RESUMO
O objetivo deste texto é analisar um livro infantil publicado inicialmente em Portugal em 2015, intitulado A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), de Afonso Cruz. O estudo tem um duplo objetivo: i) refletir sobre o formato híbrido e multimodal deste livro, uma vez que inclui características dos géneros teatral/performativo, lírico e narrativo, combinando-os com referências ou excertos de outros discursos e artes; e ii) analisar o modo como promove e incentiva o ativismo infantil, a fim de mudar o mundo como o conhecemos, em termos dos valores fundamentais da sociedade. Ao abordar questões relacionadas com o ativismo infantil e ao retratar as crianças como cidadãos autoconscientes, proactivos e exigentes, A cruzada das crianças permite que as crianças expressem as suas reivindicações e ilustra uma tendência crescente na literatura infantil contemporânea, ao combinar elementos literários com elementos não ficcionais.
PALAVRAS-CHAVE:
Literatura infantil; Ativismo; Hibridismo; Multimodal; Afonso Cruz
ABSTRACT
The purpose of this text is to analyse a children’s book published initially in Portugal in 2015, entitled A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo) [The Children’s Crusade (Let’s Change the World)], by Afonso Cruz. Our twofold objective is: i) to reflect upon the hybrid and multimodal genre of this book, since it includes characteristics of theatrical/performative, lyric and narrative genres, combining them with references or excerpts from other discourses and arts; and ii) to analyse how it promotes and encourages children’s activism, in order to change the world as we know it, in terms of the core values of the society. By addressing issues related to child activism and by depicting children as self-aware, proactive and demanding citizens, The children’s crusade allows children to express their claims and illustrates a growing trend in contemporary children’s literature by combining literary elements with non-fictional ones.
KEYWORDS:
Children’s literature; Activism; Hybridism; Multimodal; Afonso Cruz
Introdução à Literatura Infantil Portuguesa: uma breve abordagem das tendências contemporâneas
O atual panorama literário português para crianças e jovens continua dominado pela atividade de vários autores que, desde as décadas de 70 e 80 do século XX, têm vindo a publicar assiduamente para crianças, como Alice Vieira, Álvaro Magalhães ou António Mota, apenas para dar alguns exemplos. Outras vozes relevantes surgiram na última década do século XX, como Ana Saldanha, que ajudou a diversificar e enriquecer o panorama literário português.
Nos últimos anos, contudo, novos autores surgiram, devido a Prêmios Literários - como o Prêmio Branquinho da Fonseca / Expresso / Gulbenkian ou o Prêmio Maria Rosa Colaço, atribuído pela Câmara Municipal de Almada -, e começaram a escrever, de forma mais ou menos exclusiva, para crianças e jovens. Incluídos neste grupo de autores premiados, que apresentam alguma unidade geracional entre si, uma vez que todos nasceram na década de 70, estão nomes como Rita Taborda Duarte, David Machado, Isabel Minhós Martins, Ana Pessoa ou Afonso Cruz, por exemplo. Outros criadores relevantes, nascidos nas décadas de 1980 e 1990, merecem também referência, quer por serem responsáveis por produções literárias originais, como os criadores de livros-álbum Catarina Sobral ou Joana Estrela, mas também por criações literárias mais esporádicas, como Madalena Moniz, Gonçalo Viana, Eduarda Lima ou Jaime Ferraz. Com pouca tradição em Portugal, exceto pela figura criativa única de Manuela Bacelar, a criação de livros-álbum de autoria única, com e sem texto, consolidou-se nos últimos anos, trazendo novas possibilidades ao formato.
Além disso, nas últimas décadas, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, devido à grave crise económica, a produção de livros infantis em Portugal aumentou em termos de quantidade e qualidade, resultando também na sua visibilidade internacional. A presença de editoras independentes em feiras internacionais do livro, como Bolonha, a participação de ilustradores em Prêmios e exposições internacionais, os apoios governamentais à tradução de livros portugueses, entre outras iniciativas, têm ajudado a promover os livros infantis portugueses, agora percecionados como inovadores e originais.
Nos últimos anos, a qualidade e diversidade da literatura infantil portuguesa têm estado principalmente associadas à ilustração e à criação de livros-álbum, mas é possível identificar criações interessantes também no segmento da ficção juvenil. O livro em análise neste texto - A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), de Afonso Cruz, publicado pela primeira vez em 2015 (e reimpresso em 2023 numa editora diferente) -, ilustra a inovação, experimentação e sofisticação da literatura infantil portuguesa contemporânea na forma como combina diferentes géneros literários e até formas de arte, promovendo uma reflexão sobre a mudança social. Ao dar voz às reivindicações e ideais das crianças, propõe uma forma diferente de governar o mundo, uma alternativa à praticada pelos adultos, dominada pela injustiça e desigualdade. Assim, a originalidade deste livro resulta não só dos temas retratados e da sua estrutura literária, que inclui características dos géneros teatral/performativo, lírico e narrativo, combinando-os com referências ou excertos de outros discursos e artes; mas também da forma como promove e incentiva o ativismo infantil, a fim de mudar o mundo como o conhecemos, em termos dos valores fundamentais da sociedade.
Inspirado no tema medieval da Cruzada das Crianças, o autor atualiza as reivindicações das crianças por um mundo melhor e mais harmonioso, criando uma sequência de diálogos entre crianças e adultos, que ocorrem em diferentes contextos, nos quais as crianças apresentam as suas reivindicações de forma original e por vezes invulgar. Para além das ilustrações, também de Afonso Cruz, o livro inclui notícias reais relativas aos direitos das crianças, sublinhando a necessidade de uma mudança autêntica na organização da sociedade. Ao abordar questões relacionadas com o ativismo infantil e ao retratar as crianças como cidadãos autoconscientes, proativos e exigentes, capazes de questionar as escolhas dos adultos, A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo) não só permite que as crianças expressem as suas reivindicações e pontos de vista, como também ilustra uma tendência crescente na literatura infantil contemporânea, tanto em relação ao conteúdo do livro como à sua forma e género, ao combinar elementos literários e artísticos com elementos não ficcionais.
