Resumo
O miritizeiro (Mauritia flexuosa L.f.), símbolo de Abaetetuba, Pará, tem papel importante na economia, na cultura e na história da população local. Este artigo explicita possíveis relações entre os saberes dos artesãos e as aplicações em áreas do conhecimento propostas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino fundamental. Partimos da hipótese de que a bioculturalidade presente nos saberes dos artesãos em relação ao miritizeiro permite conectar práticas sustentáveis e culturais ao potencial pedagógico. Trata-se de uma pesquisa etnográfica qualitativa, realizada com 20 artesãos, selecionados por amostragem em bola de neve, cujo locus está situado na sede municipal e nas ilhas de Abaetetuba. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas com os artesãos, bem como de turnês guiadas aos ambientes naturais de ocorrência da espécie e aos locais de trabalho artesanal. Foram encontrados variados usos e práticas relacionados a 16 partes do miriti, evidenciando múltiplos usos, além do seu potencial pedagógico, integrando os saberes tradicionais às habilidades previstas na BNCC para o ensino fundamental, o que destaca a importância do miritizeiro em Abaetetuba. Esse patrimônio biocultural, ao integrar natureza, cultura e educação, promove consciência ecológica e cultural por meio de uma prática educativa contextualizada, alcançável com a formação continuada de professores.
Palavras-chave
Abaetetuba; Bioculturalidade; BNCC; Ensino fundamental; Práticas sustentáveis
Abstract
The miritizeiro (Mauritia flexuosa L.f.), symbol of Abaetetuba-Pará, a central role in the economy, culture and history of the local population. This relevance motivated the objective of elucidating possible relationships between the knowledge held by artisans and applications across areas of knowledge proposed in the National Common Curricular Base (BNCC) for primary education. We hypothesize that the biocultural relationship between artisans’ knowledge and the miritizeiro enables the integration of sustainable and cultural practices with pedagogical potential. This study adopts a qualitative ethnographic approach and involved 20 artisans selected through snowball sampling, located in the municipal headquarters and the islands of Abaetetuba. Data were collected through semi-structured interviews with the artisans, guided visits to the natural environments where the species occurs, and visits to the artisans’ workplaces. The analysis identified different uses and practices associated with 16 parts of the miriti, highlighting its multiple applications and pedagogical potential. These practices integrate traditional knowledge with the competencies outlined in the National Common Curricular Base (BNCC) for Primary Education and emphasize the importance of the miritizeiro in Abaetetuba. The biocultural heritage of the miriti, which integrates nature, culture and education, fosters ecological and cultural awareness through contextualized education, and can be strengthened through continuous teacher training.
Keywords
Abaetetuba; Bioculturality; BNCC; Primary education; Sustainable practices
INTRODUÇÃO
O conceito de bioculturalidade interconecta dois tipos de diversidade, a biológica e a cultural, referindo-se à relação dos processos culturais com a natureza (Toledo & Barrera-Bassols, 2009). Considera-se, na dimensão cultural, que a identidade territorial abrange, além dos recursos naturais, os conhecimentos que as populações possuem sobre a biodiversidade: os organismos e os ecossistemas em que vivem (Boege, 2008; Rocha, 2020).
A partir das relações bioculturais existentes entre os moradores locais de Abaetetuba e o miriti (Mauritia flexuosa L.f.), é possível observar o significado do território que habitam, não somente no que concerne ao espaço geográfico, mas no que se refere ao contexto da geografia empírica. Não se trata apenas de um local de extração e trabalho com a espécie, sendo especialmente o lar, o lugar de trocas e compartilhamentos e, sobretudo, onde os moradores enriquecem seu cotidiano com manifestações culturais, religiosas e atividades econômicas, as quais representam fatores presentes no aprendizado em sala de aula (Gomes, 2018; F. Machado, 2008; G. Silva et al., 2013).
No município de Abaetetuba, Pará, Brasil, os trabalhos artesanais realizados com o miriti, palmeira típica da região e símbolo do município, são exemplos tangíveis de práticas bioculturais na região amazônica (Bastos, 2023) e que podem ser explorados no ensino de ciências naturais/botânica, entre outras áreas. Trata-se de uma palmeira que ocorre espontaneamente, formando aglomerados populacionais que desempenham papel importante na estrutura e no funcionamento desses ambientes (Almeida et al., 2004). O miriti é considerado um recurso de valor cultural inestimável para muitas comunidades, tanto da área urbana quanto da rural de Abaetetuba, em razão do aproveitamento de praticamente todas as partes da planta, com variedade de aplicações (Germano et al., 2014).
A extração dos recursos advindos do miritizeiro, adequando-se às necessidades e ao potencial da localidade, beneficia e promove o desenvolvimento sustentável e a conservação de saberes tradicionais das comunidades locais. A partir da coleta da matéria-prima da palmeira, as tradições produtivas do miriti contribuem para a manutenção econômica, social e cultural de inúmeras famílias, bem como para a representatividade biocultural do modo de vida amazônico (Bastos, 2023; Leoni & Marques, 2009; F. Machado, 2008).
Essas vivências, transmitidas aos mais jovens como um patrimônio cultural, podem ser valorizadas e adaptadas para o ambiente escolar, promovendo o aprendizado significativo dos estudantes por contextualizar o modo de vida das comunidades. Isso possibilita a conexão entre a realidade local do aluno e os conteúdos escolares das mais diferentes áreas de conhecimentos, propostos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017, a qual serve como guia de orientação curricular na educação básica, auxiliando, assim, a elaboração de currículos escolares (MEC, 2018). Além disso, as práticas dialógicas de conhecimentos e as experiências, mesmo por parte de crianças e adolescentes, são essenciais para a melhoria da sociedade, pois retratam o visível (Stengers, 2018).
A realidade educacional que justifica e maximiza a relevância do presente trabalho situa-se na tendência de a educação escolar negligenciar elementos que constituem fontes de sobrevivência e são valorizados pelos povos amazônicos há milhares de anos. Tais elementos recebem tratamento e consideração restritos nas salas de aula, sendo frequentemente retratados com dificuldades conceituais, generalizações, relativismos ou até mesmo excluídos dos livros didáticos, mesmo em escolas pertencentes a territórios de comunidades tradicionais. Essa ausência de representatividade local demonstra a grande influência eurocêntrica na educação no Brasil (Veiga, 2022; L. Ribeiro & Nogueira, 2023).
Diante disso, a presente pesquisa estrutura-se a partir da investigação quanto às possibilidades pedagógicas ligadas aos usos do miriti que emergem da relação entre o olhar do artesão e as proposições da BNCC. Na busca por respostas, o estudo explicita possíveis relações existentes entre saberes sobre usos dessa palmeira, evidenciados por artesãos do município, das áreas urbana e rural, e as propostas de aprendizagens em botânica, no ensino de ciências naturais, entre outras áreas de conhecimentos presentes na BNCC do ensino fundamental.
