431.2007.00251.x
» https://doi.org/10.1111/j.1476-4431.2007.00251.x -
3 Kenney EM, Rozanski EA, Rush JE, DeLaforcade AM. Association between outcome and organ system dysfunction in dogs with sepsis: 114 cases (2003-2007). J Am Vet Med Assoc. 2010;236:83-87. doi: https://doi.org/10.2460/javma.236.1.83
» https://doi.org/10.2460/javma.236.1.83 -
4 Machado FR, Cavalcanti AB, Bozza FA, et al. The epidemiology of sepsis in Brazilian intensive care units (SPREAD study): an observational study. Lancet Infect Dis. 2017;17(11):1180-1189. doi: https://doi.org/10.1016/S14733099(17)30322-5
» https://doi.org/10.1016/S14733099(17)30322-5 -
5 Liu B, Chen Y, Zhang Y, Li J, Zhang H. Developing a new sepsis screening tool based on lymphocyte count, international normalized ratio and procalcitonin (LIP score). Sci Rep. 2022;12(1):20002. doi: https://doi.org/10.1038/s41598-022-16744-9
» https://doi.org/10.1038/s41598-022-16744-9 -
6 Vincent JL. Clinical sepsis and septic shock-definition, diagnosis and management principles. Langenbecks Arch Surg. 2008;393(6):817-824. doi: https://doi.org/10.1007/s00423-008-0343-1
» https://doi.org/10.1007/s00423-008-0343-1 -
7 Kalogianni L, Daskalakis M, Papazoglou LG. The role of the sequential organ failure assessment score in evaluating the outcome in dogs with parvoviral enteritis. Res Vet Sci. 2022;150:44-51. doi: https://doi.org/10.1016/j.rvsc.2022.05.014
» https://doi.org/10.1016/j.rvsc.2022.05.014 -
8 Raith EP, Udy AA, Bailey M, McGloughlin S, MacIsaac C, Bellomo R, et al. Prognostic accuracy of the SOFA score, SIRS criteria, and qSOFA score for in-hospital mortality among adults with suspected infection admitted to the intensive care unit. JAMA. 2017;317(3):290-300. doi: https://doi.org/10.1001/jama.2016.20328
» https://doi.org/10.1001/jama.2016.20328 - 9 Rabelo RC. Emergências de pequenos animais: condutas clínicas e cirúrgicas no paciente grave. Rio de Janeiro: Elsevier; 2012. Chap. 20, p. 451-473.
-
10 Cortellini S, Pelligand L, Seth M, et al. Defining sepsis in small animals. J Vet Emerg Crit Care. 2024;34(2):97-109. doi: https://doi.org/10.1111/vec.13359
» https://doi.org/10.1111/vec.13359 - 11 Silverstein DC, Hopper K. Small Animal Critical Care Medicine. 2nd ed. St. Louis: Elsevier Saunders; 2015.
-
12 Jager A, van der Poll T, Wiersinga WJ. The neutrophil-lymphocyte count ratio in patients with community-acquired pneumonia. PLoS One. 2012;7(10):e46561. doi: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0046561
» https://doi.org/10.1371/journal.pone.0046561 - 13 Harvey JW. Veterinary hematology: a diagnostic guide and color atlas. St. Louis: Saunders; 2012.
- 14 Weiss DJ, Wardrop KJ. Schalm’s veterinary hematology. 6th ed. Ames: Wiley-Blackwell; 2010.
- 15 Stockham SL, Scott MA. Fundamentals of veterinary clinical pathology. 2nd ed. Ames: Wiley-Blackwell; 2011.
-
16 Navarro PF, Monroig M, Gil-Vicente L.Reference intervals for hematological inflammatory ratios in healthy dogs. Animals (Basel). 2025;15(23):3376. doi: https://doi.org/10.3390/ani15233376
» https://doi.org/10.3390/ani15233376 -
17 Balhara KS, Sterling SA, Jones AE, Levy PD. Clinical metrics in emergency medicine: the shock index and the probability of hospital admission and inpatient mortality. Emerg Med J. 2017;34(2):89-94. doi: https://doi.org/10.1136/emermed-2015-205532
» https://doi.org/10.1136/emermed-2015-205532 - 18 Otto CM, Silverstein DC. Small Animal Critical Care Medicine. 2nd ed. St. Louis: Elsevier; 2015.