1 Afonso Cruz e a sua obra literária
Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971), conhecido como músico, designer e ilustrador, é autor de uma vasta produção literária destinada a adultos e disponível para um público internacional. Iniciou a sua atividade literária com um romance juvenil, após vencer, em 2009, o Prêmio Literário Maria Rosa Colaço. O romance intitulado Os livros que devoraram o meu pai (Caminho, 2010), publicado um ano depois, revela já uma maturidade e uma originalidade que a sua produção literária posterior viria a confirmar. Esta narrativa metaficcional, construída sobre o jogo intertextual com algumas obras literárias clássicas, aborda a importância da leitura e mostra o papel central que os livros desempenham na vida das personagens do romance, funcionando como uma forma de expiação da culpa e do remorso do protagonista. A trama atravessa vários níveis diegéticos e, utilizando a metalepse, coloca as personagens do primeiro nível narrativo a interagir com as personagens de romances como A ilha do Dr. Moreau, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde e Crime e castigo, entre outros. A novela Vamos comprar um poeta (Caminho, 2016) parece retomar, em certa medida, elementos do livro anteriormente referido, já que volta a envolver os leitores nos fios da metaficção e das referências intertextuais, desta vez inscrevendo a poesia e a sua urgência - sempre contável e medida - no quotidiano atual. O livro, aberto a várias interpretações, funciona também como uma espécie de manifesto poético, sem esquecer a sua dimensão de crítica social (e lírica), mesmo se embutida na crise, nas contas, nos números e nas questões de produtividade.
A qualidade da obra literária de Afonso Cruz, que inclui contos, livros-álbum e textos teatrais, tanto para crianças como para adultos, tem sido sublinhada por vários críticos (Navas e Ramos, 2016), que também destacam a sua inovação e complexidade, particularmente na reinvenção do género e no esbatimento das fronteiras entre realidade e ficção, desafiando constantemente a interpretação e as capacidades dos leitores. Nos livros de Afonso Cruz é também frequente encontrar temas com implicações sociais, ligados à condenação das injustiças e desigualdades, combinados com uma perspetiva lírica do mundo, combinando poeticidade e ironia. Estas tendências são visíveis em livros-álbum como: i) A contradição humana (Caminho, 2010), uma viagem ao mundo dos adultos através do questionamento inocente e do olhar percetivo de uma criança, a única capaz de identificar as contradições e paradoxos da existência humana, uma espécie de recriação contemporânea (e pós-moderna) do conto O fato novo do Imperador [A roupa nova do Rei, no Brasil]; e ii) Assim, mas sem ser assim (Caminho, 2013), um volume que parece dar continuidade ao anterior, insistindo agora na questão da desigualdade social e da distribuição injusta dos bens. Em Capital (Pato Lógico, 2014), um livro-álbum sem texto, o autor retrata as consequências e implicações do modelo de economia capitalista, utilizando o exemplo das aventuras de uma criança e do seu mealheiro.
O livro do ano (Alfaguara, 2013) e Paz traz paz (Companhia das Letras, 2019), por sua vez, marcam a dimensão crossover da produção literária de Afonso Cruz, pela forma como combinam a perspetiva infantil e inaugural do mundo, dominada por algum espanto inocente, com a poesia que resulta de uma atenção especial à seleção e combinação das palavras.
A produção romanesca de Afonso Cruz destinada a adultos também tem sido objeto de muitos estudos e abordagens teóricas (Escourido, 2018, 2020; Hopkinson, 2022). Estes centram-se em duas áreas principais: a identificação de linhas temáticas proeminentes, e a análise de elementos formais e composicionais, particularmente o uso da metaficção, o questionamento das convenções do género, e a exploração das possibilidades que emergem da própria materialidade do livro.
2 Análise do livro A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo)
Tendo estabelecido a importância de Afonso Cruz na literatura infantil portuguesa e a sua tendência para a experimentação de géneros, passamos agora à análise específica de A cruzada das crianças. Esta análise centra-se em dois aspetos fundamentais: a representação do ativismo infantil no livro e a sua forma híbrida inovadora, que combina elementos teatrais, narrativos e multimodais.
Publicado inicialmente em 2015 pela Alfaguara, e republicado1 em 2023 pela Fábula, com texto e ilustrações de Afonso Cruz, A cruzada das crianças consiste numa sequência de vários diálogos entre crianças e adultos que ocorrem em diferentes cenários. Organizadas num grande grupo, as crianças decidem apresentar as suas reivindicações em diferentes contextos, através de dois porta-vozes principais, surpreendendo e chocando os adultos. Mais ou menos práticas, em alguns casos claramente sem sentido, expressando a forma como as crianças percecionam o mundo, as reivindicações abordam uma variedade de questões, centradas em tópicos reais e relevantes como a fome, o trabalho infantil, a pobreza, a saúde e o amor familiar. O percurso feito pelas crianças, de gabinete em gabinete, não é aleatório, mas resulta de uma certa lógica ligada às respostas obtidas (ou à falta delas). É um percurso que, pouco a pouco, parece aproximar-se dos níveis de poder e decisão, e não é inocente que acabe na esquadra da polícia, com a sugestão de que o crescimento e a idade adulta não trazem sabedoria, mas sim a perda de sonhos, ilusões infantis e a esperança de mudar o mundo.