METODOLOGIA
ÁREA DE COLETA DE DADOS
A pesquisa foi realizada no município de Abaetetuba, no estado do Pará, Brasil, localizado no baixo curso do rio Tocantins. O município está inserido na mesorregião nordeste paraense e na microrregião do município de Cametá, tendo sua sede situada nas coordenadas 01° 43’ 24” de latitude sul e 48° 52’ 54” de longitude oeste de Greenwich (“Plano Diretor”, 2006). Segundo o mais recente censo populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município possui população estimada de 158.188 pessoas, entre as quais constam os moradores das 72 ilhas de Abaetetuba (IBGE, 2023).
Em termos culturais, Abaetetuba é muito bem representada pela espécie em questão, em virtude dos amplos significados da palmeira que tornou a cidade conhecida como a capital mundial do brinquedo de miriti. Anualmente, é promovido na cidade o “Festival do Miriti”, também conhecido como “Miritifest”, evento em que ocorre grande comercialização e divulgação da espécie e dos mais variados produtos de artesanato e alimentação (R. Santos & Coelho-Ferreira, 2012).
PARTICIPANTES DA PESQUISA
Como estratégia metodológica de determinação da população amostral, foi adotada a técnica ‘bola de neve’ (Bailey, 1994), que utiliza as conexões entre os membros da população para que se obtenha uma amostra baseada em indicações de participantes já incluídos, e assim sucessivamente. Nessa perspectiva, foram selecionados indivíduos que se identificaram com a temática e demonstraram conhecimento sobre manejo, extração, usos e produção de artigos relacionados ao miriti.
A partir dessa técnica, a amostra foi composta por 20 participantes (N = 20), com idades entre 22 e 72 anos. Quanto ao gênero, oito participantes são do sexo feminino e 12 do sexo masculino, com idades variando entre 22 e 47 anos para as mulheres, e entre 52 e 72 anos para os homens. Do total de informantes, 17 residem na área urbana do município, enquanto três são ribeirinhos, provenientes das margens dos rios Tauá, Abaeté e Genipaúba.
COLETA DE DADOS
A coleta de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, com duração média de 20 minutos, gravadas em equipamento de áudio; turnês guiadas aos ambientes naturais de ocorrência da espécie e aos locais de trabalho com o miriti (Chauí, 1979; Alexiades, 1996; Albuquerque et al., 2014).
Os participantes foram devidamente informados sobre o estudo, que foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 61518622.6.0000.5174, expedido através do sistema eletrônico da Plataforma Brasil. Os participantes que aceitaram participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). As informações obtidas foram registradas por meio de caderno de campo, gravador de áudio e câmera fotográfica.
Os dados das entrevistas foram tabulados em matriz, utilizando o Microsoft Office Excel 2019. As informações foram sistematizadas e analisadas da seguinte forma: I) usos do miriti em Abaetetuba; II) partes utilizadas da palmeira.
PESQUISA DOCUMENTAL
Para este trabalho, utilizou-se a abordagem qualitativa de pesquisa documental (Minayo, 2014), complementada pelo documento público da BNCC, que relaciona os usos do miriti aos conteúdos e às habilidades com os assuntos abordados nas disciplinas de ciências, geografia, história, matemática, arte e ensino religioso do ensino fundamental I e II.
Inicialmente, realizou-se uma análise de conteúdo (Bardin, 2000), focando em partes específicas do documento da BNCC para correlacionar os usos dos órgãos vegetativos e reprodutivos do miriti descritos pelos artesãos com as habilidades das disciplinas mencionadas. Além disso, categorizaram-se os usos do miriti com base na coleção de etnobotânica e botânica econômica do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG). Os termos botânicos foram complementados pelos termos usados pelos informantes da pesquisa para facilitar a identificação das partes da planta mencionadas na região de Abaetetuba.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os participantes forneceram informações sobre os usos de 16 partes do miriti, abrangendo tanto órgãos vegetativos quanto reprodutivos (Figura 1), além de práticas associadas ao manejo da palmeira. Segundo E. Araújo et al. (2023), os produtos derivados do miriti desempenham um papel fundamental na preservação da cultura e na economia de Abaetetuba, agregando valor não apenas em nível local, mas também regional, especialmente por meio do artesanato.
Órgãos de Mauritia flexuosa L.f.: A) folhas flabeliformes; B) envira ou grelo; C) pecíolo beneficiado; D) esteira; E) estipe e raízes adventícias; F) estipe em decomposição, medula do estipe decomposta utilizado como adubo natural; G) ráquila pistilada (fêmea); H) frutos maduros; I) endocarpo e semente beneficiada; J) perianto persistente; K) flores estaminadas (masculinas); L) ráquila estaminada (macho). Fotos: A. P. C. Bastos (2025).
Em termos gerais, os principais usos do miriti foram agrupados em seis categorias: a) artesanato, b) alimentação e bebida, c) construção civil, d) agricultura e pesca, e) religiosidade e f) medicina/combustível e cosmético. Em todas essas categorias, as partes da planta foram destacadas com base nos depoimentos coletados e associadas às disciplinas e às habilidades previstas na BNCC. No total, identificaram-se 16 partes do miriti, utilizadas em contextos culturais e econômicos, resultando em 57 aplicações relacionadas à BNCC: 18 habilidades em ciências, 12 em geografia, 11 em artes, dez em matemática, duas em história e quatro em ensino religioso, todas voltadas ao ensino fundamental.
ARTESANATO
Os resultados encontrados na categoria de artesanato abrangem o aproveitamento das folhas, infrutescências e estipe do miriti, mais especificamente de nove partes da palmeira, que resultam no uso de 17 tipos de artefatos, os quais podem ser explorados em disciplinas do ensino fundamental I e II, como arte, história, geografia e ciências, com o subsídio de 20 habilidades da BNCC (Tabela 1).
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados no artesanato. Legendas: EF15AR01 = identificar e apreciar formas distintas de artes visuais tradicionais e contemporâneas; EF15AR02 = explorar e reconhecer elementos como forma, cor e movimento; EF15AR03 = reconhecer a influência das diversas matrizes culturais e estéticas nas manifestações artísticas; EF15AR04 = experimentar diferentes formas de expressões artísticas, incluindo o uso sustentável de materiais; EF15AR07 = reconhecer as categorias do sistema das artes visuais, como artesãos e artistas; EF15AR24 = caracterizar e experimentar brinquedos e brincadeiras de diferentes matrizes estéticas e culturais; EF69AR05 = experimentar e analisar diferentes formas de expressão artística, como a modelagem e a escultura; EF69AR08 = diferenciar entre categorias os artesãos, os artistas e os designers; EF69AR31 = relacionar práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política, histórica, econômica, estética e ética; EF69AR33 = analisar aspectos históricos, sociais e políticos da produção artística, problematizando as narrativas eurocêntricas e as diversas categorizações da arte (arte, artesanato, folclore, design etc.); EF69AR34 = valorizar o patrimônio cultural material e imaterial de culturas diversas, incluindo as matrizes indígenas e africanas; EF07HI12 = identificar a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas, considerando a diversidade étnico-cultural; EF01GE02 = perceber semelhanças e diferenças entre jogos e brincadeiras de diferentes épocas e lugares; EF01GE06 = analisar diferentes tipos de moradia ou objetos de uso cotidiano, considerando técnicas e materiais utilizados em sua confecção; EF01GE07 = descrever atividades de trabalho relacionadas com o dia a dia da sua comunidade; EF01GE11 = associar mudanças de vestuário e hábitos alimentares às variações climáticas; EF01CI01 = destacar a importância para o uso de materiais do cotidiano para o desenvolvimento de práticas de ensino; EF07CI06 e EF07CI08 = retratar a influência de inovações tecnológicas nos aspectos econômicos, culturais e sociais dentro de diferentes contextos socioculturais; EF09CI15 = relacionar as leituras culturais e as explicações sobre a origem da Terra e do sistema solar com as necessidades de diferentes culturas.
