Open-access Segurança da Gestação Após Transplante de Órgãos Sólidos: Uma Revisão de Escopo

RESUMO

Objetivo:  Realizar uma revisão de escopo para identificar o acompanhamento clínico da gestação em mulheres submetidas a transplantes de fígado, rim, coração e pulmão, com o objetivo de verificar a segurança da gestação nesse contexto.

Metodologia:  Trata-se de uma revisão de escopo realizada a partir de pesquisa nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO), contemplando os estudos de 2014 a 2024.

Resultados:  Foram incluídos 45 estudos, selecionados a partir de 1.206 registros, com predominância de publicações sobre transplante renal (77,7%). Observou-se que a idade materna no momento da concepção variou entre 18 e 45 anos. Os desfechos neonatais foram avaliados em 71% dos estudos, que relataram ampla variação na idade gestacional ao nascimento, com registros desde 24 semanas até idades gestacionais superiores a 37 semanas. Também foram reportados pesos ao nascer variando de 554 g a 4.256 g, taxas de aborto entre 3% e 41% e ocorrência de malformações congênitas entre 3% e 21%. Em relação aos desfechos maternos, abordados por 84%, os dados apontam para uma prevalência de alterações da pressão arterial, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional. Os imunossupressores foram abordados em 68% dos estudos, com ampla utilização de tacrolimo, enquanto o micofenolato foi sistematicamente contraindicado devido ao seu reconhecido potencial teratogênico.

Conclusão:  Os resultados demonstraram que a gestação após a realização de um transplante é viável e segura. De acordo com os estudos incluídos, os principais fatores determinantes para a segurança materno-fetal incluem intervalo mínimo entre o transplante e a concepção de 12 meses, planejamento familiar, função estável do enxerto e ausência de uso de micofenolato. A revisão contribui para orientar condutas clínicas baseadas em evidências no contexto da gestação pós-transplante.

Descritores
Transplante de Órgãos; Saúde Materno-Infantil; Revisão de Escopo; Imunossupressores

ABSTRACT

Objective:  To conduct a scoping review to identify the clinical monitoring of pregnancy in women who have undergone liver, kidney, heart, and lung transplantation, with the aim of assessing the safety of pregnancy in this context.

Methods:  This is a scoping review conducted through searches in the MEDLINE/PubMed, LILACS, and SciELO databases, including studies published between 2014 and 2024.

Results:  A total of 45 studies were included, selected from 1,206 records, with a predominance of publications on kidney transplantation (77.7%). Maternal age at conception ranged from 18 to 45 years. Neonatal outcomes were evaluated in 71% of the studies, which reported a wide variation in gestational age at birth, with records ranging from 24 weeks to gestational ages greater than 37 weeks. Birth weights also ranged from 554 g to 4,256 g, abortion rates between 3% and 41%, and the occurrence of congenital malformations between 3% and 21%. Regarding maternal outcomes, addressed by 84% of the studies, the data indicate a prevalence of blood pressure abnormalities, pre-eclampsia, and gestational diabetes. Immunosuppressants were addressed in 68% of the studies, with tacrolimus being widely used, while mycophenolate was systematically contraindicated due to its recognized teratogenic potential.

Conclusion:  The results demonstrated that pregnancy after transplantation is feasible and safe. According to the included studies, the main determinants of maternal–fetal safety include a minimum interval of 12 months between transplantation and conception, family planning, stable graft function and discontinuation of mycophenolate use. This review contributes to guiding evidence-based clinical practices in the context of post-transplant pregnancy.

Descriptors
Organ Transplantation; Maternal and Child Health; Scoping Review; Immunosuppressive Agents

INTRODUÇÃO

O transplante de órgãos sólidos é um tratamento efetivo para diversas doenças crônicas, proporcionando melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes1. Com os avanços nas técnicas cirúrgicas e no manejo imunossupressor, cresce o número de pessoas transplantadas vivendo por longos períodos, incluindo mulheres em idade fértil com desejo reprodutivo2,3.

A gestação após o transplante de órgãos sólidos, como rim, fígado, pulmão e coração, configura-se como uma condição de alto risco obstétrico. Os principais desafios nesse cenário envolvem o uso contínuo de medicamentos imunossupressores – essenciais para a prevenção da rejeição do enxerto – e seus potenciais impactos sobre a saúde materna e fetal4,5. Ainda que alguns imunossupressores, como tacrolimo e ciclosporina, apresentem perfil relativamente seguro durante a gestação, outros, como os agentes antimetabólicos (micofenolato sódico/mofetila), estão associados à teratogenicidade e requerem suspensão prévia à concepção5-7. Além desses efeitos sobre o feto, as mulheres transplantadas que engravidam apresentam maior risco de complicações obstétricas, como pré-eclâmpsia e diabetes gestacional8,2.

