Open-access Organizando dados e contando histórias: a longa história indígena do vale do Itajaí a partir de um banco de dados arqueológicos

Organizing data and telling stories: the long Indigenous history of the Itajaí Valley (Southern Brazil) from an archaeological database

Resumo

O vale do Itajaí possui uma longa história indígena, evidenciada pela diversidade de sítios arqueológicos que remontam a cerca de 10.000 anos cal AP, bem como pela memória do povo Laklãnõ-Xokleng. No entanto, a ênfase no uso de categorias compartimentalizadas na arqueologia dificulta a compreensão da profundidade temporal dos processos de ocupação da região. A partir de uma síntese atualizada do contexto arqueológico do vale do Itajaí, com base na sistematização do banco de dados arqueológicos (BDA) e nas atividades de campo realizadas nos últimos anos, este artigo propõe uma perspectiva que ressalta o entrelaçamento das histórias indígenas de longa duração. O objetivo é ampliar as sínteses anteriores, incorporando informações sobre o médio e o baixo vale, promovendo uma visão integrada das dinâmicas de ocupação e de interação ao longo do vale do Itajaí. São apresentados os dados referentes às categorias de sítios arqueológicos registrados na região e às características de localização na paisagem de sítios líticos, Jê meridionais, de terra preta, abrigos sob rocha e sambaquis (costeiros e fluviais). Por fim, são apresentados os dados da cronologia regional, destacando-se três períodos de ocupação contínuos que não correspondem, necessariamente, a rupturas do processo histórico de ocupação do vale do Itajaí.

Palavras-chave
Arqueologia do vale do Itajaí; Longa história indígena; Banco de dados arqueológicos

Abstract

The Itajaí Valley has a long Indigenous history, evidenced by the diversity of archaeological sites dating back approximately 10,000 years BP and the enduring memory of the Laklãnõ-Xokleng peoples. However, archaeology’s tendency to categorize data into discrete units has often limited the understanding of the temporal depth and continuity of regional occupation processes. Based on the systematization of the archaeological database (AD) and recent fieldwork, this article proposes a perspective that highlights the intertwining of long Indigenous histories. The objective is to build upon previous syntheses by incorporating data from the middle and lower valley, thereby fostering a more integrated understanding of the dynamics of occupation and interaction throughout the study area. The data presented herein concern the categories of archaeological sites recorded in the Itajaí valley and environmental variables related to the spatial distribution of lithic sites, Southern Jê sites, black earth sites, rock shelters and shellmounds (coastal and riverine). Additionally, the regional chronology is addressed, highlighting three continuous periods of occupation, that should not be interpreted as ruptures in the historical process of occupation of the Itajaí valley.

Keywords
Archaeology of the Itajaí Valley; Long Indigenous History; Archaeological database

INTRODUÇÃO

A longa história dos povos indígenas no Sul do Brasil é conhecida pela memória dos povos Guarani, Kaingang, Laklãnõ-Xokleng, Xetá e Charrua, por documentos históricos e ampla variedade de sítios arqueológicos, cujas datas remontam a pelo menos 12.000 anos cal AP (Dias & Jacobus, 2003; M. Santos et al., 2024; G. Silva, 2022). Considerando o conjunto de informações disponíveis sobre a diversidade, a distribuição geográfica e cronológica dos sítios arqueológicos no Sul, bem como as características ambientais, uma das áreas que se destaca é o vale do rio Itajaí, em Santa Catarina. Do ponto de vista ambiental, o vale do Itajaí representa a principal bacia fluvial que une o planalto ao litoral, perpassando áreas de serra, sendo também uma das maiores em termos de extensão (≅ 15.000 km2). Do ponto de vista arqueológico e da história indígena, reúne atualmente uma amostra com mais de 400 sítios, cuja cronologia abrange aproximadamente 10.000 anos cal AP até o presente, além da única terra indígena (TI) demarcada e homologada no Brasil para o povo Laklãnõ-Xokleng.

As primeiras pesquisas arqueológicas realizadas no Sul tiveram como objetivo mapear a dispersão temporal e espacial dos conjuntos artefatuais, resultando na identificação das tradições arqueológicas, que foram e continuam sendo utilizadas para classificar e analisar os contextos a partir de perspectivas rígidas e dicotomizadas dos processos históricos de ocupação da região (Noelli, 1999, 2000; Reis et al., 2018; F. Silva & Noelli, 1996). Segundo o modelo interpretativo tradicional, o processo de ocupação do vale do Itajaí seria marcado por quatro conjuntos arqueológicos principais: 1) uma ocupação antiga, associada à tradição Umbu, caracterizada pela presença de sítios líticos com pontas bifaciais, localizados em áreas abertas e abrigos, principalmente no alto vale; 2) os sambaquis no alto e baixo vale, identificados no contexto arqueológico a partir de 5.000 anos cal AP; 3) os sítios vinculados aos povos Jê meridionais, com composição variada, distribuídos predominantemente no alto vale e associados a um intervalo cronológico de 3.000 anos cal AP

até o presente; e 4) sítios associados aos povos Guarani, com pouca representatividade amostral até o momento, mas que, assim como os povos Laklãnõ-Xokleng e Kaingang, seguem presentes no vale do Itajaí (Eble, 1973b; Eble & Scatamacchia, 1974; IBGE, 2023, 2025; Piazza, 1966a, 1966b, 1967; Rohr, 1984; Schmitz et al., 2009).

Pesquisas realizadas nos últimos dez anos, assim como mudanças em termos de orientação teórico-metodológica, apontam para os limites, os problemas e as inadequações desse modelo interpretativo na construção de uma narrativa sobre a longa história indígena que se desenvolve no vale do Itajaí há pelo menos 10.000 anos cal AP (Fonseca, 2015; Machado et al., 2020b; Machado, 2021; W. Priprá, 2021; Reis, 2015; Tschucambang, 2015).

A partir da síntese atualizada do contexto arqueológico do vale do Itajaí, construído por meio da sistematização do banco de dados arqueológicos e trabalhos de campo orientados para a conferência desses dados, este artigo busca construir uma perspectiva que destaque o entrelaçamento das histórias indígenas de longa duração, considerando lugares e coisas (Bueno, 2019; Corrêa, 2013; Douki & Minard, 2007; Neves, 2015). O objetivo é complementar e expandir as sínteses e as pesquisas anteriores que abordaram o alto vale (Almeida, 2020; Eble, 1973b; Machado et al., 2020b; Machado, 2021; Matarrese, 2018; Pereira, 2021; Piazza, 1967; W. Priprá, 2021; Reis et al., 2018), incorporando informações sobre as demais áreas do vale (baixo e médio). Com isso, buscamos construir uma perspectiva integrada que possibilite compreender as dinâmicas de interação entre os diversos compartimentos da paisagem, discutindo o papel do vale do rio Itajaí nos processos históricos de ocupação indígena da região, que seguem em transformação no contexto atual.

O VALE DO ITAJAÍ: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E HISTÓRICO DE PESQUISAS

O vale do Itajaí corresponde à área da bacia hidrográfica do rio homônimo, formado pela confluência dos rios Itajaí do Sul e Itajaí do Oeste e que deságua no oceano Atlântico, apresentando uma grande diversidade florística relacionada à presença das florestas Ombrófila Densa (Mata Atlântica), Ombrófila Mista (Mata de Araucárias) e Estepes Ombrófilas (campos naturais) (Aumond et al., 2018). A região é dividida em três segmentos: o baixo, localizado no litoral centro-norte de Santa Catarina; o médio, que corresponde a uma área de transição com as encostas da serra; e o alto, caracterizado pelos patamares e planaltos. O baixo vale é marcado pelo relevo suavemente ondulado das extensas planícies litorâneas e fluviais, formadas pelos depósitos colúvio-aluvionares, cercadas por encostas íngremes do embasamento cristalino da serra do Tabuleiro/Itajaí, formando vales profundos com cristas bem marcadas. A elevação nas planícies não passa de 100 m, enquanto nas porções da serra pode atingir até 800 m (Adami & Frank, 2018; G. Santos, 2018).

O médio vale possui quatro unidades geomorfológicas: os depósitos colúvio-aluvionares (vales), a serra do Tabuleiro/Itajaí (leste), os patamares do alto rio Itajaí (oeste) e de Mafra (norte). O relevo é constituído por um mosaico de planícies nos vales, encostas com vales encaixados e topos convexos (inselbergs) na serra, além de terrenos planos e ondulados em formato de degraus nos patamares. A altitude oscila entre 600 e 1.000 m nas áreas dos patamares, e até 70 m nas planícies (Adami & Frank, 2018; G. Santos, 2018). No alto vale, predominam os patamares com relevo caracterizado por intensa dissecação, com escarpas e vales. A região possui variações altimétricas significativas: de 220 m nas áreas de vales até 1.220 m nos topos (Aumond, 2018; G. Santos, 2018). A dinâmica entre esses segmentos pode ser resumida no transporte de sedimentos das porções do médio e alto vale que são depositados nas planícies de inundação do baixo vale1 (Aumond et al., 2018).