Partes da palmeira como folhas, infrutescências e estipes são empregadas em diversos usos (Nascimento et al., 2010; R. Santos & Coelho-Ferreira, 2012; Sena et al., 2024), como a produção de artesanatos, bem como de acessórios, brinquedos e vestuário. Um dos usos mais frequentes nas falas dos informantes é o artesanato, tendência que pode ser observada no seguinte depoimento:
De um tempo pra cá, nós estávamos vendo a possibilidade de substituir produtos industrializados na nossa biojoia pela fibra de miriti . . . Hoje o miritizeiro não serve só de ponte para nós andarmos por cima . . . Se faz artesanato. É muito importante utilizar, pois o miriti está presente no nosso dia a dia . . . A gente tem que preservar senão acaba, assim a gente pode tirar nosso sustento de onde a gente mora e de onde a gente vive... (artesão, informante 1, comunicação pessoal, 2023).
O depoimento mostra o artesanato como uma das mais significativas relações bioculturais entre o miriti e a comunidade de Abaetetuba, estabelecendo uma conexão que gera grande impacto na cultura local e pode, ainda, contribuir para o desenvolvimento de diversas aprendizagens na educação básica. Segundo os informantes da pesquisa, os folíolos são utilizados na confecção de artefatos decorativos, enquanto os pecíolos servem para a produção de brinquedos, que podem ser estáticos, de propulsão ou articulados. A epiderme pluriestratificada é aproveitada na fabricação de caixas, chaveiros e acabamentos de brinquedos, e a epiderme do pecíolo, especificamente, é empregada na confecção de abajures. Isso é mencionado no estudo de E. Araújo et al. (2023).
Da infrutescência, podem ser utilizados o endocarpo, a semente, o epicarpo e o perianto persistente, empregados na confecção de brincos, colares, chaveiros, anéis, pulseiras, miçangas e crucifixos para terços ou cordões. Esses objetos artesanais, além de representar a cultura local, são utilizados como acessórios, mostrando a identidade e a tradição advindas da força de trabalho quilombola e ribeirinha de Abaetetuba.
Os usos do miriti nessas categorias estão relacionados a diversas habilidades previstas na BNCC, especialmente nas áreas de arte, ciências, geografia e história (Tabela 1), contribuindo para compreensão dos conteúdos escolares por meio da contextualização com as vivências cotidianas da comunidade local. Embora a interdisciplinaridade ainda represente um desafio, como destacam N. Silva e Massena (2023) e Gasperi e Emmel (2023), o miriti pode atuar como um elemento integrador entre a realidade do aluno e o processo de ensino-aprendizagem.
Nas habilidades de arte para os primeiros anos do ensino fundamental, os alunos são incentivados a ‘identificar e apreciar formas distintas de artes visuais tradicionais e contemporâneas’ (EF15AR01). Nesse contexto, o trabalho artesanal com o miriti pode ser usado como exemplo para incentivar a percepção e o repertório imagético, já que o processo de confecção desses artefatos envolve não apenas a estética, mas também o reconhecimento da riqueza cultural associada ao artesanato, como os brinquedos de miriti (Teixeira et al., 2023).
‘Explorar e reconhecer elementos como forma, cor e movimento’ (EF15AR02) são aspectos presentes nas criações feitas com o miriti. Essas são habilidades de reconhecimento, que, segundo Lobato e J. Ribeiro (2022), permitem identificar nos brinquedos formas inspiradas em animais amazônicos – jacarés, cobras, botos e guarás –, bem como personagens icônicos, como o girandeiro e o barqueiro. Permitem também perceber movimentos feitos por brinquedos articulados, como a pombinha, enriquecidos visualmente por cores vibrantes.
Além disso, instigar os alunos a reconhecerem a ‘influência das diversas matrizes culturais e estéticas nas manifestações artísticas’ (EF15AR03) é uma habilidade que contribui para a compreensão de como as práticas artesanais com o miriti, a exemplo da fabricação de brinquedos, é influenciada pelas variadas culturas amazônicas e pelas conquistas sociais da região (J. Ribeiro & Brício, 2020).
Propõe-se aos alunos também a habilidade de ‘experimentar diferentes formas de expressões artísticas, incluindo o uso sustentável de materiais’ (EF15AR04). Essas atitudes sustentáveis, também defendidas por Mafra e Bonassina (2022), podem incentivar o uso da bucha de miriti, apreciada na confecção de brinquedos por sua textura maleável. Agregada à matéria-prima está a habilidade de ‘reconhecer as categorias do sistema das artes visuais, como artesãos e artistas’ (EF15AR07), que se complementa à habilidade anterior, na qual se pode compreender a organização e a relevância do artesanato para a formação cultural do miriti no cenário amazônico.
Para os alunos do ensino fundamental II, habilidades como ‘experimentar e analisar diferentes formas de expressão artística, como a modelagem e a escultura’ (EF69AR05), permitem que eles associem e entendam práticas tradicionais, como o artesanato de miriti, que pode servir também como recurso didático, estimulando a contextualização (Gonçalves et al., 2022). Além disso, essa habilidade, quando associada a estratégias como escultura e pintura, possibilita maior interação dos alunos – inclusive daqueles com necessidades educacionais especiais – nas atividades propostas pelo professor, bem como a integração entre disciplinas como arte e biologia (Duarte et al., 2018). A experiência relatada por Duarte et al. (2018) também pode ser observada no contexto do uso do miriti no ambiente escolar, em oficinas de confecção de brinquedos, que contribuem para o desenvolvimento de habilidades motoras finas e estéticas.
‘Diferenciar entre categorias os artesãos, os artistas e os designers’ (EF69AR08) também é uma habilidade que pode ser citada em sala de aula, para a compreensão da bioeconomia local, na qual o miriti está inserido, cercado por esses ofícios cujas relações foram observadas por Eguchi e O. Pinheiro (2008). Nesse tópico, podem ser explanadas as conquistas e as dificuldades da comunidade de artesãos de miriti de Abaetetuba, além das etapas de criação e comércio de produtos, que são apontadas por Benz e Lessa (2016).