Apesar dos avanços, as evidências disponíveis sobre a segurança da gestação nesse contexto ainda são limitadas. Nesse sentido, torna-se essencial integrar os conhecimentos disponíveis. Este estudo tem como objetivo avaliar a segurança da gestação após a realização do transplante de órgãos sólidos (fígado, pulmão, coração e rim), por meio de uma revisão de escopo.

MÉTODOS

A elaboração desta revisão de escopo foi realizada com base na estrutura metodológica desenvolvida no guia Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)9,10.

A estratégia de busca foi realizada nas bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE/PubMed), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO). A Tabela 1 descreve a combinação de termos utilizada em cada base de dados. Como critérios de inclusão, consideraram-se estudos realizados de 2014 a 2024 que abordassem o manejo da gestação após a realização de transplante de órgãos sólidos (fígado, pulmão, coração e rim). Foram excluídas pesquisas com somente resumo publicado, sem texto completo disponível, revisões de literatura, estudos de caso, cartas ao editor, artigos duplicados nos bancos de dados e estudos que não discorressem sobre a temática proposta.

Tabela 1
Descritores utilizados para a pesquisa nas diferentes bases de dados.

Realizou-se a pré-seleção dos estudos por meio da leitura do título e resumo, obedecendo os critérios de inclusão e exclusão. Para essa etapa, utilizou-se o aplicativo Rayyan®, e dois revisores realizaram as avaliações dos estudos independentemente. Um terceiro revisor realizou a avaliação das divergências encontradas, posteriormente resolvidas por consenso. Na segunda etapa, realizou-se a leitura completa dos artigos pré-selecionados, e aqueles de acordo com o tema da pesquisa foram incluídos na revisão. A pesquisa foi realizada em junho de 2025.

RESULTADOS

A busca nas bases de dados identificou 1.206 estudos. Após o processo de seleção (Fig. 1), 45 estudos foram incluídos (Tabela 2). Observou-se que a dimensão temporal dos estudos variou de 2014 a 2024, sendo 46% (n = 21) publicados nos últimos 5 anos pesquisados. Em relação ao país de origem dos estudos, os dados apresentam-se dispersos, sendo a maioria, representando 17% (n = 8), realizada nos Estados Unidos (EUA). O Brasil aparece nessa revisão com 3 publicações (6,6%).

Tabela 2
Estudos incluídos na revisão de escopo (n = 45).
Figura 1
Processo de seleção dos estudos.

A maioria dos artigos abordou a gestação após o transplante renal, representando 77,7% (n = 35). A gestação após o transplante de fígado foi tratada em 28,8% dos estudos (n = 13), seguida pelo coração com 8,8% (n = 4) e pelo pulmão com 6,6% (n = 3). É importante destacar que um mesmo estudo abordou mais de um órgão, o que justifica a sobreposição dos dados apresentados.

Os assuntos abordados pelas publicações foram classificados em onze temáticas, sendo que um artigo poderia abordar mais de um tema, a saber: Desfechos maternos; Desfechos neonatais; Imunossupressão na gestação; Função do enxerto; Características demográficas e clínicas das receptoras (Características receptoras); Amamentação; Orientações sobre planejamento familiar; Via de nascimento; Percepções maternas; Orientações de manejo para equipe assistencial; e Gestações geradas por homens transplantados.

As características das receptoras foram descritas em todos os estudos incluídos (n = 45), contemplando informações como: idade no momento do transplante, etiologia da indicação, idade na concepção, intervalo de tempo entre o transplante e a gestação, perfil demográfico e presença de comorbidades. Observou-se que a idade materna no momento da concepção variou entre 18 e 45 anos. Todos os estudos indicaram que o intervalo mínimo recomendado entre o transplante e a concepção é de 12 meses.

A via de nascimento, caracterizada como parto vaginal ou cesariana, foi relatada em 66% dos casos (n = 30). A cesariana apresentou prevalência que variou entre 49% e 100% nos estudos analisados. Quanto à avaliação da função do enxerto, presente em 73% (n = 33), os estudos realizaram análise comparativa dos marcadores de função dos órgãos transplantados antes, durante e após a gestação.

