Open-access Uma banca à beira-mar: problematizações sobre Educação Matemática

A beachside examination Board: Problematics on Mathematics Education

Resumo

Um professor convida dois amigos, que foram seus orientadores de mestrado e doutorado, para uma atividade incomum: compor uma banca com a finalidade de ajudá-lo a compreender como as duas pesquisas desenvolvidas sob a orientação de cada um deles, de campos diferentes da Educação Matemática, poderiam se aproximar teórico e metodologicamente. Apesar de improvável, os amigos topam o encontro e os três realizam a banca à beira mar. Conversam sobre pesquisa em Etnomatemática, Cartografia, etnografia, conceitos freireanos, tais como opressor-oprimido, educação libertadora; Educação Inclusiva, diversidade e diferença; rizomas, sistemas arborescentes, máquinas de guerra nômade, aparelhos de estado, poder disciplinar, normalização, ética foucaultiana, dentre outras coisas.

Etnomatemática; Educação Inclusiva; Filosofia da Diferença

Abstract

A professor invites two friends, who were his master's and doctoral advisors, to an unusual activity: to form a committee with the purpose of helping him understand how the two research projects developed under their guidance, which are from different fields of Mathematics Education, could approach each other theoretically and methodologically. Despite being unlikely, the friends agreed, and the three of them held the committee by the seaside. They discussed research in Ethnomathematics, Cartography, ethnography, Freirean concepts such as oppressor-oppressed, liberating education; Inclusive Education, diversity and difference, rhizomes, arboreal systems, nomadic war machines, apparatuses of the state, disciplinary power, normalization, Foucauldian ethics, among other things.

Ethnomathematics; Inclusive Education; Philosophy of Difference

Após a pandemia, com a morte batendo às nossas portas, comecei a ter a ideia fixa de reencontrar pessoas importantes para mim. Desde então, me organizo para visitar amigos e parentes.

Dentre essas pessoas estão dois amigos, meus orientadores (eles nunca deixam de ser nossos orientadores) do mestrado e do doutorado, Pedro Paulo Scandiuzzi e Antonio Carlos Carrera de Souza. Queria reencontrá-los, mas uma visita em suas casas não seria o bastante, não sabia exatamente o que poderia ser, mas buscava algo tão significativo como a foi a experiência de tê-los em minha formação no Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática da UNESP de Rio Claro.

Ao final de uma banca de doutorado em que eu estava como como avaliador, o candidato expressou a preocupação em ter feito mestrado em uma área, aparentemente, distinta da que ele se encontrava. Tentei tranquilizá-lo dizendo que essa situação tinha se apresentado a mim, pois tinha feito mestrado no campo da Etnomatemática1 e doutorado no da Filosofia da Diferença2, mas que após a conclusão do doutoramento havia conseguido encontrar aproximações entre as duas áreas.

Peguei a estrada de volta com essa questão na cabeça, satisfeito por estar conseguindo aproximar questões dos dois trabalhos, mas também com a dúvida: será que essas conexões são pertinentes? Quanto do desejo que elas aconteçam estariam influenciando minha análise?

Percorrer um trajeto por várias horas é cansativo, mas também nos dá tempo para pensar e caraminholar inverossimilhanças. Em meio a pensamentos ordinários, as dúvidas sobre a conexão entre as minhas pesquisas reapareciam, tive vontade de voltar a ser estudante e consultar meus orientadores sobre essas aproximações. Enquanto viajava – pela estrada e pela imaginação – divagava uma banca formada por eles dois, que depois de lerem a dissertação e a tese, fariam reflexões de como as pesquisas se conectavam.

A cena da banca imaginada não saía da cabeça, além de um exercício acadêmico muito interessante, seria muito prazeroso reencontrar Pedro Paulo e Carrera. Comecei a me indagar se eles topariam, seria um encontro entre amigos. Me lembrei que Pedro Paulo mora numa cidade do interior de São Paulo e Carrera no litoral. Ponderei que o encontro seria possível se o convite fosse para batermos um papo.