Para estabelecer a relação entre algumas das reivindicações mais utópicas e a realidade, sete diálogos (correspondentes a sete cenas diferentes) são complementados por sete textos não ficcionais, artigos de jornais ou conclusões de estudos ou inquéritos, reforçando a validade da reivindicação em causa. Esses fragmentos estão incluídos nas páginas (Fig. 1), mantendo a sua aparência visual distintiva, o que os torna também semelhantes a ilustrações. Nessa medida, podem ser lidos na íntegra ou não, mas destacam-se especialmente em termos do tipo de letra distintivo utilizado nos títulos.
Enquanto suporte verbal de uma performance teatral que inicialmente ocorreu no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o livro inclui também didascálias e uma canção - “Blá, Blá, Blá” - que aparece em diferentes ocasiões ao longo do livro. A canção critica diretamente a inação e a inércia dos adultos, incluindo os principais decisores políticos, que parecem ser incapazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas. A brevidade e aparente simplicidade do texto, no entanto, não se sobrepõem à profundidade e seriedade dos tópicos abordados, mesmo que o humor, resultante do cómico e do nonsense, esteja sempre presente. Este é, de facto, o grande trunfo do livro e do espetáculo teatral que lhe dá origem: estimula, através de uma proposta aparentemente simples e leve, a reflexão sobre o mundo em que vivemos, as suas contradições e problemas.
Inspirado na tradição medieval de uma cruzada popular e de certa forma espontânea, que ocorreu em 1212, associada à necessidade de purificar ética e moralmente o espírito da Cruzada, este volume recria e moderniza este motivo, trazendo-o para a contemporaneidade. Num mundo em crise moral e ética, como o medieval, as crianças pareciam simbolizar e incorporar uma espécie de gérmen de mudança, inspirando os princípios e ideais de uma revolução muito necessária. De certa forma, o autor sugere que esta revolução já começou, ao apresentar fotografias de eventos sociais, políticos e culturais onde as crianças participam e nos quais têm um papel relevante.
Datados entre 2009 e 2014, estes eventos incluem manifestações contra a guerra (Iraque), contra a ocupação (Israel) e contra o totalitarismo (Síria), bem como movimentos contra leis específicas, reformas e decisões políticas, entre outros (Marcha pelo Clima; Movimento Occupy Wall Street). Tiradas em diferentes países e continentes ao redor do mundo, as fotos (Fig. 2) retratam ações de protesto das crianças (em alguns casos enfrentando diretamente autoridades ou forças da lei) e também as suas reivindicações, escritas em cartazes. A diversidade de crianças, contextos políticos e cenários geográficos reforça o principal elemento comum: as crianças estão a lutar em todo o mundo pela liberdade, democracia, justiça, paz e um melhor ambiente. Algumas fotos são utilizadas para dividir as partes do texto e para o ilustrar, mas várias são incluídas como um peritexto complementar no final do livro (Fig. 2), como uma espécie de adenda, reforçando a sua dimensão factual. A identificação - usando legendas - de lugares, datas e eventos também reforça esta ideia de autenticidade e mesmo de ocorrências em curso, acontecendo quase simultaneamente.
Para além das fotos, o livro inclui também algumas ilustrações de Afonso Cruz, a maioria retratando crianças que também parecem estar a levantar as suas vozes e a expressar as suas reivindicações e preocupações (Fig. 3). A relevância da voz, mesmo em termos simbólicos, é também sublinhada em algumas ilustrações onde apenas bocas são retratadas, enfatizando a importância da expressão verbal e facial. O estilo visual, caracterizado por uma certa ingenuidade no uso da proporção e da forma, enfatiza a relevância da voz, símbolo de liberdade e agência, uma vez que as crianças expressam as suas reivindicações nas suas próprias palavras e formas. A inclusão da letra e da partitura musical de uma canção (Fig. 4), que é cantada em diferentes momentos do texto, também reforça a sugestão de som, criando uma espécie de banda sonora consistente que expressa, com melodia e ritmo, as principais reivindicações ao longo do texto, como um coro no teatro clássico.
A presença de um “Prefácio” e de um “Posfácio” de outros autores não é frequente nos livros infantis portugueses, levantando questões sobre o público principal deste volume em particular. Se o escritor e filósofo Miguel Real, no “Prefácio”, contextualiza e explica a tradição cultural e literária da referência à Cruzada das crianças, a atriz e artista visual Marta Bernardes, no “Posfácio”, reflete sobre o significado simbólico da infância e do seu imaginário na luta pela construção de um mundo melhor. Ambos os textos, no entanto, abordam a questão profunda e significativa da necessidade de mudança que só as crianças podem operar ao reinventar o mundo e as suas leis e dinâmicas. Assim, nestes textos, a infância é apresentada como a última esperança para o mundo e para a humanidade, reforçando a ideia principal do volume.
2.1 Ativismo infantil
Nos últimos anos, como resultado de vários movimentos sociais e políticos, tem havido uma crescente atenção ao ativismo infantil e à sua representação na literatura infantil. A publicação de biografias de crianças que se destacaram pela sua ação individual, dando origem a fenómenos mais globais de reivindicação de direitos, como Malala Yousafzai, Greta Thunberg ou Bana Alabed, é apenas um exemplo, entre muitos, da valorização das vozes das crianças num contexto ainda fortemente dominado por adultos. A teoria e a crítica também têm estado atentas à crescente visibilidade das crianças e da sua agência em textos literários contemporâneos, com a publicação de vários estudos sobre diferentes questões relacionadas, especialmente nos últimos anos (Mathis, 2015; Short, 2017; Nance-Carroll, 2021; Fletcher & Holyoke, 2023; Taft & O'Kane, 2024).
No entanto, temas relacionados com a injustiça, pobreza e desigualdade social há muito estão presentes em vários livros infantis de Afonso Cruz, e nessa medida, estes temas são recorrentes na sua obra literária. No livro em análise, no entanto, os temas sociais são apresentados de forma mais clara, uma vez que são, de facto, o centro do texto, embora, em alguns casos, sejam apresentados de formas originais.