Apesar de se tratar de uma das principais vias fluviais que interligam o planalto à faixa costeira em Santa Catarina, poucas pesquisas arqueológicas foram realizadas na região, sobretudo nas áreas da encosta e serra do alto e do médio vale, bem como nas planícies de inundação do baixo vale. Os primeiros relatos sobre sítios arqueológicos na região são de Wiener (1876) que, acompanhado de Fritz Müeller, visitou sambaquis no baixo vale, descrevendo suas dimensões e estratigrafias, além de coletar lâminas de machado e outros artefatos polidos.

As primeiras pesquisas arqueológicas sistemáticas na região foram realizadas no início dos anos 1960, conduzidas por Walter Piazza e Alroíno Eble2, e resultaram no registro de 19 sítios3 arqueológicos ao longo do vale do Itajaí. No mesmo período, João Alfredo Rohr escavou um sítio lítico a céu aberto, o SC-VI-13, em Alfredo Wagner, que apresentava características únicas para a região: a sua localização, em meio a um antigo pântano, possibilitou a preservação de vestígios em madeira, fibra de imbé, argila não queimada, além de líticos lascados, alisados e modificados pelo uso (Rohr, 1967). A primeira datação da região é proveniente desse sítio, com idades entre 3.800-2.500 anos cal AP4 (Mielke & Long, 1969; Prous & Piazza, 1977). Alguns dos sambaquis do baixo vale também foram datados nesse período e, embora não apresentem informações claras sobre os contextos das amostras, as datas obtidas indicam ocupações entre 7.100-4.300 anos cal AP nos sambaquis Pocinho (SC-VI-06) e Gaspar (Mielke & Long, 1969; Martin et al., 1988).

Dando continuidade aos trabalhos de Piazza, Eble (1973b) identificou mais de uma centena de sítios distribuídos no médio e alto vale, destacando-se sítios líticos e de estruturas semissubterrâneas, além de poucos sítios com cerâmica ‘não Tupiguarani’ – posteriormente reconhecida como cerâmica Jê meridional5 – e cerâmica Guarani. Eble destacou a presença de cerâmica fragmentada em sítios líticos, observando que os conjuntos líticos em superfície, tantos de sítios líticos quantos lito-cerâmicos, eram semelhantes, embora não tenha detalhado suas características. Em relação ao contexto registrado, o autor sugeriu que a variabilidade artefatual e a localização dos sítios poderiam ser resultado de adaptações sazonais de um mesmo grupo (Eble, 1973b, pp. 43-44).

A partir da década de 1990, o engenheiro Altair Wagner (2002) registrou possíveis sítios arqueológicos no município de Alfredo Wagner, no alto vale do Itajaí. Os sítios foram categorizados em quatro grupos: ‘manchas pretas’, em sua maioria com líticos (n = 60), abrigos sob rocha (n = 54), estruturas semissubterrâneas (n = 42) e galerias subterrâneas (n = 6). Wagner (2002) também realizou intervenções e coletas assistemáticas, cujo material coletado compõe o acervo do Museu de Arqueologia Dr. Altair Wagner, fundado em 2002 e localizado na comunidade de Lomba Alta.

Ainda no alto vale, o Instituto Anchietano de Pesquisas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (IAP-UNISINOS) desenvolveu pesquisas em Taió e Mirim Doce, no início dos anos 2000 (Schmitz et al., 2009, pp. 194-195). Como resultado, foram registrados 25 sítios líticos a céu aberto, em sua maioria com pontas bifaciais, e um sítio de estruturas semissubterrâneas. Além do registro de novos sítios, foram realizadas intervenções e coletas de vestígios, bem como foram enviadas amostras para datação de três sítios: dois sítios líticos – SC-TA-19, com datas de 9.100-8.500 anos cal AP, sendo uma das ocupações mais antigas para o estado até então, e SC-TA-03, com idades de 4.800-4.400 anos cal AP – e um sítio de estruturas semissubterrâneas – SC-TA-04, com ocupação de 1.300-500 anos cal AP (Schmitz et al., 2009).

Desde 2014, por meio de diferentes projetos, a equipe do Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Arqueologia da Universidade Federal de Santa Catarina (LEIA-UFSC) vem desenvolvendo pesquisas na região do alto vale (Almeida, 2020; Bueno et al., 2023b; Gonzaga, 2022; Machado, 2016a, 2016b; Machado et al., 2020a, 2020b; Matarrese, 2018; Pereira, 2021; W. Priprá, 2021; Reis, 2015; Reis et al., 2018; Reis, 2024). Esses trabalhos tiveram como foco os municípios de Alfredo Wagner, Rio do Oeste e Taió, onde foram realizadas prospecções e intervenções em sítios em abrigo e a céu aberto, com estruturas semissubterrâneas, e lítico em superfície e subsuperfície. Destacam-se as pesquisas realizadas no SC-TA-19, na Gruta do Presépio e na Fenda do Tigre, sendo esses dois últimos associados ao complexo arqueológico Gruta do Tigre em Rio do Oeste (Pereira, 2021).

Além disso, também foram realizadas prospecções em locais selecionados do alto vale para a conferência de informações oriundas das pesquisas de Eble e Piazza. Esses trabalhos de prospecção e conferência de sítios envolveram também áreas dentro da TI Ibirama Laklãnõ-Xokleng, desenvolvidos por meio de pesquisas colaborativas com a comunidade, envolvendo a participação de pesquisadores indígenas durante todo o processo (Machado, 2017). O conjunto das atividades desenvolvidas pelo LEIA-UFSC gerou dados detalhados sobre a localização, a composição e a cronologia associada aos sítios arqueológicos do alto vale do Itajaí, enfatizando a história indígena contínua e profunda da região e aumentando também, de forma significativa, o número de datações radiocarbônicas disponíveis (Bueno et al., 2023b; Machado et al., 2020a).

Paralelamente, as pesquisas preventivas realizadas no vale do Itajaí resultaram na relocalização de alguns sítios identificados por Piazza e Eble (1968)6, como os sambaquis Pedra de Amolar e Ilhota 2 no baixo vale7 (Schwengber & Santos, 2018; Geoarqueologia, 2011), bem como de sítios líticos a céu aberto com terra preta e de amoladores polidores-fixos no alto vale (Schwengber, 2016; Schwengber et al., 2021).

A pesquisa de W. Priprá (2021) destaca-se por narrar a história do seu povo, os Laklãnõ-Xokleng, a partir da memória dos lugares de acampamentos antigos existentes na TI Laklãnõ-Ibirama e em áreas do entorno. Com base em fotografias históricas, entrevistas com anciãos e visitas aos locais mencionados, W. Priprá (2021) registrou pelo menos 17 lugares de acampamentos relacionados tanto ao período anterior ao contato quanto ao posterior. Tal abordagem de pesquisa, ancorada na memória territorial dos Laklãnõ-Xokleng, contribui significativamente para a compreensão da profundidade temporal da ocupação indígena na região, dialogando diretamente com as evidências arqueológicas registradas no vale do Itajaí e região sul. Assim, os dados arqueológicos, etnohistóricos e etnográficos indicam, de forma convergente com o registro da memória Laklãnõ-Xokleng, que o vale do Itajaí tem sido continuamente ocupado, ao longo de pelo menos dois milênios, por comunidades falantes do ramo meridional da família linguística Jê e seus ancestrais (Gakran, 2015; Lavina, 1994; Machado, 2015; Machado et al., 2020a; Noelli, 2000; S. Santos, 1973; Urban, 1992; Wiesemann, 1978).

No século XIX, a longa e contínua história de ocupação indígena no vale do Itajaí foi impactada pela intensificação da colonização europeia na região. Esse processo foi marcado pela violência organizada e institucionalizada, impulsionada por políticas estatais como a ‘Lei de Terras’, de 1850, que acelerou a expropriação do território Laklãnõ-Xokleng ao defini-lo como devoluto (vazio). O etnogenocídio foi estruturado em diferentes frentes: o governo imperial e provincial autorizou, financiou e organizou a repressão da resistência dos povos indígenas à invasão de seus territórios8 por meio da formação de milícias, como a ‘Companhia de Pedestres’, em 1836, e, posteriormente, apoiou a atuação de grupos armados locais, denominados de ‘bugreiros’, cujas ações foram classificadas como ‘medidas de costume’ em documentos oficiais.

Tais grupos armados eram contratados e remunerados pelo Estado, por empresas colonizadoras e pelos próprios colonos, em um processo que visava o extermínio ou a expulsão dos povos indígenas de seus territórios, tendo como justificativa a necessidade de proteger os colonos que viviam com medo dos conflitos com os indígenas (Buba & Paula, 2016; Peres, 2009, 2022; S. Santos, 1973, 1997; Szlachta & Guimarães, 2024; Viana et al., 2025).