Após chegar a essa ideia insólita, decidi falar com ambos, apresentei a ideia para ver o que achavam, para minha surpresa aceitaram prontamente, de lambuja Carrera nos convidou para ir até o litoral. A possibilidade de fazer esse encontro à beira da praia nos deixou ainda mais motivados. Acertamos a data, mandei os textos com antecedência e organizamos o encontro.

Assim como no mestrado, em que Pedro Paulo e eu íamos juntos à Rio Claro, sai de carro de Mato Grosso do Sul, passei na casa do Pedro Paulo e partimos para encontrar com o Carrera. Durante essa viagem Pedro e eu colocamos a conversa em dia, falamos sobre alguns parentes que temos em comum, sobre seu sítio, sobre meus filhos, sobre o período que ele ficou entubado por conta do COVID, relembramos as muitas coisas que passamos no tempo do mestrado. Não tocamos no assunto da banca.

Chegamos ao litoral no final da tarde e seguimos para o apartamento do Carrera. Chegando lá nos acomodamos no quarto de visitas e fomos jantar. Apesar do cansaço, foi um jantar muito divertido. Conversamos sobre muitas coisas, relembramos episódios na PGEM, etc. Carrera adiantou que no outro dia de manhã iriamos até um quiosque à beira da praia para realizar a banca.

***

No outro dia, de bermuda e chinelos, partimos para beira mar. Conseguimos uma mesa redonda de bom tamanho, com espaço para colocar todo o material. Levei meu notebook, Carrera seu iPad e Pedro os textos impressos, conseguimos uma tomada de energia e rede wifi. Apesar da praia pedir uma bebida refrescante, como era cedo e o tempo fresco, pedimos café para todos. Tínhamos conversado bastante no dia anterior, mas não tocamos no assunto da banca e também não havíamos combinado como iríamos conduzi-la.

Vendo minha hesitação Pedro Paulo comentou que poderíamos ir seguindo o fluxo de assuntos que fossem sendo levantados, Carrera e eu concordamos. Pedro Paulo iniciou:

- Fui ler sua tese3e levei um susto! Você escreveu um jornal? Pode isso? Como a academia aceitou? Além disso, deve ter dado muito trabalho para formatar.

- Então Pedro, deu bastante trabalho para formatar, foi tudo feito no word mesmo, mas lembra que na nossa dissertação4a professora Maria Teresa Mantoan também sugeriu uma formatação em que parte do texto era organizado em duas colunas, onde, por exemplo, numa coluna vinha excertos do Caderno de Campo e na outra, sincronicamente, a análise? Na verdade, a dissertação já não foi feita dentro do modelo acadêmico tradicional.

- Sim, mas a escrita ainda era acadêmica. Na sua tese você escreve como jornalista, como antropólogo, como contista... Mas, apesar do susto inicial, gostei muito da leitura.

Carrera, rodando o texto da tese no iPad comentou:

- Pedro, os trabalhos desenvolvidos no nosso grupo acompanham uma linha, que muita gente categoriza como pós-estruturalista ou pós-modernista – mas toda categorização é perigosa -, que entende que a potência de um texto é expressada, também, por sua forma. A complexidade da realidade não se encaixa na forma tradicional do texto acadêmico. A realidade é rizomatica e o texto acadêmico tradicional é arborescente, as coisas não se encaixam. Então, entendemos que um texto com aptidão rizomática pode dar conta melhor da realidade, assim, vários trabalhos nossos não seguem o modelo tradicional. Lendo a dissertação do Thiago, percebi que lá ele já subvertia de certa forma o modelo tradicional de escrita acadêmica.

Pedro pondera:

- Preciso entender melhor o que é rizoma e árvore, inclusive marquei aqui, pelo que entendi lendo a tese, árvore ou sistema arborescente é um sistema baseado na estrutura, que se desenvolve a partir de um núcleo, organizado dentro de uma lógica bem delimitada e seus galhos são sempre da mesma natureza. Já o rizoma é um sistema difuso, sem núcleo com linhas de várias naturezas. Thiago, pode me explicar melhor isso?