A originalidade deste livro em particular reside na forma como estas ideias são expostas, uma vez que as crianças as apresentam de uma forma muito particular, de acordo com a sua visão claramente alternativa do mundo. Ao fazê-lo, as crianças não se limitam a ecoar velhas ideias dos adultos, mas parecem expressar visões alternativas e pessoais, mesmo se não completamente moldadas pelos limites da realidade e da plausibilidade. De certa forma, o absurdo e a contradição de alguns pedidos, impossíveis de satisfazer, reforçam a sua legitimidade e autenticidade, dando voz e agência às crianças para dizerem o que lhes vem à mente.
A sequência começa no Instituto de Geografia, com o pedido para mudar os mapas de modo a manter as pessoas mais próximas umas das outras; depois move-se para a biblioteca, a fim de mudar o tipo de super-heróis incluídos nos livros, para que as pessoas comuns também possam ser super-heróis. As próximas paragens são os Correios e o Jardim Zoológico. No primeiro, as crianças querem um novo Pai Natal [Papai Noel, no Brasil], já que o atual é muito gordo e não vai a todos os lugares do mundo; no segundo espaço, as crianças pedem uma girafa ou uma zebra, para que o Pai Natal também possa entregar presentes em África. Estas duas reivindicações surgem relacionadas com o Pai Natal, cuja figura é criticada por representar a injustiça e a desigualdade do mundo, onde poucos têm tudo e a maioria não tem quase nada. De facto, a figura do Pai Natal está frequentemente presente em outros textos literários de Afonso Cruz como um símbolo do consumismo e do capitalismo, incluindo romances para adultos, como é o caso de Para onde vão os guarda-chuvas (2013).
As crianças também visitam o Hospital, onde pedem corações maiores, para corrigir o envelhecimento e aumentar a taxa de contágio dos beijos, a fim de espalhar facilmente o amor. Na Loja de Roupa, as crianças exigem a substituição de espelhos por janelas, para que as pessoas possam comunicar mais e deixem de ser egoístas e autocentradas. No Parlamento, no entanto, o pedido é, inicialmente, o oposto, com a substituição de janelas por espelhos, para que os políticos percebam as suas responsabilidades. Mas as crianças também mencionam a necessidade de janelas, neste caso, para que os políticos possam ver a realidade das pessoas que representam.
A cena do Banco destaca-se como um dos episódios mais importantes e extensos, questionando tanto o valor do dinheiro quanto a sua incapacidade de comprar felicidade. As crianças argumentam que o dinheiro deveria sempre ser suficiente para satisfazer as necessidades básicas de vida - uma crítica direta a um sistema financeiro que falha em garantir o acesso universal às necessidades. A cena defende uma distribuição mais equitativa da riqueza enquanto questiona o propósito da sua acumulação num mundo onde muitos lutam para sobreviver. Através dos seus argumentos, as crianças revelam uma pureza de valores não corrompida e não manchada pelas convenções sociais. O seu compromisso com princípios fundamentais leva-as a defender a felicidade como um direito universal, lutando pela sua plena implementação.
A cena final acontece na Esquadra da Polícia onde as crianças são informadas de que não podem reivindicar coisas importantes até crescerem, mas percebem que, uma vez adultas, deixarão de se preocupar com a necessária mudança do mundo, como as cenas anteriores ilustraram. Deste modo, a urgência da mudança - e o apelo à ação que o livro promove - é sublinhada, com as crianças parecendo ser as únicas capazes de transformar o mundo.
Entre estes nove lugares diferentes onde as crianças interagem com adultos há também cinco cenas de rua, mais curtas e simples, onde as crianças conversam entre si e determinam o próximo movimento a realizar, a fim de apresentar as suas reivindicações. O objetivo principal é sempre o mesmo: criar um mundo mais justo e amigável, onde as pessoas possam ser felizes.
Ao longo do texto, as crianças não são nomeadas2. Em vez disso, os dois protagonistas principais são identificados apenas por números - criança 1 e criança 2 - e todas as outras crianças mencionadas, inclusive através do discurso indireto, são identificadas como reclamantes e reconhecidas por características genéricas como particularidades físicas (cabelo castanho, tranças, cabelo em pé, dentes em falta), roupas (camisola roxa, camisa verde e amarela, casaco amarelo, roupas esfarrapadas) e acessórios (óculos). De certa forma, esta estratégia intensifica a ideia de um movimento maior e mais amplo, unindo todas as crianças, independentemente da sua origem ou antecedentes.
Ao apresentar uma sequência de diálogos entre crianças e adultos, o livro considera as crianças como interlocutoras válidas, valorizando as suas questões, opiniões e reivindicações. As crianças são retratadas num papel de poder, desafiando os adultos e exigindo mudanças. As suas interrogações têm um papel importante em termos de agência, funcionando como uma “arma” surpreendente que revela as contradições do mundo. Os adultos, por outro lado, são apresentados numa posição inferior, “atacados” por uma sucessão de questões que não compreendem ou têm dificuldade em responder. Mesmo que protegidos pela formalidade das funções oficiais e pelo discurso convencional, lutam para se defender e parecem nervosos, estressados ou condescendentes, repetindo frequentemente as mesmas frases: “Não estou a perceber. Onde estão os vossos pais?” (p. 13); “Não há nada que se possa fazer” (p. 14); “Mas onde estão os vossos pais?” (p. 15); “Que disparate!” (p. 21); “Onde estão os vossos pais?” (p. 28); “Que disparate” (p. 32); “Não funciona assim” (p. 37, p. 39); “Onde estão os vossos pais?” (p. 42).