‘Relacionar práticas artísticas às diferentes dimensões da vida social, cultural, política, histórica, econômica, estética e ética’ (EF69AR31) é um item que auxilia na compreensão de aspectos do desenvolvimento do artesanato de miriti como uma expressão de identidade cultural e resistência popular, especialmente entre grupos tradicionais das ilhas de Abaetetuba (Bitar & Koury, 2021; Lobato & J. Ribeiro, 2022; Teixeira et al., 2023).
Em outro ponto, ‘analisar aspectos históricos, sociais e políticos da produção artística, problematizando as narrativas eurocêntricas e as diversas categorizações da arte (arte, artesanato, folclore, design etc.)’ (EF69AR33), instiga a explorar de forma crítica as categorizações da arte e seus desafios, como já apresentadas por Jesus (2022), como a desvalorização de agentes fazedores de arte de comunidades indígenas. Por outro lado, tem-se a distinção entre arte e artesanato, promovendo discussões sobre a importância de valorizar o trabalho artesanal e a produção cultural.
Também, a ‘valorização do patrimônio cultural material e imaterial de culturas diversas, incluindo as matrizes indígenas e africanas’ (EF69AR34), pode ser observada e discutida no ambiente escolar, levando em consideração o saber fazer do artesanato de miriti, quando a memória dos antepassados quilombolas, ribeirinhos e indígenas dos artesãos é refletida nas peças artesanais. Um exemplo são as mulheres do povo Kaingang, da Terra Indígena Mangueirinha/Paraná, que, por meio do seu território e do artesanato, estabelecem seu pertencimento e a composição do seu ser (Piaia & Wedig, 2021).
No ensino de ciências para o 1º ano, destaca-se a ‘importância para o uso de materiais do cotidiano para o desenvolvimento de práticas de ensino’ (EF01CI01). Nesse contexto, esta proposta ajuda no desenvolvimento cognitivo das crianças (Arruda et al., 2021), visto que os alunos podem comparar os diferentes objetos de miriti de uso recorrente em Abaetetuba com objetos de materiais distintos, como plástico ou madeira, descobrindo suas propriedades e a sustentabilidade do uso de recursos naturais na produção de brinquedos e acessórios.
No 7º ano, é relevante discutir como a confecção tradicional de artefatos de miriti enfrenta desafios (Arantes et al., 2024) em um cenário dominado pela industrialização e pela produção em larga escala de produtos derivados do petróleo. Esse diálogo pode ser subsidiado por habilidades que retratam ‘a influência de inovações tecnológicas nos aspectos econômicos, culturais e sociais dentro de diferentes contextos socioculturais’ (EF07CI06 e EF07CI08).
Adicionalmente, avaliar os impactos dessas mudanças nas comunidades locais e as possibilidades de substituir esses materiais por recursos renováveis e limpos, como o miriti, pode ser uma solução para a manutenção da biodiversidade. Lemos et al. (2023), por exemplo, citam o uso de fibras de miriti para a fabricação de embarcação de pequeno porte.
No último ano do ensino fundamental, relacionam-se as ‘leituras culturais e explicações sobre a origem da Terra e do sistema solar com as necessidades de diferentes culturas’ (EF09CI15). Nesse cenário, práticas como colheitas guiadas pela astronomia (Leite & Polli, 2020; Crepalde & Carvalho, 2021) e pela orientação espacial e temporal dessas populações mostram como os ciclos naturais influenciam a relação das comunidades tradicionais com a extração de recursos naturais, como o miriti (M. Santos & Miranda, 2023). Assim, o corte das folhas do miritizeiro é feito em alguns locais de Abaetetuba apenas em noites de lua nova (M. Santos & Miranda, 2023), que é quando o sol está iluminando o ‘lado invisível’ da lua, e ela não pode ser vista da terra em nenhum momento do dia ou da noite. Segundo os participantes da pesquisa, para coletar uma nova folha de miriti, espera-se a próxima lua cheia, conforme o seguinte relato: “Tem oito folhas, se tirar quatro na outra lua já cresceu de novo, a cada lua cheia nasce o grelo. Em uma lua cheia nasce, em outra lua cheia a folha já está aberta...” (artesão, informante 2, comunicação pessoal, 2023).
Em geografia, habilidades previstas para o primeiro ano do ensino fundamental permitem que os alunos explorem a dinâmica da variação da cultura material e imaterial, incluindo mudanças nas brincadeiras, nas vestimentas e em outros acessórios que fazem parte do dia a dia dos locais em que vivem (EF01GE02 e EF01GE06). Essas habilidades proporcionam o uso de abordagens voltadas à identificação da variação cultural de brincadeiras (Souza & L. Machado, 2021) e, no caso de Abaetetuba, especialmente no que se refere aos brinquedos de miriti.
Por outro lado, as habilidades de ‘descrever atividades de trabalho relacionadas com o dia a dia da sua comunidade’ (EF01GE07) e associar ‘mudanças de vestuário e hábitos alimentares às variações climáticas’ (EF01GE11) podem ser exploradas no contexto escolar, visualizando como as atividades de trabalho e hábitos locais no cenário da cultura do miriti são caminhos para contextualizar e auxiliar na autocompreensão da identidade cultural dos alunos.
Em história, a habilidade de incentivar os alunos a ‘identificarem a distribuição territorial da população brasileira em diferentes épocas, considerando a diversidade étnico-cultural’ (EF07HI12), pode auxiliá-los a compreender sua herança cultural e territorial na Amazônia, com as particularidades de costumes de diferentes povos, bem como a perceber como essas práticas se refletem na resiliência e na adaptação de comunidades quilombolas e ribeirinhas às mudanças no território e na economia ao longo do tempo. O miriti pode ser tomado como exemplo dessa herança, visível nos traços artísticos presentes em pinturas e trançados (R. Santos & Coelho-Ferreira, 2012; Coelho et al., 2020).
ALIMENTAÇÃO E BEBIDA
No âmbito da alimentação e bebida, registraram-se dez preparos na culinária regional utilizando infrutescências e inflorescências do miriti, tendo como base as flores da palmeira macho e o mesocarpo (polpa) do fruto. Na alimentação animal, registrou-se também o consumo de flores por peixes, além do estipe em decomposição por moluscos conhecidos em Abaetetuba como ‘turus’ (Teredo sp.). Essa riqueza alimentícia constitui outra importante relação biocultural que pode ser abordada nas disciplinas de ciências e geografia do ensino fundamental I e II, subsidiadas por oito habilidades da BNCC (Tabela 2).