- Acho que podemos fazer um paralelo da minha pesquisa de doutorado – que pode ser considerada rizoma – com a tradicional – que é árvore. Num texto tradicional tudo começa pela pergunta e objetivos de pesquisa, e nada do que apareça no trabalho pode desviar deles. Todo trabalho de campo deve seguir as orientações metodológicas elegidas a priori, qualquer dado produzido só será aceito se for proveniente dessas etapas e instrumentos pré-definidos. Assim funciona também a teoria, antes de iniciar o processo elegemos uma teoria que deve dar conta globalmente do que iremos estudar. Por fim, tudo que vamos desenvolver nos capítulos de teoria, metodologia, análise e considerações finais são da mesma natureza, ou seja, estão alinhados com o tema e objeto de pesquisa e redigidos a partir do que a academia aceita como ideal. Também só há possibilidade de entendimento do trabalho se ele for lido na integra. Já na minha tese isso não aconteceu, apesar de termos pergunta e objetivos de pesquisa, muitas coisas que abordamos não passavam necessariamente por eles. Nossa metodologia é aberta, e não nos engessa em instrumentos e nem categorias. Nossa teorização não tem a intenção de totalidade e universalidade. Os temas a serem discutidos percorrem todas as edições e são tratados sem hierarquia ou ordem a ser seguida. Diferente de uma tese tradicional, se uma pessoa ler somente uma das edições pode compreender o que está sendo tratado. Sem dizer sobre que os textos são de naturezas diferentes – acadêmico, etnográfico, literário... e, algumas vezes os assuntos – ensino de matemática, meritocracia, preconceito...

Nesse momento Carrera me adverte:

- Calma Thiago, vamos mais devagar com essas questões. Por exemplo, sobre a teorização. Não partimos de um corpus teórico que pretendesse a totalidade e que tivesse que dar conta de todas as discussões. Durante o trabalho fomos reunindo conceitos e problematizações que pudessem nos ajudar a discutir teoricamente. Relendo sua tese me lembrei que uma das coisas que você se dispôs a fazer foi trazer à baila ideias de Paulo Freire, que você já tinha estudado no mestrado, discutindo-as em paralelo com Foucault e Deleuze. Pela minha leitura, isso foi feito no trabalho de mestrado também, o que você acha Pedro?

- Também acho que sim, no nosso grupo não seguíamos um referencial teórico delimitado, mas íamos congregando aportes teóricos no decorrer do trabalho que pudessem dar subsídio para discutir as questões que iam surgindo. Por exemplo, na pesquisa do Thiago trouxemos as discussões da Mantoan para dialogar com Freire e D’ Ambrósio. Isso mostra que não tínhamos uma teoria definida a priori. De certa forma os trabalhos que eu orientei seguiam também essa tendência. Você já tinha se atentado a isso, Thiago?

- Então, após refletir sobre isso eu também vejo essa semelhança entre as duas pesquisas. Vou ler um trechinho da tese5: “Podemos dizer que esta pesquisa foi construída sob esta concepção da relação teoria-prática, pois não tínhamos um arquétipo teórico concebido a priori que nos possibilitaria analisar a produção de dados e nem a pretensão de que a produção de dados fosse a criadora de uma forma futura de teoria. O que tínhamos eram relações prática-teóricas fragmentárias e parciais [...]. Também entendemos que essa aplicação tem uma abrangência local, com possibilidades mais ou menos limitadas de generalizações. [...] para essa aplicação existem obstáculos que exigem o conjunto de revezamentos de uma teoria à outra que forma a prática e também o revezamento de uma prática à outra que produz a teoria”. Colocamos o nome da seção teórica de “Teorização”, mais tarde me deparei com um texto do Veiga-Neto6que explicita a diferença de Teoria e teorização, vou ler: [diferentemente da Teoria que é] “um construto composto por um conjunto de leis e princípios racionais, hierárquica e solidamente sistematizados, de caráter conclusivo, aplicado a uma determinada área”, [o conceito de teorização é] “uma ação de reflexão sistemática, sempre aberta/inconclusa e contingente, sobre determinadas práticas, experiências, acontecimentos ou sobre aquilo que se considera ser a ‘realidade do mundo’”. A partir disso, entendo que a parte teórica dos dois trabalhos seguiram a mesma forma de construção.