Esta oposição entre personagens infantis e adultas expressa uma dicotomia mais ampla entre duas visões do mundo, uma progressista e idealista, claramente dominada pelo humanismo, comprometida com a criação de uma sociedade mais justa, a outra conservadora e convencional, visando manter o estado atual das coisas. De certa forma, o livro mostra que a revolução já está em curso. A questão é se o leitor escolherá um lado nesta cruzada das crianças e se estará disposto a participar nela.
2.2 Hibridismo e narrativa multimodal
A inovação formal deste livro está relacionada não só com a dificuldade em incluí-lo num único género literário, mas também com a presença de elementos de diferentes artes e discursos, incluindo literatura, teatro, música, ilustração, fotografia e fragmentos de notícias e textos não ficcionais (Hallet, 2009; Gibbons, 2012, 2015; Nørgaard, 2010, 2019). A dimensão multimodal da literatura infantil, já estabelecida em formatos como o livro-álbum (Tsapiv, 2022) ou o romance híbrido (Sadokierski, 2010), por exemplo, parece cada vez mais presente em outros géneros (Ramos, 2020a, 2020b), desafiando a forma tradicional de escrever e contar histórias, bem como o processo de leitura. Estas propostas literárias desafiadoras são definidas como formatos híbridos, “nos quais dispositivos gráficos como fotografias, desenhos e tipografia experimental são integrados no texto escrito. Dentro dos romances híbridos, palavra e imagem combinam-se para criar um texto que não é puramente escrito nem puramente visual”3 (Sadokierski, 2010, p. ix), ou multimodais, caracterizados pela “integração do modo narrativo romanesco juntamente com outros modos escritos, bem como vários modos não verbais como (a reprodução de) imagens visuais como fotografias ou pinturas, gráficos, diagramas e esboços ou (a reprodução de) cartas e notas manuscritas”4 (Hallet, 2009, p. 129).
O hibridismo5 de algumas propostas contemporâneas, como A cruzada das crianças, corresponde não só a uma tendência específica no contexto português, mas também a um projeto literário e criativo pessoal de Afonso Cruz, um artista multifacetado, caracterizado pela sua capacidade de cruzar géneros, públicos, formatos e linguagens artísticas.
Ficção e não ficção são combinadas e, de certa forma, entrelaçadas, com a inclusão de fotos reais e informações factuais (em alguns casos apresentadas através de peças jornalísticas), reforçando a legitimidade das reivindicações das crianças. É bastante relevante que algum absurdo ou mesmo nonsense que caracteriza os pedidos das crianças (alguns impossíveis de cumprir, como melhorar os mapas para tornar os lugares menos distantes uns dos outros) seja apoiado por peças de informação que enfatizam a relação dessas reivindicações com a realidade. No caso dos mapas, o tema centra-se na relação das crianças com os avós. As crianças pedem melhores mapas para estarem mais próximas daqueles que as protegem e amam. A combinação de elementos fantásticos e até poéticos com elementos realistas também está presente na componente visual do livro, onde fotos de eventos reais dividem o espaço disponível com ilustrações artísticas, criando uma mistura surpreendente de referências visuais. Embora diversas em estilo visual e propósito, todas as imagens enfatizam o papel central das crianças ao destacar a sua agência e representar visualmente as suas ‘vozes’. Com uma paleta de cores contida, as ilustrações também brincam com formas e figuras, criando uma imagem alternativa dos protagonistas.
Além da relação entre ficção e não ficção, este livro também combina elementos do texto teatral, como a estrutura dialógica, com elementos mais narrativos, uma vez que a sequência de diálogos e lugares parece seguir um padrão narrativo, baseado na busca das crianças e no seu movimento no espaço público. A progressão entre lugares e serviços mais comuns, incluindo os públicos, como a Biblioteca, os Correios ou o Hospital, para outros mais relacionados com o poder, como o Banco, o Parlamento ou a Esquadra da Polícia, parece seguir uma ordem específica, com a inclusão de elementos de transição entre as cenas.
Mas a dimensão poética do texto também não está ausente, evidente não só nas reivindicações provocadoras e utópicas das crianças, mas também na canção recorrente que aparece em quatro momentos diferentes da história. Na primeira aparição desta canção, é incluída uma página com as notas musicais, estabelecendo outra conexão interartística. O poema expressa o desejo das crianças de governar o país e melhorá-lo, em vez de apenas falar, ideia sugerida pela repetição da palavra “Blá, blá, blá”, que significa falar sem dizer ou fazer nada relevante ou concreto. Mas também promove uma forma alternativa de liderar o país, “inaugurando pão” e “dando poesia ao povo”, onde ministros são transformados em jardineiros e governam o país como se regassem flores. A repetição do poema em quatro momentos diferentes da história funciona como um coro, enfatizando a ideia de transformação ou revolução em termos de governo. Uma versão ligeiramente mais longa da canção “Blá, Blá, Blá” (letra e música também de Afonso Cruz) foi gravada em 2021 e incluída no álbum Two to Two (2021), pelo grupo The Soaked Lambs, uma banda portuguesa de música roots com fortes influências dos blues e do jazz pré-guerra, que também inclui Afonso Cruz entre os seus músicos. O vídeo6 desta canção, criado por Tiago Albuquerque e Eva A., inclui desenhos e animações infantis, numa ligação particular a um ponto de vista infantil.
Conclusão
A cruzada das crianças exemplifica tendências inovadoras na literatura infantil portuguesa através do seu formato híbrido, que integra perfeitamente elementos teatrais, líricos e narrativos com múltiplas formas artísticas. Ao dar voz às perspetivas das crianças sobre a mudança social, o livro avança tanto na experimentação formal como no envolvimento social, marcando uma evolução significativa na literatura infantil portuguesa contemporânea. A produção literária de Afonso Cruz, destinada tanto a adultos como a crianças, distingue-se pela exploração e expansão de fronteiras, principalmente em termos de género e formato editorial, desafiando as formas tradicionais de contar (e ler) histórias. Difícil de classificar devido à criação pelo autor de novos formatos híbridos que combinam elementos de diferentes géneros, este livro em particular serve múltiplos propósitos: funciona tanto como suporte para uma performance teatral como uma narrativa ficcional dominada pelo diálogo e complementada com elementos factuais.