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados para alimentação e bebida. Legendas: EF02CI04 = estimular os estudantes a descrever as características das plantas envolvidas em seu cotidiano; EF02CI05 = explorar o que acontece com as plantas na presença ou ausência de fatores como água e luz; EF02CI06 = identificar as principais partes de uma planta e a função desempenhada por cada uma delas; EF03CI04 = identificar os seres mais próximos ao ambiente de vivência dos alunos; EF04CI06 = relacionar a decomposição ao papel de fungos e bactérias no ambiente; EF06CI02 = identificar transformações químicas; EF08CI07 = comparar processos reprodutivos entre plantas e animais; EF03GE05 = identificar alimentos e produtos extraídos da natureza e comparar as atividades de trabalho em localidades diferentes.
Na culinária, o miritizeiro garante a preparação de diversos alimentos a partir da polpa, como bolos, mingaus, pão, pudim, mousse, molho para comer com camarão, suco, vinho e licor (Germano et al., 2014; Bitar & Koury, 2021). Além do mais, os informantes apontaram que a flor da palmeira masculina é utilizada tanto na produção de licores quanto na alimentação, como relatado pelos artesãos, informantes 3 e 4:
O vinho usa muito no mingau e nas comidas salgadas . . . A gastronomia do miriti é uma delícia . . . Eu uso a polpa e o suco do miriti bem grosso . . . A cor é amarela, todo mundo conhece, o sabor tem doce e um meio azedo . . . Tem que escolher o sabor bem doce para não ficar azedo no dia seguinte. O cheiro é aquele aroma, é quase tucupi . . . O mingau é mais popular, na nossa cidade é o mais vendido em feira, nas frentes das casas (artesão, informante 3, comunicação pessoal, 2023).
. . . da palmeira tudo é utilizado, a gente chama de palmeira ‘benta’ . . . A flor dele dá pra fazer vários tipos de licor . . . E da fruta vários tipos de suco e mingau (artesão, informante 4, comunicação pessoal, 2023).
Os usos ora mencionados podem ser diretamente relacionados às habilidades da BNCC em ciências para o 2º ano do ensino fundamental I. Na unidade temática de vida e evolução, busca-se ‘estimular os estudantes a descrever as características das plantas envolvidas em seu cotidiano’ (EF02CI04), habilidade que abrange plantas como o miritizeiro. Nessa perspectiva, segundo C. Ribeiro et al. (2024), investigar os órgãos vegetais – observando tamanho, forma, coloração e fases de desenvolvimento, desde a semente e a plântula até a formação do fruto e seu uso em alimentos – pode ser base para discussões nessa temática, explorando como as plantas que fazem parte do dia a dia ajudam na manutenção da cultura alimentar local.
Os alunos também são instigados a ‘explorar o que acontece com as plantas na presença ou ausência de fatores como água e luz’ (EF02CI05). Essa habilidade pode ser associada ao estudo do desenvolvimento do miritizeiro, analisando, por exemplo, como o ciclo de produção dos frutos depende de condições ambientais específicas para o seu desenvolvimento (G. S. Santos & M. Araújo, 2022). Essa associação possibilita o aprendizado de que fatores como água e luz são essenciais para garantir uma colheita bem sucedida, possibilitando a produção dos alimentos listados na Tabela 2.
‘A identificação das principais partes de uma planta e a função desempenhada por cada uma delas’ (EF02CI06) é uma habilidade que pode ser aplicada ao estudo das várias partes do miritizeiro, destacando seus papéis e usos específicos no preparo de alimentos e bebidas. Os alunos podem investigar a relação entre a polpa do fruto e seus diversos produtos alimentares, já explicitados por Germano et al. (2014) e Bitar e Koury (2021), compreendendo também como as partes da planta relacionam-se com suas funções ecológicas e utilitárias, tanto para os seres humanos quanto para outros organismos, como a ictiofauna.
No 3º ano, ainda na unidade temática de vida e evolução, as características e o desenvolvimento dos animais podem ser explorados com a habilidade de ‘identificar os seres mais próximos ao ambiente de vivência dos alunos’ (EF03CI04), como os peixes, que, segundo os informantes, se beneficiam da flor macho do miritizeiro, e os turus, que se alimentam de estipes apodrecidos da palmeira (M. G. Ferreira et al., 2022). Observações como essas abririam espaço para uma compreensão mais ampla das interações ecológicas e alimentares entre plantas e animais (Carus & Malinowski, 2023), evidenciando a importância da flora local como fonte de alimento em diferentes níveis da cadeia alimentar.
Para o 4º ano, propõe-se que os estudantes ‘relacionem a decomposição ao papel de fungos e bactérias no ambiente’ (EF04CI06). Nesse caso, os restos de alimentos produzidos a partir do miriti, como cascas e fibras, podem ser discutidos dentro do processo de decomposição natural, ajudando a entender o ciclo de nutrientes no ecossistema e a importância ambiental desse processo (Junk et al., 2015).
Os estudantes do 6º ano são estimulados a ‘identificar transformações químicas’ (EF06CI02) durante a preparação de alimentos, ao analisarem como o mesocarpo do miriti é transformado durante a preparação de alimentos como bolos e mingaus. Os alunos podem compreender as reações químicas que ocorrem, como a mudança de estado dos ingredientes quando aquecidos, fermentados ou misturados. G. M. Santos et al. (2021) relatam que os frutos do miriti eram depositados por indígenas da Amazônia em canoas, ainda dentro da água, para o amolecimento (fermentação) da polpa. Essa antiga prática é um exemplo de como a ciência está presente no cotidiano e na alimentação.
‘A comparação de processos reprodutivos entre plantas e animais’ (EF08CI07) é uma habilidade para o 8º ano que proporciona a discussão a respeito dos mecanismos adaptativos de espécies como o miritizeiro, por garantir sua reprodução e perpetuação na natureza. Observar uma palmeira dioica, como o miriti, as flores do indivíduo masculino e o fruto que já foi uma flor de um indivíduo feminino (M. G. Ferreira et al., 2022) pode exemplificar aspectos da biologia reprodutiva e suas implicações nos ecossistemas, como a relação com polinizadores.
No campo da geografia, propõe-se que os alunos ‘identifiquem alimentos e produtos extraídos da natureza e comparem as atividades de trabalho em localidades diferentes’ (EF03GE05). Nesse contexto, o manejo do miritizeiro na Amazônia pode abranger o papel fundamental da agricultura e do extrativismo sustentável na região. É importante destacar como essas práticas tradicionais e contemporâneas contribuem para o sustento das comunidades locais e como cada uma interage com os recursos naturais de maneira única. Segundo Farias e Costa (2024), tal abordagem pode fornecer inferências valiosas sobre a importância do manejo sustentável do miritizeiro e seu impacto no desenvolvimento regional.
CONSTRUÇÃO CIVIL
Comunidades quilombolas e ribeirinhas de Abaetetuba aproveitam diversas partes do miriti, como as folhas (folíolo, pecíolo e epiderme do pecíolo) e o estipe (inteiro) para a construção civil. Foram identificadas 11 diferentes utilidades dessas quatro partes da palmeira, destacando-se o uso em cobertura de casas, revestimento de paredes, forros, divisórias, acabamentos de janelas, além de pontes e cercados, devido à resistência e à durabilidade do material, como pode ser observado no depoimento: “As casas no sítio eram cobertas de folha de miriti, açaí e palha de buçu, a gente fazia as paredes de miriti, era uma esteira de tala bem amarrada que servia de divisória” (artesã, informante 5, comunicação pessoal, 2023).