O sofrimento imposto ao povo Laklãnõ-Xokleng foi sistêmico e multifacetado: extermínio físico perpetrado por balas, facões, raptos e aprisionamento de mulheres e crianças, frequentemente exibidas como troféus. Após anos resistindo ao projeto colonial etnogenocida e enfrentando violências que resultaram na redução drástica de sua população, chegando perto da extinção (S. Santos, 1973; Viana et al., 2025), comunidades Laklãnõ-Xokleng decidiram firmar uma aliança com os funcionários do posto do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), no alto vale do Itajaí, em 1914, processo no qual foi fundamental a participação dos Kaingang (Paté, 2020). Atualmente, os Laklãnõ-Xokleng vivem em áreas urbanas dos municípios do vale do Itajaí e na TI Ibirama-Laklãnõ, no alto vale, que possui dez aldeias. Nessa TI, também vivem pessoas autoidentificadas como Kaingang e Guarani, sendo que uma das aldeias na TI é Guarani (Taquaty/Takáty) (Paté, 2020; W. Priprá, 2021).

MÉTODOS E MATERIAIS

Os bancos de dados arqueológicos têm se tornado uma importante fonte de pesquisa para investigar questões como processos de transformação em perspectivas de longa duração, identificação de áreas de dispersão de conjuntos materiais e análises espaciais (Bueno et al., 2023a; Hissa & Isnardis, 2022; Kandel et al., 2023; Kozlowski et al., 2022; Milheira et al., 2019; Perez et al., 2018; Steele & Shennan, 2020). A construção do banco de dados arqueológicos (BDA) do vale do Itajaí teve início em 2013, sob responsabilidade do LEIA-UFSC, com o objetivo de compilar dados dos sítios da região de modo a elaborar uma fonte de pesquisa para consultas e análises espaciais.

Desde 2021, o BDA do LEIA foi ampliado para incluir os dados de Santa Catarina, com maior foco no vale do Itajaí. Isso motivou a revisão e a atualização do BDA e, para isso, foram consultados publicações acadêmicas (artigos, dissertações e teses9) e relatórios de pesquisas preventivas, além de informações do banco de dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) e do Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) (Merencio, 2024). Foram adotadas duas estratégias complementares: para o vale do Itajaí, foi realizado um levantamento intensivo, enquanto as demais áreas foram incluídas por meio de consultas extensivas. Atualmente, o BDA é composto por 27 campos relacionados a cinco categorias: dados básicos, forma (características), espaço (localização10), tempo (datas11) e referências (Tabela 1).

Tabela 1
Categorias e campos que compõem o banco de dados arqueológicos.

Como todo banco de dados, a sistematização do BDA apresenta problemas decorrentes da própria documentação disponível, como as pesquisas de Eble (1973a, 1973b), Rohr (1984) e Wagner (2002), para as quais é recorrente a falta de informações acerca da localização e do tipo de material registrado. Em relação às pesquisas de Eble (1973a, 1973b), o Museu de Arqueologia e Etnologia Osvaldo Rodrigues Cabral da Universidade Federal de Santa Catarina (MArquE-UFSC) possui a salvaguarda de esparsos documentos primários e de uma grande quantidade de líticos e poucas cerâmicas provenientes de suas pesquisas, cuja localização das coletas, precisa ou circunstancial, é desconhecida (Machado, 2015, 2021; Namem, 2016). Nesse contexto, outro objetivo relacionado ao BDA foi o de preencher as lacunas informativas sobre a localização dos sítios, possibilitando a correlação, mesmo que aproximada, dos vestígios arqueológicos do acervo do MArquE-UFSC com lugares.

Para isso, buscou-se identificar nominalmente os 88 sítios registrados por Eble (1973a, 1973b) no alto e no médio vale, documentados em um mapa de 197212, por meio de três estratégias complementares que envolveram o uso de sistemas de informação geográfica (SIG) e atividades de campo: 1) identificação de sítios registrados no entorno dos pontos georreferenciados; 2) correlação entre os nomes das localidades e dos pontos georreferenciados, utilizando cartas topográficas do IBGE e do Exército, produzidas nas décadas de 1960 e 1970; e 3) levantamento extensivo em duas áreas, o entorno da TI Ibirama Laklãnõ e o médio vale do Itajaí, com a verificação desses pontos em campo por meio de caminhamentos e conversas com os moradores locais.

Concomitantemente, foram realizadas etapas de reconhecimento no médio e baixo vale, que consistiram em visitas aos acervos de museus, bibliotecas e arquivos históricos para mapear a presença de vestígios arqueológicos nessas instituições, além de conversas informais com moradores. Durante esse levantamento, registramos informações sobre a presença de sítios arqueológicos em todos os municípios visitados, assim como a presença de coleções arqueológicas13.

Todas as datas publicadas para os sítios inseridos no BDA foram calibradas por meio da versão online 4.4 do OxCal (Ramsey, 2022), com dois sigma (2𝜎). Para as amostras de carvão e concha fluvial, foi utilizada a curva atmosférica ShCal20 (Hogg et al., 2020), e a curva Marine 20 para conchas marinhas e amostras litorâneas (Heaton et al., 2020). A influência de dieta mista de recursos marinhos e terrestres foi estimada para as datas provenientes de ossos humanos da costa, com aplicação de uma curva mista (ShCal20 e Marine 20, 50% cada) (Scheel-Ybert, 2019). Para estimar o efeito reservatório do consumo de recursos marinhos, calculamos um ΔR médio de -87 ± 38 14C anos (Alves et al., 2023; Angulo et al., 2005). Além desses procedimentos, foi realizada a correção do 13C para as amostras analisadas antes de 1970, conforme Gilson e Lessa (2020).

Para investigar as possíveis relações de localização na paisagem entre as categorias de sítios, foram adicionadas variáveis ambientais para cada entrada do BDA. Esse procedimento foi realizado no QGis 3.28, por meio do plugin Point Sampling Tool. Foram adicionados os seguintes dados: 1) elevação do modelo digital Forest And Buildings removed Copernicus DEM (FABDEM) com resolução de 30 metros (Neal & Hawker, 2023), 2) classes de declividade, obtidas por meio do cálculo da declividade em porcentagem do raster de elevação e da classificação dos valores, conforme procedimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA)14 (H. Santos et al., 2018), 3) compartimentos e formas do relevo do shapefile de geomorfologia fornecido pelo IBGE (2021), e 4) custo de distância da água, calculado por meio da rasterização do shapefile das drenagens da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA, 2017), atribuindo-se o valor fixo de 1 para as drenagens, seguido da aplicação da ferramenta r.walk.rast, com os seguintes parâmetros: elevação (raster FABDEM), custo de fricção (raster de declividade em graus) e pontos iniciais (raster das drenagens).

RESULTADOS

BANCO DE DADOS

Ao longo da revisão e complementação do BDA, foram identificados erros relacionados ao preenchimento incorreto ou inserção de informações provenientes de bancos de dados externos sem a verificação do conteúdo nas publicações originais. Tais problemas foram identificados nos campos de classificação cultural (associação equivocada), localização (inserção de coordenadas erradas), características marcantes e específicas (inclusão de elementos não associados ao sítio) e referências bibliográficas (indicação de textos que não citavam o sítio). A revisão e a sistematização do BDA do vale do Itajaí revelaram, ainda, a presença de registros duplicados de sítios, que foram identificados com diferentes nomenclaturas ao longo das pesquisas realizadas na região.

Após a revisão, o número de registros aumentou de 320 entradas (264 sítios e 56 locais de interesse15) para 486, incluindo 421 sítios, dos quais 318 possuem informações de localização, além de 58 locais de interesse, quatro informações orais e três coleções pessoais. Ao final da compilação dos dados, observou-se uma diversidade considerável de sítios associados a conjuntos materiais distintos em todo o vale (Figuras 1 e 2).

Figura 1
Sítios arqueológicos registrados no vale do Itajaí: A) lítico a céu aberto, SC-TA-19, em Taió (2019); B) lítico em abrigo sob rocha, Gruta do Presépio, em Rio do Oeste (2023); C) sambaqui Pedra de Amolar, em Ilhota (2024); D) lítico e estrutura semissubterrânea, sítio Tobias Wagner (2024); e E) sítio de estrutura semissubterrânea com terra preta, sítio Caixão Guarda Velha (2024), ambos localizados em Alfredo Wagner.
Figura 2
Mapa com distribuição dos sítios arqueológicos no vale do Itajaí. Legendas: AT = arquitetura de terra, como estruturas semissubterrâneas e montículos; CR = cerâmica; CR-LT = sítios que possuem líticos e cerâmica no mesmo componente.

A maior parte dos sítios está localizada no alto vale (n = 281), seguido pelo médio e baixo vale (n = 20 e 17, respectivamente) (Figuras 2 e 3). Como já observado em trabalhos anteriores (Machado, 2021; Machado et al., 2020a; Piazza, 1966b, 1967; Reis et al., 2018; Rohr, 1984), os sítios líticos predominam no vale do Itajaí (n = 12716). Esse conjunto pode ser subdividido em três categorias principais: 1) a maioria não foi associada a uma tradição arqueológica específica (n = 84), englobando uma diversidade de composições, como conjuntos com vestígios lascados, com e sem pontas bifaciais, sítios com material polido e outros com instrumentos transformados pelo uso; 2) em seguida, há os sítios que, segundo a documentação consultada, foram associados à tradição Umbu (n = 35), possivelmente devido à presença das pontas líticas; 3) com menor representatividade, há os sítios com amoladores polidores-fixos (n = 7). Soma-se aos sítios líticos, ainda, um sítio que apresenta somente vestígios líticos alisados, mas foi classificado como Umbu/Jê na ficha de registro. Em relação à distribuição espacial, tanto os sítios líticos sem tradição atribuída como os associados à tradição Umbu ocorrem, até o momento, somente no alto e no médio vale17 (n = 110/n = 7). Já os sítios com amoladores polidores-fixos (n = 7) estão distribuídos nos três compartimentos do vale do Itajaí.