De qualquer modo, o livro mantém-se firmemente por si só, como uma proposta abertamente multimodal, interartística, questionadora e lúdica, desafiando os limites e convenções de vários géneros. A variedade e diversidade de referências e fontes, populares e eruditas, recentes e muito antigas, é uma característica da escrita de Afonso Cruz que merece destaque pela forma como promove e valoriza competências de leitura sofisticadas. A matriz performativa do texto, ligada à representação teatral, é evidente no destaque dos diálogos e inclusão de didascálias, mas não ofusca uma leitura mais convencional que atende à dimensão interventiva do texto e ao seu potencial poético, decorrente da sua proposta desafiadora e nonsensical.
As críticas ao modelo econômico capitalista, presentes em vários livros do autor, são claramente reforçadas pela apresentação de “provas” das suas consequências, nomeadamente através de fotografias e notícias reais, todas focadas no contexto das crianças. A inclusão de diferentes contextos geográficos, culturais e políticos amplia as possibilidades interpretativas, uma vez que o apelo à ação não pode ser associado a um regime ou causa política específica. No entanto, os ideais de liberdade, justiça, paz e democracia parecem dominantes e capazes de unir diferentes lutas ao redor do mundo, expressando os valores fundamentais da humanidade.
O reconhecimento da perspetiva das crianças, vista como ingénua e inocente, pura e não corrompida, perpassa este e outros livros de Afonso Cruz. Este ponto de vista serve como base para o seu apelo a uma mudança urgente e necessária no paradigma social e económico.
A transformação do texto em espetáculo teatral, através da performance, com a inclusão de som, música, movimento, luz, cenário e guarda-roupa, reforça ainda mais a questão do ativismo infantil, uma vez que oferece ao espectador a possibilidade de assistir e “viver” este desejo de mudança, fazendo parte dele. A dimensão interventiva social e política do teatro, com relevantes raízes culturais e literárias, das formas medievais ao teatro épico, tem tido uma importante tradição em Portugal, com especial impacto durante a ditadura (1926-1974).
A singularidade do livro reside no seu constante equilíbrio entre facto e ficção, realidade e sonho, carregando uma ressonância utópica que atrai os leitores para uma espiral de esperança e os instiga a juntar-se à cruzada das crianças de reivindicações cruciais.
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1
Além da mudança de formato de capa mole para capa dura, não há outras alterações significativas entre as duas edições.
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2
Os adultos também são identificados pela sua ocupação/profissão.
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3
Tradução nossa de “in which graphic devices like photographs, drawings and experimental typography are integrated into the written text. Within hybrid novels, word and image combine to create a text that is neither purely written nor purely visual.”
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4
Tradução nossa de “integration of the narrative novelistic mode along with other written modes, as well as various non-verbal modes such as (the reproduction of) visual images like photographs or paintings, graphics, diagrams and sketches or (the reproduction of) handwritten letters and notes.”
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5
De acordo com Bromley, “um texto híbrido é aquele que inclui elementos de diferentes géneros ou esbate as distinções de género. Textos inovadores e multimodais emprestam, adaptam e remodelam géneros através do jogo criativo com forma e convenções, desafiando e frequentemente desafiando os sistemas de classificação padrão” (Bromley, 2014, p. 2) [tradução nossa de “a hybrid text is that which includes elements from different genres or blurs genre distinctions. Innovative and multimodal texts borrow, adapt, and refashion genres through creative play with form and conventions, challenging and often defying standard classification systems.”]
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6
Ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=DVHjxOG4gwo.
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Pareceres
Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
Declaração de disponibilidade de conteúdo
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
REFERÊNCIAS
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BROMLEY, Chelsea Marie. Brave New Forms: Adaptation, Remediation, and Intertextuality in the Multimodal World of Hugo Cabret Tese de Mestrado. Eastern Michigan University, 2014. Disponível em: https://commons.emich.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1942&context=theses Acesso 02 de maio de 2024.
» https://commons.emich.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1942&context=theses - CRUZ, Afonso. A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo) Lisboa: Fábula, 2023.
- CRUZ, Afonso. A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo) Lisboa: Alfaguara. 2015.
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ESCOURIDO, Sofia Madalena G. A página como possibilidade hiperficcional da nova literatura portuguesa: Patrícia Portela, Afonso Cruz e Joana Bértholo. Revista de Estudos Literários, v. 8, pp. 45-74, 2018. Disponível em: https://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/6169 Acesso 02 de maio de 2024.
» https://impactum-journals.uc.pt/rel/article/view/6169 -
ESCOURIDO, Sofia Madalena G. A página como possibilidade: Patrícia Portela, Joana Bértholo & Afonso Cruz, PhD Thesis, Coimbra University, 2020. Disponível em: http://hdl.handle.net/10316/94390 Acesso 02 de maio de 2024.
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FLETCHER, Lauren, & HOLYOKE, Erica. Reading the Word and World: Portrayals of Activism in Children's Literature. The Reading Teacher, v. 76, n. 6, pp. 713-723, 2023. D.O.I: https://doi.org/10.1002/trtr.219 Acesso 02 de maio de 2024.
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HOPKINSON, Amanda. Guises and Dolls: A Story of Art, Objects and Ideas, with a Language All Its Own. TLS. Times Literary Supplement, v. 6198, pp. 17-18, 2022. Disponível em: https://go.gale.com/ps/i.do?p=AONE&u=anon~5166c7c9&id=GALE%7CA691009515&v=2.1=r&sid=googleScholar&asid=8e560455 Acesso 02 de maio de 2024.