Os traços e os formatos característicos da arquitetura amazônica, assim como aspectos do modo de vida das crianças nessas comunidades, podem ser explorados pedagogicamente nas disciplinas geografia, matemática e ciências, no ensino fundamental I, com o suporte para 13 habilidades previstas na BNCC (Tabela 3).
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados na construção civil. Legendas: EF01GE01 = descrever as características dos lugares onde vivem e identificar semelhanças e diferenças entre eles; EF01MA13 e EF01MA14 = identificar a relação de figuras geométricas com objetos do cotidiano; EF03MA15 = classificar figuras planas; EF03MA16 = reconhecer figuras congruentes; EF03MA17, EF03MA18 e EF03MA19 = usar unidades de medida; EF03MA20 e EF03MA21 = estimar, medir e comparar comprimentos e áreas, utilizando unidades padronizadas e não padronizadas; EF04MA20 = medir e estimar comprimentos; EF02CI01 = identificar os materiais usados em objetos do cotidiano, comparando seu uso atual e passado; EF02CI02 = usar diferentes materiais com base em propriedades como flexibilidade e resistência.
Com base nas correlações da Tabela 3, observa-se que, no componente de geografia para o 1º ano do ensino fundamental, é proposto aos alunos que ‘descrevam as características dos lugares onde vivem e identifiquem semelhanças e diferenças entre eles’ (EF01GE01). Essa habilidade pode ser aplicada à observação e à análise das moradias tradicionais construídas com partes do miritizeiro, conforme descrito por T. Pinheiro e Fonseca (2016). A comparação entre essas construções, baseadas no saber-fazer tradicional, e as edificações de alvenaria permite uma reflexão sobre as técnicas e os materiais utilizados localmente, valorizando os conhecimentos culturais e ambientais das comunidades amazônicas.
Em matemática, as habilidades EF01MA13 e EF01MA14 envolvem a ‘identificação e a relação de figuras geométricas com objetos do cotidiano’. De acordo com Barros e Pavanello (2022), o livro didático constitui uma ferramenta importante para a compreensão dessas habilidades. No entanto, é fundamental o uso de estratégias complementares que promovam a contextualização do conteúdo. Um exemplo eficaz é a associação de formas cilíndricas ao formato transversal do pecíolo e do estipe do miritizeiro, utilizados em construções tradicionais. Também, figuras geométricas como quadrados, triângulos e retângulos podem ser identificadas na armação de braços de miriti, presentes em forros de casas, promovendo uma aprendizagem significativa e conectada à realidade dos alunos.
Melo et al. (2024) discutiram como elementos culturais das habitações Mẽbengôkre Kayapó, da aldeia Prinekô, localizada no município de Santana do Araguaia, Pará, podem ser relacionados às habilidades do 3º ano do ensino fundamental, em especial a que propõe a ‘classificação de figuras planas’ (EF03MA15). Observações semelhantes podem ser realizadas em construções com miriti em Abaetetuba, como na análise da disposição dos folíolos nas coberturas das casas ou na organização das divisórias feitas com talas de miriti em janelas.
A habilidade que envolve o ‘reconhecimento de figuras congruentes’ (EF03MA16) também pode ser desenvolvida a partir da análise de padrões repetitivos presentes nessas construções. Tais padrões podem ser observados em coberturas, forros, cercas e persianas utilizadas como portas, evidenciando a geometria presente nas práticas construtivas tradicionais da região.
Outras habilidades relevantes dizem respeito ao ‘uso de unidades de medida’, (EF03MA17, EF03MA18 e EF03MA19). Nas comunidades, uma das etapas fundamentais do processo construtivo é a escolha do tamanho adequado das partes do miritizeiro a serem cortadas, como o comprimento do pecíolo utilizado em forros ou a espessura do estipe empregada na construção de pontes. Essa prática oportuniza aos alunos a compreensão sobre como os trabalhadores das comunidades utilizam padrões próprios de medição, adaptando-se às características do material disponível no território. Trata-se de um exemplo contextualizado concreto da aplicação de conceitos matemáticos no cotidiano.
O exercício das habilidades que envolvem ‘estimar, medir e comparar comprimentos e áreas, utilizando unidades padronizadas e não padronizadas’ (EF03MA20 e EF03MA21), complementa as práticas observadas nas construções com miriti. No 4º ano, a habilidade EF04MA20, voltada à ‘medição e estimativa de comprimentos’, também se aplica ao planejamento dessas construções, destacando o uso consciente das partes da planta e valorizando os saberes tradicionais (T. Pinheiro & Fonseca, 2016).
Em ciências, a habilidade EF02CI01 propõe que os alunos ‘identifiquem os materiais usados em objetos do cotidiano, comparando seu uso atual e passado’. Nesse contexto, o uso tradicional do miritizeiro na construção civil pode ser explorado, destacando como comunidades utilizavam partes da palmeira em suas edificações, em contraste com a predominância atual de tijolos e concreto. Essa comparação valoriza o conhecimento ancestral e a criatividade no uso de recursos naturais (A. Santos & Claudino, 2020).
A habilidade subsequente incentiva que os alunos experimentem o ‘uso de diferentes materiais com base em propriedades como flexibilidade e resistência’ (EF02CI02). O uso do miriti na construção civil ilustra bem essa proposta: a flexibilidade dos folíolos os torna ideais para coberturas (Bitar & Koury, 2021), ainda que o uso seja atualmente limitado (R. Santos & Coelho-Ferreira, 2012). A dureza do estipe é adequada para pontes e cercados (M. G. Ferreira et al., 2022) e o formato dos pecíolos favorece o encaixe em forros. Essa análise estimula a reflexão sobre a escolha e a adaptação de materiais naturais conforme as necessidades e os contextos de uso.
AGRICULTURA E PESCA
No contexto da agricultura e da pesca, principais fontes de renda das populações insulares de Abaetetuba (R. Pinheiro et al., 2024), as folhas (epiderme do pecíolo) e o estipe do miriti desempenham um papel essencial na confecção de instrumentos de trabalho e no fornecimento de insumos para essas práticas. Foram identificados sete usos do miriti nessa categoria, os quais podem ser explorados em aulas de história e geografia no ensino fundamental I e de ciências no ensino fundamental II. Relacionados a três habilidades da BNCC, esses conteúdos ajudam os alunos a compreenderem práticas milenares ainda presentes no cotidiano (Tabela 4).
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados na agricultura e na pesca. Legendas: EF02HI11 = identificar os impactos ambientais causados pelas formas de trabalho em sua comunidade; EF03GE10 = abordar os cuidados com o uso da água na agricultura; EF09CI15 = relacionar as leituras do céu e as necessidades de distintas culturas.