Figura 3
Quantitativo de sítios registrados por categorias/classificação cultural e respectiva distribuição em cada compartimento do vale (alto, médio e baixo). Legendas: LT = lítico; AT = arquitetura de terra.

A segunda maior categoria é formada pelos sítios ‘não definidos’ (n = 61), que correspondem aos pontos do mapa de Eble (1972), localizados no alto vale e que não tiveram, até o momento, a correlação nominal definida. Os vestígios dessa categoria de sítio compõem o acervo do MArquE-UFSC, e apresentam, em sua maioria, líticos, tanto lascados como modificados pelo uso, mas há, também, fragmentos de cerâmica Jê meridional e Guarani, além de madeiras fossilizadas. Como não dispomos de informações que nos permitam relacionar sítios e coleção, não há como classificá-los quanto ao seu conteúdo.

Em terceiro, há os sítios associados à presença Jê meridional (n = 59), segundo a bibliografia. Nessa categoria, há uma grande diversidade, com predomínio das estruturas semissubterrâneas (n = 55), seguidas dos montículos (n = 2) e dos sítios líticos e cerâmicos (n = 2). Assim como observado nos sítios líticos, com e sem pontas, a maioria dos sítios Jê meridional está localizada no alto e no médio vale (n = 58/n = 4), com casos isolados de sítios cerâmicos nas porções baixas da ‘fronteira’ entre o alto e o médio vale.

Em quarto, há os sítios que apresentam unicamente termóforas e sedimento escuro, comumente designado como terra preta (n = 31). Esses sítios ocorrem em maior densidade no alto vale (n = 30), mas as etapas de reconhecimento realizadas pelo LEIA-UFSC identificaram essa categoria de sítio no médio vale (n = 1).

Após a revisão dos dados, foi constatado que os abrigos sob rocha correspondem à quinta categoria de sítios, com localização concentrada no alto vale (n = 16). Os dados disponíveis indicam que a maioria desses abrigos apresenta sepultamentos e que podem ou não ocorrer líticos, como na Gruta do Ribeirão Herta (SC-VI-16) e no Alto Jararaca II (SC-VI-33), respectivamente. Por outro lado, não há, até o momento, indícios de que outros abrigos tenham sido utilizados para enterramentos, ocorrendo, assim, somente vestígios líticos, estruturas de combustão e fauna, como na Gruta do Presépio.

Os sambaquis correspondem à sexta categoria e estão localizados em sua maioria no baixo vale (n = 10), ocorrendo também um sambaqui fluvial no alto vale – Nova Bremen (SC-VI-12). Quanto ao período histórico mais recente, foram registrados três sítios: um no alto vale (antiga sede do SPI), um naufrágio em Navegantes e uma armação baleeira em Penha. Também há três sítios líticos com ocorrência de faianças e vidros, no médio vale. Por último, há categorias com menor quantidade de sítios. No baixo vale, há um sambaqui com vestígios históricos recentes e dois com cerâmica Jê meridional. Já para o alto vale, foram registrados três sítios líticos (Umbu, lítico lascado e terra preta com termóforas) que possuem estruturas semissubterrâneas (arquitetura em terra), além de um sítio com cerâmica Guarani e Jê – o sítio Ilhota (SC-VI-69) (Eble & Scatamachia, 1974).

LOCALIZAÇÃO DOS SÍTIOS NA PAISAGEM

Com relação às variáveis ambientais referentes à localização dos sítios na paisagem, foram selecionadas para análise as cinco categorias com maior ocorrência no vale do Itajaí: sítios líticos (com e sem pontas bifaciais), Jê meridionais, terra preta, abrigos sob rocha e sambaquis. As categorias de sítios foram separadas por compartimento no vale (alto, médio e baixo) para investigar as relações de implantação dos sítios em cada compartimento (Figuras 4 e 5).

Figura 4
Distribuição das principais categorias de sítios quanto a elevação, declividade e distância de água por compartimento.
Figura 5
Características do relevo por categoria de sítio e compartimento do vale.

No alto vale, os sítios líticos a céu aberto e os abrigos sob rocha são mais frequentes em altitudes de 300 a 500 m, enquanto os sítios Jê e de terra preta ocorrem em terrenos mais elevados, de 700 a 900 m, e o único sambaqui fluvial, de 150 a 300 m. Quanto à declividade, todas as categorias de sítios estão localizadas em áreas suave-onduladas a onduladas, exceto pelos abrigos, cuja implantação ocorreu em terrenos montanhosos. A proximidade com a fontes de água também é uma constante, com a maioria dos sítios localizada a até 1 km. No entanto, foi observado que os sítios Jê com cerâmica e líticos estão situados de 2 a 2,5 km dos cursos de água, enquanto alguns abrigos sob rocha se encontram em áreas mais afastadas, de 4 a 7 km.

Quanto ao compartimento do relevo, todos os sítios ocorrem com maior frequência em patamares e planícies, preferencialmente em topos convexos, aguçados e tabulares, com registros esparsos de sambaquis, sítios líticos e de terra preta em terraços e planícies fluviais.

Na área do médio vale, os sítios líticos são registrados em terrenos com altitudes de até 700 m, enquanto os sítios Jê ocorrem com maior frequência de 0 a 150 m e 700 a 900 m, e os de terra preta até 150 m. Em relação à declividade, observa-se que os sítios líticos e Jê apresentam características semelhantes às observadas no alto vale, exceto pela maior presença em terrenos forte-ondulados e montanhosos, além de sítios Jê e de terra preta em áreas planas. A maioria dos sítios está situada em áreas próximas aos rios, com distância máxima até 1 km. No entanto, há maior ocorrência de sítios líticos que estão localizados de 1,5 a 4 km. Quanto ao relevo, os sítios líticos e Jê estão, em sua maioria, em serras com topos aguçados, mas há registros desses sítios em terraços fluviais nas planícies, sendo a mesma implantação dos sítios de terra preta.

Por último, os sambaquis no baixo vale apresentam características semelhantes: localizam-se em planícies com terrenos ondulados e cotas baixas (até 150 m), sendo próximos de fontes de água (até 500 m). No entanto, somente um está localizado em terraço marinho na faixa costeira, enquanto os demais estão situados em planícies alúvio-coluvionares.

CRONOLOGIA

As datações disponíveis para o vale do Itajaí indicam uma ocupação longeva, atingindo até 9.550 anos cal AP no alto vale e 7.153 cal anos AP no baixo vale. O BDA possui um total de 61 datações, além de sete datas provenientes de sítios da bacia do rio Tijucas, que foram incluídas devido à grande proximidade com o vale do Itajaí (Figura 6 e Tabela 2). Um ponto de destaque diretamente relacionado à amostragem disponível envolve a ausência de referências cronológicas absolutas para o médio vale.

Figura 6
Gráfico multiplot das datas calibradas dos sítios arqueológicos do vale do Itajaí e entorno próximo (Praia das Laranjeiras I e II e Major Gercino 1 e 6).
Tabela 2
Datações disponíveis para o vale do Itajaí e entorno

Para o alto vale, há o total de 56 datações realizadas em 14 sítios que abrangem uma grande variedade de contextos: sítios líticos a céu aberto e em abrigos sob rocha, sítios de estruturas semissubterrâneas com cerâmica e lítico, sítios Jê lito-cerâmicos com e sem arquitetura de terra, além de abrigos com sepultamentos. Recentemente, como parte do doutorado de Lucas Bond Reis (2024), foram enviadas diversas amostras para datação de sítios do alto vale, contribuindo para um maior refinamento da cronologia regional. Dentre o conjunto de novas datas, destacamos a datação de categorias de sítios que até então não possuíam informações cronológicas, como o sítio Rio Platê (SC-VI-19), cuja amostra é composta por cerâmica Jê meridional (Gonzaga, 2022, 2024; Piazza & Eble, 1968), o sítio de estruturas semissubterrâneas com terra preta, Caixão Guarda Velha (Wagner, 2002), e o sambaqui fluvial Nova Bremen (Eble, 1973b; Machado et al., 2020a).

Os dados de cronologia para os sítios do baixo vale limitam-se a cinco datas realizadas em três sambaquis. As informações sobre a proveniência das amostras dos sambaquis Gaspar e Pocinho são escassas, além de possuírem um desvio padrão elevado (sigma) (Martin et al., 1988; Mielke & Long, 1969). No Ilhota 2, as duas datas foram obtidas na camada conchífera localizada na base do sítio, estimando a ocupação inicial a partir de 6.700 anos cal AP (Schwengber & Santos, 2018). As datas do sambaqui Praia das Laranjeiras I (Schmitz & Bitencourt, 1996) e do sítio cerâmico Praia das Laranjeiras II (Schmitz et al., 1993), ambos localizados na bacia do rio Tijucas, complementam os dados da ocupação costeira, com datas a partir de 5.500 anos cal AP.