» https://go.gale.com/ps/i.do?p=AONE&u=anon~5166c7c9&id=GALE%7CA691009515&v=2.1=r&sid=googleScholar&asid=8e560455 -
MATHIS, Janelle B. Demonstrations of Agency in Contemporary International Children’s Literature: An Exploratory Critical Content Analysis Across Personal, Social, and Cultural Dimensions. Literacy Research and Instruction, v. 54, n. 3, pp. 206-230, 2015. D.O.I: https://doi.org/10.1080/19388071.2015.1027021 Acesso 02 de maio de 2024.
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NANCE-CARROLL, Niall. Children and Young People as Activist Authors. International Research in Children's Literature, v. 14, n. 1, pp. 6-21, 2021. Disponível em: https://www.euppublishing.com/doi/abs/10.3366/ircl.2021.0374?journalCode=ircl Acesso 02 de maio de 2024.
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NAVAS, Diana; RAMOS, Ana Margarida. Textos que se (des) constroem: metaficção e intertextualidade na ficção juvenil contemporânea. Acta Scientiarum. Language and Culture, v. 38, n. 3, pp. 223-232, 2016. D.O.I: https://doi.org/10.4025/actascilangcult.v38i3.31138 Acesso 02 de maio de 2024.
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- NØRGAARD, Nina. Multimodality and the Literary Text: Making Sense of Safran Foer’s ‘Extremely Loud and Incredibly Close’. In: New Perspectives on Narrative and Multimodality New York, London: Routledge Taylor & Francis Group, 2010. pp. 115-126.
- RAMOS, Ana Margarida. Hibridismos e contaminações: a propósito do livro-álbum como formato omnívoro. In: Mix & Match: Poéticas do Hibridismo Vila Nova de Famalicão: Húmus Editores, 2020a, pp. 173-194.
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RAMOS, Ana Margarida. Picturebook Format: Beyond the Relationship between Words and Pictures An Overview of the Portuguese Editorial Panorama. Libri & Liberi, v. 9, n. 1, pp. 61-64, 2020b. Disponível em: https://www.ceeol.com/search/article-detail?id=933083 Acesso 02 de maio de 2024.
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SADOKIERSKI, Zoë. Visual Writing: A Critique of Graphic Devices in Hybrid Novels from a Visual Communication Design Perspective PhD Thesis. University of Technology Sydney. 2010. Disponível em: https://opus.lib.uts.edu.au/handle/10453/20267 Acesso 02 de maio de 2024.
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TAFT, Jessica. K., & O'KANE, Claire. Questioning Children's Activism: What is New or Old in Theory and Practice?. Children & Society, v. 38, n. 3, pp. 744-758, 2024. D.O.I: https://doi.org/10.1111/chso.12742 Acesso 02 de maio de 2024.
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TSAPIV, Alla. Multimodal Imagery in Picture Books for Children. Cognition, Communication, Discourse, v. 25, pp. 80-88, 2022. D.O.I: https://doi.org/10.26565/2218-2926-2022-25-06 Acesso 02 de maio de 2024.
» https://doi.org/10.26565/2218-2926-2022-25-06
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Editores responsáveis
Adriana Pucci Penteado de Faria e SilvaBeth BraitBruna LopesMaria Helena Cruz PistoriPaulo Rogério StellaRegina Godinho de Alcântara
Parecer I
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer I
O trabalho apresentado, centrado no álbum A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), afigura-se como um importante e original contributo no estudo da obra de Afonso Cruz, autor literário reconhecido pela academia, que conta, ainda, com escassos estudos centrados nos seus significativos e premiados livros literários. O título escolhido é muitíssimo adequado face aos objetivos do artigo, que são claramente identificados e coerentes ao longo do desenvolvimento do texto. Apresenta um enquadramento teórico que se encontra cientificamente fundamentado, com nomes de autores de relevância. Pese embora, talvez, fosse interessante acrescentar alguns estudos atuais sobre o formato álbum e sobre a obra de Afonso Cruz como, como, por exemplo:
- Livro-objeto. Metaficção, hibridismo e intertextualidade (2022), coordenado por Ana Margarida Ramos
- O libro-obxecto: algunhas características e potencialidades para a educación literária (2021), Isabel Mociño-González. Tesede Doutoramento sobre Afonso Cruz: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/41783/1/ulfl276365_td.pdf
Os/As autores/as do texto demonstram um aprofundado conhecimento sobre o espólio de Afonso Cruz, pois, à medida que analisam o livro selecionado, vão tecendo comparações com o conjunto da sua obra, o que consubstancia, no seu todo, uma reflexão depurada sobre A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo). É um artigo consistente e pertinente, bem escrito, bem estruturado e com uma escolha cirúrgica dos subpontos que o compõem. Apresenta um elevado preciosismo linguístico, sem deixar de lado a clareza, a objetividade e o olhar crítico que se espera de um artigo científico desta natureza. Foram detetadas algumas, poucas, gralhas, embora não significativas no cômpito geral, as quais serão identificadas num documento que disponibilizaremos.