As talas das folhas do miritizeiro são amplamente utilizadas na confecção de utensílios como matapis, cestas para pesca, rasas, paneiros e peneiras, aplicados nas atividades agrícolas (R. Santos & Coelho-Ferreira, 2012; A. Santos & Claudino, 2020; Bitar & Koury, 2021). Sobre isso, a artesã, informante 6, relata: “A tala é esse braço da palmeira, você corta o braço . . . E a parte verde que a gente trabalha com a cestaria . . . no meu trabalho eu utilizo só a tala . . . todas as cestarias são de miriti” (artesã, informante 6, comunicação pessoal, 2023).
Segundo os informantes, o estipe também é aproveitado na construção de canteiros de plantio, enquanto sua medula é usada como adubo natural. Esse material contribui para a fertilização do solo, promovendo a ciclagem de nutrientes sem aditivos químicos (Leonardo et al., 2023), como descreve a artesã: “Quando o miriti cai, ele fica com uma terra preta dentro que serve para plantio, é um adubo natural, ela serve pra cultivar planta medicinal e viver as plantas mais rápido” (artesã, informante 2, comunicação pessoal, 2023).
Na disciplina de história, a habilidade em que se propõe que os alunos ‘identifiquem os impactos ambientais causados pelas formas de trabalho em sua comunidade’ (EF02HI11) pode ser abordada ao se analisar como as atividades agrícolas e pesqueiras afetam o meio ambiente e de que forma o uso sustentável dos órgãos do miritizeiro contribui para reduzir esses impactos, evitando o uso de materiais poluentes desde a origem.
Em geografia, no 3º ano, a habilidade que trata dos ‘cuidados com o uso da água na agricultura’ (EF03GE10) pode ser abordada ao se discutir práticas tradicionais, como o uso da medula como adubo. Essa técnica reduz a necessidade de irrigação intensa, preserva os recursos hídricos e evita a poluição, uma vez que a adubação orgânica diminui o uso de fertilizantes e melhora a fertilidade do solo (Karpinski et al., 2024).
Em ciências, no 9º ano, a habilidade, que explora as ‘leituras do céu e sua relação com a agricultura’ (EF09CI15) pode ser trabalhada a partir do estudo do miritizeiro. A comunidade local sincroniza o ambiente com seus ciclos de plantio e pesca, combinando conhecimentos ecológicos e astrológicos para otimizar o uso dos recursos (Batista et al., 2020).
RELIGIOSIDADES
As folhas (folíolos e pecíolos) e as partes das infrutescências (mesocarpo e ráquilas) do miritizeiro são utilizadas em expressões religiosas em Abaetetuba. O presente levantamento identificou sete usos do miriti em manifestações do catolicismo popular e de religiões de matriz africana. Esses usos podem ser relacionados aos conteúdos de geografia no ensino fundamental I e aos do ensino religioso no fundamental II, com oito habilidades específicas, descritas na Tabela 5.
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados em práticas religiosas. Legendas: EF05ER01, EF05ER04 e EF05ER05 = abordar a tradição oral como objeto do conhecimento; EF05ER06 = identificar o papel ancestral na comunicação e preservação da tradição oral; EF01GE08 = criar mapas mentais e desenhos com base em contos, histórias e brincadeiras; EF03GE01 = identificar e comparar aspectos culturais de grupos sociais em diferentes espaços; EF03GE02 e EF03GE03 = abordar a contribuição cultural e econômica de diferentes grupos e reconhecer os modos de vida das populações tradicionais.
Os informantes relataram que os folíolos do miritizeiro são utilizados na confecção de estandartes usados em procissões nas ilhas do município. Já os pecíolos servem para a produção de oratórios, imagens de santos católicos e como instrumentos ritualísticos das religiões de matriz africana, a exemplo dos vultos de orixás. Segundo os informantes, as infrutescências também são aproveitadas: do mesocarpo (polpa) é preparado o mingau de miriti, tradicionalmente servido nas festas dos santos como forma de celebrar os padroeiros e fortalecer os laços comunitários.
Comidas típicas presentes em festas religiosas representam a cultura local e contribuem para a construção de um espaço social (A. Ferreira et al., 2024). Outras partes do miritizeiro também são utilizadas, como as ráquilas da palmeira feminina, aproveitadas por sua estética na ornamentação de altares religiosos em igrejas das comunidades ribeirinhas. Os trechos a seguir exemplificam essa relação entre o miriti e as práticas religiosas locais.
Vale a pena fazer alguma coisa religiosa para simbolizar a nossa fé . . . Eu não vou para o Círio sem levar peças religiosas (artesão, informante 3, comunicação pessoal, 2023).
Eu produzia peças religiosas em madeira e passei a usar a técnica no miriti . . . Muitas vezes, a pessoa vem com a promessa de fazer a imagem de ‘tal’ santo e eu reproduzo essa peça, sempre tá Nossa Senhora envolvida. De santo sai São Benedito, crucifixo, São José, que é muito forte aqui (artesão, informante 7, comunicação pessoal, 2023).
Para minha religião de matriz africana, de miriti eu faço barquinhas para iemanjá para soltar no mar, machadinha de xangô (artesão, informante 8, comunicação pessoal, 2023).
Podemos associar, de forma geral, os usos do miriti ao contexto das religiosidades com a unidade temática ‘Crenças religiosas e filosofias de vida’, do ensino religioso no 5º ano. Essa abordagem contempla a ‘tradição oral como objeto do conhecimento’, relacionada às habilidades EF05ER01, EF05ER04 e EF05ER05. Os rituais religiosos e o uso simbólico das partes da palmeira de miriti refletem tradições populares, que, segundo Vieira (2024), são transmitidas oralmente por meio de relatos, contos e lendas e são frequentemente negligenciados pelos livros didáticos (Rabelo & M. L. Ferreira, 2023).
A confecção de artefatos também pode ser compreendida como expressão de crenças populares. Essa prática relaciona-se à habilidade EF01GE08, que propõe a ‘criação de mapas mentais e desenhos com base em contos, histórias e brincadeiras’. A produção de brinquedos de miriti, como a cobra inspirada na lenda da Cobra Grande – reverberada pela poética de João de Jesus Paes Loureiro, escritor abaetetubense (D. Ribeiro & Belo, 2020) –, permite explorar a cultura de Abaetetuba. Acredita-se, de acordo com os artesãos, que essa cobra está adormecida sob o município, com a cabeça na ilha da Pacoca e o rabo sob a catedral de Nossa Senhora da Conceição. Essas representações incentivam a criatividade dos alunos e a valorização das crenças tradicionais.
No campo cultural e territorial, o uso do miriti também se alinha com habilidades da geografia. A habilidade EF03GE01 propõe ‘identificar e comparar aspectos culturais de grupos sociais em diferentes espaços’. O aproveitamento das folhas e infrutescência do miriti revela a adaptação de práticas religiosas aos recursos locais, distintas em relação a outras regiões.