Assentindo o que eu dizia, Pedro comenta:

- Thiago, me lembro que na época do mestrado você estudou e usou bastante Paulo Freire, na leitura da Tese eu percebi que você traz ele novamente, abordando, porém, discussões diferentes das que fez no mestrado, o que é bom pois mostra que você vem ampliando as discussões sobre ideias dele. Só que você usa as ideias dele aliadas a conceitos de Foucault, Deleuze e Guattari. Até onde eu sei, apesar de contemporâneos, o que freire desenvolveu não dialoga muito com as ideias dos filósofos franceses. Como você conseguiu alinhar todos eles?

- Não podemos dizer que alinhamos totalmente as ideias desses autores. O que fizermos foi pegar ideias potentes de Paulo Freire e as fizemos dialogar com as problematizações da Filosofia da Diferença. Me lembro que ao fim de uma das primeiras aulas que o Carrera me deu em 2006 – a primeira disciplina que fiz como aluno regular do mestrado foi com ele – comentei sobre as ideias de Paulo Freire e como queria usar na dissertação. Na época ele me falou sobre a importância da atuação de Paulo Freire na alfabetização de trabalhadores da indústria no início dos anos 1960 e na possibilidade de discutir suas ideias com autores da Filosofia da Diferença. Guardei essa conversa até 2012, quando entrei no doutorado e tentei fazer algo nesse sentido. Então, na tese problematizamos que os círculos de cultura não eram sistematizados quanto a currículo ou certificação, por isso poderia ser considerado um sistema rizomático. Essa ideia se desdobra também em relação à concepção de Educação Popular. Essas discussões também contribuem para compreender que um sistema rizomático, ao ser capturado pelo estado, vira outra coisa, pois precisa ter suas características mudadas. Podemos perceber esse movimento com a Educação de Jovens e Adultos, porque para sua constituição houve a captura de sistemas rizomáticos de educação de adultos, geralmente sistemas de educação não-formal, que ao se tornar aparelho de estado precisou se sistematizar, não mantendo as características dos sistemas que contribuíram para sua criação. Diferente do que pode ser um sistema rizomático, a sistematização inevitavelmente excluí. Buscamos em Paulo Freire também a discussão de que o termo evasão, na verdade, se remete a processos de exclusão que os alunos jovens e adultos sofrem. Acho muito bom quando ele diz7 que evasão “era o nome para as pessoas excluídas da escola”.

Carrera comenta:

- Não me lembro dessa conversa, mas, realmente, acredito na possibilidade de aproximação de Freire com os filósofos franceses. Penso, por exemplo, que a discussão de poder que Foucault8 desenvolve poderia contribuir para refletirmos sobre a dinâmica de oprimido-opressor de Freire9. Acho, também, que as discussões da fase da Ética do Foucault10 podem contribuir para o que o Freire chama de libertação do oprimido e também para uma educação libertadora. Como você bem pontuou os conceitos de Deleuze e Guattari podem contribuir para refletir sobre as ideias de Freire. Tentar buscar essas possibilidades é uma forma de você prosseguir academicamente trazendo as experiências das duas pesquisas que fez.

Com um gesto pedindo a palavra, Pedro diz:

- Concordo com o Carrera, acho que seria um trabalho que daria muitos frutos. Já entramos, de certa forma, nas teorizações, mas antes eu gostaria de compreender a Cartografia. Thiago, você diz na Tese que não vai explicar o que é Cartografia, que é uma explicação pelo exemplo, pelo que entendi você entrevistou alunos que abandonaram a EJA, fez observação nas turmas, além do levantamento bibliográfico e documental para contextualizar a cidade e os participantes da pesquisa... esses são os mesmos procedimentos metodológicos que usamos na dissertação. Em quase todas as pesquisas que orientei, usávamos o trabalho de cunho etnográfico. Trabalho de cunho etnográfico e Cartografia são a mesma coisa?