A temática relacionada à orientação sobre planejamento familiar13,14,20,43,53, presente em 11% dos casos (n = 5), abrange assuntos como métodos contraceptivos e aconselhamento por parte da equipe médica. Já a temática que aborda a percepção materna30,41, identificada em 4,4% dos artigos (n = 2), engloba aspectos físico-psicossociais, desejo pela maternidade e atuação da equipe assistencial.

Os desfechos neonatais foram avaliados em 71% dos estudos (n = 32), que relataram ampla variação na idade gestacional ao nascimento, com registros desde 24 semanas até idades gestacionais superiores a 37 semanas. Também foram reportados pesos ao nascer variando de 554 g a 4.256 g, taxas de aborto entre 3% e 41% e ocorrência de malformações congênitas entre 3% e 21%. Em relação aos desfechos maternos, abordados por 84% (n = 38), os dados apontam para uma prevalência de alterações da pressão arterial, pré-eclâmpsia e diabetes gestacional.

No estudo que investigou gestações geradas por homens transplantados27, avaliou-se o uso do micofenolato como terapia imunossupressora, sugerindo que a exposição paterna a esse medicamento não se associa estatisticamente a malformações congênitas ou outros desfechos adversos, quando comparada a gestações sem tal exposição. Quanto à amamentação12, o estudo indica que o uso de tacrolimo como imunossupressor durante a gestação não constitui contraindicação ao aleitamento. Já no estudo que aborda as orientações de manejo clínico para a equipe assistencial36, são apresentadas recomendações para o acompanhamento dessas pacientes, incluindo: solicitação de exames prévios à gestação, escolha preferencial da terapia imunossupressora e monitoramento laboratorial contínuo durante a gestação.

Os imunossupressores foram abordados em 68% dos estudos incluídos (n = 31), com a maioria descrevendo os esquemas terapêuticos utilizados durante a gestação. As Figs. 2, 3, 4 e 5 apresentam as principais terapias imunossupressoras relatadas, organizadas conforme o órgão transplantado. Em geral, os estudos limitaram-se a identificar os fármacos utilizados ao longo da gestação. Constatou-se ampla utilização de tacrolimo, enquanto o micofenolato foi sistematicamente contraindicado devido ao seu reconhecido potencial teratogênico.

Figura 2
Descrição das terapias imunossupressoras empregadas no transplante renal (n = 19).
Figura 3
Descrição das terapias imunossupressoras empregadas no transplante hepático (n = 7).
Figura 4
Descrição das terapias imunossupressoras empregadas no transplante pulmonar (n = 3).
Figura 5
Descrição das terapias imunossupressoras empregadas no transplante cardíaco (n = 2).

DISCUSSÃO

Esta revisão de escopo possibilitou o mapeamento e a análise das evidências disponíveis acerca dos fatores que influenciam a segurança da gestação em mulheres submetidas ao transplante de órgãos sólidos.

No Brasil, os dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO)55 mostram que, em 2024, foram realizados 9.318 transplantes de órgãos sólidos – incluindo rim, fígado, coração e pulmão –, com predominância de transplantes renais (6.325), seguidos pelo fígado (2.457), coração (443) e pulmão (93). Esses dados refletem os achados observados nesta revisão, em que a gestação após transplante renal foi a mais frequentemente abordada.

Os dados relacionados aos desfechos maternos demonstram que as receptoras de órgãos sólidos apresentam maior risco de desenvolver complicações gestacionais, como hipertensão, diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, em comparação à população geral – achado que é consistente com o relatado em outros estudos5,7,56,57. No entanto, as publicações reforçam que o transplante não contraindica a concepção.

Sabe-se que, antes do transplante, muitas mulheres apresentam alterações hormonais e disfunções reprodutivas devido à doença de base, o que pode causar anovulação, ciclos menstruais irregulares e infertilidade58,59. No entanto, os estudos mostram que as mulheres transplantadas podem recuperar a fertilidade pouco tempo após a realização do transplante3,60. Apesar disso, os achados desta revisão evidenciam a escassez de publicações que abordam o aconselhamento reprodutivo, sugerindo que muitas pacientes podem não receber orientações adequadas.