DISCUSSÃO

A sistematização do BDA, em conjunto com as atividades de campo e as novas datações, possibilita indicar o entrelaçamento das histórias indígenas de longa duração no vale do Itajaí a partir do refinamento da cronologia das ocupações, bem como da relação das pessoas com lugares e coisas, considerados como elementos estruturantes para os povos indígenas (Jácome, 2017; Kater & Lopes, 2021).

A análise das variáveis ambientais para cada categoria de sítio, separadas por compartimento da bacia, evidenciou uma certa recorrência na implantação de sítios de categorias diferentes, sugerindo padrões de ocupação e uso do território ao longo dos anos. Tais padrões podem ser indicativos de um conhecimento profundo e compartilhado pelos povos indígenas que ocuparam a região (Jácome, 2017; Kater & Lopes, 2021). Isso foi observado, sobretudo, nos sítios localizados no alto vale, em relação à elevação, a declividade e ao relevo (compartimento e forma). Sítios líticos e ocupações em abrigos sob rocha apresentam uma distribuição semelhante, variando de 300 a 900 m de altitude, situação essa igualmente registrada nos sítios de terra preta e Jê, com maior ocorrência de 700 a 900 m. Quanto à declividade, tanto sítios líticos, como Jê e de terra preta são registrados com maior frequência em terrenos suave-ondulados e ondulados, enquanto os abrigos sob rocha estão localizados em áreas montanhosas. Tais características resultam na prevalência de sítios no alto vale em locais de patamares e topos de morfologias distintas.

Nesse contexto, observou-se a recorrência de sítios líticos e abrigos sob rocha em topos convexos (≅ 50%) e aguçados (25 a 37%). De forma similar, os sítios Jê e de terra preta apresentam, grosso modo, padrões de implantação semelhantes, com a maioria localizando-se em topos convexos (> 70%) e uma menor quantidade em topos tabulares (10 a 24%). Em relação às métricas do médio vale, não foram observados padrões recorrentes entre as três categorias de sítios analisados (lítico, Jê e terra preta). Quanto aos sambaquis registrados no baixo e alto vale, as semelhanças de implantação foram observadas na presença desses sítios nas cotas mais baixas de cada compartimento. Por último, de modo geral, todas as categorias de sítios estão localizadas próximas de cursos de água nos três compartimentos do vale do Itajaí.

Um dos elementos que pode ser destacado diz respeito à baixa representatividade de sítios nas áreas de planície, com cotas altimétricas mais baixas. Esse aspecto contrasta com dados oriundos de outras regiões do Sul e Sudeste do Brasil, nas quais sítios líticos atribuídos à tradição Umbu são frequentes em áreas de planície (Caldarelli, 1983; DeBlasis, 1988; Dias, 2003). Essa configuração contrasta também com a proposta de Farias (2005) para certos locais da encosta de Santa Catarina. No caso do vale do Itajaí, principalmente no alto vale, é necessário destacar que a maioria dos rios apresenta vales bem encaixados, acarretando áreas de várzea pouco extensas e sujeitas a inundações periódicas de grande porte. Esse aspecto pode impactar tanto em questões tafonômicas, como destruição ou enterramento dos sítios sob espessos pacotes sedimentares, quanto em escolhas culturais diversificadas, com assentamentos preferencialmente nas áreas de média e alta vertente. A presença de vestígios líticos cujos suportes indicam a apropriação de seixos em grande parte dos sítios reforça a ideia de conhecimento e uso dos diversos compartimentos da paisagem local de forma integrada, indicando a existência de redes de caminho interligando fundos de vale e topos de morro.

A distribuição das datas disponíveis para os sítios arqueológicos do vale do Itajaí e entorno próximo destaca a ocupação humana contínua e duradoura da região, relacionada à história indígena. Destacam-se três períodos de ocupação, cada um relacionado a diferentes categorias de sítios e dinâmicas de uso do espaço. Apesar de não dispormos de informações detalhadas sobre todos os contextos datados, partimos do pressuposto de que esses três conjuntos, em determinados contextos, não representam necessariamente rupturas do processo de ocupação da região. Em vez disso, podem ser interpretados como transformações resultantes das interações ou da própria prática de reprodução dos elementos das estruturas sociais (Moore, 2009; Oppitz, 2015; Pauketat, 2001; Randall & Sassaman, 2010). Nesse sentido, a diversidade de sítios pode estar relacionada a diferentes dinâmicas de uso do espaço, vinculadas a processos históricos específicos.

O único período para o qual os sítios apresentam uma distribuição geográfica restrita ao alto vale é o primeiro, e mais antigo, com datas de 9.550 a 8.410 anos cal AP. A amostra referente ao período mais antigo é constituída por oito datas provenientes de dois sítios líticos com pontas bifaciais que possuem implantações distintas: o SC-TA-19, a céu aberto, e a Gruta do Presépio. Ambos estão localizados no vale do rio Itajaí do Oeste e distantes não mais do que 30 km entre si. As intervenções realizadas no SC-TA-19 identificaram estruturas de combustão e uma grande quantidade de líticos lascados em sílex e modificados pelo uso (Pereira, 2021; Schmitz et al., 2009). Na Gruta do Presépio, além dos líticos em sílex e das estruturas de combustão, também foram registrados vestígios faunísticos, em especial conchas fluviais (Machado et al., 2020a; Pereira, 2021). A análise dos respectivos conjuntos líticos indica forte similaridade em termos de organização tecnológica, possivelmente associados à mesma dinâmica de ocupação regional (Pereira, 2021).

Embora não estejam localizados no vale do Itajaí, é importante mencionar, para esse intervalo cronológico, dois contextos do litoral central e norte de Santa Catarina. O primeiro engloba os sítios Estaleiro 1 e Aterro Sanitário, localizados nas proximidades da Baía da Babitonga e com datas de 11.089 a 10.725 anos cal AP. Ambos os sítios apresentam conjuntos de vestígios líticos lascados cujas características indicam forte similaridade com os sítios do alto vale. Apesar de se localizarem na baixada litorânea, a projeção das curvas do nível do mar para esse período indica que o local de implantação dos sítios estava a dezenas de quilômetros da linha da costa naquele momento (Costa, 2021). O outro contexto se refere ao sítio conchífero Rua do Papagaio, localizado no município de Bombinhas. Os momentos iniciais de ocupação desse sítio indicam uma cronologia de 8.600 a 8.400 anos cal AP vinculada a uma dinâmica de ocupação costeira (Lessa et al., 2024).

Seguindo a distribuição cronológica e geográfica dos sítios, é no segundo período de ocupação dessa longa história do vale que identificamos sítios arqueológicos tanto no alto quanto no baixo vale. Esse longo período, com idades de 7.150 a 2.366 anos cal AP, possui a maior quantidade de sítios datados (n = 13), com um total de 19 datas. As ocupações mais recuadas desse período são provenientes de sambaquis assentados no baixo vale, no que hoje constituem os municípios de Ilhota e Gaspar. Com base em curvas eustáticas (Cooper et al., 2016; Milne et al., 2005), que possibilitaram a projeção de paleolinhas da costa atlântica (Merencio, 2024), observou-se que os sítios Ilhota 2, Pedra de Amolar e Prata estariam localizados às margens de uma extensa paleobaía há seis e cinco mil anos cal AP. Esses sítios são compostos por bivalves de ambiente lagunar com alta salinidade18, como Erodona mactroides e Anomalocardia flexuosa, corroborando as projeções de paleolinhas, apesar de estarem atualmente a uma distância de 15 a 30 km da faixa costeira. As datas obtidas para os sambaquis do baixo vale do Itajaí se assemelham às mais antigas para sítios conchíferos de outras áreas costeiras do estado (sul e norte) (DeBlasis et al., 2021; Fossile et al., 2019; Merencio, 2021; Toso et al., 2021), integrando um contexto regional de ocupação humana mais intensa na planície costeira do Brasil meridional a partir desse período.

Nesse contexto, um sítio que merece destaque é o sambaqui fluvial Nova Bremen, localizado no alto vale, na margem direita de um trecho bastante encachoeirado do rio Hercílio, próximo à sua foz no rio Itajaí-açu. Apesar de o sítio ter sido fortemente impactado por diversas obras de urbanização ao longo dos anos, foi alvo de uma coleta arqueológica por Piazza e de pequenas intervenções pela equipe do LEIA (Machado et al., 2020a). A partir dessas intervenções, obtivemos uma datação que indica ocupação por volta de 6.491-6.317 anos cal AP, ou seja, um intervalo contemporâneo aos demais sambaquis do baixo vale. Ainda que as intervenções nesse sítio tenham sido muito pontuais e não tenhamos dados precisos sobre o procedimento de coleta utilizado por Piazza, destacamos a presença de pontas bifaciais em sílex coletadas por ele nesse sítio.