- Realmente, Pedro, os instrumentos de produção de dados foram os mesmos nos dois trabalhos, com a diferença que no mestrado eu entrevistei uma professora e no doutorado 11 alunos que abandonaram a escola. Não podemos dizer que as duas formas de pesquisa são a mesma coisa, o que acontece é que a Cartografia não indica qual é o procedimento de produção de dados deve ser usado, podendo ser escolhido, a qualquer momento, o que for mais adequado ao contexto do que está sendo pesquisado. Me recordo que até o primeiro ano do doutorado íamos usar o mapa narrativo, que consistia num procedimento em que a entrevista tinha suas perguntas disparadas a partir de um desenho que era solicitado ao participante. O mapa narrativo estava sendo usado em praticamente todas as pesquisas orientadas pelo Carrera naquele momento. Mas me lembro, exatamente, que em uma das nossas reuniões de orientação o Carrera me disse: que tal aproveitar sua experiência com etnografia na sua pesquisa? Porque, não existem muitos trabalhos que fazem trabalho etnográfico no âmbito da Cartografia. E assim fizemos.

Nesse momento o Carrera explica:

- Você tem uma boa memória. Deve lembrar também que me deu um livro da sua dissertação e, após ler, percebi que você tinha uma experiência interessante com etnografia no ambiente escolar que deveria ser explorada. Aproveitando que eu estou com a palavra e que estamos à beira mar, vou falar sobre a cartografia pela metáfora do surfista: o surfista ao entrar no mar não conhece a onda que vai surfar e por isso não tem um roteiro com as manobras a serem realizadas, só após entrar na onda para surfá-la, escolhe as melhores e mais adequadas manobras de seu rol. Assim é o Cartógrafo, age no entre, sem buscar a origem, sem querer interpretar, sem pensar no começo e fim, lança mão de tudo o que tem para poder acompanhar o que está acontecendo no campo. Usamos essa metáfora num texto do Bolema11. Também gosto de usar a ideia que Deleuze12 de que um dispositivo é como uma meada, um emaranhado de fios de naturezas diferente, sem início ou fim – poderíamos chamar a escola pesquisada de dispositivo – e o papel do Cartógrafo é desembaraçar esses fios. Não existe método para isso, cada movimento é produzido a partir dos embaraços que se apresentam.

A partir disso Pedro conclui:

- A partir dessa explicação de Cartografia, penso que algumas leituras sobre etnografia que fazíamos no GEPEtno13, já se alinhavam em alguma medida ao pós-estruturalismo, contribuíram para você realizar o trabalho de campo. Se eu tivesse orientando ainda, talvez pudesse usar a Cartografia.

- Então, Pedro, em minhas orientações de doutorado no Programa de Campo Grande14 utilizamos a Cartografia, algumas são trabalhos com Etnomatemática.

Pedro, responde:

- Que bom, acho que já temos a primeira evidência da aproximação das duas pesquisas e consequentemente os dois campos. Além disso gostaria de pontuar o fato de, aparentemente, seu foco ter mudado de uma pesquisa para outra, porque na dissertação você aborda as práticas de inclusão escolar e na sua tese você que identificar os processos de exclusão, no entanto, se pararmos para pensar seu interesse se mantém, o que muda é a forma como aborda.

Então, Pedro, no primeiro momento eu não conseguia ver assim, mesmo o Carrera me dizendo que seria uma forma mais eficaz de problematizar a questão da inclusão, no início eu ainda via como pesquisas que poderiam se complementar, apenas. Mas num almoço, após uma reunião do GEPEtno, em que o Ubiratan estava, sentamos próximos e ele me perguntou o que estava pesquisando. Após explicar ele disse algo que hoje me parece óbvio, mas que naquele momento não era tão claro: é uma ótima ideia pesquisar os mecanismos de exclusão, pois se não temos exclusões não há a necessidade de incluir. Essa fala do Ubiratan foi muito importante, porque a partir dela comecei a refletir que criar processos inclusivos é importante, mas não é o bastante, é necessário lutar contra processos excludentes para que o modelo escolar deixe de excluir as pessoas.