Essa relação se fortalece ao integrar as habilidades EF03GE02 e EF03GE03, que tratam da ‘contribuição cultural e econômica de diferentes grupos e do reconhecimento dos modos de vida das populações tradicionais’. O uso do miritizeiro por tradições religiosas católicas e de matriz africana demonstra a fusão de influências culturais em torno de uma única espécie. Nesse contexto, a planta torna-se um símbolo de ligação entre o mundo dos vivos e o sobrenatural (Barboza et al., 2021).
USO MEDICINAL, COMBUSTÍVEL E COSMÉTICO
Foram identificados sete usos das infrutescências (mesocarpo e ráquilas), inflorescências (ráquilas) e raízes (coroa) do miriti em práticas medicinais, na produção de cosméticos e de combustíveis para uso próprio. Esses usos podem ser explorados nas disciplinas de geografia e ciências, no 4º e 6º anos do ensino fundamental, em articulação com cinco habilidades da BNCC (Tabela 6).
Relações entre habilidades da BNCC e os órgãos do miritizeiro utilizados para fins medicinais, combustíveis e cosméticos. Legendas: EF04GE08 = compreender como os recursos naturais da Amazônia são processados e comercializados, além de promover discussões sobre a sustentabilidade desses processos e sua importância econômica para as comunidades locais; EF04CI01 = identificar misturas no cotidiano; EF04CI02 = testar a reação de materiais como óleo e incenso a diferentes condições, como calor ou exposição ao ambiente; EF04CI03 = compreender a reversibilidade de transformações causadas por aquecimento ou resfriamento; EF06CI01 = classificar como homogênea ou heterogênea a mistura de dois ou mais materiais.
As ráquilas são utilizadas como repelente, na forma de incenso ou aplicação corporal. O mesocarpo é empregado na fabricação de perfumes e seu óleo, extraído da polpa, serve como combustível para lamparinas e como cicatrizante na medicina popular, auxiliando na regeneração da pele. Já a raiz do miritizeiro é usada no preparo de chás medicinais para o tratamento de hemorroidas. Esses usos medicinais podem ser observados no seguinte relato: “Quando nós vamos fazer manejo do miriti, o cacho do miriti nós utilizamos como repelente, ou se queima, ou faz infusão com álcool para passar no corpo e espantar bichinhos. A raiz também é medicinal para hemorroida” (artesão, informante 9, comunicação pessoal, 2023).
Na área da geografia, a habilidade EF04GE08 aborda o processo de transformação de matérias-primas em produtos de consumo, como o óleo e o perfume obtidos do mesocarpo da infrutescência. Essa habilidade permite aos alunos ‘compreenderem como os recursos naturais da Amazônia são processados e comercializados, além de promover discussões sobre a sustentabilidade desses processos e sua importância econômica para as comunidades locais’.
Em ciências, a habilidade EF04CI01 envolve a ‘identificação de misturas no cotidiano’, exemplificada pelo uso do óleo cicatrizante, uma mistura com propriedades medicinais ou cosméticas. Esse estudo amplia a compreensão das características físicas dessas soluções, como textura e cor, e sobre como as propriedades influenciam seu uso.
Por outro lado, a habilidade EF04CI02 permite que os alunos ‘testem como materiais como o óleo e o incenso reagem a diferentes condições, como calor ou exposição ao ambiente’, levando-os a observar transformações reversíveis ou não, como a queima do óleo nas lamparinas ou a evaporação do perfume.
A habilidade EF04CI03, por sua vez, trata da ‘reversibilidade de transformações causadas por aquecimento ou resfriamento’. Pode ser aplicada ao estudo da extração do óleo do mesocarpo, analisando mudanças reversíveis, que vão da fusão à solidificação do óleo, e irreversíveis, como sua queima nas lamparinas ou as mudanças no estado físico da água no preparo do ‘chá’.
Assim, é possível perceber que a utilização de artefatos produzidos a partir de espécies vegetais amazônicas, no caso do presente estudo, o miriti, pode representar uma estratégia viável como recurso didático no ambiente escolar. Essa prática pode ser inserida e adaptada ao contexto educativo, contribuindo tanto para o trabalho pedagógico dos professores quanto para a aprendizagem dos alunos. Tal abordagem está em consonância com Freire e Faundez (1985), ao defenderem a importância da contextualização dos conteúdos, vinculando-os à realidade concreta dos sujeitos, às suas experiências e vivências cotidianas.
Isso pode ser alcançado, por exemplo, por meio da elaboração de sequências didáticas que promovam a problematização do mundo real, aproximando o conhecimento escolar do universo dos estudantes. Esses elementos – como o artesanato, a alimentação, as ferramentas de trabalho, a moradia, as religiosidades e a medicina – passam despercebidos no conteúdo escolar, embora possam ser ferramentas facilitadoras do aprendizado dos alunos.
CONCLUSÃO
A partir de uma perspectiva etnográfica aplicada à educação, a pesquisa revelou relações bioculturais que interligam o miritizeiro (Mauritia flexuosa L.f.), símbolo local em Abaetetuba, Pará, aos saberes dos artesãos e às possibilidades de aplicação pedagógica no ensino fundamental, conforme a BNCC. Esses elementos expressam uma ampla variedade de usos culturais, econômicos e educacionais, evidenciando o miriti como uma importante fonte de identidade social, cultural e pedagógica para a região.
O miriti é, assim, um patrimônio cultural que apresenta elevado potencial educativo interdisciplinar, capaz de articular áreas como artes, geografia, ciências, história e matemática. Essas plantas vão muito além do conteúdo de botânica, podendo ser exploradas transversalmente em diversas disciplinas. Embora o miriti tenha sido o foco desta pesquisa, outras espécies vegetais também podem cumprir o papel articulador entre a BNCC e os conteúdos escolares, com base no cotidiano e nas vivências de cada local.
As inter-relações entre as categorias investigadas – usos culturais, valor econômico e potencial pedagógico – demonstram a riqueza do patrimônio biocultural, configurando uma relação triádica entre a natureza do miriti, a cultura dos artesãos e a educação escolar. Essa abordagem contribui para a construção de uma consciência sensível em torno da biodiversidade, associada a uma educação contextualizada e significativa.
Para a concretização dessa proposta, é importante que haja formação continuada de professores, os quais devem ser preparados para integrar saberes locais e científicos. Embora a botânica não esteja presente na BNCC de forma direta, seu aproveitamento pleno depende de práticas formativas eficazes, capazes de transformar esse conhecimento em experiências pedagógicas relevantes.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e ao Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) pela oportunidade de realização do doutorado do primeiro autor; ao Grupo de Pesquisa em Ensino e Aprendizagem de Botânica na Amazônia-Miriti, pelo apoio; e à comunidade de artesãos de miriti de Abaetetuba, Pará, que contribuíram com seus ricos ensinamentos. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) (código de financiamento 001) e do Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação da Amazônia Legal (PDPG-AL) (processo nº 88887.510208/2020-00).
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Responsabilidade editorial:
Márlia Coelho-Ferreira