Na faixa costeira, outro sítio que apresenta uma data para esse intervalo é o Praia das Laranjeiras II, com idade aproximada de 5.518 a 4.450 anos cal AP. A data provém de um osso de baleia coletado na porção oeste do sítio, em um contexto interpretado por Rohr, responsável pela escavação, como pertencente a uma ocupação pré-cerâmica (Schmitz et al., 1993). A proximidade do Laranjeiras II com o sambaqui Praia das Laranjeiras I, situado a menos de 50 m a oeste, levanta a possibilidade de que a data mais antiga do Laranjeiras II possa estar relacionada ao contexto do sambaqui Laranjeiras I, cuja datação é de 4.573 a 3.720 anos cal AP.

Além dos sambaquis costeiros e fluviais ativos no início desse período, há dados cronológicos para seis sítios líticos no alto vale a partir de 5.800 anos cal AP: SC-TA-19, Gruta do Presépio e SC-TA-03, no rio Itajaí do Oeste; Tobias Wagner e SC-VI-13, no rio Itajaí do Sul; e Operário 1, no rio Itajaí do Norte. Em relação à configuração da tecnologia lítica, as análises realizadas por Almeida (2020) indicaram mudanças tecnológicas na amostra do SC-TA-03 em relação aos conjuntos mais antigos do SC-TA-19. Tais mudanças estão relacionadas ao tipo de suporte utilizado (preferencialmente seixos) e à técnica de produção e morfologia das pontas (preferencialmente unipolar com produção de pontas apenduculadas). No entanto, conforme sugere Almeida (2020), essas variações se destacam em meio a uma série de similaridades, sendo possível identificar elementos de continuidade do ponto de vista cronológico e espacial entre os conjuntos oriundos de sítios nos vales dos rios Itajaí do Sul, do Oeste e do Norte. Essa tem sido uma observação recorrente nas análises tecnológicas de conjuntos líticos da região, que enfatizam a articulação entre a permanência de uma série de características tecnológicas, relacionadas, por exemplo, à proporção das diferentes matérias-primas nos conjuntos, à recorrência na produção de pontas bifaciais e sua articulação com a produção de artefatos informais, à técnica de apropriação de diferentes suportes (plaquetas com lascamento bipolar, seixos com lascamento unipolar), entre outros.

Ao mesmo tempo, há indicações de variações entre sítios, regiões e períodos que estão sendo melhor investigadas em pesquisas de doutorado em andamento. De todo modo, os dados disponíveis até o momento sugerem que há elementos que são compartilhados e permanentes em âmbito macrorregional e cronológico, permeados por variações locais e, possivelmente, temporais. Essa dinâmica pode ser entendida como um diálogo entre tendências estruturais e conjunturais que demarcam a dinâmica histórica regional (Pauketat, 2001). Contudo, para dar continuidade a essa discussão, é necessário intensificar as amostragens localmente de forma a refinar o controle de proveniência espacial e cronológica, permitindo uma análise integrada da variabilidade tecnológica dos conjuntos líticos em âmbito sistêmico.

O terceiro período de ocupação compreende um total de 40 datas em 12 sítios arqueológicos, que possuem idades de 1.700 anos cal AP até o presente. Nesse período, observa-se maior diversificação das categorias de sítios arqueológicos registrados no alto e baixo vale, relacionados aos conjuntos artefatuais e à localização na paisagem. Segundo os dados disponíveis, passam a ocorrer sepultamentos em abrigos sob rocha no alto vale, representados pelos sítios Ribeirão da Herta (SC-VI-16), no Itajaí do Sul, e Alto Jararaca II (SC-VI-33), no Itajaí do Norte, destacando-se a presença de vestígios líticos no primeiro (DeMasi, 2001; Reis et al., 2018). Concomitantemente, a partir de cerca de 1.300 anos cal AP, há evidências de manutenção de lugares ocupados nos períodos anteriores no Itajaí do Oeste, como a Gruta do Presépio, bem como o registro de novas práticas, como as estruturas semissubterrâneas, indicados pelas datas dos sítios SC-TA-04 e Tobias Wagner, localizados no Itajaí do Oeste e Itajaí do Sul, respectivamente (Pereira, 2021; Reis, 2015; Schmitz et al., 2009). Em alguns desses sítios, são registradas pontas bifaciais no interior das estruturas semissubterrâneas, como no SC-TA-04, que possui um contexto datado de 1.260 a 960 anos cal AP (Schmitz et al., 2009, p. 220). Na região de Alfredo Wagner, também foi identificada a presença de manchas de sedimento escuro, designadas como terra preta, no entorno de sítios com estruturas semissubterrâneas (Wagner, 2002). As intervenções realizadas em um desses sítios pela equipe do LEIA, o Caixão Guarda Velha, resultaram em duas datas com intervalo entre 629 e 529 anos cal AP, sendo essa uma das primeiras datações realizadas em sítios com essas características no vale do Itajaí.

Principalmente no alto vale, além dessa diversificação em relação às feições presentes nos sítios, continuam frequentes os sítios líticos, com conjuntos diversificados: com e sem pontas bifaciais, com material lascado e/ou polido/picoteado, com modificações decorrentes de uso e associados a sítios de terra preta. Destaca-se o sítio Krauel (SC-VI-10), localizado às margens do rio homônimo, escavado por Piazza na década de 1960 e cuja coleção integra o acervo do MArquE-UFSC. Há duas datas para o sítio nesse período, de 1.047 anos cal AP até o presente19, indicando sua ocupação desde o século X. A coleção arqueológica associada a esse sítio apresenta material lítico lascado e polido, incluindo 25 pontas bifaciais. Segundo relatos registrados por Machado (2021), o local onde está implantado esse sítio representava, no início do século XX, um ponto de acampamento e de troca entre os Laklãnõ-Xokleng e a comunidade local.

Em relação à ocupação costeira do vale do Itajaí, os dados cronológicos são esparsos para esse período. Para complementar essa lacuna, foram incorporadas informações do entorno, em especial do sítio Praia das Laranjeiras II, localizado em Balneário Camboriú, que possui datas nesse período de 1.106 a 506 anos cal AP, para um contexto com cerâmica Jê meridional e sepultamentos (Gilson & Lessa, 2020; Schmitz et al., 1993). Sítios com características semelhantes quanto à composição e à implantação também foram registrados na costa do vale do Itajaí, como o Cabeçudas e o Camboriú III, ambos registrados por Rohr (1984), sugerindo a presença da cerâmica Jê meridional em sítios costeiros a partir de aproximadamente 1.100 anos cal AP. No entanto, a cerâmica Jê nesses sítios não significa necessariamente a presença de grupos do planalto (Bastos et al., 2011, 2015; Cardoso et al., 2024; Oppitz et al., 2018), podendo se tratar de outras relações possíveis (Oppitz, 2021).

Para o alto vale do Itajaí, o registro mais recuado de cerâmica Jê meridional está localizado, até o momento, no interior de uma estrutura semissubterrânea do sítio Tobias Wagner, com idade estimada de 921 a 769 anos cal AP. As amostras cerâmicas do sítio Rio Platê, litocerâmico a céu aberto, localizado no interior da TI Ibirama-Laklãnõ (Piazza & Eble, 1968), submetidas à datação, resultaram em uma ocupação estimada de 920 a 516 anos cal AP, ou seja, entre os séculos XIII e XV (Reis, 2024). A pesquisa de W. Priprá (2021) sobre os lugares de memória na TI Ibirama-Laklãnõ destaca a presença de acampamentos antigos e de caminhos na região do Rio Platê, além de apresentar o relato do Sr. João Paté, ancião Laklãnõ, sobre a coleta de cerâmica na área do sítio.

A coleta de vestígios arqueológicos, em especial de pontas bifaciais e lâminas alisadas e/ou polidas, é um comportamento comum no vale do Itajaí entre colecionadores não indígenas (Pereira, 2021; Schmitz et al., 2009) e indígenas, sobretudo entre os Laklãnõ-Xokleng, que possuem uma profunda relação com esses objetos, como demonstram as pesquisas conduzidas pelos próprios Laklãnõ e trabalhos colaborativos e etnoarqueológicos (Machado, 2017; Machado et al., 2020b; Tschucambang, 2015). Nos últimos anos, o movimento cultural de resgate da identidade da memória dos Laklãnõ tem sido fomentado por diversos estudantes e pesquisadores indígenas da licenciatura intercultural na UFSC, responsáveis por registrar as memórias que os anciãos têm da história, dos lugares, das coisas, dos objetos e dos conhecimentos relacionados à produção (saber-fazer).

A pesquisa conduzida por Tschucambang (2015), por exemplo, ressalta as relações de parentesco e locacionais despertadas pelos líticos alisados e/ou polidos nos anciãos Laklãnõ, que reconheceram a quem esses objetos pertenciam e o local de uso/abandono. Nesse processo, os objetos associados à caça são considerados pelos Laklãnõ como elementos de sua identidade (Machado et al., 2020b), incluindo as pontas bifaciais líticas, que, em alguns casos, possuem formas semelhantes às que são produzidas em madeira (A. Priprá, 2020; Tschucambang, 2015). Apesar de não reconhecerem atualmente a produção das pontas bifaciais em tempos passados, os Laklãnõ as identificam como pertencentes ao seu povo, pois as utilizaram e as transportaram em suas caminhadas (Machado, 2017). A mobilidade resultante da pressão das frentes colonizadoras pode ter reforçado a importância de objetos ancestrais, como as pontas bifaciais, como elemento de identidade duradoura e vinculado a um território.