O tacrolimo apresenta-se como o imunossupressor mais frequentemente utilizado durante a gestação nos estudos, refletindo uma prática alinhada às diretrizes que indicam sua segurança nesse período4. Apesar do papel essencial dos imunossupressores na manutenção do enxerto, os estudos apresentam limitações importantes no que se refere ao acompanhamento de doses e níveis séricos durante a gravidez. Essa ausência de dados evidencia uma lacuna de conhecimento sobre o comportamento dos imunossupressores durante a gestação.

Em relação aos desfechos neonatais, os estudos indicam um risco aumentado de prematuridade, baixo peso ao nascer e maior prevalência de abortos e malformações. Coffin et al.61 relataram que recém-nascidos de mulheres transplantadas apresentaram risco três vezes maior de complicações. A exposição a imunossupressores, em particular ao micofenolato, conhecido por seu efeito teratogênico, pode contribuir para o aumento do risco de malformações congênitas e abortos7,8, ainda que seu uso tenha sido limitado ou contraindicado nos estudos incluídos.

A via de nascimento por cesariana foi a mais frequentemente observada entre mulheres transplantadas; entretanto, os estudos sugerem que essa alta prevalência está mais relacionada a complicações gestacionais do que à realização do transplante.

Os resultados também demonstram que as percepções maternas ainda são pouco consideradas, apesar da sua relevância para o planejamento familiar. Van Buren, Beck, Lely, van de Wetering e Massey41 trazem que as mulheres relataram dificuldade em abordar o tema da gravidez com a equipe assistencial, muitas vezes recebendo informações contraditórias. Tais achados reforçam a importância de protocolos clínicos claros, promovendo uma tomada de decisão segura e informada.

No que se refere à amamentação, os achados estão em consonância com a literatura existente, indicando que essa prática não deve ser contraindicada56,12. Evidências demonstram que a concentração de tacrolimo no leite materno é extremamente baixa, com lactentes recebendo menos de 1% da dose materna diária ajustada ao peso62,63.

O estudo27 que abordou a temática de gestações geradas por homens transplantados demonstrou ausência de complicações obstétricas ou neonatais entre gestações com ou sem exposição paterna ao micofenolato. Apesar dos achados, as recomendações continuam a contraindicar o uso de micofenolato em homens ou mulheres em idade fértil, em função da teratogenicidade64.

Em termos de orientações para a equipe, os achados determinam que uma gestação segura requer o cumprimento de três critérios principais: i) intervalo mínimo de um ano após o transplante, ii) ausência de uso de micofenolato e iii) enxerto funcionante13,14,20. Adicionalmente, ressalta-se que gestações planejadas apresentam maior probabilidade de resultar no nascimento de bebês saudáveis, sem comprometer a função do enxerto ou a saúde materna, em comparação às gestações não planejadas43,53.

No Brasil, apesar de estar entre os países com maior número de transplantes realizados55,65, foram identificados apenas três estudos3,17,22, o que revela uma lacuna na produção nacional sobre o tema. Essa escassez de dados compromete a elaboração de protocolos clínicos específicos, impactando no manejo assistencial de mulheres que transplantam órgãos sólidos e engravidam no país.

O presente estudo apresenta algumas limitações. Embora a busca tenha sido realizada em bases relevantes, é possível que alguns estudos não tenham sido identificados, especialmente aqueles disponíveis em bases não incluídas na pesquisa. A heterogeneidade presente nos estudos dificulta comparações diretas dos resultados.

CONCLUSÃO

Esta revisão de escopo evidenciou que a gestação em mulheres submetidas a transplante de órgãos sólidos é viável e segura. De acordo com os estudos, os principais fatores determinantes para a segurança materno-fetal incluem: intervalo adequado entre o transplante e a concepção, planejamento familiar, função estável do enxerto e ausência de uso de micofenolato.

Apesar do aumento recente de publicações sobre o tema, persistem lacunas quanto ao monitoramento de imunossupressores durante a gestação, evidenciando insuficiência de dados sobre ajustes de dose e níveis séricos dos imunossupressores – o que impacta no manejo clínico. No contexto brasileiro, há escassez de estudos, evidenciando a necessidade de pesquisas nacionais que subsidiem protocolos clínicos seguros para manejo de mulheres que transplantam e desejam engravidar.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre e ao Programa de Residência Multiprofissional em Clínica Cirúrgica por fomentarem a realização dessa pesquisa.

  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.
  • DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Todos os dados foram gerados ou analisados neste estudo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Jan 2026
  • Aceito
    04 Maio 2026
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