Carrera complementa:

- Me lembro que conversávamos muito sobre isso e acredito que essa pode ser outra aproximação entre os dois trabalhos. Penso também que a Filosofia da Diferença pode contribuir para as discussões de inclusão. A ideia de inclusão da Mantoan que você traz na sua dissertação pode dialogar com as ideias do Foucault. Por exemplo, a Mantoan15 defende uma mudança radical no modelo escolar para que ninguém fique de fora, uma escola em que as diferenças sejam respeitadas e valorizadas – eu diria mais, uma escola que as pessoas possam se desenvolver na diferença – uma escola que todos possam se desenvolver a partir de suas potencialidades e possibilidades. Se formos pensar, a partir dos estudos sobre poder disciplinar de Foucault16, a escola foi se constituindo a partir do século XVIII como uma instituição normalizadora, em que se fabrica um sujeito ideal e quem não se adequa a esse processo é excluído. Pensando dessa forma, a escola para ser inclusiva deveria ser outra. Acredito que nesse ponto há um encontro no que Mantoan sugere como mudança radical. Você já pensou sobre isso, Thiago?

- Hahaha, é muito bom ouvir você dizer isso, pois tudo que estou fazendo em relação à inclusão está indo por esse caminho. Eu publiquei em 201717 um texto, vou abrir aqui, onde discuto os mecanismos disciplinares na escola, nele eu escrevo: “a escola é uma instituição disciplinar a qual faz uso de mecanismos que, dentre outras coisas, organizam, ordenam, hierarquizam, classificam, homogeneízam, comparam, analisam, avaliam e excluem, com o objetivo de normalizar e domesticar, não só a partir da vigilância e punição, mas também da recompensa. A normalização e a domesticação objetivada pela escola cumprem o papel de posicioná-la como um aparelho de Estado, que tem o objetivo de defender o modelo de sociedade vigente.” É a partir dessa concepção de escola que teço as discussões sobre uma escola inclusiva, no sentido mesmo de que não há possibilidade escola realmente inclusiva no modelo escolar que temos agora.

Carrera comenta:

- Acho que é um bom caminho a seguir, gostei que você ressalta a questão da recompensa, porque entendo que o sucesso da normalização se deve mais às recompensas que recebemos por nos comportar bem e nos adequar aos padrões do que pela punição.

Já fazia mais de uma hora que estávamos ali, começou a esquentar, então pedimos água de coco para hidratar. Pedro Paulo, buscando algo na tese disse:

- Ouvindo vocês falarem sobre as ideias de Foucault e lembrando de algumas passagens da Tese, penso que não devemos propor um novo modelo de escola, o modelo “escola inclusiva”, pois, como você defende na dissertação, a inclusão é sempre um processo, sempre feita a partir das demandas existentes na escola. Gostei bastante também da discussão sobre escola que você18 faz, a partir das ideias de Deleuze, em que diz: “A Escola para se constituir como tal, se apropriou da organização rizomática que comportava a aprendizagem dos conhecimentos científicos, artísticos, religiosos, culturais, sociais, políticos, econômicos da sociedade e transformou estas formas difusas e excêntricas de aprendizagens em árvore: a Escola. No entanto, este processo de apropriação pela escola não se deu sem descaracterizar a aprendizagem, porque foi necessário limitá-la, ordená-la, organizá-la, reprimi-la, homogeneizá-la, proibi-la, etc. para que ela pudesse ser organizada em anos letivos, currículos, bimestres, disciplinas, aulas, parâmetros de avaliação, de aproveitamento de aprendizagem, etc”. Acho que aqui temos outra intersecção dos trabalhos, pois ao meu ver, qualquer tentativa de organização de um modelo de educação “inclusiva” global, não pode ser inclusivo por que não leva em conta as particularidades reais de cada escola, de cada sala de aula. E a partir do que você escreveu, ao passo que a “escola inclusiva” vai sendo capturada, pela necessidade de sistematização para transformá-la em aparelho de estado, ela é descaracterizada. Concluo que, se ela for capturada, não será inclusiva.

Carrera, tomando um gole da água de coco, complementa:

- Concordo com você Pedro, inclusive acredito que é isso que possa estar acontecendo com a Educação Inclusiva atualmente, mas também sempre há possibilidade de rupturas. Não se pode perder de vista que, a partir das ideias de Foucault e Deleuze, não devemos pensar numa mudança abrupta e global do modelo escolar, mas encontrar formas de mobilizar resistências e mudanças micros, inclusive na nossa atuação individual. Criar rizomas nos ocos das árvores, como diz Deleuze e Guattari19.