-
19 Goddard A, Leisewitz AL. Canine parvovirus. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2010;40(6):1041-1053. doi: https://doi.org/10.1016/j.cvsm.2010.07.007
» https://doi.org/10.1016/j.cvsm.2010.07.007 -
20 Argilés JM, Busquets S, Stemmler B, López-Soriano FJ. Cancer cachexia: understanding the molecular basis. Nat Rev Cancer. 2014;14(11):754-762. doi: https://doi.org/10.1038/nrc3829
» https://doi.org/10.1038/nrc3829 - 21 De Laforcade A. Systemic inflammatory response syndrome and the multiorgan dysfunction syndrome. In: Silverstein DC, Hopper K, editors. Small animal critical care medicine. 2nd ed. St. Louis: Elsevier Saunders; 2015. p. 25-29.
-
22 Rosenstein PG, Tennent-Brown BS, Hughes D. Clinical use of plasma lactate concentration in dogs and cats. J Vet Emerg Crit Care (San Antonio). 2018;28(2):85-105. doi: https://doi.org/10.1111/vec.12706
» https://doi.org/10.1111/vec.12706 -
23 Pang DSJ, Boysen SR. Lactate in veterinary critical care: pathophysiology and management. J Am Anim Hosp Assoc. 2007;43(5):270-279. doi: https://doi.org/10.5326/0430270 PMID:17823476
» https://doi.org/10.5326/0430270 -
24 Berger T, Green J, Horeczko T, Hagar Y, Garg N, Suarez A, et al. Shock index and early recognition of sepsis in the emergency department: pilot study. West J Emerg Med. 2013;14(2):168-174. doi: https://doi.org/10.5811/westjem.2012.8.11546
» https://doi.org/10.5811/westjem.2012.8.11546 -
25 Chikazawa S, Dunning MD. A review of anaemia of inflammatory disease in dogs and cats. J Small Anim Pract. 2016;57(8):390-397. doi: https://doi.org/10.1111/jsap.12498 PMID:27385622
» https://doi.org/10.1111/jsap.12498 -
26 Grimes CN, Fry MM. Nonregenerative anemia: mechanisms of decreased or ineffective erythropoiesis. Vet Pathol. 2015;52(2):298-311. doi: https://doi.org/10.1177/0300985814529315
» https://doi.org/10.1177/0300985814529315 -
27 Boechat TO, Carvalho FB, Leite HP. Trombocitopenia na sepse: um importante marcador prognóstico. Rev Bras Ter Intensiva. 2012;24(1):35-42. doi: https://doi.org/10.1590/S0103-507X2012000100006
» https://doi.org/10.1590/S0103-507X2012000100006 -
28 Vincent JL, Yagushi A, Pradier O. Platelet function in sepsis. Crit Care Med. 2002 May;30(5 Suppl):S313-S317. doi: https://doi.org/10.1097/00003246-200205001-00022 PMID:12004253
» https://doi.org/10.1097/00003246-200205001-00022 -
29 Segev G, Daminet S, Meyer E, De Loor J, Cohen A, Aroch I, et al. Characterization of kidney damage using several renal biomarkers in dogs with naturally occurring heatstroke. Vet J. 2015;206(2):231-235. doi: https://doi.org/10.1016/j.tvjl.2015.07.004
» https://doi.org/10.1016/j.tvjl.2015.07.004 -
30 Petersen HH, Nielsen JP, Heegaard PMH. Application of acute phase protein measurements in veterinary clinical chemistry. Vet Res. 2004;35:163-187. doi: https://doi.org/10.1051/vetres:2004002
» https://doi.org/10.1051/vetres:2004002 -
31 Conner BJ. Treating hypoalbuminemia. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2017;47(2):451-459. doi: https://doi.org/10.1016/j.cvsm.2016.09.009
» https://doi.org/10.1016/j.cvsm.2016.09.009 - 32 Mathews KA. Veterinary emergency and critical care manual. 2nd ed. Guelph (ON): Lifelearn; 2006.
-
33 Neumann S. Neutrophil-to-lymphocyte and platelet-to-lymphocyte ratios in dogs and cats with acute pancreatitis. Vet Clin Pathol. 2021;50(1):45-51. doi: https://doi.org/10.1111/vcp.12979
» https://doi.org/10.1111/vcp.12979 -
34 Macfarlane L, Morris J, Pratschke K, Mellor D, Scase T, Macfarlane M, McLauchlan G. Diagnostic value of neutrophil-lymphocyte and albumin-globulin ratios in canine soft tissue sarcoma. J Small Anim Pract. 2016;57(3):135-141. doi: https://doi.org/10.1111/jsap.12435
» https://doi.org/10.1111/jsap.12435
Editado por
-
Editor:
Luiz Augusto B. Brito