A memória Laklãnõ-Xokleng sobre o uso das pontas bifaciais suscita questionamentos e desafia a categorização de sítios com tais vestígios como pertencentes à tradição Umbu. Ademais, a longa cronologia desses sítios e a sua distribuição espacial, com ocorrência nas mesmas cotas altimétricas e compartimentos de relevo de sítios Jê meridionais, de terra preta e abrigos sob rocha, também devem ser consideradas. Essa perspectiva é corroborada pelo contexto da bacia do rio Tubarão, ao sul do vale do Itajaí, onde foi verificada a presença de pontas bifaciais em períodos recentes, com ápice de 1.000 anos cal AP até o presente20, bem como de sítios com terra preta com termóforas, sendo essa região também integrante do território histórico dos Laklãnõ-Xokleng (Claudino, 2011; DeBlasis et al., 2025; Kozlowski, 2018).

Considerando a memória de apropriação das pontas bifaciais como elementos de identidade do povo Laklãnõ-Xokleng, é importante destacar que, nos casos de sítios em que não há elementos que indiquem a produção das pontas bifaciais nos locais de registro desses vestígios, a fragilidade de se associar tais locais como pertencentes aos ‘portadores da tradição Umbu’ é notável. Ademais, tal questão está inserida no problema cronológico-cultural da área da encosta de Santa Catarina, no qual a sobreposição temporal de registros Umbu recentes e a expansão Jê meridional têm suscitado a hipótese de que houve um encontro cultural ou uma etnogênese local, com a associação/assimilação de grupos Laklãnõ-Xokleng e ‘populações Umbu’. No entanto, a falta de evidências para afirmar categoricamente que se tratava de grupos distintos, bem como de interações constantes, impõe cautela a tais modelos.

As memórias Laklãnõ-Xokleng enaltecem que os registros e os vestígios arqueológicos estão em constante transformação em diferentes escalas e dimensões: objetos se movimentam no tempo e no espaço e são apropriados e ressignificados em diferentes contextos (Aldred, 2020; Leary, 2014; Machado, 2017). Esses dados complexificam o cenário e reforçam a necessidade de revisão da tradição Umbu (Dias, 2003), não sendo mais possível compartimentar automaticamente sítios líticos a céu aberto (com ou sem pontas bifaciais) e sítios lito-cerâmicos ou abrigos sob rocha como resultantes de dinâmicas de ocupação territorial distintas. Dessa forma, reforça-se a necessidade de se avaliar contextualmente o registro arqueológico, considerando as diferentes dinâmicas de sua produção, além dos processos tafonômicos.

Nesse mesmo sentido, o BDA amplia a compreensão do que pode vir a ser considerado um sítio arqueológico Jê no alto e no médio vale do Itajaí, para além da arquitetura de terra e da presença de cerâmica, como convencionado na literatura (Noelli, 2000; F. Silva & Noelli, 1996). A partir da análise da cronologia, dos dados espaciais de altitude e relevo, dos conjuntos artefatuais e da memória Laklãnõ-Xokleng sobre as pontas bifaciais, é possível sugerir uma relação entre sítios de terra preta e sítios líticos, com e sem pontas, e os povos Jê, mesmo na ausência da cerâmica ou da arquitetura de terra. Casos como o sítio de terra preta Caixão Guarda Velha, datado do século XV, e o sítio lítico Krauel, com datação mais recente, e que no século XX funcionou como local de acampamento e troca Laklãnõ-Xokleng (Machado, 2021), permitem estreitar a vinculação do registro arqueológico ao povo Laklãnõ-Xokleng de forma mais direta.

CONCLUSÃO

Até o momento dispomos de alguns elementos para discutir a longa história indígena no vale do Itajaí, sintetizados a seguir. Apesar da ausência de evidências na região, sítios como Estaleiro 1 e Aterro Sanitário, na costa norte, sustentam a hipótese de que os povos que ocuparam o alto vale durante o Holoceno inicial compartilhavam amplos territórios, incorporando também a planície litorânea, estabelecendo, assim, redes de interação entre esses compartimentos da paisagem, além de indicarem que a baixada litorânea era ocupada antes das primeiras evidências de construções sambaquianas. Em relação a esse aspecto, o adensamento de sítios do tipo sambaqui parece estar diretamente associado às dinâmicas de transformação da paisagem decorrentes do movimento de transgressão marinha, que afetou toda a costa meridional brasileira durante o Holoceno médio. Contudo, a datação recuada do sambaqui Rua do Papagaio corrobora a proposição de que o processo de ocupação litorânea ocorreu no final do Holoceno inicial. No contexto do vale do Itajaí, as datações obtidas indicam a contemporaneidade na construção de sambaquis no alto e no baixo vale, em ambientes fluviais e litorâneos, evidenciando a existência de dinâmicas de interação entre o litoral e o interior no processo de ocupação do vale durante esse período.

Para além de variações locais, cronológicas e funcionais, há elementos de continuidade nos conjuntos líticos dos sítios arqueológicos do alto vale ao longo de todo o Holoceno, possivelmente envolvendo, inclusive, reincorporações de artefatos em contextos sistêmicos distintos, aspectos que dificultam uma classificação crono-cultural para sítios dessa categoria e indicam um processo recorrente de ressignificação cultural de coisas e lugares.

A partir de cerca de 2.000 anos cal AP, há evidências de um processo de intensa transformação da paisagem através da presença de diferentes formas de construções com movimentação de terra para definição de estruturas semissubterrâneas, montículos, estruturas anelares, terra preta ou, ainda, para a demarcação de espaços previamente ocupados, como é o caso de abrigos sob rocha que passaram a ser utilizados como espaços funerários. Essa intensificação está materializada de forma mais efetiva no alto vale, mas há também, no litoral, indicadores de transformação sociocultural, observados a partir da presença da cerâmica Jê meridional, que, nesse período, passa a ocorrer tanto no alto quanto no baixo vale, além de mudanças nos processos construtivos dos sítios litorâneos.

Embora representem uma fração pequena da amostra de datas disponíveis para essa longa história indígena do vale do Itajaí, é fundamental destacar a existência de referenciais cronológicos para alguns sítios que incluem os séculos XVI, XVII e XVIII e que, para esses locais há uma sobreposição de informações oriundas da arqueologia, etnohistória e história oral, principalmente vinculadas ao povo Laklãnõ-Xokleng, reforçando sua relação com sítios arqueológicos que datam, pelo menos, do Holoceno tardio.

A partir desses dados, podemos começar a traçar alguns aspectos do entrelaçamento das histórias indígenas de longa duração no vale do Itajaí, em termos de espaço e tempo, que estão associados à complexidade do registro arqueológico. O primeiro corresponde à ocupação preferencial de locais com características semelhantes, remetendo a um conhecimento profundo compartilhado, como observado no alto vale entre sítios líticos, Jê meridional e de terra preta. O segundo refere-se à reocupação e à ressignificação de lugares, identificados pela presença de conjuntos artefatuais distintos, e que se configuram como lugares persistentes e significativos, aspecto já discutido amplamente na arqueologia (Schlanger, 1992; Zedeño & Bowser, 2009), tendo como exemplo o sítio Tobias Wagner, no alto vale. O terceiro trata do entrelaçamento dos ciclos de movimento ao longo do alto, do médio e do baixo vale, expresso na recorrência sincrônica de objetos nos três compartimentos, como os suportes em seixos, as pontas bifaciais e a cerâmica Jê meridional, com especial atenção para os ciclos de movimento dos Laklãnõ-Xokleng e da dispersão das pontas bifaciais, cuja prática resulta em uma reconfiguração da dispersão espacial e temporal desses objetos, que precisam ser compreendidos de forma contextual e relacional, ou seja, em suas novas materialidades (Fahlander, 2008; Tilley, 2007). Todos esses elementos nos remetem a uma longa história indígena, permeada por continuidades, transformações, atualizações e reapropriações de objetos e lugares, materialidades que tecem a história regional dos povos originários e mantêm viva a ancestralidade das paisagens formadas ao longo desse vale e que há milênios integram parte fundamental de territórios indígenas.