Após isso Pedro comenta:

- Gostaria de comentar uma outra questão, me lembro que na sua banca a Mantoan comentou sobre usarmos a ideia de diferença no lugar de diversidade, dizendo que diversidade não dava conta da complexidade dos seres humanos, pois parte do princípio de agrupar pessoas que compartilham características pretensamente iguais, age por categorização, enquanto a diferença é incontível, provinda do múltiplo. A diversidade agrupa genericamente, por exemplo, cultura negra, pessoas cegas, é como se disséssemos que todos que estão nesses grupos são idênticos, me lembro que, apesar de não diferenciarmos os termos, já discutíamos sobre essa questão no GEPEtno. Percebi que na sua tese você não usa o termo diversidade, mas apesar de usar Filosofia da Diferença, não explica o que entende por diferença. Por que?

- Não entrou na tese, Pedro. Eu e Carrera acabamos escolhendo o que iria entrar e o que não, senão eu estaria até hoje escrevendo haha.

Carrera pede a palavra:

- Se me permitem, gostaria de falar sobre diferença. A diversidade é a tentativa de rotulação e classificação do mundo e seus habitantes, tão diferentes entre si. Para Deleuze20 a diferença é a relação do diferente com o diferente, a diferença por ela mesma, sem a comparação com um ideal, por isso não há possibilidade de explicarmos diferença de um ser, pois essa explicação é sempre uma aproximação e se dá sempre por comparação com a norma.

Buscando um arquivo no notebook, peço a palavra:

- Apesar de não abordar essa questão na tese passei a problematizar isso nos meus trabalhos posteriores, tenho um artigo que publiquei em 201721 onde discuto a questão da diferença e tento dar um exemplo: “só conseguimos explicar que algo é comprido se temos um conceito de comprimento; só é possível explicar que uma matemática é diferente se temos um conceito dessa ciência; só conseguimos explicar que uma cultura é diferente se temos um conceito sobre ela. Tomar como base esse conceito para explicar a diferença é cair na armadilha de forjá-lo a partir de uma verdade incontestável que servirá como pilar para elucidá-la e assim reduzir tudo ao uno; apagar as dessemelhanças”. Assim, ao passo que todos somos diferentes uns dos outros e não conseguimos explicar as diferenças, qualquer tentativa de decodificação dessas diferenças entre seres para posterior agrupamento em grupos diversos cai num movimento de homogeneização.

Pedro responde:

- Realmente a noção de diferença é mais adequada quando estamos nos referindo a pessoas. Essa aproximação entre as duas áreas você mesmo já está fazendo. A noção de diferença me parece muito pertinente para problematizar os processos de Inclusão e exclusão, tanto na questão da Educação Inclusiva quanto em questões de Etnomatemática.

Carrera chama o garçom, pede um suco de laranja, acompanhamos o pedido, e diz:

- Eu gostaria de falar sobre a Etnomatemática, quando o Thiago foi até a minha casa me procurar para orientá-lo, uma das coisas que disse é que não orientava em Etnomatemática, disse também que tinha algumas restrições quanto a ela. Mas após nosso trabalho, e também a convivência, entendi que a crítica que eu fazia a ela se alinha à crítica que vocês faziam no grupo de Etno. Tanto que escrevi com o Thiago um texto para o ENEM de Cuiabá em 201922 – apesar de não ter entrado como autor – para um minicurso que ele ofertou, em que discutimos o aspecto rizomático que pode conter as etnomatemáticas e como a Matemática Acadêmica/Escolar são arborescentes. Pensando nisso, acredito que a Filosofia da Diferença pode contribuir bastante para o campo da Etnomatemática e acho que o Thiago deve aproveitar em suas pesquisas e orientações conceitos de Deleuze e Guattari, tais como rizoma, árvore, nomadismo, sedentarismo, máquina de guerra, aparelho de estado, espaço estriado, espaço liso, linha de fuga... E também de Foucault, como saber, poder, poder disciplinar, biopolítica, para pensar a tradução matemática das etnomatemáticas, o conhecimento tradicional, o conhecimento matemático acadêmico, o conhecimento matemático escolar, os grupos socioculturais e as outras discussões do campo da Etno.