Apesar da boa qualidade do texto, por vezes há orações demasiado longas que poderão complicar a sua compreensão. Por fim, talvez fosse de considerar, no momento da análise, a inclusão de mais algumas ilustrações da obra. Além disso, a meu ver, a digitalização das imagens poderá funcionar melhor do que as fotografias disponibilizadas que, por vezes, não permitem uma boa visualização do conteúdo. Assim, e apesar das sugestões de melhoria, é um artículo de muita qualidade e relevância que, a meu ver, merece ser publicado na revista. APROVADO
- recomendação: aceitar
Parecer II
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSParecer II
O texto analisa o livro infantil, publicado inicialmente em Portugal em 2015, A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), de Afonso Cruz. A análise tem dois objetivos: 1) refletir sobre o formato híbrido e multimodal da obra, que inclui características dos géneros teatral/performativo, lírico e narrativo, combinando-as com elementos de outros discursos e artes; e 2) analisar o modo como promove e incentiva o ativismo infantil, voltado para mudar o mundo e seus valores. Pelo exposto, acredita-se que o texto em foco não é um artigo, mas uma resenha, cujos elementos são apresentação, descrição, avaliação e recomendação (ou não). O texto, inicialmente, apresenta o contexto editorial infantil lusitano, destacando os autores e autoras que produziram livros infantis ilustrados, depois se volta para a obra de Afonso Cruz. Do autor, o texto traz um panorama de suas obras e depois focaliza A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), ao qual direciona os elementos de uma resenha minuciosa, organizada e inspiradora. Adaptando os parâmetros propostos pela revista para o âmbito de uma resenha, o título é adequado ao teor do texto; seus objetivos estão explícitos e a bibliografia está atualizada e é relevante e pertinente para o tema; a reflexão, no âmbito de uma resenha, contribui para divulgar uma obra interessante, engajada e relevante no campo da literatura infantil; o texto é claro, correto, objetivo e didático, no sentido de que é um bom exemplar do seu gênero.
A meu ver, trata-se de uma resenha competente de um livro criativo, relevante e interessante que merece ser divulgado. Não conhecia o autor e sua obra e já sou testemunha dos efeitos positivos que uma resenha deve surtir. Gostaria de ressaltar a clareza e a organização do texto, bem como a pertinência das reflexões e a qualidade das ilustrações exemplificativas.
Por fim anotei alguns deslizes de digitação encontrados.
Trecho Sugestão/correção
p. 2 The current Portuguese literary scene for children and young adults it still dominated The current Portuguese literary scene for children and young adults is still dominated
p. 2 such as Alice Vieira, Ávaro Magalhães or António Mota, just to give some examples. such as Alice Vieira, Álvaro Magalhães or António Mota, just to give some examples.
APROVADO
- recomendação: aceitar
Review I
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSReview I
The presented work, focused on the book A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), represents a significant and original contribution to the study of Afonso Cruz’s oeuvre. Cruz, a literary author recognised by the academic community, has relatively few studies dedicated to his notable and award-winning literary works. The chosen title is highly appropriate given the objectives of the article, which are clearly identified and consistently pursued throughout the text. The article presents a theoretically robust framework supported by references to prominent authors. Nonetheless, it might be worthwhile to incorporate some current studies on the album format and Afonso Cruz’s work, such as:
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• Livro-objeto. Metaficção, hibridismo e intertextualidade [Book-Object. Metafiction, Hybridism and Intertextuality] (2022), edited by Ana Margarida Ramos
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• O libro-obxecto: algunhas características e potencialidades para a educación literária [The Book-Object: Some Characteristics and Potentialities to Literary Education](2021), Isabel Mociño-González
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• Doctoral thesis on Afonso Cruz: link to thesis
The authors of the text exhibit a deep knowledge of Afonso Cruz’s body of work, as they draw comparisons between the selected book and his broader oeuvre. This results in a refined reflection on The Children’s Crusade (Let’s Change the World). This is a consistent and relevant article, well-written, well-structured, and with a meticulous selection of subtopics. It displays an elevated linguistic precision while maintaining clarity, objectivity, and the critical insight expected from a scholarly article of this nature. A few minor typographical errors were detected, but they are not significant in the broader context. These will be identified in a document we will provide.
Despite the high quality of the text, some sentences are overly long, which could hinder comprehension. Finally, it might be worth considering the inclusion of additional illustrations from the work in the analysis. Moreover, digitalised images might be more effective than the provided photographs, which at times do not allow for a clear view of the content. In conclusion, despite the suggested improvements, this is a high-quality and highly relevant article that, in my opinion, deserves publication in the journal.
APPROVED
- recomendação: aceitar
Review II
Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGSReview II
The text analyses the children’s book A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo), originally published in Portugal in 2015 by Afonso Cruz. The analysis has two objectives: (1) to reflect on the hybrid and multimodal format of the work, which includes features of theatrical/performative, lyrical, and narrative genres, combining them with elements from other discourses and arts; and (2) to examine how it promotes and encourages children’s activism aimed at changing the world and its values. From this perspective, the text in question is not an article but a review, whose components include presentation, description, evaluation, and recommendation (or otherwise). Initially, the text situates the book within the Portuguese children’s publishing context, highlighting authors who have produced illustrated children’s books. It then focuses on Afonso Cruz’s oeuvre, providing an overview of his works before homing in on A cruzada das crianças (vamos mudar o mundo) and conducting a meticulous, well-organised, and inspiring review. Aligning with the journal’s parameters for reviews, the title is well-suited to the text’s content. Its objectives are explicit, and the bibliography is current, relevant, and pertinent to the topic. As a review, it contributes to the dissemination of an interesting, engaged, and significant work in the field of children’s literature. The text (as far as my English allows) is clear, correct, objective, and didactic, serving as an exemplary model of its genre.
In my opinion, this is a competent review of a creative, relevant, and intriguing book that deserves broader recognition. I was unfamiliar with the author and his work, and I can now attest to the positive impact a good review can have. I would like to highlight the clarity and organisation of the text, as well as the pertinence of the reflections and the quality of the illustrative examples.
Finally, I noted a few typographical errors:
Page 2:
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Original: The current Portuguese literary scene for children and young adults it still dominated
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Correction: The current Portuguese literary scene for children and young adults is still dominated
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Original: such as Alice Vieira, Ávaro Magalhães or António Mota, just to give some examples.
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Correction: such as Alice Vieira, Álvaro Magalhães or António Mota, just to give some examples.
APPROVED
- recomendação: aceitar