Dessa forma, descortina-se uma longa e complexa história profunda das ocupações humanas do vale do Itajaí em que é possível observar o entrelaçamento de diferentes trajetórias históricas. O BDA do vale do Itajaí se constitui, assim, em uma importante ferramenta na identificação de áreas de interesse para pesquisas futuras, além de lacunas na compreensão dos processos históricos de ocupação da região, sobretudo em uma perspectiva de longa duração indígena de forma não compartimentalizada em categorias e segmentada em áreas. Destaca-se a necessidade de aprofundar as pesquisas para compreender as conexões das diferentes histórias de longa duração no vale do Itajaí, buscando investigar como as categorias de sítios estão conectadas umas às outras em termos espaciais e temporais, incorporando as informações etno-históricas e as memórias dos povos indígenas, além de incentivar e apoiar o desenvolvimento de pesquisas realizadas para, com e pelos povos indígenas.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Walderes Coctá C. Priprá de Almeida, Simeão K. Priprá e a todo o povo Laklãnõ-Xokleng, pela confiança depositada e pelas parcerias estabelecidas. No âmbito geral das pesquisas realizadas no vale do Itajaí, agradecemos o apoio financeiro concedido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos n° 409537/2018-7 e 406443/2021-1, contemplados pelos editais universais de 2018 e 2021, respectivamente) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC) (edital n° 21/2024, projeto “Arqueologia do Vale do Itajai”) para a realização das diversas etapas de campo e datação de amostras de sítios da região. As datações de amostras obtidas no sítio Tobias Wagner foram possíveis por meio do apoio da The Wenner-Green Foundation, concedido a L. B. Reis (Dissertation Fieldwork Grant, Gr. 10407). A atualização e a sistematização do BDA foram realizadas por F. T. Merencio por meio da bolsa de pós-doutorado concedida pelo CNPq (processo n° 152930/2022-1). Agradecemos também às bolsas de doutorado concedidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) a L. B. Reis e G. Oppitz (processos n° 88881.128654/2016-01 e 88887.990112/2024-0) e pelo Programa de Bolsas Universitárias de Santa Catarina do Fundo Estadual de Apoio à Manutenção e ao Desenvolvimento da Educação Superior (UNIEDU/FUMDES) a T. U. Pereira (processo n° 17947), bem como às bolsas de iniciação científica do CNPq concedidas a L. N. Ferreira e B. Denardi. Agradecemos ainda aos museus e às instituições de salvaguarda do vale do Itajaí pelas informações sobre a presença de vestígios arqueológicos na região e pelo acesso aos respectivos acervos: Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal de Santa Catarina (MArquE-UFSC); Museu da Lomba Alta, em Alfredo Wagner; Museu Etno-Arqueológico de Itajaí (especialmente a Darlan Pereira Cordeiro); Arquivo Histórico Municipal de Gaspar; Museu de Azambuja, em Brusque; Museu Casa de Brusque; Acervo Histórico Municipal de Indaial; Museu da Família Alemã, em Blumenau; Museu Pomerano, em Pomerode; Museu da Memória Regional Alto Paraguaçu, em Itaiópolis; Museu do Imigrante, em Botuverá; e Museu Municipal de Massaranduba. Por fim, agradecemos aos dois pareceristas pelos comentários e sugestões ao manuscrito original.

  • PREPRINT
    Não foi publicado em repositório.
  • AVALIAÇÃO POR PARES
    Avaliação duplo-cega, fechada.
  • Terhaag Merencio, F., Bueno, L. R., Oppitz, G., Reis, L. B., Pereira, T. U., Nogueira, L. F., & Denardi, B. (2026). Organizando dados e contando histórias: a longa história indígena do vale do Itajaí a partir de um banco de dados arqueológico. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 21(1), e20240087. doi: http://dx.doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2024-0087
  • 1
    Destacamos o impacto que essas dinâmicas possuem sobre as questões tafonômicas relacionadas à identificação de sítios com datas antigas no baixo vale. A ocorrência periódica de grandes inundações na planície fluvial, e subsequente depósito de sedimentos, associados aos episódios de transgressão e regressão marinha, é um fator que impacta a identificação de sítios líticos a céu aberto vinculados a faixa cronológica entre dez e oito mil anos AP no médio e, principalmente, no baixo vale.
  • 2
    Mais informações sobre as primeiras pesquisas no alto vale do Itajaí são encontradas em Reis et al. (2018), Machado et al. (2020b), Machado (2021) e Pereira (2021).
  • 3
    No baixo vale, foram identificados sete sambaquis, enquanto no médio vale foi localizado um sítio com amolador-polidor. O restante dos sítios foi registrado no alto vale: um sambaqui fluvial, seis abrigos sob-rocha com lítico e sepultamentos humanos, um abrigo sob rocha apenas com vestígios líticos, dois sítios líticos e um cerâmico a céu aberto no alto vale (Piazza, 1966a, 1966b, 1967).
  • 4
    O gráfico das datações de C14 e respectivos códigos de laboratórios disponíveis para os sítios do vale do Itajaí serão apresentados no item dos resultados.
  • 5
    Pesquisas recentes adotam essa nomenclatura para designar a tradição Itararé-Taquara, como forma de reconhecer, de maneira mais direta, a associação desse conjunto com os povos Laklãnõ-Xokleng e Kaingang (Gonzaga, 2022; F. Silva, 1999).
  • 6
    Os relatórios das pesquisas preventivas não fazem relação à relocalização dos sítios registrados por Piazza e Eble (1968) e adotam uma nomenclatura distinta. Contudo, a partir do cruzamento da documentação disponível, foi possível correlacionar e unificar diferentes registros de sítios.
  • 7
    A partir do cruzamento da documentação primária de Piazza, como as descrições dos sítios e dos mapas de distribuição, foi possível identificar que os sítios mencionados correspondem ao Barranco Alto I (SC-VI-01) e Barranco Alto II (SC-VI-02), respectivamente.
  • 8
    Os estudos realizados pelos pesquisadores Laklãnõ-Xokleng evidenciam a estratégia de contra-ataque físico empregada pelos indígenas em resposta aos ataques violentos perpetrados pelo Estado, empresas e colonos. A estratégia de reação dos Laklãnõ-Xokleng diante da invasão de seu território foi apresentada nos discursos oficiais de modo a aumentar o temor entre os colonos, além de justificar e legitimar as ações violentas de etnogenocídio. Tal estratégia constituiu uma inversão colonial, na qual se atribuiu um sentido ético às ações de violência perpetradas pelos agressores, que passaram a ser retratados unicamente como vítimas (Peres, 2022; Viana et al., 2025). Nesse sentido, as próprias empresas de colonização recomendavam que os colonos utilizassem armas para defesa pessoal (S. Santos, 1973; Szlachta & Guimarães, 2024).
  • 9
  • 10
    Foi realizada a conversão padronizada dos data SAD 69 e WGS 84 para SIRGAS 2000 e de coordenadas projetadas (UTM) para geográficas (em graus decimais).
  • 11
    Compilação das datas disponíveis para os sítios do vale do Itajaí por meio da consulta ao banco de datações radiocarbônicas (BRC14, 2026; Bueno et al., 2023a, 2026).
  • 12
    Esse documento integra o acervo documental do MArquE-UFSC e foi localizado na pesquisa de pós-doutorado de Juliana Salles Machado. Infelizmente, esse mapa não apresenta as informações básicas, como a nomenclatura e o tipo de material registrado nos sítios. As coordenadas desses pontos foram obtidas por meio do georreferenciamento do mapa realizado por Fernando Almeida, o que resultou na adição desses sítios ao BDA com a sigla ABE (Machado, 2015).
  • 13
    O nível de detalhamento das informações referentes à localização desses possíveis sítios e dos vestígios que compõem essas coleções é bastante variável e não foi possível, até o momento, realizar uma conferência in situ de todos os dados obtidos. Essa atividade está prevista para ser desenvolvida nas próximas etapas do projeto, podendo resultar numa ampliação da amostragem disponível, principalmente, para o médio vale do Itajaí.
  • 14
    Classes e valores utilizados: plano (0-3%), suave ondulado (3-8%), ondulado (8-20%), forte-ondulado (20-45%), montanhoso (45-75%) e escarpado (> 75%).
  • 15
    Os locais de interesse arqueológico incluem, em sua maioria, abrigos e outros pontos relatados em entrevistas que possuem potencial para a presença de vestígios arqueológicos. Alguns desses locais foram visitados pela equipe do LEIA, mas não foram realizadas intervenções.
  • 16
    Desse total de sítios líticos, foi registrado sedimento escuro (terra preta) em sete sítios: seis na sub-bacia do rio Itajaí do Sul, no alto vale, e um sítio na sub-bacia do rio Benedito Novo, no médio vale.
  • 17
    Dentre os sítios com pontas no médio vale, há um conjunto registrado na Serra do Moura, entre Brusque e Canelinha, e que está muito próximo do baixo vale (Scatamacchia, 1999). Além disso, há outro conjunto de sítios com pontas localizados na faixa costeira continental próximo à Florianópolis e na encosta adjacente, nas bacias do Tijucas e Cubatão do Sul (GRUPEP, 2022).
  • 18
    Considerando as intervenções realizadas nos sambaquis Ilhota 2 e Pedra de Amolar.
  • 19
    A correção do 13C foi aplicada nas duas amostras datadas do rio Krauel, seguindo as instruções de Gilson e Lessa (2020), resultando em um desvio padrão maior (de 80 para 211). Por conseguinte, foram obtidos intervalos cronológicos amplos, mas que são compatíveis com as informações do contexto.
  • 20
    Destaca-se a presença de sítios com pontas bifaciais com datas mais recuadas na bacia do rio Tubarão, de até 4.200 cal anos AP, representados pelo sítio Major Gercino 6 (DeBlasis et al., 2025).

DADOS DA PESQUISA

Os dados não foram depositados em repositório.

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Editado por

  • Responsabilidade editorial:
    Jorge Eremites de Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Out 2024
  • Aceito
    11 Dez 2025
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