Pedro, assentindo com a cabeça, diz:

- Eu não estudo esses autores, mas a partir da leitura de um texto que Thiago me mandou em 2018 em que ele discutia Etnomatemática e Filosofia da Diferença, perguntando minha opinião, eu também acredito que ele deva investir nesses conceitos. Acredito que seja uma forma de teorização dessas questões. Gostaria, ainda, de voltar um pouco para fazer uma ligação, apesar de no mestrado você ter focado na inclusão de pessoas com deficiência, você já dava indícios do entendimento que vários outros grupos também sofrem processos de exclusão por motivos culturais, sociais, econômicos etc. e que uma educação inclusiva deve ser para todos. Lendo sua tese vi que você se concentra nos processos de exclusão de outros grupos, como mulheres, moradores da zona rural etc. Assim, acredito que uma boa forma de aproximação do que foi produzido nos seus dois trabalhos seja discutir os processos de inclusão/exclusão de uma forma ampla, ou seja, problematizando esses processos referentes a pessoas ou grupos que se encontram em vulnerabilidade social. O que acha Carrera?

- Ouvindo você falar me lembrei de uma conversa que tivemos logo após a defesa, na minha casa em Rio Claro. Sentamos para tomar um café e eu sugeri que o Thiago se dedicasse a desenvolver e orientar trabalhos que abordassem as diferenças, grupos erroneamente reconhecidos como diferentes, ou seja, que desviam da identidade normal.

Respondendo a eles, disse:

- Esse é um caminho que tenho buscado, venho trabalhando essas ideias em meus artigos e também nas orientações, dificilmente os trabalhos que oriento se restringem ao processo de inclusão/exclusão do público da Educação Especial, além deles, os trabalhos abordam pessoas que sofrem exclusão por questões de orientação sexual, religiosas, culturais etc., uma das pesquisas abordou especificamente egressos do sistema prisional, outra a questão da Educação de Jovens e Adultos etc. Além desses trabalhos também orientei duas dissertações na área de Educação do Campo. Atualmente, estou com 4 orientações de doutorado, três delas trabalham a questão indígena a partir da Etnomatemática e outra, que iniciou como mestrado e na qualificação passou para o doutorado que aborda a questão das injustiças sociais. Mesmo tentando categorizar, dizendo que umas pesquisas são de Etnomatemática, outras de inclusão/exclusão, outras de Educação do Campo e outras, ainda, em Filosofia da Diferença, isso só funciona para tentar explicar didaticamente o que estou fazendo, porque, na verdade, entendo isso como um lugar que está se constituindo a partir de teorias e práticas, que julgo alinhadas, de todas essas áreas e que me possibilitam discutir temas que circundam grupos que por qualquer motivo desviam do padrão de normalidade dado socialmente.

Concordando Carrera diz:

- Eu assino em baixo! E você Pedro?

- Eu também assino!

- Que maravilha, foi ótimo ter essa conversa com vocês. Agradeço muito a leitura de vocês e a manhã que tivemos. Estou com fome, vocês também devem estar. Podemos comer por aqui mesmo, o que acham?

Carrera e Pedro Paulo concordaram, juntamos o material de trabalho e ficamos conversando até que nosso pedido chegasse. No outro dia, Pedro e eu subimos a serra e pegamos a estrada sentido interior de São Paulo.

***

Ao voltar da viagem, refletindo sobre os apontamentos feitos, fiquei satisfeito de estar conseguindo congregar teorias e práticas das minhas pesquisas de mestrado e doutorado, e por estas aproximações terem sido avaliadas pelos meus amigos Carrera e Pedro. Também fiquei feliz por ter tido, a partir da conversa, vários insight de caminhos a percorrer. Pensei, ainda, na inverossimilhança daquele encontro, algo que mais parecia um devaneio ou uma situação fictícia. Mas o real existe como algo dado, independente da nossa atuação nele, ou estamos sempre ficcionando, inventando a realidade? Ficcionar não seria infinitas formas de abordar a realidade? Me alentei quando lembrei Manoel de Barros23: Tudo o que eu não invento é falso.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    12 Jul 2023
  • Aceito
    10 Ago 2023
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